Como aprender um idioma com sucesso

Você tenta aprender alguma língua e não consegue? Gasta uma fortuna em cursos de idiomas, materiais, livros, intercâmbio, viagens ao estrangeiro e sente que não avança? Irei contar a minha experiência com a aprendizagem de idiomas.

Normalmente, as crianças têm mais facilidade de aprender idiomas mais por questões psicológicas, que biológicas. Os adultos sentem dificuldades, porque os sons do idioma nativo acabam interferindo na pronunciação do novo idioma. Não só a pronúncia, como o ritmo também. Cada idioma tem sua “música” própria. A solução é desprender- se do aprendido e sacramentado, e estar aberto às novas experiências. Abandone o sentimento de estar sendo ridículo e o medo ao erro. Justamente esta é a segunda interferência: a timidez.

O estudante deve imitar os sons do idioma estrangeiro. A primeira coisa a fazer é entender que as vogais e consoantes são diferentes da língua portuguesa. Comece pelo alfabeto, internalize os sons. É necessário modificar esses registros para que soe inteligível.

Voltando ao tempo, relembrei como aprendi espanhol e constatei dois fatores essenciais que me fizeram aprender sem ter consciência: a vontade e a memória.

No ano de 2001, eu havia conhecido o que hoje é o meu marido, precisava aprender espanhol para me comunicar sem “passar vergonha” (a vergonha foi usada para algo positivo). Sorri ao ler os meus primeiros e-mails: eu achava que sabia escrever espanhol, mas não sabia nada, mesmo tendo feito alguns semestres na universidade. A conversação também não ficava atrás, penosa. Todo mundo começa assim errando.

A vontade, a motivação e a necessidade são fortes estímulos para a aprendizagem de qualquer coisa. Se você estuda algo que acha que nunca irá utilizar, provavelmente estará menos motivado e terá menos sucesso.

Em três meses, eu já estava fluente (estudando e falando todos os dias). Podia conversar sem grandes dificuldades e a partir daí fui só incorporando vocabulário e conhecimentos gerais sobre a Espanha. Mas eu não percebi esse processo, foi bem suave, sem nenhum trauma ou dificuldade. Eu estava aberta ao novo, não tinha vergonha dos erros, ao contrário, me divertia com eles. E confesso que tive a facilidade de ter sempre ao lado um dicionário ambulante ( o namorado na época, que me serviu de professor). Quando não entendia uma palavra, imediatamente já tinha a resposta. Mas, se você não tiver um “dicionário humano”, hoje temos excelentes dicionários virtuais e tradutores, que nos dão respostas imediatas. A internet democratizou muito a aprendizagem.

Eu já tinha trinta anos, a idade não foi problema e não deve ser em idade alguma. A idade não é um empecilho para aprender um idioma, só o seu preconceito consigo mesmo, isso sim. Parece que a idade paralisa muita gente, como se aprender fosse só para os jovens. Abandonem essa ideia. A aprendizagem dura até o final, só deixa de aprender quem já morreu. Aliás, aprender é o nosso principal motivo de estarmos aqui nesta Terra.

Descobrir um novo idioma é também abrir as portas a um novo mundo. É mágica a sensação de entender e ser entendido. A comunicação é tão básica quanto comer e dormir, é uma necessidade primária. Essa sensação tive mais presente com o segundo idioma estrangeiro que aprendi, o inglês.

Eu não senti dificuldade em aprender espanhol, porque a gramática é parecida à nossa e muita coisa se entende também. Já o inglês foi mais complicado pela falta de familiaridade. Minha base na infância foi zero. Estudei numa escola municipal em São Paulo e não havia inglês. Já na Bahia, estudei em uma escola estadual na quinta e sexta séries, e havia francês, que eu adorei estudar e tirava notas excelentes. O inglês só vi na sétima série em uma escola privada e com uma defasagem enorme, foi confuso. Faltava a base de cursos anteriores, conseguia aprovar, mas sem vontade e nem amor pelo idioma. Era uma lista enorme de verbos e tempos sem fim para decorar, que hoje vejo, é a pior forma de se “aprender” um idioma. Ninguém aprende dessa forma.

De volta às escolas públicas até chegar à universidade, o inglês ficou para trás. Só na Espanha, que voltei a estudar inglês em períodos entrecortados. Só nos últimos dois anos que avancei. Estudei no British Council até o B1 (intermediário baixo), depois passei um mês na Inglaterra e foi quando mais aprendi em toda a minha vida. A necessidade fez meu cérebro trabalhar rápido. A memória foi ativada e buscou recursos que nem eu mesma sabia que tinha. Precisei me comunicar em restaurantes, repartições públicas (até tirei um documento que me permite trabalhar no Reino Unido, fiz entrevista telefônica e em pessoa, entendi e fui entendida), com os donos da casa que aluguei, com os motoristas dos ônibus, taxistas, atendentes de lojas. Eu já tinha 45 anos, e sim, aprendi muito mais do que aos 15 anos.

