Escritores e o fascismo: quando pensar mata


Para os desavisados: literatura tem TUDO a ver com política! Já se fala até em proibição de livros.

Escritores, jornalistas, estudantes e artistas sempre foram vítimas diretas da ditadura no Brasil e nos governos fascistas pelo mundo, ao contrário do que declarou o candidato à República brasileira que, “nas ditaduras só desapareceram bandidos”. Mesmo os criminosos num Estado de direito e democracia, têm que ter um julgamente justo, o contrário disto é a barbárie.

Ah, sem esquecer dos blogueiros, esses estão na mira de governos totalitários, como a cubana Yoani Sánchez, que denuncia as arbitrariedades do seu país, já teve o acesso ao seu blog bloqueado em Cuba, foi sequestrada e espancada pela polícia do seu país e está constantemente vigiada.

Não esqueça que o Brasil foi governado durante O MAIOR TEMPO NA SUA HISTÓRIA por militares, governantes de direita e foi NEFASTO: pobreza, violência, inflação, corrupção, falta de infra- estruturas, saúde e desemprego galopantes. Vamos ser sérios e justos! O Brasil já sofreu demais golpes à sua democracia! Há gente que não se recuperou da última ainda, há famílias destruídas e feridas até hoje.

Procure artigos de jornais, como por exemplo, esta notícia de 1999 falando sobre a inflação no governo de General Figueiredo

… e este artigo sobre a violência urbana na época da ditadura, que atingiu níveis de “epidemia”. 

Veja esse vídeo (clique no link abaixo) sobre o pensamento do candidato fascista que temos que combater, pois será um retrocesso de 40 anos e um golpe à nossa liberdade e dignidade:

https://youtu.be/-fMdCwlwg8E


Muitos escritores foram exilados, torturados, assassinados e desapareceram por conta do que pensavam em países com governos ditatoriais. São tantos, que a lista ficaria muito extensa, vou dar só alguns tristes exemplos:

BRASIL

1-2. Jorge Amado e Zélia Gattai exilados na França de 1947 a 1950, porque o autor era comunista. Este foi um dos períodos militares do Brasil.

3. O professor ioguslavo, filósofo e jornalista da TV Cultura, Vladimir Herzog,  fugiu da Europa por causa do nazismo alemão e acabou morrendo na mão da ditadura brasileira.  Ele tinha só 38 anos quando foi assassinado (1975) pelos militares brasileiros num porão de uma delegacia em São Paulo. Existe uma foto do seu corpo, não clique se não quiser ver. Na época, a desculpa dos fascistas para as mortes frequentes dos seus prisioneiros torturados era o “suicídio”. Vladimir era comunista e judeu.

4. Rubens Paiva não era escritor, mas era pai do escritor Marcelo Rubens Paiva, do livro “Feliz ano velho”. O pai começou na política no movimento estudantil e depois doi eleito deputado estadual pelo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB). Rubens foi torturado até a morte e jogado num morro do Rio de Janeiro (1971). Os militares que participaram do seu assassinato confessaram em 2014. Leia toda a história aqui.

5. Depois de ver este caso, entre lágrimas, desisti de continuar a lista do Brasil. Alexandre Vannucchi Leme, tinha só 22 anos e era estudante da USP. Seu crime? Tentar reabrir o DCE (Diretório Central dos Estudantes, que era ilegal na época. Ele foi preso e torturado pelos militares até a morte, em 1973 e foi enterrado como indigente no Cemitério de Perus. Os seus pais o encontraram dois dias depois coberto de cal, artimanha dos militares para esconder as sessões de tortura.

Pais, mães…têm certeza que vocês votarão num candidato fascista? Ainda dá tempo de corrigir…

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6. ESPANHA: o poeta Federico García Lorca foi fuzilado pelo fascista Francisco Franco, porque era republicano e homossexual.

7. RÚSSIA: o escritor e professor de Direito Vladmir Nabokov, pai do escritor com mesmo nome (o que escreveu a famosa obra “Lolita”) foi executado sumariamente na rua a tiros, porque era um dos membros fundadores de um partido democrático.

8. CHILE: a ditadura de Pinochet matou, torturou e exilou muitos artistas. Um dos escritores mais conhecidos, Pablo Neruda (Nobel de Literatura, 1971), teve seu corpo exumado em 2017, pois havia suspeitas sobre a causa de sua morte (1973). No atestado de óbito diz que faleceu de câncer, mas já foi comprovado que não. Tudo indica que Neruda foi envenenado doze dias depois do golpe de Estado que sofreu o presidente Salvador Allende. Neruda tinha ideias comunistas e libertárias.

