Resenha: “Nós que apagamos a lua”, de Alana Freitas


Esta é uma obra especial, porque tem uma carga afetiva intrínseca: ela foi escrita por uma colega da Universidade Estadual de Feira de Santana. Daquela menina juveníssima, a mais precoce da sala, recordo a alegria, o companherismo, as intervenções sempre inteligentes e do seu comprometimento com o mundo das Letras. Agora, já doutora das Letras, professora de literatura na mesma casa que a acolheu como estudante, lança o seu primeiro livro de ficção, uma coletânea de vinte e uma crônicas. Possivelmente Alana sofra dessa doença “crônica”, como ela mesma define do seu texto de abertura (“Conceito crônico”, p.13). Depois da leitura de “Nós apagamos a lua”, cheguei à conclusão que este será o gênero que a definirá no panorama literário brasileiro. Alana deita e rola, é uma cronista nata.

Alana Freitas El Fahl

“Nós que apagamos a lua” começa a massagear a alma só pelo título tão poético. Cada crônica é antecedida por um aforismo.

No segundo texto, a cronista citou o professor de literatura Luiz Alberto, que podia ser considerado patrimônio da cidade de Feira de Santana. Professor de “segundo grau”, assim chamava- se o nosso Ensino Médio. Luiz Alberto foi a primeira pessoa que vi vestido com um sobretudo no sertão da Bahia, uma figura memorável e peculiar. Alana recorda suas expressões latinas, em especial “aurea mediocritas”, o prazer da vida média, sem sobressaltos. Um texto brilhante, “Gente média” (p.17)

Eu, expatriada há quinze anos, notei com saudade o jeito brasileiro (especialmente baiano) nos textos da Alana. O lado bom do nosso povo, esse de se fazer amizade em qualquer lugar, até no táxi (“Táxi ou Uber?”, p. 21). Na Espanha, vou ao mesmo endocrinologista há dez anos, com a frequência de até três vezes ao ano. Todas as vezes é como se ele me visse pela primeira vez. Eu posso citar centenas de situações assim. No Brasil isso não acontece, há proximidade, carinho e calor humano. O brasileiro é muito mais comunicativo, aberto ao outro, que europeus, até os latinos.

Na próxima crônica (“De passagem”, p. 25), com sua audição afiada, Alana conta as conversas de fila, de sala de espera, que são muito variadas, nem sempre construtivas. O brasileiro reclama de tudo, reclama do outro com certa hostilidade, com ar de fofoca, uma certa ignorância sobre assuntos importantes e até preconceito. Não deixa de ser divertido essa espontaneidade, com perdas e ganhos, vale a pena.

Alana fala sobre a amizade em “O tipo mais fino de amor” (p.31). Não posso estar mais de acordo, quando desinteressada e verdadeira, a amizade espontânea que se consolidada com o tempo e confiança, é o tipo de amor mais nobre e genuíno.

Um dos mais emotivos é “Juarez”, o doido da rua da autora. Ninguém é tão doido que não consiga amar, a ter apreço e respeito por alguém. O amor encontra brechas até na loucura (p.41). Cadê Juarez, Alana? O que foi dele?

Alana também faz confissões. Narrou magistralmente como a depressão chega e se instala. Um mal silencioso e que vai dominando com toques de culpa e questionamentos, a busca do “porquê?” (p.45). A própria vida já é motivo, não tem que existir um específico. Ela também conta sobre o câncer de tireóide que padeceu, esse “arqueiro cego” (p.59), que nos amedronta a todos, pessoalmente e pelos que amamos. Quem está na luta, que seja breve, e que você saia forte, com muitos aprendizados e muita força para continuar a jornada.

Quem me conhece sabe que uma das minhas características principais é a sinceridade. Apesar de Alana ser uma velha amiga, eu fiz uma leitura imparcial. Leitura é coisa séria. Eu jamais indicaria um livro ruim por “amiguismo”. E este eu indico sem reservas, podem abusar. É muito bom!

Alana, eu te daria um longo abraço por este presente lindo em forma de crônicas. Te conheci mais e te abracei no final de cada texto. Como disse Flávia Aninger no pósfacio: “Toda leitura é oportunidade de encontro”, nos encontramos sim.

Que a vida te presenteie com muitas jujubas vermelhas (p.73) e que nós, mulheres multitarefas que “apagamos a lua” todos os dias, possamos descansar também, que possamos desfrutar do crepúsculo, sem pressa, sem estresse, com uma boa taça de café ou vinho, observar o anoitecer, enquanto eles preparam o jantar. Que o tempo nos seja gentil!

