Adeus, Carlos Heitor Cony


Faleceu na noite de ontem no Rio de Janeiro, o cronista e imortal Carlos Heitor Cony, aos 91 anos. Ele passou por uma cirurgia no intestino e faleceu por causa de uma infecção generalizada. A notícia foi divulgada hoje pela Academia Brasileira de Letras:

O Acadêmico, jornalista e escritor Carlos Heitor Cony morreu, vítima de falência múltipla de órgãos, ontem, dia 5 de janeiro, sexta-feira, às 23 horas, na Unidade de Terapia Intensiva (UTI), do Hospital Samaritano, no bairro de Botafogo, no Rio de Janeiro, onde estava internado.

Assim que foi informado do falecimento de Carlos Heitor Cony, Marco Lucchesi determinou o cumprimento de luto de três dias e que a bandeira da Academia fosse hasteada a meio mastro. E complementou: “Carlos Heitor Cony integra a família dos grandes escritores do século XX. Criou um continente literário fascinante, sagaz, imprevisível. Homem de vasta cultura, jamais se desligou do presente, do Brasil e do mundo. Quase memória é um de seus livros mais visitados e redesenha a figura do pai na literatura brasileira”.

Quinto ocupante da Cadeira nº 3, eleito em 23 de março de 2000, na sucessão de Herberto Sales e recebido em 31 de maio de 2000 pelo Acadêmico Arnaldo Niskier, Carlos Heitor Cony foi redator da Rádio Jornal do Brasil. De 1958 a 1960, tornou-se um dos jovens escritores que colaboram no SDJB (Suplemento Dominical do Jornal do Brasil), com contos, ensaios, traduções. Em 1961, começou a trabalhar no Correio da Manhã, do qual foi redator, cronista, editorialista e editor.

Colaborou por mais de 30 anos na revista Manchete e dirigiu Fatos & Fotos, Desfile, Ele Ela. De 1985 a 1990, foi diretor de Teledramaturgia da Rede Manchete, produzindo e escrevendo sinopses das novelas A Marquesa de Santos, D. Beja, Kananga do Japão. Em 1993, substituiu Otto Lara Resende na crônica diária do jornal Folha de S. Paulo, da qual era membro do Conselho Editorial. Foi comentarista diário da CBN, participando do Grande Jornal com o programa “Liberdade de Expressão”.

Entre seus prêmios estão: o Prêmio Manuel Antônio de Almeida, com os romances A Verdade de Cada Dia, em 1957, e Tijolo de Segurança, em 1958; Prêmio Machado de Assis, da Academia Brasileira de Letras, pelo conjunto da obra, em 1996; Prêmio Jabuti de 1996, da Câmara Brasileira do Livro, pelo romance Quase Memória; Prêmio Nacional Nestlé de Literatura, de 1997, pelo romance O Piano e a Orquestra; Prêmio Jabuti de 1997, pelo romance A Casa do Poeta Trágico; Prêmio Jabuti 2000, concedido ao Romance sem Palavras; Os romances Quase Memória e A Casa do Poeta Trágico ganharam o Prêmio “Livro do Ano”, em 1996 e 1997, conferido pela Câmara Brasileira do Livro.

Carlos Heitor Cony (Foto: Folha de São Paulo)

Carlos Heitor Cony (Foto: Folha de São Paulo)

O escritor Antônio Torres lamentou a morte do amigo no Facebook:

Ah, a falta que o Cony já me faz. Grande escritor, grande amigo, grande companheiro de viagens e palestras (Paris, Natal, Guadalajara, Rio), sempre levantando as plateias com tiradas como esta: “O otimista é um mal-informado”. Em tudo que escreveu, deu um fino trato à última flor do Lácio, de que é exemplo a crônica abaixo, extraída do livro “Os anos mais antigos do passado”, publicado pela Record.


Abaixo, a última crônica de Cony no jornal Folha de São Paulo (31/12/2017). Bela e triste, parece mesmo uma despedida.

Uma carta e o Natal

Este será o primeiro Natal que enfrentaremos, pródigos e lúcidos. Até o ano passado conseguimos manter o mistério —e eu amava o brilho de teus olhos quando, manhã ainda, vinhas cambaleando de sono em busca da árvore que durante a noite brotara embrulhos e coisas. Havia um rito complicado e que começava na véspera, quando eu te mostrava a estrela onde Papai Noel viria, com seu trenó e suas renas, abarrotado de brinquedos e presentes.

