Resenha: “Tartufo”, de Molière


Você sabe o motivo da cor amarela ser considerada de má sorte para os atores? Continue lendo para descobrir!

Literatura clássica francesa. Livros seculares como “Tartufo”, do parisino Molière, emocionam- me muito! Uma obra assim você não pode deixar de colocar na sua lista de leituras. Ela representa com perfeição arquétipos sociais, como a hipocrisia, por exemplo. Uma obra aclamada há quase 350 anos, viva e atual.

Molière nasceu Jean- Baptiste Poquelin e foi batizado em 15 de janeiro de 1622, portanto, há 396 anos, um velhinho quase quatrocentão. Não se sabe a data exata do seu nascimento. Era filho de tecelãos, uma família burguesa, que servia a casa real francesa. O autor tinha três formações universitárias: Humanidades, Filosofia e Direito, profissão que exercia, mas não gostava. Abandonou o Direito para dedicar- se ao teatro, sua paixão. Renunciou também o trabalho de tecelão da monarquia que herdaria do seu pai, isso foi em 1643. A família era boêmia, frequentava teatros, inclusive a irmã de Moliére, Magdalene, era atriz famosa. Para ela, usava- se uma expressão “femme d´esprit”, uma mulher inteligente e culta. O sentido original dessa expressão mudou um pouco com o tempo e agregaram ao seu significado a malícia e o humor.

A biografia de Molière, considerado o “pai da comédia francesa”, é muito interessante, mas só vou dar uma pincelada, porque é extensa, recomendo que leiam na íntegra. Nessa edição espanhola (foto), o prólogo é bem interessante, conta toda a cronologia do autor. Ele montou uma companhia de teatro com alguns sócios, foi nessa época que adotou o nome artístico de “Molière”. A companhia foi um fracasso, endividaram- se, não puderam pagar e Molière foi preso.  Depois de solto, saiu de Paris, começou a apresentar- se com a companhia pelo interior da França e deu certo. O dramaturgo tinha muitos inimigos, principalmente atores, desafetos que foi ganhando pela vida. A realeza censurou as suas obras também. Molière teve um filho, Louis, que morreu na infância e teve uma filha, “Esprit Madeleine”, que adulta chamava- se “Madame de Montalant” e um outro menino chamado Pierre. Se eu não contei errado, Moliére encenou vinte e três peças. Ele escrevia e atuava também.

Segundo este prólogo biográfico e crítico, Moliére era um homem sério, calado, triste, feio, baixo, de sobrancelhas e traços grosseiros, e parece que estava acima do peso. Creio que foi uma descrição injusta, o homem não me parece tão pouco agraciado assim, achei até simpático, que você acha?

Doente, perdeu bastante peso e ficou miudinho. Vivia sempre vermelho por causa dos ataques de tosse, tinha tuberculose. Já perto de falecer, também morreram a sua irmã Madeleine e um outro filho, isso prejudicou a sua saúde, dizem. Ele levava suas dores para o palco, sua última obra: “O doente imaginário”. Agora vem a história da cor amarela:

Molière teve uma convulsão em cima do palco, na última cena e vestia amarelo. As pessoas acharam que ele tinha morrido, o que só veio acontecer horas mais tarde na sua casa. E ainda por cima escreveu este epitáfio para o personagem: “Aqui jaz o rei dos atores. Agora se faz de morto e na verdade, o faz muito bem”. Virou lenda. Os sacerdotes recusaram- se a dar- lhe extrema- unção por causa da obra “Tartufo”, principalmente. A Igreja detestava Molière, ele os delatava nas suas obras.

A assinatura de Molière

Então, vamos descobrir o motivo dessa obra ser tão polêmica. “Tartufo” tinha sido censurada durante muito tempo, mas foi autorizada a ser representada pela primeira vez em 5 de fevereiro de 1669 e foi um sucesso absoluto. São doze personagens e a história acontece na casa de Orgón, em Paris:

E Dorine endossa e revela a hipocrisia que acontece no meio social que frequentam (p.101):

– Não será Daphné e o maridinho dela que falam mal de nós? Aqueles cuja conduta mais se presta ao ridículo são sempre os que se metem a falar mal dos outros. Estão sempre prontos a observar o mais leve indício de simpatia para com alguém, espalham a notícia com o maior açodamento, desvirtuando as coisas a seu talante e apresentando-as como querem que sejam vistas. Julgam poder justificar as próprias ações neste mundo, dando às dos outros o colorido que lhes convêm, e procuram inocentar as próprias intrigas com a ilusória esperança de parecerem íntegros; ou então fazer recair alhures algumas migalhas esparsas dessa reprovação pública, que os sobrecarrega em demasia.

Senhora Pernelle, mãe de Orgon
Orgon,marido de Elmire
Elmere, mulher de Orgon
Damis, filho de Orgon
Mariane, filha de Orgon e apaixonada de Valère
Valère, apaixonado de Mariane
Cléante, cunhado de Orgon
Tartufo, falso devoto
Dorine, dama de companhia de Mariane
O senhor Loyal, sargento
Flipote, criada da senhora Pernelle

A senhora Pernelle é uma matriarca déspota, que critica com crueldade toda a sua família. Todos estão alvoroçados, porque receberá a visita de Tartufo, que a mãe idolatra e sua família detesta. A madame reprova várias condutas, até o fato de receberem visitas e a vizinhança comentar, reclamar do barulho e do entra e sai e Cléante rebate (p.101):

(…) – Não há como garantir-se contra calúnia. Não nos preocupemos com os mexericos tolos; esforcemo-nos por viver em completa inocência, dando aos faladores plana liberdade.

Quando algo incomoda demais em alguém, é espelho. A pessoa vê no outro o que tem em si em abundância e o reflexo provoca mal- estar. Disso ao ódio é um pulo. Por isso a Igreja e a Realeza incomodaram- se tanto com Molière? Claro!

O machismo e a inversão de valores também foram assuntos tocados por Moliére. Na cena IV (p.105), acontece um diálogo entre Dorine e Orgón sobre Tartufo e a mulher de Orgón, Elmere, que estava passando muito mal com uma enxaqueca, não dormiu a noite toda, não conseguiu comer e estava sangrando muito. Tartufo, o hóspede deles, jantou um banquete, bebeu vinho, dormiu tranquilamente, e ainda por cima, ELE era o “pobre homem”! O “pobre homem” saiu de manhã para rezar e fortalecer sua alma de bom cristão.

