Bandido Social e a neofavela: descolonização e criminalidade em “Cidade de Deus”, por Ísis Moraes


Você sabe o porquê do Brasil ser tão violento? O colonizador saiu do Brasil, mas a mentalidade da colônia permanece. Leia o irretocável e esclarecedor texto de Ísis Moraes:


 

Bandido Social e a neofavela: descolonização e criminalidade em Cidade de Deus

As margens da sociedade sempre reservaram aos seus inquilinos uma ampla galeria de privações. Da miséria mais sofrível à mais abjeta ausência de cidadania, despossuídos de toda sorte viram-se, no largo curso da História da humanidade, animalizar e coisificar em favor das elites. Subjugados por um poder que esteve quase sempre além de uma compreensão por vezes tolhida pela fome, pela jornada exaustiva de trabalho, pela inacessibilidade ao sistema educacional, pela dor física e moral, pelo medo e outras formas de coerção, esses condenados à marginalidade viveram quase sempre em função de um único mediador: a violência. Da mais cordial à mais dolosa, é a voz dela que os embala desde o berço até as valas onde depositam seus corpos anônimos e espoliados.

Não é de se estranhar, então, que a linguagem que lhes soa mais familiar seja aquela que ajusta a palavra “defesa” à lâmina afiada que se insurge contra a garganta do opressor. Assim, se por um lado é a voz da violência que os conduz ferozmente à servidão silenciosa, é a sua força que os liberta e os põe de novo frente a frente com a humanidade perdida. Como assinala Jean-Paul Sartre, no prefácio do livro Os Condenados da Terra, de Frantz Fanon, “na falta de outras armas, a perseverança da faca será suficiente” para resgatar aquilo que nunca deveria ter sido usurpado:

Encontramos a nossa humanidade do lado de cá da morte e do desespero, ele a encontra do lado de lá dos suplícios e da morte. Fomos os semeadores de ventos; ele é a tempestade. Filho da violência, extrai dela a cada instante a sua humanidade; fomos homens à custa dele; ele se faz homem à nossa custa. Um outro homem, de melhor qualidade. (SARTRE, Jean-Paul. In: FANON, 1979, p.16)

Na visão de Sartre, o temor que os explorados experimentam diante dos inesgotáveis meios de repressão do dominador surge como o responsável direto pelo furor que os inspira a reclamar o que lhes é de direito. Encurralados entre as armas que apontam contra eles e os “desejos de carnificina” que lhes tomam, acabam por explodir veementemente contra o seu antagonista, devolvendo-lhe a sua própria crueldade, que se avoluma e os dilacera. A imagem que se vê, então, assemelha-se a de mendigos “lutando, em sua miséria, contra ricos poderosamente armados”, na tentativa desesperada de fazer a violência “cicatrizar as feridas que ela mesma fez”.

No vermelho do sangue opressor que se derrama – produto de duas violências que se chocam e se equiparam – nasce a consciência de que os pobres nem sempre precisam ser “desamparados” e “dóceis”. É através da arma que muitos descobrem que também podem ser terríveis. E que a “liberdade”, forjada a quente no seio do embate, é um privilégio que também lhes cabe. A partir disso, o dominador jamais deixa de ser o oponente. Mais que isso. Frantz Fanon o coloca na alça de mira da “coisa colonizada, oprimida, espoliada”: será sempre “o homem a abater”. Isto porque o explorado é um perseguido que acalenta constantemente o sonho de comandar a caçada. E não se trata de competir com o inimigo: quer o lugar dele. As disparidades entre os dois universos não permitem, em hipótese alguma, a coexistência. Em sendo assim, não hesitará um segundo em matá-lo, sobretudo porque desde muito cedo percebe claramente que o mundo estreito e semeado de interdições que o aflige não pode ser reformulado senão pela violência absoluta, afinal, como constata Fanon, “o colonialismo só larga a presa ao sentir a faca na goela”. É, pois, uma violência em estado bruto, que só se curva frente a uma violência ainda maior. Trata-se de tomar tudo aquilo que sempre foi negado pelo poder:

A cidade do colono é uma cidade sólida, (…) iluminada, asfaltada, onde os caixotes de lixo regurgitam de sobras desconhecidas, jamais vistas, nem mesmo sondadas. A cidade do colono é uma cidade saciada, indolente, cujo ventre está permanentemente repleto de boas coisas. (…) é uma cidade de brancos, de estrangeiros./ A cidade do colonizado (…) é um lugar mal afamado, povoado de homens mal afamados. (…) é uma cidade faminta, faminta de pão, de carne, de sapatos, de carvão, de luz. A cidade do colonizado é uma cidade acocorada, uma cidade ajoelhada, uma cidade acuada. (…) O olhar que o colonizado lança para a cidade do colono é um olhar de luxúria, um olhar de inveja. Sonhos de posse. Todas as modalidades de posse: sentar-se à mesa do colono, com a mulher deste, se possível. O colonizado é um invejoso. O colono sabe disto; surpreendendo-lhes o olhar, constata amargamente, mas sempre alerta: ‘Eles querem o nosso lugar’. É verdade, não há um colonizado que não sonhe pelo menos uma vez por dia em se instalar no lugar do colono. (FANON, 1979. pp. 28-29)

Mas só há um meio de se conseguir isso: assumir a identidade forjada pelo opressor. Esse título, porém, trará sempre consigo a marca da ambigüidade. Isto porque se por um lado o bandido é visto como nada mais que um criminoso comum pelos olhos da lei que protege os ricos, por outro será encarado como o herói de uma gente pobre e humilhada, que vê na sua insubordinação o seu próprio triunfo. Inimigo do senhor e do Estado, o bandoleiro torna-se, pois, o campeão e o vingador dos desprovidos. E uma vez figurando no imaginário coletivo popular como símbolo de protesto e rebelião social, este líder da “libertação” será amplamente admirado, ajudado e sustentado por sua gente, sobretudo porque a sua revolta – salvo nos casos de delação – não costuma atingir seus iguais, apenas os que se encontram do lado oposto da miséria:

O indivíduo que sucumbe numa peleja depois de ter abatido quatro ou cinco policiais, o que se suicida para não denunciar seus cúmplices, constituem para o povo guias, esquemas de ações, ‘heróis’. E é inútil, evidentemente, dizer que tal herói é um ladrão, um crápula ou um depravado. Se o ato pelo qual este homem é perseguido pelas autoridades colonialistas é (…) dirigido exclusivamente contra uma pessoa ou um bem colonial, (…) O processo de identificação é imediato. (FANON, 1979, p. 53)

Legítimos representantes de um mundo em dissolução, os bandidos sociais não são apenas homens fisicamente aptos que, a passar fome, preferem tomar pelas armas aquilo de que necessitam. Surgem como sintomas de uma grave crise, imbuídos da missão de desagravar as injustiças. Sonhando com um mundo de liberdade, igualdade e fraternidade, onde a submissão não mais seja imposta como norma da vida humana – o que dificilmente sairá do plano da idealização –, quase sempre ajudam a gente humilde que os acolhe e admira. Roubando dos ricos para dar aos pobres, muitos bandidos acabam por encarnar o mito do Robin Hood, o ladrão nobre. Mas, de acordo com Eric Hobsbawm, em sendo a realidade como é, poucos deles possuirão a abnegação, o idealismo ou a consciência social para exercer esse papel. Assim, tirar dos ricos é uma certeza; dar aos pobres, nem sempre. De toda sorte, representam o produto da contrapartida da passividade geral dos necessitados e, portanto, afirmam-se como seus “legítimos” defensores.

