Francisco Brennand, o Gaudí brasileiro


Pesquisando para o post sobre o Parque dos Poetas em Portugal, descobri o artista pernambucano Francisco Brennand e fiquei completamente fascinada. Descobri que existe uma semelhança de estilo com o Gaudí catalão (pelo menos eu acho!), o que criou a Sagrada Família em Barcelona. Os brasileiros cruzam o Atlântico para conhecer as obras de Gaudí, o que está muito bem, mas não se esforçam para conhecer a prata da casa. Estou errada?!

Lembro que aprendi na escola a fazer uma caixinha com palitos de picolé. Artesanato é legal, mas a teoria e história da Arte são muito importantes. Artistas brasileiros dessa grandeza deveriam ser matéria obrigatória na escola.

Francisco de Paula Coimbra de Almeida Brennand nasceu a 11 de junho de 1927, na cidade do Recife, capital do Estado de Pernambuco, tem  91 anos (a biografia completa você pode ler no site do artista, aqui).

Agradeço à Revista Isto É, que deixou a reportagem aberta (de 2016), porque outros jornais só permitem o acesso aos assinantes. A foto também é da Isto É, entrevista de Celso Masson:

cult-03-ie.jpg

Brennand nunca se considerou um escultor, uma vez que não esculpe e sim molda peças no barro. “Eu aprendi por tabela, com os artesãos e especialistas em porcelana vindos da Europa e dos Estados Unidos para trabalhar com meu pai. Sou um artista que soube tirar proveito do conhecimento não só familiar como também dos estrangeiros que andaram por aqui”, afirma. “À medida que eu estudava a origem dessas terras, onde se inscreve a Batalha de Guararapes, pude compreender que esse lugar deveria ser eternizado. Aqui há uma história a glorificar. Tem a dimensão do sagrado”.

O ateliê de Brennand fica no subúrbio de Recife e é possível visitar. É um museu, na verdade, um lugar incrível. O artista criou um mundo mágico, excepcional.

Abaixo as fotos do “templo” que Brennand criou em Oeiras, no Parque dos Poetas, em Portugal:

Não deixem de conhecer e pesquisar sobre esse artista brasileiro incrível!

Anúncios

Resenha: “Liberação”, de Luis Goytisolo


Começo contando uma historinha: na Feira do Livro de Madri de 2014, pensei encontrar uma fila quilométrica no estande de Luis Goytisolo Gay (Barcelona, 17/03/1935), afinal, é um dos expoentes da literatura na Espanha, membro da Real Academia Española, desde 1994, é o Proust espanhol. Goytisolo escreveu o prolixo “Antagonía”, são mais de 1000 páginas de luxuosa narrativa. Quando cheguei no seu estande, estranhei:  o autor estava sozinho. Contei sobre a minha surpresa e ele respondeu: “nunca vou ser um escritor popular”. Concordo. Literatura artística, bem elaborada, infelizmente, nunca será popular. Quase sessenta anos de excelente literatura e não havia ninguém na fila!

Já que estávamos sozinhos, aproveitei para pedir que autografasse vários livros , o que fez com toda a gentileza e simpatia:

luis

Luis Goytisolo, Feira do Livro de Madri, 2014. Foto: Fernanda Sampaio

Luis pertence à uma família literária. Seus dois irmãos também são escritores, José (poeta) e Juan (narrativa), este último, premiadíssimo, inclusive recebeu o Príncipe de Astúrias. Juan Goytisolo, infelizmente, faleceu em junho deste ano.

Goytisolo

Fernanda Sampaio e Luis Goytisolo na Feira do Livro 2014. Foto: Antonio Jiménez

A impressão que tive de Luis Goytisolo é que nunca vai envelhecer, tem o espírito jovem.

O meu exemplar com dedicatória:

libe

Saiba mais detalhes do meu encontro com Luis Goytisolo, aqui.

A obra

Como “Liberación” não está editado em português, uso “Liberação” (2014), ao pé da letra, mas poderia ser também “Libertação”. Este é o antepenúltimo livro de Luis Goytisolo, o mais recente é de 2016, “El atasco y demás fábulas ” (“O bloqueio e demais fábulas”). A sua primeira obra publicada é de 1958, “Las afueras”, ( “Os arredores”, algo como “A periferia”).

“Liberação” está dividido em nove capítulos numerados, com subcapítulos titulados. O primeiro capítulo possui nove histórias (aparentemente) independentes, a primeira: “Resumo do ano” (p.13), encontrei logo de cara umas linhas duras, lembrou- me o naturalismo de Aluísio de Azevedo. O protagonista chama- se Ricardo, é casado com Magda. A família tem uma casa de campo chamada “A Nogueira”. Ele fala da tosse incômoda dos pedestres exalando bacilos.

A  demolição de um edifício vai liberar o espaço, não só de uma edificação em ruínas, mas de tudo o que está implícito nele, “(…) eflúvios cuja carga de miséria, enfermidade, sofrimento e desgraça institui- se contagiosa, assim a inquietação do ser humano ante qualquer decidida revisão de seu passado individual ou coletivo que deixe descoberta a realidade mais profunda, mas irrevogável.” 

O narrador, em primeira pessoa, vai comparando esse edifício com uma tosse perniciosa, com a morte. Edifícios e móveis antigos, de antiquários, herdados, o provocam a mesma repulsa. De certa forma, o protagonista acredita que nestas coisas velhas ficam impregnadas energias dos donos. E ele pensa sobre pais e filhos:

Que sabem os filhos dos seus pais, de como eram antes de ser pais? E dos filhos, tanto mais desconhecidos quanto mais crescem? (p.15)

A segunda história é bem curtinha, “Vista da aldeia desde A Mola”. O ambiente do livro é a Espanha rural. “A Mola” é uma fazenda que fica em Vallfranca. O narrador faz uma crítica aos donos das fazendas, que são proprietários, mas não têm conhecimento sobre o campo, uma tendência pós- guerra.

