Resenha: “A última palavra”, de Hanif Kureishi


O filósofo e escritor Hanif Kureishi (Londres, 05/12/1954), de pai paquistanês e mãe inglesa, ainda não é um autor muito conhecido no Brasil, mas foi editado no país,  “A última palavra”, pela Companhia das Letras, além dos livros citados abaixo. Coloquem esse autor na lista, ele é MUITO BOM!

11156338_446205912201641_8415280381686851083_nEssa foto é minha (2015). O autor é de pouco sorrisos. Dei uma “googleada” e vi que ele quase sempre tem o semblante sério.

Hanif é romancista, contista e roteirista de televisão, teatro e cinema. O seu romance “o buda do subúrbio” virou série no Reino Unido pela BBC ; o autor escreveu quatorze roteiros, inclusive “Intimidade”, livro que gostei muito, leia a resenha aqui. Também escreveu uma espécie de autobiografia “Meu ouvido no seu coração”. E “minha adorável lavanderia”, por exemplo, que conta a história de uma família paquistanesa que imigra para Londres numa tentativa de melhorar de vida.

1610964_10153373690816885_5147794014020518013_nFoto do perfil de Hanif no Facebook. Sensualizando? 🙂

A família Kureishi. Os meninos maiores parecem gêmeos (foto do The Telegraph). E por causa dessa foto, vi uma reportagem de 2013 que o autor perdeu 120 mil libras de suas economias em um golpe que recebeu do seu contador. Duro, hein?!

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E do Facebook, as seguinte fotos de Kureishi com os filhos (sim, gêmeos), Sachin e Carlo:

10730928_10154727509965052_8613435098420266183_nHanif e Carlo em 2014 (Facebook de Carlo). “A última palavra” está dedicado a este filho. Ele atuou em um filme com roteiro do pai, “Recomeçar” (2003, original “The mother”).

1461668_10202864347473898_1053907125_n Hanif e Sachin em 2013 (Facebook de Sachin). Ele é casado com Electra Simon, uma londrina que mora em Madri (segundo seu Facebook).

Só não achei fotos mais atuais do filho caçula e nem da esposa. E agora que já conhecemos um pouquinho mais da vida pessoal do autor, vamos à obra, “A última palavra” (2014):

O indiano Mamoon Azam é um escritor consagrado, mas que deixou de vender livros. Ele é casado com uma italiana chamada Liana Luccioni, vivem numa bela casa de campo na Inglaterra chamada “Prospects House”. Como manter esse padrão de vida sem vender livros? O autor decide contratar um jovem biógrafo chamado Harry Johnson, muito culto, para escrever a sua história e tentar alavancar as vendas.

A história começa assim: Harry viajando de trem até a casa de Mamoon, autor que admira desde a adolescência; para ele, apaixonado por literatura, Azam é um deus. Harry, 30 anos, não só é apaixonado por literatura, estudou, preparou- se justamente para o momento que estava prestes a acontecer.

Rob Devereaux, um respeitado editor, acompanha Harry na viagem. O sujeito é alcoólatra, desbocado, descuidado com a aparência e asseio pessoal.

Rob considerava a escritura uma forma de combate extremo e a “salvação” da humanidade. Para ele, o escritor deveria transformar- se no próprio demônio, um perturbador de sonhos e destruidor de fátuas utopias, o portador da realidade e o rival de Deus no seu desejo de forjar mundos.” (p. 13)

O editor, que é mau caráter, tem um plano de marketing totalmente canalha. Deseja que Harry escreva uma biografia “louca e selvagem”, para agitar a vida de Mamoon com a intenção de que seja convidado para muitos eventos literários e divulgado na  imprensa. Resumindo: quer que o biógrafo consiga confissões escandalosas do escritor, todos os seus “podres”, aproveitando- se da fragilidade atual do autor e de seu passado de mulherengo, promíscuo, mesquinho, machista e biriteiro. Além das duas esposas, teve uma terceira, Marion.

