Os Natais de Fernando Pessoa


A ceia de Natal em Portugal chama- se “consoada”, de “consolar”. O prato principal, normalmente, é o bacalhau com ovos e couves regado com muito azeite de oliva. De sobremesa, o bolo rei e as rabanadas.

Apesar dessa data ser feliz para muita gente por causa das reuniões familiares, dos comes e bebes, além da troca de presentes, outros tantos consideram a data triste.

Deixo alguns poemas de Fernando Pessoa sobre o Natal. Curiosa a visão nostálgica e pessimista do autor sobre esta data. Definitivamente, não parecia ser a preferida de Pessoa, veja:

Natal na Província

Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

Chove. É dia de Natal

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal.
E o frio que ainda é pior.
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.
Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Natal

O sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Natal

Nasce um deus. Outros morrem.
A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.
Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.

Espero que o seu Natal seja bem mais feliz do que foram para a voz poética do poema (que pode ser o alter ego de Fernando).

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Manuel Bandeira e Drummond no Parque dos Poetas em Portugal


Alguns sonhadores pensaram que seria uma boa ideia criar um parque onde a poesia fosse a grande atração. E realmente foi uma excelente ideia! Alguns dos idealizadores do parque:  Isaltino Morais, presidente da Câmara de Oeiras (1985-1989), o poeta e escritor David Mourão-Ferreira e o escultor Francisco Simões.

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Poesia com vistas ao mar. Esse é o labirinto.

O Parque dos Poetas é grande, tem “22 hectares de área verde. Quarenta artistas plásticos. Sessenta esculturas dos maiores poetas de sempre. Um museu ao ar livre. Equipamento desportivos, infantis, lúdicos. O magnífico Templo da Poesia. O único parque de poesia no mundo está em Oeiras.” É o único parque do mundo dedicado só à poesia!

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O parque tem um edifício para exposições. No último andar, um mirador com vistas ao mar e uma sala de leitura com alguns livros, onde também se pode tomar um cafezinho e descansar.

Nele estão representados os 20 maiores poetas portugueses do século XX, 13 trovadores e poetas do Renascimento e 27 esculturas de poetas.

As  informações acima estão num planfleto informativo/mapa, que peguei quando visitei o parque nesse mês. Quem assina o texto é o atual presidente da Câmara, Paulo  Vistas. Ele esqueceu de mencionar os poetas de outros países lusófonos. Brasileiros há dois: Carlos Drummond de Andrade, que vai ficar para uma próxima visita (o parque é gigante, não deu tempo!) e Manuel Bandeira, que tem um cantinho muito especial no parque.

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O pernambucano Manuel Bandeira (Recife, 19/04/1886- Rio de Janeiro, 13/10/1968) foi poeta, cronista, tradutor, imortal da ABL (1940). Dele é o famoso poema “Vou- me embora pra pasárgada”:

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada
Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura

De tal modo inconsequente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

 E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada.

Pasárgada foi uma cidade persa que não existe mais, hoje é território do Irã; um lugar, ironicamente, não muito conhecido por ser pacífico. A Pasárgada de Bandeira é mais idílica.

Escultura

Versos de Manuel Bandeira no Parque dos Poetas (Portugal)

Quem criou o conjunto de esculturas de Manuel Bandeira no Parque dos Poetas foi também um pernambucano, o fantástico Francisco Brennand (11/06/1927):

Francisco Brennand

O artista plástico pernambucano Francisco Brennand (Facebook)

Conheça um pouquinho mais do parque no vídeo abaixo (é curtinho). No chão do monumento à Bandeira está o poema “Canção das duas Índias”:

Entre estas Índias de leste
E as Índias ocidentais
Meus Deus que distância enorme
Quantos Oceanos Pacíficos
Quantos bancos de corais
Quantas frias latitudes!
Ilhas que a tormenta arrasa
Que os terremotos subvertem
Desoladas Marambaias
Sirtes sereias Medeias
Púbis a não poder mais
Altos como a estrela d’alva
Longínquos como Oceanias
— Brancas, sobrenaturais —
Oh inacessíveis praias!…

Para a web do Parque dos Poetas, clique aqui.

Curso prático de português de Portugal


Nasci no Brasil, mas também com a nacionalidade portuguesa por ser filha do meu pai. No entanto, só recentemente, fui fazer o passaporte luso. Aquele negócio brasileiro de deixar tudo para última hora.

