“A expulsão do diferente”, do filósofo Byung- Chul Han


O filósofo sul-coreano Byung- Chul Han (Seul, 1959), foi um grato descobrimento. O autor fala sobre problemas dos nossos dias e eu acabei fazendo uma reflexão sobre alguns deles. Ele começa dizendo em “La expulsión de lo distinto” (“A expulsão do diferente”), que “o corpo social” está doente.

A padronização de condutas e comportamentos está orquestrada para eliminar os diferentes, porque o diferente não convém ao sistema. A proliferação do igual está provocando patologias, porque a essência humana é heterogênea.

A doença social é gerada por um excesso de informação e um excesso de permissividade, curiosamente.  Mas não é o que vem de fora o nosso principal algoz. Segundo o autor, não é a proibição ou a repressão o motivo da depressão nos tempos atuais: a pressão não vem do outro, vem do interior. Ou seja, o pior inimigo do sujeito é ele próprio:

A depressão como pressão interna desenvolve traços autoagressivos. O sujeito que, sentindo- se obrigado a mostrar rendimento, torna- se depressivo em certa maneira e se mói a pauladas ou se asfixia a si mesmo. (p.10)

Vou mostrar algo mais prático: existe uma expressão em inglês para o fato de assistir séries sem parar, “binge watching”. É o consumo de vídeos e filmes sem limite temporal. Há pessoas que assistem uma série inteira em um fim de semana. É como se a pessoa entrasse “em coma”, segundo o filósofo. A pessoa fica indefesa.  Isso é o “excesso do igual”. Todo mundo faz, parece legal, então você faz também.

Outro exemplo que o autor dá: as viagens. A maioria das pessoas viaja só para subir fotos nas redes sociais e para contabilizar países visitados. É como se viajasse sem viajar, porque a maioria não adquire nenhum conhecimento.

E ele fala das redes sociais, que é o meio mais anti- social que existe. Engraçado que eu comentei recentemente exatamente este fato com três amigas. O autor diz que “os meios sociais representam um grau nulo do social”.

No Brasil, poucos se expõem no Facebook, por exemplo, por medo de serem julgadas, por medo de que algo dito seja usado contra elas, por medo de serem prejudicadas profissionalmente, por medo de discussões…resumindo: por medo. Por medo de serem quem são e desagradar. “O que eu ganho com isso?!”, ainda que percam a si mesmos, porque agradar o outro é mais importante. É um padrão comportamental nas redes e na vida. Há algo de superstição também, pode “dar azar” ou atrair inveja, olho gordo, essas coisas. Negar o diferente é essencial. Fazer parte da corrente e encaixar é o que importa, ainda que o pé seja 38 e o sapato um 35.

As pessoas se reprimem e ficam doentes. A expressão é uma das funções básicas e primárias do ser humano. Ser humano baú fica pesado e sufocado. O que o outro pensa importa tanto assim? Claro. A aprovação alheia, a popularidade, o sentir- se querido, a imagem projetada, ainda que irreal (e surreal muitas vezes) é o que motiva as pessoas à padronização. Essas pessoas negam o diferente, e a essência disto é a dor (leia na página 12).

Vivemos na era da contradição. Com tanta informação e redes sociais, mas estamos cada vez mais mudos e sozinhos. Falar virou tabu. O silêncio está sobrevalorizado.

A qualidade da informação que nos é fornecida também é questionada pelo autor. Não há causa e efeito, “é assim e pronto”. As pessoas estão saturadas, nem se dão o trabalho de averiguar a causa e efeito das coisas, por isso é tão fácil eleger um presidente inepto através de redes sociais, porque os algoritmos estão feitos para encontrar pessoas que pensam igual, com os mesmos interesses, uma espécie de auto- doutrinação, já que só chega até a pessoa “notícias” que lhes são afins, como se fossem verdades únicas e incontestáveis. Os macro- dados correlacionam tudo e fazem supérfluo o pensamento.

Eu amo a Filosofia, porque é o ramo que melhor nos explica.

O pensamento tem acesso ao completamente diferente. Pode interromper o igual (p.13).