Liana adverte que deseja uma biografia “gentil”, que não prejudique a reputação do marido. Mas quer que o marido vire uma “marca”, já que constatou que o autor não recebia tanto quanto pensava. Ter prestígio nem sempre traz dinheiro. A italiana pensa em mil formas de como pode rentabilizar a escrita do indiano.

A mulher também vai usar o biógrafo como empregado doméstico. Harry irá carregar compras e afins, buscar lenha, carregar caixas, além de reler toda a obra do prolixo escritor, os diários muito tristes da sua primeira mulher suicida, muito material armazenado num arquivo insalubre. O rapaz está preparado, vem de uma família com tradição acadêmica.

As pessoas mais cultas, infelizmente, e contraditoriamente ao que deveria ser, não têm bons trabalhos, muitas vezes, e precisam fazer coisas que não se orgulham para sobreviver. Harry irá obedecer o editor por dinheiro ou irá prevalecer o amor pela literatura e a admiração por um dos melhores escritores do mundo? E Mamoon, será que vai cair na armadilha ou será ele que irá armar a arapuca?

O homem mais valente se acovardará diante da perspectiva de ter que levantar o véu do passado, a menos que esse passado seja de uma pureza excepcional (p. 28)

É uma obra cheia de… humanidade! O que nos torna melhores ou piores são as nossas escolhas. Qual é a última palavra que você diria a alguém sabendo que jamais a veria de novo? Qual o seu legado?

Gosto muito da escrita de Hanif Kureishi, recomendo este livro, gostei bastante!

O meu exemplar autografado:

19274963_813315418824020_8094196274227269396_nMinha edição autografada em 2015, poucos meses depois da edição inglesa, quando o autor esteve em Madri na altura do Dia Internacional do Livro.

Essa é a edição espanhola que eu li:19225994_813315422157353_971265382701067722_nKureishi, Hanif. La última palabra. Anagrama, Barcelona, 2014. Páginas: 295

 

 

 

 

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O nicaraguense Sergio Ramirez ganha importante prêmio literário na Espanha


Qual a primeira coisa que você lembra quando ouve “Nicarágua”? Guerra, fome, violência? Creio que para a maioria das pessoas, sim, infelizmente. A América Central, talvez, seja a mais complicada e desconhecida das Américas. Composta por sete países: a citada Nicarágua, Costa Rica, Guatemala, Honduras, Panamá, El Salvador e Belice, países com belezas naturais exuberantes, praias paradisíacas, mas governados por políticos inescrupulosos, muitas vezes, com falta de democracia e liberdade; também há guerrilhas e guerras civis. Ramirez foi vice- presidente da Nicarágua e lutou contra a ditadura no seu país. É um tema muito amplo e complicado, voltemos ao literário.

O escritor e político Sergio Ramirez (Masaya, 05/08/1942), ganhou ontem o prêmio Cervantes na Espanha, considerado o Nobel das letras hispanas, é um prêmio muito importante  (125 mil euros, além do prestígio) e Ramirez foi o primeiro escritor, não só do seu país, mas da América Central a ganhar o Cervantes.

O escritor Sergio Ramirez

O escritor Sérgio Ramirez (Facebook)

Ramirez é prosista e tem uma obra prolixa, veja aqui a sua bibliografia completa.  O jurado considerou que o autor tem a capacidade de “transformar a realidade em obra- de- arte”.

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Sérgio Ramirez em sua casa em Manágua, ontem (El País)

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Sergio Ramirez e Nélida Piñón (sentada). A foto está no Facebook da autora, que está na Espanha agora: “Nélida Piñon, em Madrid, está exultante. Seu amigo, escritor nicaraguense, Sérgio Ramirez é o vencedor do Prêmio Cervantes de 2017, considerado o Nobel das letras castellanas. Em 2015, Sérgio Ramirez dedicou seu livro Sara à Nélida Piñon.

