“A expulsão do diferente”, do filósofo Byung- Chul Han


O filósofo sul-coreano Byung- Chul Han (Seul, 1959), foi um grato descobrimento. O autor fala sobre problemas dos nossos dias e eu acabei fazendo uma reflexão sobre alguns deles. Ele começa dizendo em “La expulsión de lo distinto” (“A expulsão do diferente”), que “o corpo social” está doente.

A padronização de condutas e comportamentos está orquestrada para eliminar os diferentes, porque o diferente não convém ao sistema. A proliferação do igual está provocando patologias, porque a essência humana é heterogênea.

A doença social é gerada por um excesso de informação e um excesso de permissividade, curiosamente.  Mas não é o que vem de fora o nosso principal algoz. Segundo o autor, não é a proibição ou a repressão o motivo da depressão nos tempos atuais: a pressão não vem do outro, vem do interior. Ou seja, o pior inimigo do sujeito é ele próprio:

A depressão como pressão interna desenvolve traços autoagressivos. O sujeito que, sentindo- se obrigado a mostrar rendimento, torna- se depressivo em certa maneira e se mói a pauladas ou se asfixia a si mesmo. (p.10)

Vou mostrar algo mais prático: existe uma expressão em inglês para o fato de assistir séries sem parar, “binge watching”. É o consumo de vídeos e filmes sem limite temporal. Há pessoas que assistem uma série inteira em um fim de semana. É como se a pessoa entrasse “em coma”, segundo o filósofo. A pessoa fica indefesa.  Isso é o “excesso do igual”. Todo mundo faz, parece legal, então você faz também.

Outro exemplo que o autor dá: as viagens. A maioria das pessoas viaja só para subir fotos nas redes sociais e para contabilizar países visitados. É como se viajasse sem viajar, porque a maioria não adquire nenhum conhecimento.

E ele fala das redes sociais, que é o meio mais anti- social que existe. Engraçado que eu comentei recentemente exatamente este fato com três amigas. O autor diz que “os meios sociais representam um grau nulo do social”.

No Brasil, poucos se expõem no Facebook, por exemplo, por medo de serem julgadas, por medo de que algo dito seja usado contra elas, por medo de serem prejudicadas profissionalmente, por medo de discussões…resumindo: por medo. Por medo de serem quem são e desagradar. “O que eu ganho com isso?!”, ainda que percam a si mesmos, porque agradar o outro é mais importante. É um padrão comportamental nas redes e na vida. Há algo de superstição também, pode “dar azar” ou atrair inveja, olho gordo, essas coisas. Negar o diferente é essencial. Fazer parte da corrente e encaixar é o que importa, ainda que o pé seja 38 e o sapato um 35.

As pessoas se reprimem e ficam doentes. A expressão é uma das funções básicas e primárias do ser humano. Ser humano baú fica pesado e sufocado. O que o outro pensa importa tanto assim? Claro. A aprovação alheia, a popularidade, o sentir- se querido, a imagem projetada, ainda que irreal (e surreal muitas vezes) é o que motiva as pessoas à padronização. Essas pessoas negam o diferente, e a essência disto é a dor (leia na página 12).

Vivemos na era da contradição. Com tanta informação e redes sociais, mas estamos cada vez mais mudos e sozinhos. Falar virou tabu. O silêncio está sobrevalorizado.

A qualidade da informação que nos é fornecida também é questionada pelo autor. Não há causa e efeito, “é assim e pronto”. As pessoas estão saturadas, nem se dão o trabalho de averiguar a causa e efeito das coisas, por isso é tão fácil eleger um presidente inepto através de redes sociais, porque os algoritmos estão feitos para encontrar pessoas que pensam igual, com os mesmos interesses, uma espécie de auto- doutrinação, já que só chega até a pessoa “notícias” que lhes são afins, como se fossem verdades únicas e incontestáveis. Os macro- dados correlacionam tudo e fazem supérfluo o pensamento.

Eu amo a Filosofia, porque é o ramo que melhor nos explica.

O pensamento tem acesso ao completamente diferente. Pode interromper o igual (p.13).

Por isso, pense, por favor. Não seja só leitor de manchetes. Abra os links, leia a notícia, preste atenção no autor, para quem ele trabalha e na intencionalidade do texto. Observe o outro e o porquê dele pensar como pensa. Se forem pensamentos destrutivos a si mesmo e aos demais, só a palavra pode salvar. A omissão vem destruindo e matando. Nós podemos romper essa cadeia de pensamento vicioso, circular, destrutivo, de que o outro é inimigo. Não é. Essa semente do mal foi plantada e vem sendo cultivada para dividir. O outro é projeção do que você tem dentro.

O autor cita Heiddeger, o filósofo alemão, que diria hoje sobre esse barulho todo das redes sociais, que “nos converte em surdos diante da verdade e para o seu silencioso poder violento (p.14). Surdos e mudos, digo eu.

Ele fala do hiperconsumo, da hipercomunicação, da hipervisibilidade, da hiperprodução do corpo como objeto funcional e culpa o neoliberalismo, as pessoas têm que render, são só números para este sistema econômico feito para hiperfaturar.