Por isso, pense, por favor. Não seja só leitor de manchetes. Abra os links, leia a notícia, preste atenção no autor, para quem ele trabalha e na intencionalidade do texto. Observe o outro e o porquê dele pensar como pensa. Se forem pensamentos destrutivos a si mesmo e aos demais, só a palavra pode salvar. A omissão vem destruindo e matando. Nós podemos romper essa cadeia de pensamento vicioso, circular, destrutivo, de que o outro é inimigo. Não é. Essa semente do mal foi plantada e vem sendo cultivada para dividir. O outro é projeção do que você tem dentro.

O autor cita Heiddeger, o filósofo alemão, que diria hoje sobre esse barulho todo das redes sociais, que “nos converte em surdos diante da verdade e para o seu silencioso poder violento (p.14). Surdos e mudos, digo eu.

Ele fala do hiperconsumo, da hipercomunicação, da hipervisibilidade, da hiperprodução do corpo como objeto funcional e culpa o neoliberalismo, as pessoas têm que render, são só números para este sistema econômico feito para hiperfaturar.

Esse universo neoliberal, que pode ser um pesadelo, foi retratado no filme “Anomalisa”, dica do autor. O neoliberalismo padroniza, nos quer transformar a todos em iguais. O protagonista, Michael Stone, dá palestras de motivação empresarial com muito sucesso, escreveu um livro, mas deprime- se, deixa de ver sentido em tudo. Ele ouve vozes iguais e rostos iguais. Não consegue distinguir adultos de crianças. É como se fosse uma sociedade de clones. Ele viaja para uma palestra e encontra uma mulher diferente, Lisa. Ele é a única que tem a voz diferente, considera- se feia, está acima do peso e tem uma cicatriz no rosto. Está fora dos padrões. Ele apaixona- se por ela. É a única diferente. Esse filme é interessantíssimo. Em japonês, “anomalisa” significa a “deusa do céu”. Ela, que parecia “anormal”, foi a salvação do palestrante, que antes era um fantoche controlado à distância.

Creio que se não formos nós mesmos, seja na vida diária ou nas redes sociais, não somos nada. Quando deixamos de pensar e de nos expressar por medo do que pensem sobre nós e para atender os esquemas pré- determinados, que beneficiam só aos próprios, estamos mortos e enterrados em vida. Perfeito para o poder: uma legião de zumbis.

O filósofo aponta coisas interessantíssimas sobre as consequências negativas que o neoliberalismo provoca nas pessoas. Esse sistema incita a que as pessoas sejam autênticas e criativas. A princípio isso parece muito bom, não é? E deveria ser, mas o que fazem com isso é que é ruim. Nos “ensinam” que devemos ser criativos, inovadores, empreendedores, sermos livres dos esquemas e criarmos a nós mesmos.

Você estudou, virou adulto, e só pensa em si, no seu umbigo, questionando- se e vigiando- se o tempo todo, tornou- se um narcisista, nunca foi programado para pensar na coletividade. Isso é que o neoliberalismo no Brasil fez com gerações e gerações: obrigou que cada brasileiro fosse produtor de si mesmo. Isso gerou uma pressão interior tremenda e as patologias psicológicas que meio Brasil sente. “Eu sou mercadoria, sou autêntico, preparado, e se ninguém me compra? Não valho nada!”.

Entendeu?

Para entender mais, porque tem MUITO mais, leia esta brilhante obra. O autor correlaciona padrões sociais super- destrutivos dissimulados no tecido social e que explicam comportamentos suicidas, depressivos e terroristas.

Não se engane: nada é por acaso. Tudo, absolutamente tudo na vida, é causa e efeito.

 

 

Esta foi a edição lida
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Nelson Rodrigues traduzido na Espanha


Uma coletânea de trinta e nove textos do pernambucano Nelson Rodrigues (1912-1980) foi publicada na Espanha em 2018, sob o nome: “No tengo culpa de que la vida sea como es” (“Não tenho a culpa de que a vida seja como ela é”). Com tradução do consagrado artista Pablo del Barco e prefácio do escritor e jornalista Manuel Jabois, ou seja, uma edição caprichada. O livro segue a linha editorial de um volume publicado no Rio de Janeiro em 2009, pela Agora Editora; na Espanha, a editora “Días Contados” abriu as portas ao nosso doce “Anjo pornográfico”, taxado em outras épocas como “obsceno” e “vulgar”. A coletânea reúne textos publicados originalmente no jornal “Última hora” entre 1952 e 1955.