Tu ias dormir e eu velava para que dormisses bem e profundamente. Tua irmã, embora menor, creio que ela me embromava: na realidade, ela já devia pressentir que Papai Noel era um mito que nós fazíamos força para manter em nós mesmos. Ela não fazia força para isso, e desde que a árvore amanhecesse florida de pacotes e coisas, tudo dava na mesma. Contigo era diferente. Tu realmente acreditavas em mim e em Papai Noel.

Na escola te corromperam. Disseram que Papai Noel era eu —e eu nem posso repelir a infâmia e o falso testemunho. De qualquer forma, pediste um acordeão e uma caneta— e fomos juntos, de mãos dadas, escolher o acordeão.

O acordeão veio logo, e hoje, quando o encontrar na árvore, já vai saber o preço, o prazo de garantia, o fabricante. Não será o mágico brinquedo de outros Natais.

Quanto à caneta, também a compramos juntos. Escolheste a cor e o modelo, e abasteceste de tinta, para “já estar pronta” no dia de Natal. Sim, a caneta estava pronta. Arrumamos juntos os presentes em volta da árvore. Foste dormir, eu quedei sozinho e desesperado.

E apanhei a caneta. Escrevi isto. Não sei, ainda, se deixarei esta carta junto com os demais brinquedos. Porque nisso tudo o mais roubado fui eu. Meu Natal acabou e é triste a gente não poder mais dar água a um velhinho cansado das chaminés e tetos do mundo.

 

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Vinte e quatro livros para 2018


Numa tentativa de ser mais disciplinada, listei vinte e quatro livros que eu tenho grande vontade de ler e resenhar neste ano que vai começar amanhã. Alguns deles não são nada populares no Brasil, inclusive nem têm edição brasileira, por isso mesmo o meu interesse. Vamos colocar no ar novidades e não livros mais que mastigados, não é?! Fora que há que se traduzir mais e mais autores estrangeiros no Brasil, como há que se traduzir muito mais literatura brasileira no exterior. Forçar esse intercâmbio faz circular autores, idiomas, livros e mais conhecimento.

E como sugestão: aprenda idiomas! Espanhol e inglês são obrigatórios se você quiser ser um cidadão do mundo, além de expandir seu próprio universo interior, também para a sua vida profissional.  Saber idiomas é a chave para entender melhor outras culturas e saberes. E no âmbito literário, saber inglês, francês, espanhol, fora o nosso português, te abre um leque imenso de opções literárias, ainda mais com a Internet e a possibilidade de ler em e-books. E você, estrangeiro, que está lendo isto com tradutor, aprenda também português. 🙂

Vamos às minhas escolhas (as capas são as edições que eu tenho).

  1. “A ópera dos mortos”, de Autran Dourado

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Este é um livro que quero ler há muito tempo, por isso é o primeiro da fila. O mineiro Autran Dourado, falecido em 2012,  foi um dos maiores escritores do Brasil. O romance “A ópera dos mortos” (1967), é considerado por muitos a obra- prima do autor.
Ópera dos mortos. Romance. [Tapa blanda] by DOURADO, Autran.-

2. “A grama vermelha” (“L’erbe rouge”/ “La hierba roja”), de Boris Vian.

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Esse não achei tradução em português, mas não deve demorar. O francês Boris Vian (1920-1959), morreu com 39 anos, foi engenheiro, cantor, músico, tradutor, inventor entre outros, uma vida intensa. Ele tem uns títulos de livros “curiosos”: “Escupiré sobre vuestra tumba (Pocket) (“Irei cuspir- vos nos túmulos” ou “Que Se Mueran Los Feos ” (Qu”e morram os feios”). Eu tenho outro que está na lista Espuma dos Dias (Em Portuguese do Brasil), esse com edição brasileira da finada Cosac Naify.

3. “Contigo na distância” (“Contigo en la distancia”), de Carla Guelfenbein.

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A autora é chilena e Contigo En La Distancia (Premio Alfaguara 2015)” (“Contigo na distância”) ganhou um prêmio literário importante na Espanha, o Alfaguara (2015). A história foi baseada na vida de Clarice Lispector.