Seu último livro, “Ya nadie llora por mí” (“Já ninguém chora por mim”) foi lançado o mês passado. Mais um autor para a lista!

Resenha: “O Cortiço”, de Aluísio de Azevedo #livroparavestibular #ENEM


“O Cortiço”, de Aluísio de Azevedo, é leitura obrigatória para quem vai fazer ENEM e vestibular no Brasil. Na lista da UNICAMP para 2018 e 2019, por exemplo, consta essa obra. Mas, fora essa obrigação escolar, recomendo esse livro para todos que apreciam a boa literatura brasileira clássica. É um livraço!

O livro  “O Cortiço” (1890) é Naturalista, estilo parecido com o Realismo, só que um pouco mais radical. Entenda um pouco: o francês Èmile Zola foi o precursor desse estilo literário. Nele, o homem é visto como um brinquedo do destino, é fruto do meio, da sua herança genética, ele não pode controlar a própria vida. Zola inspirou- se em correntes científicas, médicas, biológicas e filosóficas, como Charles Darwin e Auguste Comte, para construir seu mundo visto sem eufemismos. A linguagem do Naturalismo é simples, clara e direta. Feio é feio, pobre é pobre, ladrão é ladrão, sexo é sexo, e assim por diante, tudo à vista. O natural em um país de terceiro mundo é ter muitos miseráveis, uma minoria exploradora e muitos explorados.

No caso de “O cortiço”, também é uma crítica à burguesia carioca do século XIX. A realidade naturalista conta todas as mazelas do homem e da sociedade. A estética é a feiura, o submundo, as periferias, as paixões e vícios humanos, o “lado b” dos personagens, sem romantismos.

Aluísio de Azevedo era do Maranhão (São Luís, 14/04/1857) e faleceu em Buenos Aires (Argentina, 14/01/1913), porque era diplomata e trabalhava nessa cidade. Seu pai era viúvo, o português David Gonçalves e uniu- se à sua mãe,  Emília Amália, uma mulher divorciada, foi um escândalo na época. Além de escritor e diplomata, também foi caricaturista, desenhava para jornais.

A obra

“O cortiço”  está dividido em vinte e três capítulos.

A história acontece no subúrbio do Rio de Janeiro. João Romão, português, tem um barzinho. Ele descobre uma forma de fazer dinheiro explorando a pobreza: começa a construir cortiços, que são moradias precárias, amontoadas e baratas. Consegue o dinheiro da quitandeira Bertoleza, viúva,  escrava, cujo proprietário é um homem cego e idoso. Ela trabalha de sol a sol para pagar a sua alforria e o português começa a administrar o seu dinheiro. No final se “amigaram” e ele mente à mulher dizendo que já tinha sua carta de alforria. “- Você agora não tem mais senhor!” (p.39). No entanto, a mulher continua tendo o dono anteior e o novo, o português. Era sua criada, amante e ainda continuava trabalhando na taverna e na quitanda, mas o dinheiro ficava com o lusitano.

João Romão vive para trabalhar de domingo a domingo, mas também para roubar, enganar clientes, não tem nenhuma ética ou honestidade, o dinheiro é o que mais lhe importa. Tudo que ganha vai para o banco e para comprar terrenos e imóveis. Assim começa a ficar rico, porque não paga ninguém para fazer nada, ele mesmo começa a construir o seu cortiço. Rouba material de construção de outras obras, ou seja, construía sem gastar nada. Dessa forma consegue construir três casas, início do seu grande cortiço e também arranja dinheiro para comprar uma pedreira, o que o enriquece.

O autor descreve o processo de enriquecimento emergente, que não mede esforços  e nem tem escrúpulos em lesar o outro. Um individualismo total, criminoso e desumano.