Vamos ao passaporte. Você pode fazer a marcação pela Internet no agendamento online. Tinha lá a opção “levantamento de passaporte eletrônico”. “Deve ser essa”, cliquei e marquei o dia. E no dia marcado, é só o requerente apresentar o Bilhete de Identidade ou o Cartão do Cidadão para que consultem a respetiva base de dados.

Lá vou eu de Madri até Lisboa levantar meu passaporte. Estacionei fácil na frente da conservatória e achei estranho. Conseguir lugar assim de primeira, no Chiado, bairro histórico…hum, algo errado. Fui olhar e tinha uma placa: “Zona condicionada- dístico de residente”. Ou seja, o lado que eu estava só podiam estacionar residentes. Tudo bem, estacionei a viatura no parking subterrâneo na mesma rua.

Cheguei muito antes no Instituto de Registos e Notariado da rua Nova Almada, pertinho da livraria Ferin , a segunda mais antiga de Lisboa. Decidi tomar uma meia de leite até a hora do levantamento.

As confeitarias portuguesas, já sabem, são uma perdição, difícil escolher entre tantas opções deliciosas: pastéis de nata, tortas de azeitão, queijadas, guardanapos, bolas de Berlim. Acabei pedindo um croissant, que em Portugal é feito com massa de brioche, meu favorito. Fiquei com vontade de comer umas tripas e uns ovos moles, mas decidi deixar esses doces para depois, em Aveiro, na terra da minha avó e bisavós, na belíssima Sever do Vouga. Ah, sem esquecer das bolachas americanas, que também são deliciosas.

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A rapariga do caixa perguntou-me se eu queria “contribuinte”. Eles sempre perguntam isso em todas as compras. É para saber se a pessoa quer fatura. Ticket e fatura são coisas diferentes. Pedindo a fatura a pessoa pode descontar o IVA, um imposto sobre as mercadorias, que pode ser abatido depois no imposto de renda.  Eu disse que não e segui para a conservatória.

Esperei um pouco e logo chamaram-me pelo nome. Lembram do agendamento? E do “levantamento”? Pois é. A portuguesa de primeira viagem pediu para recolher, buscar o passaporte e não para fazer o documento. A senhora do guichê, muito amavelmente, fez o meu passaporte da mesma forma.

Vejam só, caros amigos, não basta ser portuguesa, há que se fazer um curso. Nosso vasto idioma e seus muito falares.

Resenha: “O seminarista”, de Bernardo Guimarães #RevisitandoOsClássicos #1


“Crescent illae, et vos crescentis, amores”
(“As árvores hão de crescer, e com elas haveis de crescer vós, meus amores” – Virgílio citado na p. 88)

Aqui começa uma série: Revisitando os Clássicos Brasileiros. O que significa?

São livros que eu já li há muito tempo e tenho vontade de reler. O tempo, a experiência leitora, transformam e mudam as nossas percepções. Aconteceu dessa forma com “O seminarista”, de Bernardo Guimarães: (re)li um novo livro. E essa constatação óbvia, mas interessante, me fez criar esse post, o primeiro de uma série, espero.

Para quem nunca leu, ou leu poucos clássicos da literatura brasileira, vamos começar?!

A primeira obra escolhida: “O Seminarista” (1872), de Bernardo Guimarães.

Brevíssima Biografia do Autor
O mineiro Bernardo Guimarães nasceu e morreu em Ouro Preto (1825- 1884). Juiz e escritor de prosa e verso, foi membro da Academia Brasileira de Letras. Inclusive você pode ler a biografia completa do autor no site da ABL. Casou- se com Maria Teresa e teve oito filhos. Era tio do poeta Alphonsus de Guimarães, que foi noivo de sua filha Constança, falecida aos dezessete anos por causa de uma tuberculose.


O livro é uma narração, e pela extensão, é uma novela. As novelas são mais curtas que os romances, esses, dentro do cânone literário, devem ter mais de 300 páginas; portanto, vou chamar pelo nome correto, embora no Brasil, o chamem de “romance”, normalmente. Dentro da narração, novela e romance são gêneros literários diferentes. E em outros idiomas/países, como na Espanha, não os diferenciam só pela extensão, mas também pelo teor: nesse país, o romance ganha ares fantásticos. O termo mais comum  é “novela”, ao contrário do Brasil.

Essa novela está dividida em vinte e quatro capítulos.