4. “A cidade sitiada”, de Clarice Lispector.

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Livro sem ler de Clarice não dá! A autora é para ser lida e relida, sempre. “A cidade sitiada” é o terceiro romance da autora.

A cidade sitiada

6. “Grandes esperanças”, de Charles Dickens

9788420654959

Este clássico do inglês Dickens deve ser daqueles que provocam lágrimas. Conta a história de um órfão, Pip e as dificuldades que enfrenta na vida.

Grandes esperanzas (El Libro De Bolsillo – Literatura)

7. “A camisa do marido”, de Nélida Piñón

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São nove contos da grande Nélida Piñón, escritora carioca, uma das minha autoras favoritas.

A Camisa do Marido (Em Portuguese do Brasil)

8. Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles

9789722339650

Esse já comecei a ler várias vezes e não avancei por problemas alheios ao livro.

Ciranda de Pedra

9. Paris não acaba nunca (livre tradução), de Enrique Vila- Matas

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O escritor espanhol me contou na Feira do Livro de Madri (2017), que estava em negociações com uma editora brasileira. Algumas de suas obras fora editadas pela finada Cosac Naify. Por enquanto, você pode ler em espanhol.

 París No Se Acaba Nunca (CONTEMPORANEA)

10. “1984”, de George Orwell

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Eu li “A revolução dos bichos” em 1996, lembro o ano, e adorei. Este, “1984”, está na lista há milênios, não pode passar de 2018.

1984

11. “13,99€”, de Frédéric Beigbeder

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Eu não tenho nenhuma referência do autor nem do livro, exceto o que conta na contracapa. A gente tem que fazer isso sim, “comprar livros pela capa”. Fiquei curiosa na livraria e vou pagar (já paguei, literalmente) pra ver.

13,99 Euros (Compactos)

12. “O grande Gatsby”, de F.S. Fitzgerald

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Outro clássico que está na estante faz tempo. Achei uma edição bilingue português- inglês baratinha:

O Grande Gatsby: The Great Gatsby: Edicao Bilingue

13. “Elegia”, de Philip Roth
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Elegía (CONTEMPORANEA)

14. “O clube da boa estrela”, de Amy Tan

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Conheci essa autora americana de origem chinesa, aqui em Madri. Tenho duas obras autografadas.

El Club de la Buena Estrella

15. “Matar um rouxinol”, de Harper Lee
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Matar a un ruiseñor: SERIE: CINE

16. “Trópico de capricórnio”, de Henry Miller

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17. “Um mundo feliz”, de Aldoux Huxley

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18.”O buda dos subúrbios”, de Hanif Kureishi

El Buda De Los Suburbios (Otra vuelta de tuerca)

19. “Os maias”, de Eça de Queirós

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Os Maias

20. Os filhos da América, de Nélida Piñón

Outro da Nélida. A edição que eu tenho é a espanhola. O nome ficou muito diferente: “La épica del corazón”

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La épica del corazón

21. “Em busca do tempo perdido- À sombra das meninas em flor”, de Marcel Proust

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Li a primeira parte e adorei! Veja aqui a resenha.

En busca del tiempo perdido. Estuche (13/20)

22. “Viagens na minha terra”, de Almeida Garrett

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Viagens na Minha Terra (Completo) (Portuguese Edition)

23. “Memorial de Aires”, Machado de Assis.

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Memorial de Aires (Série Machadiana Livro 4) (Portuguese Edition)

24. “Onde andará Dulce Veiga”, de Caio Fernando Abreu

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Onde Andará Dulce Veiga ? (Em Portuguese do Brasil)

A lista é muito otimista, são vinte e quatro livros, dois por mês, mas alguns são bem extensos, como “Grandes esperanças”, com quase 800 páginas, “Os Maias”, com mais de 700 e assim por diante, mas a intenção é administrar o tempo para dar certo.

O que você achou das minhas escolhas? Vamos embarcar comigo nessas leituras?!

Aproveito para desejar um feliz 2018, espero que você comece o ano com esperanças renovadas, com projetos, sonhos, e que ao longo do ano, todos eles se realizem com alegria e saúde!

 Em 2018, mais e melhor! Feliz ano novo!