El Fahl, Alana Freitas. Nós que apagamos a lua, Zarte, Feira de Santana, 2018.

Este livro está sendo um sucesso, já teve uma reimpressão. Você pode pedi- lo escrevendo para a editora Zarte: zartegraf@gmail.com ou mandando uma mensagem ao WhatsApp: (71) 99116-6034

Alana escreve sobre novelas no blog “Entretelas”, lá você pode entrar em contato com a autora (clica).

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Resenha: “Memorial de Aires”, de Machado de Assis


(…) Não é mau este costume de escrever o que se pensa e o que se vê, e dizer isso mesmo quando se não vê nem se pensa nada. (p.66)

Com o preceito fundamental acima, o da democracia e o direito de expôr o que se pensa, vamos à obra, “Memorial de Aires, escrita em forma de diário entre 1888 e 1889, enquanto Machado matava o tempo no barco durante as travessias de Petrópolis, em horas mortas. Ele mesmo explica no prólogo, que nessa época, seu livro de trabalho era “Esaú e Jacó”. Ler Machado é sempre um prazer, uma delícia! Ele é o santo graal das letras brasileiras, único e inimitável, faz o difícil parecer fácil, um mago. Nao é à toa que ele era conhecido como o “bruxo de Cosme Velho”.

A leitura passou massageando as minhas retinas cansadas de ler tantas sandices nestes últimos tempos nas redes sociais. Por certo: #EleNão! Fiz alguns links com o presente, Machado atualíssimo.

“Memorial de Aires” conta as memórias do Conselheiro Aires (ele é o narrador- personagem), um diplomata que retornou do exterior ao Rio de Janeiro há um ano.

Creio que todo imigrante, até mesmo os diplomatas cheios de regalias, facilidades e privilégios, muito diferente das dificuldades do imigrante comum, temem a volta depois de uma estância longa fora de casa. Alguns sentem- se até estrangeiros no próprio país. Não foi o caso do Conselheiro, depois de mais de trinta anos na Europa:

(…) Cuidei que não acabaria de me habituar novamente a esta outra vida de cá. Pois, acabei. Certamente, ainda me lembram coisas* e pessoas de longe, diversões, paisagens, costumes, mas não morro de saudade por nada. Aqui estou, aqui vivo, aqui morrerei. (p.9)

Aires é viúvo, sua esposa faleceu em Viena e ele não a levou para o Brasil,  por algo místico, espiritual, deixou a cargo do destino (p.13):

Os mortos ficam bem onde caem (…)

– Quando eu morrer, irei para onde ela estiver, no outro mundo, e ela virá ao meu encontro.

Você acredita que temos um destino predeterminado ou somos responsáveis por tudo que nos acontece? Uma mistura de ambos? Acredita em outras vidas ou a morte é o fim de tudo?

A irmã de Aires, Rita, o convida para celebrar o seu primeiro ano de retorno… no cemitério! A principal e mais dolorida perda do imigrante: a família. Primeiro a convivênvia, e depois, os entes queridos, de fato. Muitos só podem revê- los dentro de um jazigo. Esse pensamento é horrível, mas é verdadeiro e nenhum imigrante está preparado para ele. No caso do diplomata, perdeu os pais e o cunhado. O futuro é longe demais, parece distante, mas chega.

No cemitério, além das lágrimas de Rita, também há espaço para a fofoca. Típico, qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Há gente que invade espaços pessoais e familiares alheios, inclusive velórios,  só para espiar e confabular contra a vida do outro em seu momento de maior fragilidade. Acredite, há gente ruim assim, dou fé. É fato que há muitos espíritos inferiores pululando ao nosso redor, mas nunca impunes, tenho certeza. Essa irônia machadiana tão certeira e catártica, muito mais sutil que a minha, isso é certo.

Os irmãos espiam uma moça bonita perto de um jazigo e Rita reconhece a mulher que foi casada com um médico, a viúva Noronha, “filha de um fazendeiro da Paraíba do Sul, o Barão de Santa- Pia.” (p.11)

A viúva Noronha, ao contrário de Aires, transportou “os restos” (essa é uma expressão muito espanhola) do marido falecido em Lisboa para o Rio de Janeiro. Machado devia ser um sujeito curioso em pessoa. No texto, ele caçoa do nome da viúva pela boca de Aires: Fidélia. Os irmãos fizeram uma espécie de aposta: Aires disse que a viúva casaria de novo, e Rita, que Fidélia continuaria sozinha. Fidélia vem do adjetico latino “fidelia”= “fidelidade”. O diplomata iria tentar conquistar a senhora, viúva fiel e convicta.