Orgon e Cléante têm falas imensas. Fiquei pensando na memória de elefante que têm que ter os atores que representam esses personagens. Adoraria ver esta obra encenada. Cléante tem uma fala brilhante sobre o verdadeiro e o falso. Claro que a carapuça deve ter caído em muita gente naquela época, e hoje ainda, obviamente. A falsidade. Como saber se uma pessoa está sendo sincera ou simplesmente o seu discurso é manipulado para conseguir certos objetivos? Você consegue perceber?

Tartufo aparece na cena VII declarando- se para a esposa de Orgon, Elmere. E ela surpresa, “tão bom cristão”. Enquanto isso, Orgon estava querendo obrigar a filha a casar- se com Tartufo por dinheiro. E Tartufo culpa a mulher pelo seu desejo de cobiçar a mulher alheia (a partir daqui usei o PDF em português para facilitar as citas):

– Ah! Mas nem por ser devoto eu não sou menos homem; e quando se chega a ver seus celestes atrativos, o coração torna-se escravo e não raciocina mais. Sei que essas palavras parecem estranhas partindo de mim, mas, senhora, apesar de tudo, não sou um anjo; e se condena a confissão que acabo de lhe fazer, deve culpar seus encantos.

Iria ficar tudo em segredo, mas Damis ouviu tudo escondido e depois chega o marido também e o armou- se o barraco. Mas, pensa que Tartufo foi banido da família pela ousadia de assediar a mulher do dono da casa que estava hospedado?! O marido solucionou o problema obrigando Tartufo a casar- se com sua filha. Você acha que Orgon trocaria a posição social de Tartufo por honra e dignidade?!

A história tem reveses. Quem parece que vai ganhar, perde e vice- versa. Um texto bem contruido, amarradíssimo e surpreendente! Muito gostoso de ser lido, recomendadíssimo!

Molière. Tartufo. Catedra. Letras Universales, Madrid, 2010. Páginas: 179

Se quiser ler um PDF em espanhol (grátis!), clica aqui.

Se preferir ler em português, é só clicar aqui (grátis!).

Se quiser ler em inglês, clica aqui.

Boa leitura!

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Era bruxa Clarice Lispector?


Um livro curioso me chamou bastante atenção e quero compartilhar com vocês: O segredo de Clarice Lispector, de Marcus Deminco.

Sinopse:

A verdade sobre Clarice Lispector que ninguém jamais contou.

Mas afinal, por que a autora era conhecida como A Grande Bruxa da Literatura Brasileira? Que espécie de vínculo Clarice teria estabelecido com o universo mágico da feitiçaria? Por que seu próprio amigo Otto Lara Resende advertia aos leitores para tomarem cuidado com Clarice, afirmando não se tratar apenas de literatura, mas de bruxaria? “O 7 era meu número secreto e cabalístico. Há 7 notas com as quais podem ser compostas todas as músicas que existem e que existirão, e há uma recorrência de adições teosóficas que podem ser somados para revelar uma quantia mágica […] Eu vos afianço que 1978 será o verdadeiro ano cabalístico. Portanto, mandei lustrar os instantes do tempo, rebrilhar as estrelas, lavar a lua com leite, e o sol com ouro líquido. Cada ano que se inicia, começo eu a viver outra vida”. E apesar de ter morrido algumas semanas antes de iniciar o então ano cabalístico, decerto todos esses seus hábitos ritualísticos, esclareçam porque Clarice teria aceitado com presteza e entusiasmo o inusitado convite do ocultista colombiano Bruxo Simón, para participar como palestrante do 1º Congresso Mundial de Bruxaria.


Para quem quer conhecer o lado místico da autora, parece que esse livro (apesar do tom sensacionalista) pode ajudar.

Você pode comprar baratinho, com desconto, aqui no Falando em Literatura (EUR 4,21, cerca de 16 reais), “O segredo de Clarice Lispector”, de qualquer lugar do mundo, já que está em formato digital. Você pode ler através do Kindle, iBooks ou qualquer e-reader, no celular, tablet, computador ou iPad. É só clicar no link abaixo:

O Segredo de Clarice Lispector (Portuguese Edition)

Depois me diz o que achou. Boa leitura!

Resenha: “Os vestígios do dia”, do Nobel Kazuo Ishiguro


Kazuo Ishiguro (Nagasaki, 08/11/1954), japonês, mas oficialmente é britânico, já que o Japão não admite dupla cidadania. Foi morar com os pais na Inglaterra quanto tinha cinco anos. É doutor em Escrita Criativa e ganhou o Nobel de Literatura nesse ano, uma escolha muito mais unânime que o anterior Bob Dylan. Ishiguro estreou como escritor em 1982 com o livro “Pálida luz nas colinas”. É casado com  Lorna MacDougall.

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Os principais temas das suas obras são: o tempo, a memória e a esperança; e também, a amizade e o amor. Assuntos que me parecem fascinantes. Em sua obra também há algo de literatura fantástica.

O objeto dessa resenha é o livro “Os vestígios do dia” (“The remains of the day”, 1989), que virou filme protagonizado por Emma Thompson e Anthony Hopkins. Há traduções com nomes diferentes:  “Os restos do dia” e “Despojos do dia” (2009). O filme foi indicado ao Oscar e o livro ganhou o Man Book Prize, o prêmio mais importante da língua inglesa. Esse livro é considerado a obra- prima de Ishiguro.

Outro livro dele que foi para a telona: “Nunca me abandones” (2010), com a participação de uma atriz que adoro, Keira Knightley, está na Netflix, inclusive. Mas esse fica para uma outra resenha. 

Vamos à obra.