Fenômeno universal, nascido das entranhas de todas as épocas de pauperismo e cerceamento, o banditismo social não encontrou, no entanto, seu lugar na contemporaneidade. É, pois, no dizer de Eric Hobsbawm, um fenômeno do passado: “O mundo moderno o matou, substituindo-o por suas próprias formas de rebelião e de crime” (HOBSBAWM, 1975, p. 18), diz ele, como que a reiterar que, num tempo regido pela voracidade de um capitalismo que nega em absoluto toda uma legião de miseráveis, colocando-a sob suspeição e vigilância constantes e empurrando-a cada vez mais contra as suas margens, até o sufocamento completo, não há mais espaço para delito algum que conserve o menor resíduo de nobreza.

No encalacrado mundo das grandes metrópoles, despossuídos, subnutridos, e também negros e mestiços, são as vítimas preferenciais de uma violenta política de saneamento social que visa unicamente a sobrevivência da dita sociedade “sã”: endinheirada, poderosa e branca. Os que não se encaixam neste perfil devem permanecer isolados, acuados nos becos das neofavelas, que nada mais são do que depósitos de gente, uma gente enquadrada pelo sistema como portadora de uma “identidade social maléfica” (ZALUAR, 1987). Para esses suspeitos em potencial, cruzar a fronteira que leva à “cidade ideal” significa quase sempre ser eliminado: ou será preso, ou será morto.

Essa nova forma de “colonização” acende o estopim de uma violência ainda mais apta a passar por cima de todas as barreiras interiores. Mais uma vez é ela a mediadora do conflito. E é exatamente sobre esse novo estágio de rebelião – e por que não dizer descolonização? – que a narrativa de Paulo Lins se debruça. Intitulado Cidade de Deus, o romance desnuda os conflitos existentes no tecido social do país e aponta uma arma para a cara da sociedade brasileira. Encurralada, esta já não tem outra alternativa senão enfrentar os fantasmas que ela mesma criou. Afinal, o tempo da indiferença foi “passado” e o crime nos diz, altissonante, que não há mais conciliação possível. Decretando a morte do malandro, o livro indica que o que nos identifica hoje é tão somente uma rasura e esclarece que a explosão da violência não mais nos permite pensar o país pelos moldes da “cordialidade” e da “harmonia”. O tempo presente refuta idealizações desta ordem, insurgindo-se veementemente contra a pseudotranqüilidade de uma identidade nacional forjada ao longo da história.

Nascido da truculência colonialista, o Brasil revelado por Paulo Lins parece não mais aceitar refletir imagens distorcidas pela conveniência. O seu retrato de agora é nítido e estampa sorrisos caídos de bocas sem dentes, que tramam a morte nos conchavos de becos. Nesse sentido, Cidade de Deus ilumina os labirintos de um conjunto habitacional do Rio de Janeiro criado parra “conter” não seres humanos dotados, cada um deles, de identidades individuais, mas uma massa de miseráveis forjada pelo Estado e homogeneamente marcada pelo signo da “delinqüência”. O que se vê, então, e de dentro, é um “retrato hediondo” de um Brasil que, acossado pela pobreza, pela discriminação e pela indigência, mata, assalta, estupra, trafica e se vê obrigado a fugir constantemente de uma polícia igualmente violenta e quase sempre corrupta. Mais do que nunca, viver, em Cidade de Deus, é não morrer, mesmo para aqueles que não abraçam a carreira do crime. Sim, sempre haverá os “otários”, que trabalham honestamente mesmo sabendo que jamais irão a lugar algum com a “merreca” que lhes pagam. Já os “bichos-soltos” optarão sempre por cobrar na bala o que julgam que a sociedade lhes deve:

Lembrou-se (…) daquela safadeza do incêndio, quando aqueles homens chegaram com saco de estopa ensopado de querosene botando fogo nos barracos (…). Fora nesse dia que sua vovó rezadeira, a velha Benedita, morrera queimada. (…) ‘Se eu não fosse molequinho ainda’, pensava Inferninho, ‘eu tirava ela lá de dentro a tempo e, quem sabe, ela tava aqui comigo hoje, quem sabe eu era otário de marmita e o caralho, mas ela não tá, morou? Tô aí pra matar e pra morrer.’ Um dia após o incêndio, Inferninho foi levado para a casa da patroa de sua tia. (…) Ficava entre o tanque e a pia o tempo todo e foi dali que viu, pela porta entreaberta, o homem do televisor dizer que o incêndio fora acidental. Sentiu vontade de matar toda aquela gente branca, que tinha telefone, carro, geladeira, comia boa comida, não morava em barraco sem água e sem privada. (…) Pensou em levar tudo da brancalhada, até o televisor mentiroso e o liquidificador colorido. (CD, p.23)

Como se pode notar, o “favelado” também lança sobre a cidade dos ricos aquele mesmo olhar invejoso que deseja arrancar dela tudo o que ele nunca teve, e sobre os seus donos aquele mesmo ódio que ambiciona exterminá-lo. Se o bandido social não mais existe nas modernas sociedades, os resquícios de seu levante ainda permeiam o cotidiano daqueles que se revoltam frente às injustiças. A sua carabina pode ter mudado de mãos, mas o alvo ainda é o mesmo. Desse modo, a bala freqüentemente vem a substituir a palavra que o “bicho-solto” é obrigado a engolir a seco: Falha a fala. Fala a bala. (CD, p. 21)

Mas o caminho trilhado por essa neodescolonização é ainda mais sangrento, sobretudo porque tem de lidar com um esquema muito bem montado de alienação, que, por vezes, desvia o foco da violência do explorado, fazendo-a recair sobre ele próprio. Trata-se de um jogo, que leva o oprimido a incidir numa sangrenta guerra contra os seus. Retomando Fanon, exposto a tentativas diárias de morte, à fome, à expulsão do quarto não pago, à falta de oportunidade de trabalho digno, à bala perdida que cruza os becos em busca de um corpo, o espoliado chega a ver seu semelhante como um inimigo implacável. E nessas circunstâncias o assassinato é só mais um passo. O próximo, talvez. Além disso, no mundo do crime urbano, diferentemente do que ocorre no universo rural do banditismo social, proteger os inocentes já não é mais um requisito moral. Se os “bichos-soltos” o fazem, é puramente por interesse. E num ambiente em que “é mais seguro atirar primeiro e fazer perguntas depois”, este costuma ser altamente volúvel. Por isso, entre a arma e a sina que ela terá de cumprir, o inocente é quase sempre um obstáculo a ser derrubado em favor da demanda individual.