Los lectores hispanos tendrán la oportunidad de leer en el idioma de Cervantes a uno de los más irreventes escritores brasileños: Nelson Rodrigues, que era un verdadero bocazas, vamos. Utilizó el idioma de la calle para expresar de forma fidedigna el arte del pueblo brasileño.


Nelson Rodrigues, jornalista e dramaturgo, já foram para o teatro, a TV e o cinema, como “A dama da lotação” e “Vestido de noiva”. E agora seus contos “viajaram” para a Espanha.

É uma satisfação saber que a nossa literatura foi bem tratada no exterior com uma obra assim. A pena é que ainda sejam muito escassas.

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O fomento da nossa língua e literatura no exterior nunca foi prioridade dos governos brasileiros, em todos os tempos, em toda a nossa história. Parece que a ignorância faz pensar que não seja um bom negócio. Se o Brasil fosse um país comprometido com a Educação e a Cultura pensaria diferente e já teria um Instituto como outros países. Portugal, do tamanho da Bahia, fomenta o português através do Instituto Camões gerando negócios e empregos no próprio país e no exterior. É o nosso idioma? Sim e não. Eles puxam a brasa para a variante deles. Precisamos de um Instituto com o nosso sotaque e cultura.

A Espanha tem o Instituto Cervantes, que, com sua força, conseguiu ultrapassar o português em número de falantes no mundo. Se o Brasil tivesse boa vontade estaríamos em melhor posição, o Brasil podería ter o segundo idioma ocidental mais falado do mundo, só atrás do inglês; mas o país está em franco retrocesso…e em todos os setores.

Se você quiser comprar o livro citado, ele está sendo vendido nas melhores livrarias da Espanha, é só clicar neste link.

A cultura dos macacos


Quanto mais eu vejo os resultados do que fizeram conosco, mais acho necessária a literatura, que descortina e faz pensar.

Digo “eles”, esses poucos que detém o grande volume de dinheiro e que manipulam “a massa” como bem entendem. “Massa” é uma expressão detestável. Massa não tem forma, é homogênea, sem vontade, sem importância, inanimada, tal como o poder pensa mesmo da sociedade. Massa serve para ser moldada. Nós temos que ter consciência de que somos parte desse processo “invisível”, cruel e imperceptível para uma grande parte da população mundial.

Li recentemente um livro sobre gestão de conhecimento de um cubano radicado nos Estados Unidos, um manual de como os empresários devem proceder para ter êxito no uso e organização do Conhecimento. Até isso (ou principalmente) os capitalistas selvagens conseguiram colocar preço. Eles decidem que tipo de Conhecimento interessa  e o que não. Mas veja: muitos usam a Filosofia para sustentar suas teorias, até o capital precisa das Ciências Humanas muitas vezes ridicularizadas e desvalorizadas por eles mesmos.

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Empresários em suas escolas de negócios caríssimas, exclusivas para poucos, são programados para a desumanização. Pessoas são números ou siglas,  e são utilizadas para gerar  lucros. “Útil” é a palavra essencial. Um clássico. Desumanizam- se para que nada atrapalhe a sua escalada profissional. Se a mãe ligar: ignore; se o filho cair doente, outra pessoa deve resolver esse “percalço”. Responder amigos? Nem pensar. A história do “time is money” é levada a sério. Você pensa que o mundo é como é, tão violento e desigual, por acaso? Não, isso é trabalhado diariamente.

Este é um assunto complexo. Eu só vim para acender uma faísca, comece a pesquisar sobre o assunto: como o Conhecimento é gerido pelo poder.

Vou deixar um texto retirado deste mesmo livro e que ensina o valor do (mau) hábito. O autor foca como algo negativo, mas no sentido de que tal comportamento empresarial pode barrar a criatividade. Mas eu observei sobre outro ângulo: o do empregado e da passividade da população diante das injustiças. É um texto que serve para a vida de um modo geral:

“Um grupo de cientistas colocou cinco chimpanzés em uma jaula e no centro foi colocada uma escada e, sobre esta, uma penca de bananas.