A história acontece na Inglaterra durante o mês de julho de 1956, há um prólogo explicando. A história acontece em seis dias. Stevens é o narrador- personagem, ele é mordomo há trinta e cinco anos na mansão  “Darlington Hall“. O antigo dono, Lord Darligton, faleceu e a mansão foi vendida ao “mister Farraday“, um estadunidense. Ele viaja para a sua terra por cinco semanas e sugere ao mordomo que faça uma viagem para conhecer a Inglaterra, seu país, durante alguns dias. Stevens conhecia sua terra através de um livro de sete volumes chamado “As maravilhas da Inglaterra”, de Jane Symons, da década de trinta. O protagonista cita a autora muitas vezes.

Na mansão chegaram a trabalhar vinte e oito criados; agora, apenas quatro: Stevens, as novatas Rosemary e Agnes, além de mistress Clements, essa, trabalhadora antiga. O mordomo é perfeccionista e serviçal, mas sente- se esgotado.

Depois de receber uma carta de uma ex- trabalhadora da mansão, miss Keaton, o mordomo aceita a proposta do patrão. Pretende ir de carro (do patrão e gasolina paga por ele) até o oeste do país, e no caminho, deseja encontrar com a mulher para ver se ela aceita voltar a trabalhar na mansão. Stevens começa a planejar a viagem.

O jeito muito “british” do mordomo, polido, formal, perfeccionista contrastando com o do patrão americano, brincalhão, irônico e informal ficam bem marcados na narrativa.

No primeiro capítulo: “Primeiro dia pela noite- Salisbury”, a mansão fica sozinha pela primeira vez em séculos. Todos os empregados saíram de férias, além do patrão, que foi para os Estados Unidos.

Stevens começa a ver o mundo, pela primeira vez, sem ser a trabalho. Hospeda- se numa pensão em Salisbury. O mordomo vê uma paisagem deslumbrante e faz uma declaração de amor ao país:

(…) o caráter único da beleza desta terra é consequência de uma falta evidente de grandes contrastes e de espetacularidade, no entanto se destaca, ao contrário, por sua serenidade e comedimento, como se o país tivesse uma íntima e profunda consciência de sua grandeza e sua beleza, e não necessitasse exibí- la.” (p.37)

O homem tenta ser o melhor na sua profissão. Stevens discorre longamente sobre “o que é ser um bom mordomo?” Em Londres, era (ou é?) um assunto muito importante, tanto, que havia até clubes privados e sociedades para mordomos, como a Hayes Society, dos anos vinte. Só entravam os de alta classe. Essa história de chamar de “gentleman” a um homem com modos refinados vem muito disso, desses clubes sociais ingleses, que exigiam bons modos e um refinamento muito superiores à maioria dos mortais. Uma conduta impecável. O seu pai também foi mordomo e demonstrou o nível de exigência pessoal que a profissão impõe, passo a relatar no trecho abaixo:

O filho mais velho do mordomo, Leonard, faleceu na guerra da África do Sul de uma maneira nada honrosa. Seu batalhão atacou civis, foi uma ação irresponsável comandada por um general incompetente, muitas mortes poderiam ter sido evitadas, inclusive a do seu filho. O pai de Stevens teve que atender esse general por quatro dias na casa onde trabalhava por causa de uma festa, servindo o homem que odiava como se fosse qualquer outro convidado, mas era o responsável pela morte de seu filho. O general deixou uma gorjeta importante ao mordomo e ele a doou à uma instituição de caridade.

O pai do protagonista, Stevens ( igual do filho) aparece como uma figura que desperta compaixão, pena e até um pouco de tristeza. A velhice que, se tivermos sorte aparece como algo limitante fisicamente, mas forte, que enfrenta sem medo as adversidades. Stevens pai é assim. Ele levou uma queda e desmaiou enquanto carregava uma bandeja. A partir disso, o patrão e outros empregados começaram a achar que ele não era mais válido, apesar de ter servido a mansão durante 54 anos. Os erros, tudo indica, são mais importantes que os acertos, mesmo que infinitamente menores que as benfeitorias. Stevens não se desesperou, mostrou- se absolutamente digno quando o próprio filho lhe comunicou que ele passaria a executar tarefas mais simples.

Uma coisa que me chamou muito a atenção é a escravidão branca. A negra, cruel e perversa, já conhecemos bem, mas a branca é pouco falada. Se essa obra tiver alguma verossimilhança com a realidade, que acho que tem, esses empregados domésticos ingleses eram praticamente escravos. Viviam em quartos minúsculos, uma pobreza franciscana, um nível de exigência altíssimo, horas infinitas de trabalho e a remuneração ínfima. Uma espécie de escravidão sim.

Stevens é testemunha de várias reuniões na mansão, que começaram em março de 1923, entre homens poderosos de vários países europeus. Eles tentavam chegar a um acordo de conciliação com a Alemanha no período pós- guerra.

Numa dessas reuniões, Stevens pai passou mal e teve que ser levado ao seu quarto. O filho continuou servindo os senhores, enquanto seu pai desfalecia. O filho só pode ver o pai dois dias depois estando na mesma casa. O pai quis saber se o serviço estava saindo perfeito, e depois, aconteceu esse breve diálogo, íntimo, em tom de despedida: (p.106)

— Espero ter sido um bom pai.
Sorri e lhe disse:
— Estou muito contente que se sinta melhor.
— Me sinto orgulhoso de você. É um bom filho. Desejaria ter sido um bom padre, ainda que temo que não tenha sido.
— Agora tenho muito trabalho, mas amanhã pela manhã falaremos de novo.

Horas mais tarde, Stevens foi avisado que seu pai estava muito mal. Mas, “a obrigação em primeiro lugar”. O seu pai estava morrendo enquanto ele, com um sorriso, servia o jantar. É ou não é uma escravidão?! Além disso, os filhos nunca acham que os pais irão morrer.

A atitude do filho, a aparente frieza, também é uma forma de auto- engano, de fuga, de querer barrar o inevitável, como se ignorar o fato do seu pai estar morrendo, impedisse que ele se fosse para sempre. Stevens filho, não era frio, inclusive teve que enxugar o rosto com um lenço durante o trabalho. De fato, seu pai faleceu quatro minutos depois dessa última cena (p. 114).

Stevens não tem coragem de subir para fechar os olhos do pai. Dá a desculpa de que o pai gostaria que ele continuasse a trabalhar. Fiquei com um nós na garganta. Pude sentir a dor e a desorientação de Stevens.

