A descoberta da vida, do amor em Clarice Lispector


Por Rômulo Pessanha

Começo pelo começo que ninguém sabe quando começou. A busca pela origem da matéria que contém a vida é algo que nos causa medo e paixão, terror e medo, sensação de aventura e medo, tudo porque a origem da vida é como uma massa misteriosa, a vida não para de nascer a cada instante dentro de nós.
A Clarice Lispector apresenta-nos aqueles momentos de descoberta que as pessoas comuns sabem bem quando estão descobrindo algo, como a descoberta do amor, da solidão, do desejo, mas a descoberta da vida, essa sim, ninguém ainda ousou dizer sua forma e sua luz.

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A constatação de que apenas baratas estariam presentes no momento que surgiu o primeiro ser humano é algo bíblico. Só as baratas seriam nossas testemunhas: onde se encontraria o evangelho segundo a barata? Estaria na sua massa branca interior, com aquele cheiro de barata? qual a semelhança entre a massa branca e o cheiro da barata com o cheiro das escrituras sagradas que ninguém nunca sentiu? Qual a relação entre sentir a massa gosmenta de uma barata esmagada contra uma porta de um armário qualquer e verificar ali, um ser vivo te observando com a metade de seu corpo esmagado, que a vida também é uma massa sagrada, como as escrituras que saíram de dentro do mistério dos fatos ocorridos no mundo real ou talvez das intenções subjetivas de quem as escreveu?
Ninguém sabe quem esteve presente ao nascimento da primeira barata … Talvez Deus? … Sim, porque nós nos consideraríamos mais importantes? Quem esteve presente ao nascimento de Deus? Deus é maiúsculo ou minúsculo? Se antes de sua criação nada existia então Deus ou deus não era. Era apenas o nada. Deus era apenas o nada, quando nada estava criado. Se nada existia, se nada era regido então sua existência era nula. Qual a massa de deus, ou Deus?
Em Clariceanos aspectos, a religião é uma vida. A vida se origina apenas para falar de sua banalidade, de como ela frágil, pode ser ficcionada em tragédia reconhecíveis pelo mais banal ser humano baratizável, ou, melhor dizendo, que se considere barata perante o mundo banalizável, como no mundo moderno a preocupação com sobreviver se torna mais importante do que o viver. Mais para além de ficção tudo pode ser reduzido ao nada. Assim é o que se quer chegar: o ponto final que deu início a tudo o que não existe. Teorias se tornam matérias para discussões.
Discutir o invisível é o deleite de quem procura saborear o invisível da vida.

O amor surge como descoberta de que dentro de alguém algo desperta mais vida em nós. Passamos de leve a compreender que em alguns momentos estamos presentes no nosso próprio nascimento: é quando a paixão surge. Mas nós talvez nem teríamos consciência do momento de nossa origem. Para isso seria preciso voltar atrás, no tempo, no passado e constatar que nem esforço para isso seria preciso, pois o guardamos conosco em algum ponto inscrito no branco da vida, como papel para ser escrito, vida para ser vivida.

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Resenha: “A casa da paixão”, de Nélida Piñón


Eu me sacrificarei ao sol. Meu corpo está impregnado de musgos, ervas antigas, fizeram mazelas e chá do meu suor, todos da minha casa. (p. 49)

Esse é um trabalho fino de escritura. A obra “A casa da paixão” fala sobre sexualidade e erotismo, mas contada figurativamente (longe da pornografia) e até um certo hermetismo, um livro que faz o leitor pensar e imaginar o que é que o texto quer dizer, é muito metafórico, cheio de imagens poéticas e silêncios. A intimidade contada por imagens escritas, cinematográficas.

As primeiras páginas deixaram- me a impressão de que se tratava de um incesto entre pai e filha, depois vi que não, que era uma moça se masturbando (e o pai fingia que não via). Marta, o seu nome. A mãe faleceu no seu parto. Marta cresceu cuidada pelo pai, que sente uma estranha atração pela filha (quando adulta) e vice- versa.

