Exclusivo para o Falando em Literatura: Lúcio Autran


O escritor Lúcio Autran (Rio de Janeiro, 1957) é poeta e filho do grande e saudoso Autran Dourado (Patos de Minas, 18/01/1926 – Rio de Janeiro, 30/09/2012). Lúcio escreveu este artigo, “Práticas  editoriais no Brasil: no fio da inconstitucionalidade e da ilegalidade”, extremamente necessário, uma chamada de atenção sobre a edição no Brasil. Qual o seu poder, direitos, deveres e conduta?


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Lúcio Autran na Espanha há seis anos (Arquivo do autor)

Você sabia que as editoras não pagam impostos, têm isenção fiscal, mas não estão cumprindo suficientemente bem com o seu papel, o retorno social que tal isenção lhes obriga?  Leia:


PRÁTICAS EDITORIAIS NO BRASIL: NO FIO DA INCONSTITUCIONALIDADE E DA ILEGALIDADE

Tratarei de um tema que, no Brasil, embora pouco falado, bem menos do que mereceria, tem se limitado ao terreno da ética ou mesmo da boa vontade do chamado “mercado editorial”. Todavia, pretendo dar aqui um enfoque com alguns fundamentos jurídicos, para um maior questionamento institucional e subsídios para um discurso mais consciente e consistente.

Como é assunto que não interessa apenas à chamada “comunidade jurídica”, advogados e estudantes, mas a escritores, poetas, leitores e todos aqueles que se interessam por literatura e artes em geral, não publicarei apenas no blog que ora inauguro, voltado para aquela área, mas também no que escrevo, mais direcionado para a poesia e para a ensaística (ah, essa esquizofrenia de ser poeta em nosso país), e, justo por isso, cuidarei de, senão evitar, pois existem algumas tecnicalidades difíceis de serem contornadas, se quiser abordar o problema com alguma profundidade, não abusar dos termos excessivamente técnico-jurídicos, o popularmente conhecido “jurudiquês”, e, pelos mesmos motivos, tentarei ser o mais didático possível, tentando ilustrar com exemplos. E não pretendo esgotar o tema, muito ao contrário, o que desejo é levantar a discussão, oferecendo fundamentos jurídicos. A ver se serei bem sucedido.

Como disse acima, a questão do nosso mercado editorial tem sido abordada a partir de uma conduta (a)ética, por parte de nossos editores, o que além de ser perda de tempo, é terreno por demais subjetivo, e que tende a se tornar essencialmente emocional, logo, mais tempo perdido. Há algum tempo escrevi um livro de ensaios sobre a questão da autopublicação, a pirataria e os direitos autorais em nosso tempo, óbvio que ali abordei a questão também do ponto de vista jurídico e mais profundamente. Mas alguns episódios recentes, fartamente noticiados, me fazem voltar ao assunto.

Dois deles, dentre tantos que me têm irritado, reavivaram a discussão que havia deixado de lado, dedicado que estou a assuntos outros. Como prometi trabalhar com exemplos, ficam os dois, mas há mais, muito mais.

Recentemente, vi que uma grande editora publicaria, com alarde, um livro de poemas de um recém-condenado por corrupção, formação de quadrilha e crime contra o patrimônio público, a tão conhecida como vilipendiada “coisa pública” (res publica). Nada a objetar, ao menos em princípio, afinal, Jean Genet produziu prodigiosa literatura a partir das margens gradeadas da sociedade, embora não com patrimônio público, além de um exemplo mais próximo a nós, as “Memórias do Cárcere”, de Graciliano Ramos, igualmente ao largo da coisa pública.

Entretanto, o que me exasperou foi que essa publicação claramente se devia, não ao conteúdo poético da obra e a alguma tardia vocação literária, enfim, a qualidade estética das poesias do autor, ou mesmo, um perdoável, embora não muito recomendável, senso de oportunidade do dinâmico empresário das letras. Não, o que havia ali era o mais puro, deslavado e ausente de caráter oportunismo. Importante frisar aqui que esse meu comentário (ó tempos politicamente difíceis!) passa ao largo de qualquer conotação ideológico-partidária, antes que seja crucificado pelos que chamo de “teo-ideológicos”, a empobrecedora tendência de tratar a política como se religião fosse, embora sabendo que fatalmente sentirei os cravos. Fazer o quê?

Ora, o fazer poético passa ao largo das emoções, sinceras talvez, de um presidiário, tão-só pelo fato de ter passado alguns meses na cadeia. Poesia não se faz disso, que, quando muito, se presta a diários de pré-adolescentes, e, como disse Baudelaire, “poesia não se faz de ideias”. A poesia constrói-se com cuidadoso trabalho, como um esforço de delimitar o espaço delirante, com a ourivesaria meticulosa, e tudo isso demanda tempo, paciência, elaboração e vivência literária, algo como uma dedicação de querer ver triunfar Dionísio sem prescindir de Apolo. Enfim, poesia é arte, se é que isso ainda existe, não confessionário, divã ou fanfarra de passeatas.

Fosse um caso esporádico, menos mal, muito pouco tempo depois, li, numa revista semanal, uma crônica de uma dessas mocinhas – ou já nem tanto, nem tanto – midiáticas que resolveram se tornar romancistas, para deleite de nossas criteriosas editoras (que também andam adorando fazer livrinhos para colorir para, digamos, adultos), e vi que a moça cometeu por lá: “Só sobraram a calçada pelada, a reta, os carros”. Com um cacófato desses, senhora, quem soçobrou foi sua crônica, afortunadamente me dispensando de ler seu romance.

