O dia em que eu aprendi a ler


Lembro exatamente do dia em que aprendi a ler, ou melhor: lembro do dia que descobri que sabia ler, porque a alfabetização é um processo. Você lembra quando percebeu que já sabia ler?

Eu devia ter seis anos. O trajeto de ônibus da Vila Mangalot até a Vila Mariana parecia não ter fim. O cheiro do diesel queimado, o sacolejo, a monotonia, me provocavam um grande mal estar. Depois de quase duas horas, chegava esverdeada na casa da tia Norma. “Vai brincar que passa”, minha mãe dizia. Ela tinha razão. A brincadeira com os meus primos (três e mais a minha irmã) distraía- me do enjoo, logo já estava correndo e aprontando.

Escola municipal nos anos 80 em São Paulo, obrigava as crianças a entrarem no pré- primário com seis anos completos. E como faço aniversário em agosto, no início do ano não me deixaram, porque tinha cinco. Tive que esperar um ano, completar seis em 1978,  e assim, ansiosíssima, entrar na escola. O uniforme, composto por uma camiseta branca, shorts, conga e boné vermelhos, além de uma sacolinha de pano azul com meu nome bordado pela minha mãe,  ficaram velhos de tanto que vesti antes de começarem as aulas.

Ir para a escola foi uma das maiores alegrias da minha vida. No primeiro dia de aula, eu não chorei, não pedi para minha mãe ficar, sentei numa das quatro cadeirinhas da mesa, disse tchau pra mãe e esqueci do mundo. Minha atenção era absoluta em tudo o que a professora, a tia Áurea, falava. Lembro do seu perfume, do seu rosto e do seu abraço. Ela era brava com os meninos, mas nunca gritou comigo, ao contrário, ela lembrava a minha mãe. Dos janelões da minha sala que ficava no alto, eu conseguia ver a minha casa. Eu me imaginava dando um pulo voador até o meu quintal. Desses mesmos janelões vi uma das coisas mais incríveis da minha curta vida: um eclipse solar. A noite engoliu o dia, alguns colegas começaram a chorar, outros a rir e eu pensei que era um ataque alienígena.

E assim eram os meus dias na escola, cheios de imaginação e descobertas. Em casa, eu era muito brincalhona e desordenada; na escola, eu era a seriedade em pessoa.

Minha irmã estudava na sala vizinha, ela era gigante. Quando eu passava com a fila pela porta da sua sala, sempre dava tchau e a via sorrir. Era muito legal ter uma irmã na quarta série.

A minha memória remota é fotográfica. Lembro de muitas tarefas que fazia com seis anos no Jairo Ramos. Uma folha de papel sulfite, um boneco desenhado e desmembrado e o cheiro de álcool. Primeiro, a pintura sem sair das linhas; depois, o recorte com a tesourinha sem pontas e logo, a cola branca para o boneco ganhar vida com seus membros no devido lugar. Meu amigo Rogério uma vez colou as pernas com os pés para dentro. Vi da minha mesa, avisei, mas já estava colado. Ele teve que entregar na mesa da professora e levou uma bronca. Lembra, Rogério? Rogério é meu amigo até hoje. Ele dançou comigo no São João e eu achava lindo aquele menino de olhos azuis. Como Deus conseguia pintar olhos coloridos e por que os meus eram pretos? Ficava intrigada. Os olhos dos meus bonecos sempre eram pintados de azul.

Na volta da casa da tia Norma, meu pai sempre ia nos buscar. Assim era muito mais legal, eu não ficava enjoada. Minha irmã e eu, íamos no bagageiro da Variant fazendo gestos para os carros que passavam. Quando algum motorista retribuía, a gente caía na gargalhada. Meu pai era muito engraçado, contava piadas e minha mãe soltava gargalhadas. A vida era doce.

Numa dessas voltas da Vila Mariana até Pirituba, comecei a prestar atenção nas placas dos comércios. Que estranho. Eu sabia o que diziam, pareciam um desenho, que eu olhava e já sabia o que dizia, não tinha que ficar juntando letras. O significado vinha, pum! Inteirinho. O meu espanto foi tão grande, que fiquei calada até comprovar. Li uma placa, mais outra e soltei um grito: “mãe, eu sei ler!”. Minha irmã duvidou e mandou eu ler mais coisas. Eu li tudinho. Um mundo inteiro se abriu, comecei a entender tudo nas ruas, completamente abismada. Fui lendo as placas até chegar em casa sem acreditar que tinha acontecido aquela coisa tão espetacular.