Na terceira história, “Águas turvas”, Carlos sonha com águas turvas, fica com uma impressão ruim durante o dia todo. Começa a relacionar o sonho com a vida e suas recordações, principalmente com Áurea (falecida). Um capítulo embalado pela música de Strauss, “Marcha Radetzky”. É um texto sobre a dúvida, uma possível infidelidade ao estilo Capitu e Bentinho.

A quarta, “Nata“, é um apanhado de personagens e gírias grosseiras, são jovens violentos e marginais. Diferente dos anteriores, a narrativa acontece na cidade, parece um bairro popular e periférico.

“O monte da alegria” é a quinta história (p.27). Quando as pessoas estão muito agoniadas sobem ao monte e voltam de lá renovadas.

(…) Aos humanos nos acontece como as plantações, que degeneramos. A terra pode perder substância, mas deixe- a descansar e ela se recupera sozinha. As plantações, em troca, se não têm semente nova, degeneram. Pode ser boa terra, que você não vai colher nada. A planta perdeu perdeu sua capacidade de assimilar. Como nós.  (p.29)

“Desolação” é a sexta história, a de duas moças, Cati e Yolanda. Um texto realmente desolador, mas que para uma boa parte dos jovens, hoje, pode ser visto com naturalidade: a extrema falta de pudor, a liberação sexual que toca a perversão. A banalidade sexual.

Até “Desolação”, todos os textos parecem independentes, sem conexão entre as histórias e personagens. Em “A Marcha Radetzky” e “O interlocutor”, as últimas do primeiro capítulo, ressurgem personagens citados anteriormente e como a vida deles se cruzam. Neles, a colcha de retalhos é costurada e tudo faz sentido. O escritor optou pela escrita indutiva, partiu do particular para o geral. Goytisolo resume o capítulo falando da libertação de repressões. A Espanha ficou muitos anos submetida a um regime ditatorial, onde nada podia, e depois disso, veio o oposto.

O segundo capítulo é composto por seis histórias. A primeira, “Revistas”, acontece num aeroporto e quem a conta é Carlos, que aguarda para embarcar e observa um jovem ser revistado. O rapaz recorda a ele quando jovem e relembra uma experiência de sexo homossexual que nunca contou à Áurea.

Em “O obscuro e o transparente”, revela um lugar muito especial do povoado, que acontece um fenômeno estranho: no “Bosque do Pensamento”, as palavras surgem claras, como uma revelação.

Voltam os personagens jovens do subúrbio em “Mastuerzo” (é uma árvore). Eles têm uns nomes bem “estranhos”:”Cosca”, “Joderas” (apelidos escrachados). A linguagem volta vulgar, cheia de gírias, a língua das ruas dos subúrbios marginais. Os rapazes comportam- se com uma total falta de empatia e respeito ao outro.

E ainda “A terceira maravilha”, o narrador volta a contar sobre a fazenda “La Mola” e sobre quem eram os seus donos. “Primeiro do ano” é o encontro de dois casais que já apareceram antes: Carlos e Áurea, e Ricardo e Magda. Os homens foram colegas de colégio e o reencontro não foi agradável. O tempo transforma as relações em outra coisa nem sempre esperada e desejada. O trecho é contado sob a visão de Ricardo.

Já em “O bobo da vez”, sob o olhar de Carlos, ele vai contando os efeitos do tempo, não só no físico quanto na mente:

A pegajosa inércia das coisas, o mundo circundante, o próprio corpo, tudo como impondo resistência, colocando obstáculos, ou simplesmente aderindo ao modo de rêmora, como algas e moluscos que se instalam e proliferam no casco de uma nave até imobilizá- la. Uma análise de sangue e umas ecografias dentro da normalidade não anulam as fraturas da idade, a decadência física,  as manias (…) (p.58)

E Carlos fala sobre a “mania” de andar pelo meio da rua, para livrar- se da água dos vasos de plantas e também de uma coisa que me irrita muito, um costume forte na Península Ibérica:

(…) por temor que alguma dissimulada dona-de-casa sacudisse durante a sua passagem alguma toalha, algum lençol ou, o que é pior, algum tapete de quarto, com toda sua carga de germes patógenos”. (p.59)

Carlos comenta sobre a morte de Magda e Ricardo. Essa obra é cheia de enigmas, um quebra- cabeças.

O III Capítulo é formado por quatro histórias: “Latidos e dentes”, que fala sobre Vallfranca, o narrador compara o povoado antes e depois da guerra. A comodidade nem sempre traz felicidade. Durante a guerra (civil espanhola) as famílias eram mais unidas, dormiam num só quarto, e hoje, têm até banheiro com jacuzzi, mas sofrem de tédio. Será por falta de metas e objetivos? Há ainda  “Resignação”,O excêntrico” e “Projeto de ano- novo”.

Para evitar uma resenha infinita, decidi não contar mais capítulo por capítulo e já ir finalizando. A obra tem a estrutura original, são várias histórias paralelas, que discorrem aparentemente sem conexão, até que os personagens vão se entrecruzando. O personagem mais profundo é Carlos, seu final é surpreendente e triste.

A obra deixa uma sensação bastante verossímil do “jeito espanhol” de hoje e de ontem, várias gerações, há recuos históricos e personagens contemporâneos. Personagens de várias camadas sociais e diferentes idades, da zona urbana e rural, suas angústias e solidões. E a violência, que também há, infelizmente. O fim da guerra gerou liberdade, que, em grande parte, não soube ser bem aproveitada pelos cidadãos espanhóis. O que fazer com tanta liberdade? Parece que muitos ficaram perdidos e perderam a medida.

Este livro ainda não está editado em português. Quem sabe estou plantando uma sementinha. Se algum editor do Brasil ou qualquer país lusófono chegar por aqui, anote esse nome: Luis Goytisolo.