Mas esse não é um problema exclusivo do Brasil, a chamada “profissionalização” do escritor, mais do que uma profissionalização razoável, transformou os autores em brutais mercadorias, e reféns do “mercado”, onde só triunfa o que supostamente vende. Mas, o que vende?

A ignorância se retroalimenta incessantemente na cultura de massas (que nada tem a ver com cultura popular). Pesquisa-se para saber o gosto público médio, etimologia de medíocre, para vender-se àquele gosto o que ele já esperava consumir, o que, ao mesmo tempo, o realimenta para querer cada vez mais do mesmo e menos em qualidade e em gosto apurado, num círculo vicioso e viciado, obeso estética e artisticamente (e, para que não acredita em juízo de gosto, recomenda-se a leitura, se conseguir, da “Crítica do Juízo”, de Kant).

A verdade é que esse mesmo público consume qualidade, se lhe for oferecida qualidade, e lixo, se apenas este lhe for ofertado, é uma questão meramente educacional e de oportunidades. O provaremos logo ali adiante.

Mas voltemos ao Brasil, leitor, afinal, feliz ou infelizmente, é aqui que vivemos, regidos pelas nossas leis e pela nossa Constituição, que é, afinal, do que tratamos por aqui.

Claro que, e isso está fora de discussão, é inquestionável a legitimidade da pretensão de buscarem os editores um plantel de autores que os sustentem economicamente, afinal, são sociedades empresárias que visam ao lucro, é pacífico, a questão é: isso basta?

Eticamente, claro que não. E juridicamente?

Nosso mercado editorial, enfrentando a questão de fundo, mais para mercado do que para editorial, namora perigosamente com a ilegalidade, e, pior, deita-se com a inconstitucionalidade, se quisermos fugir do térreo da ética, como já disse, areia quase sempre movediçamente subjetiva.

O menos grave, talvez, embora não irrelevante, é a falta de critério, ou melhor, a adoção de critérios ilegítimos de admissão de autores. A poesia, por exemplo, essa pária social (que inveja de Horácio!), é tratada a pontapés, só sendo publicada sob condições eticamente quase pornográficas: o pagamento da edição por parte dos autores, assunto que pretendo abordar em outro artigo.

Ora, João Cabral, numa de suas últimas entrevistas, disse que a poesia “é o laboratório da língua”. Que imagem feliz! Se o povo faz a língua, acrescento, se os escritores a depuram, dando a ela rigor estético, se os teóricos a consolidam, é na pena dos poetas que a língua ganha contornos de experimento, de levar a palavra ao limite do invento, da sonoridade, esticando e tencionando o interior de seu significante, criando novos significados.

Ótimo, mas até aí, dirão, ainda estamos no terreno da ética e da “boa vontade” dos editores, porque, insistirão, o comportamento das editoras seria ilegal e mesmo inconstitucional? Afinal, já ouvi muitas vezes, “ah, são empresários… visam ao lucro!”. Claro, e é legítimo que o façam, não fosse um relevante detalhe, local onde Mefisto costuma pernoitar.

Nossa Constituição (art. 5º, XIII) e nosso Código Civil (art. 421 e 2.035, PU) determinam que a propriedade deve “cumprir a sua função social”. E o que vem a ser isso: “cumprir a sua função social”?

Cuida-se de um passo adiante na direção da pós-modernidade, dentro de uma concepção jurídica pós-liberal. Nosso ordenamento jurídico repudia que a propriedade tenha, como única função, atender às necessidades e utilidades (ou futilidades) individualistas de seu proprietário, mas ao contrário, sem negar, todavia, essa mesma propriedade privada, já que, historicamente, provou-se ser um equívoco o sonho de eliminá-la, mas a propriedade deve atender ao interesse de todos.

A propriedade só se justifica juridicamente na exata medida em que contribui para a nação (no sentido de país e povo) como um todo, gerando riquezas, mas não só, contribuindo para uma sociedade mais justa. E foi exatamente a partir dessas ideia que se progrediu para a valorização da posse em detrimento da propriedade ociosa, que não cumpre seu papel, sua “função social”.

Numa breve pincelada histórica, a ideia de “função social” da posse, conforme hoje a conhecemos, remonta ao início do século XX, a partir de León Duguit, que dizia que a propriedade é um fato jurídico como qualquer outro, e que só se justificaria se tivesse uma destinação econômica, dando ao possuidor (legítimo) um direito subjetivo, em contraposição, sublinhe-se, ao proprietário, o que conduzirá ao conhecidíssimo instituto jurídico chamado usucapião, que aqui, embora pudesse nos interessar, passarei ao largo, por uma questão de espaço e oportunidade.

Evoluindo nessa linha, fácil concluir que “cumprir a sua função social” não se limita, é óbvio, a gerar empregos, riquezas e pagar tributos, ideia puramente economicista, mas, necessariamente, passa pelo entendimento que a função social está intrinsecamente ligada, não só a incremento da economia, mas também à sua destinação, sem o que não fará sentido.

E aqui o ponto: nossas editoras cumprem a sua função social?

Antes de responder, já que falei em pagar riquezas tributos, mesmo se me ativesse a uma visão estreita e conservadora do que vem a ser cumprir a função social, devo sublinhar que a editoração de livros quase não os paga, pois gozam da chamada imunidade tributária constitucional. Assim, antes de abordar a questão da destinação, tratarei brevemente, por necessário, dessa imunidade e sua relação com a função social, eis que acentua fortemente esse descumprimento da Constituição e da lei.

