PDF grátis: “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector


Nesta obra, “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector, que você pode baixar gratuitamente aqui, há um dos melhores contos da literatura brasileira: “Felicidade clandestina”, que deu nome ao livro.

Clarice Lispector

Que felicidade ter um livro querido e desejado nas mãos, não é? A menina do conto, talvez a voz da menina Clarice, sentiu essa “felicidade clandestina” ao conseguir o livro de sua “algoz”. Não deixe de ler!

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Resenha: Os melhores contos de Lima Barreto


Affonso Henriques de Lima Barreto (Rio de Janeiro, 13/05/1881- Rio de Janeiro, 01/11/1922) foi um grande escritor, da altura de Machado de Assis, por exemplo, só que de uma forma mais moderna, sua linguagem é mais próxima à realidade do povo. Ele falou dos pobres e seus subúrbios, deu voz à essa gente; falou das classes sociais, políticos e a maneira pouco honesta de conquistarem o poder. Isso deve ter incomodado muita gente da recente república brasileira (decretada em 1889 com Marechal Deodoro). Affonso foi excluído das rodas literárias mais seletas, da Academia Brasileira de Letras, por exemplo. Candidatou- se três vezes.

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Além de tudo, era mulato. Raros eram os escritores mestiços no seu tempo, a abolição da escravatura era coisa recente. Teve uma vida difícil, de ascendência humilde, nasceu na rua Ipiranga, nº 18, em uma casa que já não existe mais no Rio de Janeiro. A mãe, dona Amália, era professora de escola pública. Ela faleceu quando Lima tinha 7 anos; e o pai, João, era tipógrafo e depois administrou uma colônia de “alienados” na Ilha do Governador.

Lima teve um padrinho rico que lhe custeou os estudos, o Visconde de Ouro Preto, um advogado, político abolicionista e senador do Império. Lima recebeu uma boa educação, estudou em bons colégios. Em 1903, seu pai enlouqueceu. Terá sido influenciado pelo ambiente do seu trabalho? Nessa época, com 22 anos, Lima teve que parar de estudar engenharia em uma escola técnica e foi trabalhar para sustentar a família numerosa. Trabalhou como professor particular e funcionário público, mas não foi feliz. Ele era um artista e não se adaptou ao ambiente nada criativo de uma repartição pública. No começo, foi um bom trabalhador, mas com o tempo, ficou difícil suportar, faltava, até que deixou o trabalho e entregou- se à vida boêmia entre botequins. Sua vida particular destruiu o escritor, que morreu muito cedo, aos 40 anos. O pai doente mental, a carga familiar, o mulato Lima Barreto sentia- se discriminado, o alcoolismo, a depressão, a tristeza, que o fazia sofrer alucinações. Lima foi internado algumas vezes em um hospício. Possivelmente, também devia ter alguma predisposição genética herdada do pai, que faleceu dois dias depois do escritor de “O triste fim de Policarpo Quaresma”.

Publicou contos em pequenas revistas e o seu primeiro romance “Recordações do escrivão Isaías Caminha” (1907)  começou a ser publicado na revista “Floreal”, mas só apareceu em livro dois anos depois, editado em Portugal. É considerado um autor pré-modernista (ele faleceu no ano da famosa “Semana de Arte Moderna”, que tem como marco o início do Modernismo no Brasil).

Lima critica bastante a sociedade carioca nos seus textos, foi pioneiro no Brasil em escrever  literatura de crítica social em uma linguagem mais acessível, menos portuguesa e mais brasileira, o que provocou, tudo indica, a repulsa dos literatos da época. Infelizmente, a crítica que ele fazia ainda continua muito atual na sociedade brasileira. A trambicagem e falta de honestidade é coisa enraizada. O dinheiro gera influência e poder, o que faz deixar pra trás quem tem competência e mérito.

Faleceu na casa que morou por vinte anos, na rua Major Mascarenhas nº 26, subúrbio carioca de Todos os Santos.

Vamos ao livro. A obra consta de dezenove contos:

  1. Numa e a Ninfa

De origem modesta, Numa Pompílio de Castro, ascende a cargos públicos e políticos por amizade e indicação, nunca por mérito. Casou- se com Gilberta por interesse financeiro e social. Com o casamento e o prestígio que consegue com a união, elege- se deputado. Sua mulher é muito mais preparada que o marido e escreve os seus discursos, que são um sucesso. Numa descobriu- se corno, mas deixou para lá, não queria escândalos e nem perder a sua “ghost- writer” (que não ficou muito claro se é a mulher ou o amante dessa, que é poeta). Qualquer semelhança com a realidade é mera coincidência? Será que Lima quis mandar uma indireta para alguém da época? Eu acho que sim! Um conto fantástico e muito atual!

  1. O único assassinato de Cazuza

Hildegardo Brandão (Cazuza), cinquenta e três anos, não conseguiu ter êxito na vida, apesar de muitos esforços. Solitário, sem família, doutor Ponciano era um dos poucos amigos. Ambos reuniam- se na casa do médico aos domingos para ler os jornais. Vou destacar um trecho, parece que foi escrito hoje:

­- Mata- se à toa por dá cá aquela palha. As paixões, mesquinhas paixões políticas, exaltam o ânimo de tal modo, que uma facção não teme eliminar o adversário por meio de assassinato, às vezes o revestindo da forma mais cruel. O predomínio, a chefia política local é o único fim visado nesses homicídios, quando não são questões de família, de herança, de terras, e às vezes, de causas menores. Não leio os jornais que não me apavore com tais notícias. Não é aqui nem ali; é em todo o Brasil, mesmo às portas do Rio de Janeiro. É um horror! Além desses assassinatos, praticados por capangas – que nome horrível! -, há os praticados pelos policiais e semelhantes nas pessoas dos adversários dos governos locais, adversários ou tidos como adversários. Basta um boquejo, para chegar uma escolta, varejar fazendas, talar plantações, arrebanhar gado, encarcerar ou surrar gente que, pelo seu trabalho, devia merecer mais respeito. Penso, de mim para mim, ao ler tais notícias, que a fortuna dessa gente que está na câmara, no senado, nos ministérios, até na presidência da república se alicerça no crime, no assassinato. Que acha você? (Hildegardo para Ponciano, p.21)

Imagino a cara dos políticos da época lendo esse texto na Revista Souza Cruz (1922). Lima era muito corajoso!