Quando pela primeira vez um chimpanzé subiu a escada para pegar as bananas, os cientistas jogaram um jorro de água gelada sobre os macacos que ficaram no chão.

Passado algum tempo, quando um chimpanzé subia as escadas, os outros bateram nele.

Depois, nenhum macaco tentou mais subir a escada, apesar da tentação das bananas. Então, os cientistas substituíram um dos macacos.

A primeira coisa que o novo chimpanzé fez foi subir a escada, mas foi rapidamente retirado na base de murros pelos outros.

Depois de mais algumas porradas, o novo macaco não tentou subir mais as escadas.

Um segundo macaco foi substituído e ocorreu a mesma coisa. O primeiro macaco substituído participou com entusiasmo da surra ao novato.

Um terceiro chimpanzé foi substituído e os fatos se repetiram.

Os cientistas chegaram a ter cinco chimpanzés que, ainda que nunca receberam o jato de água fria, continuaram batendo em quem tentasse pegar as bananas. No final, nenhum macaco daquele grupo tentou comer as bananas.

Se fosse possível perguntar aos macacos o porquê de baterem em quem tentasse subir a escada, certamente a resposta seria:

Não sei! Aqui as coisas sempre foram assim!”

Esses macaquinhos fazem coisas mecânicas, repetitivas sem saber o motivo,  porque foram manipulados a fazer isso.

Não seja como esses macacos em nenhuma circunstância da sua vida, porque é perder- se de si mesmo, é não ter personalidade, isso sim é não ser ninguém.

Se te jogarem um balde de água fria para evitar que você suba em algum lugar, não desista, procure outro caminho, não se deixe intimidar. Eles são experts em bloquear o caminho dos macacos ou moldá- los de acordo às suas necessidades, por isso eles têm o poder. Macaco amestrado não pensa e obedece.

Sim, nós podemos fazer diferente e nadar contra a corrente.

 

Como ter uma memória de elefante


“Os elefantes nunca esquecem quando foram maltratados por alguém, nem esquecem o cheiro da roupa da tribo que os atacou anteriormente, são capazes de distinguir o chamado de mais de cem indivíduos diferentes e de recordar rotas concretas que os levem às mais diversas fontes de alimento e água”

Tudo começa pelo pensamento. Um pensamento correto é o que te leva ao seu objetivo. Se você não consegue chegar até a sua meta, é porque o seu pensamento está te conduzindo ao lugar errado. Às vezes, é só questão de um pequeno ajuste. Se o objetivo é passar num concurso, por exemplo, não se distraia com outras coisas. Isso serve para tudo. Concentre- se no que importa. Aprenda a estudar concentrado no que te interessa.

A memória é a nossa capacidade mental de armazenar informações e ela funciona de várias formas: pelo tato, visão, olfato, audição e pelas emoções. Ela fica armazenada em compartimentos diferentes e em diversos níveis, superficiais ou profundos, recentes ou remotos.

O esquecimento é uma memória que deixou de ser utilizada e com o tempo acabou desaparecendo. Por isso, quanto mais um pensamento ruim for lembrado, mais demorará para ser esquecido. Se quer esquecer algo dolorido, não o evoque, se distraia dele, nesse caso sim, a distração é útil.

Mas, as distrações como as redes sociais são péssimas, porque quebram a concentração. Sabe aquela espécie de transe que entramos quando estamos concentrados em algo? É o estado ideal para a aprendizagem. Então, já sabe: quando quiser memorizar algo, elimine todas as distrações. Eu sei, é difícil, mas você consegue.

Você sabe de memória o número do celular da sua irmã, melhor amigo ou pai? Pense que antes dos celulares, computadores e tablets, as pessoas precisavam memorizar tudo, inclusive números de telefones. Muita gente não sabe o próprio número. A memória anda preguiçosa.

