Resenha: “Memorial de Aires”, de Machado de Assis


(…) Não é mau este costume de escrever o que se pensa e o que se vê, e dizer isso mesmo quando se não vê nem se pensa nada. (p.66)

Com o preceito fundamental acima, o da democracia e o direito de expôr o que se pensa, vamos à obra, “Memorial de Aires, escrita em forma de diário entre 1888 e 1889, enquanto Machado matava o tempo no barco durante as travessias de Petrópolis, em horas mortas. Ele mesmo explica no prólogo, que nessa época, seu livro de trabalho era “Esaú e Jacó”. Ler Machado é sempre um prazer, uma delícia! Ele é o santo graal das letras brasileiras, único e inimitável, faz o difícil parecer fácil, um mago. Nao é à toa que ele era conhecido como o “bruxo de Cosme Velho”.

A leitura passou massageando as minhas retinas cansadas de ler tantas sandices nestes últimos tempos nas redes sociais. Por certo: #EleNão! Fiz alguns links com o presente, Machado atualíssimo.

“Memorial de Aires” conta as memórias do Conselheiro Aires (ele é o narrador- personagem), um diplomata que retornou do exterior ao Rio de Janeiro há um ano.

Creio que todo imigrante, até mesmo os diplomatas cheios de regalias, facilidades e privilégios, muito diferente das dificuldades do imigrante comum, temem a volta depois de uma estância longa fora de casa. Alguns sentem- se até estrangeiros no próprio país. Não foi o caso do Conselheiro, depois de mais de trinta anos na Europa:

(…) Cuidei que não acabaria de me habituar novamente a esta outra vida de cá. Pois, acabei. Certamente, ainda me lembram coisas* e pessoas de longe, diversões, paisagens, costumes, mas não morro de saudade por nada. Aqui estou, aqui vivo, aqui morrerei. (p.9)

Aires é viúvo, sua esposa faleceu em Viena e ele não a levou para o Brasil,  por algo místico, espiritual, deixou a cargo do destino (p.13):

Os mortos ficam bem onde caem (…)

– Quando eu morrer, irei para onde ela estiver, no outro mundo, e ela virá ao meu encontro.

Você acredita que temos um destino predeterminado ou somos responsáveis por tudo que nos acontece? Uma mistura de ambos? Acredita em outras vidas ou a morte é o fim de tudo?

A irmã de Aires, Rita, o convida para celebrar o seu primeiro ano de retorno… no cemitério! A principal e mais dolorida perda do imigrante: a família. Primeiro a convivênvia, e depois, os entes queridos, de fato. Muitos só podem revê- los dentro de um jazigo. Esse pensamento é horrível, mas é verdadeiro e nenhum imigrante está preparado para ele. No caso do diplomata, perdeu os pais e o cunhado. O futuro é longe demais, parece distante, mas chega.

No cemitério, além das lágrimas de Rita, também há espaço para a fofoca. Típico, qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Há gente que invade espaços pessoais e familiares alheios, inclusive velórios,  só para espiar e confabular contra a vida do outro em seu momento de maior fragilidade. Acredite, há gente ruim assim, dou fé. É fato que há muitos espíritos inferiores pululando ao nosso redor, mas nunca impunes, tenho certeza. Essa irônia machadiana tão certeira e catártica, muito mais sutil que a minha, isso é certo.

Os irmãos espiam uma moça bonita perto de um jazigo e Rita reconhece a mulher que foi casada com um médico, a viúva Noronha, “filha de um fazendeiro da Paraíba do Sul, o Barão de Santa- Pia.” (p.11)

A viúva Noronha, ao contrário de Aires, transportou “os restos” (essa é uma expressão muito espanhola) do marido falecido em Lisboa para o Rio de Janeiro. Machado devia ser um sujeito curioso em pessoa. No texto, ele caçoa do nome da viúva pela boca de Aires: Fidélia. Os irmãos fizeram uma espécie de aposta: Aires disse que a viúva casaria de novo, e Rita, que Fidélia continuaria sozinha. Fidélia vem do adjetico latino “fidelia”= “fidelidade”. O diplomata iria tentar conquistar a senhora, viúva fiel e convicta.