 

Manuel Bandeira e Drummond no Parque dos Poetas em Portugal


Alguns sonhadores pensaram que seria uma boa ideia criar um parque onde a poesia fosse a grande atração. E realmente foi uma excelente ideia! Alguns dos idealizadores do parque:  Isaltino Morais, presidente da Câmara de Oeiras (1985-1989), o poeta e escritor David Mourão-Ferreira e o escultor Francisco Simões.

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Poesia com vistas ao mar. Esse é o labirinto.

O Parque dos Poetas é grande, tem “22 hectares de área verde. Quarenta artistas plásticos. Sessenta esculturas dos maiores poetas de sempre. Um museu ao ar livre. Equipamento desportivos, infantis, lúdicos. O magnífico Templo da Poesia. O único parque de poesia no mundo está em Oeiras.” É o único parque do mundo dedicado só à poesia!

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O parque tem um edifício para exposições. No último andar, um mirador com vistas ao mar e uma sala de leitura com alguns livros, onde também se pode tomar um cafezinho e descansar.

Nele estão representados os 20 maiores poetas portugueses do século XX, 13 trovadores e poetas do Renascimento e 27 esculturas de poetas.

As  informações acima estão num planfleto informativo/mapa, que peguei quando visitei o parque nesse mês. Quem assina o texto é o atual presidente da Câmara, Paulo  Vistas. Ele esqueceu de mencionar os poetas de outros países lusófonos. Brasileiros há dois: Carlos Drummond de Andrade, que vai ficar para uma próxima visita (o parque é gigante, não deu tempo!) e Manuel Bandeira, que tem um cantinho muito especial no parque.

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O pernambucano Manuel Bandeira (Recife, 19/04/1886- Rio de Janeiro, 13/10/1968) foi poeta, cronista, tradutor, imortal da ABL (1940). Dele é o famoso poema “Vou- me embora pra pasárgada”:

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

 E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Pasárgada foi uma cidade persa que não existe mais, hoje é território do Irã; um lugar, ironicamente, não muito conhecido por ser pacífico. A Pasárgada de Bandeira é mais idílica.

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Versos de Manuel Bandeira no Parque dos Poetas (Portugal)

Quem criou o conjunto de esculturas de Manuel Bandeira no Parque dos Poetas foi também um pernambucano, o fantástico Francisco Brennand (11/06/1927):

Francisco Brennand

O artista plástico pernambucano Francisco Brennand (Facebook)

Conheça um pouquinho mais do parque no vídeo abaixo (é curtinho). No chão do monumento à Bandeira está o poema “Canção das duas Índias”:

Entre estas Índias de leste
E as Índias ocidentais
Meus Deus que distância enorme
Quantos Oceanos Pacíficos
Quantos bancos de corais
Quantas frias latitudes!
Ilhas que a tormenta arrasa
Que os terremotos subvertem
Desoladas Marambaias
Sirtes sereias Medeias
Púbis a não poder mais
Altos como a estrela d’alva
Longínquos como Oceanias
— Brancas, sobrenaturais —
Oh inacessíveis praias!…

Para a web do Parque dos Poetas, clique aqui.

Veja os finalistas do Prêmio Jabuti 2017


O Prêmio Jabuti já está na sua 59ª edição, é a mais importante premiação literária do Brasil. Dá prestígio, mas muito dinheiro não. O maior prêmio (bruto) é de 35 mil reais. Divulgaram os finalistas de 2017, são muitas categorias, vou listar abaixo só algumas,  mas você pode ler todas AQUI.

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Já temos listas de bons livros para colocar na nossa estante:

Romance

Título: A Tradutora – Autor(a): Cristovão Tezza – Editora: Record

Título: Como se Estivéssemos em Palimpsesto de Putas – Autor(a): Elvira Vigna – Editora: Companhia das Letras

Título: Descobri que Estava Morto – Autor(a): J. P. Cuenca – Editora: Tusquets

Título: Machado – Autor(a): Silviano Santiago – Editora: Companhia das Letras

Título: O Marechal de Costas – Autor(a): José Luiz Passos – Editora: Companhia das Letras

Título: O Tribunal da Quinta-feira – Autor(a): Michel Laub – Editora: Companhia das Letras

Título: Outros Cantos – Autor(a): Maria Valéria Rezende – Editora: Companhia das Letras