Em Cidade de Deus, Paulo Lins evidencia o horror de um campo de batalha onde não apenas traficantes se entrematam e espalham o terror entre os seus irmãos “favelados”, transformando-os em vítimas e cúmplices do seu ódio, mas onde homens simples também se revelam capazes de assassinar cruelmente, e por motivos muitas vezes tomados como banais. Contudo, alerta Sartre, que ninguém se iluda: “não se creia que um sangue demasiado ardente ou desventuras da infância lhe tenham dado para a violência não sei que gosto singular: ele se faz o intérprete da situação, nada mais”. E não se trata de defender o crime, mas apenas de não submetê-lo às leis sumárias da conivente justiça das elites. É preciso entender que, em um contexto miserável, ser bandido quase nunca é uma opção. É, antes, uma estratégia de sobrevivência. Por isso, em Cidade de Deus, não há “bandidos” nem “heróis”, há homens, mulheres e crianças lutando para resgatar a humanidade usurpada.

De qualquer modo, é este cenário caótico, movimentado pela antiética do lucro que rege as sociedades capitalistas, que vai minando vorazmente os poucos resíduos do banditismo nobre. Se num primeiro momento Inferninho reparte o butim igualitariamente entre o bando, posteriormente Zé Miúdo não hesitará em matar um comparsa para ficar com a sua parte do roubo. Se em dado momento um “bicho-solto” pede aos seus comandados para só matar para não morrer, mais adiante assassinato será a palavra de ordem para ganhar prestígio. Se um marginal-malandro como Pardalzinho pede pela vida de inocentes e pela não violação das mulheres em certa fase do romance, depois da sua morte Zé Miúdo não pensará duas vezes em matar o avô e estuprar a noiva de Zé Bonito, um “otário” que, frente à injustiça cometida, abraçará a carreira do crime ressuscitando e encarnando, embora não por muito tempo, um dos tipos mais significativos que se inserem na linhagem dos bandidos sociais: o vingador.

Para se transformar no pesadelo de um dos mais cruéis criminosos de Cidade de Deus, Zé Bonito – até então trabalhador honesto, homem pacato, de boa família e conduta – se alia a Sandro Cenoura, traficante da região que disputa com Miúdo a liderança das bocas-de-fumo. Revoltado, irá firmar seu direito de ser respeitado pela luta declarada e se insurgirá para constituir a exceção numa comunidade em que os senhores do tráfico substituem o Estado.

Bonito manuseou a pistola 45 com a agilidade que adquirira no tempo em que servira na brigada de pára-quedistas do exército. (…)/ O volume da arma alertou os amigos:/ – Vai aonde?/ – Vou matar aquele desgraçado!/ – Meu irmão, tu não pode ir lá sozinho não, rapá! O cara é matador! Esquece isso! (…) Tu é um cara pintoso, tem tudo pra se dar bem, não entra numa de bandidagem, não…/ Bonito não dava ouvidos. Percorreu toda a rua do Meio, (…) entrou por duas vielas a passos largos, na terceira diminuiu as passadas, tirou a arma da cintura, engatilhou-a e entrou na viela (…) onde Miúdo costumava ficar. Avistou seu inimigo e mais três quadrilheiros, apontou a arma e atirou seguidamente./ Miúdo riu fino, estridente e rápido e devolveu os tiros (…), os outros dois também atiraram e acompanharam o estuprador, o terceiro tentou trocar tiros com o vingador e foi atingido fatalmente na testa./ Bonito aproximou-se do cadáver (…) colocou o pé esquerdo em cima da cabeça, o direito em cima da barriga e gritou:/ – Esse é o primeiro! Quem quiser seguir esse desgraçado vai ter o mesmo fim desse aqui! (CD, pp. 313-315)

Como todo bandido social, o destemido rival do traficante Zé Miúdo (que também não deve ser condenado nem olhado de esguelha pelo leitor, já que é tão “vítima” da situação quanto seu adversário) ganha o apoio inequívoco de sua comunidade: ferido em combate, será acolhido, tratado e amparado pelo povo do lugar, que o respeita e reverencia não só pela bravura, mas também por se configurar como um restaurador da moralidade que o tráfico apagou. Contudo, esse mesmo justiceiro não demorará a perceber que “Onde os homens se tornam bandidos, a crueldade gera crueldade, o sangue exige sangue”. (HOBSBAWM, 1975, p. 56)

Isto porque, ao pôr em curso o programa de sua “descolonização”, Zé Bonito desencadeou uma verdadeira guerra em Cidade de Deus. Só não imaginava que o desagravo de sua injustiça solaparia os últimos sinais de um banditismo que inicialmente mostrara-se nobre, mas que logo se perderia nas trincheiras do crime. Por várias vezes, Bonito tentará honrar seus princípios, que em vários aspectos se igualam aos que regem a carreira do vingador nobre. Nunca matar, a não ser em legítima defesa ou por vingança justa, será o principal deles. E também o primeiro a tropeçar nas valas abertas pelo tráfico.

A partir daí, o Zé Bonito que, num primeiro instante, estranha as gírias dos marginais, que não usa drogas, que se recusa a concordar com a arregimentação de crianças para o tráfico por acreditar que o lugar delas é na escola, que proíbe a violação de mulheres e que não se esconde da polícia por não se achar um delinqüente se verá obrigado a liberar os estupros e assaltos na área do inimigo e a permitir que crianças tenham seus crânios estourados pelos fuzis dos traficantes que se arriscam a enfrentar. E como se isso não bastasse, consumirá desesperadamente a cocaína que tanto renegou. Entretanto, este bandido social pós-moderno, assim como seus “antepassados”, jamais deixará de lamentar o destino que o levou a compactuar com a instauração daquela “febre de morte” entre os homens.

