Resenha: “A cidade Sitiada”, de Clarice Lispector


Perder- se também é caminho (p.138)

Na minha conversa diária com os escritores através de suas vivas literaturas, é onde encontro respostas para as minhas diversas inquietações. Há mais diálogo produtivo e interessante com os mortos, do que com os vivos.

Estado de sítio, segundo a Constituição do Brasil:

Art. 137 – O Presidente da República pode, ouvidos o Conselho da República e o Conselho de Defesa Nacional, solicitar ao Congresso Nacional autorização para decretar o estado de sítio nos casos de:

I – comoção grave de repercussão nacional ou ocorrência de fatos que comprovem a ineficácia de medida tomada durante o estado de defesa;

II – declaração de estado de guerra ou resposta à agressão armada estrangeira.

Parágrafo único. O Presidente da República, ao solicitar autorização para decretar o estado de sítio ou sua prorrogação, relatará os motivos determinantes do pedido, devendo o Congresso Nacional decidir por maioria absoluta.


O terceiro romance de Clarice Lispector, “A cidade sitiada” (1949),  “é considerado por muitos o melhor romance de Clarice”, segundo o editor. É uma obra fascinante!

Este é bem diferente dos romances “A paixão segundo G.H.” ou “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres” (meus preferidos), que são uma imersão profunda na alma dos personagens, são romances psicológicos, um espaço atemporal, muito característicos da autora. Em “A cidade sitiada”,  a temática é político- social vista pelo lado do proletariado, primeiro, e depois visto pelo lado emergente.

Na minha procura por dados históricos deste período, constatei que existe muita literatura escrita pelos filhotes da ditadura, muita obra maquiada, desconfie de todas, prestem atenção em quem as escreve.

A autora usou uma técnica interessante que, a priori, pensei que iria aborrecer esta leitora: a descrição. É como se ela tivesse uma fotografia ou um quadro na sua frente.

A  voz narrativa não julga muito os personagens, é objetiva, mas com o desenrolar da história vamos conhecendo o interior da personagem principal, Lucrécia Neves. E existe, na própria obra, até uma justificação para o livro ter sido escrito assim, a precisão:

História que poderia ser vista de modos tão diversos que a melhor maneira de não errar seria a de apenas enumerar os passos da moça e vê- la agindo assim como se apenas se diria: cidade. (p.72)

O título resume a essência da obra, “A cidade sitiada”. O estado de sítio acontece em ditaduras e guerras, uma medida excepcional, onde as forças armadas estão a postos para reprimir a democracia, como aconteceu no Brasil em várias ocasiões, o militarismo no Brasil sempre fracassou e sucumbiu o país num caos social, político e financeiro, além da democracia. A população das periferias vive esse estado muito cotidianamente e quebrar essa barreira é para muito poucos.

O prólogo do livro situa a história em 1920, época do Tenentismo, do golpe militar seguido da Era Getúlio Vargas (1930-1945). Sempre foram os comunistas, “os vermelhos” temidos pelos fascistas, que iam para a linha de frente lutar pela classe trabalhadora, pelos direitos trabalhistas e pela liberdade. O brasileiro é um ingrato.

Esse ditador, o Getúlio (que deveria ter seu nome retirado de instituições, escolas e afins, a apologia à fascistas fez muito mal ao Brasil) comungava com os nazistas / fascistas europeus Mussolini e Hitler. O seu lema, “o perigo vermelho”, incitava o ódio aos comunistas/socialistas, havia censura, repressão e violência. O sujeito acalmou as massas instituindo um salário mínimo (miserável, que contentou os empresários) e a jornada de trabalho de oito horas por dia. “Tudo pelo progresso”. Ele queria a modernidade que o pobre não tinha acesso, com mão -de -obra baratíssima.

Assim é o momento histórico da escritura do livro, o pós- ditadura de Vargas, a obra retrata o estado de sítio que viveu o Brasil em dois momentos antes da publicação deste livro, em 1930 e 1935; em 35, durou um ano inteiro. A obra, visto do lado da periferia transpira militarismo, uma atmosfera tensa, de medo:

Seu modo de ver era tosco, rouco, recortado: os soldados! (p.35)

Passara o perigo. Era noite. (p.41)

-A pancada súbita do casco! (p.51)

Lá estava a cidade. (…)
Se ao menos a moça estivesse fora de seus muros.
Mas näo havia como sitiá- la. Lucrécia Neves estava dentro da
cidade. (p.52)

O romance é ambientado no subúrbio carioca de São Geraldo, um lugar bem precário, sujo, insalubre, cheio de animais peçonhentos e esgoto.  A protagonista é Lucrécia Neves, uma jovem que sonha melhorar de vida, casar e sair desse buraco.

Ana é a mãe de Lucrécia. A página abaixo diz coisas importantes, Lucrécia pode ser comunista. Observe, “mais uma vez ela voltara ferida”. Ou ela volta arrebentada depois de recusar o beijo do militar Felipe, que, humilhado, se vingou?  “Os cabelos escondiam metade da cara ferida”:

Só como curiosidade: preste atenção no primeiro parágrafo da imagem acima, que fala de “cravos boiando nos esgotos”.  Nessa época, o meio de transporte era o cavalo, também usado pelo Exército. Cravo sinônimo de prego e não de flor. Os ferreiros batiam na ferradura primeiro, antes de martelar o casco para assustar menos o cavalo. Esse é o sentido literal, e tem uma expressão figurada, um provérbio português: “Uma no cravo, outra na ferradura”, que significa fazer algo bom e em seguida algo ruim, similar ao “morde e assopra”:

Será Lucrécia uma espiã ou só observadora consciente da vida?

Espiando. Porque alguma coisa não existiria senão sob intensa atenção. (p.74)

Lucrécia vivia numa casa lúgubre e sua mãe quase não saía. A moça fazia uma espécie de vigilia, assustava- se com o bater dos cascos dos cavalos dos militares. Andava sempre sobressaltada. Numa noite, chegou um homem para entregar “carvão”. É como se o tempo todo ela temesse que os militares viessem prendê- la. Tudo é escrito em forma de códigos e enigmas:

Os cavalos de Napoleão estremeciam impacientes. Napoleão sobre o cavalo de Napoleão estava parado de perfil. Olhava para a frente no escuro. Atrás a tropa em silêncio.