Título: Simpatia Pelo Demônio – Autor(a): Bernardo Carvalho – Editora: Companhia das Letras

Título: Soy Loco Por Ti America – Autor(a): Javier Arancibia Contreras – Editora: Companhia das Letras

Título: Tristorosa – Autor(a): Eugen Weiss – Editora: @linkeditora


Contos e Crônicas

Título: Caixa Rubem Braga – Crônicas – Autor(a): Rubem Braga (autor), André Seffrin, Bernardo Buarque de Hollanda, Carlos Didier (organização) – Editora: Autêntica

Título: Diário das Coincidências – Autor(a): João Anzanello Carrascoza – Editora: Companhia Das Letras

Título: O sucesso – Autor(a): Adriana Lisboa – Editora: Companhia das Letras

Título: Receita para se fazer um monstro – Autor(a): Mário Rodrigues – Editora: Record

Título: Rio em shamas – Autor(a): Anderson França – Editora: Companhia das Letras

Título: Se for pra chorar que seja de alegria – Autor(a): Ignácio de Loyola Brandão – Editora: Global

Título: Somos mais limpos pela manhã – Autor(a): Jorge Ialanji Filholini – Editora: Selo Demônio Negro

Título: Sul – Autor(a): Veronica Stigger – Editora: Editora 34

Título: Trinta e Poucos – Crônicas – Autor(a): Antonio Prata – Editora: Companhia das Letras

Título: Vossos velhos – Autor(a): Dayse Torres – Editora: Edição do Autor


Poesia

Título: A Palavra Algo – Autor(a): Luci Collin – Editora: Iluminuras

Título: Carcaça – Autor(a): Josoaldo Lima Rêgo – Editora: 7 Letras

Título: Dobres Sobre a Luz – Autor(a): Thiago Ponce de Moraes – Editora: Lumme Editor

Título: Identidade – Autor(a): Daniel Francoy – Editora: Urutau

Título: Livro das Postagens – Autor(a): Carlito Azevedo – Editora: 7letras

Título: Madrigaes Tragicomicos – Autor(a): Glauco Mattoso – Editora: Lumme Editor

Título: O Mar e o Búzio – Autor(a): Bruno Palma – Editora: Com-arte

Título: Quase Todas as Noites – Autor(a): Simone Brantes – Editora: 7letras

Título: Rol – Autor(a): Armando Freitas Filho – Editora: Companhia das Letras

Título: Tempo de Voltar – Autor(a): Mariana Ianelli – Editora: Edições Ardotempo


Teoria/Crítica Literária, Dicionários e Gramáticas

Título: Armas de Papel: Graciliano Ramos, as Memórias do Cárcere e o Partido Comunista Brasileiro – Autor(a): Fabio Cesar Alves – Editora: Editora 34

Título: Corpo no Outro Corpo. Homoerotismo na Narrativa Portuguesa Contemporânea – Autor(a): Jorge Vicente Valentim – Editora: EDUFSCAR

Título: De Volta ao Fim: O “Fim das Vanguardas” Como Questão da Poesia Contemporânea – Autor(a): Marcos Siscar – Editora: 7letras

Título: Graciliano Ramos e a Cultura Política: Mediação Editorial e Construção do Sentido – Autor(a): Thiago Mio Salla – Editora: Editora da Universidade de São Paulo / FAPESP

Título: Machado de Assis e o Cânone Ocidental: Itinerários de Leitura – Autor(a): Sonia Netto Salomão – Editora: EDUERJ

Título: Murilo Rubião e as Arquiteturas do Fantástico – Autor(a): Ricardo Iannace – Editora: Editora da Universidade de São Paulo / FAPESP

Título: Mutações da Literatura no Século XXI – Autor(a): Leyla Perrone-Moisés – Editora: Companhia das Letras

Título: O Mundo Sitiado: A Poesia Brasileira e a Segunda Guerra Mundial – Autor(a): Murilo Marcondes de Moura – Editora: Editora 34

Título: O Simbolismo: Uma Revolução Poética – Autor(a): Álvaro Cardoso Gomes – Editora: Editora da Universidade de São Paulo

Título: Sinuca de Malandro: Ficção e Autobiografia em João Antônio – Autor(a): Bruno Zeni – Editora: Editora da Universidade de São Paulo