Vamos para uma solução mais prática. Existe uma técnica de memorização, a “mnemotécnica”, que é um sistema de aprendizagem fácil e agradável de ser posto em prática. Por exemplo: memorize uma palavra qualquer, por exemplo, “violão”. Use todos os seus sentidos.

Qual a cor do violão? O formato? O cheiro? A textura? Visualize. Reforce a recordação,  isso vai fazer você interiozar o objeto. Se escolher uma palavra por dia e fizer este exercício , lembrará facilmente das palavras. Experimente.

Há outra técnica que é relacionar o que precisa ser lembrado, como uma palavra em inglês, por exemplo, com algo conhecido. Também é possível pela repetição. Se você ouvir uma música muitas vezes, irá memorizar a letra. Se a sua memória anda ruim e você não tem nenhum problema físico, então é só questão de falta de atenção e treino. A memória atrofia por falta de uso.

Você pode se aprofundar no assunto se quiser, há uma ampla bibliografia no Brasil, clica aqui. A minha referência bibliográfica foi um livro de dois espanhóis, que são craques em memorização:

Podemos controlar a nossa memória a nosso favor e ter mais qualidade de vida. O que nos fez mal deve ser esquecido, não alimente recordações destrutivas. Esquecer ou recordar é questão de treino.

Resenha: “Tartufo”, de Molière


Você sabe o motivo da cor amarela ser considerada de má sorte para os atores? Continue lendo para descobrir!

Literatura clássica francesa. Livros seculares como “Tartufo”, do parisino Molière, emocionam- me muito! Uma obra assim você não pode deixar de colocar na sua lista de leituras. Ela representa com perfeição arquétipos sociais, como a hipocrisia, por exemplo. Uma obra aclamada há quase 350 anos, viva e atual.

Molière nasceu Jean- Baptiste Poquelin e foi batizado em 15 de janeiro de 1622, portanto, há 396 anos, um velhinho quase quatrocentão. Não se sabe a data exata do seu nascimento. Era filho de tecelãos, uma família burguesa, que servia a casa real francesa. O autor tinha três formações universitárias: Humanidades, Filosofia e Direito, profissão que exercia, mas não gostava. Abandonou o Direito para dedicar- se ao teatro, sua paixão. Renunciou também o trabalho de tecelão da monarquia que herdaria do seu pai, isso foi em 1643. A família era boêmia, frequentava teatros, inclusive a irmã de Moliére, Magdalene, era atriz famosa. Para ela, usava- se uma expressão “femme d´esprit”, uma mulher inteligente e culta. O sentido original dessa expressão mudou um pouco com o tempo e agregaram ao seu significado a malícia e o humor.

A biografia de Molière, considerado o “pai da comédia francesa”, é muito interessante, mas só vou dar uma pincelada, porque é extensa, recomendo que leiam na íntegra. Nessa edição espanhola (foto), o prólogo é bem interessante, conta toda a cronologia do autor. Ele montou uma companhia de teatro com alguns sócios, foi nessa época que adotou o nome artístico de “Molière”. A companhia foi um fracasso, endividaram- se, não puderam pagar e Molière foi preso.  Depois de solto, saiu de Paris, começou a apresentar- se com a companhia pelo interior da França e deu certo. O dramaturgo tinha muitos inimigos, principalmente atores, desafetos que foi ganhando pela vida. A realeza censurou as suas obras também. Molière teve um filho, Louis, que morreu na infância e teve uma filha, “Esprit Madeleine”, que adulta chamava- se “Madame de Montalant” e um outro menino chamado Pierre. Se eu não contei errado, Moliére encenou vinte e três peças. Ele escrevia e atuava também.

Segundo este prólogo biográfico e crítico, Moliére era um homem sério, calado, triste, feio, baixo, de sobrancelhas e traços grosseiros, e parece que estava acima do peso. Creio que foi uma descrição injusta, o homem não me parece tão pouco agraciado assim, achei até simpático, que você acha?