Mas não amanhecia. Eles esperavam a noite toda. (p.64)

Não é uma leitura fácil. A impressão que fica é que Clarice escreveu para não ser entendida, mas sentida. É necessário muito conhecimento prévio para entender este livro, o que é um desafio delicioso. Este livro não se trata de uma “moça pobre que quer casar”, isto é secundário. Ele trata sobre fascimo no Brasil que destruía as pessoas dos subúrbios. Elas viviam massacradas e sem esperança.

Clarice não era do proletariado, ela era esposa de um cônsul, morou em vários países, mas era amiga de comunistas. Será que Clarice falou de si mesma? Será que sofreu este dilema?

Também Lucrécia Neves se esforçava para se exteriorizar, sem saber se devia se dirigir à esquerda ou à direita. De súbito acordou.

A moça paquerou Perseu Maria, apaixonado por ela, mas pobre e o Tenente Felipe, o que lhe proporcionava segurança para andar nas ruas e o que poderia ser um marido que lhe tiraria do seu bairro imundo, mas ele não queria casar. Felipe a humilhou devido à sua condição social pela recusa de seu beijo, só quis se “aproveitar” da moça. Depois ela apareceu com a cara quebrada.

Lucrécia acabou cedendo ao mais fácil: casou com Mateus, um advogado muito mais velho que ela. Cansou da luta, entregou- se. Foi morar na capital, mas não se acostumou, quis voltar para S. Geraldo, que se transfigurava dia a dia. Os cavalos foram dando lugar às máquinas e bondes, restaurantes e cinemas. O passado começou a ser demolido sem nenhum critério ou piedade, “tudo pelo progresso”.

Lucrécia acostumou- se com a vida de classe média alta. É rica. O dinheiro dá a falsa impressão de que as pessoas podem ser tudo o que quiserem. Lucrécia agora tem empregada e as manda embora por qualquer pretexto, até por “um queijo desaparecido” (p.110).

Ela, que não casou por amor, o encontrou pelo caminho. O doutor Lucas  inesperadamente apareceu para quebrar o esquema da sua vida “perfeita”.

Mateus faleceu e a viúva alegre não demorou muito em se animar e pensar em um segundo marido. O pensamento arraigado, machista e  muito brasileiro, de que as mulheres só podem ser felizes com um homem ao lado.

Clarice tomou partido publicamente. A foto abaixo é de 1968, em uma manifestação contra os militares, ao lado do pintor Carlos Scliar e o arquiteto Oscar Niemeyer (foto: Editora Rocco):

44841932_1472144619554557_1749955472380657664_n.jpg

Havia muitas obras no bairro de S. Gonçalo. Os militares prometiam progresso. Os fios, edifícios, usinas, avenidas começavam a aparecer da noite para o dia diante dos olhos incrédulos dos moradores, que nem luz tinham em casa. Trabalhadores que construíam o “progresso” com as próprias mãos, mas que não tinham acesso a ele.

Alguma coincidência com a realidade? Os militares melhoraram a vida de quem mesmo?

img_3867Lispector, Clarice. A cidade sitiada, Relógio D’água, Lisboa, 2009. Páginas: 147 páginas


Há que se respeitar mais os escritores. Principalmente os grandes. Você pode fazer isso, lendo- os, o que serve como antídoto contra a burrice. Os clássicos têm uma situação complicada. Como estäo sacramentados, contraditoriamente, são menos lidos. É como se tudo já tivesse sido dito sobre eles. Não. A opinião do outro não sacramenta nada (mesmo que seja especialista), é só uma opinião e muitas vezes nem é certa. Li prólogos e resumos absurdos sobre este livro. Gente que passou muito longe da essência dessa obra “uma jovem cansada do subúrbio e que queria casar”, dizer isso é muito simplista, a obra é muito mais profunda e retrata vários motivos do Brasil ser como é, tão desigual.

Leia, sinta, comprove você mesmo, investigue, pense, duvide de tudo que te contarem. Abra caminhos novos.

Amigos e amigas, amanhã será um dia muito importante na história brasileira. É incrível que nesses últimos dias eu tenha tentado convencer pessoas a não votar num fascista. É surreal! Pelo menos quem lê e sabe interpretar textos e o passado, não deveria ter caído nessa.

Deixo aqui um link “Resistir é preciso”, um documentário sobre pessoas torturadas no golpe de 64. Um deles é meu tio. Sabe qual foi o “crime” dele? Ser presidente de uma associação de estudantes. Ele foi preso e torturado no porão de um quartel que hoje funciona como o “Palácio do Menor”, na cidade de Feira de Santana.

O nosso voto sempre tem que ser pela democracia e pela liberdade de expressão, o contrário disso é a barbárie. Temos que evoluir e não regredir!

Anúncios

Bandido Social e a neofavela: descolonização e criminalidade em “Cidade de Deus”, por Ísis Moraes


Você sabe o porquê do Brasil ser tão violento? O colonizador saiu do Brasil, mas a mentalidade da colônia permanece. Leia o irretocável e esclarecedor texto de Ísis Moraes:


 

Bandido Social e a neofavela: descolonização e criminalidade em Cidade de Deus

As margens da sociedade sempre reservaram aos seus inquilinos uma ampla galeria de privações. Da miséria mais sofrível à mais abjeta ausência de cidadania, despossuídos de toda sorte viram-se, no largo curso da História da humanidade, animalizar e coisificar em favor das elites. Subjugados por um poder que esteve quase sempre além de uma compreensão por vezes tolhida pela fome, pela jornada exaustiva de trabalho, pela inacessibilidade ao sistema educacional, pela dor física e moral, pelo medo e outras formas de coerção, esses condenados à marginalidade viveram quase sempre em função de um único mediador: a violência. Da mais cordial à mais dolosa, é a voz dela que os embala desde o berço até as valas onde depositam seus corpos anônimos e espoliados.

Não é de se estranhar, então, que a linguagem que lhes soa mais familiar seja aquela que ajusta a palavra “defesa” à lâmina afiada que se insurge contra a garganta do opressor. Assim, se por um lado é a voz da violência que os conduz ferozmente à servidão silenciosa, é a sua força que os liberta e os põe de novo frente a frente com a humanidade perdida. Como assinala Jean-Paul Sartre, no prefácio do livro Os Condenados da Terra, de Frantz Fanon, “na falta de outras armas, a perseverança da faca será suficiente” para resgatar aquilo que nunca deveria ter sido usurpado:

Encontramos a nossa humanidade do lado de cá da morte e do desespero, ele a encontra do lado de lá dos suplícios e da morte. Fomos os semeadores de ventos; ele é a tempestade. Filho da violência, extrai dela a cada instante a sua humanidade; fomos homens à custa dele; ele se faz homem à nossa custa. Um outro homem, de melhor qualidade. (SARTRE, Jean-Paul. In: FANON, 1979, p.16)

Na visão de Sartre, o temor que os explorados experimentam diante dos inesgotáveis meios de repressão do dominador surge como o responsável direto pelo furor que os inspira a reclamar o que lhes é de direito. Encurralados entre as armas que apontam contra eles e os “desejos de carnificina” que lhes tomam, acabam por explodir veementemente contra o seu antagonista, devolvendo-lhe a sua própria crueldade, que se avoluma e os dilacera. A imagem que se vê, então, assemelha-se a de mendigos “lutando, em sua miséria, contra ricos poderosamente armados”, na tentativa desesperada de fazer a violência “cicatrizar as feridas que ela mesma fez”.