  1. O homem que sabia javanês

Um texto irônico, engraçado e que critica, também, a sociedade carioca (publicado na Gazeta da Tarde em 1911). O charlatão Castelo encontra seu amigo Castro em uma confeitaria e começa a contar uma de suas peripécias. Tinha sido adivinho em Manaus e depois professor de javanês. Castelo estava na pindaíba, não tinha emprego nem dinheiro para pagar a pensão onde estava hospedado. Vê um anúncio no jornal pedindo “professor de javanês”. Quem sabe javanês a não ser os de Java? Isso ele pensou. E foi atrás do emprego. Fingindo saber falar javanês chegou a ser diplomata. A crítica? Quanta gente finge ser o que não é consegue chegar mais longe, muitas vezes, do que quem realmente entende da matéria…. Quem disse que a vida é justa? Lima cita “Gil Blas”, uma obra para colocar na lista. Trata- se do romance satírico do francês Alain-René Lesage (1668-1747) que conta uma história sobre um sujeito parecido com Castelo.  Depois de muitas agruras na sua vida consegue vencer pela astúcia, enganando quem era muito poderoso e que se achava muito inteligente.

Esse conto virou filme em 2004, com Carlos Alberto Riccelli como Castelo e Sérgio Mamberti no papel de Castro.

4. O jornalista

Este conto foi dedicado ao escritor sergipano Ranulfo Prata, que anda esquecido. O autor já está na minha lista para pesquisa e leitura (anota na sua também!).

Essa é a história de Salomão Nabor de Azevedo, um jornalista muito popular da cidade de Sant’Ana dos Pescadores. O jornalista provoca um incêndio no prédio mais importante da cidade para ter notícia de um grande acontecimento no seu jornal. Foi preso. (Publicado em julho de 1921)

5. Um músico extraordinário

O narrador Mascarenhas conta a história de Ezequiel Beiriz, um colega de internato da adolescência. O rapazinho era franzino, triste, retraído, adorava as histórias de Jules Verne e sonhava viajar pelo mundo. Adultos, 30 anos maios ou menos, encontraram- se no bonde em uma situação inusitada: Ezequiel não tinha dinheiro para pagar a passagem e travou uma discussão com o “recebedor”. Foi Mascarenhas que pagou a passagem. Ezequiel contou todas as peripécias que viveu até então, todas as profissões e lugares que andou. A impressão que fica é que é tudo mentira, como toda a ficção que lia quando menino ou ao contrário, que ele conseguiu materializar de alguma forma os sonhos de criança. Foi tudo sem nunca ter sido, tal como o título do conto.

Lima também frequentou um internato. Pode ser alguma memória da adolescência.

6. Porque não se matava

A vida continuava sem esmorecimentos, indiferente que houvesse tristes e alegres, felizes e desgraçados, aproveitando a todos eles para o seu drama e a sua complexidade. (p.48)

O narrador conta a história de um amigo muito enigmático e muito contraditório. Esse amigo acha que não tem motivos para viver, mas não tem coragem de suicidar- se. A conversa acontece no bar do Adolfo, entre chopes, que pode ser mesmo um bar que existiu no centro do Rio, chamado Bar Adolph em 1915. Hoje ainda existe, chama- se Bar Luiz e tem 120 anos, vai ser tombado como patrimônio histórico da cidade.

Pode ser que Lima tenha tomado uns chopes nesse boteco com Olavo Bilac (falecido no final do ano de 1918, membro da ABL). Tal como o “amigo” do conto, Bilac, nosso poeta parnasiano, faleceu solteiro aos 53 anos. Era boêmio e gostava de um chopinho. Ele bateu seu carro numa árvore, foi o primeiro caso de acidente automobilístico no Brasil.

7. O cemitério (sem data)

Passeando entre túmulos de um cemitério da Rua do Ouvidor, o narrador (parece alter ego do autor) depara- se com o retrato de uma linda mulher enterrada ali:

Que resultados teve a sua beleza na terra? Que coisas eternas criaram os homens que ela inspirou? Nada, ou talvez outros homens, para morrer e sofrer. Não passou disso, tudo mais se perdeu; tudo mais não teve existência; tudo mais não teve existência, nem mesmo para ela e para os seus amados; foi breve, instantâneo , e fugaz.

8.  A biblioteca

Dedicado a Pereira da Silva. Suponho que tenha sido o poeta e jornalista Antônio Joaquim Pereira da Silva, falecido em 1944 (membro da ABL).

Comum em quase todos os contos, é a descrição das ruas do Rio de Janeiro, bondes, casas, casarões, comércio. Um rico material histórico nos deixou Lima Barreto sobre a cidade carioca. Nesse, o narrador, Fausto Carregal, descreve um casarão na Tijuca, recordação de infância, a casa onde morou e todos os seus objetos. E a biblioteca.

A biblioteca do seu pai, o Conselheiro Carregal, era muito rica, cheia de tesouros literários antigos. Esse conto serve para anotar referências bibliográficas.

Fausto guardou a biblioteca do pai, ele não dera para as letras, não entendia os livros, para repassá- la a um dos quatro filhos. Os três mais velhos também não deram para as letras e a sua última esperança era Jaime, o caçula. Mas o menino não conseguia aprender a ler. O que fez então com a biblioteca?

O final desse conto é inusitado.

9. O feiticeiro e o deputado

De “seu Ernesto” o povo dizia que era feiticeiro e que tinha um passado de criminoso. Cultivava uma horta, cortava lenha e era muito misterioso. Não havia sido bandido, mas sim, entendia de “mandingas”. As pessoas iam pedir- lhe ajuda. Seu Ernesto “curou” até um alcoólatra. Era um “feiticeiro” do bem.

O deputado Braga foi visitar o feiticeiro achando que iria encontrar algum degenerado. Saiu de lá encantado também.

10. A doença do Antunes

O médico clínico dr. Gedeão era uma verdadeira celebridade, saía mais nos jornais que o próprio presidente. A consulta com o médico era caríssima, mas valia a pena uma consulta com o milagroso médico.

José Antunes Bulhões, dono de um armazém de secos e molhados, sofria uma dor de estômago incurável, já havia consultado vários, médicos, curandeiros e afins, mas não tinha dado resultado, a dor persistia. Consultou o milagroso doutor Gedeão. Mas para saber qual é a doença de Antunes…leia! 🙂

11. A nova Califórnia (10/11/1910)

Um conto muito criativo. O misterioso Raimundo Flamel encomendou ao pedreiro Fabrício a construção de um forno dentro da sua sala. O trabalhador viu na casa muitos livros e recipientes para experimentos químicos. O povo da pequena vila de Tubiacanga entrou em polvorosa tentando adivinhar o que faria o forasteiro.

O boticário Bastos acalmou o povo dizendo que devia ser algum sábio. Era um alquimista. Três cidadãos ilustres da cidade foram convidados por Raimundo Flamel para serem testemunhas de uma descoberta que havia conseguido.

Algumas tumbas da pacata cidade de três mil habitantes foram violadas. O alquimista transformava ossos em ouro. Quando a população descobriu foi uma verdadeira loucura. Começou uma caça aos ossos. Todo mundo queria o ouro fácil. E isso acabou trazendo a desgraça para Tubiacanga.