Doente, perdeu bastante peso e ficou miudinho. Vivia sempre vermelho por causa dos ataques de tosse, tinha tuberculose. Já perto de falecer, também morreram a sua irmã Madeleine e um outro filho, isso prejudicou a sua saúde, dizem. Ele levava suas dores para o palco, sua última obra: “O doente imaginário”. Agora vem a história da cor amarela:

Molière teve uma convulsão em cima do palco, na última cena e vestia amarelo. As pessoas acharam que ele tinha morrido, o que só veio acontecer horas mais tarde na sua casa. E ainda por cima escreveu este epitáfio para o personagem: “Aqui jaz o rei dos atores. Agora se faz de morto e na verdade, o faz muito bem”. Virou lenda. Os sacerdotes recusaram- se a dar- lhe extrema- unção por causa da obra “Tartufo”, principalmente. A Igreja detestava Molière, ele os delatava nas suas obras.

A assinatura de Molière

Então, vamos descobrir o motivo dessa obra ser tão polêmica. “Tartufo” tinha sido censurada durante muito tempo, mas foi autorizada a ser representada pela primeira vez em 5 de fevereiro de 1669 e foi um sucesso absoluto. São doze personagens e a história acontece na casa de Orgón, em Paris:

E Dorine endossa e revela a hipocrisia que acontece no meio social que frequentam (p.101):

– Não será Daphné e o maridinho dela que falam mal de nós? Aqueles cuja conduta mais se presta ao ridículo são sempre os que se metem a falar mal dos outros. Estão sempre prontos a observar o mais leve indício de simpatia para com alguém, espalham a notícia com o maior açodamento, desvirtuando as coisas a seu talante e apresentando-as como querem que sejam vistas. Julgam poder justificar as próprias ações neste mundo, dando às dos outros o colorido que lhes convêm, e procuram inocentar as próprias intrigas com a ilusória esperança de parecerem íntegros; ou então fazer recair alhures algumas migalhas esparsas dessa reprovação pública, que os sobrecarrega em demasia.

Senhora Pernelle, mãe de Orgon
Orgon,marido de Elmire
Elmere, mulher de Orgon
Damis, filho de Orgon
Mariane, filha de Orgon e apaixonada de Valère
Valère, apaixonado de Mariane
Cléante, cunhado de Orgon
Tartufo, falso devoto
Dorine, dama de companhia de Mariane
O senhor Loyal, sargento
Flipote, criada da senhora Pernelle

A senhora Pernelle é uma matriarca déspota, que critica com crueldade toda a sua família. Todos estão alvoroçados, porque receberá a visita de Tartufo, que a mãe idolatra e sua família detesta. A madame reprova várias condutas, até o fato de receberem visitas e a vizinhança comentar, reclamar do barulho e do entra e sai e Cléante rebate (p.101):

(…) – Não há como garantir-se contra calúnia. Não nos preocupemos com os mexericos tolos; esforcemo-nos por viver em completa inocência, dando aos faladores plana liberdade.

Quando algo incomoda demais em alguém, é espelho. A pessoa vê no outro o que tem em si em abundância e o reflexo provoca mal- estar. Disso ao ódio é um pulo. Por isso a Igreja e a Realeza incomodaram- se tanto com Molière? Claro!

O machismo e a inversão de valores também foram assuntos tocados por Moliére. Na cena IV (p.105), acontece um diálogo entre Dorine e Orgón sobre Tartufo e a mulher de Orgón, Elmere, que estava passando muito mal com uma enxaqueca, não dormiu a noite toda, não conseguiu comer e estava sangrando muito. Tartufo, o hóspede deles, jantou um banquete, bebeu vinho, dormiu tranquilamente, e ainda por cima, ELE era o “pobre homem”! O “pobre homem” saiu de manhã para rezar e fortalecer sua alma de bom cristão.

Orgon e Cléante têm falas imensas. Fiquei pensando na memória de elefante que têm que ter os atores que representam esses personagens. Adoraria ver esta obra encenada. Cléante tem uma fala brilhante sobre o verdadeiro e o falso. Claro que a carapuça deve ter caído em muita gente naquela época, e hoje ainda, obviamente. A falsidade. Como saber se uma pessoa está sendo sincera ou simplesmente o seu discurso é manipulado para conseguir certos objetivos? Você consegue perceber?