A política separando pessoas desde sempre, na vida real e na ficção; aliás,  literatura é imitação da realidade, portanto, não vou mais fazer distinção, vou embolar tudo mesmo, porque a literatura é vida, e vida é literatura, são a mesma coisa e ponto final. Os autores sempre contam a história de alguém, ainda que essa história seja apenas fruto da sua imaginação.

Voltando à política e ao amor: o romance de Fidélia é bem shakesperiano. Seu pai e marido eram inimigos políticos. O pai de Fidélia a levou para uma fazenda para separá- la de Ricardo e ameaçou expulsá- la de casa se desobedecesse. A moça começou a adoecer, não parava de chorar e não queria comer. A mãe, com medo de alguma “moléstia” (lembrei do professor Ernani Terra, conversamos sobre esta palavra, que na Espanha é utilizada para qualquer espécie de incômodo, mas no Brasil é usada para doenças graves)…então, a mãe, preocupada, começou a intervir, mas o pai continuou firme e disse que a filha poderia até morrer ou ficar doida, mas  que não permitiria a mistura do seu sangue  com os dos Noronha. “Bonzinho” o pai.

A moça realmente ficou gravemente doente. Com a intervenção da mãe, o pai cedeu em parte, mas nunca mais quis ver a filha; e o pai de Ricardo, o filho. O casal ficou junto, mas a felicidade durou pouco com a morte inesperada de Ricardo em Lisboa. Aires é cínico e cruel, chega a questionar se valeu a pena brigar com o pai por um amor tão fugaz, que “se aposentou na morte”.  Nesse momento, já comecei a pegar abuso de Aires.

Não há nada mais tenaz que um bom ódio (p.36)

Mas não posso negar, que Aires tem uma personalidade autêntica, espirituosa, engraçadinha e realista/prática: Quando eu morrer podem vender em particular o pouco que deixo, com abatimento ou sem ele, e a minha pele com o resto; não é nova, não é bela, não é fina, mas sempre dará para algum tambor ou pandeiro rústico. (p.44)

Com todo esse drama, essa paixão quase mortal, será que Fidélia continuará fiel ao seu defunto marido ou cairá na lábia de Aires, que fez uma aposta com a irmã Rita?

Um verso não saía da sua cabeça “I can give not what men call love” (“Eu não posso dar o que os homens chamam de amor”). Há canalhas assim, tanto homens quanto mulheres, que divertem- se machucando o outro com planos premeditados e extremamente daninos. Aires chamou Fidélia de seu “objeto de estudo” e cogitou a ideia de colocar lenha na fogueira e que ela não se reconciliasse com o pai.

Aires vai à festa de bodas de prata do casal Aguiar só para ver Fidélia. Tanto o casal, quanto Aires e Fidélia, não tiveram filhos, tal como Machado e Carolina. Aires nunca os quis ter, ao contrário dos demais.

É chocante ler as palavras “mucama”  e “tronco” (p.32), em “Memorial de Aires”, testemunhando o seu tempo. Aires cita várias vezes a iminente abolição dos escravos  e a possível república. O Rio de Janeiro já foi uma “corte”, só que sem o glamour das cortes europeias, mas igual de cruel.

Que coisa… não me acostumo com a história da escravidão no Brasil e que não tenha sido devidamente reparada até hoje, ao contrário. Mas dá para entender o motivo conhecendo o perfil da metade, pelo menos, da população brasileira, apoiando e aplaudindo um candidato à presidência segregacionista, além de outros tantos qualificativos que vão em contra aos princípios de decência, ética e humanidade. Sei que todos estão cansados da violência e corrupçao, só que um remédio pior que a doença, não é a solução. A via militar é a pior escolha.