9. PORTUGAL: o ditador Salazar não teve coragem de mandar prender o único futuro Nobel de Literatura na língua de Camões, José Saramago, que era comunista filiado ao partido, em plena ditadura portuguesa, e crítico feroz da mesma. Ao contrário do lisboeta Saramago, o escritor Álvaro Cunhal não teve tanta sorte e ficou QUINZE anos preso por causa de seus ideais comunistas! Esse era o modus operandi do ditador português: prender os intelectuais contrários ao seu regime.

10. ARGENTINA: Rodolfo Walsh era um escritor consagrado no seu país, quando caiu a ditadura na Argentina. Ele foi combatente ativo contra o fascismo (através dos seus textos), em um grupo organizado. Walsh sofreu uma emboscada, foi fuzilado e desapareceram com o seu corpo. Sua família nunca pode lhe sepultar. Tal como o argentino, na Espanha ainda há quase 50 mil pessoas desaparecidas vítimas da ditadura de Franco.


Há que se aprender com o passado! E para continuarmos a ter voz e sem ameaças à nossa integridade física, vote pela democracia, já basta de dor! Há caminhos mais racionais e civilizados para salvar o nosso Brasil de tudo o que nos aflige.

Deixo aqui um poema de Neruda, enquanto também me é permitido falar:

Eu não me calo

Perdoe o cidadão esperançado
Minha lembrança de ações miseráveis,
Que levantam os homens do passado.
Eu preconizo um amor inexorável.
E não me importa pessoa nem cão:
Só o povo me é considerável,
Só a pátria é minha condição.
Povo e pátria manejam meu cuidado,
Pátria e povo destinam meus deveres
E se logram matar o revoltado
Pelo povo, é minha Pátria quem morre.
É esse meu temor e minha agonia.
Por isso no combate ninguém espere
Que fique sem voz minha poesia.

Eu não me calo, não me calarei…

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Livros raros (e caros) para presente de Natal


Um presente bastante especial para o Natal que se aproxima, são os livros raros e antigos autografados por algum escritor de renome. Só que essas obras não para qualquer bolso, os preços são bastante elevados.

Por exemplo, “Odas elementales”, de Pablo Neruda, edição limitada de 1954, só saíram duzentas cópias numeradas e assinadas pelo autor, custa R$ 4.942,55 (ou 1.304, euros). Veja:

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Outra obra interessantíssima é essa edição do grande Gabo, Gabriel García Márquez, autor do maravilhoso “Cem anos de solidão”. O colombiano faleceu em 2014 e seus livros autografados já valem mais que ouro,  “Diatriba de amor contra un hombre sentado”, de 1994, custa quase seis mil reais! Reparem que Gabo desenhou uma flor junto com a dedicatória, lindo!

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Achou caro os dois anteriores? Então, prepare- se para o próximo: edição de 1942 de Jorge Luís Borges, “El jardín de senderos que se bifurcan”, custa quase 15 mil reais!

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Os três anteriores foram livros em espanhol, mas na nossa língua encontrei um muito especial, primeira edição de “Rampa” (1930), de Adolpho Rocha, pseudônimo do escritor português Miguel Torga. Essa joia, amigos, só vai levar quem dispuser de R$ 31.634,26!

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Agora, um dos livros que mais interessantes e que mais me emocionam, confesso, é esse exemplar do francês Guy de Maupassant. Primeira edição numerada (só 150 exemplares) de “Notre coeur” (“Nosso coração”), de 1890. Ele custa R$ 13.076,54. O livro tem 127 anos e está cheio de anotações do Guy. Não é o máximo?!

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Qual é o seu preferido? Aceito qualquer um de presente de Natal, tá? 😀

Hoje é Dia dos Professores na Espanha/Día del Maestro en España


Hoje, 27 de novembro, é o Dia dos Professores na Espanha. O Google Espanha comemora a data com um doodle muito fofo.

dddOs jornais reproduziram e o ABC publicou um decálogo da poetisa chilena (que morou na Espanha), Gabriela Mistral (1889-1957), professora também e prêmio Nobel de Literatura em 1945.