No vermelho do sangue opressor que se derrama – produto de duas violências que se chocam e se equiparam – nasce a consciência de que os pobres nem sempre precisam ser “desamparados” e “dóceis”. É através da arma que muitos descobrem que também podem ser terríveis. E que a “liberdade”, forjada a quente no seio do embate, é um privilégio que também lhes cabe. A partir disso, o dominador jamais deixa de ser o oponente. Mais que isso. Frantz Fanon o coloca na alça de mira da “coisa colonizada, oprimida, espoliada”: será sempre “o homem a abater”. Isto porque o explorado é um perseguido que acalenta constantemente o sonho de comandar a caçada. E não se trata de competir com o inimigo: quer o lugar dele. As disparidades entre os dois universos não permitem, em hipótese alguma, a coexistência. Em sendo assim, não hesitará um segundo em matá-lo, sobretudo porque desde muito cedo percebe claramente que o mundo estreito e semeado de interdições que o aflige não pode ser reformulado senão pela violência absoluta, afinal, como constata Fanon, “o colonialismo só larga a presa ao sentir a faca na goela”. É, pois, uma violência em estado bruto, que só se curva frente a uma violência ainda maior. Trata-se de tomar tudo aquilo que sempre foi negado pelo poder:

A cidade do colono é uma cidade sólida, (…) iluminada, asfaltada, onde os caixotes de lixo regurgitam de sobras desconhecidas, jamais vistas, nem mesmo sondadas. A cidade do colono é uma cidade saciada, indolente, cujo ventre está permanentemente repleto de boas coisas. (…) é uma cidade de brancos, de estrangeiros./ A cidade do colonizado (…) é um lugar mal afamado, povoado de homens mal afamados. (…) é uma cidade faminta, faminta de pão, de carne, de sapatos, de carvão, de luz. A cidade do colonizado é uma cidade acocorada, uma cidade ajoelhada, uma cidade acuada. (…) O olhar que o colonizado lança para a cidade do colono é um olhar de luxúria, um olhar de inveja. Sonhos de posse. Todas as modalidades de posse: sentar-se à mesa do colono, com a mulher deste, se possível. O colonizado é um invejoso. O colono sabe disto; surpreendendo-lhes o olhar, constata amargamente, mas sempre alerta: ‘Eles querem o nosso lugar’. É verdade, não há um colonizado que não sonhe pelo menos uma vez por dia em se instalar no lugar do colono. (FANON, 1979. pp. 28-29)

Mas só há um meio de se conseguir isso: assumir a identidade forjada pelo opressor. Esse título, porém, trará sempre consigo a marca da ambigüidade. Isto porque se por um lado o bandido é visto como nada mais que um criminoso comum pelos olhos da lei que protege os ricos, por outro será encarado como o herói de uma gente pobre e humilhada, que vê na sua insubordinação o seu próprio triunfo. Inimigo do senhor e do Estado, o bandoleiro torna-se, pois, o campeão e o vingador dos desprovidos. E uma vez figurando no imaginário coletivo popular como símbolo de protesto e rebelião social, este líder da “libertação” será amplamente admirado, ajudado e sustentado por sua gente, sobretudo porque a sua revolta – salvo nos casos de delação – não costuma atingir seus iguais, apenas os que se encontram do lado oposto da miséria:

O indivíduo que sucumbe numa peleja depois de ter abatido quatro ou cinco policiais, o que se suicida para não denunciar seus cúmplices, constituem para o povo guias, esquemas de ações, ‘heróis’. E é inútil, evidentemente, dizer que tal herói é um ladrão, um crápula ou um depravado. Se o ato pelo qual este homem é perseguido pelas autoridades colonialistas é (…) dirigido exclusivamente contra uma pessoa ou um bem colonial, (…) O processo de identificação é imediato. (FANON, 1979, p. 53)

Legítimos representantes de um mundo em dissolução, os bandidos sociais não são apenas homens fisicamente aptos que, a passar fome, preferem tomar pelas armas aquilo de que necessitam. Surgem como sintomas de uma grave crise, imbuídos da missão de desagravar as injustiças. Sonhando com um mundo de liberdade, igualdade e fraternidade, onde a submissão não mais seja imposta como norma da vida humana – o que dificilmente sairá do plano da idealização –, quase sempre ajudam a gente humilde que os acolhe e admira. Roubando dos ricos para dar aos pobres, muitos bandidos acabam por encarnar o mito do Robin Hood, o ladrão nobre. Mas, de acordo com Eric Hobsbawm, em sendo a realidade como é, poucos deles possuirão a abnegação, o idealismo ou a consciência social para exercer esse papel. Assim, tirar dos ricos é uma certeza; dar aos pobres, nem sempre. De toda sorte, representam o produto da contrapartida da passividade geral dos necessitados e, portanto, afirmam-se como seus “legítimos” defensores.

Fenômeno universal, nascido das entranhas de todas as épocas de pauperismo e cerceamento, o banditismo social não encontrou, no entanto, seu lugar na contemporaneidade. É, pois, no dizer de Eric Hobsbawm, um fenômeno do passado: “O mundo moderno o matou, substituindo-o por suas próprias formas de rebelião e de crime” (HOBSBAWM, 1975, p. 18), diz ele, como que a reiterar que, num tempo regido pela voracidade de um capitalismo que nega em absoluto toda uma legião de miseráveis, colocando-a sob suspeição e vigilância constantes e empurrando-a cada vez mais contra as suas margens, até o sufocamento completo, não há mais espaço para delito algum que conserve o menor resíduo de nobreza.