E essas são as fotos do ano em que eu aprendi a ler na escola. A festa de São João que eu dancei com Rogério e na formatura do prezinho. A tia Áurea me disse: “não se preocupa com o chapéu que não cai”. E foi assim, há 39 anos, quando eu descobri que sabia ler. Obrigada sempre, tia Áurea, e nesse Dia Internacional das Mulheres!

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Adeus, Carlos Heitor Cony


Faleceu na noite de ontem no Rio de Janeiro, o cronista e imortal Carlos Heitor Cony, aos 91 anos. Ele passou por uma cirurgia no intestino e faleceu por causa de uma infecção generalizada. A notícia foi divulgada hoje pela Academia Brasileira de Letras:

O Acadêmico, jornalista e escritor Carlos Heitor Cony morreu, vítima de falência múltipla de órgãos, ontem, dia 5 de janeiro, sexta-feira, às 23 horas, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), do Hospital Samaritano, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, onde estava internado.

Assim que foi informado do falecimento de Carlos Heitor Cony, Marco Lucchesi determinou o cumprimento de luto de três dias e que a bandeira da Academia fosse hasteada a meio mastro. E complementou: “Carlos Heitor Cony integra a família dos grandes escritores do século XX. Criou um continente literário fascinante, sagaz, imprevisível. Homem de vasta cultura, jamais se desligou do presente, do Brasil e do mundo. Quase memória é um de seus livros mais visitados e redesenha a figura do pai na literatura brasileira”.

Quinto ocupante da Cadeira nº 3, eleito em 23 de março de 2000, na sucessão de Herberto Sales e recebido em 31 de maio de 2000 pelo Acadêmico Arnaldo Niskier, Carlos Heitor Cony foi redator da Rádio Jornal do Brasil. De 1958 a 1960, tornou-se um dos jovens escritores que colaboram no SDJB (Suplemento Dominical do Jornal do Brasil), com contos, ensaios, traduções. Em 1961, começou a trabalhar no Correio da Manhã, do qual foi redator, cronista, editorialista e editor.

Colaborou por mais de 30 anos na revista Manchete e dirigiu Fatos & Fotos, Desfile, Ele Ela. De 1985 a 1990, foi diretor de Teledramaturgia da Rede Manchete, produzindo e escrevendo sinopses das novelas A Marquesa de Santos, D. Beja, Kananga do Japão. Em 1993, substituiu Otto Lara Resende na crônica diária do jornal Folha de S. Paulo, da qual era membro do Conselho Editorial. Foi comentarista diário da CBN, participando do Grande Jornal com o programa “Liberdade de Expressão”.

Entre seus prêmios estão: o Prêmio Manuel Antônio de Almeida, com os romances A Verdade de Cada Dia, em 1957, e Tijolo de Segurança, em 1958; Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra, em 1996; Prêmio Jabuti de 1996, da Câmara Brasileira do Livro, pelo romance Quase Memória; Prêmio Nacional Nestlé de Literatura, de 1997, pelo romance O Piano e a Orquestra; Prêmio Jabuti de 1997, pelo romance A Casa do Poeta Trágico; Prêmio Jabuti 2000, concedido ao Romance sem Palavras; Os romances Quase Memória e A Casa do Poeta Trágico ganharam o Prêmio “Livro do Ano”, em 1996 e 1997, conferido pela Câmara Brasileira do Livro.

Carlos Heitor Cony (Foto: Folha de São Paulo)

Carlos Heitor Cony (Foto: Folha de São Paulo)

O escritor Antônio Torres lamentou a morte do amigo no Facebook:

Ah, a falta que o Cony já me faz. Grande escritor, grande amigo, grande companheiro de viagens e palestras (Paris, Natal, Guadalajara, Rio), sempre levantando as plateias com tiradas como esta: “O otimista é um mal-informado”. Em tudo que escreveu, deu um fino trato à última flor do Lácio, de que é exemplo a crônica abaixo, extraída do livro “Os anos mais antigos do passado”, publicado pela Record.


Abaixo, a última crônica de Cony no jornal Folha de São Paulo (31/12/2017). Bela e triste, parece mesmo uma despedida.