DO DEVER DE CUMPRIR A FUNÇÃO SOCIAL COMO RETRIBUIÇÃO À IMUNIDADE CONSTITUCIONAL TRIBUTÁRIA.

Não bastasse o dito, há outro dado que torna ainda mais cogente, no caso da editoras, o cumprimento desse princípio, só justificando a propriedade, ou melhor, e mais incisivamente, só existindo a propriedade da sociedade empresária e o direito à remuneração pela propriedade material e imaterial da obra, ainda que temporária e limitadamente, na exata medida em que cumprem a sua função social, na forma de seu objeto social.

A nossa Constituição, em seu artigo Art.150, VI, diz que é vedado aos entes da Federação: “instituir impostos sobre: (…) d) livros, jornais, periódicos e o papel destinado a sua impressão”.

Qual foi o motivo pelo qual o Constituinte originário inseriu esse dispositivo na Constituição? Toda imunidade tributária, afirma a melhor doutrina de Direito Tributário, dentre eles o professor Ricardo Lobo Torres, só foi inserida no texto constitucional exatamente e sempre para tutelar algum direito fundamental, no caso o direito à liberdade de expressão, manifestação e, principalmente, acrescento, à livre circulação de ideias, leia-se, o fomento à circulação e divulgação da cultura.

Deixando de recolher vultosas quantias que seriam revertidas para a sociedade e para a população em geral, parece elementar que os editores, sem prejuízo, é fundamental ressaltar, da edição de livros que incrementem a sua receita, devolvam ao país e à população ideias e trabalhos de autores cuja preocupação única ou principal não seja a pecúnia, o modismo e a fama, mas a qualidade artística, a pesquisa e a experimentação estética.

Ante tal benesse constitucional, que se traduz inexoravelmente em financiamento público indireto das editoras, não é mais aceitável a dificuldade de publicar que tiveram em vida autores como, por exemplo, Fernando Pessoa, ou para ficarmos por aqui, no Brasil, Lima Barreto, e tantos outros escritores que morreram à míngua e anônimos, por produzirem uma literatura voltada exclusivamente para a estética, ou mesmo, no caso do brasileiro, na feliz expressão de Luciana Hidalgo, uma “literatura de urgência”.

Não pagando impostos sobre papel ,tinta, etc., o mínimo que se esperaria seria devolver ao povo, dono desse dinheiro, parte desse financiamento público indireto, fomentando a cultura de qualidade, e não lixo. Afinal, não foi por outro motivo que o Constituinte originário lhes deu a imunidade tributária.

Resumidamente: a imunidade tributária só se justificará, e assim a propriedade privada, na exata medida em que, minimamente que seja, a editoras devolvam ao país o que deixaram de recolher aos cofres públicos na forma de uma literatura de qualidade, ainda que vendam pouco.

Note-se, é importante para provarmos o que dissemos acima, que, quando querem, os editores, vendem de tudo e para todos, até Kant. Basta-nos lembrar da maravilhosa série “Os Pensadores”, vendida e, ao que consta, muito bem – pasmem mais jovens – nas bancas de jornais, que publicou do filósofo alemão à Spinoza, passando por Santo Agostinho, Marx e Wittgenstein, e outros, muitos outros, e não apenas lixo e esse rebotalho que hoje encontramos nas livrarias, nas bancas e nas páginas dos jornais.

É, enfim, a ignorância e a burrice, uma a serviço da outra e mutuamente se retroalimentando, isso que presenciamos em nossos dias.

FUNÇÃO SOCIAL, NÃO COMO LIMITAÇÃO, MAS COMO ELEMENTO DA PROPRIEDADE

Perdoando-me pela pequena digressão, a “função social”, eu dizia, é um pouco mais do que tudo o que foi dito. Em termos bem claros, para finalizar: só se tem propriedade se a esta é dada uma função social, do contrário, saindo do século XIX, é abuso de direito.

É o caso das nossas grandes editoras (falo, principalmente, delas, das “grandes”), nesses casos, “função social” não é apenas dar destinação econômica à propriedade, mas focar e fazer valer o objeto da sociedade empresarial, logo, da propriedade, sua destinação fática e jurídica: a divulgação e a formação da cultura de um povo, do contrário a propriedade estará em desacordo com a Carta Magna, logo, não deverá gozar de proteção jurídica.

Ao contrário do que pensam alguns mais apressados, mesmo não sendo exatamente leigos, não se trata, a “função social da propriedade”, de uma limitação ao direito de propriedade. Como lembram alguns de nossos juristas da linhagem de Nelson Rosenvald, na esteira de Stefano Rodotá, civilista italiano, professor da Universidade de Roma, a função social da propriedade não a restringe, antes a conforma, cuida-se, simplesmente, de um requisito, ou melhor, um elemento da propriedade, logo, não há um conteúdo prévio de propriedade, o que não está de acordo com a função social não é objeto de proteção pelo direito de propriedade, enfim, a função social distingue o que é direito de propriedade daquilo que não o é. Stefano Rodotà ensina, de forma definitiva, que não há conflito entre a estrutura do direito de propriedade e a sua função social, “pois esta é um aspecto interno daquele, compõe sua própria estrutura.”

CONCLUSÃO:

Fica fácil concluir que não se cuida aqui de proselitismo de um poeta que acordou mal disposto, nem de um operador do Direito com pendores socializantes, ao contrário, cuida-se de elemento mínimo da propriedade, dentro de uma visão pós-moderna, pós-positivista e pós-individualista do Direito, que desde o Século XIX perdeu a sua razão de ser, com a superação do Código Civil napoleônico e da hiperdimensionalização do direito privado, ao contrário, cuida-se da submissão da atividade empresarial da edição de livros à lei e, mais enfaticamente, à Constituição da República e ao ordenamento jurídico como um todo.