Esse universo neoliberal, que pode ser um pesadelo, foi retratado no filme “Anomalisa”, dica do autor. O neoliberalismo padroniza, nos quer transformar a todos em iguais. O protagonista, Michael Stone, dá palestras de motivação empresarial com muito sucesso, escreveu um livro, mas deprime- se, deixa de ver sentido em tudo. Ele ouve vozes iguais e rostos iguais. Não consegue distinguir adultos de crianças. É como se fosse uma sociedade de clones. Ele viaja para uma palestra e encontra uma mulher diferente, Lisa. Ele é a única que tem a voz diferente, considera- se feia, está acima do peso e tem uma cicatriz no rosto. Está fora dos padrões. Ele apaixona- se por ela. É a única diferente. Esse filme é interessantíssimo. Em japonês, “anomalisa” significa a “deusa do céu”. Ela, que parecia “anormal”, foi a salvação do palestrante, que antes era um fantoche controlado à distância.

Creio que se não formos nós mesmos, seja na vida diária ou nas redes sociais, não somos nada. Quando deixamos de pensar e de nos expressar por medo do que pensem sobre nós e para atender os esquemas pré- determinados, que beneficiam só aos próprios, estamos mortos e enterrados em vida. Perfeito para o poder: uma legião de zumbis.

O filósofo aponta coisas interessantíssimas sobre as consequências negativas que o neoliberalismo provoca nas pessoas. Esse sistema incita a que as pessoas sejam autênticas e criativas. A princípio isso parece muito bom, não é? E deveria ser, mas o que fazem com isso é que é ruim. Nos “ensinam” que devemos ser criativos, inovadores, empreendedores, sermos livres dos esquemas e criarmos a nós mesmos.

Você estudou, virou adulto, e só pensa em si, no seu umbigo, questionando- se e vigiando- se o tempo todo, tornou- se um narcisista, nunca foi programado para pensar na coletividade. Isso é que o neoliberalismo no Brasil fez com gerações e gerações: obrigou que cada brasileiro fosse produtor de si mesmo. Isso gerou uma pressão interior tremenda e as patologias psicológicas que meio Brasil sente. “Eu sou mercadoria, sou autêntico, preparado, e se ninguém me compra? Não valho nada!”.

Entendeu?

Para entender mais, porque tem MUITO mais, leia esta brilhante obra. O autor correlaciona padrões sociais super- destrutivos dissimulados no tecido social e que explicam comportamentos suicidas, depressivos e terroristas.

Não se engane: nada é por acaso. Tudo, absolutamente tudo na vida, é causa e efeito.

 

 

Esta foi a edição lida
Anúncios

Resenha: “A cidade Sitiada”, de Clarice Lispector


Perder- se também é caminho (p.138)

Na minha conversa diária com os escritores através de suas vivas literaturas, é onde encontro respostas para as minhas diversas inquietações. Há mais diálogo produtivo e interessante com os mortos, do que com os vivos.

Estado de sítio, segundo a Constituição do Brasil:

Art. 137 – O Presidente da República pode, ouvidos o Conselho da República e o Conselho de Defesa Nacional, solicitar ao Congresso Nacional autorização para decretar o estado de sítio nos casos de:

I – comoção grave de repercussão nacional ou ocorrência de fatos que comprovem a ineficácia de medida tomada durante o estado de defesa;

II – declaração de estado de guerra ou resposta à agressão armada estrangeira.

Parágrafo único. O Presidente da República, ao solicitar autorização para decretar o estado de sítio ou sua prorrogação, relatará os motivos determinantes do pedido, devendo o Congresso Nacional decidir por maioria absoluta.


O terceiro romance de Clarice Lispector, “A cidade sitiada” (1949),  “é considerado por muitos o melhor romance de Clarice”, segundo o editor. É uma obra fascinante!

Este é bem diferente dos romances “A paixão segundo G.H.” ou “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres” (meus preferidos), que são uma imersão profunda na alma dos personagens, são romances psicológicos, um espaço atemporal, muito característicos da autora. Em “A cidade sitiada”,  a temática é político- social vista pelo lado do proletariado, primeiro, e depois visto pelo lado emergente.

Na minha procura por dados históricos deste período, constatei que existe muita literatura escrita pelos filhotes da ditadura, muita obra maquiada, desconfie de todas, prestem atenção em quem as escreve.

A autora usou uma técnica interessante que, a priori, pensei que iria aborrecer esta leitora: a descrição. É como se ela tivesse uma fotografia ou um quadro na sua frente.

A  voz narrativa não julga muito os personagens, é objetiva, mas com o desenrolar da história vamos conhecendo o interior da personagem principal, Lucrécia Neves. E existe, na própria obra, até uma justificação para o livro ter sido escrito assim, a precisão:

História que poderia ser vista de modos tão diversos que a melhor maneira de não errar seria a de apenas enumerar os passos da moça e vê- la agindo assim como se apenas se diria: cidade. (p.72)

O título resume a essência da obra, “A cidade sitiada”. O estado de sítio acontece em ditaduras e guerras, uma medida excepcional, onde as forças armadas estão a postos para reprimir a democracia, como aconteceu no Brasil em várias ocasiões, o militarismo no Brasil sempre fracassou e sucumbiu o país num caos social, político e financeiro, além da democracia. A população das periferias vive esse estado muito cotidianamente e quebrar essa barreira é para muito poucos.