O enredo

O enredo é a história em si, do que trata o livro, a trama, a ação. Em “O Seminarista”, a história não é original, mas funciona: o amor impossível. Um seminarista apaixonado pela amiga de infância, um amor inesperado, já que Margarida era como sua irmã. E isso traz um monte de complicações para a vida de ambos.


Os pais de Eugênio acham que o filho tem vocação para a vida eclesiástica, porque brincava de ser padre na infância. Na época, a vida religiosa era algo que dava muito status e respeito.

Então, lá se foi Eugênio para o Seminário de Congonhas do Campo, aos 13 anos, com o coração partido. Uma mudança radical na sua vida.

Eugênio,  entre tarefa e tarefa, pensava em Margarida. Uma espécie de melancolia o acompanhava o tempo todo. Ele não conseguia concentrar- se nos estudos. Custou- se acostumar- se e assim passaram- se doze anos. O menino cresceu dentro do seminário. E Margarida continuou no seu coração.

Com dezesseis anos, começou a ter problemas, pois o padre regente descobriu alguns poemas de amor de Eugênio destinados a uma tal “Margarida”. O padre, que era também seu professor, gostou da veia poética do rapaz e levou os escritos ao diretor, que ficou indignado e assombrado. Chamou Eugênio e foi bastante duro com ele. A partir disso, toda vez que Eugênio sonhava com Margarida, sentia pânico, rezava, fazia jejum e pagava penitência, como se o amor fosse um castigo, uma doença. Doente ficou o menino, emagreceu muito, ficou com uma aparência “às bordas da sepultura”. (p.66)

Essa parte do livro é triste e forte…choca. Tudo com a instrução e aval do padre. O fanatismo religioso é um mal terrível (na realidade também!)!

Depois de quatro anos sem ver a sua família, nem Margarida, voltou para casa. Imagina o reencontro dos dois….a descrição do autor desse momento é mágico! Um turbilhão de emoções em questão de segundos. Quem já se apaixonou sabe como é difícil explicar. A literatura explicando sentimentos universais desde sempre…

Estava como que espantado, com os olhos fitos em Margarida, querendo falar, e não achando nada que dizer. As grandes emoções lançam uma nuvem no espírito e paralisam a língua. (p.82)

Como esquecer um grande amor? Já que quanto mais se tenta esquecer, mais se lembra? Não tente, porque vai perder a batalha, mantenha- se distraído, só isso…

As puras e santas afeições da alma, longe de a desviarem do caminho do céu, são asas com que mais depressa se eleva ao trono de Deus. (p.38)

Espaço e Tempo

A história começa na “província” de Minas Gerais (terra do autor). Na época em que foi escrita a novela, o Brasil ainda era uma colônia de Portugal,  um país monárquico. Veja a descrição do lugar, já no primeiro parágrafo, junto com o tempo (“há quarenta anos”).

A uma légua, pouco mais ou menos, da antiga vila de Tamanduá, na província de Minas Gerais, e a pouca distância da estrada que vai para a vizinha vila da Formiga, via- se, há de haver quarenta anos, uma pequena e pobre casa, mas alva, risonha e nova. Uma porta e duas janelinhas formavam toda a sua frente. (p.2)

A descrição da casa de Margarida e sua mãe Umbelinda é perfeita, ela parece sorrir, toda feliz e faceira! Bernardo Guimarães era um excelente narrador, mestre na descrição. A construção das paisagens e pessoas é muito visual, retratos perfeitos. É uma delícia ler e entrar nos cenários criados pelo autor,  são bem fidedignos. Esse é um dos elementos que transformam a literatura em uma grande forma de expressão artísticas, social, antropológica…

A magia das palavras. A prosa de Bernardo também é poética.

Genial essa metáfora (analogia), veja: “Eram quase ave- marias.” (p. 6). Gostei!

Personagens

Eugênio é o protagonista, personagem principal, o futuro seminarista, menino no início da história (12- 13 anos). Filho do capitão Francisco Antunes. Tem dois irmãos mais velhos que não aparecem na história, casaram e foram embora. Foi criado junto com Margarida, que é como sua irmã.

O rapaz era alvo, de cabelos castanhos, de olhar meigo e plácido e em sua fisionomia como em todo o seu ser transluziam indícios de uma índole pacata, doce e branda. (p.3)

Na página 73

Margarida, filha de Umbelina, órfã de pai, mora numa casinha emprestada nas terras do padrinho, Capitão Antunes, pai de Eugênio.