Miranda, um negociante português, muda para a Rua do Hospício, um prédio perto da venda de João Romão, para afastar a mulher de outros homens. Essa é outra história paralela. Miranda pegou em flagra a esposa com outro, mas por interesse e dinheiro não divorciou- se da mulher, Dona Estela. Eles não têm nenhuma relação sentimental, só sexual e financeira, não se falam, odeiam- se. Têm a filha Zulmirinha em comum. E temia um escândalo, “ficava mal para um negociante de certa ordem” (p.18). Miranda quer comprar o terreno de João Romão para ter mais quintal, mas esse não quer de jeito nenhum, o que provocou uma rixa entre os lusitanos.

João Romão foi ampliando seus negócios e enriquecendo cada vez mais. Passa a ser distribuidor de mercadorias com vários depósitos e seu cortiço tem noventa e cinco casinhas. “Estalagem de São Romão. Alugam- se casinhas e tinas para lavadeiras”. (p.38)

As pessoas humildes que querem morar no cortiço, multiplicam- se e são descritas como larvas no esterco. Veja o hiper-realismo característico do naturalismo (p.40):

E naquela terra encharcada e fumegante, naquela unidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar- se como larvas no esterco. 

Quem não gosta nada do cortiço abarrotado de gente ao seu a seu pé é Miranda (p.42):

À noite e aos domingos ainda mais recrudescia o seu azedume, quando ele, recolhendo- se fatigado do serviço, deixava- se ficar estendido numa preguiçosa, junto à mesa da sala de jantar, e ouvia, a contragosto, o grosseiro rumor que vinha da estalagem numa exalação forte de animais cansados. Não podia chegar à janela sem receber no rosto aquele bafo, quente e sensual, que o embebedava como seu fartum de bestas no coito. 

Miranda morre de inveja do João Romão que ficou rico sem precisar casar com uma mulher de detesta e ficar amarrado a vida toda.

Na casa de Miranda há três criados, Isaura, Leonor e Valentim, esse, um escravo alforriado. E ainda moram na casa dois hóspedes, Henrique, quinze anos, filho de um fazendeiro cliente de Miranda (paga a hospedagem) e o velho Botelho, setenta anos, um “parasita”. (p.52)

No Naturalismo, as descrições são bem explícitas, na do velho Botelho, por exemplo, o narrador comenta até de suas hemorroidas. (p.53)

Botelho é o amigo interesseiro, falso, leva e trás, o que presencia a infidelidade de dona Estela com Henrique (menino de quinze anos!) e ainda cobre e apoia, porque quer continuar vivendo de graça na casa. Ele, teoricamente, é amigo de Miranda, mas a lealdade não é o seu forte.

Uma curiosidade interessante são as profissões que não existem mais como: o “sardinheiro” (vendedor de peixes à domicílio) ou “cavouqueiro” ( pessoa que trabalha em pedreiras), um dos trabalhos mais duros que existe, quebrar pedras. Não, no Brasil essa profissão ainda existe. Seria o trabalho perfeito para condenados por crimes hediondos, não acha? No livro, os que trabalham fazendo paralelepípedos na pedreira de João Romão são chamados de “macaqueiros”. Essas pedreiras realmente existiram no Rio de Janeiro no Brasil Colônia, leia esse artigo.

A vida no cortiço é descrita como um organismo único de sons e costumes.  E na página 74 começam a aparecer muitos personagens: a lavadeira portuguesa Leandra, a “Machona“, que tem três filhos a das Dores, a Neném e Agostinho.

Augusta Carne- Mole, lavadeira, brasileira, mulher de Alexandre, um mulato, têm dois filhos pequenos, entre eles, a Juju, que vivia com a madrinha na cidade, a Léonie, uma “cocote” francesa (p.76), “cocote” é prostituta.

A lavadeira Leocádia, portuguesa, mulher do ferreiro Bruno. E ainda Paula (a Bruxa), uma cabocla velha, meio idiota, a quem respeitavam todos pelas virtudes de que só ela dispunha para benzer erisipelas e cortar febres por meio de rezas e feitiçarias.

Também as lavadeiras Marciana e Florinda, mãe e filha. E ainda dona Isabel, viúva de um suicida, com uma filha doente, a “flor do Cortiço, Pombinha” (p.79). Ela tem um namorado chamado João da Costa.