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Nélida Piñón é solteira e sem filhos, uma vida dedicada à literatura (foto: Facebook da autora)

Marta vê o mundo com seu órgão sexual. O dela e o dos outros. Ela vê sexo em tudo e em todas as partes. Freud explicaria com propriedade (eu não!) (p.22):

Pela manhã, Antônia recolhia o leite. Tocava o ubre da vaca como se o amasse, fazia uma espécie de amor naquela carne caída, lembrando a máquina do homem. Marta ruborizava- se com a comparação. Que o modo de Antônia extrair leite mais parecesse uma formosa ejaculação.

A estrutura, o bom trabalho linguístico é incontestável, mas o enredo em si provocou-me aversão em muitos momentos. Essa oba lembrou- me o estilo é de Clarice Lispector, seu livro “A paixão segundo G.H.” foi publicado em 1964, “A casa da paixão” em 1972. Não sei se serviu de inspiração ou influência. Em “G.H” há uma barata, em “A Casa”, há uma galinha ou uma mulher galinha, a criada, descrita quase como um animal imundo e mal cheiroso, mas que ainda assim provoca uma atração na pervertida Marta. Também lembre de Clarice em “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres, de 1969.

Nélida colocou Marta observando a velha criada Antônia recolhendo ovos do galinheiro, mais que isso, Antônia queria ser a própria galinha (p.28):

Ela contemplava o feno quente, justamente onde o bicho encostara a parte mais vil do seu corpo, para Marta a mais grata, ardente, a ponto de querer enfiar o dedo pelo mesmo caminho que o ovo conheceu, não para sentir o calor que a coisa fechada e silenciosa conservava, mas reconstruir de algum modo a aprendizagem da galinha, que Antônia talvez esclarecesse o domínio do seu amor. (…)

Antônia agarrava o ovo trazendo- o ao nível do rosto, cheirava a coisa entumecida, recém- abandonada na terra e, além de cheirar, beijou o ovo com sacrifício (…). Sem suportar, no entanto, o amor que desprendia daquela coisa quente, úmida, que uma galinha entre tantas ali manufaturara (…)

Antônia foi escorregando para o centro da terra, onde a galinha também nascia, todos da sua espécie (…) Antônia absorvera e agora vivia em sua pele. Ali ela ficava muito tempo, severa, até que as pernas sobre o feno se escancararam e imitaram uma galinha na postura do ovo.

Esse livro está com o título errado, deveria ser “A casa da perversão”, pois ver erotismo em coisas opostas a isso, é  perversão. Qual o limite do desejo? Existe limite? Existe dentro da nossa cultura ocidental, socialmente; individualmente, na solidão (ou não) já é outra história. Quem pode dizer o contrário?

“A casa da paixão” é considerada por muitos a obra- prima de Nélida Piñón. Não sei, porque ainda me falta muito por ler.

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Nélida Piñón na sua casa no Rio de Janeiro com a sua cachorrinha Suzy Piñón (foto: Facebook da autora)

Marta estabelece uma batalha silenciosa com o pai. O provoca sexualmente, fica nua e ele percebe que é de propósito. Que estranho triângulo esse de Marta, o pai e Antônia, que é tratada como bicho. O pai toma uma resolução (p.40):

Quase extinguindo- se a consciência jurou vingar- se. Perdão ainda preciso, resmungava. Recordou o homen da igreja, mão de árvore, ele o julgara então severamente.

–Se é de macho que ela precisa, eu lhe darei.

Entra em cena Jerônimo, trazido pelo pai, futuro pretendente de Marta. Pai e filha não mantém nenhum tipo de contato físico, temem, judiam- se, vingam- se. A filha quer ser livre e o pai tenta contê- la, sem sucesso, ela detesta Jerônimo porque foi o pai que o trouxe. Uma moça virgem que só pensa em sexo e se acha a mais desejada de todas, nem o seu pai escapa. Essa parte é  irritante. Tanta malícia pode existir em uma moça jovem e que nunca transou? Parece que sim, ela mesma se autodenomina “selvagem” (p.55).

