Os reis da Espanha entregarão amanhã o prêmio Cervantes ao escritor Sergio Ramirez


O escritor nicaraguense Sergio Ramirez (Masatepe, 05/08/1942) receberá amanhã, no Dia Internacional do Livro,  o Prêmio Cervantes, o mais importante outorgado a escritores espanhóis e hispano- americanos. A solenidade acontecerá na cidade de Alcalá de Henares, terra natal de Miguel de Cervantes, e será presidida pelos reis da Espanha, Felipe VI e Letizia Ortiz. Sérgio é o primeiro centro- americano a conseguir esse prêmio, que começou há 42 anos. A grande Nélida Piñón está na Espanha e assistirá a solenidade, já que  Ramirez é um grande amigo da escritora.

23559504_2001428196761021_5087737475304710830_nSergio Ramirez, sua esposa e Nélida Piñón. (Facebook da autora)

Sergio Ramirez, apesar de ser um dos escritores mais celebrados na Europa e América Latina, não foi editado no Brasil, pelo menos eu não achei nenhuma edição em português. Os editores brasileiros precisam “espabilar”, como falamos na Espanha, “acordar”, prestar mais atenção e oferecer também aos leitores brasileiros não só enlatados e best- sellers, mas também qualidade literária, mesmo que as vendas sejam inferiores. Creio que todo editor deveria ter este compromisso moral.

Este problema não tenho na Espanha. Toda a premiadíssima obra de Sergio Ramirez foi editada por aqui. Segue a lista:

Castigo divino (1988).

Un baile de máscaras (1998).

Cuentos completos, com prólogo de Mario Benedetti (1998).

Margarita, está linda la mar (1998).

Mentiras verdaderas (ensaios sobre a criação literária, 2001).

Catalina y Catalina ( Contos, 2001)

El reino animal (2007).

Sombras nada más (2002).

Mil y una mortes (2005).

El cielo llora por mim (2008).

 La fugitiva (2011).

Adiós muchachos (2007).

Tambor olvidado (2008).

Cuando todos hablamos (2008).

Noche tibia (2012).

Flores oscuras (2013).

Juan de Juanes (2014).

Sara (2015).

El cielo llora por mi (2016).

Ya nadie llora por mí (2017).

¿Te dio miedo la sangre? (2018).

9788437507958

A maioria pela editora Alfaguara, veja.

Sergio Ramirez também esteve envolvido com política, foi vice- presidente da Nicarágua. Veja um vídeo curtinho para saber um pouco sobre a sua vida e obra (em espanhol), clica aqui.

Amanhã a RTVE deve transmitir ao vivo o evento de entrega do Prêmio Cervantes 2017. É só você voltar aqui amanhã e clicar neste link.

 

 

 

 

Anúncios

Resenha II: Dom Quixote de La Mancha


A resenha era pra ser do capítulo I ao X, mas a edição de uma revista na Espanha arrebatou totalmente o meu tempo. Fica aqui um pouco da bio de Cervantes e a resenha até o capítulo II.

Um pouco da biografia de Miguel de Cervantes. 

Nascido em na cidade de Alcalá de Henares, na Comunidade de Madri, Espanha, provavelmente no dia 29 de setembro de 1547 (dia de São Miguel, por isso seu nome) Miguel de Cervantes Saavedra, filho de Rodrigo Cervantes, um “zurujano sangrador”, que era uma mistura entre médico e barbeiro, e filho de Leonor de Cortinas. O casal teve sete filhos, três meninas e quatro meninos, Miguel foi o quarto. Ele nasceu em casa, onde hoje funciona seu museu. Morou pouco tempo em Alcalá de Henares, a família mudou- se para Valladolid quando Miguel tinha 4 anos. A família alugou uma casa na rua Rastro (hoje funciona um museu de Cervantes), mas durou pouco também, apenas dois anos. Voltaram para Alcalá de Henares outra vez. Depois disso Cervantes mudou para Córdoba, Sevilha, Toledo e Madri, durante sua vida adulta não parou muito tempo em nenhum lugar. Os estudiosos dizem que seu pai fugia dos cobradores. Cervantes voltou adulto para Valladolid e foi nessa cidade que escreveu o prólogo de “Dom Quixote”, leia aqui a resenha.