Reportagem e Documentário

Título: A Clínica: A Farsa e os Crimes de Roger Abdelmassih – Autor(a): Vicente Vilardaga – Editora: Record

Título: A Molécula Mágica – A Luta de Cientistas Brasileiros por um Medicamento Contra o Câncer – Autor(a): Carlos Henrique Fioravanti – Editora: Manole

Título: A Tortura como Arma de Guerra: da Argélia ao Brasil – Autor(a): Leneide Duarte-Plon – Editora: Civilização Brasileira

Título: Correspondente de Guerra – Autor(a): Diogo Schelp e André Liohn – Editora: Editora Contexto

Título: Era Um Garoto – O Soldado Brasileiro de Hitler – Autor(a): Tarcísio Badaró – Editora: Vestígio

Título: Ladrões de Bola – Autor(a): Rodrigo Mattos – Editora: Panda Books

Título: Nazistas entre nós: A trajetória dos oficiais de Hitler depois da guerra – Autor(a): Marcos Guterman – Editora: Editora Contexto

Título: O Livro dos Bichos – Autor(a): Roberto Kaz – Editora: Companhia das Letras

Título: Petrobras: Uma história de Orgulho e Vergonha – Autor(a): Roberta Paduan – Editora: Companhia das Letras

Título: Turno da Noite – Autor(a): Aguinaldo Silva – Editora: Companhia das Letras


E aí, quais as suas apostas? Boa sorte a todos!

Bernardo Guimarães sogro do sobrinho Alphonsus Guimarães


O escritor mineiro Bernardo Guimarães (1825- 1884), quase foi genro do seu sobrinho, o poeta Alphonsus Guimarães (1870-1921). Bernardo casou- se tarde, aos quarenta e dois anos e teve oito filhos. A filha Contança morreu com dezessete por causa de uma tuberculose. Ela era noiva do poeta Alphonsus Guimarães, seu primo. Alphonsus era filho da irmã de Bernardo. Compreendeu? Talvez você tenha que ler outra vez 🙂

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Acima, retrato de Alphonsus Guimarães feito por M.J. Garnier, de escritores nascidos entre 1870 e 1872. Veja o fac- símile, na Fundação Biblioteca Nacional. Há outros trinta e nove retratos, a maioria eu não conheço e fiquei com vontade de conhecer. Só há quatro mulheres , Ibrantina Cardona, Amelia Alves, Elvira Gama e Julia Cortines. É uma pena não saber mais detalhes sobre esse livro, se os escritores posaram para o desenhista. Creio que os retratos devem ser bem fidedignos, já que foi publicado em 1920 (Alphonsus morreu em 1921). Nesse anno de 1920, “ano” escrevia- se com dois enês. Outro detalhe: vejo em muitos sites e livros a grafia de “Guimarães” escrita “Guimaraens”, o que não confere com esse livro contemporâneo do autor.

Voltando ao caso ABL. No site dos imortais, cita o verso que o poeta apaixonado, Alphonsus, dedicou à namorada falecida: “se morreu fulgente e fria”. Veja o poema na íntegra:


Hão de chorar por ela os cinamomos

Hão de chorar por ela os cinamomos,
Murchando as flores ao tombar do dia.
Dos laranjais hão de cair os pomos,
Lembrando-se daquela que os colhia.

As estrelas dirão — “Ai! nada somos,
Pois ela se morreu silente e fria.. .
E pondo os olhos nela como pomos,
Hão de chorar a irmã que lhes sorria.

A lua, que lhe foi mãe carinhosa,
Que a viu nascer e amar, há de envolvê-la
Entre lírios e pétalas de rosa.

Os meus sonhos de amor serão defuntos…
E os arcanjos dirão no azul ao vê-la,
Pensando em mim: — “Por que não vieram juntos?”

O soneto é lindo, não? (não esqueça: soneto é um poema de quatorze versos, dividido em quatro estrofes, dois quartetos e dois tercetos).
Esse amor passou e veio a Zenaide. A família Guimarães cresceu bastante, o poeta de “Ismália” (obra- prima!) teve quinze filhos.
Eu achei esse artigo  comentando que a ABL repassou o erro de um crítico, e que a palavra original no poema realmente é silente. Se a ABL repassou mesmo o erro, por que ainda permanece nele?
Eu sempre consulto a ABL para biografias e afins, por considerar a fonte mais fiável, por isso acho estranho tudo isso. Ficou a dúvida.
A única forma de conferir é consultando alguma primeira edição, um fac- símile, coisa que eu não encontrei.
Você aí, tem alguma edição antiga com esse poema? Vamos caçar esse livro?!

