Existe diferença entre ser “autor” e “escritor”?


Existe diferença entre ser “autor” e “escritor”? Já parou alguma vez para pensar nessa questão ou sempre considerou sinônimos os termos?

Segundo Affonso Romano Sant’Anna, existe diferença. Veja:

(…) Chamo autor àquele que publica um texto no qual o objetivo é escrever algo relacionado com sua trajetória pessoal ou sobre um tema, despreocupado das qualidades estéticas e literárias. O objetivo da obra, neste caso, é servir de veículo e de meio. Mas com um escritor a coisa  é diferente. Além de a obra ser um veículo, um meio, ela também é um fim em si mesma. Ou seja: ela tem uma finalidade estética, artística, histórica e social. O escritor está voltado fundamentalmente para a questão da linguagem. E é no trato com a frase, com os recursos estilísticos e expressivos, que ele vai aprendendo a reconstruir a si mesmo e a refletir sobre o mundo.

Gostei muito distinção de Affonso, que nos ajuda a separar o joio do trigo com mais clareza. A partir de agora nas minhas resenhas irei fazer essa distinção. Se for literatura menor, “autor; se for literatura artística e bem cuidada, “escritor”.

Você que gosta de escrever pensa: quer ser autor ou escritor?

A cita foi retirada do livro “Como se faz literatura”, de Affonso Romano Sant’Anna, da Rocco (e-book):

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Veja como foi a “III Oficina Falando em Literatura” em Madri


No último dia 16 de novembro, aconteceu a oficina literária sobre a obra do escritor baiano Antônio Torres. A turma foi animada e participativa. Contei aos participantes sobre a maravilhosa trilogia do sertão: “Essa terra”, “O cachorro e o lobo” e “Pelo fundo da agulha”, além da bibliografia urbana- histórica- carioca, do autor imortal da ABL, passamos também pela literatura infanto- juvenil.

A intenção dessas oficinas, além de estimular a leitura de grandes obras e autores, é também a de despertar ideias, a criatividade. Que encontrem seus próprios caminhos para desenvolver a escritura artística.

Veja algumas fotos do nosso último encontro:

img_2286“Lola” (Maria Dolores) e Deborah.

img_2293Márcio e Simone.

img_2300Márcio em “ação”.

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Mãe e filha.  Dona Suely e Renata. Houve depoimentos que nos deixaram emocionados.

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Dona Suely, recém chegada de Recife.

img_2313Escritura criativa.

img_2289Simone.

img_2305Renata.

img_2303Deborah.

img_2302Lola.

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15073307_862185890550436_8351533164920597600_n Saiu uma nota sobre as oficinas na coluna de Ancelmo Gois do jornal “O Globo” (16/11):

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img_2308A turma na Casa do Brasil no último dia 16 de novembro de 2016.

E amanhã tem Nélida Piñón! Se você está em Madri e quer participar , escreva para o e-mail: falandoemliteratura@gmail.com. As oficinas são patrocinadas pelo Itamaraty com o apoio do Consulado do Brasil em Madri e são gratuitas para os participantes.

Resenha: Pseudopoesia, de Alves Rosa


Chorar em decassílabo/confessar-me em prosa/descrever- te em versos. (p. 36)

Poesia elegante, lembrou- me os velhos românticos quanto às temáticas, poemas cheios de lirismo, versos limpos (acabou de ocorrer- me este termo, refiro- me à linguagem pouco rebuscada, leve, “sencilla”, mas precisa), versos brancos e com rimas. O Eu poético (a voz “que fala e sente” no poema, não confundam com o escritor) está mergulhado no plano sentimental, onírico e também da morte (poema “Anne Caroline”, p. 58). São 80 poemas e um texto em prosa poética (faltou um índice, perdão se contei errado). Mistura romântica e moderna, esse é o Alves Rosa, que tem nome de prosista com poeta.

Sidney Alves Rosa (São Paulo,23/05/1982) é tradutor formado pela Universidade São Judas Tadeu e mochileiro, “com coração de poeta e alma lusitana”, como ele mesmo se define. Quem diria que por trás desse homenzarrão, mora um poeta com um coração clássico, de versos finos, doídos, chorados e até cândidos?

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O poeta Sidney Alves Rosa

O tema recorrente na obra editada pela portuguesa Chiado, é o amor contido, proibido/impossível, que quer revelar, mas não pode/consegue e espera o improvável; outro tema que aparece com insistência é o fazer poético, a necessidade imperiosa de escrever, a “pena” que domina o homem, essa “pena” que pode ter um duplo sentido, sentimento e caneta: O cérebro diz: Cala!/ A pena pede: Escreve! (“Dualidade”, p. 14). E ainda o existencialismo, Tempos confusos este que vivo/ Não há tempo para nada/Não há tempo a se perder (…). (“Tempos confusos”, p. 19).

Suas influências são Álvares de Azevedo, Florbela Espanca e Fernando Pessoa. Nota- se que bebeu de uma fonte rica (eu sempre digo, crianças, que o bom escritor é ainda melhor leitor!). No livro há um poema “Dom Quixote” (p. 22), uma releitura poética em cima da obra do espanhol Miguel de Cervantes, página ilustrada da Mariana Perin (na página vê- se metade do poema):

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O poema “Funeral”, muito bem escrito, lembrou- me a estrutura de “Morte e vida Severina”, de João Cabral de Melo Neto (não deixe de ler esse!). Na escritura de Rosa há espaço ainda para a poesia concreta, versos em inglês e até para a sintaxe! (p. 53)

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O poeta do século XXI mora na cidade, toca guitarra e canta heavy metal. O poeta pós- moderno agora é assim, feito do seu tempo, no entanto, alberga nos seus versos o legado dos grandes poetas…de “pseudo” ele não tem nada! Sim, você é poeta!