Lembra que eu comentei antes que é mais difícil aprender o que a gente acha que nunca vai usar? A gente acaba usando algum dia, conhecimento e leitura nunca são demais.

Não me considero fluente em inglês da mesma forma que sou em espanhol, ainda tenho que melhorar, mas tenho uma satisfação pessoal por ter conseguido me defender na terra da rainha. Por isto digo: não se limitem. A idade pode ser até um fator favorável, nos dá mais traquejo e menos pudor ao erro, como quando éramos adolescentes.

Constância+memória+vontade= a fórmula mágica para o aprendizado de uma língua estrangeira. Dez minutos por dia bastam. Fale com nativos, assista filmes legendados, leia no idioma que você quiser aprender, mesmo catando palavras, no início é assim. Aprenda dez palavras novas por dia. Concentre- se nas que têm mais dificuldade de memorizar, não deixe que te vençam. Aprenda as estruturas gramaticais, o esquema da língua. Leia sobre a cultura, apaixone- se.

Cada dia estou mais apaixonada pela cultura britânica. Se irei ser 100% fluente? Não tenho nenhuma dúvida.

Se você quiser praticar a língua portuguesa (redação, literatura, gramática para concursos ou português para estrangeiros) ou a língua espanhola, entre em contato que damos aulas online muito divertidas, você vai aprender de forma natural. Eu (Fernanda), nativa brasileira, e ele (Toni), nativo espanhol. E-mail: falandoemliteratura@gmail.com

Em quarentena: Dia Mundial do Livro

Hoje é o Dia Mundial do Livro, uma das minhas datas preferidas, mas estamos em prisão domiciliar em Madri. Sou a favor da quarentena, mas não nego que, confinada desde o dia 6 de março, já estou cansada. Cansada, principalmente, dos números. São altos e devastadores na Espanha. Assustam e encolhem o estômago. Também há preocupação pelo Brasil e Portugal, onde estão a família e amigos. Mas, a fé e a serenidade devem prevalecer. Também deixo os meus pêsames a todas as famílias afetadas e o desejo de pronta recuperação aos doentes.

Há diversas teorias de conspirações perfeitas para roteiros de ficção: guerra fria entre líderes do mundo, informações secretas, outros dizem que o vírus foi desenhado para eliminar quem não lhes convém ou ainda a indústria químico- farmacêutica que de tempos em tempos exige protagonismo, mostrando o quanto é essencial.

Quem era “super- potência” perdeu o status, já que diante da doença o dinheiro ficou minúsculo. Petróleo não vale nada, ações não valem nada, o vil metal, idem. O poder e o povo imersos na maior das vulnerabilidades, mas os pobres e indígenas, muito mais. Se puder, ajude quem estiver perto, não finja que não é contigo. O problema é de todos, é preciso solidariedade.

No mais, mantenham- se seguros. Uma forma ótima é entregar- se a um bom livro no sofá, na cama ou numa rede na segurança do seu lar.

Também tenho visto filmes. Um que não recomendo é “Milagre na cela 7”. Um amigo querido indicou- me junto com a recomendação: “prepare os lenços”. Não lhe faltou razão, acho que nunca chorei tanto com uma história, por isso não recomendo, não quero te fazer chorar. Mas o filme é muito bom.

A tradicional festa do livro de “Sant Jordi” (São Jorge), que começou na Catalunha, ficará para o ano que vem. A tradição é presentear livros e flores. Nada mais bonito. E que São Jorge guerreiro nos dê a força necessária para enfrentar esta batalha.

E para terminar mais leve, vamos brincar?! Eu escolhi trinta autores que eu gosto e coloquei as fotos numeradas. Como anda seu conhecimento literário? Deixe a lista com os nomes nos comentários. Quantos será que você irá acertar? Na próxima semana eu voltarei com a solução (não clica nas fotos, algumas têm os nomes):

Siga o Falando em Literatura no Instagram: @falandofernanda, inclusive lá fiz um “tour” pela minhas estantes hoje, o único passeio que podemos fazer.