Tartufo aparece na cena VII declarando- se para a esposa de Orgon, Elmere. E ela surpresa, “tão bom cristão”. Enquanto isso, Orgon estava querendo obrigar a filha a casar- se com Tartufo por dinheiro. E Tartufo culpa a mulher pelo seu desejo de cobiçar a mulher alheia (a partir daqui usei o PDF em português para facilitar as citas):

– Ah! Mas nem por ser devoto eu não sou menos homem; e quando se chega a ver seus celestes atrativos, o coração torna-se escravo e não raciocina mais. Sei que essas palavras parecem estranhas partindo de mim, mas, senhora, apesar de tudo, não sou um anjo; e se condena a confissão que acabo de lhe fazer, deve culpar seus encantos.

Iria ficar tudo em segredo, mas Damis ouviu tudo escondido e depois chega o marido também e o armou- se o barraco. Mas, pensa que Tartufo foi banido da família pela ousadia de assediar a mulher do dono da casa que estava hospedado?! O marido solucionou o problema obrigando Tartufo a casar- se com sua filha. Você acha que Orgon trocaria a posição social de Tartufo por honra e dignidade?!

A história tem reveses. Quem parece que vai ganhar, perde e vice- versa. Um texto bem contruido, amarradíssimo e surpreendente! Muito gostoso de ser lido, recomendadíssimo!

Molière. Tartufo. Catedra. Letras Universales, Madrid, 2010. Páginas: 179

Se quiser ler um PDF em espanhol (grátis!), clica aqui.

Se preferir ler em português, é só clicar aqui (grátis!).

Se quiser ler em inglês, clica aqui.

Boa leitura!

Um livro que pode mudar a sua visão do mundo


Somos mais pessimistas do que deveríamos ser? Tudo indica que sim, segundo este livro com um título extenso: Factfulness: dez razões pelas quais estamos enganados sobre o mundo. E porquê as coisas estão melhores do que você pensa”.

Por que estou falando sobre este tipo de livro, um best- seller, inusual aqui? Porque quem o indicou foi um dos homens mais bem sucedidos do mundo e um filantropo excepcional: Bill Gates. A frase, “este livro pode mudar a vida das pessoas”, é dele. Bill deu esta obra de presente a todos os formandos americanos no ano de 2018!

Barack Obama também o recomenda. Foi o livro mais lido de 2018 nos Estados Unidos:

*the #1 Sunday Times bestseller * instant New York Times bestseller * an Observer‘best brainy book of the decade’ * #1 Wall Street Journal bestseller * Irish Timesbestseller * Audio bestseller * Guardian bestseller * 

—Longlisted for the 2018 Financial Times/McKinsey Business Book of the Year—

Este não é um livro de ficção, os dados econômicos são reais e foi escrito por especialistas da mais alta reputação e confiabilidade.

O autor principal (são três da mesma família), Hans Rosling, era um famoso médico sueco, entusiasta das tecnologias, do desenvolvimento, e que dava palestras no TED. Você pode vê-las aqui.

Hans Hosling nos ensina como ser menos ignorantes no mundo

O doutor criou um método inovador de estatísticas chamado Trendalyzer.

Hans faleceu no ano passado (68 anos), por causa de um câncer de pâncreas, infelizmente, um dos mais agressivos.

Vou deixar a sinopse da obra (traduzida do espanhol), leia com atenção:

Qual a porcentagem da população global que vive na pobreza? Quantas meninas acabam a educação básica nos países pobres? Qual é atualmente a esperança de vida no mundo? A maioria das pessoas respondem incorrectamente estas perguntas e a outras similares. Por que isso acontece? Este livro explica o porquê de sermos mais pessimistas do que em realidade deveríamos ser dada a situação real de nosso mundo.

Hans Rosling, uma eminência da análise e divulgação de tendência globais , afirma que temos dez instintos que distorcem a nossa visão. Por isso nossa tendência a dividir o mundo em dois campos (nós contra eles) da maneira em que consumimos a informação dos meios (baseada na exploração do medo), passando pelo modo em que percebemos o progresso (acreditando que as coisas sempre pioram). Nosso problema é que não somos conscientes do que não sabemos, e inclusive quando estamos informados nos deixamos levar por vieses inconscientes e previsíveis.