Uma carta e o Natal

Este será o primeiro Natal que enfrentaremos, pródigos e lúcidos. Até o ano passado conseguimos manter o mistério —e eu amava o brilho de teus olhos quando, manhã ainda, vinhas cambaleando de sono em busca da árvore que durante a noite brotara embrulhos e coisas. Havia um rito complicado e que começava na véspera, quando eu te mostrava a estrela onde Papai Noel viria, com seu trenó e suas renas, abarrotado de brinquedos e presentes.

Tu ias dormir e eu velava para que dormisses bem e profundamente. Tua irmã, embora menor, creio que ela me embromava: na realidade, ela já devia pressentir que Papai Noel era um mito que nós fazíamos força para manter em nós mesmos. Ela não fazia força para isso, e desde que a árvore amanhecesse florida de pacotes e coisas, tudo dava na mesma. Contigo era diferente. Tu realmente acreditavas em mim e em Papai Noel.

Na escola te corromperam. Disseram que Papai Noel era eu —e eu nem posso repelir a infâmia e o falso testemunho. De qualquer forma, pediste um acordeão e uma caneta— e fomos juntos, de mãos dadas, escolher o acordeão.

O acordeão veio logo, e hoje, quando o encontrar na árvore, já vai saber o preço, o prazo de garantia, o fabricante. Não será o mágico brinquedo de outros Natais.

Quanto à caneta, também a compramos juntos. Escolheste a cor e o modelo, e abasteceste de tinta, para “já estar pronta” no dia de Natal. Sim, a caneta estava pronta. Arrumamos juntos os presentes em volta da árvore. Foste dormir, eu quedei sozinho e desesperado.

E apanhei a caneta. Escrevi isto. Não sei, ainda, se deixarei esta carta junto com os demais brinquedos. Porque nisso tudo o mais roubado fui eu. Meu Natal acabou e é triste a gente não poder mais dar água a um velhinho cansado das chaminés e tetos do mundo.

 

O encantador de pássaros


A observação de pássaros remonta à Idade da Pedra. Os homens pré- históricos desenhavam aves nas cavernas demonstrando assim, o seu interesse e fascínio por esses animais deixando gravados seus dados empíricos. Aristóteles, 350 a.C., possivelmente, tenha sido o primeiro ornitólogo da humanidade. Os ornitólogos e os poetas, veja Manoel de Barros, encarregam- se de estudar o comportamento dos pássaros. Mas hoje, um homem é que foi observado.

Madri é uma cidade encantadora no outono. A estação começa em meados de setembro, mas é só em novembro que as folhas começam a cair formando um tapete amarelinho, amarelinho. E essa paisagem convida- me a dar longos passeios pelo Parque do Retiro, que fica no centro da cidade. O parque é um remanso de paz, é como cruzar para outra dimensão, esqueço dos barulhos da cidade.

Costumo ir de ônibus, a linha 146, e desço na Calle Alcalá. Frequento a biblioteca que fica dentro do Retiro. Tenho que cruzar metade do parque até chegar ao meu destino.

No caminho, encontrei um senhor carregando uma sacola de supermercado cheia de migalhas de pão. Ele andava rápido, ia jogando o pão e uma revoada de pássaros o seguia; vez por outra, parava e alguns pássaros comiam diretamente da palma de sua mão.

Pintassilgos, alvéolas- brancas e estorninhos, muito comuns na Europa, periquitos, pardais e pombas, esses todo mundo conhece no Brasil, todos sob a batuta do homem. Os pássaros dançavam, o homem e sua orquestra de pássaros. Era um tal de piu, piu, gru gru, crá crá, aquela algazarra.

Eu fui andando atrás, incrédula, tentando não fazer ruído para não espantar a orquestra. Os pássaros seguiam o homem, sem medo, pareciam íntimos, um diálogo muito fluido interespécies.  Os que não voavam, caminhavam atrás do homem, tal como o Flautista de Hamelin faz com os ratos, só que com finalidades bem diferentes. Tive a certeza que, enquanto aquele senhor viver, os pássaros têm em quem confiar.

