Resenha: “Ciranda de pedra”, de Lygia Fagundes Telles


Tenho uma leve lembrança da novela “Ciranda de Pedra”, que passou na minha infância (1981), mas nada significativo em relação ao enredo, só lembro do rosto de Lucélia Santos; portanto, essa obra era como uma desconhecida para mim. Sei que a novela da Globo foi um tremendo sucesso, foi reprisada e ganhou um remake em 2008. De novela eu não entendo, não as vejo desde 2004, época da minha expatriação “definitiva”. Quem entende do assunto é a minha amiga Alana Freitas, vejam lá o “Entretelas”, blog especializadíssimo nessa arte de massas. Em tempo: a adaptação de “Ciranda de Pedra” (a de 2008) também foi vista em Portugal.

A história começa com uma menina revoltada, triste, deprimida, que chora junto à Luciana, a empregada mulata, que cuida de toda a família. Esta obra foi escrita em 1954 e nota- se a opressão e preconceito que os negros sofriam. A cor estava associada à feiura (referência dos cabelos) e à tristeza. Os anjos só podiam ser brancos:

29595510_966591216829772_311884275773438084_n.jpg

Virgínia utiliza a cor de Luciana para atacá- la e menosprezá- la em momentos de tensão. Luciana é um personagem forte, porque faz as revelações mais importantes da narrativa, que é bem melodramática na primeira parte, por isto deve ter virado novela na TV, tem elementos de folhetim. Mas não foi ameno, levei alguns sustos, é uma narrativa abrupta dividida em duas partes. Já na primeira desenvolve- se todo o dramalhão. Não posso negar que não haja verossimilhança com a vida. Aliás, a vida é muito pior.

Os pais estão separados e a mãe, Laura, sofre demência, algo parecido com Alzheimer algumas vezes, e também sofre alucinações e desconecta do mundo “real”. Ela não lembra que Virgínia é sua filha, mas tem alguns momentos de lucidez.

A narrativa está entremeada em uma teia de fragilidades, rupturas e analogias entre pessoas, pássaros e animais invertebrados como beija- flores, formigas, aranhas e borboletas. Laura vê besouros: é o sinal de que Virgínia perdeu a mãe mais uma vez. A obra é enigmática, há uma aura de mistério e dor.

Vamos descobrindo mais sobre quem é Laura nos seus momentos de lucidez; no entanto, não dá para saber se os fatos são reais ou fruto de sua loucura. Ela conta que sua mãe era atriz e que seus pais morreram num incêndio. Daniel é o seu marido. Ela abandonou o ex, Natércio, pai de Virgínia, por causa dele. Laura e Natércio têm outras duas filhas, Bruna e Otávia, que moram com o pai.

A impressão é que Daniel pode ter algo de responsabilidade pela doença de Laura. Ele proíbe a entrada de Virgínia no quarto da mãe, não dá para saber se por proteção ou algo estranho. Virgínia o vê participando da loucura da mãe. Depois Daniel a envia para morar com o pai. Mais tarde descobrimos o motivo disso tudo, não vou contar, porque seria spoiler grande.

Na casa de Natércio quem cuida das meninas é Frau Herta, antipática e até cruel com Virgínia, a repreende a todo momento e exalta a qualidade de suas irmãs. Natércio é rico e mora num casarão.

Virgínia tenta negar a doença da mãe e afirma em reiterada vezes que melhorou, mesmo sabendo que não é verdade, principalmente por medo. Ela teme perder a mãe. Daniel explica o seu conceito de morte à Virgínia:

16425845_966581700164057_6965668479691781004_n

Daniel lê um livro de Charles Manson, “Sparkenbroken”, publicado em 1936, que diz o seguinte (adaptado pelo editor): “A noite passada voei para a árvore da morte;/ De súbito uma brisa fez- me pairar; / E eu, mísero boneco de penas arremessado,/ Envolvido no meu elemento, voltei a ser pássaro.”