#DiaInternacionaldoLivro #FalandoemLiteratura

O último texto de Moraes Moreira

Provavelmente 2020 seja um dos piores anos da nossa história. Fora a tragédia mundial da pandemia do Covid-19, hoje recebemos a triste notícia do falecimento do baiano Moraes Moreira (1947-2020), que dispensa apresentações, todo brasileiro o conhece.

https://youtu.be/WjYPXN7A8Bc

Na sua última atualização no Instagram, no dia 18 de março, o artista disse que estava no seu escritório em sua casa na Gávea, no Rio de Janeiro, em quarentena. Escreveu um cordel “para a nossa apreciação”, inspirado na pandemia e no atual momento político. Terminou desejando- nos “boa sorte”:

Um texto forte, doído, de quem nunca perdeu a capacidade de se indignar. Que sirva de exemplo esse último legado de Moraes Moreira: não podemos nos conformar com as injustiças, temos que continuar lutando. Fora, Bolsonaro!

Leitura: “Estatuto do amor”, de Nélida Piñón

Está acontecendo um movimento literário mundial de leitura de textos e eu não quis ficar de fora. Escolhi para o primeiro #leituraemcasa do Falando em Literatura, um muito emocionante e forte (eu sempre choro quando leio): “Estatuto do amor”, de Nélida Piñón.

A leitura você pode ver no meu canal do YouTube, que estava sem atualizar há mais de dois anos. Eu acho muito difícil fazer vídeos, fora que a exposição é maior e eu não gosto de aparecer. Mas, tudo vale a pena para que a literatura ganhe voz. Inscreva- se no canal, porque assim serve como incentivo e apoio para que eu continue fazendo vídeos. A Literatura, veja, está sendo importantíssima nesse período de confinamento. Está servindo como evasão pra muita gente.

Já se inscreveu no canal? te espero lá!

O texto está em seu último livro, “Uma furtiva lágrima” (2019), lançado primeiro em Portugal e depois no Brasil. A minha edição é a portuguesa:

Eu não quero fazer isto sozinha. O #leituraemcasa é para todo mundo participar. Escolha um texto que você gosta, qualquer um, pode ser prosa ou verso, grava no seu celular e me envie para eu postar no canal do YouTube e em todas as nossas redes sociais. A única sugestão e que seja literatura brasileira ou portuguesa, pois assim fomentamos a literatura no nosso idioma. Dessa forma ocupamos o nosso tempo de confinamento, evadimos um pouco da realidade, as horas passarão de forma mais suave e criaremos uma onda literária. Topa? Envie seu vídeo!

Você já roubou um livro?

Eu nunca roubei um livro. Aliás, nunca roubei nada. Já fui roubada algumas vezes, isso sim.

Quando eu tinha 11 anos , peguei uma caneta de quatro cores no escritório do meu tio e a levei comigo, “ele tem tantas, acho que não tem problema”. A caneta era linda, nunca tinha visto uma daquelas, era novidade. Eu sempre fui louca por canetas. Aquela ficou queimando no meu bolso no caminho até a minha casa.  Não suportei: voltei por cima do rastro, suando, rezando para que ele não tivesse dado falta, queria colocar a caneta de volta no mesmo lugar. Consegui. Entrei e saí sem ninguém notar a minha presença.

Essa foi a minha única tentativa arrependidíssima de furto. É um sentimento péssimo, que jamais quis repetir. Ainda menina, aprendi a jamais querer nada dos outros. Se eu tivesse pedido a caneta ao meu tio, com certeza ele teria me dado. No entanto, esta é outra coisa que nunca aprendi: pedir.

Desde já, digo que roubar coisas de pequeno ou grande valor, é absolutamente reprovável. Roubar um livro é coisa ruim também, o dono da livraria não deve achar nenhuma graça; a biblioteca pública fica desfalcada e a biblioteca familiar, idem. Mas, esse é um tipo de furto moralmente menos daninho.

Uma vez, um aluno roubou um livro em cima da minha mesa. Era uma primeira edição de “Vergonha dos pés” , recém- lançada (1995), romance de estreia de Fernanda Young (1970-2019). Sorte que já tinha terminado de ler. A narrativa conta a história de Ana, uma estudante de Letras. Qualquer dia vou deixar uma resenha aqui. Pobre Fernanda, uma triste fatalidade tê- la perdido tão cedo!

“Vergonha dos pés” foi o primeiro livro de Fernanda, eu a acompanhava desde o início. Descansa em paz, Fê!

Eu vi de longe o aluno pegar o livro e colocar entre os seus livros didáticos doados pela escola pública. Sabia que era um aluno muito pobre e apaixonado por literatura, excelente leitor. Ele podia ter me pedido, mas como eu, podia ter dificuldades com isto, como eu. Eu não lhe disse nada até passar um mês:

– Gostou do livro?