A dor e a morte ficam nos bastidores. Stevens desceu com uma garrafa de vinho do Porto para os senhores que estão na sala de fumar. Tudo contado com muita sutileza, um trabalho fino de escritura.

Monsieur Dupont exige do mordomo umas vendas para a dor dos seus pés, enquanto a sua própria dor não era sabida por ninguém.

Stevens recorda esse dia como um grande triunfo. Não deixou a sua dor pessoal atrapalhar seu serviço como mordomo. A “dignidade” que é exigida aos mordomos de alto nível.

No segundo dia da viagem, o Ford do patrão quebra e Stevens para em uma mansão e pede auxílio. É ajudado pelo empregado do casarão, que faz todas as funções na casa, que é de um coronel. A mansão está em desuso, o dono quer vendê- la. No Ford só falta água no radiador. Ele acaba conhecendo o lugar e pessoas que não falam muito bem do seu antigo patrão, lorde Darlington. Stevens o defende em nome dessa “dignidade” de mordomo que foi aprendida ao longo de trinta e cinco anos de serviço.

No terceiro dia de viagem, ele se hospeda em uma pousada chamada Coach and Horses, em Taunton, Somerset. Nós viajamos também com o protagonista. Esta pousada realmente existe, veja aqui.

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Pousada “Coach and Horses Inn”, citada no capítulo “Terceiro dia pela manhã”, p. 137

O dono da pousada chama Bob e ronca demais, segundo os frequentadores do bar. O mordomo tenta ser engraçado, igual faz com o patrão americano, que sempre espera que Stevens devolva com humor suas colocações. E diz que não tem importância que o homem ronque e o compara com um galo. Depois arrepende- se pensando que pode ter ofendido as pessoas, já que ninguém achou graça. E o mordomo reflete sobre como pode ser perigoso usar o humor.

O passeio pelo condado de Somerset é entremeado por lembranças da sua vida em Darlington Hall. E a ansiedade de rever miss Kenton vai aumentando. Agora só faltam quarenta e oito horas.

O quinto capítulo acontece no “Terceiro dia pela tarde”, em Moscombe, perto de Tavistock, Devon. (p.153)

Ele começa falando dos judeus e conta sobre um episódio desagradável, quando o patrão, Lorde Darlington, mandou despedir criados judeus, porque podiam ofender alguns convidados e comprometer a segurança, influenciado por mistress Carolyn Barnet. Havia duas moças judias que trabalhavam há seis anos na mansão. Para Stevens, o que falava o patrão era lei. Para miss Kenton não. Ela despediu as moças a contragosto e muito ofendida. A relação ficou difícil com o mordomo durante semanas, inclusive ela ameaçou abandonar a casa.

Tempos depois o patrão, arrependido e sem a influência de mistress Barnet, mandou localizar as moças de volta, Ruth e Sarah. Enquanto isso, tiveram que substitui- las por outras duas. Uma delas, Lisa, era muito bonita e o mordomo se opôs, sob a insistência de miss Kenton. Ela coloca em evidência que o mordomo não gosta de contratar mulheres bonitas para que ele mesmo não caia em tentação. O homem rebate o pensamento de todas as formas. Depois de um tempo, Lisa vai embora e fica comprovado que o mordomo tinha razão sobre a falta de competência da moça. Stevens renunciou totalmente a sua vida pessoal e amorosa para servir a outros.

A viagem continua e Stevens recorda sempre episódios vividos com miss Kenton. Claro que até aqui já estou convencida do seu amor por essa mulher, mas como ele é muito reservado e na obra inteira vai revelar esse fato. Ele fazer essa viagem só para vê- la, já é um grande indício. O que não é dito é muito importante nessa narrativa.

Há várias situações, com pretextos profissionais, que Stevens tenta se aproximar de miss Kenton. Há alguns arrependimentos. Ele imagina como teria sido se tivesse feito diferente. Mas agora ele está tentando ao menos. Está a um dia de encontrar Miss Kenton.

O último capítulo é “Sexto dia pela tarde- Weymouth” é de apertar o coração. Tempo, maldito tempo…

Stevens chega a essa cidade no litoral, já cansado de dirigir, depois de termos acompanhado todas as suas lembranças e sentimentos em relação à várias coisas e, principalmente, à senhorita Kenton. Claro que já estava esperando um encontro romântico, mas seria óbvio demais.

Ele conta como foi o encontro com miss Kenton dois dias depois. Ela chegou no hotel que ele estava hospedado de surpresa, o Rose Garden, em Little Compton. Esse não achei exatamente com o mesmo nome e nem no mesmo lugar.

O reencontro. Ela, envelhecida, com um olhar triste, só que mais calma, resignada. Continua casada, é ainda a senhora Been. Ficou separada apenas cinco dias, foi quando escreveu a carta a Stevens contando como se sentia desgraçada e enchendo o homem de esperanças. Tem uma filha e já vai ser avó.

Ela ainda se sente desgraçada, mas tem que fazer o que tem que fazer, como ele que precisou servir aos senhores enquanto o seu pai estava morrendo. A vida é assim, somos o resultado das nossas escolhas. A obrigação supera os sentimentos pessoais:

“(…) ‘Que fiz com a minha vida?’, e penso que teria preferido seguir outro caminho, que talvez tivesse me dado uma vida melhor. Por exemplo, penso que a vida teria sido melhor com o senhor, mister Stevens. (…) Depois de tudo, não se pode retroceder o tempo. Não podemos sempre estar pensando no que poderia ter sido.” (p. 247)

“A senhora tem toda razão, mistress Benn. Já é tarde demais para retroceder o tempo. Além do mais, não viveria tranquilo se por culpa destas ideias a senhora e seu marido fossem desgraçados. Como muito bem observou, todos devemos agradecer pelo que de verdade temos. (p. 247)

É uma história muito realista, que acontece com muita gente…o tempo e sua inexorável crueldade.

Esse é um livro com trechos brilhantes, e que no seu conjunto, consegue retratar bem um período e uma camada específica da sociedade inglesa, além de suas paisagens. A narrativa é limpa e clara, trabalhada cirurgicamente, nada falta, nada sobra. É uma obra também de silêncios que contam muito. Capta alguns sentimentos universais, principalmente o estrago do tempo e o  sacrifício pessoal absoluto em nome da honra e da dignidade.