No encalacrado mundo das grandes metrópoles, despossuídos, subnutridos, e também negros e mestiços, são as vítimas preferenciais de uma violenta política de saneamento social que visa unicamente a sobrevivência da dita sociedade “sã”: endinheirada, poderosa e branca. Os que não se encaixam neste perfil devem permanecer isolados, acuados nos becos das neofavelas, que nada mais são do que depósitos de gente, uma gente enquadrada pelo sistema como portadora de uma “identidade social maléfica” (ZALUAR, 1987). Para esses suspeitos em potencial, cruzar a fronteira que leva à “cidade ideal” significa quase sempre ser eliminado: ou será preso, ou será morto.

Essa nova forma de “colonização” acende o estopim de uma violência ainda mais apta a passar por cima de todas as barreiras interiores. Mais uma vez é ela a mediadora do conflito. E é exatamente sobre esse novo estágio de rebelião – e por que não dizer descolonização? – que a narrativa de Paulo Lins se debruça. Intitulado Cidade de Deus, o romance desnuda os conflitos existentes no tecido social do país e aponta uma arma para a cara da sociedade brasileira. Encurralada, esta já não tem outra alternativa senão enfrentar os fantasmas que ela mesma criou. Afinal, o tempo da indiferença foi “passado” e o crime nos diz, altissonante, que não há mais conciliação possível. Decretando a morte do malandro, o livro indica que o que nos identifica hoje é tão somente uma rasura e esclarece que a explosão da violência não mais nos permite pensar o país pelos moldes da “cordialidade” e da “harmonia”. O tempo presente refuta idealizações desta ordem, insurgindo-se veementemente contra a pseudotranqüilidade de uma identidade nacional forjada ao longo da história.

Nascido da truculência colonialista, o Brasil revelado por Paulo Lins parece não mais aceitar refletir imagens distorcidas pela conveniência. O seu retrato de agora é nítido e estampa sorrisos caídos de bocas sem dentes, que tramam a morte nos conchavos de becos. Nesse sentido, Cidade de Deus ilumina os labirintos de um conjunto habitacional do Rio de Janeiro criado parra “conter” não seres humanos dotados, cada um deles, de identidades individuais, mas uma massa de miseráveis forjada pelo Estado e homogeneamente marcada pelo signo da “delinqüência”. O que se vê, então, e de dentro, é um “retrato hediondo” de um Brasil que, acossado pela pobreza, pela discriminação e pela indigência, mata, assalta, estupra, trafica e se vê obrigado a fugir constantemente de uma polícia igualmente violenta e quase sempre corrupta. Mais do que nunca, viver, em Cidade de Deus, é não morrer, mesmo para aqueles que não abraçam a carreira do crime. Sim, sempre haverá os “otários”, que trabalham honestamente mesmo sabendo que jamais irão a lugar algum com a “merreca” que lhes pagam. Já os “bichos-soltos” optarão sempre por cobrar na bala o que julgam que a sociedade lhes deve:

Lembrou-se (…) daquela safadeza do incêndio, quando aqueles homens chegaram com saco de estopa ensopado de querosene botando fogo nos barracos (…). Fora nesse dia que sua vovó rezadeira, a velha Benedita, morrera queimada. (…) ‘Se eu não fosse molequinho ainda’, pensava Inferninho, ‘eu tirava ela lá de dentro a tempo e, quem sabe, ela tava aqui comigo hoje, quem sabe eu era otário de marmita e o caralho, mas ela não tá, morou? Tô aí pra matar e pra morrer.’ Um dia após o incêndio, Inferninho foi levado para a casa da patroa de sua tia. (…) Ficava entre o tanque e a pia o tempo todo e foi dali que viu, pela porta entreaberta, o homem do televisor dizer que o incêndio fora acidental. Sentiu vontade de matar toda aquela gente branca, que tinha telefone, carro, geladeira, comia boa comida, não morava em barraco sem água e sem privada. (…) Pensou em levar tudo da brancalhada, até o televisor mentiroso e o liquidificador colorido. (CD, p.23)

Como se pode notar, o “favelado” também lança sobre a cidade dos ricos aquele mesmo olhar invejoso que deseja arrancar dela tudo o que ele nunca teve, e sobre os seus donos aquele mesmo ódio que ambiciona exterminá-lo. Se o bandido social não mais existe nas modernas sociedades, os resquícios de seu levante ainda permeiam o cotidiano daqueles que se revoltam frente às injustiças. A sua carabina pode ter mudado de mãos, mas o alvo ainda é o mesmo. Desse modo, a bala freqüentemente vem a substituir a palavra que o “bicho-solto” é obrigado a engolir a seco: Falha a fala. Fala a bala. (CD, p. 21)

Mas o caminho trilhado por essa neodescolonização é ainda mais sangrento, sobretudo porque tem de lidar com um esquema muito bem montado de alienação, que, por vezes, desvia o foco da violência do explorado, fazendo-a recair sobre ele próprio. Trata-se de um jogo, que leva o oprimido a incidir numa sangrenta guerra contra os seus. Retomando Fanon, exposto a tentativas diárias de morte, à fome, à expulsão do quarto não pago, à falta de oportunidade de trabalho digno, à bala perdida que cruza os becos em busca de um corpo, o espoliado chega a ver seu semelhante como um inimigo implacável. E nessas circunstâncias o assassinato é só mais um passo. O próximo, talvez. Além disso, no mundo do crime urbano, diferentemente do que ocorre no universo rural do banditismo social, proteger os inocentes já não é mais um requisito moral. Se os “bichos-soltos” o fazem, é puramente por interesse. E num ambiente em que “é mais seguro atirar primeiro e fazer perguntas depois”, este costuma ser altamente volúvel. Por isso, entre a arma e a sina que ela terá de cumprir, o inocente é quase sempre um obstáculo a ser derrubado em favor da demanda individual.

Em Cidade de Deus, Paulo Lins evidencia o horror de um campo de batalha onde não apenas traficantes se entrematam e espalham o terror entre os seus irmãos “favelados”, transformando-os em vítimas e cúmplices do seu ódio, mas onde homens simples também se revelam capazes de assassinar cruelmente, e por motivos muitas vezes tomados como banais. Contudo, alerta Sartre, que ninguém se iluda: “não se creia que um sangue demasiado ardente ou desventuras da infância lhe tenham dado para a violência não sei que gosto singular: ele se faz o intérprete da situação, nada mais”. E não se trata de defender o crime, mas apenas de não submetê-lo às leis sumárias da conivente justiça das elites. É preciso entender que, em um contexto miserável, ser bandido quase nunca é uma opção. É, antes, uma estratégia de sobrevivência. Por isso, em Cidade de Deus, não há “bandidos” nem “heróis”, há homens, mulheres e crianças lutando para resgatar a humanidade usurpada.