Machado, ainda bem, foi bem crítico irônico contra a escravidão e a hipócrita sociedade carioca. Corajoso, não omitiu- se como anda fazendo a nata erudita do Brasil. Machado foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. A omissão dos bons ajuda a criar monstros. As pessoas começam a pensar mal e errado, sem ter pautas confiáveis, agarram- se a salvadores da pátria. Nosso país é composto por poucos e maus leitores (e feitores). A maioria é leitor de manchetes de meios de procedência duvidosa e fake news.

Voltando ao romance… há um personagem muito citado, “Tristão”, que é afilhado do casal que comemorou as bodas de prata, lembra? Ainda menino, foi morar em Lisboa com os pais a contragosto da madrinha, D. Carmo. Formou- se em Medicina e esqueceu dos padrinhos durante muitos anos, o que os entristeceu bastante. Já doutor, retorna ao Rio. O nome do personagem nos remete à história de “Tristão e Isolda”, uma lenda medieval de um amor trágico. Tristão e Fidélia são os dois filhos “postiços” do casal. Tenho que concordar com Tristão (p.78):

– A gente não esquece nunca a terra em que nasceu, concluiu com um suspiro.

Tenho nacionalidade portuguesa (raízes familiares) e em vias de obter a espanhola (por residência), serei uma mulher multinacional, mas o sentimento de pertencer, sem dúvida, é por minha terra. Aires continua o pensamento do moço, concordo plenamente:

(…) a adoção de uma nacionalidade é ato político, e muita vez pode ser dever humano, que não faz perder o sentimento de origem, nem a memória do berço.

Em um sonho, Fidélia vê o sogro e o pai, já falecidos, reconciliando- se (p.70):

A morte os reconciliara para nunca mais se desunirem: reconheciam agora que toda a hostilidade não vale nada, nem a política nem outra qualquer.

Pois é…essa briga política no Brasil, que já chegou a extremos com falecidos e feridos, tem que acabar. Não vale a pena, é preciso bom senso e respeito, mesmo que a opinião alheia nos machuque. É um principío básico da civilidade e da democracia, o diálogo, violência nunca!

Lá pela página 80, já ansiosa para ver se o romance entre o idoso Aires e a jovem viúva iria acontecer, se ele seria o alcoviteiro de Fidélia e Tristão, ou se iria acontecer um triângulo amoroso, ele brinca com o leitor dizendo que está com os olhos cansados, que “velhice quer descanso” e  diz que pensa parar de escrever o diário. Mas, claro, continuou.

Amigos e amigas, não esqueçam que Machado era um escritor realista. Só vou dizer que o final é feliz e triste, como a vida mesmo.

Abaixo, a edição portuguesa lida:

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Assis, Machado de. Memorial de Aires, Cotovia, Lisboa, 2003. Páginas: 177

* Fiz algumas adaptações à nova ortografia, exemplo “cousa= coisa”.


Machado cita autores e livros ( e música, Wagner). Anota, são dicas de leitura do grande mestre: “Fausto”, de Goethe; “Romeu e Julieta”, de Shakespeare; Percy Shelley, poeta, marido de Mary Shelley, de Frankstein e William Thackeray, escritor inglês, de “Vanity Fair” e outras tantas obras famosas. Podíamos aqui fazer uma maratona “Thackeray”, quem se interessar me escreve, que a gente encontra uma forma, meu Instagram: @falandofernanda

Até a próxima!

 

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Hoje: um texto por hora e aniversário de Antônio Torres!


Hoje, lá no nosso Facebook, haverá postagens de hora em hora. Como o nosso fuso é espanhol, já começou! Curta nossa página e nossos posts, isso é importante para motivar e saber se estamos pelo caminho certo ou não. Clarice vai estar por lá.

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Espero que os trechos de livros te inspirem e alguns deles entrem para a sua lista de leitura.

Hoje o dia é especial, pois é aniversário do grande escritor Antônio Torres, ele completa 76 anos. Imortal da ABL, com livros traduzidos em vários idiomas e uma obra narrativa interessantíssima, é um dos escritores brasileiros que mais amo.