Sentado num banco, as lágrimas se destroçavam no chão de cimento cru. (…) Era um bandido, um matador, um formador de quadrilha, um desencaminhador de menores. E não fora para isso que aprendera a orar quando criança, não fora para isso que sempre tinha sido o melhor aluno na escola, não fora para isso que se resguardara das amizades de rua. O curso superior em educação física havia ido para a casa do caralho, assim como a lua-de-mel com sua amada, depois de testemunhar o pênis de Miúdo na vagina dela feito retroescavadeira, o corpo do avô ensangüentado, a casa cheia de buracos de balas, a mãe de Filé com Fritas recolhendo os pedaços da cabeça destroçada do filho no asfalto quente. As lágrimas avolumaram-se. (…) A noite foi em claro. (CD, pp. 346-347)

Na reflexão de Bonito, a constatação de que um bandido, mesmo determinado a não dobrar a cerviz, não consegue fugir tão facilmente à lógica da vida numa sociedade minada pela exploração se desnuda violentamente. Depois disso, tendo cumprido, ainda que atropelado pelos percalços do crime, quase toda a sina do vingador clássico, só lhe restava o único fim destinado aos emissários do banditismo social: a morte por traição; já que, a exemplo do que afirma Hobsbawm, nenhum membro decente da comunidade auxiliaria as autoridades – sejam as do tráfico, sejam as do Estado – contra bandoleiros de sua estirpe.

O viciado olhou para trás, para os lados; não vendo ninguém, disparou três vezes nas costas de Bonito, que ainda se virou, apontou o revolver na tentativa de matá-lo. O viciado deu-lhe mais um tiro. Zé Bonito caiu. (CD, p. 375)

Mas a morte de Zé Bonito não legará aos moradores de Cidade de Deus um exemplo de coragem e honra a ser seguido. O tempo do banditismo social que inspira a admiração das massas passou. As páginas nada conciliatórias do romance de Paulo Lins não farão sucessores para este vingador. Elas vieram pelo crime. Para dizer que do ventre dele só nascem “anjos”, aqueles que cada vez mais cedo virão para cobrar da sociedade sua impagável conta.

** Este artigo está publicado em: BOTELHO, Marcos (org). Seis Passeios por Cidade de Deus. Feira de Santana: UEFS, 2007.


Ísis Moraes Ramos é jornalista e editora do Jornal Tribuna Feirense. isis.m.ramos@bol.com.br

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Resenha de filme: “Sete homens e um destino”


Por Gerson de Almeida, colaborador

Eu já tinha cantado a pedra no século passado, mas me tacharam de maluco e temi que minha mãe tivesse que passar pelo constrangimento de ir me visitar no jardim do Juliano Moreira, porém anteontem, extasiado, voltei à carga: Taranta é um aprendiz de feiticeiro que deu no pé da Sorte e ela, piedosa com quem pouco merece, não faz o juízo perfeito do que ele oferece. Ou seja, é um cara que conseguiu pôr as mãos numa câmera e se diz cineasta. Logo entenderão.

Ele lançou um filme no primeiro semestre deste ano, Os Oito Odiados, mal tinha terminado a 1ª sessão e foi tachado de ser melhor western no início do século. Wellll!!! O cinema é a sétima arte, não a sétima camada da egolatria. Os Oito tem diálogo suficiente para uns três longas e, com alguns bons cortes, como todo filme de Taranta parece carecer, todo mundo fala demais (sem contar sua sombra a fazer beira por todo o filme como um urubu a rondar a carcaça). O pior é que todo boquirroto tem sacadas espertas, boas tiradas… fazer cinema com loquacidade e falácia já não funciona faz tempo.

Eis que, Sete Homens e Um Destino, remake de um remake, fez com o filme de Taranta o que seria desnecessário se a crítica fizesse seu trabalho. Western se faz com sangue, bala e violência sim, mas até nisso vai o rigor da posologia – e não pode ser ultrapassada. Antoine Fuqua sabia disso e na sua versão não excedeu seu limite. Inspirado n’Os Sete Samurais (1954) de Kurosawa, o 1ª remake de John Sturges, nos anos 60, foi um sucesso, o que torna a versão anos 2000, tiro certeiro. Com algumas mínimas intervenções, sem sair do trilho, Fuqua não precisou de muito para pôr interrogação na cachola da crítica e no gosto do público: como se faz o verdadeiro western: com ou sem spaghetti? Com evisceração da tolerância do público ou com ego do autor elevado ao extremo? A meu ver o cinema é maior que estas questões, e deve continuar a ser.

O filme. Sou suspeito para falar de filmes com Denzel Washington no elenco. Meu ídolo desde sempre. Se um dia capotar e fizer algum abaixo da média, não merecerá menos que nota 10 no meu conceito. Suas interpretações viscerais, nem mais, nem menos, ao chegar a hora do clímax o espectador já faz parte do que assiste. Um monstro em cena. E com um elenco bem escolhido então, a receita está garantida (assistam o filme e vejam as atuações se erro por muito nestas linhas, me arrisco a devolver a batuta paga pela sessão). Alguns personagens – como o Mexicano, Manuel Garcia-Rulfo, e o próprio vilão Peter Sarsgaard –poderiam ser mais explorados, mas parece que isso fica a cargo de nosso próprio julgamento, aquilo é divertimento programado e não pode se estender à lucubrações filosóficas e viagens etéreas. Tem a historinha (cidadezinha cheia de gente inocente sofrendo nas mãos de tirano), motivo para as balas (um monte de bandido) e pronto: chumbo pra todo lado.

Fuqua não fez o melhor western do início de século, mesmo se fizesse originalmente, porém a homenagem é boa, é válida e quem gosta do gênero vai sentir o espirito seco que reinou nos anos 50, 60 e até meados dos 70. Assistam o filme.

Ah! Quase esqueci! Satanás não dá sossego: entra em cartaz, daqui a alguns dias, o filme da Kéfera… quais serão os Sete a nos salvar? Nenhum. Eles sabem que deste lado do atlântico não tem bala que resolva o furdunço.

Resenha: “O orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares”


“Sonho não é, morte não é;
Quem parece morrer, vive.
A casa aonde nasceste,
Os amigos de tua primavera,
Idoso e donzela,
O trabalho diário e sua recompensa,
Refugiando- se em fábulas,
Não se lhes pode amarrar.”
(de Ralph Waldo Emerson, poeta americano falecido em 1882- poema que antecede o prólogo)

Uma boa safra de livros juvenis: “Harry Potter e o legado maldito” (J.K. Howling, 2016), ” O chamado do monstro” (Patrick Ness, 2011) e “O orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares” (Ransom Riggs, 2015), todos terão suas respectivas resenhas aqui. “Juvenis”, porque apropriados para jovens, mas não excluem o leitor adulto, já que são histórias interessantes, cheias de magia, divertidas e sempre deixam alguma lição, como as fábulas. Fazem bem, independente da idade.

Pela primeira vez um filme americano estreia primeiro no Brasil (29), que no resto do mundo (30), inclusive nos Estados Unidos. Leia a resenha, pois assim você poderá comparar com o filme.

O orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares

O autor americano Ransom Riggs (Maryland, 1979), diretor e roteirista de cinema, teve sorte com o seu primeiro livro. Ele ficou durante meses na lista dos mais vendidos do The New York Times e a obra virou filme de Tim Burton. Para quem não sabe, Burton criou filmes como “Edward Mãos de Tesoura”, “Batman”, “A fantástica fábrica de chocolate”, entre outros, com atmosferas mágicas, ambientes góticos, histórias fantásticas. Um cineasta muito original.

13690698_1032073643512876_6866837346118914049_nRansom Riggs.  Facebook do autor.

Vamos ao livro.

No prólogo, Jacob, o narrador- personagem, fala da infância com a presença essencial do seu avô, Abraham Portman, que lhe contava histórias extraordinárias com monstros e crianças com poderes  excepcionais como a invisibilidade, a levitação, a força descomunal ou um menino que tinha duas bocas. Elas eram enviadas a um orfanato muito especial em Gales, justamente por serem peculiares, lá não adoeciam e nem morriam. Jacob não acreditava nas histórias, mesmo o seu avô mostrando fotos dessas crianças peculiares (as fotos estão no livro). E o seu pai, que ouviu as mesmas histórias, tampouco. Ele explicou a Jacob, que o avô teve uma infância muito difícil na Polônia, que foi enviado pelos seus pais a um orfanato para fugir da guerra. Eram judeus. Sua família toda morreu, só Abraham sobreviveu, então inventou essas histórias extraordinárias para evadir da dor, da realidade. Essa foi a teoria racional que o pai de Jacob encontrou para justificar as histórias de Abraham.

No primeiro capítulo, Jacob tem 16 anos e trabalha como repositor em uma farmácia chamada Smart Aid, na cidadezinha de Englewood, “pequena e aborrecida”, na costa da Flórida. Ele odeia o seu trabalho, faz de tudo para ser despedido, mas isso não acontece, porque os proprietários são os seus tios. É tradição familiar trabalhar na farmácia.

O livro é cheio de fotos, o que dá um ar mais veraz à história. Abaixo (p.24), o avô Portman tirando uma soneca com a sua arma. Ele tem um verdadeiro arsenal, pois tem que se proteger dos monstros caso apareçam. Agora idoso, as armas ficam trancadas devido à sua demência senil. Ele telefona desesperado ao neto pedindo a chave. Depois de tantos anos, os monstros o encontraram.

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O pai de Jacob, Jake, ornitólogo amador, trabalha meio período como voluntário cuidando de aves, casou-se com uma mulher cuja família é dona de centenas de drogarias. A foto é de Robert Jackson, não sei se é o mesmo fotógrafo que ganhou o Pulitzer por suas incríveis fotos históricas. A maioria das fotos do livro são dele e de David Bass. Há um aviso que todas as fotos são autênticas e não sofreram alterações.

Jacob vai até a casa do avô. Ela está toda revirada e Abraham desaparecido. Foi atrás do avô e o encontrou deitado  e ensanguentado no bosque, todo retorcido como se tivesse sido atirado de uma grande altura. O avô muito fraquinho, lhe dizia: “Vá à ilha, Jacob. Aqui não é seguro”. E o rapaz achou mais uma vez que era paranoia do avô. O idoso deixou as pistas: “Encontra o pássaro. No navio. No outro lado da tumba do velho. Três de setembro de 1940” (p. 35).  Jacob e  Ricky, o amigo que lhe acompanhava, viram o avô morrer. Jacob viu algo mais, um monstro no bosque. Seu amigo não viu e não acreditou nele.

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Esse foi o monstro que atacou Abraham e que Jacob viu no bosque (p.40, desenho do autor)

É uma fórmula bem batida, que dá a sensação que já vimos/lemos mil vezes, não é? Mas não podemos esquecer que é literatura para crianças/jovens, pra eles é novidade.

Jacob começou a ter pesadelos depois da morte do avô e decidiu não sair mais de casa. Sentia- se culpado por não ter acreditado em Abraham.

O rapaz começou a fazer um tratamento psiquiátrico com dr. Golan. Claro, quem vê monstros é louco, não? Pois…decidiu mentir e dizer que parou de ver monstros em seus pesadelos.

Os pais de Jacob decidiram vender a casa do avô. Jacob foi até lá e viu as fotos que o avô sempre o mostrava quando ele era criança, veja duas delas:

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Bebê levitando (p.53). Foto de Peter Cohen. Claro que a mão do pai está atrás do bebê. Será que essa foto causou reboliço no passado?

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Cachorro com cara de menino (p.54). Foto de Robert Jackson. Montagem e bem grosseria, não?  

Jacob descobre a relação do avô com o poeta Ralph Waldo (poema de introdução) através do dr. Golan. E no dia do seu aniversário, Jacob recebeu um livro com uma enigmática dedicatória do seu avô:

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E descobre “esses mundos”. Junto com o livro havia uma carta manuscrita da Senhorita Peregrine a Abe (Abraham) enviada da ilha das crianças peculiares. Claro que Jacob vai dar um jeito de descobrir tudo.

Acho que não preciso contar muito mais. O motivo de Abraham ter saído da ilha, já que era segura, além de proporcionar a imortalidade e a juventude eterna ao estilo Peter Pan, só lendo ou vendo o filme.

Veja o trailer do filme (legendado em português). Os atores são fantásticos, o Jacob é interpretado por Asa Butterfield, o menino inglês que fez “A invenção de Hugo”, a francesa Eva Green faz a Senhorita Alma Lefay Peregrine e o americano Samuel L. Jackson faz o vilão Barron:

Essa é a edição espanhola que eu li da Planeta  com a capa do filme de Tim Burton. Então, que tal ler o mesmo livro que o gênio do cinema leu para produzir sua obra?

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Riggs, Ransom. El hogar de Miss Peregrine para niños peculiares. Cross Books, Editorial Planeta, España, 2016. Páginas: 415

Aproveite o fim de semana!

Resenha: Orlando, de Virgínia Woolf


Embora diferentes, os sexos se confundem. Em cada ser humano ocorre uma vacilação entre um sexo e outro; e às vezes só as roupas conservam a aparência masculina e feminina, quando, interiormente, o sexo está em completa oposição com o que se encontra à vista. (P.105)

Leram o trecho acima? Virginia Woolf, em 1928, entendeu o problema de gênero melhor que muitos entendem agora. Vamos entrar no mundo Virgínia Woolf comigo?! Vem!

A inglesa Virginia Woolf (Adeline Virginia Stephen, Londres, 25/01/ 1882– Lewes, 28/03/ 1941) foi uma escritora clássica do romance moderno, cultuada e reverenciada nos quatro cantos do mundo.