Na medida em que a propriedade empresarial da atividade editorial deixa de justificar-se ante o ordenamento jurídico constitucional, ela, simplesmente, perde a sua razão de ser, inclusive, tensionando mais um pouco, no que respeita aos direitos autorais que lhe pertençam por contrato e cessão temporária, e, ainda mais grave, àqueles que já caíram em domínio público, dando azo a que se conclua que se tornará ilegítima, inclusive, qualquer ação sua contra a chamada “pirataria”, porque, tendo em vista a ausência do substrato mínimo da propriedade, quer seja, o cumprimento de sua função social, aos editores faleceriam, processualmente falando, as necessárias condições para o exercício do direito de ação, tanto do ponto de vista da legitimidade, pois seriam partes ilegítimas para a proteção de direitos que não lhes pertencem por definição constitucional e legal, quanto do interesse de agir, pois lhes faltaria interesse na tutela jurisdicional de um bem que não lhes pertence, quer seja, a propriedade material e imaterial do livro, sendo, caso a obra ainda não tenha caído em domínio público, seu autor o único processualmente legitimado para tal.

Sendo assim, por descumprirem as determinações constitucionais, não poderão figurar no pólo ativo em demandas dessa natureza, devendo o processo ser totalmente extinto sem julgamento do mérito, no caso de figurarem isoladamente no pólo ativo ou quando a obra já estiver em “domínio público”, ou parcialmente, nos casos de litisconsórcios ativos com os autores, devendo o feito prosseguir somente no que pertine a estes, únicos legais e legítimos proprietários do direito em litígio.

Todavia, conquanto interessante, aprofundarmos isso em outro artigo, já que foge um pouco às fronteiras aqui pretendidas: um artigo a se publicado em um “blog”, ficando para outra ocasião que, prometemos, será em breve.

Lúcio Autran, Resende, 26 de maio de 2015.


11301499_902292619837710_571720314_nLúcio Autran na belíssima Alhambra, Granada, Espanha. (Arquivo do escritor)


Bibliografia poética de Lúcio Autran:

Veja o blog de Lúcio Autran e o Facebook do autor.

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Sete anos do Falando em Literatura na Feira do Livro de Madri


O nosso Falando em Literatura começou há 7 anos com o nome de “A última flor do Lácio”. Surgiu como um blog para os meus alunos de português na Espanha, para que eles praticassem o nosso idioma. Depois transformou- se, mudou o nome, e continuou como blog literário. Para a fugacidade dos nossos tempos,  nós estamos persistindo há 2555 dias, mais fortes e animados do que nunca!

A cada ano, o número de leitores vai aumentando. Diariamente, tendo ou não post novo, cerca de 1000 pessoas passam por aqui, no mínimo. Por mês, são mais de 30 mil pessoas. Parece pouco? Mas não está nada mal para um blog literário ( com literatura de qualidade) e sem patrocínio, sem choramingar por leitores, sem spam. Eu não retribuo as visitas de ninguém ( não tenho tempo, mas respondo todos os comentários), quem vem, chega aqui porque quer, sem esperar nada em troca (a não ser a troca de ideias). Trabalho com liberdade, quando e como quero, lendo só o que tenho vontade, sem a imposição de livrarias e/ou editoras. Houve um tempo em que fiz parceria com a Editora Planeta, mas não gostei, achei que não valia a pena, desisti no primeiro mês. “Liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que aos homens deram os céus” (Miguel de Cervantes, em Dom Quixote”).

A comemoração hoje foi na Feira do Livro de Madri, que vai até o dia 16 de junho. Veja algumas fotos:

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A Feira abre às 11:00h. Cheguei 40 minutos antes e foi o tempo que levei para chegar no final dos stands. Com a feira vazia pude observar detalhes impossíveis de perceber quando está lotada.
DSC_0053Reparem na boa fé dos expositores. As cargas de livros chegam cedo e ficam esperando nas ruas do parque ou na frente dos stands sem nenhuma vigilância. A minha cabeça de brasileira pensou logo, “no Brasil não ficaria um!”. Pena, não é?

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As caixinhas esperando seu dono chegar. Stand de “comics”, que são as histórias em quadrinhos no Brasil ou banda desenhada em Portugal. Um mercado cada vez mais interessante, que pretendo conhecer mais profundamente em breve.

DSC_0063 As bibliotecas da cidade de Madri têm quase 3 milhões de sócios. Você faz a carteirinha e pode pegar livros em qualquer uma delas.

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Só na cidade de Madri existem 47 bibliotecas públicas. Juntando com as do estado são 202 bibliotecas. Fantástico!

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A TVE, a rede de televisão pública do país, esquentando os motores.

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Não posso deixar de citar essa presença deliciosa na Feira, meu sorvete preferido, o Ben & Jerry’s de baunilha! hahahaDSC_0072

O editor da Léeme, uma editora jovem e muito bacana, com livros atuais, divertidos, bem acabados. Em outro post vou falar das minhas aquisições e dos presentes que deu-me José, esse rapaz simpaticíssimo e que faz um trabalho fantástico atrás do balcão. Em breve (será que breve mesmo?! hahaha) resenhas de três obras dessa editora legal. Um dos livros da Léeme tem o Sócrates na capa:

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Depois eu conto tudo, tudo, tudo!