– Que livro, pró?

O que você pegou em cima da minha mesa. Se terminou, passa para outro aluno, ok?

Ruborizado, pediu- me desculpas. “Eu só queria emprestado”.

Emprestei- lhe depois alguns mais. Sei que hoje, vinte e cinco anos depois, é escritor.

Lembro do conto de Clarice Lispector “Felicidade clandestina”. Vai ver este ex- aluno viveu a mesma felicidade que a menina do conto, quando teve entre mãos o tão sonhado “Reinações de Narizinho”. Ela não roubou, ela pediu e esperou pacientemente até consegui- lo. Quando quiser algo muito importante, peça. Ninguém é obrigado a saber o que é importante pra você.

Também lembro da obra “A menina que roubava livros” na Alemanha nazista, como condená- la? Há roubos que estão justificados. Lembra do ditado? “Ladrão que rouba ladrão…”

E você, já roubou um livro?

Comecei a pedir, antes tarde do que nunca: para mim é muito importante que você curta e compartilhe este texto nas suas redes sociais. Até breve!

O nosso final tem que ser feliz #fiqueemcasa

Voltando com o Falando em Literatura! Durante este período de crise mundial, vimos a importância das Artes e do entretenimento. Como sempre acreditei na função sanadora da Literatura, me senti na obrigação de voltar e tentar contribuir de alguma forma neste momento difícil. Vamos voltar a falar em Literatura? Vamos manter a mente ocupada com algo que nos faça bem?

Eu sei que você pode estar com falta de concentração, disperso (a), pode sentir insónia, ansiedade e muita preocupação. Mas tudo isso vai passar. Não deixe o pânico dominar. Aproveite o período de confinamento para o auto- conhecimento, para avaliar as suas prioridades e descartar tudo o que não te serve, inclusive pessoas. Depois de tudo, creio que voltaremos melhores e mais humanos (espero honestamente). A crise é viral, mas principalmente, de valores (inclusive os religiosos, muitos estão desvirtuados, errados). A verdade, o amor, a honestidade, além da solidariedade precisam vencer. O nosso final tem que ser feliz, individual e coletivamente.

Para quem está desatualizado, eu tentei mudar o foco do blog para algo mais amplo, não só voltado para livros. Tinha começado o “De Passagem”, mas perdi o estímulo. O Falando em Literatura já é uma marca forte e eu senti dificuldade em deixá- la para trás, afinal, este blog já é um clássico.

Esclarecendo isto, vou deixar uma lista de e- books grátis para você distrair a cachola durante estes dias de confinamento e também vou comentar sobre o que estou lendo agora.

Agora que não podemos sair de casa, veja a importância dos e-books. Um viva para o livro digital! Aproveite também para abrir a pilha de livros encalhada na sua estante, com certeza você irá encontrar algo interessante.

Clique aqui e veja os e- books disponíveis gratuitamente. Além desses, em qualquer plataforma digital, como o iBooks, Kindle, Storytel, Audible, Domínio Público, há opções grátis.

Quando você entrar no livro, irá esquecer dos problemas exteriores, ler é uma forma mágica de evasão.

Eu comecei a ler “Mulheres que correm com lobos”. Estou no início, quem vem comigo?! Quem já leu? A autora é uma psicóloga chamada Clarissa Pinkola Estés (Estados Unidos, 1945), que fala sobre mulheres em diversas vertentes, até a mística. Fala da essência feminina. Quem somos? Existe uma essência primária comum a todas? Como é a mulher primitiva, selvagem? Quando eu terminar eu volto pra contar.

A minha edição é esta aqui, clica.

O querido mestre Antônio Torres, me enviou hoje um artigo que fala sobre um texto do século XVI, encontrado por um australiano. O texto é atribuído a um português chamado António Galvão (1490-1557) e chama- se “Tratado das ilhas Maluco e dos costumes índios e de tudo o mais”. Ele fala de uma epidemia nessa ilha da Indonésia que matou animais e depois humanos. Esta epidemia não se espalhou, porque era uma ilha isolada, o que nos deixa a lição de que não há outra forma de acabarmos com a pandemia: isolamento social. Dinheiro recupera- se depois, vidas não. A quarentena é necessária para que não adoeçam todos ao mesmo tempo. Não há profissionais nem hospitais para atender a todos.