A política separando pessoas desde sempre, na vida real e na ficção; aliás,  literatura é imitação da realidade, portanto, não vou mais fazer distinção, vou embolar tudo mesmo, porque a literatura é vida, e vida é literatura, são a mesma coisa e ponto final. Os autores sempre contam a história de alguém, ainda que essa história seja apenas fruto da sua imaginação.

Voltando à política e ao amor: o romance de Fidélia é bem shakesperiano. Seu pai e marido eram inimigos políticos. O pai de Fidélia a levou para uma fazenda para separá- la de Ricardo e ameaçou expulsá- la de casa se desobedecesse. A moça começou a adoecer, não parava de chorar e não queria comer. A mãe, com medo de alguma “moléstia” (lembrei do professor Ernani Terra, conversamos sobre esta palavra, que na Espanha é utilizada para qualquer espécie de incômodo, mas no Brasil é usada para doenças graves)…então, a mãe, preocupada, começou a intervir, mas o pai continuou firme e disse que a filha poderia até morrer ou ficar doida, mas  que não permitiria a mistura do seu sangue  com os dos Noronha. “Bonzinho” o pai.

A moça realmente ficou gravemente doente. Com a intervenção da mãe, o pai cedeu em parte, mas nunca mais quis ver a filha; e o pai de Ricardo, o filho. O casal ficou junto, mas a felicidade durou pouco com a morte inesperada de Ricardo em Lisboa. Aires é cínico e cruel, chega a questionar se valeu a pena brigar com o pai por um amor tão fugaz, que “se aposentou na morte”.  Nesse momento, já comecei a pegar abuso de Aires.

Não há nada mais tenaz que um bom ódio (p.36)

Mas não posso negar, que Aires tem uma personalidade autêntica, espirituosa, engraçadinha e realista/prática: Quando eu morrer podem vender em particular o pouco que deixo, com abatimento ou sem ele, e a minha pele com o resto; não é nova, não é bela, não é fina, mas sempre dará para algum tambor ou pandeiro rústico. (p.44)

Com todo esse drama, essa paixão quase mortal, será que Fidélia continuará fiel ao seu defunto marido ou cairá na lábia de Aires, que fez uma aposta com a irmã Rita?

Um verso não saía da sua cabeça “I can give not what men call love” (“Eu não posso dar o que os homens chamam de amor”). Há canalhas assim, tanto homens quanto mulheres, que divertem- se machucando o outro com planos premeditados e extremamente daninos. Aires chamou Fidélia de seu “objeto de estudo” e cogitou a ideia de colocar lenha na fogueira e que ela não se reconciliasse com o pai.

Aires vai à festa de bodas de prata do casal Aguiar só para ver Fidélia. Tanto o casal, quanto Aires e Fidélia, não tiveram filhos, tal como Machado e Carolina. Aires nunca os quis ter, ao contrário dos demais.

É chocante ler as palavras “mucama”  e “tronco” (p.32), em “Memorial de Aires”, testemunhando o seu tempo. Aires cita várias vezes a iminente abolição dos escravos  e a possível república. O Rio de Janeiro já foi uma “corte”, só que sem o glamour das cortes europeias, mas igual de cruel.

Que coisa… não me acostumo com a história da escravidão no Brasil e que não tenha sido devidamente reparada até hoje, ao contrário. Mas dá para entender o motivo conhecendo o perfil da metade, pelo menos, da população brasileira, apoiando e aplaudindo um candidato à presidência segregacionista, além de outros tantos qualificativos que vão em contra aos princípios de decência, ética e humanidade. Sei que todos estão cansados da violência e corrupçao, só que um remédio pior que a doença, não é a solução. A via militar é a pior escolha.

Machado, ainda bem, foi bem crítico irônico contra a escravidão e a hipócrita sociedade carioca. Corajoso, não omitiu- se como anda fazendo a nata erudita do Brasil. Machado foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. A omissão dos bons ajuda a criar monstros. As pessoas começam a pensar mal e errado, sem ter pautas confiáveis, agarram- se a salvadores da pátria. Nosso país é composto por poucos e maus leitores (e feitores). A maioria é leitor de manchetes de meios de procedência duvidosa e fake news.

Voltando ao romance… há um personagem muito citado, “Tristão”, que é afilhado do casal que comemorou as bodas de prata, lembra? Ainda menino, foi morar em Lisboa com os pais a contragosto da madrinha, D. Carmo. Formou- se em Medicina e esqueceu dos padrinhos durante muitos anos, o que os entristeceu bastante. Já doutor, retorna ao Rio. O nome do personagem nos remete à história de “Tristão e Isolda”, uma lenda medieval de um amor trágico. Tristão e Fidélia são os dois filhos “postiços” do casal. Tenho que concordar com Tristão (p.78):

– A gente não esquece nunca a terra em que nasceu, concluiu com um suspiro.