Porque, apesar de todas as suas imperfeições, a realidade econômica e social do mundo é muito melhor do que pensamos, no entanto, não significa que não existam motivos para preocupar- se e nem questões que requeiram uma melhora urgente. Existem múltiples problemas por resolver, mas os dados nos indicam que o mundo está cada vez melhor.

Opinião: a cultura do medo é usada por governos, junto com a pouca vontade de resolver problemas (inclusive os pioram intencionalmente) para assim dominar a população. A imprensa, especialista em manipulação ideológica a serviço de interesses do poder, é conivente e principal instrumento. As redes sociais com filtros direcionados, pescam vítimas facilmente (remito- me às recentes eleições brasileiras). O medo é bem democrático, atinge todas as camadas sociais, indistintamente.

“Factfulness” só tem um problema: não foi publicado em português. Ele está em pré- venda na Espanha, sairá no dia 27 de novembro e está esgotado nos Estados Unidos, já há uma pré- venda na Amazon para abril de 2019. Mas sem problema: há o e-book em inglês disponível em várias lojas, deixo aqui o link da Amazon. Está em inglês, obviamente.

Conselho: aprenda idiomas! Espanhol e inglês são básicos para tudo hoje em dia.

Eu já comprei o meu na Amazon e vou contando sobre ele nos stories do Instagram: @falandoemliteratura. Aproveita pra me seguir, nos vemos por lá. Se você ler este livro me avisa, quero saber o que achou, se ele realmente pode mudar a nossa visão sobre o mundo. Conhecimento é poder e, tudo indica, o que sabemos é muito pouco.

Veja a resenha em vídeo que Bill Gates fez sobre esta obra:

 

Você sabe qual foi a primeira gramática da língua portuguesa? (PDF grátis!)


Para os amantes “da última flor do Lácio”, deixo aqui o PDF da primeira gramática da língua portuguesa, uma joia escrita há 482 anos por Fernão de Oliveira (1507-1581), nascido em Aveiro, terra dos meus ancestrais. Viveu muito para o padrão da época e ainda mais com uma vida tão aventureira. Sobre o local da sua morte há incertezas. Pode ter sido em Aveiro, Lisboa ou na França.

O aveirense foi “gramático, historiador, cartógrafo, piloto e teórico de guerra e de construção naval”, Fernão foi clérigo, espião, soldado, diplomata, revisor/corretor e professor de retórica na Universidade de Coimbra. Morou na Espanha, Itália, França, Inglaterra e na África. Foi acusado pela Santa Inquisição portuguesa por heresia várias vezes e preso por isso. Uma figura interessantíssima, que teve uma vida agitada e nada convencional. Veja mais detalhes.

E Fernão ainda teve tempo para escrever! Escreveu não só a primeira gramática da nossa língua, Grammatica da lingoagem portuguesa”, também livros náuticos muito importantes.

E já que estamos falando em gramática, quero comentar uma curiosidade: historicamente, o nosso idioma foi classificado em “português antigo” (até o séc. XIV), “português médio” (durante o séc. XV), “português clássico” (meados do séc. XVIII) e “português moderno” do séc. XVIII até hoje. Um aspecto interessante sobre a nossa língua oral é que as vogais no português brasileiro e africano soam muito mais parecidas com o português antigo, médio e clássico, que o português de Portugal. Curioso, não? * 

Eu fiquei emocionada “folheando” a  “Grammatica da lingoagem portuguesa”, dá para entender tudo o que ele escreveu há quase 500 anos, mesmo com muitas direferenças ortográficas. O idioma tinha algumas semelhanças com o espanhol e achei curioso que naquele tempo ele colocou a cedilha no “c” antes de e:

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Quem é professor de português sabe que um erro recorrente é a cedilha antes de “e” e “i”. Tá vendo? Deve ter ficado no DNA… 🙂

Vale muito a pena ter esse exemplar na sua biblioteca virtual pelo imenso valor histórico e o prazer de dar essa volta no tempo. Clica aqui.

*Gramática da língua portuguesa, vários autores, (nove!), da Editora Caminho, Portugal, 2004.