O título da obra é um resumo perfeito da história. Depois de tudo, só ficaram vestígios, restos do que foram, do que queriam, do que um dia sonharam.


O meu exemplar de referência é uma edição espanhola (vocês já estão cansados de saber que eu moro na Espanha, não é?!), que ao pé da letra fica “Os restos do dia”. A tradução de Ángel Luis Hernández Francés, muito boa. Vocês podem encontrar essa edição brasileira aqui: “Os vestígios do dia”, da Companhia das Letras, ou aqui. 

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Ishiguro, Kazuo. “Los restos del día”, Anagrama, 9ª edição, Barcelona, 2017. Páginas: 255 #falandoemliteratura @falandoemliteratura

Resenha: 24 horas na vida de uma mulher”, de Stefan Zweig


Essa é a primeira obra que li de Stefan Zweig (1881- 1942), escritor austríaco, que faleceu em Petrópolis (Rio de Janeiro) junto à esposa Lotte. O casal judeu cometeu suicídio motivado pela guerra (Holocausto) que acontecia na Europa. A obra agradou- me muito, recomendo!

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Stephen Zweig com a esposa Lotte Altmann

Veja a carta  de despedida que o autor deixou:


DECLARAÇÃO

Antes de deixar a vida por vontade própria e livre, com minha mente lúcida, imponho-me última obrigação; dar um carinhoso agradecimento a este maravilhoso país que é o Brasil, que me propiciou, a mim e a meu trabalho, tão gentil e hospitaleira guarida. A cada dia aprendi a amar este país mais e mais e em parte alguma poderia eu reconstruir minha vida, agora que o mundo de minha língua está perdido e o meu lar espiritual, a Europa, autodestruído. Depois de 60 anos são necessárias forças incomuns para começar tudo de novo. Aquelas que possuo foram exauridas nestes longos anos de desamparadas peregrinações. Assim, em boa hora e conduta ereta, achei melhor concluir uma vida na qual o labor intelectual foi a mais pura alegria e a liberdade pessoal o mais precioso bem sobre a Terra. Saúdo todos os meus amigos. Que lhes seja dado ver a aurora desta longa noite.

Eu, demasiadamente impaciente, vou-me antes.

Stefan Zweig


O poema abaixo, o autor escreveu no seu aniversário de 60 anos, poucos meses antes do suicídio, uma declaração do que pretendia:


Pressentimento

As horas dançam com langor
Sobre os cabelos cinza-prata;
Só quando a taça é esvaziada,
O fundo de ouro mostra a cor.

Sentir tão perto o mais profundo
Dos sonos não transtorna… acalma.
Só quem já sossegou a alma
Contempla satisfeito o mundo.

Do que alcançou não mais duvida;
Não mais lamenta o que perdeu.
Sabe que envelhecer é seu
Caminho para a despedida.

Na derradeira luz do dia
É que a paisagem se libera;
E o homem ama a vida à vera
Quando, no escuro, a renuncia.

Trad. André Vallias


Vamos ao livro, “24 horas na vida de uma mulher”.

A história acontece dez anos antes da II Guerra Mundial, em uma pensão em Monte Carlo com vistas ao mar, um anexo do Palace Hotel, onde moram sete personagens burgueses: um casal alemão, um dinamarquês, uma inglesa, um casal italiano e o narrador, parece ser o alter ego do autor, não há detalhes sobre ele. Reunidos em uma mesa, estão exaltados e tentam entender um episódio que acaba de ocorrer. Vamos aos fatos.

A chegada de um jovem francês belíssimo, que inspira confiança e simpatia, revolucionou o lugar em apenas alguns dias. Ele alugou um quarto de frente ao mar, se enturmou rapidamente e também foi embora apressadamente em um trem. Desaparece a senhora Henriette, uma mulher casada de 33 anos e mãe de duas filhas. O marido encontra uma carta: a mulher o tinha abandonado.

A turma da pensão começa a especular se a senhora Henriette fugiu para ir atrás do vigarista, ela tinha conversado com ele durante apenas duas horas;  já o conhecia anteriormente? O narrador acha que a mulher fugiu de um casamento entediante. Os dois homens casados ofendem- se e contra- atacam “dizendo que só podia falar assim quem avaliava a psique feminina segundo conquistas casuais e baratas feitas por solteirões” ( p. 21). A discussão ganhou tom de ofensa.

Todos especulam sobre as razões que uma mulher como a srª Henriette abandone tudo sem se despedir. Vítima de um vigarista ou “espírito de prostituta”? Falta de liberdade, tédio? Apaixonou- se? Leviana, um espírito fraco? O narrador defende a mulher, acredita que a opinião pública é a pior e mais cruel das “justiças”, a mais severa. O julgamento moral é mortal muitas vezes.

E essa discussão toda e eles nem sabem realmente se a mulher casada foi atrás do moço bonito. São só suposições. E o espírito de união do grupo foi quebrado. Ficaram frios e distantes uns com os outros.

O narrador tem mais simpatia pela senhora inglesa, Mrs. C,  de 67 anos e viúva aos 40. Ela tem algo que contar- lhe, uma confidência, trocam bilhetes e marcam um encontro no apartamento da mulher. A história que ela quer contar é a sua, “apenas 24 horas dentro de 67 anos”. Ela repetiu a vida toda: “que importa ter uma vez agido com insensatez?” (p.37)

Mrs. C. autoacusa- se há 25 anos. Ela acha que contar esse único dia da sua vida, que aconteceu quando tinha 42 anos,  será uma forma de libertação ou de consolo. Que a inglesa fez nesse dia para ter problemas de consciência diariamente durante tanto tempo?

Ela frequentava cassinos, costume herdado do marido falecido; também aprendeu a ler as mãos, não como as ciganas que “preveem” o futuro. Ela lia as mãos, seu formato e gestos, acreditava que se sabia mais da pessoa assim, que olhando para o seu rosto. Fixou- se em umas mãos que jogavam e ficou extasiada. Teve que ver de quem pertenciam. Resultado: eram de um moço de 24 anos, que ela observou por uma hora e leu que ele iria cometer suicídio depois de ter perdido tudo no jogo. “Fiquei petrificada. Pois logo compreendi para onde ia essa pessoa: para a morte.” (p. 62)

Decidiu correr atrás do rapaz, um polonês ludomaníaco, para tentar impedir o que havia previsto.