O prólogo do livro situa a história em 1920, época do Tenentismo, do golpe militar seguido da Era Getúlio Vargas (1930-1945). Sempre foram os comunistas, “os vermelhos” temidos pelos fascistas, que iam para a linha de frente lutar pela classe trabalhadora, pelos direitos trabalhistas e pela liberdade. O brasileiro é um ingrato.

Esse ditador, o Getúlio (que deveria ter seu nome retirado de instituições, escolas e afins, a apologia à fascistas fez muito mal ao Brasil) comungava com os nazistas / fascistas europeus Mussolini e Hitler. O seu lema, “o perigo vermelho”, incitava o ódio aos comunistas/socialistas, havia censura, repressão e violência. O sujeito acalmou as massas instituindo um salário mínimo (miserável, que contentou os empresários) e a jornada de trabalho de oito horas por dia. “Tudo pelo progresso”. Ele queria a modernidade que o pobre não tinha acesso, com mão -de -obra baratíssima.

Assim é o momento histórico da escritura do livro, o pós- ditadura de Vargas, a obra retrata o estado de sítio que viveu o Brasil em dois momentos antes da publicação deste livro, em 1930 e 1935; em 35, durou um ano inteiro. A obra, visto do lado da periferia transpira militarismo, uma atmosfera tensa, de medo:

Seu modo de ver era tosco, rouco, recortado: os soldados! (p.35)

Passara o perigo. Era noite. (p.41)

-A pancada súbita do casco! (p.51)

Lá estava a cidade. (…)
Se ao menos a moça estivesse fora de seus muros.
Mas näo havia como sitiá- la. Lucrécia Neves estava dentro da
cidade. (p.52)

O romance é ambientado no subúrbio carioca de São Geraldo, um lugar bem precário, sujo, insalubre, cheio de animais peçonhentos e esgoto.  A protagonista é Lucrécia Neves, uma jovem que sonha melhorar de vida, casar e sair desse buraco.

Ana é a mãe de Lucrécia. A página abaixo diz coisas importantes, Lucrécia pode ser comunista. Observe, “mais uma vez ela voltara ferida”. Ou ela volta arrebentada depois de recusar o beijo do militar Felipe, que, humilhado, se vingou?  “Os cabelos escondiam metade da cara ferida”:

Só como curiosidade: preste atenção no primeiro parágrafo da imagem acima, que fala de “cravos boiando nos esgotos”.  Nessa época, o meio de transporte era o cavalo, também usado pelo Exército. Cravo sinônimo de prego e não de flor. Os ferreiros batiam na ferradura primeiro, antes de martelar o casco para assustar menos o cavalo. Esse é o sentido literal, e tem uma expressão figurada, um provérbio português: “Uma no cravo, outra na ferradura”, que significa fazer algo bom e em seguida algo ruim, similar ao “morde e assopra”:

Será Lucrécia uma espiã ou só observadora consciente da vida?

Espiando. Porque alguma coisa não existiria senão sob intensa atenção. (p.74)

Lucrécia vivia numa casa lúgubre e sua mãe quase não saía. A moça fazia uma espécie de vigilia, assustava- se com o bater dos cascos dos cavalos dos militares. Andava sempre sobressaltada. Numa noite, chegou um homem para entregar “carvão”. É como se o tempo todo ela temesse que os militares viessem prendê- la. Tudo é escrito em forma de códigos e enigmas:

Os cavalos de Napoleão estremeciam impacientes. Napoleão sobre o cavalo de Napoleão estava parado de perfil. Olhava para a frente no escuro. Atrás a tropa em silêncio.

Mas não amanhecia. Eles esperavam a noite toda. (p.64)

Não é uma leitura fácil. A impressão que fica é que Clarice escreveu para não ser entendida, mas sentida. É necessário muito conhecimento prévio para entender este livro, o que é um desafio delicioso. Este livro não se trata de uma “moça pobre que quer casar”, isto é secundário. Ele trata sobre fascimo no Brasil que destruía as pessoas dos subúrbios. Elas viviam massacradas e sem esperança.

Clarice não era do proletariado, ela era esposa de um cônsul, morou em vários países, mas era amiga de comunistas. Será que Clarice falou de si mesma? Será que sofreu este dilema?

Também Lucrécia Neves se esforçava para se exteriorizar, sem saber se devia se dirigir à esquerda ou à direita. De súbito acordou.

A moça paquerou Perseu Maria, apaixonado por ela, mas pobre e o Tenente Felipe, o que lhe proporcionava segurança para andar nas ruas e o que poderia ser um marido que lhe tiraria do seu bairro imundo, mas ele não queria casar. Felipe a humilhou devido à sua condição social pela recusa de seu beijo, só quis se “aproveitar” da moça. Depois ela apareceu com a cara quebrada.

Lucrécia acabou cedendo ao mais fácil: casou com Mateus, um advogado muito mais velho que ela. Cansou da luta, entregou- se. Foi morar na capital, mas não se acostumou, quis voltar para S. Geraldo, que se transfigurava dia a dia. Os cavalos foram dando lugar às máquinas e bondes, restaurantes e cinemas. O passado começou a ser demolido sem nenhum critério ou piedade, “tudo pelo progresso”.

Lucrécia acostumou- se com a vida de classe média alta. É rica. O dinheiro dá a falsa impressão de que as pessoas podem ser tudo o que quiserem. Lucrécia agora tem empregada e as manda embora por qualquer pretexto, até por “um queijo desaparecido” (p.110).