O mundo é mágico sim, Rosa. Só que, perdoe- me um adendo: algumas pessoas ficam encantadas enquanto vivas também. Hoje eu conheci o Encantador de Pássaros e eu tenho a prova:

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O dia em que eu encontrei Nélida Piñón


Os hablo como una escritora al servicio de la memoria brasileña (…) (Nélida Piñón, in “La épica del corazón”)

A minha vida é comum, mas, de vez em quando, acontece algo surpreendente. Há cinco dias recebi um convite pra lá de especial, um encontro em Madri com a grande Nélida Piñón!

Sinceramente, achei que nem iria acontecer. Uma escritora com muitos compromissos importantes, consagrada (a melhor do Brasil, na minha opinião), imortal da Academia Brasileira de Letras, prêmio Príncipe de Astúrias na Espanha, entre muitos outros, pessoa acostumada a conviver com artistas, outros grandes escritores, jornalistas do mundo todo e de grandes meios de comunicação, outras gentes poderosas, inclusive da realeza… que interesse a Nélida poderia ter em conhecer- me? “Por isso mesmo”, pensei. Justamente por eu ser uma pessoa comum. Nélida é uma grande escritora, as pessoas são o seu objeto de trabalho, ela precisa estar com gente de todas as classes e feitios. Além do mais, os escritores conseguem enxergar além, fazem leituras mais profundas das pessoas.

Nélida, assim como outros bons autores, recolhem os testemunhos da nossa era. Aprisionam nessa cápsula do tempo chamada “literatura” o que somos e repassarão as nossas vozes ao futuro, principalmente quando não estivermos mais aqui. Eis o sentido real da imortalidade.

O encontro aconteceu sim. Nélida, além de ter palavra, é muito pontual.

É bem verdade que já tive um contato anterior com a autora há dois anos, quando fui editora da Revista BrazilcomZ (cessada temporariamente, no ano que vem voltará com tudo). A entrevista (escrita) foi belíssima, uma aula magistral de literatura. Vou postá- la aqui no blog nos próximos dias. 

Enfim, o encontro aconteceu no Palace Hotel de Madri,  pertinho do Museu do Prado e do Museu Thyssen, o quarteirão de ouro das Artes em Madri, na quarta passada, 22 de novembro.

Eu sou atrapalhada, constantemente acontecem situações que constrangeriam a maioria, mas como são tão comuns comigo, simplesmente as ignoro ou as trato com humor. Nélida enviou- me uma mensagem no WhatsApp, que me “esperaria sentada na ‘rotonda’ do Hotel às 16:30h”. Em frente ao Palace há uma ‘rotonda’ (rótula, como se fala em muitos lugares do Brasil) de frente à fachada do hotel; nela, está a Fonte de Netuno, onde acontecem as comemorações dos torcedores do Atlético de Madri, quando o time vence algum jogo.

Cheguei às 15:55h e fiquei diante do hotel esperando o horário combinado. “Muito estranho”, pensei. Andei pra lá e pra cá, nervosa. “Banco, que banco?”. Não havia. “Será que é do outro lado?”. No lado oposto do Palace fica o Ritz, lá sim tem alguns bancos. Quando deu 16:20h, escrevi para Nélida: “Eu estou esperando na ‘rotonda’, mas não vejo nenhum banco”. E Nélida (eu pude sentir o seu sorriso), “não, querida, a ‘rotonda’ fica dentro do hotel, já estou aqui”. Fernanda sendo Fernanda. Primeiro fora da tarde, será que viriam outros?

Subo para o hotel. Na recepção, aquela típica figura clássica de hotéis de luxo, um senhor uniformizado, aquele que recebe clientes, carrega suas malas e atende os mais variados e exóticos pedidos. Na Espanha é chamado de “conserje”. O conserje me indicou onde ficava a “rotonda”. Nesse momento, nem prestei atenção em quem estava no local e como era o ambiente. Passei o olho na enorme sala circular, com um belíssimo vitral no teto, observado só mais tarde, e vi Nélida Piñón sozinha numa mesa.

Amigos, “Rotonda” é um restaurante que fica dentro do Palace. Até então, eu não sabia que estaria a sós com Nélida, a escritora que admiro desde sempre. “A república dos sonhos” é um dos meus livros favoritos, é uma obra- prima, um livro difícil de ser escrito, um trabalho precioso de arte literária. Aqui tem a resenha, leia.

Na noite anterior, mal havia dormido imaginando que tipo de encontro seria.  Achei que seria algo coletivo com outros bloggers, jornalistas, leitores, admiradores, não sei. Mas não, eu tive praticamente uma tarde inteira de Nélida Piñón só para mim. Lembrando que as tardes na Espanha duram até às 20h. 