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Dez livros que você deve ler antes de morrer


Para os amantes da literatura (ou não), recomendo esses dez grandes livros da nossa literatura brasileira, essenciais na biblioteca de todo bom leitor, veja quantos leu dessa lista, se tiraria ou acrescentaria algum deles:

  1. “Dom Casmurro”, de Machado de Assis

Machado de Assis (1839-1908) foi o melhor escritor que o Brasil teve de todos os tempos. Recomendo a leitura de toda a sua obra, mas escolhi “Dom Casmurro” pela intriga, pela dúvida e mistério que Machado cria em torno dos personagens Capitu e Bentinho. Será que a esposa traiu o marido? Uma obra imperdível!

  1. “Grande sertão: veredas”, de João Guimarães Rosa.

É uma saga sertaneja que impressiona pela inovação e riqueza da linguagem. Guimarães Rosa (1908- 1967) foi um escritor único, inimitável, muito original, que vai te deixar impressionado ou impressionada. É uma obra muito, muito complexa, que irá te fazer pensar em muitas coisas da vida. Garanto!

  1. “Essa Terra”, de Antônio Torres.

Uma obra emocionante, que certamente irá tocar o seu coração imigrante. Antônio Torres (1940) conta a história de uma família baiana humilde do interior. Um dos filhos vai para São Paulo, como é o destino de muitos nordestinos. Uma narrativa composta de tragédia, comédia, drama, que chacoalha sentimentos.

  1. “A hora da estrela”, de Clarice Lispector.

O último livro de Clarice Lispector (1920- 1977), “A Hora da estrela”, conta a triste vida de Macabéa, uma nordestina na grande cidade. A moça vive e come mal, é maltratada pelo namorado e pelo chefe, traída pela amiga, mas consegue manter a ingenuidade e a esperança. É de uma beleza e sensibilidade comoventes!

  1. “A república dos sonhos”, de Nélida Piñón.

Nélida Piñón (1937) é a melhor escritora brasileira de todos os tempos! Você pode comprovar lendo “A república dos sonhos”, um trabalho fino de arte literária. Os pais da autora eram espanhóis e Nélida tem uma relaçao íntima com a Espanha, fato refletido nessa obra. Esse romance conta a história de imigrantes galegos no Brasil. Vale a pena!

  1. “Compêndio para uso de pássaros- Poesia reunida de 1937- 2004”, de Manoel de Barros.

Esse é uma obra para ficar na sua cabeceira (e no seu coração) para sempre! Manoel de Barros (1916- 2014), poeta, escreveu a vida e a natureza com uma beleza infinita!

  1. “O Auto da Compadecida”, de Ariano Suassuna.

Uma obra feita para o teatro, uma comédia, de Ariano Suassuna (1927- 2014). Os personagens João Grilo e Chicó são hilários e inesquecíveis, não deixe de ler!

  1. “Vidas secas”, de Graciliano Ramos.

Essa obra- prima de Graciliano Ramos (1892- 1953) é bastante marcante e forte. Conta o drama de uma família retirante nordestina e as agruras da terra seca, a luta pela sobrevivência. Os personagens mal falam, soltam sons guturais, e com isso, expressam muito. A cachorra Baleia é uma grande protagonista, quase humana. Ou são os humanos que estão à beira da desumanização devido ao sofrimento? Grande livro!

  1. “O sentimento do mundo”, de Carlos Drummond de Andrade.

Você tem que ler toda a obra de Drummond (1902- 1987), esse é um autor essencial. Sua obra poética é rica e bela. O autor era jornalista e escrevia crônicas também. Seus versos são de arrepiar!

  1. “Ciranda de pedra”, de Lygia Fagundes Telles

A grande escritora brasileira, Lygia Fagundes (1923), conta no seu primeiro romance “Ciranda de Pedra”, um drama familiar. É um romance psicológico que nos faz refletir sobre a nossa própria vida.

Publicado originalmente na Revista BrazilcomZ (Espanha), abril/2016, Fernanda Sampaio.

Você sabe o que é “Borderline”?