E o único lavadeiro, o Albino,  é afeminado, as mulheres o tratam como pessoa do mesmo sexo. Exceto Pombinha e o namorado, a descrição dos personagens é dura, até cruel.  E uma coisa comum entre todos: são de famílias desestruturadas.

A fofoca para ser esporte nacional mais antigo no Brasil literário e real. Isso fica refletido em “O cortiço”, uma rede de intrigas forte e extensa. Rita Baiana é uma das que caiu na boca do povo por ser uma mulher livre e volúvel.

Jerônimo, excelente empregado de João Romão na pedreira, muito honesto, e sua esposa Piedade de Jesus, também moram no cortiço na casa 35, a de “mau agouro”, “Foi lá que morreu a Maricas do Farjão!” (p.119). O casal tem uma filha, a Marianita. Também são imigrantes.

Depois de meses sem aparecer, Rita Baiana volta ao cortiço com um menino e seu amante, o Firmo. A baiana era a festeira do cortiço.

No cortiço também tinha um grupo de italianos, o Delporto, Pompeo (“varridos pela febre amarela, p. 361), Francesco e Andréa, todos mascates. Os mascates seriam os representantes comerciais de hoje, só que levavam a mercadoria com eles.

Há muita algazarra no cortiço. Gente demais num espaço reduzido. Miranda grita da janela e reclama do barulho, e de lá, revidam com vaias. E ainda moram no cortiço: o velho Libório e Porfiro.

Numa das festas, Jerônimo (o português casado com Piedade, excelente trabalhador da pedreira) viu dançar a Rita Baiana e não consegue tirá- la da cabeça.

Leocádia (casada com Bruno) transa com Henriquinho, o menino de quinze anos hospedado na casa de Miranda. Ela quer ficar grávida para ser ama- de- leite, porque pagam bem as amas. É sexo só, rápido, sem nenhum romantismo ou compromisso. O marido chega e a vê vestindo afobada a saia, desconfia e lhe dá uma surra, mesmo sem ter visto Henrique ou o ato em si (p. 204). E a coloca para fora de casa.

Lembrando que o adultério no Brasil deixou de ser crime só em 2005 e a Maria da Penha, lei contra a violência doméstica à mulher, entrou em vigor em 2006. Antes disso as mulheres estavam completamente desprotegidas. Raramente há represálias quando o traidor é o homem, já com as mulheres…e sobre ser crime o adultério…hahaha…a lei existia, mas não era colocada em prática, já que seria impossível manter na prisão tanta gente, entre 15 dias e seis meses. Imaginou o Brasil quase inteiro na cárcere?! Brincadeiras a parte, é ridículo que uma lei tão provinciana ainda estivesse em vigor até 2005.

Bem, voltando à história de Jerônimo e sua paixão por Ritinha. O português mudou completamente de hábitos, abrasileirou e já não dormia com a mulher, que encomendou os serviços de feitiçaria de Bruxa. Outro ponto abordado pelo autor é essa, o da superstição sem cabimento. A Bruxa mandou a portuguesa fazer algumas mandingas absurdas.

Firmo e Jerônimo debatem- se em um duelo pela mulata. Pobre Piedade, esposa do português…este saiu pior da briga. Juntou- se com Pataca, Garnisé e Zé Carlos para uma vingança. O cortiço é palco de todas as desgraças humanas, de violência, inclusive contra a polícia. Dinheiro, sexo, cobiça, luxúria e bebida são os estopins. Mas, só num cortiço é assim?

O erotismo é bastante presente na obra, inclusive há uma cena lésbica entre a prostituta Léonie e Pombinha, filha de Isabel, a moça meiga e virginal. Mãe e filha foram visitar a francesa e a menina caiu nas suas garras, enquanto a mãe descansava. Foi praticamente um estupro. A menina nem a menstruação tinha ainda. Pombinha é sensível, inocente e alfabetizada, diferente da maioria do cortiço.