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Outra simpática editora, a Marian. Ela é da Editora Nevsky, alguns livros têm as capas lindíssimas, depois eu mostro os que trouxe, muito especiais. Os títulos são ótimos, vou virar freguesa. A especialidade deles é a literatura russa.

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As pessoas começando a chegar.

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Olha o livro da Nádia, a primeira biógrafa da Clarice, livro que ajudou demais os pesquisadores. Tradução espanhola!DSC_0076

Livro polêmico do escritor austríaco que foi para o Brasil fugindo do nazismo e acabou suicidando- se com a esposa no Rio de Janeiro, pois pensavam que o nazismo iria dominar o mundo. Tenho muita curiosidade para ler esse livro, está na mão!

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Esse livro eu não conhecia, fiquei curiosa. Roberto Arlt, um argentino com uma obra vasta, falecido em 1942 aos 42 anos, jovem. Vou voltar pra comprar esse depois.


Eu tenho muitaaaas novidades da Feira, vou parar, senão o post vai ficar imenso. Voltarei em breve!

Continuamos sonhando com um mundo de leitores, onde o mal e as guerras só acontecem na ficção. V’ambora, sonhadores! A literatura salva.

Resultado do sorteio: “Pseudopoesia”, de Alves Rosa


Muitos compartilharam em posts fechados, não posso ver quem são, obviamente esses não entraram no sorteio. Um número foi gerado aleatoriamente no site http://www.random.org. Veja a lista de quem participou e o seu número:

1. Tania Ziert Balão

2. Anilda Neves

3. Marli Camargo

4. Rebeca Xavier

5. Niza Freire

6. Natasha Maya Ferreira

7. Aline Nery

8. Professora Ana Cruz

9. Yanara Rackel

10. Bárbara Tomé

11. Silvana Vidal Santos

12. Tiago Aires

13. Erisvaldo Carvalho

14. Ita Santos

E o ganhador é:

livroQuem disse que o número 13 não dá sorte?! Parabéns, Erisvaldo Carvalho! Veja o livro que você ganhou:

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Você tem até quarta- feira (3 de junho) para entrar em contato e fornecer seus dados para o envio. Caso Erisvaldo não se manifeste, faremos um novo sorteio com os outros 12 participantes. Obrigada pela participação de todos!

Quem ficou com vontade de conhecer essa obra, leia aqui a resenha. Você pode comprá- la direto com o autor aqui.

Em breve, mais sorteio de um super livro!

Resenha: “Boa noite a todos”, de Edney Silvestre


Em “Boa noite a todos” (2014), o escritor, apresentador e jornalista Edney Silvestre (Valença, Rio de Janeiro, 27/04/1950) conseguiu encontrar um ponto de intersecção importante, onde todos somos iguais, sujeitos despidos de vestes (literalmente), convenções, dinheiro e poder. Nada material importa. O autor resgatou o Humanismo, colocou o ser humano sozinho no palco, na sua essência original, na hora inevitável: a morte,  motivada pela solidão e a enfermidade. O misticismo e a moral, que podem ser muito variáveis, deram lugar à ética. Edney opta pela dignidade do ser humano, empurrando Maggie em um precipício antes que ela se perdesse. Trágico? Sim, mas o personagem labiríntico não tem outra alternativa.


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Edney Silvestre em setembro do ano passado no lançamento do livro, que teve leitura dramatizada pela grande Fernanda Montenegro. A obra também foi protagonizada no teatro por Christiane Torloni (foto: Blog Lu Lacerda)


A leitura começa pelo título e a capa do livro (fantástica por sinal, de Leonardo Iaccarino), que não nos deixa dúvidas: alguém se despede, um sapato feminino elegante assomado no parapeito de um edifício e vários outros prédios entrelaçados abaixo, confusos, dando a impressão de vertigem.  O personagem é uma mulher suicida. As primeiras páginas deram- me uma impressão equivocada da obra, achei que era uma dondoca fútil que iria cometer suicídio por falência financeira. Não. Maggie (Margareth) divorciada três vezes, não teve filhos por infertilidade, foi deixada por um dos maridos que se apaixonou por outro homem, o último marido a deixou por uma jovenzinha, Maggie estava sim falida e sozinha, mas a motivação do suicídio foi a doença. Ela planeja a sua morte antes que perca totalmente a memória e a sanidade. Em nenhum momento o autor cita o Alzheimer, mas os sintomas de Maggie são parecidos, ela começa a esquecer fatos da sua vida, nome de pessoas, esquece que tem que pegar um avião, esquece até do nome do seu pai e sua mãe, começa a perder o controle das funções fisiológicas voluntárias do corpo.

A história toda acontece em poucas horas, começa no táxi durante o trajeto até o hotel que escolheu para morrer. O hotel foi escolhido porque ela acha que ali antes estava construída a casa da sua família. Ela vai tentando reconstruir a sua vida, já não sabe o que é real ou imaginação. Ela dialoga com uma voz, que pode ser o resto de lucidez que lhe sobra, que vai corrigindo os lapsos e dados incertos. A linguagem, muitas vezes repetitiva, acompanha o fluxo do pensamento da personagem, ela esquece o que acabou de dizer, então reitera. Muito fidedigno.

O livro é dividido em três partes: primeiro o romance, depois a peça teatral só em 1ª pessoa, há acréscimos de dados sobre a vida de Maggie e uma terceira parte onde Edney explica como surgiu Boa noite a todos.  muitas referências musicais, livros, poemas, filmes, citações de nomes de atrizes, tudo comentado pelo autor nessa última parte. Ednei explica que Maggie é uma conjunção de várias mulheres, concentra no personagem o drama de muitas pessoas. Geralmente ele leva pra ficção pessoas conhecidas, aconteceu em obras anteriores. Não se preocupe se não entender as citações em inglês e alemão, está tudo no final.