 

Quatro anos sem Autran Dourado


Eu busco nesses livros as respostas para as minhas inquietações. E acredito que, quando a pessoa conhece bem a minha obra, me conhece mais do que se me conhecesse. O autor pouco importa. O mundo real tem menos importância que o mundo imaginativo. Eu procuro, sobretudo, recriar o real, para dar um outro real carregado de sentido; aliás, a literatura é a linguagem carregada de sentido. É isso que é a literatura. (Autran Dourado, em entrevista ao Programa Leituras, 2001)

Hoje, 30 de setembro, completa quatro anos da partida do jornalista, advogado e escritor mineiro Autran Dourado, que foi um dos grandes escritores da literatura brasileira. Ganhou o Prêmio Camões no ano 2000, o maior da nossa língua, além dos prêmios Goethe (1981), Jabuti (1982) e Machado de Assis (2008). Faltou a Academia Brasileira de Letras, cadeira mais que merecida, uma pena não ter recebido esse reconhecimento, mas já é imortal de todas as formas. Fora que é necessário uma candidatura para ingressar na ABL e concorrer a uma vaga. Não sei se o autor estava disposto a isto. Autran Dourado foi casado por mais de 60 anos com Maria Lúcia (já falecida), é pai de Lúcio, Henrique, Inês e Ofélia. Veja a família completa:

10407885_1001101346607402_2119325514998502499_nWaldmiro Autran, Henrique, Inês, Ofélia e o bebê Lúcio no colo da mamãe Maria Lúcia.

14469689_1185619938171642_1518301183645816907_nLúcio e Autran Dourado.

14517578_1185619568171679_2861844779776697864_nAs fotos são do arquivo da família Autran.

“A ópera dos mortos” é uma das obras reconhecidas mundialmente, tanto, que foi escolhida pela UNESCO para integrar a sua coleção de obras representativas da literatura mundial, além de ser objeto de estudo em universidades. O livro foi dedicado ao também escritor mineiro, Otto lara Resende.

A maior parte de sua bibliografia é composta de romances, mas também há ensaios, contos e crônicas e um livro de memórias chamado Gaiola aberta (2000).

Se você nunca ouviu a voz de Autran Dourado, veja esse vídeo de 2001 do programa Leituras, adorável! Nos deixa uma lição sobre literatura (minuto 4:47):

Esse vídeo também é incrível. O programa Revista Literária promoveu um encontro, um bate- papo entre os mineiros Autran Dourado e Silviano Santiago (que exerce de entrevistador) em uma chácara no Rio de Janeiro. Autran classificou os escritores em três tipos (e deu alguns exemplos): os artesãos (Flaubert), os gigantes (Balzac) e os gênios (Miguel de Cervantes). Machado de Assis para o Brasil é gênio, mas ele achava mesmo que era artesão.

Silviano: – O que é escrever prosa pra você?
Autran: – É conseguir ordenar uma história.(...) O enredo não tem muita 
importância no romance.
É uma maneira que o escritor tem de entreter o leitor, enquanto ele bate 
a carteira.
É realmente uma maneira de prender o leitor. (...) O que é importante 
no romance é o ritmo.

E nesse dia de pesar, principalmente para a família, não existe melhor homenagem da nossa parte que ler Autran Dourado. A sua obra está publicada pela Editora Rocco (clique aqui), também em e-books, que podem ser comprados no iTunes ou em livrarias online (clica).

Eu comecei agora mesmo o “A ópera dos mortos”, vamos?!

Crítica: O fundo do poço ou a mediocridade do mercado editorial


Por Gerson de Almeida, colaborador

Já queria ter escrito este comentário há mais tempo, hoje ele pode soar deslocado de sua cronologia, mas, se analisarmos o presente e pensarmos no futuro prometido, estará calcado na trilha fulcrada pelos passos que damos agora. Vou escapar do tom amedrontador e escatológico, porém não tem como fugir à face real do drama.