O corpo nessa obra é o centro do mundo. Marta ama o corpo masculino como objeto de prazer, nada mais, pois detesta o que pensam, o que são (p.53):

(…) Odeio os homens desta terra, amo os corpos dos homens desta terra, cada membro que eles possuem e me mostram, para que eu me abra em esplendor, mas só me terão quando eu ordenar.

Há uma reiteração das palavras “sol”, “virgem” e “nudez”, que vão e voltam, vão e voltam, insistentemente, entre o “abrir de pernas”, que mudam de ordem na sentença, mas dizem sempre a mesma coisa. O narrador- personagem, a 1ª pessoa fez o personagem soar com muita prepotência. Marta cai antipática, com um excesso de confiança para a sua condição (a inexperiência e a juventude), pensamentos laboriosos demais (que soam estranhos), que beiram à inverosimilhança. O ritual prévio ao acasalamento é quase o livro inteiro.

Que acontecerá com o casal Jerônimo e Marta? E Antônia e o pai? Já contei demais, agora é contigo!


Nélida Piñón é carioca, descendente de espanhóis da Galiza. Possivelmente, a escritora brasileira mais premiada e internacional que o Brasil tem. Foi a primeira mulher a presidir a Academia Brasileira de Letras. Aqui na Espanha, toda (ou quase toda) a sua obra está traduzida ao espanhol.

Essa é a edição portuguesa lida. O romance é curto, pouco mais de 100 páginas, nessa edição tem um posfácio de Sônia Régis, escritora de alguns estudos literários, não achei muita coisa sobre ela, nem sua biografia na Internet,  o próprio livro não informa.

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Piñón, Nélida. A casa da paixão. Bertrand Editores, Lisboa, 2007. 136 páginas

Livros que viraram filmes


É impossível dissociar cinema de literatura, já que antes de virar imagem, precisou existir um texto, um roteiro ou a adaptação de alguma obra. Uma das maiores fontes de inspiração para o cinema, sem dúvida, é a literatura. Clarice Lispector, Gianfrancesco Guarnieri, José de Alencar, entre outros…

Veja o texto completo aqui, no blog PalomitaZ, na Revista BrazilcomZ.

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Sorteio de livro! Antologia de contos de Clarice Lispector


Para comemorar as cinco mil curtidas na fan page do Falando em Literatura, vou sortear um livro muito bom: Contos de Clarice Lispector, edição portuguesa da editora Relógio d’Água. A antologia reúne os livros A legião estrangeira, Felicidade Clandestina, A via crucis do corpo, Onde estivestes de noite e A bela e a fera. 

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O sorteio será realizado no dia 19 de outubro (adiado para 20 de outubro, segunda- feira)*. Pode participar gente de qualquer parte do mundo, só é necessário curtir a fan page do Falando em Literatura e seguir o blog. Avise aos amigos!

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Cinco mil na fan page, cinco mil e dois no perfil Falando em Literatura I e 448 que o seguem, mais 384 pessoas no perfil Falando em Literatura II e mais 578 pessoas seguindo o blog= 11315 pessoas acompanhando o nosso blog, que já não é meu, é nosso!

Para um blog que não tem patrocínio, nem propaganda e escrito por uma andorinha só, está muito bom! Ah, e sem falar de best-sellers (livros campeões de vendas, com propaganda massiva e quase sempre de qualidade duvidosa), só literatura de primeira por aqui. Obrigada a todos e viva a literatura!

UPDATE: Para garantir a sua participação, deixe um comentário nesse post. Cada comentário tem um número e o sorteio será feito dessa forma, pelo número do seu comentário.

UPDATE 2: O sorteio será realizado no dia 20 de outubro, segunda- feira. O dia 19 de outubro é o dia que menos gente conecta e a pessoa sorteada pode não ver.

PDF grátis “Só para mulheres”, Clarice Lispector


A escritora Clarice Lispector (Ucrânia, 10/12/2014- Rio de Janeiro, 09/12/1977) não era muito boa dona- de- casa, não sabia fritar um ovo, mas escreveu crônicas ao longo da década de sessenta com receitas, conselhos de moda, beleza e comportamento para mulheres. Encontrei o PDF em espanhol de “Só para mulheres”, muito bom para quem está estudando espanhol.