Tenho nacionalidade portuguesa (raízes familiares) e em vias de obter a espanhola (por residência), serei uma mulher multinacional, mas o sentimento de pertencer, sem dúvida, é por minha terra. Aires continua o pensamento do moço, concordo plenamente:

(…) a adoção de uma nacionalidade é ato político, e muita vez pode ser dever humano, que não faz perder o sentimento de origem, nem a memória do berço.

Em um sonho, Fidélia vê o sogro e o pai, já falecidos, reconciliando- se (p.70):

A morte os reconciliara para nunca mais se desunirem: reconheciam agora que toda a hostilidade não vale nada, nem a política nem outra qualquer.

Pois é…essa briga política no Brasil, que já chegou a extremos com falecidos e feridos, tem que acabar. Não vale a pena, é preciso bom senso e respeito, mesmo que a opinião alheia nos machuque. É um principío básico da civilidade e da democracia, o diálogo, violência nunca!

Lá pela página 80, já ansiosa para ver se o romance entre o idoso Aires e a jovem viúva iria acontecer, se ele seria o alcoviteiro de Fidélia e Tristão, ou se iria acontecer um triângulo amoroso, ele brinca com o leitor dizendo que está com os olhos cansados, que “velhice quer descanso” e  diz que pensa parar de escrever o diário. Mas, claro, continuou.

Amigos e amigas, não esqueçam que Machado era um escritor realista. Só vou dizer que o final é feliz e triste, como a vida mesmo.

Abaixo, a edição portuguesa lida:

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Assis, Machado de. Memorial de Aires, Cotovia, Lisboa, 2003. Páginas: 177

* Fiz algumas adaptações à nova ortografia, exemplo “cousa= coisa”.


Machado cita autores e livros ( e música, Wagner). Anota, são dicas de leitura do grande mestre: “Fausto”, de Goethe; “Romeu e Julieta”, de Shakespeare; Percy Shelley, poeta, marido de Mary Shelley, de Frankstein e William Thackeray, escritor inglês, de “Vanity Fair” e outras tantas obras famosas. Podíamos aqui fazer uma maratona “Thackeray”, quem se interessar me escreve, que a gente encontra uma forma, meu Instagram: @falandofernanda

Até a próxima!

 

Vinte e quatro livros para 2018


Numa tentativa de ser mais disciplinada, listei vinte e quatro livros que eu tenho grande vontade de ler e resenhar neste ano que vai começar amanhã. Alguns deles não são nada populares no Brasil, inclusive nem têm edição brasileira, por isso mesmo o meu interesse. Vamos colocar no ar novidades e não livros mais que mastigados, não é?! Fora que há que se traduzir mais e mais autores estrangeiros no Brasil, como há que se traduzir muito mais literatura brasileira no exterior. Forçar esse intercâmbio faz circular autores, idiomas, livros e mais conhecimento.

E como sugestão: aprenda idiomas! Espanhol e inglês são obrigatórios se você quiser ser um cidadão do mundo, além de expandir seu próprio universo interior, também para a sua vida profissional.  Saber idiomas é a chave para entender melhor outras culturas e saberes. E no âmbito literário, saber inglês, francês, espanhol, fora o nosso português, te abre um leque imenso de opções literárias, ainda mais com a Internet e a possibilidade de ler em e-books. E você, estrangeiro, que está lendo isto com tradutor, aprenda também português. 🙂

Vamos às minhas escolhas (as capas são as edições que eu tenho).

  1. “A ópera dos mortos”, de Autran Dourado

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Este é um livro que quero ler há muito tempo, por isso é o primeiro da fila. O mineiro Autran Dourado, falecido em 2012,  foi um dos maiores escritores do Brasil. O romance “A ópera dos mortos” (1967), é considerado por muitos a obra- prima do autor.
Ópera dos mortos. Romance. [Tapa blanda] by DOURADO, Autran.-

2. “A grama vermelha” (“L’erbe rouge”/ “La hierba roja”), de Boris Vian.

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Esse não achei tradução em português, mas não deve demorar. O francês Boris Vian (1920-1959), morreu com 39 anos, foi engenheiro, cantor, músico, tradutor, inventor entre outros, uma vida intensa. Ele tem uns títulos de livros “curiosos”: “Escupiré sobre vuestra tumba (Pocket) (“Irei cuspir- vos nos túmulos” ou “Que Se Mueran Los Feos ” (Qu”e morram os feios”). Eu tenho outro que está na lista Espuma dos Dias (Em Portuguese do Brasil), esse com edição brasileira da finada Cosac Naify.