No cortiço, há muitas “confusões sexuais”, maiores transando com menores, como Domingos com a filha de Marciana.  O cara não quer casar com a menina Florinda, que fugiu e a mãe enlouqueceu. João Romão não teve a mínima compaixão pela mulher. Na primeira oportunidade livrou- se da inquilina da pior maneira possível.

João Romão morre de inveja do vizinho Miranda, que era muito mais refinado e bem relacionado, inclusive ganhou o título de barão. E Miranda morre de inveja da riqueza do outro. Romão, por causa da inveja do vizinho, refinou- se, até banho começou a tomar. Começou a comer e beber melhor, a sair, a vestir- se melhor, a usar guardanapo, a civilizar- se.

Os cortiços proliferam- se na cidade do Rio de Janeiro, um deles é o “Cabeça-de-Gato, uma “nova república da miséria”. (p.362)

O forte dessa obra são os personagens, todos eles têm muita força, o enredo realmente fica para um segundo plano.

João Romão, imigrante pobre, sem nenhum escrúpulo consegue a ascensão financeira, e depois, a social.

O final é triste, essa não é uma obra otimista, sempre tenha isso em mente, é uma característica naturalista. João Romão é a metáfora daqueles dias e, infelizmente, dos nossos também.


Recomendo esta edição lida (foto),  baixei muito baratinha no iBooks, porque ela é especial para estudantes, tem um complemento de leitura com detalhes fundamentais da obra, além de questões de vestibulares. No entanto, há outras opções gratuitas de PDF,  como no site Domínio Público .

Azevedo, Aluísio. O cortiço. Ciranda Cultural, 619 páginas, ePUB

Não se assuste, estudante: a quantidade de páginas depende do seu e-reader, do tamanho da letra que você usar, fora que nessa edição há complemento de leitura.

Faça o download de “O cortiço” aqui!

Nove anos Falando em Literatura!


Nove anos.

Eu nunca fiz e acho que nunca vou conseguir fazer o blog “dos meus sonhos”, que seria com atualizações diárias. Não dá. Ler exige tempo.

Ler do jeito que eu leio, sem pular páginas, criticamente, pensando sobre a obra para tentar resumir depois em uma resenha, não é coisa ligeira. Fora que nem tudo o que leio eu coloco aqui. Decidi que não escrevo mais sobre livros ruins por compaixão ao autor. E por responsabilidade. Eu não sei até que ponto a minha opinião pode afetar os autores. E eu decidi que não quero estar nessa posição.

Constantemente, tenho uma dúvida incômoda: “ajudo ou atrapalho?”. O blog ajuda alguém? As resenhas pra quê servem? E a resposta nem sempre me agrada: ajudo os copistas a simplificarem seus trabalhos; ajudo estudantes preguiçosos que não querem ler os livros; ajudo outros blogs e sites com informações, fotos, ideias, raramente citam a fonte.

Se eu pensasse só nisso, já teria acabado com esse espaço. Mas, por que não acabo? Por mim, necessidade própria. Gosto de compartilhar o que leio, gosto de ter esse diário de leituras. Gosto de deixar um testemunho para o futuro. Como assim? Gosto de pensar que um neto daqui a 20 anos possa saber o que a vovó gostava de ler. Parece besteira, provavelmente é, mas serve como estímulo.

Esse é um espaço também de treinamento. Eu sou expatriada há anos demais, aqui eu treino a escrita em português, o pensamento em português, já que o espanhol invadiu a minha vida, estou imersa nesse idioma. Eu mesma já me noto estrangeira no meu próprio idioma, algumas vezes me estranho, duvido, vacilo.

A maioria dos imigrantes que conheço, e com menos tempo de Espanha que eu, já não falam bem o português. Será que eles têm a mesma percepção sobre mim? É um pensamento desagradável.