O único que sobrou foi o bêbado Belmiro.

12. O falso Dom Henrique V- Episódio da História de Bruzundanga

Lima era muito criativo e hilário na escolha dos nomes dos seus personagens e cidades fictícias. Essa é uma história que acontece na República de Bruzundanga (lembra o Brasil, óbvio).

A história acontece em um reino e a sua transição à monarquia através de um golpe.

No país monárquico, havia paz e os camponeses viviam bem, não passavam fome. O imperador Dom Sajon não gostava de luxos, usava carros antigos e obrigava que os nobres não explorassem os camponeses, tinha um bom coração. O único filho, o príncipe Dom Henrique, que nem queria ser rei, foi assassinado. E o neto de Sajon de 8 anos, sequestrado. Passou a governar Trétreth, da dinastia mais próxima à família. O povo empobreceu, adoeceu, andava quase nu, ficou miserável e os ricos, cada vez mais ricos exportando cana-de-açúcar.

Qualquer semelhança com a realidade não foi mera coincidência. Por isso Barreto não era muito popular entre a classe privilegiada do seu tempo.

13. Um e outro (1913)

Dedicado a Deodoro Leught, achei com a grafia “Leucht”. Não descobri quem foi, se alguém souber deixe nos comentários, por favor.

Esse conta a história da prostituta Lola de 50 anos, amante de Freitas, que a sustentava junto com a filha. Mas ela saía com outro, um “chauffeur” de carro de luxo.

É o primeiro conto do livro com um narrador- personagem feminino. O ambiente, como sempre, é o Rio de Janeiro, o bonde, suas ruas e o cais.

Freitas usava a mulher como um troféu. Ter uma amante dava um certo prestígio. E Lola o usava para dar- lhe boa vida, mas estava apaixonada pelo motorista…ou pelo seu carro? É um conto engraçado, embora um pouco machista. Aquele clichê que as mulheres só amam homens com bons carros (no caso de Lola sim). Comprovo que esse pensamento vem de longas datas.

14. Miss Edith e o seu tio (1914)

Um conto engraçado. A história acontece na pensão familiar “Boa Vista”, no bairro do Flamengo, dirigida por Madame Barbosa, uma mulher de 50 anos, “gorda e atochada”. Teve vários filhos e tinha uma ainda solteira “Dona Irene”, que vez por outra ficava noiva de um dos hóspedes. O casarão é feio e lúgubre.

A moça já tinha sido noiva de um estudante de Direito, um de Medicina, outro de Engenharia e também um dentista. Sem sucesso, então a moça voltou- se para os funcionários públicos. Irene sonhava em casar. “A preta” Angélica era o braço direito direito e confidente da Madame Barbosa.

Chegou um casal de ingleses, tio e sobrinha, Edith. Causaram reboliço  entre os hóspedes e a dona da pensão encantada com os gringos ricos. Cada hóspede criou uma história imaginária a respeito dos “ilustres” hóspedes. Tio e sobrinha? Será? Imagina aí…

15. O pecado (1924)

Esse conto é uma porrada. Curto e forte. Acontece no céu com São Pedro que faz a seleção de almas: as que vão para o purgatório e as que ficarão “à direita do altíssimo”. Um homem é julgado. Ele tem um expediente perfeito, é bom, humilde e honesto. Mas vai para o purgatório, porque é preto.

É como um protesto, um grito de dor. Ser preto era um pecado. 😦

16. Uma noite no lírico

Acontece no Teatro Pedro II. O narrador, Frederico Bastos, sente um certo incômodo em estar em um ambiente que não é o seu. O seu colega Cardoso o introduziu “nesse mundo” (da alta sociedade) frequentado por fidalgos, desembargadores, comandantes  e dos poderosos novos ricos.

Ao entrar na sala encontra um amigo rico, Alfredo Costa, mas que detesta esse mundo e os dois começam a zombar de todos os presentes. Com muito desdém, Alfredo vai contando como cada um alcançou a riqueza, revelando seus “podres” e toda a hipocrisia da sociedade carioca. Quantos deles se identificaram, colocaram a carapuça? Não me estranha que Lima tenha sido persona non grata entre eles, por revelar essas verdades.

17. Como o “Homem” chegou.

Esse conto vem com esse prólogo de Nietzsche:

Deus esta morto; a sua piedade pelos homens matou- o.

Começa elogiando a polícia da república, no seu trato igualitário entre pobres e ricos, o que soa bastante irônico. Acho que quis dizer exatamente o contrário. E também é uma crítica ácida em relação à imprensa, que publica só o que pode beneficiar certos setores.

Uma cidadezinha pacata, onde não havia roubos nem violência. O delegado só aparecia de mês em mês e chamava- se “Cunsono” (sacou, né?). Ele recebeu ordens de prender um louco, que era empregado da delegacia fiscal. A partir daí começa uma verdadeira saga para ir prender o homem em Manaus.

18. Um especialista

Conto dedicado a Bastos Tigre, que foi um homem das letras, escritor, humorista, bibliotecário e publicitário de sucesso. Lembra do slogan: “Se é Bayer é bom”? É dele.

A história começa num bar no largo da Carioca entre “cafés e licores”, charutos e o bilhar. O Comendador, casado, 50 anos, e o coronel Carvalho, viúvo, ambos portugueses, são os protagonistas. Os compadres batiam ponto no boteco todas as tardes para conversar sobre tudo. O casado adorava as mulatas; o viúvo, ao contrário, adorava as estrangeiras. Ambos burgueses.

Uma das mulatas, Alice, vida muito sofrida, “comeu o pão que o diabo amassou”, por acaso, encontrou o seu pai: um dos portugueses.

19. O filho da Gabriela

Dedicado a Antônio Noronha dos Santos, escritor e melhor amigo de Lima Barreto. Conheceram- se na época da Escola Politécnica (que Lima abandonou, pois teve que trabalhar). Há semelhanças com a história da infância de Lima, como a perda da mãe muito cedo e os padrinhos ricos.

A narrativa começa com um discussão entre a “ama”, dona Laura, e a criada Gabriela. O filho desta está doente e ela precisa levá- lo ao médico no dia seguinte, mas patroa nega, não permite que a criada se ausente.

Gabriela pediu demissão e durante um mês ficou procurando trabalho. Enquanto isso, o filho estava de favor na casa de uma amiga, um quarto tão úmido que parecia uma “masmorra” e sendo maltratado pela dona da casa. O menino sentia muito medo, ficava calado e sofria todos os tipos de privações, sede e fome. O que modificou o caráter do menino.

No final, Gabriela aceitou voltar para a casa da antiga ama como cozinheira. Dona Laura e o Conselheiro Calaça pediram para batizar o menino, Horácio (4 anos), pois sentiram piedade do menino que estava pedindo esmola na rua. O casal não teve filhos e dona Laura tinha amantes.