3. “Contigo na distância” (“Contigo en la distancia”), de Carla Guelfenbein.

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A autora é chilena e Contigo En La Distancia (Premio Alfaguara 2015)” (“Contigo na distância”) ganhou um prêmio literário importante na Espanha, o Alfaguara (2015). A história foi baseada na vida de Clarice Lispector.

4. “A cidade sitiada”, de Clarice Lispector.

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Livro sem ler de Clarice não dá! A autora é para ser lida e relida, sempre. “A cidade sitiada” é o terceiro romance da autora.

A cidade sitiada

6. “Grandes esperanças”, de Charles Dickens

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Este clássico do inglês Dickens deve ser daqueles que provocam lágrimas. Conta a história de um órfão, Pip e as dificuldades que enfrenta na vida.

Grandes esperanzas (El Libro De Bolsillo – Literatura)

7. “A camisa do marido”, de Nélida Piñón

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São nove contos da grande Nélida Piñón, escritora carioca, uma das minha autoras favoritas.

A Camisa do Marido (Em Portuguese do Brasil)

8. Ciranda de Pedra, de Lygia Fagundes Telles

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Esse já comecei a ler várias vezes e não avancei por problemas alheios ao livro.

Ciranda de Pedra

9. Paris não acaba nunca (livre tradução), de Enrique Vila- Matas

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O escritor espanhol me contou na Feira do Livro de Madri (2017), que estava em negociações com uma editora brasileira. Algumas de suas obras fora editadas pela finada Cosac Naify. Por enquanto, você pode ler em espanhol.

 París No Se Acaba Nunca (CONTEMPORANEA)

10. “1984”, de George Orwell

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Eu li “A revolução dos bichos” em 1996, lembro o ano, e adorei. Este, “1984”, está na lista há milênios, não pode passar de 2018.

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11. “13,99€”, de Frédéric Beigbeder

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Eu não tenho nenhuma referência do autor nem do livro, exceto o que conta na contracapa. A gente tem que fazer isso sim, “comprar livros pela capa”. Fiquei curiosa na livraria e vou pagar (já paguei, literalmente) pra ver.

13,99 Euros (Compactos)

12. “O grande Gatsby”, de F.S. Fitzgerald

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Outro clássico que está na estante faz tempo. Achei uma edição bilingue português- inglês baratinha:

O Grande Gatsby: The Great Gatsby: Edicao Bilingue

13. “Elegia”, de Philip Roth
9788483465295

Elegía (CONTEMPORANEA)

14. “O clube da boa estrela”, de Amy Tan

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Conheci essa autora americana de origem chinesa, aqui em Madri. Tenho duas obras autografadas.

El Club de la Buena Estrella

15. “Matar um rouxinol”, de Harper Lee
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Matar a un ruiseñor: SERIE: CINE

16. “Trópico de capricórnio”, de Henry Miller

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17. “Um mundo feliz”, de Aldoux Huxley

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18.”O buda dos subúrbios”, de Hanif Kureishi

El Buda De Los Suburbios (Otra vuelta de tuerca)

19. “Os maias”, de Eça de Queirós

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Os Maias

20. Os filhos da América, de Nélida Piñón

Outro da Nélida. A edição que eu tenho é a espanhola. O nome ficou muito diferente: “La épica del corazón”

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La épica del corazón

21. “Em busca do tempo perdido- À sombra das meninas em flor”, de Marcel Proust

9788420652733

Li a primeira parte e adorei! Veja aqui a resenha.

En busca del tiempo perdido. Estuche (13/20)

22. “Viagens na minha terra”, de Almeida Garrett

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Viagens na Minha Terra (Completo) (Portuguese Edition)

23. “Memorial de Aires”, Machado de Assis.

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Memorial de Aires (Série Machadiana Livro 4) (Portuguese Edition)

24. “Onde andará Dulce Veiga”, de Caio Fernando Abreu

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Onde Andará Dulce Veiga ? (Em Portuguese do Brasil)

A lista é muito otimista, são vinte e quatro livros, dois por mês, mas alguns são bem extensos, como “Grandes esperanças”, com quase 800 páginas, “Os Maias”, com mais de 700 e assim por diante, mas a intenção é administrar o tempo para dar certo.

O que você achou das minhas escolhas? Vamos embarcar comigo nessas leituras?!

Aproveito para desejar um feliz 2018, espero que você comece o ano com esperanças renovadas, com projetos, sonhos, e que ao longo do ano, todos eles se realizem com alegria e saúde!