No ano passado, historiadores, arqueólogos e geofísicos afirmaram (ainda que não seja possível afirmar 100%, já que o DNA está deteriorado depois de 400 anos) que os restos mortais de Cervantes estão na igreja das Trinitárias, em Madri. Aqui na Espanha, o evento foi transmitido ao vivo na TV, um grande rebuliço, cientistas e pesquisadores dando seus pareceres favoráveis ao achado. Então, até que provem o contrário, Miguel de Cervantes é meu vizinho, jaz na cidade de Madri junto a sua esposa Catalina Salazar Vozmediano. Não tiveram filhos. Cervantes, aos 37 anos, era apaixonado por Ana Franca de Rojas (uma mulher casada), com quem teve sua única filha, Isabel de Saavedra. Cervantes não acabou com o seu grande amor, ele estava comprometido com Catalina e Ana morreu cedo. Nas próximas resenhas irei contando mais.

Continuando a leitura de “Dom Quixote”.

O livro é dividido em duas partes, a primeira com 52 capítulos. E para introduzir a segunda parte, acontecem de novo todos os protocolos do início da primeira, a burocracia, pagamento de taxas, erratas, aprovação e também um novo prólogo, como se fosse um segundo livro.

1ª parte: os capítulos são  introduzidos com um título. O primeiro:

I. Que trata da condição e exercício do famoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha

O célebre início:

Em algum lugar de La Mancha, cujo nome não quero recordar, não faz muito tempo que vivia um fidalgo…(p.27)

A descrição de dom Quixote: 50 anos, magro, rosto fino, gosta de acordar cedo e de caçar. O sobrenome, “dizem”, Quijada ou Quesada.  Tudo indica que dom Quixote (antes Quijada)  tenha existido mesmo, é um personagem real, famoso antes desse livro, que foi sendo reconstruído à base de testemunhas, nem sempre concordantes entre si. Quijada era um grande leitor, tanto, que até esquecia de administrar a sua fazenda e de caçar. Vendeu terras para comprar coleções de livros de cavalaria, gostava do escritor Feliciano de Silva. Desses livros de Feliciano destacou essa frase (p. 29):

La razón de la sinrazón que a mi razón se hace, de tal manera mi corazón enflaquece, que con razón me quejo de vuestra fermosura. 

(Algo assim: “A razão da irracionalidade que faço a minha razão, dessa forma o meu coração  enfraquece, que com razão me queixo de sua beleza.”)

Quijada ia lendo essas coisas e perdendo o juízo. Ele tentava entendê- las, mas nem Aristoteles as entenderia, pensava. Por causa dessas leituras sentia também vontade de escrever. Há muitas referências bibliográficas, autores medievais de romances de cavalaria, caso você queira conhecer esse tipo de literatura fascinante e antiga, como Amadís de Gaula, Palmerín de Inglaterra, Belianís, por exemplo. E uma obra de referência, uma verdadeira enciclopédia sobre o assunto, é o livro de Ríquer, “Os trovadores”, depois mostro em outra ocasião.

Quijada varava as noites lendo, tantas sem dormir, que perdeu o juízo, já não diferenciava a realidade da ficção. E quis viver tudo o que lia nas histórias de cavalaria, decidiu sair pelo mundo. Assim surgiu “dom Quixote”, que saiu pelo mundo com a arma velha dos seus bisavós e com seu cavalo Rocinante, “um nome alto, sonoro e significativo” (p.32). Os fidalgos não recebiam o tratamento de “dom”, mas Quijana ao mudar seu status para “cavaleiro”, ganhou esse direito. Escolhidos o nome do cavalo e o seu próprio, “Quixote”, que é uma parte da armadura que protege a coxa, agora “só faltava encontrar a dama a quem apaixonar- se, porque o cavaleiro andante sem amores era árvore sem folhas e sem fruto e corpo sem alma” (p.33).

A moça escolhida foi uma lavradora chamada Aldonza Lorenzo, que Quixote achou melhor mudar para estar mais a sua altura, decidiu chamá- la”Dulcinea del Toboso”. Toboso fica atualmente na província de Toledo. “(…) nome, a seu parecer, músico e peregrino e significativo, como todos os demais que a ele e suas coisas havia posto”. (p.33)

Capítulo II: Que trata da primeira saída que da sua terra fez o engenhoso dom Quixote:

Os capítulos são curtos, cinco ou seis páginas mais ou menos. Nesse segundo, o narrador conta como o mais novo desbravador da velha Espanha saiu pela primeira vez do seu “pueblo” (povoado).