Para Daniel há vida após a morte e esta é a libertação. Virgínia gosta do “tio Daniel”, mas tem que fingir que não, afinal, foi por causa dele que os seus pais se separaram. O médico é muito mais carinhoso que o seu pai. Elas, Otávia e Bruna, desprezavam a pequena, que não é parecida em nada com as duas, nem em gestos, comportamento ou aparência. Claro que já dá pra desconfiar que Virgínia é filha de Daniel e não de Natércio e esse foi o motivo da separação do casal, a infidelidade de Laura. Mas, se isso é certo, por que ainda não contaram à Virgínia a verdade?

A narrativa na primeira parte da obra intercala- se em três ambientes: a casa do pai, a casa da mãe e a imaginação de Virgínia. Na segunda parte, Virgínia foi morar num colégio interno de freiras.

Há outros dois personagens, Afonso e Conrado, irmãos e vizinhos da casa de Natércio. Virgínia tinha uma queda por Conrado, mas o moço não prestava atenção nela e sim na irmã Otávia. O tempo passou e  Afonso casou- se com Bruna, tiveram uma filha. Frau Herta, doente, já não é mais a governanta e sim a portuguesa Inocência. Conrado mudou- se depois da morte da mãe para uma chácara e Natércio aposentou- se. E sobre Daniel e Laura, essa parte não vou contar. Também não vou contar o que aconteceu com Virgínia, você vai ter que ler o livro…só vou contar que ela, já crescida, sai do colégio interno e volta para a casa de Natércio.

É uma obra bem escrita e que me provocou sensações de choque e angústia por vários motivos.

Creio que na novela há mais dicotomia de personagens vilões e mocinhos, vítimas e algozes. No romance não, são só humanos…

Qual caminho escolher? Essas encruzilhadas que a vida nos impõe e suas inexoráveis consequências. É uma história cheia de bifurcações e despedidas, e essas, nunca são alegres.

Esta é a edição portuguesa lida, ainda sem as correções do acordo ortográfico:

29571360_965128723642688_6404595740615182933_n       Telles, Lygia Fagundes. Ciranda de Pedra. Presença, Lisboa, 2008. 204 páginas

Se quiser comprar a mesma edição que a minha, clica aqui.

Anúncios

Resenha de filme: “A livraria”, de Isabel Coixet


Estreou no Brasil nesta última semana, o filme “A livraria”, da cineasta espanhola Isabel Coixet. O filme ganhou o Goya de melhor direção na Espanha. Merecido prêmio: a direção é primorosa. E a atriz protagonista, Emily Mortimer, também levou o Goya. O filme foi baseado no livro da inglesa Penelope Fitzgerald, “The Bookshop” e acontece no final dos anos 50 na Inglaterra, na cidade de Hardborourgh . Amei a fotografia e o figurino. Há cenas exteriores que foram gravadas nas praias de Barcelona, além da Irlanda do Norte.

La-Librería-Cartel

“A livraria”(2017) é um excelente filme, mas não é pra todo mundo. Ele é cheio de sutilezas e silêncios carregados de significados, que muitos não saberão interpretar e poderão achar lento. A obra mostra, principalmente, uma relação maniqueísta. A viúva sem filhos, Florence Green (Emily Mortimer) mora numa cidadezinha da Inglaterra, ama ler e decide montar uma livraria, o seu sonho. Ela acredita que sua vida ganhará mais sentido, como uma missão, mesmo sabendo que é um negócio de alto risco e que pode lhe dar prejuízo. Escolhe uma casa abandonada há anos, a “Old House”.  Pede um empréstimo no banco, que lhe é concedido com muita dificuldade, e compra a casa velha e úmida. Arruma o básico e muda- se logo na primeira semana.

Tudo vai bem até a esposa rica de um militar, Violet Gamard (Patricia Clarkson), uma socialite filantropa (a maldade costuma usar este tipo de recurso, filantropia e religião, numa tentativa de  integrar- se e ser respeitado socialmente para poder estender amplamente a sua sombra envenenada), convida Florence para uma festa em sua casa ao saber que esta iria montar uma livraria na cidade.