A irresponsabilidade do des(governo) do Brasil motivando as pessoas a irem para as ruas, é motivo de impeachment, além de todas as ações e palavras anteriores que o desqualificam para a função de presidir o país. Não ouçam o presidente. Fiquem em casa e busquem soluções, acordos entre chefes e empregados. A sorte é que governadores e prefeitos têm mais juízo e não irão deixar desamparada a população (vejo muitas ações neste sentido). O presidente já perdeu como todos os seus aliados incondicionais, inclusive o Ministro da Justiça Moro, que acabou de aprovar o uso das Forças Armadas para a proteção dos profissionais de Saúde, que de forma surreal, estão sendo atacados nas ruas.

#fiqueemcasa

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“Não esqueça a minha Caloi”

A bicicleta Caloi vermelha parecia que ia desmontar, tal a velocidade que eu descia a rua Manoel Ferreira Barbosa para fugir das mordidas dos cachorros. Eles ficavam na frente da casa “dos maloqueiros”, como eram conhecidos uns irmãos que moravam numa espécie de cortiço. Lembro especialmente de um que tinha o rosto queimado. Os rapazes da casa tinham fama de ladrões, mas sempre que passavam na porta da minha casa nos cumprimentavam amavelmente.

Na minha cabeça de 8 anos, ficava a contradição entre a figura de um malfeitor com o rosto deformado, que todos no bairro temiam e a pessoa doce que havia sofrido alguma fatalidade e que nos tratava sempre com um sorriso no rosto. A minha imaginação infantil flutuava entre as duas figuras e no final, achava legal manter essa cordial cumplicidade, até carinhosa, com um “bandido”; por certo, os feitos da má fama jamais foram confirmados.

O fato é que os cachorros não eram nada gentis. Eles corriam atrás da criançada, dos carros e das bicicletas. Era um desafio passar na porta dos Maloqueiros. E eu ia preparada. Na frente do rua do Jairo Ramos eu apertava os pedais o máximo que conseguia e pegava embalo na descida. Na frente do cruzamento, onde havia um bar, rezava para que não viesse algum carro e tivesse que brecar. E quando chegava na porta dos Maloqueiros, os pés já estavam em cima do guidão. O embalo ia até o final da rua e chegava na Avenida. O fato é que a minha Caloi foi uma grande companheira durante toda a minha infância. Não teve canto daquele Jardim Mangalot, que eu não tivesse desbravado com minha bicicleta.

Uma das frases que mais ouvia era, “deixa eu dar uma voltinha?!”. E eu deixava. E ficava sentada na guia da calçada esperando até a paciência esgotar.

Os paralamas da minha Caloi tremiam, “tá tá tá tá”…os parafusos estavam frouxos e eu nunca quis apertar. O barulho fazia parte do conjunto da obra. Aquele barulho anunciava a minha chegada. Isto, e as tiras de copos plásticos descartáveis que eu colocava nas varetas das rodas.

“Ganhar uma bicicleta de Natal” era o sonho de todo brasileirinho, o máximo que se podia querer. Eram caras e inacessíveis para muita gente. O Brasil sempre foi um país difícil. Meu pai, metalúrgico, fez muito sacrifício para comprar duas bicicletas, a minha e a da minha irmã que era marrom.

Uma vez, minha irmã levou na garupa minha prima e a mim até o “morrinho”, que nada mais era que um amontoado de terra num terreno baldio na nossa rua. A bicicleta deu um cavalo-de-pau involuntário e as três caíram da bicicleta. A prima e eu pulamos, mas minha irmã caiu de costas na terra. Havia por ali um caco- de- vidro que entrou nas suas costas, na altura dos rins. O corte foi grande. Corremos para casa e escondemos da mãe. Naquele tempo, o medo da bronca da mãe era maior que o medo do machucado. Fomos até o cozinha e enchemos a ferida com pó de café. Ouvimos alguém dizer que café curava feridas. O corte, que precisava ser devidamente esterilizado e inclusive ter levado algum ponto, milagrosamente, cicatrizou sem contratempos ou inflamações. A cicatriz ela tem até hoje.

Não sei o que foi da minha Caloi vermelha. Acho que meus pais venderam quando fomos para a Bahia. Eu queria muito achar uma foto da minha Caloi, mas não encontrei. Não sei se era a Ceci, não tinha cestinha e não era um vermelho vivo, era um vermelho mais claro. Acho que era anterior a 1980.