A menina era morena; de olhos grandes, negros e cheios de vivacidade; de olhos grandes, negros e cheios de vivacidade, de corpo esbelto e flexível como o pendão da imbaúba. (p.3)

Na página 73, há nova descrição de Margarida já moça.

Umbelina,  mãe de Margarida, mora nas terras do Capitão Antunes junto com a filha Margarida e uma escrava. E viúva e comadre dos donos da fazenda.

Era uma matrona gorda e corada, de rosto sempre afável e prazenteiro (…) (p.11)

Capitão Francisco Antunes, pai de Eugênio e padrinho de Margarida, fazendeiro honesto, tinha poucos escravos e muitos agregados na fazenda, dos quais não cobrava nada.

Senhora Antunes, esposa de Francisco Antunes, mãe de Eugênio e madrinha de Margarida. Não é tão legal, trata mal a escrava Josefa. É bastante supersticiosa. Apegou- se à Margarida desde bebê, ensinou-lhe a costurar.

Luciano Gaspar de Oliveira Faria e Andrade,  invejoso do tamanho do seu nome. Atrapalhou a vida dos apaixonados. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. É só a arte imitando a vida.

A linguagem

Uma coisa que achei inverossímil (longe da realidade) foram os diálogos. O povo da roça, nem mesmo os patrões, podiam falar com a correção gramatical exposta pelo autor. Havia outras línguas de contato, muitos imigrantes, indígenas, escravos, uma grande maioria de analfabetos, um português tão correto me pareceu impossível.

A obra carece de uma mais linguagem coloquial, o que concordaria mais com a história. Curioso, porque costuma- se dizer o contrário desse escritor, que o tom de suas obras é coloquial. Vai ver “O Seminarista” é a exceção.

O narrador fala como um português. Se a gente der por certo que era a forma usada em 1832, época que o autor retrata, nota- se como em 185 anos, o português do Brasil transformou- se e distanciou- se muito do idioma luso.

Curiosidades

Bernardo Guimarães cita Aleijadinho (1738- 1814), de uma forma nada agradável, uma crítica destrutiva e maldosa, na boca do seu narrador (p. 30) :

É sabido que estas estátuas são obra de um escultor maneta ou aleijado da mão direita, o qual, para trabalhar, era mister que lhe atassem ao punho os instrumentos.

Por isso sem dúvida a execução artística está muito longe da perfeição. Não é preciso ser profissional para reconhecer nelas a incorreção do desenho, a pouca harmonia e falta de proporção de certas formas. Cabeças mal contornadas, proporções mal guardadas, corpos por demais espessos e curtos e outros muitos defeitos capitais e de detalhes estão revelando que esses profetas são filhos de um cinzel tosco e ignorante…

Eugênio vai justamente para o seminário em Congonhas, no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, onde estão as obras sacras de Aleijadinho, consideradas as suas obras- primas.

Recalcado o Guimarães, não?! O escritor e o escultor nasceram na mesma cidade de Ouro Preto.

E veja também como é feio chamar alguém de “Aleijadinho”. Uma das funções da literatura é essa também, de nos trazer o passado para melhorar no futuro. Hoje em dia é inaceitável chamar alguém por um problema físico. O artista perdeu a sua identidade, quem sabe o nome de Aleijadinho? Eu sei agora, porque fui pesquisar: Antônio Francisco Lisboa (valeu Wiki!).

Um salve para o Antônio, que mesmo com sua deficiência física, provavelmente escravo ou filho de escravos (sabe- se muito pouco sobre a sua biografia e mesmo assim, ela é incerta), no interior do Brasil colonial, deixou uma obra reconhecida mundialmente. Deixo aqui o compromisso: estudar a obra de Antônio.

Depois de ler o trecho sobre o Aleijadinho (me custa escrever, já não é hora de chamá- lo pelo nome, acho um desrespeito!), já tomei uma bronca de Bernardo, que passei a caçar tudo de negativo na obra dele, sou dessas. Na adolescência minhas leituras eram mais ingênuas, eu deixava passar muitos detalhes. Mas a sorte dele, é que realmente escreve bem.

Além disso, a gente sabe que a voz da narrativa não é o autor, mas foi ele que colocou esse pensamento na boca do narrador e a gente dá aquela gongada de todas as formas. Abaixo, trecho:

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O autor mostrou usos e costumes da roça, um tipo de dança chamada “quatragem”, os mutirões e as festas.