“Borderline” é uma doença mental que muitas vezes é confundida com depressão ou síndrome bipolar.  A doença deixa a pessoa sempre no limite para o bem ou mal.  Acho interessante esse assunto e deixo aqui um release com uma dica de livro (ficção) que aborda o assunto:

Nas fronteiras de Alice, livro escrito por Marcelo Siqueira, discute como é possível reencontrar o amor, transcendendo questões como idade, doenças mentais e ética

Com mais de 80 mil fãs no Facebook, o livro Nas fronteiras de Alice do autor Marcelo Nogueira já é um sucesso. A obra aborda os complexos temas do transtorno de personalidade e do adultério entre um professor e uma aluna, porém mantendo a narrativa repleta de amor e suspense.

Nas Fronteiras de Alice é um romance contemporâneo, narrado como um flashback da vida do protagonista Yuri – um renomado professor de História de 40 anos de idade e filho de um desaparecido político durante a ditadura militar brasileira.

Casado e passando por um momento de reflexão na vida, Yuri conhece Alice durante um Simpósio em Porto Alegre. A jovem estudante de Literatura, possui uma personalidade plural e inconstante, além de uma beleza única.

“Não existia mais nada naquele instante, não havia cenário, personagens, contexto. Existia apenas aquela menina, aquela menina de saia xadrez que me deixou sólido, sem ar e suspenso da realidade que me rodeava. […] Era ela. Pequena, magra, de pele alva e de andar flutuante. Seus olhos levemente puxados, as maçãs do rosto elevadas que se harmonizavam com seu pequeno nariz um pouco adunco. Tinha uma boca desenhada com lábios vermelhos convi­dativos. Emoldurando esse exótico rosto de princesa de revista em quadrinhos, cabelos negros, lisos, mas com algumas ondula­ções, que cobriam sua nuca e mal chegavam a seus ombros.” (p. 33)

Com um jeito sincero, divertido e irônico, e também com um certo ar de mistério e tristeza no olhar, Alice conquista Yuri e os dois iniciam um romance inesperado de intensa entrega. Nesse relacionamento, cada um será exposto às suas fraquezas e desejos mais íntimos, provocando comentários e incompreensões de pessoas próximas, principalmente na questão das múltiplas personalidades.

“– Mas você não precisa ter medo de mim – disse quase triste.
– Eu não tenho medo de você – falei firmemente. – Conte-me mais.
– A Síndrome de Borderline afeta muito a vida social das pessoas, pois as dificulta em seus relacionamentos. Temos oscila­ções de humor e somos muito impulsivas, às vezes, tornamo-nos agressivas. Nós nos irritamos facilmente e perdemos o interesse rapidamente, por isso que não conseguimos manter amizades e relacionamentos por muito tempo e até mesmo” (p. 222)

Por ser um relacionamento proibido, ambos sofrerão as consequências das decisões tomadas. Nas Fronteiras de Alice é uma história de encontros, escolhas e descobertas. Divertida em alguns momentos e intensa em outros. A narrativa transmite para o leitor sensações de nostalgia, erotismo, paixão e cumplicidade, sendo a primeira parte de uma trilogia.

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Sobre o autor: Marcelo N. Siqueira é professor, arquivista, historiador e paleógrafo. Possui diversas publicações acadêmicas, mas este é seu romance de estreia, fruto de suas observações e vivências ao longo dos últimos anos. Sua paixão por literatura e música, sobretudo o jazz, é percebida ao longo de suas narrativas. Nas redes sociais, possui mais de cem mil seguidores, principalmente na fanpage de Nas fronteiras de Alice, que, em menos de seis meses, já atingiu a marca de dez milhões de visualizações. Marcelo é carioca, casado, tem dois filhos e mora no Rio de Janeiro.

(Texto fornecido pela editora)

Análise da obra “Vidas secas”, de Graciliano Ramos


Por Rômulo Pessanha

O fim

Quando pensamos no tempo, nem lembramos que tudo no mundo parece ter uma tendência ao círculo. A circunferência nos recorda os aspectos cíclicos da vida presente em tudo e de como tudo se renova e se torna ainda assim, diferente. Lembra frase de pensador famoso, aquele que dizia que quem mergulha os pés num rio nunca poderá mergulhá-los novamente nesse mesmo rio. Assim é a vida, nada se perde e tudo se aproveita como diria Lavoisier. A vida é um círculo e a única mudança é seguir em frente sob alguma perspectiva nova que ilumine novos caminhos para um ponto de fuga ou de tangência para uma nova vida, pois se a figura da vida é plana cabe a nós pensar nossa felicidade e a felicidade é sonhar sempre de forma diferente.