A mãe de Horácio faleceu quando ele tinha 6 anos, o menino fechou- se ainda mais e perdeu toda a alegria. Sentia falta dos carinhos da mãe. O ambiente escolar hostil, o padrinho severo e distante. Tudo foi contribuindo para a tristeza de Horácio. O autor descreve o seu processo de depressão. Horácio delira, tem alucinações. As mesmas vividas pelo escritor. 😦


A novela da Globo “Fera Ferida” (1993) foi baseada na obra de Lima Barreto, em contos citados nessa resenha como “A nova Califórnia”, “Numa e a Ninfa”, “O homem que sabia javanês”, e os romances “Clara dos Anjos”, “Memórias do escrivão Isaías Caminha”, “Triste fim de Policarpo Quaresma” e”Vida e morte de M. J. Gonzaga de Sá”. A princípio, a novela iria chamar- se “A nova Califórnia”. A novela completa está disponível no YouTube.

Os dados biográficos citados a princípio  constam nessa edição lida. Altamente recomendada para estudantes, pois é bastante didática, vem com biografia, bibliografia, inclusive possui um questionário de sondagem no final do livro e o custo é baixo. Fiquem de olho na editora Martin Claret e nessa coleção “Obra-prima de cada autor”, mas não esperem uma encadernação bonita, pois é a mais simples possível, edição de bolso.

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Barreto, Lima. Os melhores contos de Lima Barreto. Martin Claret, São Paulo, 2005. Páginas: 159

A obra de Lima Barreto, assim como a de Machado de Assis, Joaquim Nabuco e Fernando Pessoa, por exemplo, já estão livres de direitos autorais e estão disponíveis em www.dominiopublico.gov.br . Portanto, só gasta dinheiro quem preferir os livros em papel;  mas só fica sem ler grandes obras quem quiser, já que o investimento é zero. Os arquivos estão em PDF e podem ser lidos em computadores, notebooks, tablets ou smartphones.

Literatura contemporânea: “Variedades”, de Fabio Gorodski


Vou apresentá- los um autor brasileiro contemporâneo, que vive em Berlim: Fabio Gorodski.

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Aqui o blog do autor. Fabio Gorodski tem uma vasta formação musical, conhecimentos notados no conto “comprimidos” (p.13)  e já teve um poema adaptado a um curta- metragem, veja.

Se não contei mal, o livro é composto por 39 contos. “Variedades: uma narrativa e vários episódios”, de Fabio Gorodski, vem com textos datados em épocas e lugares muito diferentes. Todos os títulos com letras minúsculas e a falta de vírgulas nas frases ao estilo de Saramago logo no primeiro conto; a segunda frase, ao contrário, existe uma vírgula sem necessidade. Alguma transgressão do autor, suponho, há trocas lexicais em alguns trechos.

Vejamos alguns contos, assim começa o primeiro  “aluga- se quarto e sala” (p. 7):

Uma cozinha uma mesa um copo. Um sachê: hortelã, e água. No ar, um quê de erva e um certo calor, ainda. Entre o recipiente e a mesa, uma toalha delgada (…).

Alguém morre num quarto e sala.  Esse foi escrito no México em 1988.

O texto que o escritor trouxe do Afeganistão (2001) foi intitulado “playmobil” (p.43), que remonta ao jogo de peças para encaixar, e é nessa linha que vai o texto, da geometria para chegar à conclusão que “o mundo é uma esfera”.

O conto (ou deveria chamar de crônica?) sobre o Rio de Janeiro é o menos sutil, mais cruel talvez, se compararmos com outros contos e a pobreza das várias cidades que Gorodski circulou. O olhar sobre a própria casa é mais imperioso, menos condescendente? “realismo mundano” (p.47) é chocante.

É possível classificar povos e culturas em poucas linhas? Não sei, mas o autor captou momentos, suas sensações diante de situações concretas. Como não sei absolutamente nada do autor, não sei se as cenas dos contos foram vivenciadas, presenciadas ou imaginadas, Fabio é músico e pode ter viajado para tocar em todos esses lugares, mas isso não importa, vamos no texto. Em “mixirica, gomo, caroço”, o autor escreveu, possivelmente, estando na China em 2009. Ele faz uma analogia de uma mixirica com o mundo. Concordo com ele:

Há dois tipos de pessoas, as transparentes e as opacas (p.93)

Nesse conto a história é sobre uma suicida.

O livro é um punhado de signos de elementos urbanos, do cotidiano do mundo. Além dos lugares citados, o autor esteve (?) no Canadá, Chile, Estados Unidos, Coreia do Sul, Japão, Tailândia, Suíça, enfim, muitos países. E com aquele olhar (in)discreto sobre as coisas que normalmente passam despercebidas.

O título faz jus ao conteúdo, realmente são histórias muito distintas entre si. A capa é interessante, a leitura começa nela, papel rasgado que deixa transparecer fragmentos de textos. Quem se interessar por esse livro pode comprar direto na editora Chiado. Aproveito para agradecer pelo envio do livro.

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Gorodski, Fabio. Variedades: uma narrativa e vários episódios. Chiado, Portugal, 2016. 132 páginas

“O amor assim, cura tudo”, uma análise do conto”Substância”, de Guimarães Rosa


Por Rômulo Pessanha

Essência

O texto que segue é sobre um pouco de brincadeira e diversão sobre Substância, conto que integra Primeiras Estórias de João Guimarães Rosa.

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Ah, o amor! Ai dessas claridades que nos deixam vislumbrar caminhos invisíveis. A pergunta essencial: você emitiu sua luz? Ou será quando toda luz que vem do alto se mistura com a que vem de dentro?

Ao brilharmos viemos ao mundo ou, nos dando a luz, nossa mãe, nascemos? A luz é a nossa mãe iluminada, luz pura das épocas do amor. Quando os pássaros sobejam no céu é porque os rebuliços na terra sucedem aos amantes e só beijam querendo voar os sentimentos que os namorados abraçam com todo olhar, amor é amar e amar é luzir.

Ah, o mês das noivas, dos apaixonantes apaixonados. É a riqueza mais viva que a vida assim é o amor quando ao nosso se junta mais, número infinito, o verdadeiro amor, a bem querência nossa e a da pessoa que amamos. Diria até ser primavera, mas todas as cores se perdem nos olhos dela, que é a mais bela, na fruta doce da vida, esperando por nós ser colhida, para cearmos da farta ceia o amor, nossa colheita que nada ceifa a não ser o amor, que nem perece até mesmo quando a dor nos enegrece e amarga a vida, porém a calmaria vem, pois tudo é certo: se há noite no dia quando tristes, dia virá para nossa noite, pois felizes estaremos. As coisas são assim eternamente intercalações. E se amor é eterno é só porque está em algum lugar dentro entre os corações.