Ela, que não casou por amor, o encontrou pelo caminho. O doutor Lucas  inesperadamente apareceu para quebrar o esquema da sua vida “perfeita”.

Mateus faleceu e a viúva alegre não demorou muito em se animar e pensar em um segundo marido. O pensamento arraigado, machista e  muito brasileiro, de que as mulheres só podem ser felizes com um homem ao lado.

Clarice tomou partido publicamente. A foto abaixo é de 1968, em uma manifestação contra os militares, ao lado do pintor Carlos Scliar e o arquiteto Oscar Niemeyer (foto: Editora Rocco):

44841932_1472144619554557_1749955472380657664_n.jpg

Havia muitas obras no bairro de S. Gonçalo. Os militares prometiam progresso. Os fios, edifícios, usinas, avenidas começavam a aparecer da noite para o dia diante dos olhos incrédulos dos moradores, que nem luz tinham em casa. Trabalhadores que construíam o “progresso” com as próprias mãos, mas que não tinham acesso a ele.

Alguma coincidência com a realidade? Os militares melhoraram a vida de quem mesmo?

img_3867Lispector, Clarice. A cidade sitiada, Relógio D’água, Lisboa, 2009. Páginas: 147 páginas


Há que se respeitar mais os escritores. Principalmente os grandes. Você pode fazer isso, lendo- os, o que serve como antídoto contra a burrice. Os clássicos têm uma situação complicada. Como estäo sacramentados, contraditoriamente, são menos lidos. É como se tudo já tivesse sido dito sobre eles. Não. A opinião do outro não sacramenta nada (mesmo que seja especialista), é só uma opinião e muitas vezes nem é certa. Li prólogos e resumos absurdos sobre este livro. Gente que passou muito longe da essência dessa obra “uma jovem cansada do subúrbio e que queria casar”, dizer isso é muito simplista, a obra é muito mais profunda e retrata vários motivos do Brasil ser como é, tão desigual.

Leia, sinta, comprove você mesmo, investigue, pense, duvide de tudo que te contarem. Abra caminhos novos.

Amigos e amigas, amanhã será um dia muito importante na história brasileira. É incrível que nesses últimos dias eu tenha tentado convencer pessoas a não votar num fascista. É surreal! Pelo menos quem lê e sabe interpretar textos e o passado, não deveria ter caído nessa.

Deixo aqui um link “Resistir é preciso”, um documentário sobre pessoas torturadas no golpe de 64. Um deles é meu tio. Sabe qual foi o “crime” dele? Ser presidente de uma associação de estudantes. Ele foi preso e torturado no porão de um quartel que hoje funciona como o “Palácio do Menor”, na cidade de Feira de Santana.

O nosso voto sempre tem que ser pela democracia e pela liberdade de expressão, o contrário disso é a barbárie. Temos que evoluir e não regredir!

Uma resenha e algo mais: “O mal- estar global”, de Noam Chomsky


Já ouviu falar do “efeito borboleta”? Esse efeito faz parte da “teoria do caos” do metereologista e filósofo americano Edward Lorenz. O mundo está ligado em todos os seus aspectos, é como se tivesse um fio elétrico invisível interligando tudo. Lorenz diz que, por exemplo, se uma borboleta bater as asas no Brasil, isso pode provocar um tufão no Japão. Ler Chomsky nos aproxima dessa teoria mostrando que somos responsáveis pelo mal- estar no mundo atual.

O americano Noam Chomsky (Filadélfia, 1928) é o “pai da linguística moderna”, também é filósofo e ativista de esquerda. Esta obra, El malestar global, conversaciones con David Barsamian sobre las crecientes amenazas a la democracia, recém editada na Espanha, reúne doze entrevistas de Chomsky com suas preocupações da atualidade: o aquecimento global, o armamento nuclear, o ascenso do terrorismo islâmico, os conflitos no Oriente Médio, o mal- estar social provocado pelas políticas econômicas, a desigualdade social e Donald Trump. Também conta sobre a sua infância em Nova York e  a relevância de uma livraria de livros usados para a sua formação. David Barsamian é o radialista americano de origem armênia que o entrevistou.

A intenção de Chomsky com essas entrevistas é chamar a nossa atenção, pois precisamos fazer uma mudança radical no nosso modo de vida, na forma como nos relacionamos com o outro e mudar os nossos hábitos de consumo. Nós criamos problemas que não estamos conseguindo solucionar. Falo no plural, já que, em maior ou menor grau, todos nós temos a culpa.

Na entrevista número nove (p.127),  com o título de “À uma sociedade melhor” (Cambridge, Massachussets, 11/03/2016), Chomsky fala da América do Sul, da Venezuela e do seu fracasso, uma mistura de corrupção e incompetência, e especificamente do Brasil, foco desta resenha. No próximo domingo o Brasil terá, possivelmente, a sua eleição mais complicada, já que, tudo indica (salvo aconteça alguma surpresa), a maioria dos eleitores preferem um candidato com ideias fascistas e totalmente imorais. E por que eles preferem isso?