O homem sentou num banco, imóvel. Começou a chover, ele continuou imóvel. A mulher abrigou- se debaixo de uma marquise. O homem derrotado desistiu da vida ali debaixo do dilúvio. A inglesa ganhou coragem, venceu a timidez,  correu na chuva até o rapaz e o levou para um hotel. Eu não posso dizer o que ela fez a noite toda com o rapaz, pois seria spoiler.

A intensidade dos sentimentos não entende de tempo. Mr. C. viveu mais em 24 horas, que em toda a sua vida. “Acaso alguma vez na vida fui mais feliz do que naquela hora?” (p.110). Para ela foi “felicidade em excesso” (116).

A despedida foi decepcionante. O abraço não dado às vezes é mais marcante do que os que já aconteceram, porque fica o desejo:

“…porque aquele jovem fora embora tão obedientemente…sem nenhuma tentativa de ficar comigo… que ele obedecesse humilde e respeitoso à minha primeira tentativa de me afastar… em vez de tentar me abraçar (…). ” Eu teria ido com ele até o fim do mundo, desonrando meu nome e o dos meus filhos, indiferente aos mexericos das pessoas e à sensatez delas, eu teria fugido com ele como aquela Madame Henriette com o jovem francês (…) (p.121)

Houve um último encontro, e esse, lhe revelou toda a verdade.

É uma história comovente. Como a solidão e o desejo de amar podem armar arapucas, ilusões. E como a mentira pode ser fator cotidiano na vida de determinadas pessoas.

Este era um dos livros favoritos de Freud, porque os personagens têm perfis psicológicos bem interessantes.

A tradução é de Lya Luft, o que é de se agradecer, muito bem feita.


Zweig foi um escritor prolixo e teve uma vida muito intensa, há muito do que se falar sobre ele. Volto com mais em outro post.

A casa de Stefan Zweig virou museu, você pode visitá- la em Petrópolis, veja mais detalhes aqui.

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Zweig, Stefan. 24 horas na vida de uma mulher, L&PM Pocket Plus, Epub. Páginas: 112

Resenha: “O seminarista”, de Bernardo Guimarães #RevisitandoOsClássicos #1


“Crescent illae, et vos crescentis, amores”
(“As árvores hão de crescer, e com elas haveis de crescer vós, meus amores” – Virgílio citado na p. 88)

Aqui começa uma série: Revisitando os Clássicos Brasileiros. O que significa?

São livros que eu já li há muito tempo e tenho vontade de reler. O tempo, a experiência leitora, transformam e mudam as nossas percepções. Aconteceu dessa forma com “O seminarista”, de Bernardo Guimarães: (re)li um novo livro. E essa constatação óbvia, mas interessante, me fez criar esse post, o primeiro de uma série, espero.

Para quem nunca leu, ou leu poucos clássicos da literatura brasileira, vamos começar?!

A primeira obra escolhida: “O Seminarista” (1872), de Bernardo Guimarães.

Brevíssima Biografia do Autor
O mineiro Bernardo Guimarães nasceu e morreu em Ouro Preto (1825- 1884). Juiz e escritor de prosa e verso, foi membro da Academia Brasileira de Letras. Inclusive você pode ler a biografia completa do autor no site da ABL. Casou- se com Maria Teresa e teve oito filhos. Era tio do poeta Alphonsus de Guimarães, que foi noivo de sua filha Constança, falecida aos dezessete anos por causa de uma tuberculose.


O livro é uma narração, e pela extensão, é uma novela. As novelas são mais curtas que os romances, esses, dentro do cânone literário, devem ter mais de 300 páginas; portanto, vou chamar pelo nome correto, embora no Brasil, o chamem de “romance”, normalmente. Dentro da narração, novela e romance são gêneros literários diferentes. E em outros idiomas/países, como na Espanha, não os diferenciam só pela extensão, mas também pelo teor: nesse país, o romance ganha ares fantásticos. O termo mais comum  é “novela”, ao contrário do Brasil.

Essa novela está dividida em vinte e quatro capítulos.

O enredo

O enredo é a história em si, do que trata o livro, a trama, a ação. Em “O Seminarista”, a história não é original, mas funciona: o amor impossível. Um seminarista apaixonado pela amiga de infância, um amor inesperado, já que Margarida era como sua irmã. E isso traz um monte de complicações para a vida de ambos.


Os pais de Eugênio acham que o filho tem vocação para a vida eclesiástica, porque brincava de ser padre na infância. Na época, a vida religiosa era algo que dava muito status e respeito.

Então, lá se foi Eugênio para o Seminário de Congonhas do Campo, aos 13 anos, com o coração partido. Uma mudança radical na sua vida.

Eugênio,  entre tarefa e tarefa, pensava em Margarida. Uma espécie de melancolia o acompanhava o tempo todo. Ele não conseguia concentrar- se nos estudos. Custou- se acostumar- se e assim passaram- se doze anos. O menino cresceu dentro do seminário. E Margarida continuou no seu coração.

Com dezesseis anos, começou a ter problemas, pois o padre regente descobriu alguns poemas de amor de Eugênio destinados a uma tal “Margarida”. O padre, que era também seu professor, gostou da veia poética do rapaz e levou os escritos ao diretor, que ficou indignado e assombrado. Chamou Eugênio e foi bastante duro com ele. A partir disso, toda vez que Eugênio sonhava com Margarida, sentia pânico, rezava, fazia jejum e pagava penitência, como se o amor fosse um castigo, uma doença. Doente ficou o menino, emagreceu muito, ficou com uma aparência “às bordas da sepultura”. (p.66)

Essa parte do livro é triste e forte…choca. Tudo com a instrução e aval do padre. O fanatismo religioso é um mal terrível (na realidade também!)!