Os meninos usavam a Caloi 10, Berlineta, BMX ou a Monark Olé (aquelas com uma barra circular). As meninas ficavam com a Caloi Ceci ou a Monark. Eram as duas marcas que dominavam o mercado. A Caloi tinha aquele lema: “Não esqueça a minha Caloi”:

Ter crescido em Pirituba me fez forte. Aprendi a me virar sozinha e a ficar esperta, prever possíveis problemas e escapar deles, foi um laboratório pra vida. Ao mesmo tempo, aprendi a solidariedade e o companheirismo. Naquele tempo sim, “ninguém soltava a mão de ninguém”. Amigos eram para brincar e para as horas de dor. A gente sabia que podia contar uns com os outros. A gente dividia o lanche, defendia e apanhava por um amigo. Mexia com um, mexia com todos. Os anos 70-80 foram selvagens e ao mesmo tempo tinha a beleza da simplicidade e da nobreza de sentimentos, quase heróicos, “Stand by me”…

A rua foi uma excelente escola. Penso nas crianças de hoje que crescem em redomas de vidro, hiper- protegidas…creio que pode ser perigosa essa legião escondida atrás de computadores. Nos anos 70 e princípios dos 80, minha infância, a gente resolvia tudo cara a cara.

Foram tantas aventuras, que aos poucos irei contando. A minha infância foi, muito, muito feliz na periferia de São Paulo.

Agora, pergunto à Caloi: “Cadê a minha Caloi?!”. Não, vocês não “fabricam ciclistas”, vocês fabricam sonhos que começam na infância. E quarenta anos depois da minha primeira Caloi, para muitos brasileirinhos ainda é um sonho impossível. O modelo infantil mais barato para 9-12 anos custa R$ 789,00 e o mais caro chega a R$ 1319,00. O salário mínimo é de R$ 1039,00. A Caloi não é mais uma indústria brasileira, é canadense. Só que esqueceram que estão no Brasil.

Vocês da Caloi trabalham, direta ou indiretamente, com ferro e alumínio, recursos naturais e finitos na Terra, além da borracha, uma exploração bastante daninha em muitos sentidos. O custo para a natureza é altíssimo, portanto, deveriam ter a decência de vender bicicletas que todos os brasileiros pudessem comprar. Sugestão: um modelo low cost de, no máximo, R$ 200,00, de acordo com o salário e país que vocês exploram e que, inclusive, tem a maior quantidade de matéria- prima do planeta.

Cadê, cadê a nossa Caloi, Caloi?!

O que é a felicidade

Por Fernanda Sampaio Carneiro

Por um momento, transcendi o peso do corpo. Os raios do sol da manhã foram acendendo célula por célula, como um farol. Fiquei iluminada! Senti que podia correr sem parar durante dias, com uma força sobre- humana, nenhum mal podia ser acessível a mim. Fui apertando o passo e, sem perceber, estava saltitando como menina. Apertei os olhos impregnados de azul e a gargalhada explodiu incontrolável. Abri os braços ao sol e gritei ao céu: “- Obrigada, Senhor!”.

Ano de 2012, em Feira de Santana, depois de cinco anos fora. Saí da casa da minha melhor amiga, que havia me hospedado, e por uns instantes senti a magia de voltar pra casa. E agora, já são quase oito anos. Pensa.

Sinto falta do ar da cidade. Já percebeu que cada uma tem um perfume?

Haverá pessoas para colocar pedras nas suas vontades, porque não são as delas. Existirão muitos desvios, setas erradas, profundezas, para te enviar a caminhos muito mais longos, estratégias de distração, falácias, que te farão chegar a lugar nenhum.

Do cansaço, nascem a consciência e a esperança. O destino é indefectível.

E você, sabe onde está a sua felicidade?

Como eu consegui duas cidadanias europeias

Você sonha em morar na Europa? Uma das formas é procurar saber se você tem direito à cidadania.

Os meus três passaportes. Três países importantes na minha vida, que de sangue e coração, me transformaram no que sou hoje. Sou hispano- luso- brasileira!

Como expliquei neste post aqui (clica), eu nunca pretendi sair do Brasil. Só aconteceu quando casei com um espanhol e decidimos morar em Barcelona, terra natal do meu marido. E na terra de Gaudí solicitei a nacionalidade portuguesa. Tenho pai, avós, bisavós, tataravós portugueses de Aveiro e do Porto.

No ano de 2005, dei entrada no consulado de Barcelona, apresentei a minha certidão e a do meu pai. Meu velho morou no Brasil por 44 anos e faleceu no Brasil em 2014, infelizmente. Pai, que saudades! Quem consegue superar a falta de um pai? Eu não consegui até hoje, só vou me enganando para poder seguir adiante.