Uma música que acompanha Maggie durante a sua despedida é de Richard Strauss, “Quatro últimas canções”. Strauss  musicou um poema de Herman Hesse, “Ao dormir”:

Depois que o dia exausto me deixou,
amavelmente a noite constelada
há de acolher meu ardente desejo
como a uma criança fatigada.

Mãos, esquecei todos os afazeres!
Rosto, deixa o pensar ao abandono!
Agora todos os sentidos meus
querem afundar no sono.

A alma, sem ter quem tome conta dela,
em vôos libérrimos quer flutuar
e no circulo mágico da noite
a vida de mil formas esgotar.

Hermann Hesse


 É um livro que mexe com nossos medos, pelo menos os meus, um deles é o de perder a noção da realidade, a loucura ou o esquecimento. O medo de não ter o controle de si mesmo, alienar- se, no sentido original do termo. É o medo de Maggie, ela não tinha saída. Uma pessoa sem memória está morta. Maggie planejou a sua morte e estava tranquila. Maggie sofria alucinações e decidiu voar.

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Para conhecer um pouco mais sobre o autor, leia essa interessante entrevista, onde Edney revela fatos tristes e marcantes da sua vida, e mostra- se uma pessoa de gostos simples, que prescinde de luxos, o que o faz realmente feliz é escrever.

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Edney na biblioteca do seu apartamento no Leblon no Rio de janeiro. (Revista Quem)

Eu li “Vidas provisórias” e fiquei impressionada com a obra (leia a resenha). Em “Boa a noite a todos” o personagem principal também é uma imigrante, que trouxe na sua bagagem de vida (desculpem- me o clichê fácil) todas as experiências que viveu nos países que morou e escolheu morrer na cidade e local onde a viu crescer. A gente pertence mesmo ao lugar que nos viu nascer?

Ednei teve coragem de tocar em um tema tabu, o suicídio. Muitas vezes visto como sinal de fraqueza e condenado pelo lado místico, “é falta de Deus”. O suicídio vai muito além dessas análises superficiais e até cruéis ( motivadas pelas religiões). Sempre há muita dor de viver e sentimento de impotência, de fim de linha, motivados por doenças físicas ou psicológicas, quase sempre. Não quero falar muito sobre esse tema, porque daqui a pouco vai aparecer algum maluco achando que estou fazendo apologia ao suicídio. Ao contrário, gostaria que as pessoas prestassem mais atenção nas outras; se bem que, na maioria das vezes, a fatalidade é inevitável, se o sujeito realmente tem o firme propósito. A opção sempre deve ser a vida, no caso da Maggie, ela não tem escolha, é irreversível.

E para finalizar, quero acrescentar que Edney Silvestre está ganhando um posto importante na nossa literatura contemporânea. Seus romances urbanos, bem alinhavados, ricos em referências e cultura geral, com doses fortes de emoção, corajosos, cheios de humanidade, colocando um espelho diante das nossas faces, vieram para enriquecer a nossa biblioteca. Voilà! Perfeito!

jjjjjSilvestre, Edney. Boa noite a todos. Record, Rio de Janeiro, 2014. ePub, 168 páginas

Bem- vindo, Angola!


Bem- vindo pessoal de Angola, que está descobrindo a nossa página! Um prazer tê- los aqui, Angola é um país lindo, de gente encantadora e uma literatura forte. Uma das minhas poetisas favoritas é a angolana Ana Paula Ribeiro Tavares (Huíla, Angola, 30/10/1952).


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Algumas obras de Ana Paula Ribeiro Tavares:

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Ex- voto

O tempo pode medir- se 

No corpo

As palavras de volta tecem cadeias de sombra

Tombando sobre os ombros

A cera derrete

No altar do corpo

Depois de perdida, podem tirar- se 

Os relevos

(Ana Paula Ribeiro Tavares, in “Ex- votos”)


Esse foi o post nº 500! Viva! Quinhentas tentativas de levar a literatura para algum lugar do mundo. Tentaremos quinhentas mais!

“No café da juventude perdida”, Patrick Modiano


(…) Às vezes te oprime o coração quando pensa nas coisas que podiam ter sido e que não foram, ainda digo agora inclusive, que a casa continua vazia esperando- nos. (Ronald, p. 128)

Prepare uns sapatos confortáveis porque você vai caminhar muito pelas ruas de Paris! Livro com encanto, tom nostálgico, de memórias, mistério, de um amor inesquecível passe o tempo que passe, aconteça que acontecer. A cafeteria “Le Condé”, em Paris, é o ponto- de- encontro de jovens e de gente madura com espírito boêmio. O que um filósofo sentimental chamava de ‘juventude perdida’ (p.14). Anos 60, a época do surrealismo francês em uma das suas faces mais aloucadas, a patafísica de Alfred Jarry, Boris Vian, Eugène Ionesco e Julio Cortázar. Ainda não foi editado no Brasil.

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 Patrick Modiano (Boulogne-Billancourt, 30/06/1945) na bela biblioteca da sua casa. (Foto: France Today). Modiano ganhou o Prêmio Nobel de Literatura em 2014.