Uma curiosidade: saber português está ajudando na leitura de Cervantes sem a adaptação ao espanhol atual. Muitas notas explicam o que Cervantes quis dizer, colocam sinônimos, mas a maioria delas para os lusofalantes são desnecessárias (creio eu), pois nos são familiares.

Quixote, armado e vestido, sai montado em Rocinante de madrugada sem comunicar a ninguém sobre a aventura prestes a ser empreendida. Foi quando percebeu que estava cometendo um engano. Os cavaleiros não usavam arma de fogo, só “arma branca” (facas, espadas e afins) e que um digno cavaleiro como os dos romances que lia, usavam mesmo era um escudo e uma espada. . E dessa forma, temos o Dom Quixote vestido e paramentado, como no desenho abaixo:

don-quijote-de-la-mancha

Dom Quixote, determinado, ingênuo e sonhador tinha a certeza que no futuro, um sábio escreveria as suas façanhas. O recém- nomeado cavaleiro antecipava os fatos: seu cavalo era famoso sem ser, Dulcinea, sua namorada, sem conhecê- la, o que o narrador classifica de “disparate” (p. 36), considera o recém- cavaleiro um desmiolado.

O narrador conta a história como se Quixote fosse real: “há autores que dizem que a primeira aventura que lhe aconteceu foi a de ‘Puerto Lápice’; outros dizem que foi a dos moinhos de vento.” (p.36)

A edição lida nesse post:

Cervantes, Miguel de. Don Quijote de La Mancha. Edición Conmemorativa VI centenario Cervantes. Alfaguara, 2015. Páginas: 1249

Crédito da imagem: clica.

Resenha I- Dom Quixote de La Mancha


Dom Quixote de La Mancha começa bem curioso e engraçado. Uma série de protocolos da época, uma carta de Cervantes ao rei, uma do rei, carta do escrivão, de um licenciado em Letras que dá a sua palavra que as erratas estão de acordo com o livro, tudo isso antes de começar a narrativa propriamente dita. Depois vem o prólogo de Cervantes. Ele dirige- se diretamente ao leitor. Só as duas primeiras palavras já fizeram- me rir: “Desocupados leitores”. Por que será que ele acreditava que só os “desocupados” leriam a sua obra? Por que não a considerava boa ou por sua extensão? Nada disso, ironia pura.

Ele explica que os pais quando têm um filho muito feio e sem graça, normalmente, o protegem, “colocam uma venda nos olhos” e por causa do amor que lhes têm, fingem não enxergar seus defeitos. Mas ele, “que, ainda que pareça um pai, sou padrasto de dom Quixote, não quero ir com a corrente usual (…)” (p.7). Ou seja, ele vai delatar o pobre do Dom Quixote em todas as suas faltas, e a si mesmo (no prólogo) com muita ironia.

Só com o prólogo, que é super bem elaborado, você já recebe uma aula de espanhol (delícia ler essa obra no original!), conheci conjugações verbais que ainda não tinha lido em nenhum lugar, um léxico desconhecido, fora a aula prática de literatura, como se deve escrever um texto.  Cervantes deveria ser leitura obrigatória para todo aspirante a escritor.

Começou emocionante, deu aquele friozinho na barriga e a pergunta interna que não cala até agora: “por que eu não li isso antes?!” Ele inovou ao escrever o prólogo. Disse que não iria fazer como todos faziam: colocar citações de Aristoteles, Platão e de nenhum filósofo, nem a Bíblia. Cervantes, com 57 anos, disse que era um homem de “poucas letras”, por isso não iria mostrar falsa erudição colocando prólogo nem conclusão no livro. Há ironia nisso e, certamente, uma alfinetada nos seus contemporâneos, principalmente o popular poeta Lope de Vega, seu desafeto. Depois diz que é preguiça mesmo. Acho que estava cansado da mesmice do seu tempo. Mais ao menos como nós agora. Ele cita duas frases de Horácio, uma de Ovídio e duas do evangelho, todas em latim, que seus colegas usavam na época, em modo ironia. Coloco uma aqui de Ovídio, que ele utilizou para ridiculizar os escritores, atribuiu a autoria a Catón (p.11), insinuando a falsa erudição dos colegas, que nem sabiam de quem eram os dísticos que utilizavam.

Enquanto és feliz terás muitos amigos; se os tempos forem difíceis, estarás sozinho.