 Em 2018, mais e melhor! Feliz ano novo!

 

Curso prático de português de Portugal


Nasci no Brasil, mas também com a nacionalidade portuguesa por ser filha do meu pai. No entanto, só recentemente, fui fazer o passaporte luso. Aquele negócio brasileiro de deixar tudo para última hora.

Vamos ao passaporte. Você pode fazer a marcação pela Internet no agendamento online. Tinha lá a opção “levantamento de passaporte eletrônico”. “Deve ser essa”, cliquei e marquei o dia. E no dia marcado, é só o requerente apresentar o Bilhete de Identidade ou o Cartão do Cidadão para que consultem a respetiva base de dados.

Lá vou eu de Madri até Lisboa levantar meu passaporte. Estacionei fácil na frente da conservatória e achei estranho. Conseguir lugar assim de primeira, no Chiado, bairro histórico…hum, algo errado. Fui olhar e tinha uma placa: “Zona condicionada- dístico de residente”. Ou seja, o lado que eu estava só podiam estacionar residentes. Tudo bem, estacionei a viatura no parking subterrâneo na mesma rua.

Cheguei muito antes no Instituto de Registos e Notariado da rua Nova Almada, pertinho da livraria Ferin , a segunda mais antiga de Lisboa. Decidi tomar uma meia de leite até a hora do levantamento.

As confeitarias portuguesas, já sabem, são uma perdição, difícil escolher entre tantas opções deliciosas: pastéis de nata, tortas de azeitão, queijadas, guardanapos, bolas de Berlim. Acabei pedindo um croissant, que em Portugal é feito com massa de brioche, meu favorito. Fiquei com vontade de comer umas tripas e uns ovos moles, mas decidi deixar esses doces para depois, em Aveiro, na terra da minha avó e bisavós, na belíssima Sever do Vouga. Ah, sem esquecer das bolachas americanas, que também são deliciosas.

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A rapariga do caixa perguntou-me se eu queria “contribuinte”. Eles sempre perguntam isso em todas as compras. É para saber se a pessoa quer fatura. Ticket e fatura são coisas diferentes. Pedindo a fatura a pessoa pode descontar o IVA, um imposto sobre as mercadorias, que pode ser abatido depois no imposto de renda.  Eu disse que não e segui para a conservatória.

Esperei um pouco e logo chamaram-me pelo nome. Lembram do agendamento? E do “levantamento”? Pois é. A portuguesa de primeira viagem pediu para recolher, buscar o passaporte e não para fazer o documento. A senhora do guichê, muito amavelmente, fez o meu passaporte da mesma forma.

Vejam só, caros amigos, não basta ser portuguesa, há que se fazer um curso. Nosso vasto idioma e seus muito falares.

Turismo literário em Madrid com guias brasileiros


O Falando em Literatura agora também oferece guias- turísticos em Madrid. Os passeios literários consistem em visitas às casas- museus de escritores, às bibliotecas e livrarias mais famosas da cidade, Real Academia Española, Casa del Lector, além de cafés literários, feiras de livros (a depender da época), com opção de translado do hotel aos locais dos passeios. Oferecemos várias opções de roteiros pela capital espanhola e em Alcalá de Henares (cidade natal de Cervantes).

Para maiores informações,  entre em contato pelo e-mail: falandoemliteratura@gmail.com

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Precisando de um guia brasileiro em Madri, lembre- se: Falando em Literatura! 🙂

Abertas as inscrições do Prêmio Off Flip


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“Estão abertas as inscrições para o Prêmio Off Flip de Literatura, que oferecerá aos vencedores R$ 26 mil no total, além de estadia em Paraty durante a FLIP, passeio de escuna e cota de livros. Os textos serão avaliados por escritores de expressão no cenário literário brasileiro e os vencedores participarão de mesa de debate na Off Flip das Letras. Os selecionados em conto e poesia serão publicados em coletânea e os autores das obras vencedoras no gênero infantojuvenil firmarão contrato de edição com o Selo Off Flip. O sarau de premiação acontecerá no Centro Cultural Sesc Paraty no dia 4 de julho, durante a Festa Literária Internacional de Paraty. O regulamento pode ser lido no site Prêmio Off Flip.

Boa oportunidade, pessoal!

 

Resenha: Meu querido canibal/ Mi querido caníbal, de Antônio Torres


Bons livros são sempre excelentes companhias.