Depois de quatro anos sem ver a sua família, nem Margarida, voltou para casa. Imagina o reencontro dos dois….a descrição do autor desse momento é mágico! Um turbilhão de emoções em questão de segundos. Quem já se apaixonou sabe como é difícil explicar. A literatura explicando sentimentos universais desde sempre…

Estava como que espantado, com os olhos fitos em Margarida, querendo falar, e não achando nada que dizer. As grandes emoções lançam uma nuvem no espírito e paralisam a língua. (p.82)

Como esquecer um grande amor? Já que quanto mais se tenta esquecer, mais se lembra? Não tente, porque vai perder a batalha, mantenha- se distraído, só isso…

As puras e santas afeições da alma, longe de a desviarem do caminho do céu, são asas com que mais depressa se eleva ao trono de Deus. (p.38)

Espaço e Tempo

A história começa na “província” de Minas Gerais (terra do autor). Na época em que foi escrita a novela, o Brasil ainda era uma colônia de Portugal,  um país monárquico. Veja a descrição do lugar, já no primeiro parágrafo, junto com o tempo (“há quarenta anos”).

A uma légua, pouco mais ou menos, da antiga vila de Tamanduá, na província de Minas Gerais, e a pouca distância da estrada que vai para a vizinha vila da Formiga, via- se, há de haver quarenta anos, uma pequena e pobre casa, mas alva, risonha e nova. Uma porta e duas janelinhas formavam toda a sua frente. (p.2)

A descrição da casa de Margarida e sua mãe Umbelinda é perfeita, ela parece sorrir, toda feliz e faceira! Bernardo Guimarães era um excelente narrador, mestre na descrição. A construção das paisagens e pessoas é muito visual, retratos perfeitos. É uma delícia ler e entrar nos cenários criados pelo autor,  são bem fidedignos. Esse é um dos elementos que transformam a literatura em uma grande forma de expressão artísticas, social, antropológica…

A magia das palavras. A prosa de Bernardo também é poética.

Genial essa metáfora (analogia), veja: “Eram quase ave- marias.” (p. 6). Gostei!

Personagens

Eugênio é o protagonista, personagem principal, o futuro seminarista, menino no início da história (12- 13 anos). Filho do capitão Francisco Antunes. Tem dois irmãos mais velhos que não aparecem na história, casaram e foram embora. Foi criado junto com Margarida, que é como sua irmã.

O rapaz era alvo, de cabelos castanhos, de olhar meigo e plácido e em sua fisionomia como em todo o seu ser transluziam indícios de uma índole pacata, doce e branda. (p.3)

Na página 73

Margarida, filha de Umbelina, órfã de pai, mora numa casinha emprestada nas terras do padrinho, Capitão Antunes, pai de Eugênio.

A menina era morena; de olhos grandes, negros e cheios de vivacidade; de olhos grandes, negros e cheios de vivacidade, de corpo esbelto e flexível como o pendão da imbaúba. (p.3)

Na página 73, há nova descrição de Margarida já moça.

Umbelina,  mãe de Margarida, mora nas terras do Capitão Antunes junto com a filha Margarida e uma escrava. E viúva e comadre dos donos da fazenda.

Era uma matrona gorda e corada, de rosto sempre afável e prazenteiro (…) (p.11)

Capitão Francisco Antunes, pai de Eugênio e padrinho de Margarida, fazendeiro honesto, tinha poucos escravos e muitos agregados na fazenda, dos quais não cobrava nada.

Senhora Antunes, esposa de Francisco Antunes, mãe de Eugênio e madrinha de Margarida. Não é tão legal, trata mal a escrava Josefa. É bastante supersticiosa. Apegou- se à Margarida desde bebê, ensinou-lhe a costurar.

Luciano Gaspar de Oliveira Faria e Andrade,  invejoso do tamanho do seu nome. Atrapalhou a vida dos apaixonados. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. É só a arte imitando a vida.

A linguagem

Uma coisa que achei inverossímil (longe da realidade) foram os diálogos. O povo da roça, nem mesmo os patrões, podiam falar com a correção gramatical exposta pelo autor. Havia outras línguas de contato, muitos imigrantes, indígenas, escravos, uma grande maioria de analfabetos, um português tão correto me pareceu impossível.

A obra carece de uma mais linguagem coloquial, o que concordaria mais com a história. Curioso, porque costuma- se dizer o contrário desse escritor, que o tom de suas obras é coloquial. Vai ver “O Seminarista” é a exceção.

O narrador fala como um português. Se a gente der por certo que era a forma usada em 1832, época que o autor retrata, nota- se como em 185 anos, o português do Brasil transformou- se e distanciou- se muito do idioma luso.

Curiosidades

Bernardo Guimarães cita Aleijadinho (1738- 1814), de uma forma nada agradável, uma crítica destrutiva e maldosa, na boca do seu narrador (p. 30) :

É sabido que estas estátuas são obra de um escultor maneta ou aleijado da mão direita, o qual, para trabalhar, era mister que lhe atassem ao punho os instrumentos.

Por isso sem dúvida a execução artística está muito longe da perfeição. Não é preciso ser profissional para reconhecer nelas a incorreção do desenho, a pouca harmonia e falta de proporção de certas formas. Cabeças mal contornadas, proporções mal guardadas, corpos por demais espessos e curtos e outros muitos defeitos capitais e de detalhes estão revelando que esses profetas são filhos de um cinzel tosco e ignorante…

Eugênio vai justamente para o seminário em Congonhas, no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, onde estão as obras sacras de Aleijadinho, consideradas as suas obras- primas.

Recalcado o Guimarães, não?! O escritor e o escultor nasceram na mesma cidade de Ouro Preto.

E veja também como é feio chamar alguém de “Aleijadinho”. Uma das funções da literatura é essa também, de nos trazer o passado para melhorar no futuro. Hoje em dia é inaceitável chamar alguém por um problema físico. O artista perdeu a sua identidade, quem sabe o nome de Aleijadinho? Eu sei agora, porque fui pesquisar: Antônio Francisco Lisboa (valeu Wiki!).

Um salve para o Antônio, que mesmo com sua deficiência física, provavelmente escravo ou filho de escravos (sabe- se muito pouco sobre a sua biografia e mesmo assim, ela é incerta), no interior do Brasil colonial, deixou uma obra reconhecida mundialmente. Deixo aqui o compromisso: estudar a obra de Antônio.