Só o prólogo já deu pano pra manga. Eu não vou contar tudo, mas Cervantes deu uma coça na turma da época. O que me dá mais coragem para seguir em frente com o meu papel de crítica, detonando as obras- “basura”, que estão enfiando goela abaixo do leitor inexperiente. A quantidade de escritor medíocre que anda surgindo me provoca um arrepio de mal estar. Que critiquem a crítica, estou vacinada, o que penso sobre a arte literária e os que estão longe dela, será dito.

Nesse prólogo de 20 páginas (veja o livro no final do post) é escárnio puro. Zomba dos colegas sem nenhum pudor. Depois ele explica um pouco quem é o famoso Dom Quixote: um apaixonado, honrado e valente cavaleiro de Montiel, que tem um fiel escudeiro, Sancho Pança. Termina o prólogo com uma palavrinha: “Vale”. Parece que não significa nada, não é? Errado. É uma alusão ao frei “Antonio de Guevara, autor das “Epístolas familiares”, que usa o nome de três prostitutas da Antiguidade no seu livro e apoderou- se da autoria. Um falso erudito.

Há que se fazer uma leitura atenta de Cervantes, pois nada é por acaso. A obra é muito trabalhada, muita “transpiração”.  Depois do prólogo, Cervantes colocou dez sonetos de sua autoria contrariando, outra vez, o costume de colocar poemas de amigos abrindo as obras.  O “cara” escreveu os poemas “Al libro de Don Quijote de la Mancha” e “Del donoso poeta entreverado, a Sancho Panza y Rocinante” cortando ao meio todas as palavras no final dos versos, tipo…deu uma banana à tradição da época e os que pensavam que sabiam tudo e queriam que os outros fizessem igual.  Cervantes foi o primeiro poeta concretista! 🙂

Aconselho que você preste atenção quando for comprar essa obra, porque há muitas adaptações. Compre alguma edição com o texto integral. As adaptações são um insulto ao leitor, pois tentam encurtar ou “facilitar” a leitura, maculando e depredando verdadeiras obras- primas.

Quando vier à Espanha, não deixe de visitar o Museu Casa Natal de Cervantes, que fica na charmosa cidade de Alcalá de Henares ( adoro!) pertinho de Madri. A entrada é gratuita e você pode conhecer onde nasceu um dos maiores escritores do mundo e de todos os tempos. Até o dia 14 de fevereiro está acontecendo uma exposição de ilustrações do espanhol Miguelanxo Prado:

cerva

Como eu não quero posts muito longos, termino por aqui. Já viram que não vai dar pra ser sucinta com esse livro.

Possivelmente, a edição abaixo seja a melhor em formato low cost dessa obra. Custa só 13, 90 euros e vem com textos de Dario Villanueva, que é o diretor da Real Academia Española, Mario Vargas Llosa, Francisco Ayala, Martín de Ríquer (falecido em 2013), que eu reverencio, pois era um incrível especialista em literatura medieval, ele tem uma obra chamada “Os trovadores”, que é de chorar de tão incrível. A edição e notas são de Francisco Rico. Só fera!

qui

Cervantes, Miguel de. Don Quijote de La Mancha. Edición Conmemorativa VI centenario Cervantes. Alfaguara, 2015. Páginas: 1249

Leia aqui o primeiro post sobre esse livro, o de introdução.

Dez livros essenciais (que eu ainda não li)


Eu tenho uma lista de livros que eu ainda não li e que deixa- me bastante incomodada. São livros essenciais na biblioteca de qualquer bom leitor (leitor de qualidade e não de quantidade) e que eu necessito urgente eliminar dessa lista incômoda. Obviamente, o universo de excelentes e importantes livros é bem maior do que uma existência só pode abarcar. Escolhi alguns que estão na minha biblioteca e preciso devorá- los já!

  1. Dom Quixote de La Mancha, de Miguel de Cervantes Saavedra

Eu moro na Espanha, sou formada em Letras, mestre em Literatura, dona de um blog literário,  e ainda não li a principal obra do país que me acolheu e um dos livros mais importantes do planeta. Não é uma vergonha?! É! Por isso, esse é prioridade total e começarei hoje mesmo essa leitura.

12118924_530217887133776_4297109866246141397_n

Essa é uma edição espanhola da Anaya, capa dura, com ilustrações do premiado José Ramón Sanchez, ou seja, bem caprichada e muito barata, acho que custou menos de 10 euros. O Quixote talhado na madeira está sem o Sancho, que foi vendido sem o amigo. Fiquei com pena dele e o trouxe lá de Santiago de Compostela. Preciso achar o Sancho parecido.