Os três personagens Sionésio, Maria Exita e Nhatiaga caminham num palco iluminado do quê mesmo? Talvez pela sua própria existência e cada um executa o seu papel. Sionésio duvida, faz questões, se pergunta e se interroga, exita? Maria Exita não exita, responde logo e desconcerta e faz perceber que ela já sabia das intenções de Sionésio. Olhos firmes no trabalho que é sustento, fonte e luz para vida.

O amor pega Sionésio de jeito de forma tal que se o amor o incomodava, ao final, juntou-se a ele, e, perto, aconchegou-se: será? Será que Maria Exita sabia mesmo das intenções de seu patrão Sionésio?

Ah, todo amor tem sua luz, e toda vida seu amor para quem quiser experimentar seu lume. Amar no debaixo do ouro quente do meio-dia e encima da prata refletora do amido é como ter na mente a imagem de uma jóia viva: quando percebemos o amor não apaga sua luz dentro de nós e queremos apenas viver assim quando mesmo até dizemos perecer dela, em verdade vivemos dela e por ela, para ela, as portentosas luminosidades de amar, é alvo que não se apaga.

O pó nos lembra vida, quanto a morte nem nada é, e sendo menos que possibilidade de fato, ela, a de todos certa sorte, nem existe. A energia do amor contida ali nos luzentes: a amada e o amante. Mexendo e tornando pó a energia pura e verde da vida da planta da vida, a energia do amor armazenada e dispendida: quanto mais amor mais acúmulo de energia. Fartura em nós é o alimento do estado de graça, transcendências de nossas humanas sensações. O amor assim, cura tudo. A vida é para a vida toda? Exita nem pisca responde: claro que é, é claro que eu quero. Parece irreflexão responder assim tão rápido ou foi demorada a pergunta? O amor é um espelho em que a gente nem se vê direito o que a gente é, o que gente foi e nem o como a gente está.

O amor é afetuoso raciocínio e por isso a tal vez chega na hora de se pensamor nos raciocínios dos coraçãomentes modos de ver as coisas. Apaixonar e amar é nossa condição, somos do amor a sub instância em forma viva e pensante que igual ao sentimento não sabe ponderá-lo nem dizê-lo apenas se vive e se ama: você me quer? E como resposta: por demais da conta e para até nos depois de sempre. O lugar principal de nossa existência é o amor e seu palco é todo iluminado: o amor é o lugar que une os que amam. É algo que atua em nós de modo brusco, supetão, subitamente enquanto interpretamos nos palcos da vida seu significado intentando significá-lo e dar-lhe consistência.

Assim é quando amamos, ficamos percebendo e padecendo a luz do outro, um ponto num tempo infinito que percorre todos os caminhos de nossa existência e nos faz querer ter para nós somente aquele luminar de olhos que se remexem ao nos ver e a gente vendo assim, ficamos a brotar amor, nos fazendo estremecer, fazem nossos pássaros brilharem, e todo nosso ser voar pelos ares, todos percebem a festa e o sagrado do momento: joguem arroz!, joguem o pó!, trabalhem!, festejem! E mais a Nhatiaga servindo ali de vigia, para tornar abençoado o sagrado do momento. Enfim, ao final podemos dizer: se um dia estive aceso foi só porque amei alguém e esse alguém que amei me deu essa sua luz que entreguei novamente em forma de amor. E assim sendo, dois, que se amam para sempre muito, e para muitos e para todos o amor é a substância essencial de um ato para além das cortinas que se fecham ante o palco que aplaude.

Rio de Janeiro, Capital, 22 de Maio de 2016.

 

 

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Portrait of diligent pupil sitting on pile of books and looking at camera

Dênisson Padilha lança “Trilogia do asfalto” no próximo dia 19


Em seu quinto livro, Dênisson Padilha Filho traz contos premiados em edição de bolso.

convite

“Trilogia do asfalto” revela os binômios desolação/busca e vastidões/clausuras em contos permeados de poesia e não-ditos . O lançamento acontece em Salvador no dia 19 de abril, terça, às 19h.

Visitas ao passado, paixões e assuntos mal resolvidos. Estes são alguns dos elementos comuns aos contos do novo livro do escritor e roteirista Dênisson Padilha Filho, Trilogia do asfalto [Editora P55, 2016, contos]. O lançamento será no dia 19 de abril, terça-feira, na Tropos – GastroBar, Rio Vermelho.

O livro é uma edição de bolso que faz parte da já aclamada coleção Cartas Bahianas, da EditoraP55, e traz três histórias, duas das quais premiadas em concursos literários importantes e tradicionais.

O conto Roupa íntima, amor felino foi o vencedor do XXIV Prêmio Internacional Cataratas de Conto e Poesia de Foz do Iguaçu 2015 – Categoria Conto. O conto Como assim, dar pra ele? foi o 5º colocado no XXV Concurso Nacional de Contos José Cândido de Carvalho – 2015. Outra história é Naquela manhã de fogo, um conto cheio de não ditos, subtextos e poesia, e que sustenta as ideias de desolação, asfalto e rodovia que permeiam o volume.

DPF12 - Copia

Dênisson Padilha Filho (1971) é baiano. Escritor e roteirista de audiovisual. É mestre em Cultura e Sociedade pela UFBA. É autor de O herói está de folga (Kalango, 2014, contos), Menelau e os homens (Casarão do Verbo, 2012, contos e novelas), Carmina e os vaqueiros do pequi (2003, romance) e Aboios celestes (1999, contos). Participou de algumas antologias e tem textos publicados em diversas revistas literárias. Foi vencedor do Prêmio Internacional Cataratas de Contos-2015. Mantém a coluna CONTO AFORA em seu blog dpadilhafilho.wordpress.

Conheça outros trabalhos do autor | dpadilhafilho.wordpress.com/

Fontes | Dênisson Padilha Filho |(71)99122-5876| dpadilhafilho@gmail.com

Serviço:

Lançamento: Trilogia do asfalto [Editora P55, 2016, contos]

Onde: Tropos – GastroBar, Rua Ilhéus, 214, Parque Cruz Aguiar, Rio Vermelho (Salvador/BA). (71) 3023-3307

Quando: 19 de abril [terça], 19h.