Se você está no Brasil, Portugal, Angola, Goa ou Moçambique e lê em espanhol, pode comprar “Liberación” em e-book aqui. E você que está na Espanha pode comprá- lo nas melhores livrarias do país.

goytisolo (1)  Goytisolo, Luis. Liberación, Siruela, Espanha, 2014. Páginas: 190

Resenha: “Bartleby e companhia”, de Enrique Vila- Matas


O prolixo Enrique Vila- Matas (Barcelona, 1948), publicou o seu primeiro livro em 1973, “Mulher no espelho contemplando a paisagem”; a última obra recém- publicada (2017), “Mac e seu contratempo”, é o 29º romance. Também é ensaísta, possui  treze livros publicados nesse estilo, além de outros textos em coletâneas. É um dos escritores mais premiados da atualidade, cerca de 24 prêmios pelo mundo, mas ainda não ganhou os dois mais importantes: o Cervantes  e o Nobel.

Enrique é formado em Direito e Jornalismo. Morou em Paris dois anos em um apartamento alugado de Marguerite Duras. Sua obra foi traduzida para 27 idiomas.

paratybrasilEnrique em 2012 em Paraty, onde participou da FLIP. Será que ele gostou do cafezinho brasileiro?!

No Brasil, ficou mais conhecido, quando a finada Cosac & Naify publicou alguns dos seus livros, entre eles, esse: “Bartleby e companhia”(2000), motivo dessa resenha. A minha edição é espanhola (vocês sabem que eu moro na Espanha), de bolso, da Penguin Randon House, bem modesta, nada a ver com as lindas edições que a Cosac costumava fazer.

Vamos ao texto…

Começo esclarecendo quem é “Bartleby”: Herman Melville escreveu um conto chamado “Bartleby, o escrivão” (1853). O personagem, um jovem escrivão, ávido trabalhador, de repente, deixou de sê- lo. Perdeu o interesse, o tesão, a inspiração. Quando era exigido, dizia: “Prefiro não fazer”. Só pelo título já temos a pista do que pode nos contar a obra, reforçada pelo pensamento da epígrafe:

A glória ou o mérito de certos homens consiste em escrever bem; o de outros consiste em não escrever. (Jean  de La Bruyère)

O próprio Herman Melville considerava- se um bartleby, por isso escreveu o conto. Em 1853, com 34 anos e depressivo, concluiu que havia fracassado. O escritor de “Moby Dick” não suportou as críticas (injustas) sobre a sua obra. Morreu em 1891, esquecido.

O personagem começa a escrever um diário no dia 8 de julho de 1999. Exceto pelo trabalho desgraçado, a falta de sorte com as mulheres e a solidão, considera- se um sujeito feliz. Há vinte e cinco anos, ele havia escrito um livro sobre a impossibilidade do amor e nunca mais escreveu nada. Tamanho o trauma, tornou- se um “bartleby”. Ele usa o termo como adjetivo. Começou a “caçar” bartlebys, escritores que abandonaram a escrita. Será que ele achou Raduan Nassar? O recente ganhador do prêmio Camões não escreve há trinta anos? Não, o distinguido escritor não é citado na obra de Vila- Matas.

O narrador deixou de escrever por causa do seu pai que o obrigou a escrever  em seu nome, uma dedicatória que ele não queria. Parece um motivo meio bobo, não é? Mas pra ele foi motivo suficiente. Isso foi usado como pretexto para contar as histórias (reais) de escritores da literatura mundial.

E foi assim, que o narrador começou a pesquisar autores que entraram no “labirinto do não”, da não- escrita.  Cita alguns nomes e explica o caso de cada um deles, como o de Robert Walser, o escritor suíço, que ganhou a admiração de Kafka e Musil, ficou deprimido, abandonou a sociedade, isolou- se para escrever. Terminou mal, morreu no Natal de 1956,  perto da clínica psiquiátrica que estava internado, deitado na neve.

Vila- Matas diz sobre “Burtleby e Companhia”, que as pessoas deixam de escrever, porque deixam de existir (vai sem tradução, assim você treina espanhol):

Contrariamente a lo que se cree, no hablo exactamente en este libro de escritores que dejaron de escribir sino de personas que viven y luego dejan de hacerlo.  De fondo, eso sí, el gran enigma de la escritura que parece estar diciéndonos que en la literatura  una voz dice que la vida no tiene sentido, pero su timbre profundo es el eco de ese sentido.*

É mais normal do que se pensa isso de deixar de existir, deixar de viver, ainda estando vivo. E o autor dá exemplo de outros copistas, dos mexicanos Juan Rulfo e Augusto Monterroso, que trabalharam em repartições horríveis e que também se comportaram como bartlebys. Outro bartleby muito famoso: Arthur Rimbaud.

Contou também a história do catalão Felipe Alfau, depois de dois livros publicados, o seu silêncio durou 51 anos. Imigrante nos Estados Unidos, a sua desculpa: estava ocupado aprendendo inglês.

Outros escritores que deixaram o ofício por longos períodos: Salinger, Fernando Pessoa e até Cervantes.

O livro é muito interessante, uma biografia de autores que tiveram condutas parecidas; no entanto, o gênero não concorda com a sua forma, que adapta- se melhor à biografia ou ensaio. Não é um romance. Achei desnecessário usar um personagem para contar o livro, poderia ser a voz do próprio autor. Inclusive em forma de tópicos, um guia de autores bartlebys, muito mais fácil para consultas. O narrador praticamente não aparece. De todas as formas, recomendadíssimo! Para quem ama a literatura é um prato muito bem servido.