A bruxa, quer dizer, Violet, tenta “convencê-la” (soa à ameaça) a montar na casa um centro cultural, porque considera melhor, mas Florence continuou com o seu sonho. Os livros chegaram e ela montou sim a biblioteca, a “The Old House Library”.

A inveja. A inveja é um sentimento terrível, porque, na verdade, ela não quer possuir o que tem o outro, ela só deseja que o outro não tenha o que tem. E não mede sacrifícios para isto.

A casa estava abandonada há anos, mas Violet, só agora, a queria. Ela era tão poderosa, que em um ano, conseguiu que uma lei de patrimônio histórico fosse aprovada para despejar Florence da sua própria casa, que era antiga, mas não tinha valor histórico.

Durante todo o filme vemos as armadilhas de Violet e a bondade de Florence. O bem contra o mal, a eterna luta. É algo muito, muito real, cotidiano. Infelizmente, há muitas Violets atravancando caminhos e arrebatando coisas que não lhe pertencem maquiavelicamente…só por maldade, inveja, porque querem algo que naturalmente jamais teriam.

Dois personagens importantes: a ajudante da livraria, uma menina que trabalha pela tarde, mas que foi impedida de continuar o trabalho que amava por artimanha da bruxa e Edmund Brundish (Bill Nighy), um senhor que vivia isolado numa casa antiga, leitor voraz, que odiava os seres humanos justamente por causa de pessoas como Violet, mas que acaba sendo conquistado pela bondade e coragem de Florence.

O filme é cheio de referências bibliográficas, com destaque para “Lolita”, de Vladimir Nabokov e “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury, esse tem resenha aqui no Falando em Literatura.

Infelizmente, amigos, o bem nem sempre vence. Mas, o que nunca as Violets da vida poderão nos roubar é o amor verdadeiro, a bondade e os sonhos, coisas que jamais conhecerão. Florence deixou uma semente plantada. Essa é a mensagem do filme.

Veja o trailer do filme, aqui.

O livro que deu origem ao filme está completamente esgotado na Espanha. Penelope Fitzgerald escreveu “A livraria” em 1978. Eis a autora:

58773

Penelope nasceu em 1916 e faleceu no ano 2000 em Londres, era casada com um soldado irlandês e teve três filhos. Uma pena não ter visto a sua obra no cinema. Ela publicou seu primeiro livro aos 58 anos, apesar do seu pai ser editor, foi uma “late bloomer“. A autora escreveu outros nove livros.

Trinta prazeres da leitura


A leitura de um livro pode proporcionar vários prazeres. Eu listei abaixo trinta dos meus:

Este slideshow necessita de JavaScript.

 

  1. Começar a leitura de um livro com aquela sensação de ter aberto a porta para um universo desconhecido.
  2. Visitar novas e velhas bibliotecas.
  3. Lembrar de uma leitura da infância.
  4. Fazer uma resenha (oral ou escrita) de um livro recém lido.
  5. Relembrar um personagem querido (e sentir falta dele).
  6. Conhecer bibliotecas públicas.
  7. Sentir o cheiro de um livro novo.
  8. Terminar um livro imenso.
  9. Contar um conto de fadas para uma criança.
  10. Conhecer pessoalmente o autor de um livro incrível.
  11. Ter uma coleção de livros autografados.
  12. Entrar numa casa ou cafeteria cheia de livros.
  13. Descobrir um livro que conta a nossa história pessoal.
  14. Ganhar um livraço de presente.
  15. Dar um livraço de presente.
  16. Ir a um sarau de poesia.
  17. Ler poesia com os amigos.
  18. Descobrir dentro de livros usados, fotos, dedicatórias, desenhos e anotações.
  19. Chorar e/ou rir com um livro.
  20. Ler na cama.
  21. Esperar ansiosamente o lançamento de algum grande autor.
  22. Ir em feiras de livros.
  23. Vasculhar livrarias.
  24. Organizar a biblioteca de casa.
  25. Comprar edições especiais ou únicas.
  26. Ler ao ar livre.
  27. Ler numa rede.
  28. Ler anotações em livros já lidos.
  29. A sensação de companhia estando com um livro aberto.
  30. Ter uma coleção completa de um autor favorito.