Para a minha surpresa, a certidão portuguesa chegou por correio em pouco mais de um mês. Com o “assentamento” também chegou uma carta simpática dando- me os parabéns. Foi assim que “nasci” portuguesa.

Quando o pedido é de filho de portugueses e não há nenhuma dúvida quanto à documentação, o processo é bem rápido. Mas, infelizmente, acontecem muitas fraudes.

Recentemente, uma dessas fraudes deixou- me estupefata: a invenção de parentesco entre brasileiros e portugueses falecidos no Brasil. Dois brasileiros criaram um esquema de fraude internacional, mas já foram presos: eles pegavam certidões de portugueses falecidos no Brasil, criavam certidões falsas atribuindo filiação, legalizavam tudo em cartórios no Brasil e entravam com o processo de cidadania. Os brasileiros pagavam 20 mil reais, uma fraude milionária. Veja este vídeo da Rede TV, que conta tudo. Agora punir a todos os que pagaram por isto, esses falsos descendentes. Fico pensando: já pensou se algum deles usou o nome do meu pai, por exemplo, para esta fraude?! Enfim, indignante! Quem usa este artifício para imigrar, boa coisa não é. Eu olho com desconfiança os novos portugueses dessas últimas “levas”. “Será filho ou filha mesmo?!”.

Que está acontecendo no Brasil? Por que tanta gente quer sair do país usando, inclusive, métodos criminosos? A pena para quem paga por esses documentos é de três anos de prisão. As notícias de fraudes são inúmeras nos últimos anos… e as que ainda estão por descobrir.

Detidos sete brasileiros em esquema de obtenção da nacionalidade portuguesa.

Há também muitas fraudes na obtenção da cidadania italiana, uma vergonha, um verdadeiro vexame! Isto contribui muito para uma imagem ruim, de desconfiança, do nosso povo no exterior, estão exportando a trambicagem, (vergonha…vergonha!):

Casos de brasileiros envolvidos em fraudes para obter cidadania se espalham pela Itália.

Entre 2002 e 2017, foram nacionalizados 170 mil brasileiros. Agora vai saber quantas dessas foram com documentos falsos…

E justamente por causa de tantas fraudes, cada vez vai ficando mais difícil conseguir a cidadania. Em 2018, deram entrada com pedidos de nacionalidade 1637 pessoas e só três conseguiram. E esses eram brasileiros. E um deles estava sendo investigado pela Lava a Jato, veja aqui.

Para ser aceito como nacional português, o neto ou neta precisa mostrar vínculo com o país ou com a comunidade portuguesa no Brasil. Há gente que nem sabe o nome da cidade natal dos avós ou não sabe absolutamente nada da cultura portuguesa…esses não irão conseguir. O vínculo tem que ser provado.

A imigração ilegal, a violência e as fraudes fizeram o Parlamento Europeu aprovar uma lei , que entrará em vigor em 2021: brasileiros precisarão de autorização, de uma espécie de visto para entrar na Europa. Justos pagarão pelos pecadores; mas, os justos sempre estão tranquilos, pois nada devem ou temem. Só ficarão nos aeroportos quem deve ficar mesmo.

Bom, voltarei mais vezes falando sobre a imigração portuguesa. Agora a espanhola:

A minha cidadania espanhola saiu no final do ano passado, em setembro. E em dezembro, fiz o juramento. O processo de cidadania foi muito lento, demorou cinco anos. A demora foi por causa do governo de direita em questão, o PP, anti- imigração, que não andou com os processos. A minha cidadania foi por tempo de residência. Eu poderia ter dado entrada há muitos anos, mas por já ser cidadã europeia, acomodei- me.

Em 2014, quando prestava serviços de tradução para a Espanha Fácil, que é uma empresa, entre outros, de legalização de brasileiros na Espanha, dei entrada na cidadania. A Espanha Fácil trouxe a minha certidão de nascimento do Brasil e antecedentes criminais. Minha família toda já morava do lado de cá, não tinha a quem pedir, então foi excelente pra mim. A dona da Espanha Fácil, Renata, é uma amiga querida e uma pessoa de confiança.

Assim que assumiu o governo socialista de Pedro Sánchez, todas as nacionalidades que estavam empacadas desde 2014 foram resolvidas rapidamente.

Quando fui apresentar os documentos, a funcionária estranhou: “nossa, seu expediente tem mais de quarenta folhas, normalmente são três!”. E me perguntou se eu era subsaariana (pelo jeito, complicam a coisa para esta etnia). Não. Depois ela entendeu: eu já tinha dupla nacionalidade e tiveram que investigar sobre mim em dois países.