Quanto: R$ 20,00

(Texto: divulgação)

                      

 

Resenha: “Sagarana”, de João Guimarães Rosa


Esse livro é essencial na biblioteca de todo bom leitor. É simplesmente um LIVRAÇO! Uma celebração à literatura, essa arte maior, que podia ser apreciada por muitos, mas poucos ainda entram para esse mundo mágico. Por isso o Falando em Literatura existe: para puxar a sua orelha. Que tal começar?! Larga aí esse vídeo- game, o celular, sai do Facebook, do Instagram, Snapchat, Twitter, deixa esses best- sellers bobos e pega um livro de verdade! Quando o professor da escola pedir, você já vai ter lido e não vai precisa usar o Mr. Google para fazer um trabalhinho superficial. As resenhas servem como guias, mas você precisa ter a sua própria opinião sobre as obras. #atitudeinteligente

E para os maiorzinhos que estejam procurando uma excelente leitura: anotem esse.

O doutor João Guimarães Rosa (Cordisburgo, Minas Gerais, 27/06/1908 – Río de Janeiro, 19/11/1967) foi um dos grandes, um escritor sui generis, único, difícil de aparecer outro similar. Atordoou e atordoa ainda com a sua genial literatura, dá “coisa” por dentro (será Síndrome de Stendhal?). A escritura de Rosa contem elementos raros na literatura: originalidade, criatividade e inovação, desses, quem sabe, o primeiro seja o mais difícil.

guimaraesrosa

João Guimarães Rosa era estiloso, sempre com essa gravata borboleta

No âmbito familiar, Rosa foi casado duas vezes, a primeira com Lygia (de apenas 16 anos), tiveram duas filhas, Vilma e Agnes. Vilma, a mais velha,  diz que era muito carinhoso, brincalhão e atencioso com as filhas.

Também foi casado com uma mulher incrível, Aracy Rosa, que conheceu quando foi vice-cônsul em Hamburgo (Alemanha) entre 1938-1942. Ambos ajudaram alguns judeus a escaparem da morte certa. Aracy é considerada uma heroína contra o antissemitismo.

Para entender um pouco como é a escritura de Guimarães Rosa: ele era um cara super culto, diplomata, médico, um poliglota, erudito, aprendeu muitos idiomas sozinho, um autodidata. Ele misturou essa erudição, seu conhecimento amplo de vários idiomas, usou isso tudo misturado com o português oral, reproduziu o falar do sertanejo, arquitetou enredos fantásticos e foi assim que produziu a magia. O que Rosa conseguiu foi espetacular, o colocou no patamar dos clássicos, dos imortais.

Existe um dicionário do léxico de Rosa, de Nilce Sant’Anna Martins, para ajudar a entender muitos vocábulos da obra, mas notei que o conhecimento de outros idiomas ajuda na compreensão do texto, por exemplo, “volva” ( do verbo “volver”, “voltar”, p.16), que consta no nosso dicionário, mas pouco usado no Brasil,  é muito utilizado em espanhol; portanto, um outro idioma ajuda na compreensão da nossa própria língua materna. Estudem idiomas, o nosso em primeiro lugar.

Segundo Vilma Rosa nessa entrevista, seu pai nunca havia estado no sertão quando escreveu seus primeiros livros. Quem o ajudava com dicas era o pai do autor. Ou seja, ele reproduziu o sertão mineiro sem nunca ter estado. A imaginação é a solução. Eu não acho que para escrever seja necessário viajar (viajar enriquece muito, mas para a literatura, seu instrumento é a imaginação e a memória, a criatividade e a capacidade de criação). Ainda segundo Vilma, os personagens dessa obra existiram realmente, são antepassados de personalidades da cidade de Itaguara, cidade natal do seu avô que era caçador, coronel, dono de uma venda, vereador e juiz de paz, ou seja, alguém muito importante na época. Rosa teve uma boa fonte de inspiração.

A escritura de Rosa tem o poder de mostrar o desconhecimento que temos sobre o nosso próprio idioma, o leque de opções é imenso, mas a opção, normalmente, é caminho batido. Abrir o dicionário é coisa de sábios. 

“Sagarana” é a junção de duas palavras, um neologismo, “saga”, que é uma palavra envolta em misticismo, pertence à mitologia escandinava, pode ser bruxa ou feiticeira, também o traje do guerreiro, e que usamos normalmente para designar narrativas lendárias ; e  “rana”, que no livro “O léxico de Guimarães Rosa”, de Nilce Martins, diz que é de origem tupi, mas a origem é mais antiga, vem do Latim, “ragire”, uma onomatopeia, não só referente ao coaxar das rãs, mas de outros animais como frangos e tigres (tem onça , sapo- bezerro e sapo em Sagarana, no primeiro conto que abre o livro), também é o nome de uma planta rasteira que cobre lugares pantanosos (veja aqui). O nome do livro e o seu significado dão o tom, condensam bem a essência dessa obra.

O seu único romance é uma obra- prima “O grande sertão: veredas” (leia resenha), mas os contos, não ficam atrás não, Rosa era um contista de primeira grandeza. “Sagarana” (1946) foi a sua primeira obra publicada quando tinha 38 anos, consta de nove contos.

“Sagarana” foi escrito antes do ano de 1938, nesse, ele participou de um concurso de contos, Guima usou o pseudônimo de “Viator” e o livro “Contos”, ficou em segundo lugar. Luis Jardim ficou em primeiro com “Maria Perigosa”, foi um escritor de muita relevância, mas já não é muito citado. Anotado na minha lista.

Vamos pincelar os contos, cada um deles dá uma tese de doutorado, são muitos os aspectos interessantes:

1. O burrinho pedrês

Lendo esse conto de umas 60 páginas, dá vontade de incorporar algumas expressões do “rosês”: “Manhã noiteira” (p.13), não é lindo isso? Aquelas manhãs que custam a clarear. Literatura- arte é isso:  trabalhar a linguagem e tornar o comum muito mais bonito, interessante.

Rosa deu voz, sentimento, coração a um burrinho chamado “Sete-de-ouros”, de estimação,  já está muito velho e quase cego, mas foi convocado para “tocar boiada”, motivo de chacota entre as mulheres da casa. O burrinho é o narrador em alguns momentos. Como ver os homens da perspectiva de um animal?

Major Saulo (o dono da boiada), Sinoca, Zé Grande, Tote, João Manico, Francolim, Benevides, Sebastião dos Lados, Leofredo, Raymundão, Juca Bananeira, Cata-Brasa, Silvino, Badu (Balduíno), Sebastião, que toca o berrante e evoca cantigas sertanejas, iniciando a marcha para trazer a boiada, 460 bois. João Manico vai montado em Sete-de-Ouros, o burrinho. No final do conto, montado por Badu. Ninguém queria montar o burrinho, dava vergonha, ele só era a opção quando não havia escolha.

Os vaqueiros vão contando seus “causos”: “Eu estou quase não creditando mais, Raymundão…”(p.37)

E essa sabedoria mística do homem do sertão (Rosa também acreditava): “(…) A lua não é boa…Ano acabando em seis…” (p.37).