2. Em busca do tempo perdido, de Marcel Proust

Eu não posso negar a minha quedinha pelos franceses. “Em busca do tempo perdido” é uma obra extensa, mais de 3 mil páginas divididas em sete livros. Eu só li o primeiro, “Em busca de Swann” , “Pelo caminho de Swann” (há variações, depende da edição). É uma obra que estou impaciente para terminar. A foto é do segundo livro:

12032983_530217740467124_1307027619959064214_n

3. MacBeth, de William Shakespeare

O clássico dos clássicos, o maior escritor de língua inglesa. Como que a gente pode não ler esse cara?! Eu já li os sonetos, Hamlet e Romeu e Julieta. Tenho que ler a obra toda. Essa edição da Planeta é linda, ela está em um estojo e as ilustrações são de nada mais, nada menos que Salvador Dalí!

12049129_530217880467110_8586158195125452733_n

4. As mil e uma noites, vários autores

Quem nunca ouviu falar da Scheherazade? Não é aquela do jornal do SBT não, viu? Eu já li histórias dispersas, mas gostaria de entender melhor o conjunto da obra. Nem sei se é possível isso,  já que é uma antologia de contos populares da antiga Pérsia, os países árabes, Índia. Nesse livro é possível entender muito do se escreve hoje em dia, influenciou e influencia ainda muitos escritores.

12039430_530217900467108_3226593439752293980_n

5. Bel Ami, de Guy de Maupassant

É um autor que eu quero muito conhecer, vou começar pelo mais famoso e ir descobrindo a obra pouco a pouco.

12042902_530217793800452_2675859019107933857_n

6. Antagonia, de Luis Goytisolo

Eu conheci pessoalmente esse autor e tenho quase toda a sua obra autografada, menos esse da foto, seu livro mais importante, que ficou em casa porque é um calhamaço, mais de 1000 páginas. A crítica diz que é o “Proust espanhol”. Goytisolo é da Real Academia Española.

12049164_530217827133782_7200088555700339328_n

7. Retrato do artista adolescente, de James Joyce

Eu tenho uma relação amor-ódio com esse autor, porque não gostei do seu livro mais famoso, Ulisses e adorei o seu livro de contos Dublinenses. Eu quero ler o Retrato e reler Ulisses, acho que não era o momento de ter lido, tenho essa pedrinha no sapato.

12046676_530217723800459_4995212603892243660_n

8. Mrs. Dalloway, de Virgínia Woolf

Posso confessar? Então confesso: a literatura inglesa não me atrai. Já comecei a ler mil vezes os livros de Virginia e de outras escritoras inglesas e empaquei. É como uma necessidade imperiosa de conseguir fazer essa leitura, tenho duas amigas, a Fran do Livro & Café, que é especialista em Woolf, inclusive ela está promovendo uma leitura coletiva de “Orlando”, quem quiser participar  chega lá; e outra amiga, a professora doutora Rosângela Neres, que são fãs da autora. Que ela é boa, não tenho dúvida. Eu é que tenho uma barreira a ser vencida, nem sei qual. Vou ler.

12038478_530217833800448_4169259510432212623_n

9. Memorial de Aires, de Machado de Assis

Eu AMO Machado de Assis, mas envergonhada, confesso: não li ainda toda a sua obra. Falta esse, Memorial de Aires, faltam alguns contos, faltam todas as poesias, e alguns outros romances. Imperdoável!

1538724_530232377132327_6258690223512221813_n

10. Os paraísos artificiais, de Charles Baudelaire

Eu quero ler toda a obra desse poeta “maldito” francês, o livro abaixo está só para representar. As flores do mal é o seu livro mais conhecido, que eu já li, mas que quero fazer uma releitura “esquematizada” para poder fazer uma resenha aqui.

12109163_530232387132326_4096705276982070259_n


 

Esses livros todos juntos…não sei, deve dar umas cinco mil páginas (só Dom Quixote tem mais de 1300 páginas), não sei quanto tempo para ler isso tudo, mas vou tentar. Palavra de leitora. Tenho certeza que depois dessas leituras serei uma pessoa diferente. Acompanha- me?!

A Universidade de Alcalá de Henares, Espanha


No último fim de semana fiz uma imersão cultural em Alcalá de Henares- a segunda cidade que me sinto melhor na Europa (a primeira é Paris).