E voltando à história de amor…Eugênio foi proibido pela mãe de ir à casa de Margarida quando este lhe confessou a sua falta de vocação para o sacerdócio. Isso não impediu que os apaixonados trocassem promessas e juras, fortaleceram- se mais ainda.

A linda Margarida é muito cortejada, apareceu um terceiro para atrapalhar, Luciano, invejoso e maldoso, notou o que havia entre Eugênio e Margarida. Tratou de atrapalhar. Entre os pais de Eugênio e o tal Luciano, o desejo do casalzinho de ficar junto foi ficando cada vez mais difícil. Eugênio adoeceu. Eugênio prometeu à Margarida que jamais seria padre, jurou que voltaria.

Os pais podem destruir a vida dos filhos se não aceitarem como são . Os pais têm uma tendência a querer moldar os filhos baixo seus próprios desejos, moral, necessidades e costumes, como se fossem um ser único. Pais e filhos, muitas vezes, estão nas antípodas. Aconteceu com Eugênio e acontece na vida real. A ditadura maternal e paternal pode matar de muitas formas. Margarida e Umbelina foram expulsas da fazenda. Umbelina faleceu.

Grande é o poder do tempo. O próprio braço da dor, quando não consegue esmagar a sua vítima, por fim de contas esmorece fatigado, e o seu estilete, por mais buído que seja, acaba de embotar- se” (p.161)

Eugênio passou por um vale de sombras, de terror, para poder seguir em frente. Há várias alegorias religiosas ilustrando esse deserto que ele teve que cruzar para tentar destruir um sentimento muito forte, que não pode existir, a sua via crucis, e para piorar, chegou a notícia: Margarida casou- se. (SPOILER: mentira, nunca casou- se e também estava doente, mas eugênio nunca soube).

Anos mais tarde, Eugênio volta, já padre, para a Vila do Tamanduá. Via a casa de Umbelina e Margarida em ruínas. As suas pernas tremeram. Sentimentos como esses nunca morrem. Alguém chamou o padre para dar uma extrema- unção. Fácil adivinhar, não?

São as almas sujas da Terra, as que destruíram esse amor, por vaidade, inveja, maldade pura; são as que mentem, enganam, manipulam para possuir o que jamais terão. Assim como na vida. Nem com tanta gente contra, família e religião, nada conseguiu impedir o encontro- ainda que breve.

Gostei muito do final. Eugênio, de certa forma, conseguiu cumprir a sua promessa, além de dar, mesmo sem querer, uma boa lição nos energúmenos dos seus pais.


“O Seminarista” é uma obra muito intensa, bem escrita, emocionante, que desperta vários sentimentos: de ternura, beleza, raiva, pena, indignação. E a obra não te custará absolutamente nada. Ele está no banco de clássicos gratuitos do governo do Brasil, o Domínio Público. Não foi o deles que eu li, pois eu já tinha um no tablet, que baixei por 0,99 cêntimos (de euro), foi esse:

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Guimarães, Bernardo. O seminarista. PDF (no iBook, sem editora). Páginas: 237- Preço: 0,99€

Disponível gratuitamente no site Domínio Público, do governo do Brasil.

 

 

Resenha: “Cada homem é uma raça”, Mia Couto


“-A minha raça sou eu mesmo. A pessoa é uma humanidade individual. Cada homem é uma raça, senhor polícia.” (Mia Couto)

António Emílio Leite Couto, Mia Couto ( Beira, Sofala, Moçambique, 05/07/1955 ) é o escritor moçambicano mais traduzido e conhecido no mundo. Escritor de prosa e verso, com uma obra extensa, é formado em Biologia, estudou também Medicina, mas abandonou; depois entrou para a área do jornalismo. Fez parte de um grupo que lutou pela independência de Moçambique de Portugal, chamado FRELIMO (Frente de Libertação de Moçambique). Essas informações foram retiradas do portal Lusofonia.

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Mia Couto é moçambicano de origem portuguesa, ganhou o Camões, o prêmio mais importante da língua portuguesa e anotem aí: ainda vai ganhar um Nobel de Literatura!

“Cada homem é uma raça” é um livro composto por onze contos, antes de cada um deles existe um pequeno texto que ilustra o que vem depois.