O ofício do escritor é um dos mais complicados, porque é mente, emoção, (des)equilíbrio. Tudo isso está no cérebro, esse indomável.

  enrique-vila-matas-bartleby-y-compan%cc%83iaVila- Matas, Enrique. Bartleby y Compañía. Debolsillo, Penguin Randon House, Barcelona, 2016. Páginas: 173

Exclusivo para o Falando em Literatura: Lúcio Autran


O escritor Lúcio Autran (Rio de Janeiro, 1957) é poeta e filho do grande e saudoso Autran Dourado (Patos de Minas, 18/01/1926 – Rio de Janeiro, 30/09/2012). Lúcio escreveu este artigo, “Práticas  editoriais no Brasil: no fio da inconstitucionalidade e da ilegalidade”, extremamente necessário, uma chamada de atenção sobre a edição no Brasil. Qual o seu poder, direitos, deveres e conduta?


11350195_902292486504390_374422240_n

Lúcio Autran na Espanha há seis anos (Arquivo do autor)

Você sabia que as editoras não pagam impostos, têm isenção fiscal, mas não estão cumprindo suficientemente bem com o seu papel, o retorno social que tal isenção lhes obriga?  Leia:


PRÁTICAS EDITORIAIS NO BRASIL: NO FIO DA INCONSTITUCIONALIDADE E DA ILEGALIDADE

Tratarei de um tema que, no Brasil, embora pouco falado, bem menos do que mereceria, tem se limitado ao terreno da ética ou mesmo da boa vontade do chamado “mercado editorial”. Todavia, pretendo dar aqui um enfoque com alguns fundamentos jurídicos, para um maior questionamento institucional e subsídios para um discurso mais consciente e consistente.

Como é assunto que não interessa apenas à chamada “comunidade jurídica”, advogados e estudantes, mas a escritores, poetas, leitores e todos aqueles que se interessam por literatura e artes em geral, não publicarei apenas no blog que ora inauguro, voltado para aquela área, mas também no que escrevo, mais direcionado para a poesia e para a ensaística (ah, essa esquizofrenia de ser poeta em nosso país), e, justo por isso, cuidarei de, senão evitar, pois existem algumas tecnicalidades difíceis de serem contornadas, se quiser abordar o problema com alguma profundidade, não abusar dos termos excessivamente técnico-jurídicos, o popularmente conhecido “jurudiquês”, e, pelos mesmos motivos, tentarei ser o mais didático possível, tentando ilustrar com exemplos. E não pretendo esgotar o tema, muito ao contrário, o que desejo é levantar a discussão, oferecendo fundamentos jurídicos. A ver se serei bem sucedido.

Como disse acima, a questão do nosso mercado editorial tem sido abordada a partir de uma conduta (a)ética, por parte de nossos editores, o que além de ser perda de tempo, é terreno por demais subjetivo, e que tende a se tornar essencialmente emocional, logo, mais tempo perdido. Há algum tempo escrevi um livro de ensaios sobre a questão da autopublicação, a pirataria e os direitos autorais em nosso tempo, óbvio que ali abordei a questão também do ponto de vista jurídico e mais profundamente. Mas alguns episódios recentes, fartamente noticiados, me fazem voltar ao assunto.

Dois deles, dentre tantos que me têm irritado, reavivaram a discussão que havia deixado de lado, dedicado que estou a assuntos outros. Como prometi trabalhar com exemplos, ficam os dois, mas há mais, muito mais.

Recentemente, vi que uma grande editora publicaria, com alarde, um livro de poemas de um recém-condenado por corrupção, formação de quadrilha e crime contra o patrimônio público, a tão conhecida como vilipendiada “coisa pública” (res publica). Nada a objetar, ao menos em princípio, afinal, Jean Genet produziu prodigiosa literatura a partir das margens gradeadas da sociedade, embora não com patrimônio público, além de um exemplo mais próximo a nós, as “Memórias do Cárcere”, de Graciliano Ramos, igualmente ao largo da coisa pública.

Entretanto, o que me exasperou foi que essa publicação claramente se devia, não ao conteúdo poético da obra e a alguma tardia vocação literária, enfim, a qualidade estética das poesias do autor, ou mesmo, um perdoável, embora não muito recomendável, senso de oportunidade do dinâmico empresário das letras. Não, o que havia ali era o mais puro, deslavado e ausente de caráter oportunismo. Importante frisar aqui que esse meu comentário (ó tempos politicamente difíceis!) passa ao largo de qualquer conotação ideológico-partidária, antes que seja crucificado pelos que chamo de “teo-ideológicos”, a empobrecedora tendência de tratar a política como se religião fosse, embora sabendo que fatalmente sentirei os cravos. Fazer o quê?

Ora, o fazer poético passa ao largo das emoções, sinceras talvez, de um presidiário, tão-só pelo fato de ter passado alguns meses na cadeia. Poesia não se faz disso, que, quando muito, se presta a diários de pré-adolescentes, e, como disse Baudelaire, “poesia não se faz de ideias”. A poesia constrói-se com cuidadoso trabalho, como um esforço de delimitar o espaço delirante, com a ourivesaria meticulosa, e tudo isso demanda tempo, paciência, elaboração e vivência literária, algo como uma dedicação de querer ver triunfar Dionísio sem prescindir de Apolo. Enfim, poesia é arte, se é que isso ainda existe, não confessionário, divã ou fanfarra de passeatas.

Fosse um caso esporádico, menos mal, muito pouco tempo depois, li, numa revista semanal, uma crônica de uma dessas mocinhas – ou já nem tanto, nem tanto – midiáticas que resolveram se tornar romancistas, para deleite de nossas criteriosas editoras (que também andam adorando fazer livrinhos para colorir para, digamos, adultos), e vi que a moça cometeu por lá: “Só sobraram a calçada pelada, a reta, os carros”. Com um cacófato desses, senhora, quem soçobrou foi sua crônica, afortunadamente me dispensando de ler seu romance.

Mas esse não é um problema exclusivo do Brasil, a chamada “profissionalização” do escritor, mais do que uma profissionalização razoável, transformou os autores em brutais mercadorias, e reféns do “mercado”, onde só triunfa o que supostamente vende. Mas, o que vende?