Esse conto narra o difícil trabalho dos boiadeiros que cruzam o gado por rios, sol, chuva, frio, lama, condições adversas, profissão tão sacrificada e pouco reconhecida, ainda muito presente no sertão brasileiro.

–Escuta uma pergunta séria, meu compadre João Manico: você acha que burro é burro?(p.40)

E o touro bravo, assassino, o Calundu, amansado com simpatia e morto por um espírito ruim. E o pretinho chorão com sua cantiga bonita que emocionou os peões , “Aquilo parecia: que a vaqueirada toda virando mulher” (p.64). O menino, parece, lançou um feitiço que botou o gado todo a perder, “Causos” da roça contados com muita graça, apesar de serem trágicos.

O burrinho, que vive de teimoso, entre a “morrência” (essa não está no dicionário formal e nem no de Guimarães Rosa) e a vontade de querer viver, emociona. Sete-de- Ouros no tarot é representada por um jardineiro que está parado observando as suas plantas. Misticamente, significa uma análise do passado e seus resultado no futuro, o que vivemos é o resultado das nossas escolhas.  Esse naipe pode significar doçura, inocência, purificação. O lado negativo é a lentidão, a inatividade, a falência. Como em Guimarães Rosa nada é por acaso, esse nome também não é.

2. Traços biográficos de Lalino Salathiel ou A volta do marido pródigo:

Esse conto também começa com um burrinho. O cenário é rural,  trabalhadores extraem amianto de uma jazida nas terras de “Seo” Remígio. Constroem uma estrada. Brasileiros e espanhóis, negros e brancos, “seo” Marra (“Marrinha”) é o chefe. Os trabalhadores: Pintão, Laio, Lalino (Eulálio de Souza Satãthiel, Laio), Correia, Generoso, Tercino, Sidu, Waldemar, o espanhol Ramiro. Comem em marmitas e as esquentam em um foguinho improvisado. “Lalino trouxe apenas um pão-com-linguiça.”(p.82)

Laio é um sonhador. Ele quer montar uma peça de teatro na roça. “Ou então, seo Marra, os homens mesmo podem fantasiar de mulher…Fica até bom…” (p.86)

E o sonhador Laio também quer comprar umas terrinhas e conta tudo o que vai plantar nelas.Quem sonha e luta, pode realizar, independente do ambiente em que se encontre. O sonho modifica tudo. Quem tem a cabeça povoada de bons propósitos, contagia:

–Mulatinho levado! Entendo um assim, por ser divertido. E não é adulador, mais sei que não é covarde. Agrada a gente, porque é alegre e quer ver todo-o-mundo alegre, perto de si. Isso, que remoça. Isso é reger o viver. (p.87)

O capítulo encerra como se fosse tudo tivesse sido uma peça de teatro, isso dá uma remexida, uma reviravolta em tudo o que havia pensado antes. Um parágrafo de duas linhas quebrou o esquema todo, fantástico!

É um conto cheio de referências raciais, de cor. Hoje, quem sabe, Rosa não teria a mesma liberdade de escrever esse conto na era do politicamente correto. Ou sim? Não sei. Os tempos andam estranhos, há gente radical com poder que mistura ficção com realidade, e devia cuidar é da vida (real) para que a literatura não reflita realidades ruins.

Voltando ao conto, eu dei umas boas risadas com esse.

3. Sarapalha

“Sarapalha” é um lugar perto do cenário desse conto.

A história começa em “Tapera do Arraial”, uma povoado no Pará que está abandonado por causa de uma epidemia de malária. O povo debandou com medo da doença que dava uma “tremedeira que não desmontava” (p.127). Mosquito tinhoso, são as fêmeas as portadoras da doença.

Esse conto é uma aula de botânica, da flora e da fauna paraense. Que beleza. A descrição da paisagem é uma aula prática do que deve ser uma excelente descrição. Prestem atenção, meninos e meninas.

Perto de Sarapalha tem uma fazenda com alguns habitantes remanescentes: “uma negra” e “dois homens”, dois velhos, que não são velhos. A preta que passa um bom tempo sem nome e os primos Argemiro e Ribeiro. A empregada é “Ceição”. Os dois estão com malária, o médico deu um ano de vida. Eles vão vivendo entre as lembranças, a esperançada cura e a resignação da morte anunciada. E o sonho, o amor:

(…) Se ela chegasse, até a febre sumia… (p.136).

Ela o abandonou por outro, com ele já doente. Ele era obrigado a matar os dois, mas com a doença não poderia mesmo ficar com ela, então a deixou partir ilesa.

É um dos melhores contos escritos em língua portuguesa! É também uma história de desamor e de um amor impossível.

4. Duelo

Turíbio Todo, nascido em Borrachudo e seleiro de profissão. Um sujeito ruim, “mas no início dessa história ele estava com a razão”. (p.151)

Turíbio foi pescar, voltou antes do tempo e encontrou a sua mulher fisgada, dona Silivana (“a com belos olhos grandes, de cabra tonta”), por um cabo do Exército, Cassiano Gomes de 28 anos. Foi embora em silêncio para matutar uma vingança. Só que a vingança saiu mal executada. Xiiii….esse era o tempo em que vingança era feita com sangue.

O caçador virou o caçado. Só que o caçado, Turíbio, inventou uma estratégia para matar sem matar. Deu certo? Pensa que vou contar é? Leia!

5. Minha gente

José Malvino chega de trem a um arraial para empreender, a cavalo, o resto da viagem até a fazenda do tio Emílio do Nascimento. Ia passando Santana, inspetor escolar, que percorre povoados a trabalho. Decidiram ir juntos para Tucanos, 4 horas de viagem. Santana é viciado em xadrez e leva consigo um tabuleiro e muita literatura sobre o jogo. Os dois, um montado em um cavalo e o outro em um burro, vão jogando xadrez pelo caminho.

O tom e o léxico desse conto é totalmente diferente dos anteriores. É mais erudito, o narrador é Malvino, que é um “capiau” letrado, e Santana, seu interlocutor, fala “corretamente”. A paisagem é rural, mas os homens são sertanejos escolarizados, estudaram, Santana mais que o outro. Malvino sabe dos perigos do mato, do que pode ou não pode fazer ou comer, mas aprendeu o jeito da cidade.

O aprendizado do “capiau” vem da observação da natureza ou de casa, dos pais e mais velhos. Disse o pescador Bento:

– Ai, que mundo triste é este, que a gente está mesmo nele só p’ra mor de errar!…E quando a gente quer concertar*, ainda erra mais…” (p.205, “concertar” com “c” mesmo).

Esse é o conto mais enigmático. Não dá pra prever nada do que vai acontecer. A vida mansa dá uma reviravolta e um acontecimiento inusitado abala a paz da fazenda, mas a história segue ainda cheia de elementos inesperados.