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Clarice escrevia seus textos na sua casa com o barulho de dois filhos pequenos, cachorro e empregada. Não precisava de silêncio e nem reclusão.

Clique e salve o PDF no seu computador: SÓLO PARA MUJERES- Consejos, recetas y secretos

O absurdo da reprodução irresponsável


A Internet trouxe muitas coisas boas, como a comunicação entre pessoas do mundo todo, a facilidade de pesquisa e a informação em tempo real. Mas também proliferou informações incorretas e duvidosas de gente que não está preocupada em ir nas fontes, documentar- se e só então reproduzir na Internet. Eu já vi vários textos atribuídos a escritores equivocados e a partir de agora vou começar a documentar e reproduzir aqui, serve como puxão de orelha. O site KD Frases é um campeão em fazer esse tipo de coisa, encontre o erro:

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Percebeu? Texto (supostamente) de Rachel de Queiroz com foto de Clarice Lispector.

E o erro vai sendo repassado como certo. Não sei quem copiou de quem, mas o blog Varal do Brasil reproduziu a mesma foto como sendo de Rachel de Queiroz e o mais absurdo é que embaixo a autora do blog coloca uma foto da verdadeira Rachel que é totalmente diferente dessa, nota- se que são pessoas diferentes, veja:

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Rachel parece com Clarice?!

Todos nós erramos, podemos nos enganar, mas um erro tão grosseiro não dá! Essa história lembra- me aquela brincadeira infantil do telefone sem fio, o que chega no final raramente é o que saiu no início. Por isso, amigo leitor, não acredite em tudo o que encontrar na Internet, pois há muito copista sem critério e muita informação errônea.

UPDATE: o texto realmente é de Rachel de Queiroz, na verdade, uma entrevista de 1991.

Resenha: A maçã no escuro, Clarice Lispector


(…) A amizade é muito bonita mesmo. Mas o amor é mais. Eu não podia ter amizade por um homem que eu tinha amado. (p. 206)

Em “A maçã no escuro”, Clarice Lispector (Chechelnyk- Ucrânia, 10 de dezembro de 1920 – Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977)  conta a história de Martim, um homem que foge na noite, se refugia num hotel e depois numa fazenda, pois pensa que havia matado a esposa. Completamente corporal, sentimos toda a agonia física de Martim durante essa fuga. O  corpo é o artificie da escritura de Clarice durante todo o romance. O ambiente é o das sensações, do pensamento, nós vamos construindo o nosso entendimento aos poucos. Um livro denso, como costuma ser Clarice com a sua literatura psicológica. Nota- se claramente que esse livro foi o precursor de “A paixão segundo G.H.” (1965), a protagonista (aquela que comeu uma barata) e a forma de narrar é muito parecida com “A maçã no escuro”, inclusive usando expressões iguais ou similares, como as “coisas sem nome”, coisas que os narradores de ambos livros não conseguem nomear, sensações que parecem não ter nome. Martim está no coração do Brasil e foge na escuridão, anda de olhos fechados há duas semanas, desde que sua casa foi incendiada. Clarice escreveu esse livro quando morava no exterior entre Torquay (Inglaterra) e Washington (EUA), e foi escrito com trilha sonora: ela ouviu até a exaustão a Quarta Sinfonia de Brahms. Ouça:

A sequência de fotos encontra- se na biografia de Clarice “Uma vida”escrita pelo americano Benjamin Moser:

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Clarice na sua casa por volta de 1970

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A escritora já consagrada e o filho Paulo

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Clarice no seu trabalho diplomático, ela casou- se com o diplomata Maury Gurgel Valente

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Clarice e  Maury Gurgel Valente, mais tarde divorciaram- se

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Clarice já nos seus últimos anos de vida

Este é o quarto romance de Clarice Lispector, “A maçã no escuro” (1961) é dividido em três capítulos: “Como se faz um homem”, “Nascimento de um herói” e “A maçã no escuro.