A ignorância se retroalimenta incessantemente na cultura de massas (que nada tem a ver com cultura popular). Pesquisa-se para saber o gosto público médio, etimologia de medíocre, para vender-se àquele gosto o que ele já esperava consumir, o que, ao mesmo tempo, o realimenta para querer cada vez mais do mesmo e menos em qualidade e em gosto apurado, num círculo vicioso e viciado, obeso estética e artisticamente (e, para que não acredita em juízo de gosto, recomenda-se a leitura, se conseguir, da “Crítica do Juízo”, de Kant).

A verdade é que esse mesmo público consume qualidade, se lhe for oferecida qualidade, e lixo, se apenas este lhe for ofertado, é uma questão meramente educacional e de oportunidades. O provaremos logo ali adiante.

Mas voltemos ao Brasil, leitor, afinal, feliz ou infelizmente, é aqui que vivemos, regidos pelas nossas leis e pela nossa Constituição, que é, afinal, do que tratamos por aqui.

Claro que, e isso está fora de discussão, é inquestionável a legitimidade da pretensão de buscarem os editores um plantel de autores que os sustentem economicamente, afinal, são sociedades empresárias que visam ao lucro, é pacífico, a questão é: isso basta?

Eticamente, claro que não. E juridicamente?

Nosso mercado editorial, enfrentando a questão de fundo, mais para mercado do que para editorial, namora perigosamente com a ilegalidade, e, pior, deita-se com a inconstitucionalidade, se quisermos fugir do térreo da ética, como já disse, areia quase sempre movediçamente subjetiva.

O menos grave, talvez, embora não irrelevante, é a falta de critério, ou melhor, a adoção de critérios ilegítimos de admissão de autores. A poesia, por exemplo, essa pária social (que inveja de Horácio!), é tratada a pontapés, só sendo publicada sob condições eticamente quase pornográficas: o pagamento da edição por parte dos autores, assunto que pretendo abordar em outro artigo.

Ora, João Cabral, numa de suas últimas entrevistas, disse que a poesia “é o laboratório da língua”. Que imagem feliz! Se o povo faz a língua, acrescento, se os escritores a depuram, dando a ela rigor estético, se os teóricos a consolidam, é na pena dos poetas que a língua ganha contornos de experimento, de levar a palavra ao limite do invento, da sonoridade, esticando e tencionando o interior de seu significante, criando novos significados.

Ótimo, mas até aí, dirão, ainda estamos no terreno da ética e da “boa vontade” dos editores, porque, insistirão, o comportamento das editoras seria ilegal e mesmo inconstitucional? Afinal, já ouvi muitas vezes, “ah, são empresários… visam ao lucro!”. Claro, e é legítimo que o façam, não fosse um relevante detalhe, local onde Mefisto costuma pernoitar.

Nossa Constituição (art. 5º, XIII) e nosso Código Civil (art. 421 e 2.035, PU) determinam que a propriedade deve “cumprir a sua função social”. E o que vem a ser isso: “cumprir a sua função social”?

Cuida-se de um passo adiante na direção da pós-modernidade, dentro de uma concepção jurídica pós-liberal. Nosso ordenamento jurídico repudia que a propriedade tenha, como única função, atender às necessidades e utilidades (ou futilidades) individualistas de seu proprietário, mas ao contrário, sem negar, todavia, essa mesma propriedade privada, já que, historicamente, provou-se ser um equívoco o sonho de eliminá-la, mas a propriedade deve atender ao interesse de todos.

A propriedade só se justifica juridicamente na exata medida em que contribui para a nação (no sentido de país e povo) como um todo, gerando riquezas, mas não só, contribuindo para uma sociedade mais justa. E foi exatamente a partir dessas ideia que se progrediu para a valorização da posse em detrimento da propriedade ociosa, que não cumpre seu papel, sua “função social”.

Numa breve pincelada histórica, a ideia de “função social” da posse, conforme hoje a conhecemos, remonta ao início do século XX, a partir de León Duguit, que dizia que a propriedade é um fato jurídico como qualquer outro, e que só se justificaria se tivesse uma destinação econômica, dando ao possuidor (legítimo) um direito subjetivo, em contraposição, sublinhe-se, ao proprietário, o que conduzirá ao conhecidíssimo instituto jurídico chamado usucapião, que aqui, embora pudesse nos interessar, passarei ao largo, por uma questão de espaço e oportunidade.

Evoluindo nessa linha, fácil concluir que “cumprir a sua função social” não se limita, é óbvio, a gerar empregos, riquezas e pagar tributos, ideia puramente economicista, mas, necessariamente, passa pelo entendimento que a função social está intrinsecamente ligada, não só a incremento da economia, mas também à sua destinação, sem o que não fará sentido.

E aqui o ponto: nossas editoras cumprem a sua função social?

Antes de responder, já que falei em pagar riquezas tributos, mesmo se me ativesse a uma visão estreita e conservadora do que vem a ser cumprir a função social, devo sublinhar que a editoração de livros quase não os paga, pois gozam da chamada imunidade tributária constitucional. Assim, antes de abordar a questão da destinação, tratarei brevemente, por necessário, dessa imunidade e sua relação com a função social, eis que acentua fortemente esse descumprimento da Constituição e da lei.

DO DEVER DE CUMPRIR A FUNÇÃO SOCIAL COMO RETRIBUIÇÃO À IMUNIDADE CONSTITUCIONAL TRIBUTÁRIA.

Não bastasse o dito, há outro dado que torna ainda mais cogente, no caso da editoras, o cumprimento desse princípio, só justificando a propriedade, ou melhor, e mais incisivamente, só existindo a propriedade da sociedade empresária e o direito à remuneração pela propriedade material e imaterial da obra, ainda que temporária e limitadamente, na exata medida em que cumprem a sua função social, na forma de seu objeto social.

