Resenha: Flores tardias (Late bloomers), de Brendan Gill


Livro é uma coisa que me deixa muito feliz. Vou mostrar uma joinha que encontrei perdida “no tempo”.

Nunca é tarde para tentar, recomeçar, ir atrás do que você deseja, e digo sem hipocrisia, eu acredito mesmo nisto. Não existe uma idade determinada para as coisas acontecerem, cada sujeito é único e tem seu tempo próprio de acordo com as suas circunstâncias. Quer começar uma faculdade com 50 anos? Comece! Quer casar de véu e grinalda com 65? Case! Quer se divorciar com 70? Pois, faça! Quem leva em consideração tudo o que pensam os demais e não ouve a si mesmo, não consegue ser feliz.

Na literatura, há inúmeros autores que publicaram tarde e que encontraram tarde o amor. Exemplo: Mario Vargas Llosa terminou um casamento de cinquenta anos para recomeçar com um novo amor aos 79 anos. Está com quase 82 anos agora e feliz da vida. A vida é muito veloz… nosso único objetivo deveria ser a felicidade e não as convenções sociais e religiosas, que mudam com o tempo e são discutíveis. A felicidade não, ela é preciosa sempre.

Quero te deixar exemplos de grandes personalidades que não tiveram medo, não se conformaram por causa do tempo.

Encontrei um livro muito gostoso, “Late bloomers” (1996), escrito pelo jornalista e crítico de cinema e teatro, Brendan Gill (1914- 1997). Ele escreveu para a revista “The New Yorker” por mais de sessenta anos.

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“Late Bloomers”- “Flores tardias” (livre tradução, infelizmente, essa obra não foi traduzida ao português), reúne setenta e oito personalidades das Artes, Ciências e Letras que começaram tarde nos seus ofícios. Os textos vêm acompanhados de fotos.

O autor explica o termo. Existe uma metáfora estadunidense utilizada na botânica, “late bloomer”, para as flores que nascem no final da estação; o termo também é usado na Educação para alunos com problemas de aprendizagem, ou simplesmente, “alunos que não fizeram o que deveriam ter feito” (p.10). Gill aplicou o termo para grandes personalidades que, por motivos diversos, não tiveram a oportunidade de começar cedo. Vou listar alguns nomes de “late bloomers”, que já servem também como dica de leitura:

Miguel de Cervantes

Dispensa apresentações, não é? É o maior representante da literatura em espanhol.  Cervantes publicou tarde, porque sua vida foi uma verdadeira aventura, um milagre ter saído vivo. Era soldado, lutou na Batalha de Lepanto, foi ferido e preso na Argélia. Publicou a primeira parte de “Dom Quixote” em 1605, e a segunda, em 1615, quando tinha cinquenta e oito anos. Faleceu um ano depois.

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Daniel Defoe

Curiosa vida do escritor inglês Daniel Defoe (1660- 1731). Gill conta que o escritor de Robinson Crusoé vivia entre fracassos e sucessos, que era comerciante, vivia correndo dos cobradores e das ameaças de prisão. Era casado e teve sete filhos. Foi agente secreto e jornalista. Com essa profissão começou a publicar artigos. Mais tarde, perto dos sessenta, que descobriu uma forma diferente de escrever, o romance.

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Jonathan Swift 

Foi só com cinquenta e nove anos que o autor de “As viagens de Gulliver” ficou famoso. O irlandês Jonathan Swift (1667- 1745) era filho bastardo e viveu na infância com um tio bastante pobre. Foi padre, mas não celibatário, teve relacionamentos com duas mulheres. Morreu por causa do Alzheimer.

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Edith Wharton

A rica americana Edith Wharton (1862- 1937) nasceu Edith Newbold Jones, o Wharton era do marido, proprietário do Banco de Boston, Edward Wharton. O casamento acabou, porque o marido não lhe satisfazia sexualmente, além de ser infiel. Aos quarenta, Edith divorciou- se e foi para Londres, onde recuperou os anos perdidos, a sua vida amorosa parece ter sido bastante animada. Uma mulher livre, um grande feito naquele tempo.  Edith tinha uma mansão em Massachussetts e outra na França. A vocação como novelista apareceu tarde, mas antes era uma leitora voraz. Está enterrada em Paris.

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São muitos “late bloomers”, cito mais alguns: André kertész, um fotógrafo fantástico, já falei sobre ele aqui, clica; Paul Cézanne, pintor francês; o suiço Jean- Jacques Rosseau, escritor, filósofo, botânico, entre outros; a estilista francesa Coco ChanelIsaac Bashevis Singer, escritor polaco que ganhou o Nobel em 1978; o escritor polaco Joseph Conrad, considerado um dos maiores escritores da língua inglesa…

O incrível é que encontrei este livro em um sebo online por acaso, enquanto procurava outro livro. Inclusive deixo aqui o link do Iberlibros, que reúne várias livrarias de livros usados da Europa. “Late Bloomer” veio de uma livraria inglesa, “Better World Books”, e eu paguei só oitenta e cinco céntimos de euro! O livro veio novo, impecável, como se nunca tivesse sido lido e chegou rapidíssimo.

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Gill, Brendan, Late Bloomers, Artisan, New York, 1996.

Infelizmente, “Late bloomers” está esgotado, mas é possível encontrar alguns exemplares usados. Eu tive muita, mas muita sorte, vi na Amazon uma edição anterior com menos personalidades e sem capa dura por 799 euros! Mas eu achei uma edição igualzinha a minha por 15, 26 euros, corre que só tem um! Clica aqui.

“Late bloomers” foi publicada um ano antes da morte do autor. É uma obra inspiradora, Gill nos deixou um belo legado. Livros assim não podem morrer.