A história da Universidad de Alcalá de Henares é muito interessante, é a 4ª mais antiga da Europa, suas atividades começaram em 1239, mas o grau superior só foi implantado em 1499 por um padre franciscano chamado Cisneros, um grande defensor da cultura e da arte. Graças a esse padre a universidade foi conservada e manteve as suas atividades, pois o mandatário político da época queria vender o edifício, recortar a fachada em pedaços e vendê- la para o exterior, prática comum na época. No final, vários vizinhos da cidade compraram os edifícios da universidade, formaram uma fundação de coproprietários, foi assim durante muito tempo passando de geração em geração, até que os herdeiros cederam os edifícios ao governo de Madri, mas com a condição de que os conservassem em perfeito estado.

Os nós na fachada (nos dois lados da porta) fazem referência à ordem franciscana e significam castidade, pobreza e obediência, junto com outros símbolos católicos, como São Pedro e São Paulo segurando uma coluna e no alto, um brasão familiar do político que reinava em Alcalá na época, mostrando as duas forças poderosas, religião e política.

Na Sala do Paraninfo acontecem atos oficiais, formaturas e o famoso Prêmio Cervantes, o mais importante da língua espanhola. Na antessala estão as placas de todos os escritores premiados, como Octávio Paz, Jorge Luiz Borges e o último prêmio Nobel Mario Vargas Llosa. O prêmio é anual e concedido pela trajetória do autor, então geralmente ganham quando estão idosos. É obrigatório recebê-lo em pessoa. Reparem que no ano de 1979 Gerardo Diego e Jorge Luis Borges receberam no mesmo ano, foi uma exceção. Diego estava muito doente, acharam que ele não resistiria até o dia da solenidade, então chamaram a segunda opção: Borges. O que aconteceu? Diego não morreu e Borges já havia sido convocado, tiveram que dar dois prêmios, Borges ficou muito ofendido por ter sido a 2ª opção. No final, Borges morreu primeiro que Diego.

O interior da Sala do Paraninfo está como na época da sua inauguração, exceto o chão que é uma réplica, o resto está tal como em 1499. O chão foi estragado porque durante um período em que a universidade parou com suas atividades, essa sala foi usada como estábulo pelo prefeito da cidade que não era amante das artes.

Nesse púlpito que dá pra a igreja (que está em reforma) era onde os doutorandos apresentavam as suas teses, com um professor- anjo de um lado, que o ajuda e auxiliava, e vários professores que sentavam na sua frente e faziam perguntas dificílimas. Nesse dia tocavam os sinos das igrejas e se o doutorando fosse aprovado era um dia de festa, pois o recente doutor era obrigado a pagar um banquete para a cidade inteira (a maioria dos estudantes era de família nobre e com posses), mas se o aluno fosse reprovado, a população o levava para um desfile de humilhação pública: colocavam no estudante orelhas de burro (de verdade, sangrando) e faziam um corredor para que ele passasse e fosse cuspido até ficar branco. A perda do banquete era imperdoável.

Muitos estudantes ilustres frequentaram essa universidade, como os poetas Quevedo e Lope de Vega. A universidade tinha as suas próprias leis, não estava sujeita às leis da cidade de Alcalá e tinha sua própria cárcere. Ia para a prisão quem não falasse em latim, por exemplo. Quevedo tinha fama de farrista, conta- se que ele sempre saltava pela janela da biblioteca para cair na noite de Alcalá, para beber e namorar. A universidade tinha um regime de internato para rapazes, as mulheres não podiam estudar naquela época. Quevedo voltava bêbado altas horas da madrugada, tentava subir por onde saiu, mas não conseguia e sempre ficava na prisão por esse motivo.

A única mulher a se doutorar nessa universidade no século XVIII foi María Isidra Quintina de Guzmán y la Cerda (1768 – 1803), uma exceção. Ela conseguiu uma permissão do Rei Carlos III para apresentar sua tese, mas sem assistir aulas, ela teve que estudar em casa. Ela só conseguiu ser a primeira acadêmica da Espanha ( e a segunda da Europa, a primeira é uma italiana) porque era de família nobre e com boas relações com o rei. A sua tese foi brilhante, ela foi aprovada e ficou conhecida como a “doutora de Alcalá”. Hoje ela é lembrada com o seu nome numa rua de Madri.