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Nélida Piñón no Hotel Palace em Madri, 22/11/2017 (Foto: Fernanda Sampaio Carneiro)

A dama Nélida Piñón levantou- se para me receber. Já nos primeiros minutos, todo o meu nervosismo desapareceu, ela deixou- me completamente à vontade. Convidou- me para um café e falamos de assuntos muito variados. Deixei- me conduzir, costumo ser tagarela, mas dessa vez queria só ouvir, aprender.

Nélida é elegante, alegre, falante, vital. Uma mulher rica de experiências e  ideias. É um ser que inspira, que nos enriquece. Confesso que, por duas vezes, caíram lágrimas. O outro fora da tarde? Senti- me acolhida, como se já a conhecesse há anos. Perguntou- me muitas coisas, interessou- se por minha vida.

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Selfie: Fernanda Sampaio e Nélida Piñón no Palace em Madri, 22/11/2017

Nélida irá à Lisboa para uma temporada no ano que vem. Pretende escrever um novo livro. Será uma espécie de “República dos sonhos” ao contrário? Neste, ela conta a história de galegos que imigraram ao Brasil, fato que aconteceu com sua própria família. Nélida é filha de espanhóis da Galiza. Essa nova obra será a história do êxodo brasileiro à Europa? Não tenho ideia, é só um palpite, vamos aguardar!

Sobre escritores e escritoras no Brasil, Nélida considera o trato desigual. O protagonismo feminino é bem menor, como se o que escrevessem tivesse menos importância. Essa última consideração, já minha. Temos que lutar pela igualdade de condições também nesse âmbito; aliás, em todos, editorial, acadêmico, trabalhista. Há muito machismo na área de Letras. Nos cursos universitários os homens são a minoria, mas sempre têm vagas, praticamente garantidas, no ensino superior. Ninguém repara nisto?! 

Voltando ao encontro. Também demos um pequeno passeio caminhando por Madri. Surreal. Que honra, que prazer!

Eu tenho quase a obra toda da autora, mas só levei dois livros para serem autografados, com medo de abusar de sua boa vontade. Serão mostrados na altura que postar as resenhas.

Na Espanha, saiu o mês passado pela editora Alfaguara o“La épica del corazón” você pode ver também outros títulos da autora aqui. É o “Filhos da América” editado no Brasil pela Record, quem quiser comprar, clica aqui. Na Espanha, o nome ficou bem diferente. É um livro interessantíssimo, estou louca para terminar e contar aqui para vocês!

Bem, pessoal, esse dia foi marcante e muito feliz! Cada um com sua emoção, não é? Cada qual com os seus ídolos. Essa experiência tão intensa pra mim, possivelmente tenha mudado algo muito importante no meu interior. Sinto- me com mais coragem para fazer coisas que antes não tinha. Esse é o alcance que um ser humano pode ter em outro: o de modificar vidas só com a palavra, a atenção, o afeto e a amizade. Cultivemos, pois!

À Nélida, gratidão! 

Crítica: O fundo do poço ou a mediocridade do mercado editorial


Por Gerson de Almeida, colaborador

Já queria ter escrito este comentário há mais tempo, hoje ele pode soar deslocado de sua cronologia, mas, se analisarmos o presente e pensarmos no futuro prometido, estará calcado na trilha fulcrada pelos passos que damos agora. Vou escapar do tom amedrontador e escatológico, porém não tem como fugir à face real do drama.

Tinha visto uma reportagem sobre a Bienal do Livro de São Paulo deste ano, que terminou no inicio do mês, a qual sempre quis comparecer pelos mais variados motivos, além da paixão por livros e literatura, e caí num desânimo estarrecedor. Na mesa principal falaria sobre literatura a youtuber Tatiana Feltrin e, em outras, Kéfera e Jout Jout. De início achei que fosse piada, ainda que estas duas últimas falassem ao público adolescente, ou seja: bando de desmiolados – não excluo o fato de que fui adolescente, mas na minha época eu idolatrava Cérebro, o rato mais inteligente do mundo.