Volto triste com as flores

murchas que você não quis,

mas, contigo deixei meu coração

na capital do meu país.

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Let’s rock! Viva a poesia!

Mais um livro autografado para a coleção. Obrigada, Alves Rosa, aguardo o próximo!

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Quer entrar em contato com o autor?  Clica aqui (Facebook).

Quer comprar o livro? Tem no site da  Cultura.

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Rosa, Alves. Pseudopoesia. Ed. Chiado, Portugal, 2014. 96 páginas

Fernando Sabino, o rei das crônicas


Nasci homem e morri menino. (Fernando Sabino)

Hoje, Dia das Crianças no Brasil,  nasceu o mineiro Fernando Sabino (Belo Horizonte, 12 de outubro de 1923 – Rio de Janeiro, 11 de outubro de 2004) ele foi escritor e jornalista. Ontem completou 9 anos do seu falecimento, um dia antes de completar 81 anos, depois de lutar contra um câncer de esôfago.

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Fernando Sabino é o rei das crônicas, mas também nos deixou contos, algo de literatura infantil, um livro epistolar junto com Clarice Lispector, “Cartas perto do coração” (2001), sua grande amiga, e os romances “O homem nu” (1960), “O Encontro Marcado”(1956), “O Menino no Espelho” (1982) e “O Grande Mentecapto” (1979), que virou filme, além de ter ganhado o Prêmio Jabuti. Um dos escritores mais lidos do Brasil, seus textos são “obrigatórios” nas escolas. Foi também editor, fundou a editora Sabiá.

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A última crônica (Fernando Sabino)

A caminho de casa, entro num botequim da Gávea para tomar um café junto ao balcão. Na realidade estou adiando o momento de escrever. A perspectiva me assusta. Gostaria de estar inspirado, de coroar com êxito mais um ano nesta busca do pitoresco ou do irrisório no cotidiano de cada um. Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano, fruto da convivência, que a faz mais digna de ser vivida. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num acidente doméstico, torno-me simples espectador e perco a noção do essencial. Sem mais nada para contar, curvo a cabeça e tomo meu café, enquanto o verso do poeta se repete na lembrança: “assim eu quereria o meu último poema”. Não sou poeta e estou sem assunto. Lanço então um último olhar  fora de mim, onde vivem os assuntos que merecem uma crônica.

Ao fundo do botequim um casal de pretos acaba de sentar-se, numa das últimas mesas de mármore ao longo da parede de espelhos. A compostura da humildade, na contenção de gestos e palavras, deixa-se acrescentar pela presença de uma negrinha de seus três anos, laço na cabeça, toda arrumadinha no vestido pobre, que se instalou também à mesa: mal ousa balançar as perninhas curtas ou correr os olhos grandes de curiosidade ao redor. Três seres esquivos que compõem em torno à mesa a instituição tradicional da família, célula da sociedade. Vejo, porém, que se preparam para algo mais que matar a fome.
Passo a observá-los. O pai, depois de contar o dinheiro que discretamente retirou do bolso, aborda o garçom, inclinando-se para trás na cadeira, e aponta no balcão um pedaço de bolo sob a redoma. A mãe limita-se a ficar olhando imóvel, vagamente ansiosa, como se aguardasse a aprovação do garçom. Este ouve, concentrado, o pedido do homem e depois se afasta para atendê-lo. A mulher suspira, olhando para os lados, a reassegurar-se da naturalidade de sua presença ali. A meu lado o garçom encaminha a ordem do freguês. O homem atrás do balcão apanha a porção do bolo com a mão, larga-o no pratinho — um bolo simples, amarelo-escuro, apenas uma pequena fatia triangular.
A negrinha, contida na sua expectativa, olha a garrafa de Coca-Cola e o pratinho que o garçom deixou à sua frente. Por que não começa a comer? Vejo que os três, pai, mãe e filha, obedecem em torno à mesa um discreto ritual. A mãe remexe na bolsa de plástico preto e brilhante, retira qualquer coisa. O pai se mune de uma caixa de fósforos, e espera. A filha aguarda também, atenta como um animalzinho. Ninguém mais os observa além de mim.
São três velinhas brancas, minúsculas, que a mãe espeta caprichosamente na fatia do bolo. E enquanto ela serve a Coca-Cola, o pai risca o fósforo e acende as velas. Como a um gesto ensaiado, a menininha repousa o queixo no mármore e sopra com força, apagando as chamas. Imediatamente põe-se a bater palmas, muito compenetrada, cantando num balbucio, a que os pais se juntam, discretos: “parabéns pra você, parabéns pra você…” Depois a mãe recolhe as velas, torna a guardá-las na bolsa. A negrinha agarra finalmente o bolo com as duas mãos sôfregas e põe-se a comê-lo. A mulher está olhando para ela com ternura — ajeita-lhe a fitinha no cabelo crespo, limpa o farelo de bolo que lhe cai ao colo. O pai corre os olhos pelo botequim, satisfeito, como a se convencer intimamente do sucesso da celebração. Dá comigo de súbito, a observá-lo, nossos olhos se encontram, ele se perturba, constrangido — vacila, ameaça abaixar a cabeça, mas acaba sustentando o olhar e enfim se abre num sorriso.
Assim eu quereria minha última crônica: que fosse pura como esse sorriso.

Texto extraído do livro “A Companheira de Viagem”, Editora do Autor – Rio de Janeiro, 1965, pág. 174.