Eu escolhi Letras Vernáculas, porque amo o nosso idioma, suas literaturas, sua gramática, seus mistérios e complicações. Foi com a língua e seu emaranhado de construções que forjei o meu futuro. Não quero perder a minha matéria de trabalho e amor. Sou resistente, insistente. Sempre procurei trabalhos na Espanha que tivessem relação com a nossa língua. Tenho conseguido, seja dando aulas, escrevendo para revistas, revisando ou traduzindo.

Fico feliz quando alguém vê algum evento literário, poema, livro e lembra de mim. As pessoas sempre me relacionam com a literatura, acho que é uma boa forma de ser lembrada.

Foi através do blog que aconteceram coisas muito bacanas: conheci autores fantásticos, nacionais e internacionais, que jamais pensei, como Joistein Gaader, Isabel Allende, Zygmunt Bauman, Boris Unspenski, Amy Tan, Hanif Kureishi, e muitos outros, alguns nem estão mais entre nós, como Lêdo Ivo, Omar Calabrese (semiólogo) e Eduardo Galeano, por exemplo.

img_5661Bauman, Madri 2012.

DSC_0025Antonio Colinas e eu

IMG_4928Mario Vargas Llosa

Alberto Vázquez FigueroaAlberto Vázquez- Figueroa e eu

DSC_0010Luis Goytisolo e eu.

IMG_1623Minha Laura, Lêdo Ivo e eu em 2011 (Madri), alguns meses antes do falecimento do autor.

18921798_803764753112420_4938323402990426604_nEssa é recente, desse mês: Enrique Vila- Matas e eu.

São muitas histórias e recordações, um verdadeiro relicário, um tesouro. Muitas bibliotecas e livrarias incríveis que visitei, vi obras clássicas originais, eventos interessantes. Ah, e as oficinas literárias, oito, que aconteceram no ano passado. O Falando em Literatura saiu do virtual patrocinado pelo Consulado do Brasil em Madri e o Itamaraty, foi uma experiência incrível e enriquecedora.

Muita coisa, literariamente falando, aconteceu antes desse blog e acabou perdendo- se no tempo, no limbo da memória. Aqui fica tudo guardadinho.

Por tudo isso, veja você…eu preciso desse blog. E preciso, principalmente, das Letras na minha vida.

Espero, de coração, que esse blog tenha inspirado alguém a amar a boa Literatura como eu amo. Essa é a motivação mais bonita.

E vamos para o ano 10!

Feirinha permanente de livros usados em Madri


Uma tradicional feira permanente de livros usados em Madri é a da “Cuesta de Moyano” inaugurada em 1925. Ela fica num calçadão no “Paseo del Padro”, num dos lugares mais famosos da cidade, perto de todos os museus importantes e do jardim botânico.

Os trinta stands de madeira, que foram passando de pai a filhos, são bem simpáticos e estão abarrotados de livros de todos os gêneros. Antes desse espaço ser destinado aos livros, ficava o primeiro zoológico da cidade em 1774.

Estátua de Pio Baroja 

Essa é a única feira permanente de Madri. A aparência dos stands é a mesma das originais. Uma grande virtude dos espanhóis é essa: a de saber cuidar do seu patrimônio histórico- cultural.

Teste de personalidade: qual personagem da ficção você se parece?


Vamos brincar? Montei um “teste de personalidade”, qual será o personagem da ficção brasileira mais parecido com você?

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Clique aqui e descubra. Divirta- se!

Foi você quem disse, Drummond?! Quiz!


O que você sabe sobre um dos maiores escritores modernistas do Brasil? O mineiro Carlos Drummond de Andrade nos deixou uma obra preciosa e que vale a pena ser lida e relida. Preparei um quiz rápido, sete perguntas para você testar os seus conhecimentos sobre o autor. Vamos brincar?!

Segue o link. clica aqui.

estátua ItabiraEstátua de Drummond na sua cidade natal, Itabira- Minas Gerais

No próximo post irei explicar cada uma das questões.