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Leia o seu decálogo, “os dez mandamentos” do professor. Para Mistral, o ofício era similar ao sacerdócio, uma missão superior:

1. Ama. Si no puedes amar mucho, no enseñes a niños.

2. Simplifica. Saber es simplificar sin quitar esencia.

3. Insiste. Repite como la naturaleza repite las especies hasta alcanzar la perfección.

4. Enseña con intención de hermosura, porque la hermosura es madre.

5. Maestro, sé fervoroso. Para encender lámparas basta llevar fuego en el corazón.

6. Vivifica tu clase. Cada lección ha de ser viva como un ser.

7. Acuérdate de que tu oficio no es mercancía sino oficio divino.

8. Acuérdate. Para dar hay que tener mucho.

9. Antes de dictar tu lección cotidiana mira a tu corazón y ve si está puro.

10. Piensa en que Dios se ha puesto a crear el mundo de mañana.


Agora em português:

  1. Ama. Se não podes amar muito, não ensine às crianças.
  2. Simplifica. Saber simplificar sem tirar a essência.
  3. Repete. Repete como a natureza repete as espécies até alcançar a perfeição.
  4. Ensina com a intenção da beleza, porque a beleza é mãe.
  5. Professor, seja fervoroso. Para acender lâmpadas basta levar fogo no coração.
  6. Vivifica a tua classe. Cada lição tem que ser vivida como um ser.
  7. Lembra- se que o teu ofício não é mercadoria, senão um ofício divino.
  8. Lembra- se. Para dar há que ter muito.
  9. Antes de ditar a sua lição cotidiana olha o seu coração e veja se está puro.
  10. Pensa que Deus começou a criar o mundo de manhã.

Uns bons conselhos, não é? Eu concordo com ela. Um feliz dia a todos os professores! Feliz Día del Maestro!

Chilena ganha prêmio literário na Espanha com obra inspirada em Clarice Lispector


A autora chilena Carla Guelfenbein (Santiago do Chile, 1959) inspirou- se na vida de Clarice Lispector para escrever seu romance “Contigo longe” (Livre tradução de “Contigo en la distancia”) que ganhou o Alfaguara, importante prêmio literário espanhol que paga 156 mil euros (quase 550 mil reais).  O livro de Carla ganhou por unanimidade. O jurado foi composto por escritores espanhóis como Javier Cercas, Pilar Reyes, a livreira Concha Quirós, entre outros.

Contigo en la distancia concorreu com 707 outros originais. A história enlaça amores e enigmas com uma escritura ao mesmo tempo complexa e transparente. Três vozes muito bem montadas iluminam as áreas escuras da mentira e da verdade, do talento e da mediocridade, do sucesso e do fracasso. O romance escolhido fala sobre a genialidade e a poesia. Acontece em dois tempos, nos anos cinquenta e na época atual. Há quatro personagens que estão unidos por Vera Sigall, uma escritora de culto. (Guelfenbein)

Sigall é o sobrenome da bisavó de Carla, que era da Ucrânia (como Clarice). Carla é fã de Clarice, “Há muitos aspectos da sua vida que me identifico”.

Esse é um romance policial, não é hermético, intimista sim. Vera Sigall sofre um acidente e entra em coma. Toda a trama gira em torno da vida desta escritora, reconstruída por três personagens adicionais.

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Faz 15 anos que Carla dedica- se exclusivamente a escrever. Contigo en la distancia é a sua quinta obra.

Fonte: La voz de Galicia

Resenha: “Convivência”, de Carola Saavedra


Carola Saavedra (Santiago, 1973), imigrou para o Brasil aos três anos, sotaque carioca, é uma das representantes da Literatura Contemporânea brasileira. Está agora na Salão do Livro de Paris selecionada pelo Ministério da Cultura do Brasil.

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(foto: GNT)

Fiz o download do livro, quer dizer, livro não, um conto de oito páginas no iTunes, acho que não chegou a custar 2 euros. E não vale.

Primeiro, o texto começa com um diálogo, a autora dispensou o narrador, a impressão que fica é que o conto iniciou pelo meio. Detesto narrativas que começam com travessão. Parece fora do lugar. Para começar assim o texto tem que ser muito bom.