(…) Se não abordarmos as raízes do problema, surgirá algo pior que as mesmas causas. (p.115)

Corrupção e incompetência são problemas comuns em toda a América Latina de um modo geral. Veja como o autor compara o Brasil com os Estados Unidos. O primeiro estancou no subdesenvolvimento e o segundo é um dos mais ricos do mundo (p.129):

Trata- se de uma região muito rica, com países que deveriam ser prósperos e desenvolvidos. Faz um século considerava- se o Brasil “o colosso do sul”, em analogia com o colosso do norte.

Chomsky diz que o Brasil näo desenvolveu- se por causa de uma principal razão interna (p.129):

É comum tratar- se de países dominados por pequenas elites europeizadas, maioritariamente brancas, muito poderosas e vinculadas economicamente e culturalmente ao Ocidente. Ditas elites não assumem a responsabilide de seus próprios países, o que conduz a uma opressão e uma pobreza assustadoras. Aconteceram tentativas de romper esta pauta, mas foram esmagados.

E continua (p. 129/130):

No entanto, durante os últimos quinze anos vários países- Brasil, Venezuela, Bolívia, Equador, Uruguai e Argentina, tentaram abordar o estes problemas em que se denominou “guinada à esquerda” (em espanhol, “marea rosa”), com resultados diferentes. Quando se alcança algo de poder, acontece uma enorme tentação de colocar  a mão na caixa e viver como as elites, algo que minou a esquerda várias vezes. A Venezuela é um exemplo que serve de paradigma. O Brasil, outro. O Partido do Trabalhadores teve uma excelente oportunidade de mudar não só o Brasil, como toda a América Latina. Conseguiu algumas coisas, mas perdeu outras.

No período do Lula (p. 130):

(…) o Brasil, em muitos aspectos, era um dos países mais respeitados do mundo. O próprio Lula era muito respeitado, também por mim, tenho que dizer. Creio que é um líder mundial muito honroso. Sorpreenderam- me as acusações de corrupção e desconfio um pouco delas. Desconheço até que ponto é um golpe de Estado da direita e até que ponto se trata de algo real. As acusações que se fizeram públicas não são muito convincentes. De modo que esperaremos para ver o que acontece. Não creio que por agora tenham esclarecido os fatos. Mas é certo que a corrupção era muito grave.

Tal como Chomsky, eu creio que a prisão de Lula foi bastante duvidosa. E já minha opinião: foi orquestada para tirá- lo dessas eleições, pois seria um claro vencedor. Se o Brasil fosse um país sério, Lula, possivelmente, estaria livre. Nunca vi a “Justiça” brasileira trabalhar tão rápido, alguém já?

Ninguém compactua com a corrupção do PT, somos conscientes que muitos membros do partido erraram. Mas, foram punidos, inclusive alguns até mais da conta.

Pense bem em quem você vai dar carta branca governar o nosso país, no domingo (21/10), eleição de segundo turno no Brasil. As duas opções são:

  • Fernando Haddad, um professor universitário socialista, advogado, já foi Ministro da Educação, prefeito de São Paulo e tem experiência suficiente para assumir a administraçäo do Brasil. Casado há trinta anos, ficha limpa, respeita todas as pessoas e quer proteger a parte mais frágil da sociedade. Com um excelente plano de governo (já determinado e que podemos cobrar depois), com foco na Educação e Trabalho, e ainda a extinçäo da pobreza, também com a isenção de impostos para quem ganha até cinco salários mínimos. Progressista e com uma vice  jovem e gente finíssima, Manuela D’ávila. Teve o seu curto tempo de campanha infestado de fake news,  notícias falsas comprovadas e proibidas pelo TSE. Quer manter as empresas e o funcionalismo público. É contra a legalização de porte de armas e quer delegar mais tarefas à Polícia Federal, pretende coordenar todas as polícias para combater as redes criminosas em todo o Brasil (como funciona na Europa), #Haddad13 ou…
  • …um ex- militar expulso do Exército por “indisciplina” (algo mais que isso), parlamentar há 29 anos, deputado irrelevante em uma das cidades mais violentas do Brasil, o Rio de Janeiro, mas nunca fez nada. Prega a “moral e bons costumes”, mas faz justamente o contrário. Escondeu patrimônio, trocou a esposa de quarenta por duas de vinte, as conheceu no seu ambiente de trabalho (uma delas fugiu para o exterior ameaçada, segundo declararam amigos da mesma na Europa). Pretende vender o Brasil ( por isso o mercado financeiro aquece quando ele sobe nas pesquisas, os especuladores doidos para comprar nosso patrimônio público a preço de banana). Quer liberar armas para a população, inclusive para crianças, disse que os filhos começaram a atirar com cinco anos. Foge de debates, justificando problemas de saúde, mas faz lives diárias na internet, por horas, sem nenhum problema. O seu “plano de governo” é inexistente, obscuro e indefinido. O pouco que sabemos, como dar aulas virtuais para crianças, ao invés de irem para escola, é, no mínimo, patético. Sem esquecer dos ataques fascistas às minorias, da incitação à violência e ainda o seu vice, que é um sujeito para lá de inadequado e incompetente como o próprio. Segundo este artigo (com documentos), o candidato da ultradireita (assim denominado por toda a comunidade internacional) planejou um ataque terrorista em 1986, na cidade do Rio de Janeiro, quando era capitäo do Exército:

Também planejou ações terroristas. Iria explodir bombas em quartéis do Exército e outros locais do Rio de Janeiro, como na principal adutora de água da capital fluminense, para demonstrar insatisfação sobre índice de reajuste salarial do Exército.