Depois de ler o trecho sobre o Aleijadinho (me custa escrever, já não é hora de chamá- lo pelo nome, acho um desrespeito!), já tomei uma bronca de Bernardo, que passei a caçar tudo de negativo na obra dele, sou dessas. Na adolescência minhas leituras eram mais ingênuas, eu deixava passar muitos detalhes. Mas a sorte dele, é que realmente escreve bem.

Além disso, a gente sabe que a voz da narrativa não é o autor, mas foi ele que colocou esse pensamento na boca do narrador e a gente dá aquela gongada de todas as formas. Abaixo, trecho:

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O autor mostrou usos e costumes da roça, um tipo de dança chamada “quatragem”, os mutirões e as festas.

E voltando à história de amor…Eugênio foi proibido pela mãe de ir à casa de Margarida quando este lhe confessou a sua falta de vocação para o sacerdócio. Isso não impediu que os apaixonados trocassem promessas e juras, fortaleceram- se mais ainda.

A linda Margarida é muito cortejada, apareceu um terceiro para atrapalhar, Luciano, invejoso e maldoso, notou o que havia entre Eugênio e Margarida. Tratou de atrapalhar. Entre os pais de Eugênio e o tal Luciano, o desejo do casalzinho de ficar junto foi ficando cada vez mais difícil. Eugênio adoeceu. Eugênio prometeu à Margarida que jamais seria padre, jurou que voltaria.

Os pais podem destruir a vida dos filhos se não aceitarem como são . Os pais têm uma tendência a querer moldar os filhos baixo seus próprios desejos, moral, necessidades e costumes, como se fossem um ser único. Pais e filhos, muitas vezes, estão nas antípodas. Aconteceu com Eugênio e acontece na vida real. A ditadura maternal e paternal pode matar de muitas formas. Margarida e Umbelina foram expulsas da fazenda. Umbelina faleceu.

Grande é o poder do tempo. O próprio braço da dor, quando não consegue esmagar a sua vítima, por fim de contas esmorece fatigado, e o seu estilete, por mais buído que seja, acaba de embotar- se” (p.161)

Eugênio passou por um vale de sombras, de terror, para poder seguir em frente. Há várias alegorias religiosas ilustrando esse deserto que ele teve que cruzar para tentar destruir um sentimento muito forte, que não pode existir, a sua via crucis, e para piorar, chegou a notícia: Margarida casou- se. (SPOILER: mentira, nunca casou- se e também estava doente, mas eugênio nunca soube).

Anos mais tarde, Eugênio volta, já padre, para a Vila do Tamanduá. Via a casa de Umbelina e Margarida em ruínas. As suas pernas tremeram. Sentimentos como esses nunca morrem. Alguém chamou o padre para dar uma extrema- unção. Fácil adivinhar, não?

São as almas sujas da Terra, as que destruíram esse amor, por vaidade, inveja, maldade pura; são as que mentem, enganam, manipulam para possuir o que jamais terão. Assim como na vida. Nem com tanta gente contra, família e religião, nada conseguiu impedir o encontro- ainda que breve.

Gostei muito do final. Eugênio, de certa forma, conseguiu cumprir a sua promessa, além de dar, mesmo sem querer, uma boa lição nos energúmenos dos seus pais.


“O Seminarista” é uma obra muito intensa, bem escrita, emocionante, que desperta vários sentimentos: de ternura, beleza, raiva, pena, indignação. E a obra não te custará absolutamente nada. Ele está no banco de clássicos gratuitos do governo do Brasil, o Domínio Público. Não foi o deles que eu li, pois eu já tinha um no tablet, que baixei por 0,99 cêntimos (de euro), foi esse:

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Guimarães, Bernardo. O seminarista. PDF (no iBook, sem editora). Páginas: 237- Preço: 0,99€

Disponível gratuitamente no site Domínio Público, do governo do Brasil.

 

 

Onze livros para sorteio!


Na véspera da Páscoa, vamos animar o coreto?! Sorteio de 11 livros, já que só faltam 10 pessoas para atingirmos 11 mil curtidas no Facebook.

Escolhi 11 livros da minha biblioteca para o sorteio:

  1. “O desejo de Kianda”, do angolano Pepetela, comprado em Lisboa.
  2. “Amar se aprende amando”, do brasileiro Mário de Andrade.
  3. “A poesia da notícia”, do brasileiro Thiago David.
  4. “Pedro”, do brasileiro Luis Taques.
  5. “Olhares”, do português Rui Chafes, edição bilingue inglês- português, comprado na Universidade de Coimbra.
  6. “Ensino da língua materna”, da portuguesa Maria José Ferraz, muito bom para professores.
  7. “Navegando”, do brasileiro Rubem Alves.
  8. “Em busca do tempo perdido- Sodoma e Gomorra”, do francês Marcel Proust.
  9. “O alienista”, do insuperável brasileiro Machado de Assis.
  10. “Meio ambiente e formação de professores”, da brasileira Heloísa Dupas Penteado, também excelente para professores.
  11. “Só”, do português Antônio Nobre, também comprado em terras lusas.

Agora, atento(a) para as regras do sorteio:

  1. Curtir a página do Falando em Literatura no Facebook.
  2. Marcar três amigos no post do sorteio (esse) que vai estar no Facebook.
  3. Pode participar gente de qualquer lugar do mundo.
  4. Uma pessoa não pode ganhar dois livros. Ganhando um, automaticamente sairá do sorteio dos demais.

Não é obrigatório, mas seria gentil que compartilhassem o post também.

E atenção! Este sorteio só será realizado se, no mínimo, 50 pessoas marcarem seus amigos lá no Facebook.

Detalhe: os livros já foram lidos por mim, alguns estão como novos, mas há alguns que estão sublinhados e com anotações (antes eu fazia isso, agora não mais).

O sorteio será realizado no dia 15 de maio de 2017.

O quiz da semana: Lima Barreto!


Como vão os seus conhecimentos sobre Lima Barreto, um dos maiores escritores que o Brasil teve? Preparei algumas perguntinhas básicas sobre a vida e a obra do autor, vamos ver quantas você acerta?

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É fácil, vamos lá! Clica aqui e descubra!