Segundo, o texto curto é um punhado de clichês que me provocaram bocejos. Nada novo. Vou resumir: escritora-álcool-fumaça-penumbra. Moda. Parece redação de colégio, verde. Taça de vinho na capa. O vinho nunca esteve tão desprestigiado. A personagem, uma escritora que dialoga com o personagem que criou, ele ganha autonomia. E o pior é que ela explica isso, como se não tivesse ficado claro:

– Além do que, todos sabemos que a partir de um certo ponto da trama, os personagens adquirem vida própria. Todo autor diz isso as entrevistas. (p.6)

Um conto de oito páginas que me custou ler. Não é dos piores contos que já li, mas não é bom. O que eu peço dos escritores é um mínimo, um mínimo de originalidade, não gosto de ler e ter a impressão que já li o texto mil vezes antes. Se a ideia não é das mais inovadoras, que a forma, a estrutura ofereça alguma novidade pelo menos. O texto falta. Não sei se esse projeto que a Carola participou é algum desses de contos curtos, que há dezenas na internet, que veio suprir o sonho de todos os que querem virar escritores, mas não têm um mínimo de bagagem, trabalho, leituras necessárias, técnica, a prolixidade necessária para escrever (e às vezes nem talento). Essa é a era do texto rápido, ligeiro, porque falta tempo para ler (e para escrever). Parece que descartou também o fazer narrativo bem escrito, bem elaborado, surgiu a literatura de guardanapo (cadê, já foi?). Literatura melhor ou pior escrita, mas com temas muito parecidos, um copiando do outro. Falta personalidade, estilo próprio. Literatura “fast” e uniformizada é o que temos. Você engole isso? Eu não. Por isso acabo voltando aos clássicos, porque dá muito desânimo “perder tempo” com a literatura produzida agora.

Curiosamente, depois de escrever o parágrafo acima, encontrei no livro de Antônio Cândido (PDF grátis aqui), “A educação pela noite e outros ensaios”, o crítico literário que mais admiro, que vem corroborar exatamente com o meu pensamento em relação ao conto de Carola Saavedra. Ai, Literatura Contemporânea, qual é mesmo a sua cara? Na mosca, veja (p.213):

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Na resenha sobre “Balada da infância perdida”, de Antônio Torres, no final, eu coloco também essa questão da literatura contemporânea inconsistente. Veja lá.

Não vou descartar a autora por causa desse conto, se ela anda fazendo sucesso no Brasil, não deve ser por causa desse texto. Qual é o bom, quem indica? Alguém que tenha lido “de verdade”, por favor.

A Carola parece simpática e deve ser um amor de menina. Mas não posso ser crítica (e sincera) se pensar na sensibilidade do escritor, tenho que dizer o que penso, eu vou no texto. Vá lá, pegue o conto, leia e venha me dizer o que achou, quero saber a sua opinião. Falando em Literatura a gente se entende.

Unknown

 Saavedra, Carola. Convivência (conto). Formas breves. E-Galáxia. Epub, 2014. 14 páginas

Pablo Neruda será exumado depois de 40 anos da sua morte


O corpo do poeta Chileno Pablo Neruda será exumado após 40 anos da sua morte. Neruda era comunista e faleceu 12 dias depois do golpe de Estado de Augusto Pinochet. Existe uma desconfiança de que o poeta possa ter sido assassinado e que não tenha morrido de câncer de próstata como se pensava. O juíz Mario Carroza tomou essa decisão, confirmada na página da Fundação Pablo Neruda, depois que o motorista e guarda- costas de Pablo Neruda, Manuel Araya, que o acompanhou na sua tentativa de fuga de Santiago ao México, afirmara que o poeta recebeu uma injeção letal no estômago no dia 23 de setembro de 1973. Ele também foi preso e, quem sabe por medo, calou durante quase 40 anos.

pablo_nerudaTerá sido o poeta Prêmio Nobel de Literatura de 1971 assassinado pela ditadura de Pinochet? Em breve saberemos.