A nossa Constituição, em seu artigo Art.150, VI, diz que é vedado aos entes da Federação: “instituir impostos sobre: (…) d) livros, jornais, periódicos e o papel destinado a sua impressão”.

Qual foi o motivo pelo qual o Constituinte originário inseriu esse dispositivo na Constituição? Toda imunidade tributária, afirma a melhor doutrina de Direito Tributário, dentre eles o professor Ricardo Lobo Torres, só foi inserida no texto constitucional exatamente e sempre para tutelar algum direito fundamental, no caso o direito à liberdade de expressão, manifestação e, principalmente, acrescento, à livre circulação de ideias, leia-se, o fomento à circulação e divulgação da cultura.

Deixando de recolher vultosas quantias que seriam revertidas para a sociedade e para a população em geral, parece elementar que os editores, sem prejuízo, é fundamental ressaltar, da edição de livros que incrementem a sua receita, devolvam ao país e à população ideias e trabalhos de autores cuja preocupação única ou principal não seja a pecúnia, o modismo e a fama, mas a qualidade artística, a pesquisa e a experimentação estética.

Ante tal benesse constitucional, que se traduz inexoravelmente em financiamento público indireto das editoras, não é mais aceitável a dificuldade de publicar que tiveram em vida autores como, por exemplo, Fernando Pessoa, ou para ficarmos por aqui, no Brasil, Lima Barreto, e tantos outros escritores que morreram à míngua e anônimos, por produzirem uma literatura voltada exclusivamente para a estética, ou mesmo, no caso do brasileiro, na feliz expressão de Luciana Hidalgo, uma “literatura de urgência”.

Não pagando impostos sobre papel ,tinta, etc., o mínimo que se esperaria seria devolver ao povo, dono desse dinheiro, parte desse financiamento público indireto, fomentando a cultura de qualidade, e não lixo. Afinal, não foi por outro motivo que o Constituinte originário lhes deu a imunidade tributária.

Resumidamente: a imunidade tributária só se justificará, e assim a propriedade privada, na exata medida em que, minimamente que seja, a editoras devolvam ao país o que deixaram de recolher aos cofres públicos na forma de uma literatura de qualidade, ainda que vendam pouco.

Note-se, é importante para provarmos o que dissemos acima, que, quando querem, os editores, vendem de tudo e para todos, até Kant. Basta-nos lembrar da maravilhosa série “Os Pensadores”, vendida e, ao que consta, muito bem – pasmem mais jovens – nas bancas de jornais, que publicou do filósofo alemão à Spinoza, passando por Santo Agostinho, Marx e Wittgenstein, e outros, muitos outros, e não apenas lixo e esse rebotalho que hoje encontramos nas livrarias, nas bancas e nas páginas dos jornais.

É, enfim, a ignorância e a burrice, uma a serviço da outra e mutuamente se retroalimentando, isso que presenciamos em nossos dias.

FUNÇÃO SOCIAL, NÃO COMO LIMITAÇÃO, MAS COMO ELEMENTO DA PROPRIEDADE

Perdoando-me pela pequena digressão, a “função social”, eu dizia, é um pouco mais do que tudo o que foi dito. Em termos bem claros, para finalizar: só se tem propriedade se a esta é dada uma função social, do contrário, saindo do século XIX, é abuso de direito.

É o caso das nossas grandes editoras (falo, principalmente, delas, das “grandes”), nesses casos, “função social” não é apenas dar destinação econômica à propriedade, mas focar e fazer valer o objeto da sociedade empresarial, logo, da propriedade, sua destinação fática e jurídica: a divulgação e a formação da cultura de um povo, do contrário a propriedade estará em desacordo com a Carta Magna, logo, não deverá gozar de proteção jurídica.

Ao contrário do que pensam alguns mais apressados, mesmo não sendo exatamente leigos, não se trata, a “função social da propriedade”, de uma limitação ao direito de propriedade. Como lembram alguns de nossos juristas da linhagem de Nelson Rosenvald, na esteira de Stefano Rodotá, civilista italiano, professor da Universidade de Roma, a função social da propriedade não a restringe, antes a conforma, cuida-se, simplesmente, de um requisito, ou melhor, um elemento da propriedade, logo, não há um conteúdo prévio de propriedade, o que não está de acordo com a função social não é objeto de proteção pelo direito de propriedade, enfim, a função social distingue o que é direito de propriedade daquilo que não o é. Stefano Rodotà ensina, de forma definitiva, que não há conflito entre a estrutura do direito de propriedade e a sua função social, “pois esta é um aspecto interno daquele, compõe sua própria estrutura.”

CONCLUSÃO:

Fica fácil concluir que não se cuida aqui de proselitismo de um poeta que acordou mal disposto, nem de um operador do Direito com pendores socializantes, ao contrário, cuida-se de elemento mínimo da propriedade, dentro de uma visão pós-moderna, pós-positivista e pós-individualista do Direito, que desde o Século XIX perdeu a sua razão de ser, com a superação do Código Civil napoleônico e da hiperdimensionalização do direito privado, ao contrário, cuida-se da submissão da atividade empresarial da edição de livros à lei e, mais enfaticamente, à Constituição da República e ao ordenamento jurídico como um todo.

Na medida em que a propriedade empresarial da atividade editorial deixa de justificar-se ante o ordenamento jurídico constitucional, ela, simplesmente, perde a sua razão de ser, inclusive, tensionando mais um pouco, no que respeita aos direitos autorais que lhe pertençam por contrato e cessão temporária, e, ainda mais grave, àqueles que já caíram em domínio público, dando azo a que se conclua que se tornará ilegítima, inclusive, qualquer ação sua contra a chamada “pirataria”, porque, tendo em vista a ausência do substrato mínimo da propriedade, quer seja, o cumprimento de sua função social, aos editores faleceriam, processualmente falando, as necessárias condições para o exercício do direito de ação, tanto do ponto de vista da legitimidade, pois seriam partes ilegítimas para a proteção de direitos que não lhes pertencem por definição constitucional e legal, quanto do interesse de agir, pois lhes faltaria interesse na tutela jurisdicional de um bem que não lhes pertence, quer seja, a propriedade material e imaterial do livro, sendo, caso a obra ainda não tenha caído em domínio público, seu autor o único processualmente legitimado para tal.