Não tive que renunciar nenhuma nacionalidade, porque Brasil, Portugal e Espanha são compatíveis, têm acordos favoráveis. Mas tive que renunciar o meu terceiro sobrenome, o do marido, porque na Espanha você só pode ter dois e eu conservei os meus de nascimento.

O dia do juramento foi marcado para o dia 13 de novembro de 2019, no salão de casamentos do Registro Civil, na Calle del Pradillo, 66. Marido e filha me acompanharam às 9 da manhã. A sala estava lotada de novos espanhóis, que iam passando diante da juíza e da escrivã. Tivemos que ler o curto juramento que estava num papel: “prometo obediência ao rei, às leis e a constituição espanhola”. Assinamos um papel, e voilà! Nasceu uma espanhola aos 47 anos!

O próximo passo aconteceu no dia 16 de dezembro de 2019: fui à delegacia da polícia na Calle Virgem de la Roca, ao meio- dia, dessa vez sozinha, para fazer o DNI (documento nacional de identidade) e o passaporte.

E como posts longos ninguém têm paciência de ler, encerro por aqui dizendo que…se você sonha em imigrar, há muitas formas de fazer legalmente, há muitos tipos de vistos, além da cidadania. Se você não encaixa em nenhum, então este país não te quer; portanto, conforme- se e não entre pela porta dos fundos. O que começa mal…já sabe, não termina bem. Faça as coisas dentro da lei, para que o sonho não se transforme em pesadelo.

Precisa de mais informações? Leia em sites oficiais de Portugal e da Espanha:

SEF- Serviço de Estrangeiros e Fronteiras

Extranjería- Ministerio del interior

“Você vai voltar ao Brasil?”

Esta é uma das perguntas mais recorrentes: “você vai voltar ao Brasil?”.

Confesso: durante muitos anos não fui uma imigrante convicta. Todos os dias pensava em voltar, vivia mergulhada em uma incômoda melancolia, que fazia com que eu não acabasse de aterrissar na Espanha. Percebi que me boicotava inconscientemente. Fazia coisas que me impediam de criar raízes, atitude adotada desde coisas mais simples às mais profundas.

Quando comprava roupas, por exemplo, pensava: “esta serve para o Brasil, vou comprar!”. Evitava acumular coisas que não pudessem ser levadas; evitava decorar a casa com objetos e móveis de valor, já que “logo” teriam que ser deixados para trás; evitava entrar em cursos longos; não queria tentar trabalhos que me dessem estabilidade (concursos públicos, por exemplo), porque “vai que dá certo e eu nunca mais saio daqui”. A minha mente andou nublada e negativa por muito tempo.

“Esse dá pra usar no Brasil?”

Comecei a odiar a Espanha e os espanhóis. Tudo me incomodava. Eu não queria que desse certo, queria ter motivos para ir embora. Mas não foi só minha culpa. Muita coisa deu errado mesmo, o que reforçava o meu pensamento de que estava no lugar errado. As coisas não deslanchavam. A minha aura negativa atraía coisas negativas, é uma lei natural, e isso derivou em muito sofrimento e choros diários.

Eu pensava que meu coração tinha ficado no Brasil e nada mais importava. Dizem que “o nosso lar é onde o nosso coração está”. Isto não é correto, como a maioria destas frases de efeito.

Comecei a entender que não era o lugar, era eu. O meu coração está em mim, não nos lugares. Eu posso amar de onde estiver, o amor é infinito e não precisa de endereço. Se eu estava infeliz na Espanha, possivelmente estaria no Brasil também. A gente tem que saber encontrar a paz no meio da guerra, fictícia ou não. Se você está infeliz no Brasil e pensa em imigrar dessa forma, cuidado. Os problemas não desaparecem com uma mudança, eles irão contigo. Seja feliz onde estiver.

O meu desejo foi ficando cada vez mais enfraquecido, debilitado, por diversos acontecimentos alheios a mim. Tive que me conformar. E nisto, fui procurando acalmar o meu coração e encontrar alternativas. Mas isto fica para outro post.

No show de Milton Nascimento no verão passado no jardim botânico da Universidad Complutense de Madrid. Eu nunca tinha assistido Milton no Brasil. Foi emocionante!

E quanto à pergunta inicial: não, por enquanto não há planos para voltar. Talvez, quando estiver aposentada, passarei os meus dias numa ilha da Bahia. Quem sabe? Estamos todos só de passagem.

Mas é preciso ter força
É preciso ter raça
É preciso ter gana sempre
Quem traz no corpo a marca
Maria, Maria
Mistura a dor e a alegria

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