Tinha visto uma reportagem sobre a Bienal do Livro de São Paulo deste ano, que terminou no inicio do mês, a qual sempre quis comparecer pelos mais variados motivos, além da paixão por livros e literatura, e caí num desânimo estarrecedor. Na mesa principal falaria sobre literatura a youtuber Tatiana Feltrin e, em outras, Kéfera e Jout Jout. De início achei que fosse piada, ainda que estas duas últimas falassem ao público adolescente, ou seja: bando de desmiolados – não excluo o fato de que fui adolescente, mas na minha época eu idolatrava Cérebro, o rato mais inteligente do mundo.

Dirão que sou preconceituoso, fico com a resposta-pergunta de mestre Badu: quem não é (e creia: não há ninguém mais preconceituoso do que o não-preconceituoso)? O negócio é reconhecer e impor-se limites, no entanto até as cotias em fuga têm seu instante de perdigueiro, não dá pra se calar o tempo todo. Como, numa bienal que tem lugar na maior capital do país e noticiada no mundo inteiro, tendo nomes como Lygia Fagundes Telles, indicada ao Nobel, que tem Rubem Fonseca ativo, Ignácio de Loyola Brandão em plena atividade, Tatiana Feltrin venha falar de/sobre literatura e, além de ter crédito, o que já é uma catástrofe, venha se impor com autoridade no assunto (o que nos mostra o fundo do poço)? Dirão também que ela fala sobre os clássicos numa linguagem acessível, tá bem. E quando o ouvinte chegar à leitura de fato, não vai se defrontar com o trunco do clássico? Não se deve medir sua dificuldade com a régua alheia, o resultado é…?

Digamos que na leitura de um clássico ela diga que tal história caberia em 150 páginas e que as 600 do original são desperdício, essa afirmação se calca como verdadeira? Deixar que simples atores do Youtube fale da produção artística de um país, e de outros num palco à vista de tantas figuras de peso, deveria ser visto com assombro – e não assistido como progresso das artes e das letras em linguagem rastaquera. É como se em plena final da Copa, tendo Pelé a plenos pulmões, confiássemos os canarinhos a um palhaço cego com pernas de pau.

Vejo vídeos e entrevistas de literatos e teóricos da literatura, estes, embora todo teórico brasileiro tenha queda pela comicidade de Marx (e não é o Groucho), são bem mais interessantes. Os vídeos da Feltrin não chegam nem a serem forçados, são comentários de alguém que se impressiona, ou não, com determinada leitura, e nisso não vai nada de novo ou inusitado. Acontece a qualquer um. Tem um vlogger que é mil e uma vezes mais interessante do que ela, mas não tem apelo, não tem aquela coisa “fofa”, não inspira comentários bonitinhos. Este sim, apesar dos lugares-comuns aos quais ninguém está escapo, faz análises mais contundentes, com profundidade, atado à obra e autor: O Lugar do Livro. Vi alguns vídeos dele e o cara aparece pela obrigação de dar a cara à tapa. Feltrin faz meme o tempo todo e quando se mete a comentar o nível dos originais para a tradução em português é um desastre. Como professora, de sabe-Deus-o-quê, e tradutora não deveria esquecer a máxima: traduttore, traditore.

Quanto a Jout Jout e Kéfera, que dizer? Eis o motivo destas linhas. Come on!

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No único dia em que fui à Feira de Jaraguá vi, na maioria dos estandes, livros destas duas bestas anunciantes do Apocalipse, na estante principal! Não foi o pior: livros lançados pela Cia das Letras. Que porra é essa?! E nesse exato momento tem algum escritor em algum canto sentado com meu grito abafado e sua obra bem-feita engavetada. Já estamos no fundo do poço, tem muita gente aqui e agora querem que bebamos a água. Uma gota para cada e mais da metade morrerá de sede.

Jout Jout é caso diagnosticado de esquisitice+traumas+qualquercoisa, e isso foge à minha pobre alçada. E o adolescente que lê Kéfera, vai produzir o quê, mental e cotidianamente? A resposta tem cinco letras, isso mesmo: merda.

Assim teóricos e literatos de todas as castas e cores, leitores de todos os nichos, chiqueiros, classes, redutos e botequins, escritores consagrados e engavetados – uni-vos! Toda vossa existência depende do passo que dás agora.