Virginia teve um romance, durante anos, com Vita Sackville- West, poetisa inglesa, enquanto estava casada com Leonard Woolf, funcionário público e também escritor. Virginia escreveu um diário contando as suas experiências. Que será que o marido pensava disso? Era consciente, consentia ou ignorava a situação? Essa parte fica pra outra ocasião.

Infelizmente, a autora cometeu suicídio jogando- se no Rio Ouse, em Sussex, perto de sua casa, aos 59 anos. Ela sofria, tudo indica, de um transtorno bipolar; uma depressão a fez tomar a fatal decisão. Esses transtornos psicológicos a acompanhavam desde os 13 anos. A escritora deixou uma carta de despedida ao marido, disse não mais suportar as crises, ouvia vozes, temia a loucura, leia.

Sua obra prolixa é composta de ficção e não- ficção.

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Virgínia Woolf em 1902, aos 20 anos. A mesma foto da capa da edição que li.

1427054086_112243_1427054854_noticia_normalVirginia em 1931.

VitaSackvilleWestVirginiaWoolf1933Virginia Woolf e Vita Sackville-West na “Monk’s House”, a casa da autora, em 1932.

woolfO casal Woolf

“Orlando” começa com um prólogo da autora com agradecimentos a vivos e mortos, escritores, amigos e familiares. O título do livro é o nome “do” protagonista da história. As aspas em “do” serão explicadas depois. Presta atenção.

A obra de Virgínia Woolf caracteriza- se pelos monólogos interiores, o latente fluxo de consciência dos personagens,  no entanto, “Orlando” não tem especialmente essa característica, é a exceção.

Sua relação homossexual com Vita Sackville-West foi refletida, dizem, em “Orlando”. Vita, nos anos 20 e 30, era mais conhecida e respeitada que Virginia Woolf. Segundo o seu filho, “Orlando” “é uma longa e encantadora carta de amor”. Mas isso eu soube depois da leitura, eu nunca pesquiso antes de ler um livro para não ser influenciada, para não direcionar a leitura, mesmo porquê, temos que nos focar no texto. A vida dos autores é questão secundária, curiosidade histórica, podemos tecer pontes entre o autor e obra, mas o principal  tem que ser o texto mesmo. Mas, nesse caso, o livro ganha um sentido especial conhecendo esses dados.

Eu não sabia absolutamente nada da história, o que iria encontrar era uma incógnita.  O título e a capa não dão nenhuma pista.  Levei um susto, fiquei chocada com a primeira página: um rapazinho brinca com a cabeça cortada de um mouro, vítima do seu pai ou avô.  Pensei que a história acontecia na Idade Média (período longo entre os séculos V e XV). Não, é um pouco depois. Orlando tem 16 anos no início da história, vive na época elisabetana, século XVI, era poeta, ou pelo menos, tentava ser. A história termina, cronologicamente, no século XX, precisamente no dia 11/10/1928. O livro é a biografia de Orlando, no final, com 36 anos. Impossível? É uma alegoria utilizada para demonstrar que uma pessoa pode viver séculos em pouco tempo.

Impressionou- me como a autora descreve os personagens com muita precisão, não só a aparência, mas as características expressivas dos personagens, genial! Ela desenha e dá vida aos personagens perfeitamente com analogias, dá para imaginá- los como em um filme e inseridos em seus cenários. É isso: literatura “fílmica” ou teatral. Não é à toa que muitas obras literárias são adaptadas para teatro e cinema. Essa obra teve uma adaptação para o cinema em 1992.

Veja só um trechinho da descrição do rosto de Orlando, praticamente um retrato- falado :

(…) O vermelho das suas faces era coberto de uma penugem de pêssego; a penugem do buço era apenas um pouco mais densa que a das faces. Os lábios eram finos e levemente repuxados sobre os dentes de uma deliciosa brancura de amêndoa. Nada perturbava o breve, tenso vôo do nariz; o cabelo era escuro, as orelhas pequenas e bem unidas à cabeça. (p. 8)

Orlando cresceu lindo e galanteador.  Conheceu uma rainha russa, apaixonaram- se, viveram um idílio breve no inverno inglês. A mulher foi embora sem prévio aviso. Orlando primeiro ficou desesperado, depois entrou em uma profunda melancolia e tristeza.

O narrador mantém um diálogo com o leitor, citando-o. Essa voz exerce de biógrafa de Orlando.  Veja se essa descrição não corresponde com o que sabemos de Virgínia e seu caráter, mas estes atribuídos a Orlando (p.41):

(…) Orlando era uma estranha mistura de muitos humores– melancolia, indolência, paixão, amor à solidão, sem falar em todas aquelas contorções e sutilezas de temperamento que foram indicadas na primeira página…”

Orlando gostava de livros desde criança, tinha hábito de ler até tarde da noite:

“Orlando era um fidalgo afligido pelo amor à literatura.”(p.42)

O personagem sofre dessa “doença”, como chama o narrador. Ele lê seis horas diárias “noite adentro”. O criados da casa dizem que devia abandonar os livros, pois são para “paralíticos e moribundos”. Especialmente nesse contexto histórico, os escritores eram considerados cidadãos de segunda classe, operários, algo para castas inferiores. Portanto, para a família abastada e nobre de Orlando, esse ofício era um desgosto.

O escritor de cabeceira de Orlando é Thomas Browne, inglês que viveu no século XVII. Esse autor realmente existiu e viveu muito para a época, chegou quase aos 80 anos (77), um verdadeiro milagre. Nasceu e morreu no mesmo dia, 19 de outubro.

Além de Browne, há várias citações de histórias mitológicas: “A morte de Ajax”, “O nascimento de Príamo”, “Ifigénia de Áulide”, “A morte de Hipólito”, “Meleagro” e a “A volta de Ulisses”. Orlando lê, escreve e guarda seus escritos em gavetas de madeira.

(…) Assim tinham sido escritas, antes dos seus vinte e cinco anos, umas quarenta e sete comédias, histórias, romances, poemas, uns em prosa, outros em verso, uns em francês, outros em italiano, todos românticos e todos longos.” (p. 43)

Orlando não esquece a amada que o deixou. Faz- se mil perguntas sobre o motivo e não encontra resposta. Foi aí que tentou substituir seu rosto por outro. Começou a escrever.

Conheceu um poeta (pobre), Nicholas Greene, que provoca em Orlando uma espécie de atração- repulsa. O admira e o repele ao mesmo tempo. Depois acaba rendido aos encantos e inteligência do poeta, hospedado em sua casa por uma semana. Orlando encantado com o homem no seu palácio; o poeta, ao contrário, completamente entediado. Ele preferiu retornar para o seu apartamento minúsculo e cheio de gente. Escreve um poema satirizando Orlando, deixando- o em ridículo perante toda a sociedade.