De qualquer modo, é este cenário caótico, movimentado pela antiética do lucro que rege as sociedades capitalistas, que vai minando vorazmente os poucos resíduos do banditismo nobre. Se num primeiro momento Inferninho reparte o butim igualitariamente entre o bando, posteriormente Zé Miúdo não hesitará em matar um comparsa para ficar com a sua parte do roubo. Se em dado momento um “bicho-solto” pede aos seus comandados para só matar para não morrer, mais adiante assassinato será a palavra de ordem para ganhar prestígio. Se um marginal-malandro como Pardalzinho pede pela vida de inocentes e pela não violação das mulheres em certa fase do romance, depois da sua morte Zé Miúdo não pensará duas vezes em matar o avô e estuprar a noiva de Zé Bonito, um “otário” que, frente à injustiça cometida, abraçará a carreira do crime ressuscitando e encarnando, embora não por muito tempo, um dos tipos mais significativos que se inserem na linhagem dos bandidos sociais: o vingador.

Para se transformar no pesadelo de um dos mais cruéis criminosos de Cidade de Deus, Zé Bonito – até então trabalhador honesto, homem pacato, de boa família e conduta – se alia a Sandro Cenoura, traficante da região que disputa com Miúdo a liderança das bocas-de-fumo. Revoltado, irá firmar seu direito de ser respeitado pela luta declarada e se insurgirá para constituir a exceção numa comunidade em que os senhores do tráfico substituem o Estado.

Bonito manuseou a pistola 45 com a agilidade que adquirira no tempo em que servira na brigada de pára-quedistas do exército. (…)/ O volume da arma alertou os amigos:/ – Vai aonde?/ – Vou matar aquele desgraçado!/ – Meu irmão, tu não pode ir lá sozinho não, rapá! O cara é matador! Esquece isso! (…) Tu é um cara pintoso, tem tudo pra se dar bem, não entra numa de bandidagem, não…/ Bonito não dava ouvidos. Percorreu toda a rua do Meio, (…) entrou por duas vielas a passos largos, na terceira diminuiu as passadas, tirou a arma da cintura, engatilhou-a e entrou na viela (…) onde Miúdo costumava ficar. Avistou seu inimigo e mais três quadrilheiros, apontou a arma e atirou seguidamente./ Miúdo riu fino, estridente e rápido e devolveu os tiros (…), os outros dois também atiraram e acompanharam o estuprador, o terceiro tentou trocar tiros com o vingador e foi atingido fatalmente na testa./ Bonito aproximou-se do cadáver (…) colocou o pé esquerdo em cima da cabeça, o direito em cima da barriga e gritou:/ – Esse é o primeiro! Quem quiser seguir esse desgraçado vai ter o mesmo fim desse aqui! (CD, pp. 313-315)

Como todo bandido social, o destemido rival do traficante Zé Miúdo (que também não deve ser condenado nem olhado de esguelha pelo leitor, já que é tão “vítima” da situação quanto seu adversário) ganha o apoio inequívoco de sua comunidade: ferido em combate, será acolhido, tratado e amparado pelo povo do lugar, que o respeita e reverencia não só pela bravura, mas também por se configurar como um restaurador da moralidade que o tráfico apagou. Contudo, esse mesmo justiceiro não demorará a perceber que “Onde os homens se tornam bandidos, a crueldade gera crueldade, o sangue exige sangue”. (HOBSBAWM, 1975, p. 56)

Isto porque, ao pôr em curso o programa de sua “descolonização”, Zé Bonito desencadeou uma verdadeira guerra em Cidade de Deus. Só não imaginava que o desagravo de sua injustiça solaparia os últimos sinais de um banditismo que inicialmente mostrara-se nobre, mas que logo se perderia nas trincheiras do crime. Por várias vezes, Bonito tentará honrar seus princípios, que em vários aspectos se igualam aos que regem a carreira do vingador nobre. Nunca matar, a não ser em legítima defesa ou por vingança justa, será o principal deles. E também o primeiro a tropeçar nas valas abertas pelo tráfico.

A partir daí, o Zé Bonito que, num primeiro instante, estranha as gírias dos marginais, que não usa drogas, que se recusa a concordar com a arregimentação de crianças para o tráfico por acreditar que o lugar delas é na escola, que proíbe a violação de mulheres e que não se esconde da polícia por não se achar um delinqüente se verá obrigado a liberar os estupros e assaltos na área do inimigo e a permitir que crianças tenham seus crânios estourados pelos fuzis dos traficantes que se arriscam a enfrentar. E como se isso não bastasse, consumirá desesperadamente a cocaína que tanto renegou. Entretanto, este bandido social pós-moderno, assim como seus “antepassados”, jamais deixará de lamentar o destino que o levou a compactuar com a instauração daquela “febre de morte” entre os homens.

Sentado num banco, as lágrimas se destroçavam no chão de cimento cru. (…) Era um bandido, um matador, um formador de quadrilha, um desencaminhador de menores. E não fora para isso que aprendera a orar quando criança, não fora para isso que sempre tinha sido o melhor aluno na escola, não fora para isso que se resguardara das amizades de rua. O curso superior em educação física havia ido para a casa do caralho, assim como a lua-de-mel com sua amada, depois de testemunhar o pênis de Miúdo na vagina dela feito retroescavadeira, o corpo do avô ensangüentado, a casa cheia de buracos de balas, a mãe de Filé com Fritas recolhendo os pedaços da cabeça destroçada do filho no asfalto quente. As lágrimas avolumaram-se. (…) A noite foi em claro. (CD, pp. 346-347)

Na reflexão de Bonito, a constatação de que um bandido, mesmo determinado a não dobrar a cerviz, não consegue fugir tão facilmente à lógica da vida numa sociedade minada pela exploração se desnuda violentamente. Depois disso, tendo cumprido, ainda que atropelado pelos percalços do crime, quase toda a sina do vingador clássico, só lhe restava o único fim destinado aos emissários do banditismo social: a morte por traição; já que, a exemplo do que afirma Hobsbawm, nenhum membro decente da comunidade auxiliaria as autoridades – sejam as do tráfico, sejam as do Estado – contra bandoleiros de sua estirpe.