Me refiro aqui nesse texto ao capítulo inicial de Vidas Secas, de Graciliano Ramos denominado “Mudança”. O que quero dizer quando dou o título deste texto de “O fim”? Quero dizer com isso que tanto o primeiro, quanto o último capítulo são tal e qual. Em “Fuga”, o último capítulo, pode ser observado os mesmos elementos, retornando, e se fechando novamente em esperança, nada de desfechos mirabolantes, mas uma espécie de calmaria. Voltando ao primeiro capítulo, Mudança, também pode ser traduzida em ponto de fuga, porquanto numa circunferência toda força centrípeta tracionada e acumulada gera, posso talvez assim dizer, um ponto de fuga em que o objeto acaba saindo pela tangente e o objeto no caso é a família que observamos nessa obra de Graciliano como objeto de fuga para uma sempre tentativa de vida melhor, um sonho, em vários atos, mas o caminho como já disse não é reto, é dado em curvas que não se fecham num ponto específico, porém posso dizer que pode convergir para um ponto central, no caso, não falarei aqui desse ponto central. Acredito poder ser dito que Vidas Secas segue uma estrutura em espiral.

A paisagem vermelha e o céu azul, as rachaduras do solo seco lembram toda a fisionomia do personagem Fabiano, ruivo, olhos azuis ou também até mesmo lembra a sinhá Vitória ou a ela se refere enquanto terra atrativa ou não quando a voz narrativa a descreve ora magra ou a mostra nos pensamentos de Fabiano quando diz que ele estaria querendo que a sinhá ficasse com as nádegas carnudas, seios firmes tal qual a própria natureza parece estar vez outra ao longo da obra, ora é seca, ora é de uma fertilidade avassaladora e perigosa a vida, pois quando a água é demais a cheia se faz presente, natureza selvagem é um perigo para a sobrevivência. Também as aves, os urubus, voando em círculos igualmente como a água, cercando tudo em redor lembra que o perigo os cerca por todos os lados.

Um narrador, como uma lâmpada acesa apresenta cada um dos personagens, seus pensamentos e sonhos, devaneios e medos. Como se fosse um refletor num teatro iluminando a face de cada personagem mostrando o que cada um pensa. A narrativa apresenta a paisagem ora cheia de luz do dia, ora com algumas estrelas apenas, quando está de noite.

A morte é comida, na forma de uma ave, ser que nem voa e, sabemos, nem fala, um papagaio foi papado. A morte, no negro das asas do urubu, a morte sob as cabeças dos integrantes dessa família é o que resta depois do verde da cor das penas do papagaio, o verde que significaria a esperança, o verde de uma paisagem convidativa ao descanso, passa a representar o desespero e a urgência por abrigo e sobrevivência. Enfim, o fim é sempre um novo começo para busca por novas soluções para o sustento da família.

Os pés são importantes também e se assemelham ao próprio solo que pisam: rachados, feridos, com vermelhidão de machucado que dói até mesmo pela simples descrição, assim também são os pés de Fabiano identificado com a terra em que caminha, a dor está no andar no solo que pisa e também a dor está nas feridas dos seus pés e também a dor do cansaço por verificar toda sua família sobrevivendo àquela situação narrada. Baleia se alimenta dos pés do papagaio e isso também é a terra, Baleia se alimenta da terra que não pode chegar ao céu por intermédio da evaporação da água e, o que não voa, pelo menos deve servir como alimento nem que seja simples poça d’água como o conjunto familiar peregrino nos faz imaginar como sendo pequenas gotas de vida caminhando numa chapa seca cheia de rachaduras.