Antônio Torres (Sátiro Dias, 13 de setembro de 1940) nos apresenta, com muita erudição, “Meu querido canibal” (na Espanha: “Mi querido canibal”), conhecimentos profundos sobre o Brasil em fase de colonização. Um livro perfeito para professores de literatura, artes e história fazerem um trabalho conjunto, excelente para ser dramatizado. Nesse livro o índio é o protagonista. “Meu querido canibal” é vivo, rico em informações, com movimento e repleto de reflexões a modo de ensaio, além de muitas curiosidades que, possivelmente, a maioria dos leitores nunca ouviu falar. Exemplo do embaixador da França em Portugal naquele tempo*:

Jean Nicot: de ahí la palabra nicotina, ‘nicotiana tabacum’, que viene de Nicot. (p.38)

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Foto: Rascunho, do jornal Gazeta do Povo

Essa obra começa assim “Era uma vez”, como se fosse um conto de ficção, que poderia ser, mas é a nossa história. “Meu querido canibal” é um livro histórico que convence, que nos aproxima à verdadeira realidade da colonização do Brasil, muito mais que aquela contada às crianças da minha geração, espero que não mais. Aprendemos na escola (as nascidas na década de 70 e as outras anteriores também, suponho) que os portugueses eram os heróis, o padre José de Anchieta era tão bonzinho! Os índios eram selvagens e primitivos, precisavam ser domados, catequizados e tinham que aprender a língua portuguesa. Não nos contaram sobre o extermínio e a escravização indígena pelos portugueses e espanhóis, não nos contaram o Brasil já tinha sido “descoberto” há milênios, que os índios eram povos organizados, inteligentes e que lutaram para defender sua gente e suas terras, tinham cultura própria e viviam em comunidades auto- sustentáveis em harmonia com a natureza; também pouco se falou da tentativa falida de colonização francesa. Os índios eram pintados com tintas de inferioridade.

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Esses brasileirinhos de pura estirpe, essas fofuras, são índios do Amazonas

 O índio Cunhambebe, apresentado no livro como o primeiro herói do Brasil, sujeito com dois metros de altura (coisa rara num índio) e quatorze mulheres, temido pelos portugueses, respeitado por todos, tinha uma voz potente, talvez pela ingesta massiva de cinco mil inimigos. Cunhambebe chamava os portugueses de “perós” (ferozes), ele  gostava dos franceses, porque não eram tão violentos como os portugueses e tentaram integrar- se na sociedade indígena (pelo menos tentaram bastante com a ala feminina), apesar de vê- los (os índios) como animais. O vice- almirante Villegagnon ansiava converter o Brasil num reino francês, a França Antártica, que chegou a existir durante cinco anos:

Los índios le parecieron ‘bestias de apariencia humana’, bichos con forma de personas. (p. 32)

E se o Brasil falasse francês? Nicolas Durand de Villegagnon, mal chegou ao Rio de Janeiro e mandou construir um forte, o Coligny, na Baía de Guanabara. Villegagnon era um homem austero e violento contra os seus próprios homens e contra as índias, que seduzidas pelos seus soldados, eram marcadas a ferro, o que acabou provocando uma fuga massiva dos seus homens, que preferiram o amor das índias à castidade imposta pelo almirante, que acabou tendo que voltar para Europa. Ou seja, o Brasil não fala francês por causa da luxúria francesa (e principalmente, porque foram expulsos e dizimados pelos portugueses).

Cunhambebe resistiu, lutou contra os portugueses, achava melhor morrer a ser escravizado, mas pouca gente ouviu falar nele, seu nome é citado em livros de história com pouca importância e em pequenas notas:

Tenía na fuerza y una estatura y una corpulencia de Cíclope, un valor de bruto obcecado, una dureza y ferocidad de monstruo. En otras condiciones habría dado un Atila, quizá todavía más devastador. Desaparecía con su tribu como si lo tragara la tierra. Nunca se apiadó de ningún portugués. (p. 40)