Talvez

Talvez não ser,
é ser sem que tu sejas,
sem que vás cortando
o meio dia com uma
flor azul,
sem que caminhes mais tarde
pela névoa e pelos tijolos,
sem essa luz que levas na mão
que, talvez, outros não verão dourada,
que talvez ninguém
soube que crescia
como a origem vermelha da rosa,
sem que sejas, enfim,
sem que viesses brusca, incitante
conhecer a minha vida,
rajada de roseira,
trigo do vento,

E desde então, sou porque tu és
E desde então és
sou e somos…
E por amor
Serei… Serás… Seremos…

Pablo Neruda

Livro “O caderno de Maya”, Isabel Allende


Sinopse: Maya Vidal, americana de 19 anos, filha de um chileno e de uma dinamarquesa, criada com muito amor pelos avós paternos, Nini e Popo, num casarão em Berkeley. Com a morte do avô, que era tudo pras duas, a avó caiu numa depressão e a garota se revoltou com a perda do avô. Más companhias a fizeram cometer atos delinquentes, a conhecer as drogas e a prosmiscuidade. Acabou num centro para menores. Fugiu desse centro em Oregon e foi a pior decisão da sua vida. Chegou em Las Vegas, acabou trabalhando para um traficante de drogas e falsificador de dinheiro, logo assassinado por dois dos seus “colaboradores”, Maya teve que fugir. Virou mendiga e viciada em drogas. Sua avó a mandou para a ilha de Chiloé no Chile, para fugir dos traficantes. Na casa de Manuel Arias, descobriu a si mesma, o amor e o desamor, o misticismo do povo chileno, a história da sua família, além da história da ditadura no Chile, comandada pelo terrível general Pinochet.

Isabel Allende, uma leonina de 2 de agosto de 1942 (Lima, Peru)* radicada na Califórnia, filha de um diplomata e parente do ex- presidente chileno (seu pai era primo de Salvador Allende) foi casada duas vezes e tem um casal de filhos.  Ficou mundialmente famosa logo com seu primeiro livro “A casa dos espíritos” (1982); seu último livro foi lançado em maio desse ano, “El cuaderno de Maya”, onde tive a oportunidade de pegar o meu exemplar autografado na Feira do Livro de Madrid, veja o vídeo aqui. A escritora está muito bem com seus 69 anos:

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Na Feira do Livro de Madri (Foto: Fernanda Sampaio)

Nesse livro Isabel contou o horror da ditadura chilena, cruel e assassina, que durou quase 20 anos (1973 até 1998) e que matou mais de 3000 adversários políticos, fora os desaparecidos e exilados, tragédia que tocou a família Allende com o suicídio do presidente socialista, lutou até o final, preferiu tirar a própria vida a entregar- se.

Os leitores chilenos podem não ficar muito contentes com Isabel Allende por causa de algumas descrições físicas do povo e costumes:

“No Chile as classes sociais dividem o povo, como as castas na Índia ou a raça nos Estados Unidos (…) as “chilotas” (da ilha de Chiloé) são gordas, baixas, com traços indígenas, desgastadas pelo trabalho e as penas”. (p. 214)

Ela descreve o interior do Chile como um lugar rudimentar, onde vida e morte são baseados na superstição, mas que ao mesmo tempo o povo tem a “esperteza” de se caracterizar de índios para conseguir ganhar dinheiro dos turistas e até uma velhinha de mais de 100 anos planta maconha no quintal.

Creio que as questões raciais apresentadas no livro podem ser lidas como ironias, como críticas. Existe a evidente superioridade européia e norte- americana diante dos “pobres índios da América do Sul”. Maya Vidal foi conhecer a mãe dinamarquesa e a narradora- personagem cita suas impressões acerca de sua mãe:

“Creio que o meu aspecto foi um secreto alívio para minha mãe, porque eu não apresentava evidência dos gens latino- americanos do meu pai e num aperto poderia passar por escandinava”. (p. 414)

Ela cita o Brasil algumas vezes, o futebol, Pelé e fala do país como sendo um destino paradisíaco para os bandidos fugirem, tal como pretendia o traficante da história.

O tema principal gira em torno das drogas e todas as consequências ruins que a dependência pode trazer. Há vinte e cinco anos, Isabel casou- se com um americano que tem três filhos biológicos e um adotado, e os três biológicos tiveram problemas com as drogas, por isso ela conta com muita propriedade e verdade todos os processos sofridos através da sua personagem Maya.

É uma narração correta, Isabel escreve bem (com exceções, frases que acho que sobraram) mas não entrou para os meus livros preferidos, porque não conseguiu me comover e não gostei da mensagem final, como se por ser jovem, todos os crimes acabam sendo perdoados ou desaparecem, o que está muito longe da realidade.

Allende, Isabel. El cuaderno de Maya. Plaza Janés, Barcelona, 2011. Preço: 23,90 euros

*Por um equívoco, eu havia atribuído a nacionalidade chilena à autora, mas ela nasceu no Peru.