O viciado olhou para trás, para os lados; não vendo ninguém, disparou três vezes nas costas de Bonito, que ainda se virou, apontou o revolver na tentativa de matá-lo. O viciado deu-lhe mais um tiro. Zé Bonito caiu. (CD, p. 375)

Mas a morte de Zé Bonito não legará aos moradores de Cidade de Deus um exemplo de coragem e honra a ser seguido. O tempo do banditismo social que inspira a admiração das massas passou. As páginas nada conciliatórias do romance de Paulo Lins não farão sucessores para este vingador. Elas vieram pelo crime. Para dizer que do ventre dele só nascem “anjos”, aqueles que cada vez mais cedo virão para cobrar da sociedade sua impagável conta.

** Este artigo está publicado em: BOTELHO, Marcos (org). Seis Passeios por Cidade de Deus. Feira de Santana: UEFS, 2007.


Ísis Moraes Ramos é jornalista e editora do Jornal Tribuna Feirense. isis.m.ramos@bol.com.br

Resenha: “Memorial de Aires”, de Machado de Assis


(…) Não é mau este costume de escrever o que se pensa e o que se vê, e dizer isso mesmo quando se não vê nem se pensa nada. (p.66)

Com o preceito fundamental acima, o da democracia e o direito de expôr o que se pensa, vamos à obra, “Memorial de Aires, escrita em forma de diário entre 1888 e 1889, enquanto Machado matava o tempo no barco durante as travessias de Petrópolis, em horas mortas. Ele mesmo explica no prólogo, que nessa época, seu livro de trabalho era “Esaú e Jacó”. Ler Machado é sempre um prazer, uma delícia! Ele é o santo graal das letras brasileiras, único e inimitável, faz o difícil parecer fácil, um mago. Nao é à toa que ele era conhecido como o “bruxo de Cosme Velho”.

A leitura passou massageando as minhas retinas cansadas de ler tantas sandices nestes últimos tempos nas redes sociais. Por certo: #EleNão! Fiz alguns links com o presente, Machado atualíssimo.

“Memorial de Aires” conta as memórias do Conselheiro Aires (ele é o narrador- personagem), um diplomata que retornou do exterior ao Rio de Janeiro há um ano.

Creio que todo imigrante, até mesmo os diplomatas cheios de regalias, facilidades e privilégios, muito diferente das dificuldades do imigrante comum, temem a volta depois de uma estância longa fora de casa. Alguns sentem- se até estrangeiros no próprio país. Não foi o caso do Conselheiro, depois de mais de trinta anos na Europa:

(…) Cuidei que não acabaria de me habituar novamente a esta outra vida de cá. Pois, acabei. Certamente, ainda me lembram coisas* e pessoas de longe, diversões, paisagens, costumes, mas não morro de saudade por nada. Aqui estou, aqui vivo, aqui morrerei. (p.9)

Aires é viúvo, sua esposa faleceu em Viena e ele não a levou para o Brasil,  por algo místico, espiritual, deixou a cargo do destino (p.13):

Os mortos ficam bem onde caem (…)

– Quando eu morrer, irei para onde ela estiver, no outro mundo, e ela virá ao meu encontro.

Você acredita que temos um destino predeterminado ou somos responsáveis por tudo que nos acontece? Uma mistura de ambos? Acredita em outras vidas ou a morte é o fim de tudo?

A irmã de Aires, Rita, o convida para celebrar o seu primeiro ano de retorno… no cemitério! A principal e mais dolorida perda do imigrante: a família. Primeiro a convivênvia, e depois, os entes queridos, de fato. Muitos só podem revê- los dentro de um jazigo. Esse pensamento é horrível, mas é verdadeiro e nenhum imigrante está preparado para ele. No caso do diplomata, perdeu os pais e o cunhado. O futuro é longe demais, parece distante, mas chega.

No cemitério, além das lágrimas de Rita, também há espaço para a fofoca. Típico, qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Há gente que invade espaços pessoais e familiares alheios, inclusive velórios,  só para espiar e confabular contra a vida do outro em seu momento de maior fragilidade. Acredite, há gente ruim assim, dou fé. É fato que há muitos espíritos inferiores pululando ao nosso redor, mas nunca impunes, tenho certeza. Essa irônia machadiana tão certeira e catártica, muito mais sutil que a minha, isso é certo.

Os irmãos espiam uma moça bonita perto de um jazigo e Rita reconhece a mulher que foi casada com um médico, a viúva Noronha, “filha de um fazendeiro da Paraíba do Sul, o Barão de Santa- Pia.” (p.11)

A viúva Noronha, ao contrário de Aires, transportou “os restos” (essa é uma expressão muito espanhola) do marido falecido em Lisboa para o Rio de Janeiro. Machado devia ser um sujeito curioso em pessoa. No texto, ele caçoa do nome da viúva pela boca de Aires: Fidélia. Os irmãos fizeram uma espécie de aposta: Aires disse que a viúva casaria de novo, e Rita, que Fidélia continuaria sozinha. Fidélia vem do adjetico latino “fidelia”= “fidelidade”. O diplomata iria tentar conquistar a senhora, viúva fiel e convicta.

A política separando pessoas desde sempre, na vida real e na ficção; aliás,  literatura é imitação da realidade, portanto, não vou mais fazer distinção, vou embolar tudo mesmo, porque a literatura é vida, e vida é literatura, são a mesma coisa e ponto final. Os autores sempre contam a história de alguém, ainda que essa história seja apenas fruto da sua imaginação.

Voltando à política e ao amor: o romance de Fidélia é bem shakesperiano. Seu pai e marido eram inimigos políticos. O pai de Fidélia a levou para uma fazenda para separá- la de Ricardo e ameaçou expulsá- la de casa se desobedecesse. A moça começou a adoecer, não parava de chorar e não queria comer. A mãe, com medo de alguma “moléstia” (lembrei do professor Ernani Terra, conversamos sobre esta palavra, que na Espanha é utilizada para qualquer espécie de incômodo, mas no Brasil é usada para doenças graves)…então, a mãe, preocupada, começou a intervir, mas o pai continuou firme e disse que a filha poderia até morrer ou ficar doida, mas  que não permitiria a mistura do seu sangue  com os dos Noronha. “Bonzinho” o pai.

A moça realmente ficou gravemente doente. Com a intervenção da mãe, o pai cedeu em parte, mas nunca mais quis ver a filha; e o pai de Ricardo, o filho. O casal ficou junto, mas a felicidade durou pouco com a morte inesperada de Ricardo em Lisboa. Aires é cínico e cruel, chega a questionar se valeu a pena brigar com o pai por um amor tão fugaz, que “se aposentou na morte”.  Nesse momento, já comecei a pegar abuso de Aires.