Orlando afasta- se das mulheres e dos poetas. Dá festas homéricas, suntuosas, para milhares de pessoas. Gastou metade da sua fortuna. Decide sair de Londres e vai para Constantinopla.

Acontece algo completamente insólito: Orlando, aos trinta anos, cai em um sono profundo, fica em estado de letargia durante uma semana. Ninguém o consegue acordar. Depois de sete dias, aparecem três santas, a Pureza, a Castidade e a Modéstia. É assim, com esse tom místico e fantástico, que Orlando transformou- se em mulher. Transgênero sem dor, sem espanto, sem cirurgia. Orlando não questiona nada, aceitou sem nenhum assombro o novo gênero.

Muda de vida, “a” Orlando agora, viaja com um grupo de ciganos, absorve a vida nômade, toma banho quando dá, dorme vendo estrelas. Mudou de vida completamente, nada de luxo, longe do conforto da sua casa com trezentos e sessenta e cinco quartos.

Mas, começa a ter umas diferenças com os ciganos, sente falta da vida de luxo, da sua família de mais de quatrocentos anos a qual recordava com muito orgulho. Depois envergonhou- se, os ciganos tinham uma história de mais de dois mil anos e não eram muito piores  que o povo “civilizado”.

(…) Nenhuma paixão é mais forte, no peito humano, que o desejo de impor aos demais a nossa própria crença. Nada também corta tão pela raiz nossa felicidade e nos encoleriza tanto como sabermos que outros menosprezam o que exaltamos. (…) Não é o amor à verdade, mas o desejo de prevalecer (…) (p.83)

Orlando acabou indo embora, cansou da vida nômade, sentia falta de tinta e papel, de escrever, sentia orgulho do seu passado que os ciganos desprezavam. Foi embora na hora certa, pois já estavam planejando cortar- lhe o pescoço. Vendeu seu colar de pérolas e comprou um enxoval de mulher. Voltou para Londres.

Essa é uma obra que fala muito sobre literatura. Há trechos interessantíssimos sobre o processo do fazer literário, as fases que passa o escritor. Só por isso já merece ser lida.

(…) O ofício do poeta, portanto, é portanto mais alto de todos. Suas palavras alcançam o que para outros é inatingível. (p.96)

A autora, creio, quis mostrar como seria se as pessoas mudassem de gênero. Um machista que virasse mulher, deixaria de sê- lo? As regras sociais começariam a mudar? Ela estava irritada porque não podia nadar com aquela saia enorme.

(…) devo, então, começar a respeitar a opinião do outro sexo, embora me pareça monstruosa? Se uso saias, se não posso nadar, se tenho que ser salva por um marinheiro, Deus meu!”‘ Gritou, ” que hei de fazer? (P.87)

Orlando descreve situações cotidianas que as mulheres são obrigadas a viver, todas de importância inferior, subjugadas e serviçais.

Ela conhece os dois lados, foi homem durante 30 anos. Sempre amou as mulheres e chega à conclusão que não precisa mudar isso por causa do seu corpo feminino. Ama uma mulher, Sacha, a rainha russa.

Engraçado é que quando ela chegou em casa depois de muito tempo fora e como mulher, nenhum criado duvidou que fosse Orlando e nem estranhou a sua nova condição.

Há tempos, antes de viajar para a Turquia, Orlando tinha conhecido uma mulher com estranhos modos, ele não tinha simpatizado muito com ela. Essa “mulher”, Harry na verdade, volta dizendo ser um homem e que havia vestido- se de mulher para conquistá- lo, pois estava apaixonado. Essa confusão de gêneros, creio, é para mandar o recado de que gente pode se apaixonar por quem for. Se não existissem regras, moralismo religioso, vergonhas próprias e alheias, convenções, amarras, tabus…como seria o amor, o verdadeiro? Dentro dessa parafernália toda de impedimentos, há gente que escolhe simplesmente amar. Mas podia ser sem tanto sofrimento, não é?

Se isto  é amor (…) há no amor alguma coisa profundamente ridícula. (p.99)

O arquiduque Harry fez- lhe uma declaração apaixonada de amor. Harry ama Orlando, seja homem ou mulher, mas não é correspondido.

Do amor ao que nos cobre. Sobre a influência das roupas, segundo a filosofia:

Alguns filósofos diriam que a mudança de vestuário tinha muito que ver com isso. Embora parecendo simples frivolidades, as roupas, dizem eles, desempenham mais importante função que a de nós aquecerem, simplesmente. Elas mudam a nossa opinião a respeito do mundo, e a opinião do mundo a nosso respeito. (P.104)

Todos temos os dois gêneros dentro de nós, em maior ou menor grau. Não há mal algum assumir isso, há que estar aberto para aceitar o que não é convenção, para normalizar a situação das pessoas que têm uma aparência que não corresponde com o que sentem.

No Brasil e no mundo, o assunto dos transgêneros está nos meios de comunicação, porque gente famosa passou pelo processo físico de transformação. O famoso cartunista Laerte decidiu assumir publicamente o seu lado feminino aos 60 anos; o mesmo aconteceu com o padrasto das Kardashians, Bruce Jenner (agora Caitlyn Jenner); também a Tammy Miranda.

A cineasta brasileira Anna Muylaert ( tive o prazer de entrevistá- la em Madri) lançou um filme em fevereiro no Festival de Berlim: “Mãe só há uma”, em cartaz no Brasil agora. A história é baseada em fatos reais, aquele caso do menino Pedrinho que foi roubado na maternidade. No filme, Pierre (Felipe, na verdade) foi sequestrado por uma mulher que o criou como seu filho. Foi encontrado pela família biológica 17 anos depois. Felipe/ Pierre considera a mulher que foi presa a sua verdadeira mãe. Anna “brinca” com a coisa do gênero/sexualidade do personagem Pierre. Ele é bissexual, aparência andrógina, maquia- se, tem uma banda de rock, pinta as unhas. A liberdade de ser o que quiser ser. Uma pessoa pode ser muitas coisas. Orlando também brinca com a dualidade, por vezes usa roupas unissex.

Outro filme ou livro de David Ebershoff, que você pode conhecer mais sobre o assunto é o “Garota dinamarquesa”, que conta a história verídica de Lili Elbe, parece que foi o segundo caso no mundo de cirurgia de mudança de sexo.