O amor sempre andando e desandando tudo. Esse texto, nas últimas páginas, principalmente, tem um lirismo romântico, trechos de prosa poética, doces.  A vida e o amor, vistos como um jogo de xadrez.

6. São Marcos

É um dos contos que mais gosto, ri muito e li em voz alta. Tente sempre fazer isso, a literatura quando ganha voz acontece uma aura mágica. Começa engraçado, depois fica sério.

O narrador- personagem dessa história é o José (“Zé”) e é uma das mais engraçadas. Fala das superstições do povo da roça, Zé acredita, mas diz não acreditar. Existe uma série de palavras proibidas, porque atraem maus sortilégios e lugares também proibidos, passar depois da meia- noite nem pensar!

Você tem que ler esse conto, o livro todo na verdade, com calma, se pular um trecho faz falta, tudo é essencial.

E se você ficasse cego no meio do mato, sozinho, e não pudesse esquivar- se dos perigos? A causa e a solução? Só lendo! Fantástico!

7. Corpo fechado

Esse conto começa com um fato trágico, mas contado de forma tão engraçada que não dá pra evitar a gargalhada. Rosa era muito brincalhão e divertido (segundo Vilma Rosa) e isso está sim refletido na sua obra. Ele tinha bom humor, um sujeito divertido.

Pra você aí, o sujeito que coça a cabeça… é piolho ou sinal de indecisão? Morro com o Guima! hahaha

Manuel Fulô foi contando sobre os valentões, os que bebiam cachaça, aprontavam, matavam e que morreram de forma trágica, todos castigados, lá no povoado de Laginha, onde mora. Lugar “monótono” (como?!), olha essa sinestesia que engraçada:

–Mas, gente, que é que vocês fazem de noite?

–De noite, a gente lava os pés, come leite e dorme. (p.271)

Mané Fulô também gostava de cachaça, de mulheres, de conversa fiada e de não trabalhar. O narrador- personagem, a voz que trava os diálogos com Fulô é o doutor do povoado. Mané Fulô, dona da égua Beija- Flor ou Beija- Fulô, vivia de aparências, “tira onda” montado na sua mula e diz que é filho do maior comerciante do local. Um trambiqueiro. Trabalhou para os ciganos, que eram mais trambiqueiros que ele, depois quis se vingar. Algumas partes hilárias, ele contratou dois homens e foi até o dentista deles, modificando seus dentes para que se parecessem ciganos, para enganá- los vendendo cavalos ruins. E enganou. Ninguém queria mais fazer negócio com Fulô, pois ele “enganava até cigano”.

Targino, o valentão local, se engraçou com a das Dor, a moça que Fulô estava de casamento marcado. Fulô amarelou, mas usou uma estratégia para vencer o adversário poderoso. Magia!

8. Conversa de bois

Manuel Timborna, das Porteirinhas, afirma que os bichos falam com os humanos. E ele toca a contar “um caso que se deu”. Quem frequenta ou frequentou alguma roça no interior do Brasil, sabe: as rodas de “causos” são bem comuns.

Para os bois, o bicho é o homem:

– O homem é um bicho esmochado, que não devia de haver. Não convém espiar muito para o homem. É o único vulto que faz ficar zonzo, de se olhar muito. é comprido demais, para cima, e cabe todo de uma vez, dentro dos olhos da gente. (p.312)

Eu nunca ouvi um boi falar, mas que eles falam, falam.

9. A hora e a vez de Augusto Matraga

O tom desse conto é um pouco mais sério, com passagens emotivas.

Matraga não é Matraga, não é nada. Matagra é Esteves. Augusto Esteves, filho do Coronel Afonso de Esteves, das Pindaíbas e do Saco-da-Embira. Ou Nhô Augusto (…) (p.335)

Casado com dona Dionóra, pai de Mimita de 10 anos. Um homem poderoso, com muitos capangas, anda entre as fazendas e com outras mulheres, não dá atenção à esposa e filha. A esposa teme o marido.

Levaram duas mulheres para serem leiloadas para a igreja. Como?! hahaha…sim. Augusto ficou com a capenga e foi assim que tratou a pobrezinha:

(…) Você tem perna de manuel- fonseca, uma fina e outra seca! E está que é só osso, peixe cozido sem tempero…Capim p’ra mim, com uma assombração dessas!… Vá- se embora, frango- d’água! Some daqui! (p. 339)

Disse o tio de Dionóra:

–Sorte nunca é de um só, é de dois, é de todos…Sorte nasce cada manhã, e já está velha ao meio- dia… (p.341)

Ovídio Moura levou embora as duas pra viver com ele e mandou Quim Recadeiro avisar Augusto, que está endividado, prestes à falência e os capangas correram, não quiseram “justiçar” o patrão, foram todos com Major Consilva. Antes de matar Ovídio e Dionóra, ele tem que matar primeiro o Major e os capangas. Mas foi executado pelos mesmos- isto é- foi o que pensaram. Pensa que vou contar o resto? Não! 🙂

-Reze e trabalhe, fazendo de conta que esta vida é um dia de capina com sol quente, que às vezes custa muito a passar, mas sempre passa. E você ainda pode ter muito pedaço bom de alegria…Cada um tem sua hora e a sua vez: você há de ter a sua. (p.350)

Esse é um conto que trata de honra, da redenção pelo arrependimento e pela fé.

11402998_619363471499347_2017071032095490125_nRosa, J. Guimarães, Sagarana, Nova Fronteira, 28ª edição. Rio de Janeiro, 1984. 380 páginas

Na verdade, eu já tinha lido essa obra na época de estudante universitária. Quando você pega um livro que leu há muito tempo e relê, você é outra pessoa e o livro também, é como se fosse a primeira vez. Livros como esse são fontes inesgotáveis, sempre há algo novo.

Esse livro exige esforço. E isso é bom. Pela minha experiência, ler livros ruins, “fáceis”, não é melhor do que não ler nada. Literatura ruim não proporciona benefícios, nem mesmo os cognitivos, pois não desafiam o cérebro. Você vai desperdiçar dinheiro e tempo, que é a coisa mais preciosa que temos na nossa vida. Repense suas escolhas! E não venham me dizer o contrário, “que ler qualquer coisa é melhor que não ler nada”, já tem gente demais defendendo isso. A nossa praia aqui do Falando em Literatura é outra. Nossa defesa é em prol da literatura- arte.

Eu não sei, só sei que Guima deve estar feliz, aonde estiver, sentindo as vibrações que provoca a sua literatura nas pessoas. Fazer sorrir, fazer gargalhar em literatura é muito difícil. Passei dias divertidos  e emocionantes lendo esses contos.

“Sagarana” está sempre em movimento, as pessoas sempre de passagem nas suas paisagens sacramentadas, incorruptíveis, perenes. Uma metáfora para a própria vida. O homem, só de passagem, vira história.