 

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Resenha: “O estrangeiro”, de Albert Camus


Essa é uma das leituras mais complicadas que já fiz. A análise não está completa, talvez nunca esteja, ainda estou pensando.

Depois de ter lido “A queda” e ter adorado, emendei com “O estrangeiro”, que é uma das obras mais conhecidas de Albert Camus. História complexa. Confesso que me faltam recursos “técnicos” em Psicologia para descrever a profundidade do personagem Meursault.

O livro é dividido em duas partes: a primeira nos conta quem é o personagem principal, suas relações, sentimentos e modo de vida; a segunda, as consequências do assassinato que cometeu.

Esse romance transcende tudo o que eu já li até agora, vai mais além do que eu conheço e entendo.  É uma parábola da condição do homem. Uma alegoria da fatalidade que resulta viver como se vive.

A história acontece na Argélia (terra natal do autor). Começa com a notícia do falecimento da mãe de Meursault comunicada através de um telegrama. Ele mora em Argel e a mãe em Marengo, distante duas horas. Ela morreu num asilo. Parece que a relação entre eles não era muito fluida, não se falavam todos os dias, ele não sabe ao certo o dia de sua morte. Assim começa o livro (p.11):

Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei. Recebi um telegrama do asilo: “Mãe falecida. Enterro amanhã. Sentido pêsames”. Nada quer dizer. Talvez foi ontem.

Parece frieza, mas quem era sua mãe? Cuidou dele ou o abandonou? Em um brevíssimo momento cita o seu pai, nunca o conheceu. Ele pagava o asilo para a mãe, não a deixou desamparada. Mas, dependendo da sua visão do mundo, se tem a sua mãe em um pedestal e a considera um ser santificado, vai julgar e condenar Meursault como a maioria faz. Asilo virou sinônimo de coisa ruim, abandono, descaso, mesmo que a pessoa esteja sendo muito bem tratada, cuidada e amada. Camus era inteligentíssimo. “Brincou” com muitos dos pré- conceitos das pessoas.

Mersault é um ser racional, que aceita sem dramas as coisas ruins da vida. As boas, tampouco lhe emocionam. Um ser que parece carecer de sangue nas veias, mas isso tudo tem a ver com a verdade. Ele não teatraliza a sua existência.

No dia do velório da mãe, ele pensa em coisas triviais, a hora que vai pegar o ônibus, pensa no chefe que o dispensou do trabalho com má vontade e nem sequer deu os pêsames. Ele resolve essas coisas, viaja, almoça, com uma sensação de não acreditar ainda na morte de sua mãe. Pode ser um mecanismo de defesa, a negação. Quando você não pensa em algo, ela não existe.

A mãe estava há três anos no asilo. A relação entre eles era incômoda, não tinham assunto. Ela gostava de ficar no asilo, estava adaptada e tinha até um namorado.

Durante o processo judicial Meursault sofreu um julgamento paralelo mais forte em relação a sua mãe, do que o do assassinato do árabe. O crime não foi premeditado, foi em legítima defesa. Meursault foi ofuscado pelo sol na praia e disparou mais tiros do que os necessários. Mas ele já estava condenado antes de ser julgado.

Muitas resenhas por aí dizem que o protagonista é frio e que não ligou para a morte da mãe. Isso é ter lido O estrangeiro muito superficialmente, não leu as entrelinhas, não interpretou e isso é o mais importante de uma obra literária. Ler ao pé- da- letra não é ler.  Nem sei se vou conseguir me fazer entender aqui, mas sei que não foi simplesmente frieza.

Pensei em muitas coisas, até em sociopatia e psicopatia, no final, mas ainda refletindo, creio que Meursault é o mais equilibrado dos personagens, pelo menos age de acordo com o que pensa e sente, não como a maioria das pessoas na vida mesmo. Ser verdadeiro é coisa muito mal vista, todos estão para as aparências e para agradar os demais, não? Meursault é um símbolo de algo maior. A liberdade? A clareza, a sinceridade?

Não tenho capacidade para adivinhar o que quis dizer Camus com esse personagem, mas vou dar a minha opinião: todos somos Meursault. Quantas vezes você sorriu sem vontade? Fez muitas coisas sem vontade, porque era o estabelecido, você não tem liberdade de ser quem quer, quem é, por causa de regras sociais de conduta. Quantas vezes esteve com pessoas e lugares que não queria estar? Muitas, não? A diferença é que  Meursault não faz isso, ele nos revela atos e verdades incômodas, consegue ser livre dentro da prisão que é o viver. Isso fica bem claro no final. Na prisão, mas livre.

A linha entre ser “uma pessoa normal” e um assassino é muito sutil. Se você tem uma arma na mão e uma pessoa quer te machucar, porque já te machucou antes…se ela viesse na sua direção com uma faca, o que você faria? Esperaria ser esfaqueado ou atiraria na pessoa?

Não o condenaram pelo ato de matar alguém, mas por quem ele aparentava ser durante a sua vida. Foi julgado até por ter tomado um café- com- leite no velório da sua mãe e por não ter chorado. Por ter ido à praia e ao cinema com a sua namorada no dia seguinte. Tudo isso o condenou.

Tudo o que você pensa é bom? Você, leitor, também julgou Mersault.

Analise os seus pensamentos e ações e veja o quanto de Meursault existe em você. Ainda bem que o pensamento é livre, senão estaríamos todos, eu digo todos, condenados.

Quando você não demonstrar algo que a sociedade espera, será esmagado. Continue fingindo. Meursault é inocente. Ou somos todos culpados?

Leia  e coloque o personagem no banco dos réus. Brinque de juiz.

A edição espanhola lida:

13418727_619713974850833_7974081358851172287_nCamus, Albert. El extranjero. Alianza Editorial, Madrid, 2015. Páginas: 122