A tolerância e o respeito são fundamentais. Se você não gosta, o problema está com você, não com o outro. Precisa educar- se para aceitar quem não é igual a você. A única coisa triste e feia é ver gente infeliz devido às velhas fórmulas tradicionais, desgastadas e que não servem para todos…

 Orlando, agora vestido de homem e comportando- se como tal, mesmo sabendo- se mulher, dá um passeio noturno e encontra Nell, que não se importa de descobrir que Orlando é também mulher. Orlando achava uma vantagem poder desfrutar dos dois gêneros:

(…) Parece que não tinha dificuldade em sustentar o duplo papel, pois mudava de sexo muito mais frequentemente do que podem imaginar os que só usarem uma espécie de roupas. E não pode haver nenhuma dúvida de que com esse artifício colhia uma dupla colheita, que os prazeres da vida aumentavam e sua experiência se multiplicava. (p. 123)

 Orlando pode ser interssexual. Sua aparência andrógina só pode ser diferenciada pelas roupas.

Atribui- se à Vita o personagem de Orlando.  Mas a questão dessa briga interior, quem sabe,  não serviria para Virginia também? Seria a gênese dos problemas psiquiátricos da autora? Ou não… quem sabe?

Procurei a felicidade muitos anos e não a encontrei; procurei a fama e perdia- a; o amor,  não o conheci; a vida –e eis que a morte é melhor. Conheci muitos homens e mulheres (…) não entendi nenhum. É melhor que fique aqui em paz, só com o céu em cima de mim. (Orlando caído no chão, no bosque, com o tornozelo quebrado, p. 139).

As dores da alma podem ser muito maiores e devastadoras que as físicas.

Mas, sossega…essa história tem um final feliz. “Nada muda”, mas num espaço de “três segundos e meio”, tudo pode mudar.

Uma das coisas mais interessantes desse livro é a questão do tempo/relatividade/intensidade. Tem gente que vive 200 anos, mas só tem 36 anos de idade, como Orlando. Há amores que duram pouco tempo cronológico, mas duram milênios pela intensidade que implicam; já outros, duram trinta anos, mas caberiam em um só dia.

Que vinha a ser, então, a vida? (p.159)

Vida? Literatura? Converter uma na outra? (p.160)

A verdadeira substância da vida, agora (…) é mágica. (p.169)


A edição que eu tenho é muito especial. É de 1978, traduzida pela poetisa Cecília Meireles: “a tradução que a Nova Fronteira agora reedita foi feita por Cecília Meireles. Trata- se não de uma tradução literal; palavra por palavra, do original. Trata- se como toda grande tradução, de um novo original. Quase como se Virginia Woolf fosse uma grande escritora brasileira.”

Curiosidade: esse livro foi encontrado em  um sebo em Barcelona. “Orlando”, em perfeito estado de conservação, parece nunca ter sido lido pela sua primeira dona, a Ana do Rio de Janeiro, em 1989, há 27 anos:

13615132_631078893714341_7022206275252763066_nQuem será Ana? Ana, cadê você?! Como o seu livro foi parar do outro lado do Atlântico?!

Resenhão, não é? Muito extenso. Ainda assim, creio que passaram detalhes e matizes que ainda vou ter que polir. Como disse a princípio, é a minha primeira incursão em Virgínia Woolf.

Obrigada pela paciência e por ter chegado até o final. Um livro intenso, que levanta muitas questões importantes, que fazem refletir sobre o tempo, a vida e a morte, o ser, a sexualidade e gênero, a sociedade, o amor e o fazer literário.

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Woolf, Virginia; Orlando, Coleção Grandes Romances. Nova Fronteira, 1978, Rio de Janeiro. 185 páginas

Falando em Literatura e Revista BrazilcomZ, parceria de sucesso


Saiu hoje a edição de dezembro da Revista BrazilcomZ e tenho duas novidades pra vocês…convidei doze personalidades do mundo das Letras para responder a seguinte frase: “Literatura é…”. Uma “galera” de peso teve a gentileza de participar, entre eles, Luiz Ruffato, Nádia Battella Gotlib, Lya Luft, e vários escritores bacanas. Segue o link para ver saber o que todos disseram!

Clica aqui.

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Saiu também a entrevista que fiz com a cineasta carioca Mini kerti. Ela é diretora de cine e TV. Já fez alguns documentais ligados à música muito interessantes. Vale a pena conhecer a pessoa e a obra! Mini esteve em Madri para apresentar o seu filme “Muitos homens num só”.

Dá uma olhada aqui.

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Volta pra me contar o que achou 😉

Crônica de uma noite inesquecível: estreia do filme “A estrada 47” em Madri


 O filme que inaugurou a mostra Novocine em Madri foi “A estrada 47”, (2013) do fantástico cineasta Vicente Ferraz. O foyer do cinema “Palacio de la Prensa”, na mítica avenida Gran Vía, estava cheio. Cheguei com duas amigas 15 minutos antes, já que no ano anterior cheguei no horário e não tive nenhum problema para entrar. A diferença? Esse ano houve sorteio de duas passagens para a Bahia, quem ganhou, por sinal,  foi um casal que estava ao meu lado. Boa viagem!

Teve roubo de celular e resgate do mesmo por três moças corajosas. Quer saber mais?!

Continue lendo lá no meu outro blog, o PalomitaZ, na Revista BrazilcomZ. (Clique aqui)

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Ontem no “Cine Palacio de la Prensa”, a presença das produtoras Mariana Jacob, Silvana Morales Nunes, da cineasta Mini Kert (em breve entrevista com ela na BrazilcomZ) do cineasta Vicente Ferraz (primeiro à direita), do diretor da Fundação Cultural Hispano- Brasileira e do embaixador do Brasil na Espanha, Antonio Simões (com o microfone).

Dez filmes de terror para esta sexta- feira, 13


O número 13 é considerado um número de azar para muitas pessoas e culturas, porque vários acontecimentos trágicos aconteceram justo nesse dia ao longo da história. A superstição pode ter começado na França no dia 13 de outubro de 1307, uma sexta- feira, quando a Ordem dos Templários (guerreiros da igreja católica) foi considerada ilegal e os membros começaram a ser torturados e executados por heresia. Veja alguns motivos que colaboram para essa superstição (veja mais na web http://www.sexta-feira13.com):

  • Na numerologia, o número 12 é perfeito: 12 meses do ano, 12 signos do zodíaco, 12 apóstolos, o 13 é um número irregular.
  • Possivelmente, Jesus Cristo tenha sido assassinado numa sexta- feira, 13 (calendário hebraico).
  • Na santa ceia havia 13 membros e um deles, Judas, traiu Jesus.
  • Na mitologia nórdica, convidar 13 pessoas dá azar.
  • O pior incêndio da Austrália aconteceu numa sexta, 13.
  • Acidentes aéreos, um que virou filme, “Alive” (“Vivos”), aconteceram numa sexta, 13.
  • No Japão, o medo é tão grande que não existe o número 13 nos prédios.

Continue lendo e veja a minha lista de filmes de terror que você pode assistir online lá no PalomitaZ, meu blog sobre cinema. (CLIQUE AQUI)

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