Dirão que sou preconceituoso, fico com a resposta-pergunta de mestre Badu: quem não é (e creia: não há ninguém mais preconceituoso do que o não-preconceituoso)? O negócio é reconhecer e impor-se limites, no entanto até as cotias em fuga têm seu instante de perdigueiro, não dá pra se calar o tempo todo. Como, numa bienal que tem lugar na maior capital do país e noticiada no mundo inteiro, tendo nomes como Lygia Fagundes Telles, indicada ao Nobel, que tem Rubem Fonseca ativo, Ignácio de Loyola Brandão em plena atividade, Tatiana Feltrin venha falar de/sobre literatura e, além de ter crédito, o que já é uma catástrofe, venha se impor com autoridade no assunto (o que nos mostra o fundo do poço)? Dirão também que ela fala sobre os clássicos numa linguagem acessível, tá bem. E quando o ouvinte chegar à leitura de fato, não vai se defrontar com o trunco do clássico? Não se deve medir sua dificuldade com a régua alheia, o resultado é…?

Digamos que na leitura de um clássico ela diga que tal história caberia em 150 páginas e que as 600 do original são desperdício, essa afirmação se calca como verdadeira? Deixar que simples atores do Youtube fale da produção artística de um país, e de outros num palco à vista de tantas figuras de peso, deveria ser visto com assombro – e não assistido como progresso das artes e das letras em linguagem rastaquera. É como se em plena final da Copa, tendo Pelé a plenos pulmões, confiássemos os canarinhos a um palhaço cego com pernas de pau.

Vejo vídeos e entrevistas de literatos e teóricos da literatura, estes, embora todo teórico brasileiro tenha queda pela comicidade de Marx (e não é o Groucho), são bem mais interessantes. Os vídeos da Feltrin não chegam nem a serem forçados, são comentários de alguém que se impressiona, ou não, com determinada leitura, e nisso não vai nada de novo ou inusitado. Acontece a qualquer um. Tem um vlogger que é mil e uma vezes mais interessante do que ela, mas não tem apelo, não tem aquela coisa “fofa”, não inspira comentários bonitinhos. Este sim, apesar dos lugares-comuns aos quais ninguém está escapo, faz análises mais contundentes, com profundidade, atado à obra e autor: O Lugar do Livro. Vi alguns vídeos dele e o cara aparece pela obrigação de dar a cara à tapa. Feltrin faz meme o tempo todo e quando se mete a comentar o nível dos originais para a tradução em português é um desastre. Como professora, de sabe-Deus-o-quê, e tradutora não deveria esquecer a máxima: traduttore, traditore.

Quanto a Jout Jout e Kéfera, que dizer? Eis o motivo destas linhas. Come on!

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No único dia em que fui à Feira de Jaraguá vi, na maioria dos estandes, livros destas duas bestas anunciantes do Apocalipse, na estante principal! Não foi o pior: livros lançados pela Cia das Letras. Que porra é essa?! E nesse exato momento tem algum escritor em algum canto sentado com meu grito abafado e sua obra bem-feita engavetada. Já estamos no fundo do poço, tem muita gente aqui e agora querem que bebamos a água. Uma gota para cada e mais da metade morrerá de sede.

Jout Jout é caso diagnosticado de esquisitice+traumas+qualquercoisa, e isso foge à minha pobre alçada. E o adolescente que lê Kéfera, vai produzir o quê, mental e cotidianamente? A resposta tem cinco letras, isso mesmo: merda.

Assim teóricos e literatos de todas as castas e cores, leitores de todos os nichos, chiqueiros, classes, redutos e botequins, escritores consagrados e engavetados – uni-vos! Toda vossa existência depende do passo que dás agora.

Como escrever? O processo de escritura criativa


Como escrever?

Por Rômulo Pessanha, colaborador

Fiz- me essa pergunta e imaginei- me caminhando numa rua de um lugar desconhecido, mas desconhecido porque ficcional. Escrever é como imaginar que uma vida nova está se tornando uma realidade.

A pergunta contém a resposta: como escrever? É o como escrever.

Percorri então a rua: era eu, único que ditava o ritmo de toda a situação. Assim supunha. Através de minha imaginação a rua ganhava mais e mais passantes, andarilhos e personagens desconhecidos, transeuntes e figurantes para uma vida que julgamos que somos, cada um de nós, protagonistas de uma longa história fictícia?, sem fim.

A rua ainda sem cor ganhava alguma tonalidade negra. Estava ficando boa e tudo estava ficando perfeito e quando percebi, reparei que outras vozes também queriam falar: eram outros personagens que surgiam no caminho.