Sendo assim, por descumprirem as determinações constitucionais, não poderão figurar no pólo ativo em demandas dessa natureza, devendo o processo ser totalmente extinto sem julgamento do mérito, no caso de figurarem isoladamente no pólo ativo ou quando a obra já estiver em “domínio público”, ou parcialmente, nos casos de litisconsórcios ativos com os autores, devendo o feito prosseguir somente no que pertine a estes, únicos legais e legítimos proprietários do direito em litígio.

Todavia, conquanto interessante, aprofundarmos isso em outro artigo, já que foge um pouco às fronteiras aqui pretendidas: um artigo a se publicado em um “blog”, ficando para outra ocasião que, prometemos, será em breve.

Lúcio Autran, Resende, 26 de maio de 2015.


11301499_902292619837710_571720314_nLúcio Autran na belíssima Alhambra, Granada, Espanha. (Arquivo do escritor)


Bibliografia poética de Lúcio Autran:

Veja o blog de Lúcio Autran e o Facebook do autor.

Resenha: Bibliomania, de Gustave Flaubert


Bibliomania é a mania compulsiva de colecionar livros. A patologia pode ser detectada quando a pessoa coleciona livros iguais, do mesmo autor, mesma edição, sem a menor utilidade e que não teria valor para um verdadeiro colecionador. Mas, no nosso caso, vamos falar de ficção: “Bibliomania”, conto do escritor francês Gustave Flaubert (Ruão12/12/1821 – Croisset, 08/05/1880).

carjat_rectoGustave Flaubert fotografado por Étienne Carjat (Fareins, 28/03/1828 – Paris, 19/03/1906) famoso por fotografar os artistas da época. Fotografou também Rimbaud, Victor Hugo e outros.

carjat_verso (1)

O verso da foto que faz parte da coleção de Bernard Moland, um apaixonado pela obra de Flaubert, que encontrou fotos e documentos inéditos através do Centro Flauvert da Universidade de Rouen, graças à sobrinha de Flaubert, Caroline Commanville (1846-1931) que guardou todo esse precioso material. 

Bibliomania foi escrito quando Flaubert era muito jovem, tinha apenas 15 anos. O relato foi publicado na revista “Le Colibri” da cidade de Rouen. Essa edição espanhola da Gadir foi bem decepcionante, as datas estão todas erradas: a de nascimento colocaram 1836 e Flaubert nasceu em 1821; o ano de publicação de Bibliomania também, colocaram 1847, mas foi 12 de fevereiro de 1837. Portanto, caros leitores, não acreditem em tudo o que está escrito, em caso de dúvida, comparem com outras versões. Infelizmente, há livros com erros de todos os tipos. Graficamente, o livro é bonito, bem feito, capa dura, todo ilustrado pelo artista Marcos Morán, mas com erros de informação imperdoáveis.

O narrador nos conta a história de Giácomo, de aparência tétrica, suja, pouco saudável, que mora em Barcelona:

Era Giacomo, o livreiro; tinha trinta anos e já passava por velho e usado. Era alto, mas encurvado como um idoso; seus cabelos eram compridos, mas brancos; suas mãos eram fortes e nervosas, mas dessecadas e cobertas de rugas; sua roupa era mísera e esfarrapada; tinha um jeito canhestro e atrapalhado; sua fisionomia era pálida e triste, feia, insignificante até. 

Giácomo é fascinado por livros, mal sabe ler, ele gosta do objeto, do que ele significa, nem tanto do seu conteúdo que mal pode decifrar.  Sua forma doentia de amar os livros e manuscritos é tanta, ao ponto de prejudicar a sua saúde:

Aquela paixão o absorvera por inteiro: mal comia, já não dormia; mas sonhava dias e noites inteiros com a sua idéia fixa: os livros.

A sua obsessão pelos livros raros era desmedida, Giácomo é um livreiro que não quer vender seus livros e não mede esforços para ter os que deseja.

Estava, sim, embriagado do que sentira; estava cansado de seus dias; estava bêbado da existência.

Incrível pensar que esse conto foi escrito por um menino de 15 anos. O talento, esse dom inexplicável e divino, já nasce. O talento aliado ao trabalho, fundamentais para se passar a imaginação ao papel, fizeram de Flaubert um dos melhores escritores de todos os tempos . Não deixe de ler!

Você pode ler o conto completo e grátis aqui. 

Não comprem a edição abaixo:

147_BIBLIOMANIA_01

Flaubert, Gustave. Bibliomanía. Gadir, Madrid, 2014. 61 páginas

Não confunda bibliomania com bibliofilia, esse é o amor pelos livros especiais, primeiras edições, livros raros, edições corretas, nesse sentido eu sou uma bibliófila e fico muito chateada quando invisto num livro aparentemente bem cuidado, com erros fatais como os citados.

Livraria com charme: La central (Callao, Madri)


A livraria espanhola La Central foi fundada em 1995 em Barcelona, possui umas lojas encantadoras. É uma das minhas livrarias preferidas, pois encontro literatura brasileira original, coisa que não é tão fácil por aqui. Visitei ontem a loja que fica no centro de Madri, na Plaza de Callao e fiquei admirada em ver tantos escritores brasileiros traduzidos, coisa recente.