No primeiro capitulo, Martim aboliu a palavra “culpa” do seu entendimento e a substituiu pela palavra “ato”. Não se arrependeu de ter cometido um crime, que ele substituiu pela expressão “o grande pulo”, considerou uma vitória. Agora o único inimigo que tinha eram os outros e não a si próprio:

Sim. naquele instante de espantada vitória o homem de repente descobrira a potência de um gesto. O bom do ato é que ele nos ultrapassa. Em um minuto Martim fora transfigurado pelo seu próprio ato. Porque depois de duas semanas de silêncio, eis que ele muito naturalmente passara a chamar seu crime de ‘ato’. (p. 36)

Mas arrependeu- se em seguida de tal pensamento. Ainda estou tentando entender Martim, tudo parece contraditório. A impressão que dá é que Martim é uma espécie de psicopata, tenta justificar e perdoar o seu ato para poder continuar vivendo. Mas não é isso, afinal os psicopatas são desprovidos de qualquer moralidade, são frios e não têm empatia pelo outro.  Alguém que comete um ato muito ruim, geralmente sente o peso da culpa, como se estivesse sujo, indigno, mas com Martim isso não acontece, é bem ao contrário, o mal funciona como uma espécie de purificação. Clarice entrou no pensamento de alguém que se achava assassino, o narrador- onisciente nos conta tudo:

Desta hora em diante teria a oportunidade de viver sem fazer o mal porque já o fizera: ele era agora um inocente. (p. 42)

 Morto de fome e de sede, Martim encontra uma fazenda pela rota de sua fuga e a dona Vitória acaba por contratá- lo por casa e comida. Fazenda não, um sítio decadente. As sensações do primeiro encontro gera um combate de percepções entre os envolvidos, que demanda uma série de conhecimentos prévios sobre a nossa percepção do outro. Vitória e a hermética prima Ermelinda moravam juntas, essa veio de visita e ficou:

‘O que é que faz com que eu, não fazendo nenhum ato de maldade, seja a ruim? e Ermelinda, não fazendo um ato de bondade, seja boa?’ O mistério das coisas serem como nós sabemos que elas são (…) (p.72)

Ermelinda passou a infância toda doente e virou uma adulta irresponsável, como se todos tivessem que estar à sua disposição, como se o passado triste a desse carta branca para procrastinar. Ermelinda adora uma “vagabundagem”, tem medo do escuro, fala sem dizer nada e é um pouco espírita. Vitória é obrigada a carregar esse “peso morto”, assim sente Vitória. A moça Ermelinda apaixona- se por Martim. É magistral a descrição das sensações físicas e psicológicas que Clarice faz da paixão no corpo da mulher. (p. 90) Ermelinda, a prima indesejada. Mas Martim, o homem de olhos azuis e “sobrancelhas baixas” gosta é da mulata fogosa que trabalha na fazenda. Martim estabelece uma relação com Vitória de total subserviência. Ele obedece as mil ordens de Vitória e nada mais. Vitória incômoda, o espreme, quer saber o segredo do homem, mas esse aguenta tudo e não revela. Martim achava as duas primas chatas e Ermelinda feia, “uma adolescente envelhecida”. O cavalgar junto com Vitória numa montanha com o vento batendo o fez enxergar a Vitória e a si mesmo. Quem sabe o início de um amor, principalmente consigo próprio. Foi aí que ele começou a se encontrar.

No segundo capítulo (p. 126), Martim sente- se feliz e tem a necessidade de comunicar- se. As lembranças da sua vida anterior vêm à tona, lembra do seu filho. Ermelinda continua insistindo em conquistar Martim, que tenta ignorá- la quando ela começa com as suas sandices:

(…) você não é doida. É que você vive muito isolada e já não sabe mais o que se conta aos outros e o que não se conta. (p. 130)

Clarice faz longas descrições do mundo interior de Martim, que busca a sua “reconstrução” como ser humano depois do ato de matar. Foi quando Vitória falou no alemão, o mesmo que estava trabalhando no hotel na noite do crime de Martim e agora ele desconfiava de Vitória, será que ela conhecia o seu segredo?