Surpreendementemente, foi absolvido. O motivo da ameaça terrorista foi pelos baixos salários do Exército. Parece que virou herói entre os seus. Esse, sujeito que idolatra torturadores.

Ah, e um mentiroso, disse que não gastava dinheiro com sua campanha, mas foi financiado por empresas, que desembolsaram DOZE milhões de reais para mandar mensagens falsas no WhatsApp: https://www1.folha.uol.com.br/poder/2018/10/empresarios-bancam-campanha-contra-o-pt-pelo-whatsapp.shtml

Para mim parece bastante fácil a escolha, mas como o Brasil passa por uma profunda crise de valores, então os prognósticos são péssimos, fato que anda me provocando um profundo mal- estar.

Chomsky, Noan. Malestar global- conversaciones con David Barsamian sobre las crecientes amenazas a la democracia. Ensayo Sexto Piso, Madrid, 2018. Tradutora Magdalena Palmer. Páginas: 199


Por que o Falando em Literatura existe?


No início do ano fui convidada pelo produtor do programa “Trilha de Letras” da TV Brasil para divulgar o Falando em Literatura.

Mandei um vídeo, envergonhada, avisando sobre a minha incapacidade de produzir vídeos legais e que o dispensassem se não servisse. Não entrou no ar até agora e acho que não vai entrar, porque é muito ruim mesmo…hahaha! Então, posto aqui pra vocês o meu fracasso como videomaker.

Vídeo no Falando em Literatura

Ah, aproveita e se inscreva no canal 🙂

Resenha: “Ciranda de pedra”, de Lygia Fagundes Telles


Tenho uma leve lembrança da novela “Ciranda de Pedra”, que passou na minha infância (1981), mas nada significativo em relação ao enredo, só lembro do rosto de Lucélia Santos; portanto, essa obra era como uma desconhecida para mim. Sei que a novela da Globo foi um tremendo sucesso, foi reprisada e ganhou um remake em 2008. De novela eu não entendo, não as vejo desde 2004, época da minha expatriação “definitiva”. Quem entende do assunto é a minha amiga Alana Freitas, vejam lá o “Entretelas”, blog especializadíssimo nessa arte de massas. Em tempo: a adaptação de “Ciranda de Pedra” (a de 2008) também foi vista em Portugal.

A história começa com uma menina revoltada, triste, deprimida, que chora junto à Luciana, a empregada mulata, que cuida de toda a família. Esta obra foi escrita em 1954 e nota- se a opressão e preconceito que os negros sofriam. A cor estava associada à feiura (referência dos cabelos) e à tristeza. Os anjos só podiam ser brancos:

29595510_966591216829772_311884275773438084_n.jpg

Virgínia utiliza a cor de Luciana para atacá- la e menosprezá- la em momentos de tensão. Luciana é um personagem forte, porque faz as revelações mais importantes da narrativa, que é bem melodramática na primeira parte, por isto deve ter virado novela na TV, tem elementos de folhetim. Mas não foi ameno, levei alguns sustos, é uma narrativa abrupta dividida em duas partes. Já na primeira desenvolve- se todo o dramalhão. Não posso negar que não haja verossimilhança com a vida. Aliás, a vida é muito pior.

Os pais estão separados e a mãe, Laura, sofre demência, algo parecido com Alzheimer algumas vezes, e também sofre alucinações e desconecta do mundo “real”. Ela não lembra que Virgínia é sua filha, mas tem alguns momentos de lucidez.

A narrativa está entremeada em uma teia de fragilidades, rupturas e analogias entre pessoas, pássaros e animais invertebrados como beija- flores, formigas, aranhas e borboletas. Laura vê besouros: é o sinal de que Virgínia perdeu a mãe mais uma vez. A obra é enigmática, há uma aura de mistério e dor.

Vamos descobrindo mais sobre quem é Laura nos seus momentos de lucidez; no entanto, não dá para saber se os fatos são reais ou fruto de sua loucura. Ela conta que sua mãe era atriz e que seus pais morreram num incêndio. Daniel é o seu marido. Ela abandonou o ex, Natércio, pai de Virgínia, por causa dele. Laura e Natércio têm outras duas filhas, Bruna e Otávia, que moram com o pai.

A impressão é que Daniel pode ter algo de responsabilidade pela doença de Laura. Ele proíbe a entrada de Virgínia no quarto da mãe, não dá para saber se por proteção ou algo estranho. Virgínia o vê participando da loucura da mãe. Depois Daniel a envia para morar com o pai. Mais tarde descobrimos o motivo disso tudo, não vou contar, porque seria spoiler grande.

Na casa de Natércio quem cuida das meninas é Frau Herta, antipática e até cruel com Virgínia, a repreende a todo momento e exalta a qualidade de suas irmãs. Natércio é rico e mora num casarão.

Virgínia tenta negar a doença da mãe e afirma em reiterada vezes que melhorou, mesmo sabendo que não é verdade, principalmente por medo. Ela teme perder a mãe. Daniel explica o seu conceito de morte à Virgínia:

16425845_966581700164057_6965668479691781004_n

Daniel lê um livro de Charles Manson, “Sparkenbroken”, publicado em 1936, que diz o seguinte (adaptado pelo editor): “A noite passada voei para a árvore da morte;/ De súbito uma brisa fez- me pairar; / E eu, mísero boneco de penas arremessado,/ Envolvido no meu elemento, voltei a ser pássaro.”