Lêdo Ivo na mesa dos recomendados pela livraria:

IMG_8407

O edifício é belo e antigo, com uma arquitetura cheia de encanto:

IMG_8394 IMG_8395

A foto da janela na janela:IMG_8399 IMG_8400

IMG_8401

Detalhe das paredes:
IMG_8408 O teto:IMG_8410 A escadaria e à direita “El garito”, uma sala para eventos e apresentações de livros:IMG_8411 No térreo e no primeiro andar tem uma parte de papelaria irresistível!IMG_8416

Na vitrine, leitura além da morte:IMG_8397 O café- restaurante “El Bistrô”, fica no térreo:IMG_8398 “El Bistrô visto do 1º andar:IMG_8409

O site da livraria aqui, a “La Central” também é livraria virtual.

O poeta louco e maldito: Leopoldo Maria Panero


Faleceu nesse mês de março o poeta Leopoldo Maria Panero  (Madri,16 de junho de 1948 – Ilhas Canárias, 5 de março de 2014). Seus pais, Leopoldo Panero e Felicidad Blanc, também eram poetas, assim como seu irmão Juan Luis Panero. Panero formou- sem em Letras na Universidade Complutense de Madri e Filologia francesa na Universidade Central de Barcelona. Foi nessa época que o escritor provou várias drogas, entre elas a heroína, que foi fonte de inspiração para vários de seus poemas. A heroína é uma das drogas mais viciantes e prejudiciais ao organismo, não provem crianças! Com duas ou três vezes a pessoa já se vicia e há quem diga que é quase impossível deixá- la. Panero viveu a maior parte da sua vida internado em hospitais psiquiátricos, entrou a primeira vez com 19 anos,  morreu na mais absoluta solidão num deles, já não tinha mais ninguém da sua família. Ele foi apaixonado pela escritora Ana María Moix, que faleceu uma semana antes do Leopoldo.

1394106885_605843_1394142190_noticia_normal

Leopoldo María Panero, sentado num bar na ‘Plaza de las Palomas’ na cidade de León em maio de 2011. (foto: José Ramón Vega González)

Panero era da esquerda radical, anti- franquista (Francisco Franco, ditador da Espanha), ao contrário do seu pai, foi um rebelde nos anos 60 e 70, sua obra poética é singular, ele foi marginado e marginalizado, escritor (e pessoa) tabu na sua geração.

DEDICATORIA

Más allá de donde
aún se esconde la vida, queda
un reino, queda cultivar
como un rey su agonía,
hacer florecer como un reino
la sucia flor de la agonía:
yo que todo lo prostituí, aún puedo
prostituir mi muerte y hacer
de mi cadáver el último poema.

DEDICATÓRIA

Mais além do onde
ainda se esconde a vida, fica
um reino, falta cultivar
como um rei sua agonia,
fazer florescer como um reino
a suja flor da agonia:
eu que tudo prostituí, ainda posso
prostituir a minha morte e fazer
do meu cadáver o meu último poema.
 

Abaixo, dois documentários  (em espanhol): “Depois de tantos anos” (1994, de Ricardo Franco), que fala sobre a família Panero, e em seguida, “O desencanto” (1976, de Jaime Chávarri) , sobre a vida de Leopoldo Panero, pai de Leopoldo Maria, que era “falangista” ( a favor da ditadura):

 
http://www.youtube.com/watch?v=MfJ2l_dVliQ

Leopoldo Panero: a loucura que se fez poesia ou a poesia que fez a loucura? O certo é que seu pai era alcoólatra e uma tia era esquizofrênica, a sua loucura podia ter origem genética.

M80PANERO_2--644x362

Mas, o importante mesmo, é que esse poeta louco nos deixou uma obra importante e visceral, das mais profundas. A bibliografia (em espanhol) do autor:

Por el camino de Swan (1968)

Así se fundó Carnaby Street (Ocnos, 1970).

Teoría (Lumen, 1973)

Narciso en el acorde último de las flautas (1979)

Last River Together (1980)

El que no ve (1980)

Dioscuros (1982)

El último hombre (1984)

Antología (1985)

Poesía 1970–1985 (1986)

Contra España y otros poema de no amor (1990)

Agujero llamado Nevermore (Selección poética, 1968–1992) (1992)

Heroína y otros poemas (1992)

Piedra negra o del temblar (1992)

Orfebre (1994)

Tensó (1996).

El tarot del inconsciente anónimo (1997)

Guarida de un animal que no existe (1998)

Abismo (1999)

Teoría lautreamontiana del plagio (1999)

Poemas del manicomio de Mondragón (1987)

Suplicio en la cruz de la boca (2000)

Teoría del miedo (2000)

Poesía completa (1970–2000) (2001)

Águila contra el hombre: poemas para un suicidamiento (2001)

Me amarás cuando esté muerto (2001).

¿Quién soy yo?: apuntes para una poesía sin autor (2002).

Buena nueva del desastre (2002)

Poemas del manicomio del Dr. Rafael Inglot (2002)

Conversación (2003).

Esquizofrénicas o la balada de la lámpara azul (2004)

Erección del labio sobre la página (2004)

Danza de la muerte (2004)

CD-Libro Moviedisco (2004)

Poemas de la locura seguido por El hombre elefante (2005)

Presentación del superhombre (2005)

Visión (2006)

Outsider, un arte interior (2007)

Páginas de excremento o dolor sin dolor (2008)

Sombra (2008)

Escribir como escupir (2008)

«Conjuros contra la vida» (2008)

Voces en el desierto (2008)

Esphera (2009)

Tango (2009)

La tempesta di mare (2009)

Reflexión (2010)

Locos de altar (2010)

La flor en llamas (2011)

Traducciones / Perversiones  (2011)

Territorio del miedo / Territoire de la peur  (2011)

Cantos del frío (2011).

Poesía completa. 2000-2010 (2013).

Sua obra narrativa:

El lugar del hijo (1976)

Dos relatos y una perversión (1984)

Y la luz no es nuestra (1993)

Palabras de un asesino (1999)

Los héroes inútiles (2005)

Papá, dame la mano que tengo miedo (2007)

Cuentos completos (2007)

Ensaio:

Mi cerebro es una rosa (1998)

Prueba de vida. Autobiografía de la muerte (2002)