O capítulo da antropofagia é o que mais me choca, sou muito sensível ao imaginar tal cena. Cunhambebe era extremamente vingativo e devorava seus inimigos numa espécie de ritual que demorava meses, era a tradição da tribo: período de engorda para depois devorá-los gordinhos, os tratavam bem, emprestavam mulheres e tudo. Mas era uma sociedade machista, as mulheres prisioneiras não tinham os mesmos privilégios. E se alguma índia ficasse grávida de branco, o bebê era devorado também, porque tinha sangue do inimigo. Com essa informação já fiquei cismada com Cunhambebe, não gostei muito dele não. Comer bebezinhos é monstruoso para qualquer povo, em qualquer sociedade e em qualquer tempo. Repulsa total a esse tipo de “cultura”. Os inimigos eram executados com danças, como se fosse um carnaval. Canibalismo é sim uma selvageria, é igualar- se aos animais. Não, má comparação: nem os animais  devoram sua própria espécie. Estaria tão errada, portanto, a qualificação de “selvagens” dada pelos portugueses aos indíos do Brasil na época da colonização? Não, está correta. Os indígenas eram desprovidos de qualquer tipo de moral ou ética parecidas às que conhecemos. Em sociedades africanas também é cultural mutilar os genitais femininos, outra selvageria; em sociedades árabes, mulheres adúlteras são apedrejadas até a morte, outra selvageria. Esses episódios considerados “culturais” são abomináveis. O problema é que os portugueses eram selvagens também, porque os matavam com crueldade, a ordem era exterminar quem colocasse obstáculos aos seus objetivos, esqueceram da moralidade católica- cristã, do civismo e civilidade, sabiam que era errado, mas ainda assim fizeram por ganância, por dinheiro, pelo poder, porque era também a “cultura” na época, consideravam os índios animais- mas eles esqueceram de contar essa parte.

As tribos brasileiras unificaram- se para lutar contra os portugueses, formaram a “Confederação dos Tamoios”, que durou 12 anos e foi organizada por Aimberê. Cunhambebe era o chefe de todos, mas não morreu em combate, morreu por uma epidemia junto com outros 300 índios, provavelmente por carne humana em má estado, contaminada. O gigante derrubado por uma bacteriazinha…que pena morrer assim!

O jesuíta José de Anchieta foi um dos responsáveis pela derrota final dos índios e Araribóia foi um índio miserável, traidor, foi determinante para o êxito luso contra a sua gente, ficou do lado dos brancos, vestia- se como eles, ganhou terras e até mudou de nome: Martim Afonso.

Os fatos históricos são muito relativos, podem ter várias versões, depende de quem conta, não são verdades absolutas, e essas “verdades” tão particulares são repassadas de geração em geração, não sendo necessariamente a exata realidade (se é que isso existe). No caso dos cronistas portugueses, franceses, espanhóis, as narrações podem ter mil e umas interferências por conta de interesses, crenças, interpretações, que podem ter modificado os fatos. Tudo o que está escrito vira ficção, uma imitação da realidade. E “Meu querido canibal” é a versão que mais me convenceu até agora, porque conta o outro lado menos conhecido e que parece muito verídico. Nessa guerra, indíos e europeus foram vítimas e algozes. Os índios conheciam as terras, seus segredos e venenos, estavam em maior número, mas os portugueses tinham canhões (lembram da Guerra do Vietnã? Os vietnamitas conseguiram resistir e vencer os americanos, com muito mais recursos bélicos que eles, porque tinham esses recursos que os americanos não dominavam). Aconteceu com todos os países colonizadores e colonizados. Muitos brasileiros sentem raiva dos portugueses, mas era a “cultura” européia na época, era o modo de vida do povo europeu naquele tempo, o de desbravar e conquistar territórios custasse o que custasse, além do mais, somos o que somos (os brasileiros), por causa deles também. Não acho saudável o ressentimento histórico. O que ficou para trás não tem mais conserto, mas o que se faz hoje em dia, sim. Dois episódios recentes, o da Aldeia Maracanã, no Rio de Janeiro, onde 20 índios serão desalojados do terreno ao lado do estádio; ou a situação muito mais grave dos índios Guarani-Kaiowá no Mato Grosso do Sul, que são 45 mil e iriam ser expulsos das suas terras ancestrais. Depois de ameaças de suicídio coletivo e uma grande mobilização nas redes sociais, tudo indica que não serão despejados (por enquanto). Em pleno ano de 2013, parece que ainda não há lugar para os índios nesse imenso Brasil, eles sobraram em 1500 e continuam sobrando agora… e os portugueses já não mandam  no Brasil desde 1822. E agora, a culpa é de quem? A história, a memória, servem para isso: para não cometer os mesmos erros do passado.

 Não vou contar mais, agora é com vocês! Esse livro me fez refletir, conhecer e desfrutar bastante. Recomendadíssimo!

Veja essa excelente entrevista concedida por Antônio Torres, feita por Edney Silvestre para a Globo News, onde o autor fala sobre “Meu querido canibal” e sobre a literatura histórica.

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Torres, Antônio. Mi querido caníbal. Poliedro, Barcelona, 2003.

190 páginas.Tradução: José Luis Sánchez

*Conservei as citas em espanhol como curiosidade, para que os leitores lusos vejam como ficou o livro na Espanha, além de dar uma oportunidade aos buscadores virtuais hispano- falantes de encontrarem essa obra brasileira em espanhol.