Não há nada mais tenaz que um bom ódio (p.36)

Mas não posso negar, que Aires tem uma personalidade autêntica, espirituosa, engraçadinha e realista/prática: Quando eu morrer podem vender em particular o pouco que deixo, com abatimento ou sem ele, e a minha pele com o resto; não é nova, não é bela, não é fina, mas sempre dará para algum tambor ou pandeiro rústico. (p.44)

Com todo esse drama, essa paixão quase mortal, será que Fidélia continuará fiel ao seu defunto marido ou cairá na lábia de Aires, que fez uma aposta com a irmã Rita?

Um verso não saía da sua cabeça “I can give not what men call love” (“Eu não posso dar o que os homens chamam de amor”). Há canalhas assim, tanto homens quanto mulheres, que divertem- se machucando o outro com planos premeditados e extremamente daninos. Aires chamou Fidélia de seu “objeto de estudo” e cogitou a ideia de colocar lenha na fogueira e que ela não se reconciliasse com o pai.

Aires vai à festa de bodas de prata do casal Aguiar só para ver Fidélia. Tanto o casal, quanto Aires e Fidélia, não tiveram filhos, tal como Machado e Carolina. Aires nunca os quis ter, ao contrário dos demais.

É chocante ler as palavras “mucama”  e “tronco” (p.32), em “Memorial de Aires”, testemunhando o seu tempo. Aires cita várias vezes a iminente abolição dos escravos  e a possível república. O Rio de Janeiro já foi uma “corte”, só que sem o glamour das cortes europeias, mas igual de cruel.

Que coisa… não me acostumo com a história da escravidão no Brasil e que não tenha sido devidamente reparada até hoje, ao contrário. Mas dá para entender o motivo conhecendo o perfil da metade, pelo menos, da população brasileira, apoiando e aplaudindo um candidato à presidência segregacionista, além de outros tantos qualificativos que vão em contra aos princípios de decência, ética e humanidade. Sei que todos estão cansados da violência e corrupçao, só que um remédio pior que a doença, não é a solução. A via militar é a pior escolha.

Machado, ainda bem, foi bem crítico irônico contra a escravidão e a hipócrita sociedade carioca. Corajoso, não omitiu- se como anda fazendo a nata erudita do Brasil. Machado foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras. A omissão dos bons ajuda a criar monstros. As pessoas começam a pensar mal e errado, sem ter pautas confiáveis, agarram- se a salvadores da pátria. Nosso país é composto por poucos e maus leitores (e feitores). A maioria é leitor de manchetes de meios de procedência duvidosa e fake news.

Voltando ao romance… há um personagem muito citado, “Tristão”, que é afilhado do casal que comemorou as bodas de prata, lembra? Ainda menino, foi morar em Lisboa com os pais a contragosto da madrinha, D. Carmo. Formou- se em Medicina e esqueceu dos padrinhos durante muitos anos, o que os entristeceu bastante. Já doutor, retorna ao Rio. O nome do personagem nos remete à história de “Tristão e Isolda”, uma lenda medieval de um amor trágico. Tristão e Fidélia são os dois filhos “postiços” do casal. Tenho que concordar com Tristão (p.78):

– A gente não esquece nunca a terra em que nasceu, concluiu com um suspiro.

Tenho nacionalidade portuguesa (raízes familiares) e em vias de obter a espanhola (por residência), serei uma mulher multinacional, mas o sentimento de pertencer, sem dúvida, é por minha terra. Aires continua o pensamento do moço, concordo plenamente:

(…) a adoção de uma nacionalidade é ato político, e muita vez pode ser dever humano, que não faz perder o sentimento de origem, nem a memória do berço.

Em um sonho, Fidélia vê o sogro e o pai, já falecidos, reconciliando- se (p.70):

A morte os reconciliara para nunca mais se desunirem: reconheciam agora que toda a hostilidade não vale nada, nem a política nem outra qualquer.

Pois é…essa briga política no Brasil, que já chegou a extremos com falecidos e feridos, tem que acabar. Não vale a pena, é preciso bom senso e respeito, mesmo que a opinião alheia nos machuque. É um principío básico da civilidade e da democracia, o diálogo, violência nunca!

Lá pela página 80, já ansiosa para ver se o romance entre o idoso Aires e a jovem viúva iria acontecer, se ele seria o alcoviteiro de Fidélia e Tristão, ou se iria acontecer um triângulo amoroso, ele brinca com o leitor dizendo que está com os olhos cansados, que “velhice quer descanso” e  diz que pensa parar de escrever o diário. Mas, claro, continuou.

Amigos e amigas, não esqueçam que Machado era um escritor realista. Só vou dizer que o final é feliz e triste, como a vida mesmo.

Abaixo, a edição portuguesa lida:

img_8964

Assis, Machado de. Memorial de Aires, Cotovia, Lisboa, 2003. Páginas: 177

* Fiz algumas adaptações à nova ortografia, exemplo “cousa= coisa”.


Machado cita autores e livros ( e música, Wagner). Anota, são dicas de leitura do grande mestre: “Fausto”, de Goethe; “Romeu e Julieta”, de Shakespeare; Percy Shelley, poeta, marido de Mary Shelley, de Frankstein e William Thackeray, escritor inglês, de “Vanity Fair” e outras tantas obras famosas. Podíamos aqui fazer uma maratona “Thackeray”, quem se interessar me escreve, que a gente encontra uma forma, meu Instagram: @falandofernanda

Até a próxima!

 

“A morte do leiteiro”, de Carlos Drummond de Andrade


  Morte do Leiteiro (Carlos Drummond de Andrade)

Há pouco leite no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há muita sede no país,
é preciso entregá-lo cedo.
Há no país uma legenda,
que ladrão se mata com tiro.

Então o moço que é leiteiro
de madrugada com sua lata
sai correndo e distribuindo
leite bom para gente ruim.
Sua lata, suas garrafas
e seus sapatos de borracha

vão dizendo aos homens no sono
que alguém acordou cedinho
e veio do último subúrbio
trazer o leite mais frio
e mais alvo da melhor vaca
para todos criarem força
na luta brava da cidade.

Na mão a garrafa branca
não tem tempo de dizer
as coisas que lhe atribuo
nem o moço leiteiro ignaro,
morador na Rua Namur,
empregado no entreposto,
com 21 anos de idade,
sabe lá o que seja impulso
de humana compreensão.
E já que tem pressa, o corpo
vai deixando à beira das casas
uma apenas mercadoria.