Agora é a época de Martim arriscar tudo, como na adolescência:

Sim. A reconstrução do mundo. É que o homem acabara de perder completamente a vergonha. Não teve sequer pudor de voltar a usar palavras da adolescência: foi obrigado a usá- las pois a última vez que tivera linguagem própria fora na adolescência; adolescência era arriscar tudo- e agora ele estava arriscando tudo. (p. 140)

Essa reconstrução desse mundo é o do seu mundo interior. A viagem psicológica de Martim o leva a sentir- se livre e a amar a vida que tem, a sua vida e o trabalho no sítio, encerrou a sua vida anterior e sentiu- se feliz.

No terceiro capítulo (p. 203), o desencanto de Ermelinda que amou, mas tinha deixado de amar; o encontro de Vitória com o alemão. O desencanto também de Martim ao descobrir a cobiça de uma criança que brincava tranquila montando tijolos e lhe exigia um presente, correu incrédulo, com a sujeira da inocência, com o olhar da menina e retrocedeu no seu processo de reconstrução, viu-se a si mesmo, sujo. Clarice usa adjetivos que hoje são considerados politicamente incorretos, será que ela os usaria hoje? Chama a menina de preta, a compara com uma prostituta, a menina é má. Nós conseguiríamos sentir o mesmo horror que sentiu martim sem esse dado da cor da pele da criança. Por outro lado, literatura nunca tem que ser politicamente correta, na ficção pode tudo. A liberdade artística está em primeiro lugar, mas que choca, choca.

Martim é chamado pelo prefeito de Vila Baixa e dois investigadores. Martim revela que não é engenheiro e sim “estatístico” e só na página 310, quase no final do romance descobrimos qual foi a motivação do crime (que não vou contar) e a revelação de que a esposa não morreu só vem na página 314, esse spoiler já está revelado em quase todas as resenhas e sinopses na internet, o que tira a graça da história e é uma pena. Ler o livro todo sem saber desse detalhe fundamental tornaria a obra muito mais interessante, mas o estrago já está feito, então vamos lá:

– Talvez o senhor fique triste, disse então com ironia o investigador de fumo preto na lapela, mas ela não morreu. A assistência chegou a tempo, e ainda conseguiu salvar a sua esposa.” 

Trechos destacados do livro:

(…) Estar contente era um modo de amar. (p. 28)

(…) houve uma época que o mundo era liso como a pele de uma fruta lisa. (…) A vida naquele tempo ainda não era curta. (p.44)

(…) Aquele homem possuía uma cara. Mas aquele homem não era a sua cara. (p. 67)

(…) O que tem que ser, tem muita força. (p.82)

(…) Meditar era olhar o vazio. (p. 90)

(…) Por uma obscura necessidade de preservação, estava procurando recuperar no campo aquele minuto em que ela ousadamente aceitara amar aquele homem: procurava recuperar o minuto para destruí-lo. Mas, estonteada, talvez soubesse que também a necessidade de destruir amor era o próprio amor porque amor é também luta contra o amor, e se ela o soube é porque uma pessoa sabe. (p. 91-92)

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  A edição portuguesa que eu li:

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Lispector, Clarice. A maçã no escuro. Relógio D’água, Lisboa, 2000. 348 páginas

Você pode ver aqui os vídeos da única entrevista de Clarice Lispector pouco antes de falecer.

O que o livro tem de bom: gosto da forma como Clarice escreve com o corpo todo de Martim, o corpo é o artífice de sua escritura. Também gostei de conhecer a Clarice na sua faceta de narradora de acontecimentos, fugindo da sua tradicional literatura psicológica, muitos trechos de prosa (quase) poética.

O que o livro tem de ruim: Clarice é repetitiva, diz a mesma coisa muitas vezes, principalmente nos trechos das descrições psicológicas de Martim. Talvez sua intenção tenha sido mostrar o pensamento labiríntico do personagem, como ele dá mil voltas sobre o mesmo pensamento para no final concluir o que havia pensado no início. Como leitora, digo que foi cansativo. Também não gostei da demora em conhecer qual o crime que Martim cometeu.