Para Daniel há vida após a morte e esta é a libertação. Virgínia gosta do “tio Daniel”, mas tem que fingir que não, afinal, foi por causa dele que os seus pais se separaram. O médico é muito mais carinhoso que o seu pai. Elas, Otávia e Bruna, desprezavam a pequena, que não é parecida em nada com as duas, nem em gestos, comportamento ou aparência. Claro que já dá pra desconfiar que Virgínia é filha de Daniel e não de Natércio e esse foi o motivo da separação do casal, a infidelidade de Laura. Mas, se isso é certo, por que ainda não contaram à Virgínia a verdade?

A narrativa na primeira parte da obra intercala- se em três ambientes: a casa do pai, a casa da mãe e a imaginação de Virgínia. Na segunda parte, Virgínia foi morar num colégio interno de freiras.

Há outros dois personagens, Afonso e Conrado, irmãos e vizinhos da casa de Natércio. Virgínia tinha uma queda por Conrado, mas o moço não prestava atenção nela e sim na irmã Otávia. O tempo passou e  Afonso casou- se com Bruna, tiveram uma filha. Frau Herta, doente, já não é mais a governanta e sim a portuguesa Inocência. Conrado mudou- se depois da morte da mãe para uma chácara e Natércio aposentou- se. E sobre Daniel e Laura, essa parte não vou contar. Também não vou contar o que aconteceu com Virgínia, você vai ter que ler o livro…só vou contar que ela, já crescida, sai do colégio interno e volta para a casa de Natércio.

É uma obra bem escrita e que me provocou sensações de choque e angústia por vários motivos.

Creio que na novela há mais dicotomia de personagens vilões e mocinhos, vítimas e algozes. No romance não, são só humanos…

Qual caminho escolher? Essas encruzilhadas que a vida nos impõe e suas inexoráveis consequências. É uma história cheia de bifurcações e despedidas, e essas, nunca são alegres.

Esta é a edição portuguesa lida, ainda sem as correções do acordo ortográfico:

29571360_965128723642688_6404595740615182933_n       Telles, Lygia Fagundes. Ciranda de Pedra. Presença, Lisboa, 2008. 204 páginas

Se quiser comprar a mesma edição que a minha, clica aqui.

Sorteio: “Homens imprudentemente poéticos”, de Valter Hugo Mãe


Eu prometi mais cedo que sortearia um super livro se o blog atingisse as 10 mil visualizações hoje. Está quaseeee, então amanhã terá sorteio!

Obrigada você que esteve aqui e que me acompanha sempre. Fora os leitores do mundo lusófono, agora com os tradutores (inclusive há um na barra lateral aqui no blog), chega gente de todos os lugares do planeta. Depois do Brasil, os maiores leitores são dos Estados Unidos e depois Portugal. Hoje veio gente de quase toda a União Europeia, Canadá, de Moçambique, Angola e da Índia. Thank you so much!

Então, vai ter sorteio sim! O escolhido foi o escritor angolano Valter Hugo Mãe, “Homens imprudentemente poéticos”, esse da foto comprado em Lisboa, sinopse:

Num Japão antigo o artesão Itaro e o oleiro Saburo vivem uma vizinhança inimiga que, em avanços e recuos, lhes muda as prioridades e, sobretudo, a capacidade de se manterem boa gente.
A inimizade, contudo, é coisa pequena diante da miséria comum e do destino.
Conscientes da exuberância da natureza e da falha da sorte, o homem que faz leques e o homem que faz taças medem a sensatez e, sobretudo, os modos incondicionais de amarem suas distintas mulheres.

28795940_955096677979226_3935954570320019456_n

O sorteio será realizado amanhã, 10 de março de 2018, às 22h (hora espanhola). Para participar basta seguir o “Falando em Literatura” nas redes sociais, inclusive seguir o blog, é só colocar o seu e-mail (barra lateral), que assim você não perde nenhum post, eles irão chegar no seu e-mail, me envia um alô, diz o que gosta, o que não gosta, envia sugestões, reclamações e o que desejar, eu leio tudo! E comenta neste post, quero te conhecer, quero você aqui juntinho de mim. Seu apoio e  retorno são muito importantes, servem como força e incentivo. Ah, e pode participar gente do mundo todo.

Facebook

Instagram

Twitter

Youtube (daqui a poucos dias, finalmente, vídeo novo canal!)

Até amanhã e boa sorte!

UPDATE: O sorteio foi realizado ontem num bate- papo ao vivo no Instagram e o vencedor foi André Pipoco, do Rio de Janeiro.

Resenha: “A última palavra”, de Hanif Kureishi


O filósofo e escritor Hanif Kureishi (Londres, 05/12/1954), de pai paquistanês e mãe inglesa, ainda não é um autor muito conhecido no Brasil, mas foi editado no país,  “A última palavra”, pela Companhia das Letras, além dos livros citados abaixo. Coloquem esse autor na lista, ele é MUITO BOM!

11156338_446205912201641_8415280381686851083_nEssa foto é minha (2015). O autor é de pouco sorrisos. Dei uma “googleada” e vi que ele quase sempre tem o semblante sério.