E como a porta dos fundos
também escondesse gente
que aspira ao pouco de leite
disponível em nosso tempo,
avancemos por esse beco,
peguemos o corredor,
depositemos o litro…
Sem fazer barulho, é claro,
que barulho nada resolve.

Meu leiteiro tão sutil
de passo maneiro e leve,
antes desliza que marcha.
É certo que algum rumor
sempre se faz: passo errado,
vaso de flor no caminho,
cão latindo por princípio,
ou um gato quizilento.
E há sempre um senhor que acorda,
resmunga e torna a dormir.

Mas este acordou em pânico
(ladrões infestam o bairro),
não quis saber de mais nada.
O revólver da gaveta
saltou para sua mão.
Ladrão? se pega com tiro.
Os tiros na madrugada
liquidaram meu leiteiro.
Se era noivo, se era virgem,
se era alegre, se era bom,
não sei,
é tarde para saber.

Mas o homem perdeu o sono
de todo, e foge pra rua.
Meu Deus, matei um inocente.
Bala que mata gatuno
também serve pra furtar
a vida de nosso irmão.
Quem quiser que chame médico,
polícia não bota a mão
neste filho de meu pai.
Está salva a propriedade.
A noite geral prossegue,  a manhã custa a chegar,
mas o leiteiro
estatelado, ao relento,
perdeu a pressa que tinha.

Da garrafa estilhaçada,
no ladrilho já sereno
escorre uma coisa espessa
que é leite, sangue… não sei.
Por entre objetos confusos,
mal redimidos da noite,
duas cores se procuram,
suavemente se tocam,
amorosamente se enlaçam,
formando um terceiro tom
a que chamamos aurora.

(in: “A rosa do povo”, 1945)

Dez anos e um adeus


Parece que tudo secou, todas as velhas vontades, os antigos suspiros e desejos. As coisas boas e ruins, ainda bem, um dia acabam. O fim é o destino de tudo. É preciso reinventar- se, destruir para reconstruir.

As palavras fogem esbaforidas de mim, chegaram ao fim da linha e vão caindo no despenhadeiro do fim da página. Estão todas aqui brigando, empurrando- se, procurando os seus lugares, só que já não sinto mais vontade de ajudá- las, de colocá- las nos seus devidos lugares ao sol. Elas são frágeis e eu também; se não podem ser livres, melhor não ser. Ser, eis a questão.

Vamos continuar em algum lugar, em algum caderno ou livro fechado, até que algum dia alguém nos venha, quem sabe, despertar. Até então, a palavra e eu, nos conjugamos e nos bastamos.

Agradeço a quem fez parte disto durante (longos) dez anos.

A gente vai se reencontrar algum dia. Sejam felizes…

Fernanda Sampaio Carneiro

Este slideshow necessita de JavaScript.

Congresso literário na Espanha contará com a presença de Nélida Piñón e Domício Proença


O I Congresso Internacional de Literatura Brasileira em Salamanca, na Espanha, contará com a presença de dois imortais brasileiros: Nélida Piñón e Domício Proença, ambos já foram presidentes da Academia Brasileira de Letras, o atual é Marco Lucchesi. Esse primeiro congresso literário dedicado à nossa literatura, homenageia à Nélida Piñón, as linhas de pesquisa estão voltadas para a sua obra.

Nélida Piñón é filha de espanhóis e tem uma ligação forte com o país de Cervantes. Ela é a autora brasileira mais lida e reconhecida no país, inclusive ganhou o prêmio “Príncipe de Asturias” (2005), além de ser a melhor escritora do Brasil, na minha opinião. Ah, e não deixem de ler “A república dos sonhos”, uma obra- prima!

E quem já não estudou com algum livro de Domício Proença Filho?! O autor tem livros didáticos, de poesia, ensaios, contos, já escreveu para cinema e televisão.

Vamos aos dados importantes:

O Congresso acontecerá nos dias 12, 13 e 14 de novembro de 2018, em Salamanca.

Quem quiser apresentar uma comunicação, pode enviar a proposta até o dia 3 de setembro, um resumo com até 120 palavras ao e-mail: literaturabrasileira@usal.es, em espanhol ou português. O custo é de 80 euros para comunicantes e 60 euros para estudantes.

Para todas as demais informações e dúvidas, não duvide em escrever para Esther, que vai te ajudar com tudo o que precisar. Clica aqui.

Francisco Brennand, o Gaudí brasileiro


Pesquisando para o post sobre o Parque dos Poetas em Portugal, descobri o artista pernambucano Francisco Brennand e fiquei completamente fascinada. Descobri que existe uma semelhança de estilo com o Gaudí catalão (pelo menos eu acho!), o que criou a Sagrada Família em Barcelona. Os brasileiros cruzam o Atlântico para conhecer as obras de Gaudí, o que está muito bem, mas não se esforçam para conhecer a prata da casa. Estou errada?!

Lembro que aprendi na escola a fazer uma caixinha com palitos de picolé. Artesanato é legal, mas a teoria e história da Arte são muito importantes. Artistas brasileiros dessa grandeza deveriam ser matéria obrigatória na escola.

Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand nasceu a 11 de junho de 1927, na cidade do Recife, capital do Estado de Pernambuco, tem  91 anos (a biografia completa você pode ler no site do artista, aqui).

Agradeço à Revista Isto É, que deixou a reportagem aberta (de 2016), porque outros jornais só permitem o acesso aos assinantes. A foto também é da Isto É, entrevista de Celso Masson:

cult-03-ie.jpg

Brennand nunca se considerou um escultor, uma vez que não esculpe e sim molda peças no barro. “Eu aprendi por tabela, com os artesãos e especialistas em porcelana vindos da Europa e dos Estados Unidos para trabalhar com meu pai. Sou um artista que soube tirar proveito do conhecimento não só familiar como também dos estrangeiros que andaram por aqui”, afirma. “À medida que eu estudava a origem dessas terras, onde se inscreve a Batalha de Guararapes, pude compreender que esse lugar deveria ser eternizado. Aqui há uma história a glorificar. Tem a dimensão do sagrado”.

O ateliê de Brennand fica no subúrbio de Recife e é possível visitar. É um museu, na verdade, um lugar incrível. O artista criou um mundo mágico, excepcional.

Abaixo as fotos do “templo” que Brennand criou em Oeiras, no Parque dos Poetas, em Portugal:

Não deixem de conhecer e pesquisar sobre esse artista brasileiro incrível!