O “menino mais velho” e o “menino mais novo” são assim chamados, talvez para demarcar a passagem do tempo. Os filhos de Fabiano são preservados em sua identidade, porém até Baleia possui nome, mas nome de bicho, animal de mares que talvez o céu anilado possui somente a cor. Talvez Fabiano desejasse que a vida fosse um arrebol eterno, róseo, temperatura agradável e paisagem amena e que todo o azul do céu fosse o da água correndo como ele no solo, sob a terra divertindo e refrescando a vida de seus filhos, sua mulher, toda sua família.

Os Nomes também são importantes: o que significa Fabiano, sinhá Vitória? Pesquisei rapidamente num site na internet o nome Fabiano. Significa “dotado de sorte e prosperidade”, mas provém do latim, da palavra fava, e então pensei: o que é fava? Pelo o que diz a rede virtual significa algo como sementes comestíveis. Continuando, Sinhá era a forma como os escravos tratavam suas patroas ou senhoras, geralmente sinhá, mas aqui Vitória é chamada sinhá, dá certo tom de apelido carinhoso quase como algo da fala popular, mas também pode ser indício de decadência social. O significado do nome Vitória é vencedora, pessoa que triunfa sobre um inimigo e talvez tenha derivado da forma Victor, do latim que significa vencedor. Quanto a palavra Baleia, vem do grego phállaina e também do latim ballaena. Não encontrei o significado da palavra phállaina. Ballaena não pesquisei por achar óbvio, mas verifiquei e pelo pouco que vi significa baleia mesmo, um dos maiores animais existentes atualmente. Enfim, se isto tudo sobre esses nomes não esclarece nada sobre o estudo de Vidas Secas, pelo menos fica como fonte de informação.


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Cada um possui o seu momento de iluminação. E, se Baleia não aparece na última parte da obra é somente porque ela agora conseguiu evaporar-se e seguir caminho para o céu com aura de um ser tão humano quanto um urubu pode ser. Baleia parecia gente, os urubus também. Cada um com um aspecto da dualidade humana: Baleia nos remete ao companheirismo, fidelidade, amizade, ingenuidade, simplicidade, enquanto os urubus são carniceiros apenas para sua sobrevivência. Essa família é um exemplo do que pode significar sobreviver diante das questões da vida. Nem sempre sobreviver é viver, mas lutar nutrindo forças com a vontade que os sonhos nos proporcionam e fazem que seres humanos como os apresentados na obra de Graciliano se tornem sobre humanos, com uma força tirada de sua própria natureza que é a natureza de continuar sonhando mesmo quando tudo em derredor diz não. O fim não se acaba nem com o nosso fim, pois com o nosso fim, mudamos, fugimos para outro lugar onde a luta continua sendo a realidade nesse momento, o próprio sonho que se pensava, mas também o sonho que se vive e se e se habita, desejo que em nós habita é o nosso futuro lar, novo mundo.

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Ramos, Graciliano. Vidas secas, Record, 89ª edição, Rio de Janeiro, 2003. 176 páginas

Entrevista com o poeta Lúcio Autran (filho de Autran Dourado)


Para quem ainda não sabe, eu escrevo uma coluna literária (também chamada “Falando em Literatura”) na revista BrazilcomZ (impressa) na Espanha e que também pode ser lida online nesse link aqui (veja). A matéria de capa é sobre um debate polêmico, a legalização da maconha no Brasil.

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Na Falando em Literatura desse mês de outubro saiu uma entrevista muito bacana que eu fiz com o grande poeta Lúcio Autran, filho do saudoso e maravilhoso Autran Dourado, com fotos lindíssimas da família, a opinião de Lúcio sobre o mercado editorial no Brasil, sobre poesia, sobre a Espanha e muito mais. A versão online saiu a entrevista na íntegra, na impressa foram quatro páginas, veja só o início:

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Mas não esquece de passar lá na revista online, lá dá pra ver melhor e assim nos incentiva a continuar falando sobre literatura. E para quem está em Madri ou Barcelona, você pode pegar a revista no consulado do Brasil nessas cidades e nos pontos de distribuição.