Hanif é romancista, contista e roteirista de televisão, teatro e cinema. O seu romance “o buda do subúrbio” virou série no Reino Unido pela BBC ; o autor escreveu quatorze roteiros, inclusive “Intimidade”, livro que gostei muito, leia a resenha aqui. Também escreveu uma espécie de autobiografia “Meu ouvido no seu coração”. E “minha adorável lavanderia”, por exemplo, que conta a história de uma família paquistanesa que imigra para Londres numa tentativa de melhorar de vida.

1610964_10153373690816885_5147794014020518013_nFoto do perfil de Hanif no Facebook. Sensualizando? 🙂

A família Kureishi. Os meninos maiores parecem gêmeos (foto do The Telegraph). E por causa dessa foto, vi uma reportagem de 2013 que o autor perdeu 120 mil libras de suas economias em um golpe que recebeu do seu contador. Duro, hein?!

hanif2_2418779b

E do Facebook, as seguinte fotos de Kureishi com os filhos (sim, gêmeos), Sachin e Carlo:

10730928_10154727509965052_8613435098420266183_nHanif e Carlo em 2014 (Facebook de Carlo). “A última palavra” está dedicado a este filho. Ele atuou em um filme com roteiro do pai, “Recomeçar” (2003, original “The mother”).

1461668_10202864347473898_1053907125_n Hanif e Sachin em 2013 (Facebook de Sachin). Ele é casado com Electra Simon, uma londrina que mora em Madri (segundo seu Facebook).

Só não achei fotos mais atuais do filho caçula e nem da esposa. E agora que já conhecemos um pouquinho mais da vida pessoal do autor, vamos à obra, “A última palavra” (2014):

O indiano Mamoon Azam é um escritor consagrado, mas que deixou de vender livros. Ele é casado com uma italiana chamada Liana Luccioni, vivem numa bela casa de campo na Inglaterra chamada “Prospects House”. Como manter esse padrão de vida sem vender livros? O autor decide contratar um jovem biógrafo chamado Harry Johnson, muito culto, para escrever a sua história e tentar alavancar as vendas.

A história começa assim: Harry viajando de trem até a casa de Mamoon, autor que admira desde a adolescência; para ele, apaixonado por literatura, Azam é um deus. Harry, 30 anos, não só é apaixonado por literatura, estudou, preparou- se justamente para o momento que estava prestes a acontecer.

Rob Devereaux, um respeitado editor, acompanha Harry na viagem. O sujeito é alcoólatra, desbocado, descuidado com a aparência e asseio pessoal.

Rob considerava a escritura uma forma de combate extremo e a “salvação” da humanidade. Para ele, o escritor deveria transformar- se no próprio demônio, um perturbador de sonhos e destruidor de fátuas utopias, o portador da realidade e o rival de Deus no seu desejo de forjar mundos.” (p. 13)

O editor, que é mau caráter, tem um plano de marketing totalmente canalha. Deseja que Harry escreva uma biografia “louca e selvagem”, para agitar a vida de Mamoon com a intenção de que seja convidado para muitos eventos literários e divulgado na  imprensa. Resumindo: quer que o biógrafo consiga confissões escandalosas do escritor, todos os seus “podres”, aproveitando- se da fragilidade atual do autor e de seu passado de mulherengo, promíscuo, mesquinho, machista e biriteiro. Além das duas esposas, teve uma terceira, Marion.

Liana adverte que deseja uma biografia “gentil”, que não prejudique a reputação do marido. Mas quer que o marido vire uma “marca”, já que constatou que o autor não recebia tanto quanto pensava. Ter prestígio nem sempre traz dinheiro. A italiana pensa em mil formas de como pode rentabilizar a escrita do indiano.

A mulher também vai usar o biógrafo como empregado doméstico. Harry irá carregar compras e afins, buscar lenha, carregar caixas, além de reler toda a obra do prolixo escritor, os diários muito tristes da sua primeira mulher suicida, muito material armazenado num arquivo insalubre. O rapaz está preparado, vem de uma família com tradição acadêmica.

As pessoas mais cultas, infelizmente, e contraditoriamente ao que deveria ser, não têm bons trabalhos, muitas vezes, e precisam fazer coisas que não se orgulham para sobreviver. Harry irá obedecer o editor por dinheiro ou irá prevalecer o amor pela literatura e a admiração por um dos melhores escritores do mundo? E Mamoon, será que vai cair na armadilha ou será ele que irá armar a arapuca?

O homem mais valente se acovardará diante da perspectiva de ter que levantar o véu do passado, a menos que esse passado seja de uma pureza excepcional (p. 28)

É uma obra cheia de… humanidade! O que nos torna melhores ou piores são as nossas escolhas. Qual é a última palavra que você diria a alguém sabendo que jamais a veria de novo? Qual o seu legado?

Gosto muito da escrita de Hanif Kureishi, recomendo este livro, gostei bastante!

O meu exemplar autografado:

19274963_813315418824020_8094196274227269396_nMinha edição autografada em 2015, poucos meses depois da edição inglesa, quando o autor esteve em Madri na altura do Dia Internacional do Livro.

Essa é a edição espanhola que eu li:19225994_813315422157353_971265382701067722_nKureishi, Hanif. La última palabra. Anagrama, Barcelona, 2014. Páginas: 295