Os personagens são Louki, Zacharias, Tarzan, Jean- Michel, Fred, Ali Cherif, Annet, Seu Carlos, Mireille, Adamov e o doutor Vala. A dona da cafeteria é a dona Chadly. Um dos narradores- personagem encontra- se com Chadly às margens do Sena, quando a cafeteria já havia fechado há muitos anos, em seu lugar havia uma loja de bolsas. A senhora temia pelo futuro daquela turma sem futuro . “Que será que foi deles?” Eles não estavam preocupados com o futuro, viviam só o presente, queriam descobrir quem eram.

A história gira em torno de Louki, que vai sendo construída aos poucos, o livro é cheio de sutilezas, converte em grande o que parece ser normal, cotidiano, descreve o que pensamos e sentimos em centelhas de segundos, aquelas percepções, insights, sensação de déjà vu, “eu já vi isso antes”…esse livro me fez sorrir…isso é boa literatura!

O cenário parisiense, toda a cartografia da cidade vai sendo desenhada: os encontros na Avenue de la Grande- Armée, o rio Sena, o bairro Porte- de- Maillot, os metrôs, Neuilly (uma cidade metropolitana de Paris), enfim, nesse livro temos um mapa da cidade das luzes.

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Pimm’s é um licor que serve como base para coquetéis criado em 1823 pelo escocês James Pimm. Louki e a amiga Jeannette tomam um “Pimm’s champagne” no bar “Le Canter” (Jeannette é uma das donas), na rua de La Rochefoucauld.

Tem gente que faz coisas que parecem insignificantes ou inúteis, veja o que fazia Bowing: ele escrevia num caderno todos os nomes das pessoas de frequentavam a cafeteria, simplesmente para que existissem. Quando a gente coloca nome em alguém, ela deixa de ser uma a mais na multidão. Isso te parece inútil?! Ele queria acabar com o anonimato da grande cidade.

(…) Bowing estava desejando salvar do esquecimento as borboletas que dão voltas durante breves instantes ao redor de uma lâmpada.(Caisley, p.16)

Mas também tem uma coisa: um nome sem significado e sem história é só um nome marcado à tinta num papel. O doutor Vala comentou com Bowing que achava engraçado esse experimento dele “de patafísica”, mas o narrador corrige: “Ele confundia tudo: patafísica, o letrismo, a escritura automática, as metagrafías e todos os experimentos que realizavam os frequentadores mais literatos do Le Condé (…)”. (p.22)

Ninguém da turma do Le Condé sabe o nome verdadeiro de Louki. Ela mora perto do cemitério de Montparnasse.

Caminhava com essa sensação de leveza que, às vezes, sentimos em sonhos. Já não temos medo à nada, todos os perigos são irrisórios. Se as coisas ficam feias de verdade, basta despertar- se. Somos invencíveis. Caminhava, impaciente por chegar ao final, ali aonde não havia mais que  céu azul e um vazio. (Louki, p.84)

O narrador 1 mora no boulevard Saint- Michel, nº 85, em um quarto alugado, é aluno da Escola Superior de Minas na Sorbonne, ele mantém segredo aos colegas da cafeteria, tanto sobre o lugar onde mora quanto sobre o lugar que estuda, não parece muito convencido da sua escolha profissional.

“Vivemos à mercê de certos silêncios. Sabemos muito uns de outros. Assim que fazemos por encontrar- nos.” (Ronald, p.29)

Um outro narrador, que chamarei de 2,  (pensamos que é um narrador, só no final do livro que descobrimos que são dois) tem uma obsessão por descobrir quem é Louki. E foi conseguindo: o nome, “Jacqueline Choureau”, de solteira “Delanque”. Foi casada com Jean- Pierre Choureau, a quem Louki havia abandonado há dois meses. Ela, 22, o ex- marido, 36. A mãe trabalha no Moulin Rouge. O romance vai sendo construído aos pedaços, o tempo vai e volta, presente- passado. Também vamos descobrir quem é o narrador, mas não vou revelar, vou deixar para vocês descobrirem também. Só o nome: Caisley. Nessa obra nada é por acaso, tudo vai sendo amarrado, costurado com uma precisão matemática! Seu primeiro nome só vamos descobrir na última página.

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O restaurante “Au chien qui fume” (“O cachorro que fuma”), na rua Cherche- midi, Montparnasse, citado pelo narrador 1, (p.33), ele entrou para tomar um conhaque, nervoso com a possibilidade de encontrar Louki. Ficção e realidade. O restaurante realmente existe (foto acima), como muitos lugares citados no livro, que nos leva pela mão num passeio gostoso por Paris. Vous vous promenez? Paris é uma cidade dividida por 20 distritos (arrondissements), que começa no ponto mais central e vai circulando a cidade em forma de aspiral.

Na metade do livro mais ou menos (p. 59) vai ficar ainda mais interessante, porque agora entra Louki com própria voz para explicar a sua história e como ela vê os frequentadores do Le Condé, a mesma coisa que fez Caisley.

Louki sofria ataques de pânico, Modiano conseguiu explicar esse problema incômodo e o que passa na cabeça da pessoa com um ataque de ansiedade. A metáfora de fios desunidos é perfeita! É isso, é como se a pessoa estivesse desconectada do mundo e de si mesma, o mal-estar toma conta de tudo:

“De repente, sentia uma sensação de vazio pela rua. A primeira vez foi diante do bar que havia ao lado do Cyrano. Passava muita gente, mas isso não me tranquilizava. Cairia redonda e essa gente continuaria seu caminho sem fazer- me caso. Caída de tensão. Corte de corrente. Tinha que esforçar- me para voltar a unir os fios.” (Louki, p. 78)

Ela tinha “agorafobia”, não podia sair dos limites do seu bairro. Sentia que não podia ultrapassar a fronteira. Traumas do seu passado. O medo de viver às vezes é tão grande que o cérebro procura um meio de desconectar. Ela estava só, sua mãe morreu há quatro anos e ela cresceu sem o pai. Não tem família.  Frequenta as sessões de Guy de Vere (nome de um personagem do poema “Lenore” de Edgar Allan Poe), uma espécie de guru espiritual. Jacqueline o conheceu na Livraria Vega, que realmente existe e é uma editora de livros esotéricos, espiritualistas.