Sendo eu quem dá as regras do jogo, cada um poderia ter sua existência confirmada ou negada. Os personagens precisamente deviam estar ali para serem cúmplices de um ato de existir e não meramente rebeldes sem causa e se rebeldes fossem, melhores ainda seriam tanto a história como os personagens.

Uma personagem surgiu de repente. Seus olhos negros, cabelos negros que continha algum fio ou outro de cabelo branco, pele branca, lábios pálidos, mas que me provocavam atração como o imã atrai o metal, ela era rebelde, eu queria ser seu súdito. Ainda seu corpo, magro, lembrava vela acesa e que a luz era calor transmitido a mim diretamente só pelo olhar que me endereçava. Andava até a mim, conversávamos um pouco e pelos gestos e palavras suas sempre dizia não, não ao que dizia eu com minhas atitudes de apaixonado, palavras que não são ditas nem escritas, mas que podem ser lidas no corpo, sem embargo, de tudo em mim dizer sim, ela era sempre o não.

Sim e não se atraem, porque se anulam. Não há resistência e tudo pode fluir perfeitamente como na imaginação daquele que vive um sonho bom, assim é viver um grande amor ainda que inventado pela imaginação devaneante, nada melhor do que viver imaginando do que imaginar viver um grande espetáculo.

Escrever deve ser algo que penso dizer ou que digo enquanto penso. Quando escrevo penso que estou a pensar o que estou a escrever, ou, que por já ter pensado me pus a escrever. Escrever é sempre o registro de algo passado e acontecido e que futuramente nos tornará realizado, pois esse fazer, de palavrear num papel é manter acesa nossa luz no mundo sem que ela esmaeça e se apague por ter tremeluzido. Luz forte como sol, a minha língua renasce sempre mais forte, cada dia, luminoso arrebol.

Queria então que a misteriosa moça passasse a escrever toda minha vida. Desejava mesmo que minha vida fosse reescrita por completo, mas ela parecia não aceitar a tarefa. Então desejei que essa personagem sumisse de meu pensamento, na minha história mando eu.

Ela não ia embora e entre uma esquina e outra, novamente surgia e também ao fim de uma estrada ou de uma rua sem saída ela, sempre ela, inominável desejo que insiste em fazer parte do que crio mesmo sem ter sido chamada.

Ela era a página para cada nova história que eu criava, meu desejo de possuí-la era para também registrá-la em meu corpo arenoso e evanescente de memória, cada grão de areia um acontecimento longínquo. Como pode a nossa criação tomar juízos e nos desobedecer? É porque ela não sabe que foi inventada por mim ou talvez ela tenha inventado o amor e colocou no meu coração. Eu, apaixonado, coloquei tudo no papel. A mesma coisa que fazê-la interpretar o papel que lhe dei, ela age assim personalíssima sempre contraditória ao que digo. Se eu falo sim, ela diz não. Outra página em branco e outra vez ela retorna, mas para quê? Talvez já não seja ela, a paixão de fato, mas a loucura insana da criação decadente e terrena que não vislumbra teor de vida no lugar que paira ideias. Assim é a vida, página em branco para preencher, num corpo vermelho de paixão, inspiração, oxigênio da alma, quando escreve, sangue, a alma falando ao corpo seu desejo.

Na minha filosofia, a minha razão. Na minha vida, e na falta dessa racionalidade, tudo que for sem razão deverá fazer parte de um raciocínio maior: acrescente um pouco mais de chocolate ao leite diante de uma tela impressa com texto, ou como uma tela, o texto, ou o livro, e dirá você meu leitor, que delícia é isto, pois eu também lhe digo que fazer você ler isso e fazer seu pensamento dizer o que digo e imaginar o que eu imagino, só que à sua maneira e modo é que é para mim, grande delícia, prazer saboroso.

Assim deve ser escrever, desejo selvagem e indomável, víbora venenosa essa a do escrever, cavalo que não se deixa montar e veloz e furioso corre e foge se transformando em altaneiro pássaro anunciando que o amor é livre expressão do que sonha a alma e do que deseja o corpo: ser aprisionado pelas palavras de amor quando se está amando livremente e a declaração de amor que ganho a cada página que escrevo, como nova possibilidade de amar.

Rio de Janeiro, 18 de junho de 2016.

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