Desse livro eu senti falta de uma descrição física mais detalhada de Louki, Caisley e Ronald. Não consegui visualizá- los. Gosto de Andersen, Proust ou Dostoiévski, por exemplo, que desenham os personagens, fazem um retrato- falado dos personagens.

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Essa é a “Place de la République”, onde nossos dois “flâneurs” Louki e Ronald passeiam. A famosa estátua que simboliza “Liberdade, fraternidade e igualdade”. Essa noite dormiram no mesmo quarto de hotel.

Encontram- se Louki e Ronald. O narrador cita um fenômeno interessante que acontece com a maioria de nós,  o “Eterno Retorno”, uma teoria filosófica de Nietzsche que tem a ver com o tempo e a repetição periódica de acontecimentos, a inevitável alternância de coisas boas e ruins:

Ainda hoje acontece algumas vezes: ouço, pela noite, uma voz que, pela rua, chama o meu nome. Uma voz rouca. Arrasta um pouco as sílabas e a reconheço rápido: a voz de Louki. Dou a volta e não há ninguém. (…) Tudo volta a começar, igual que era antes. Os mesmos dias, as mesmas noites, os mesmos lugares, os mesmos encontros. ‘O Eterno Retorno’. (Ronald, p. 95)

Já teve essa sensação alguma vez?

É uma única história contada sob várias perspectivas. Uma delas é como Ronald vê a relação entre Louki e Jeannette Gaul. Assim que percebemos que tudo, todas as histórias têm mais de um ponto de vista, tudo é relativo. As histórias condicionadas pelo tempo, o vivido e o lembrado, podem ser diferentes.

Quando de verdade amamos uma pessoa, temos que aceitar a parte de mistério que existe nela…Porque é por isso que a amamos, verdade (…)? (Ronald, p. 118)

Essa história é sobre Paris e sobre um relacionamento que acaba, mas que o amor nunca termina. Não é um romance romântico, é tudo muito sutil, conta sem contar, um verdadeiro quebra- cabeças. O final…melhor não contar. Surpreendente.

E aí, vai colocar na sua lista? Essa é a edição espanhola lida:

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Modiano, Patrick. En el café de la juventud perdida, Anagrama, Barcelona, 6ª edição, 2014.

Preço: R$ 92,14, Saraiva (Brasil).

Preço: EUR 14, 90, Casa del Libro (Espanha), dependendo do frete, compensa.

Páginas: 131

Clube de leitura do Falando em Literatura


Buscando uma forma mais dinâmica e interativa com todos vocês, quero fazer uma proposta aos leitores do Falando em Literatura: um clube de leitura onde possam fazer parte de todo o processo leitura- resenha. Essa é uma forma também de aplicar autodisciplina, o Falando em Literatura vai te ajudar a transformar- se no leitor que você sempre quis ser, um leitor constante, crítico, que consegue entender tudo o que lê ( se você já é assim, perfeito!). Seguiremos os seguintes passos:

1. A escolha da obra. Vamos dar prioridade à literatura brasileira na primeira fase. O Falando em Literatura é que vai determinar o título para não gerar muitos conflitos de opinião.

2. A leitura. Vamos ter um mês para ler a obra escolhida. A leitura exige planificação e compromisso. Você tem que ler a quantidade de páginas adequadas ao tempo que dispõe. Nesse caso, você pode fazer um exercício de leitura dinâmica, que exige rapidez e concentração. Quanto mais leitura, mais rapidez e com muitos bons resultados de apreensão de conteúdo. Vá anotando ou sublinhando tudo o que achar importante. Essas notas irão ajudá- lo a relembrar para fazer a resenha depois. Você pode tirar dúvidas e tudo o que ocorrer durante o processo.

3. A resenha. Terminada a leitura, chegou a vez da escritura, a resenha, que é um resumo da obra com todos os seus aspectos mais importantes, além das suas percepções e crítica sobre a obra. Personagens, enredo, tempo, ambiente, linguagem, intertextualidade (a relação que a obra tem com outros textos), também a vida e obra do autor, curiosidades do texto e os seus sentimentos durante o processo de leitura. Sempre cite as fontes quando copiar algum texto, jamais aproprie- se de ideias alheias. Vá escrevendo a resenha durante a leitura, é mais prático. Publique no seu blog, caso tenha um.

4. Envio das resenhas. Feita a resenha, envie ao Falando em Literatura, que vai publicar  aqui num post todinho seu.

5. Resenha final. Todas as resenhas enviadas serão transformadas em um único post, uma super resenha com a opinião de todos os participantes.

6. Os membros do Clube serão numerados e terão alguns privilégios: sorteios de livros e afins, e maior visibilidade nas redes sociais.

Livros

E aí, gostou da ideia?! Já tenho em mente um livro muito legal, em e- book e GRATUITO! No próximo post divulgarei a obra. Custo zero. Conto com a participação de todos, mas se tiver um único participante vamos começar. Levanta o dedo quem vai participar!