1. A Rosa Caramela

Acendemos as paixões no rastilho do próprio coração. O que amamos é sempre chuva, entre voo da nuvem e a prisão do charco. Afinal, somos caçadores que a si mesmo azagaiam. No arremesso certeiro vai sempre um pouco de quem dispara.(p.13)

Um conto triste, lírico. A história é de uma mulher misteriosa que enlouquece por ter sido abandonada na porta da igreja. Ela tem o rosto lindo, mas o corpo é disforme, corcunda, motivo de burla desde criança. A falta de amor mata sim, se não matar o corpo (que às vezes acontece), faz morrer a alma ou o que for, mas mata. O final não é tão surpreendente, mas nem por isso o conto deixa de ser bom.

2. O apocalipse privado do tio Guegê

– Pai, ensina- se a existência.
-Não posso. Eu só conheço um conselho.
– E qual é?
– É o medo, meu filho. (p. 27)

Um homem recorda a sua infância, ele foi abandonado pelos pais ainda recém- nascido e o seu tio Fabião Guegê o toma para criar. O tio nega os valores tradicionais de família, mas ainda assim acolhe uma outra sobrinha, Zabelani, da idade do menino. O tio é cheio de mistérios, soldado da milícia, sempre ausente.

(…) A melhor família qual é? São os desconhecidos parentes de estranhos. Só esses valem. Com os outros, intrafamiliares, nascemos já com dívidas. (p.36)

O jovem casalzinho apaixona-se, têm relações sexuais e o tio manda a menina embora. O homem mesmo sendo soldado, ensina e ordena que o menino a roube. O sobrinho faz muitas maldades, aprende. Cresce, vira também soldado e ladrão, como o tio. “Os amores enfraquecem o homem”, diz o tio. Esse é um conto triste, trágico, que faz pensar no drama das relações familiares. Às vezes é melhor estar sozinho.

3. Rosalinda, a nenhuma 

É preciso que compreendam: nós não temos competência para arrumarmos os mortos no lugar eterno (…) (p. 49)

Esse conto é sobre a viúva Rosalinda, que engordou por desleixo, esqueceu de si mesma depois da morte do marido e fica mascando “mulala” (uma raíz que deixa a boca alaranjada). Eu não gostei de uma comparação que Mia colocou na boca do seu narrador sobre a obesidade feminina, compara essas mulheres com a calma bovina, como se fossem obesas por gosto, como se não as incomodasse, nem mesmo a vida as incomoda, como se a obesidade também tirasse a capacidade de desacordo com as coisas da vida, a gordura traz o comodismo, o que é muito distante da verdade. Se ele falasse só de Rosalinda, tudo bem, mas generalizou:

(…) As mulheres gordas não zangam a vida: fazem lembrar os bois que nunca esperam tragédias. (p.51)

Literatura serve para muita coisa e para isso também, para indignar. Quanta gente deve pensar assim como esse narrador, não é? Não confundam o narrador da história com o Mia Couto, a voz do narrador é fictícia, não é o escritor.

Rosalinda carrega infinitas tristezas, a morte de todos os parentes, está sozinha, faz visitas ao cemitério num clima de muita tristeza. O marido falecido era alcoólatra, mulherengo e batia na mulher. Jacinto nem a chamava pelo nome certo, ela era Lauridinha, Laurinda, a outra, que apareceu no dia da morte do homem e ainda teve que disputar o túmulo de jacinto com a outra, a Dorinha. O marido dizia:

– Teu nome, Rosalinda, são duas mentiras. Afinal, nem rosa, nem linda. (p.54)

A submissão e o desejo de ser amada de Rosalinda a fez aguentar tudo. O amor que não é amor, é outra coisa nem menos saudável. Rosalinda encontrou uma forma inusitada de vingança e foi aí que passou a ser nada mesmo.

4. O embondeiro que sonhava pássaros

Pássaros, todos os que no chão desconhecem morada. (p. 61)

O vendedor de pássaros não tem nome, é só o “passarinheiro”. Os colonos do lugar colocam medo nos filhos, plantando desconfiança em relação à alegre presença do vendedor, o chamam de “preto” despectivamente, dizem que ele “suja o bairro”. Tiago, um menino sonhador, desobedece às ordens do pai e vai ver o passarinheiro, que traz aves de infinita beleza. Os portugueses incomodados com a presença feliz do negro, como ele se atreve a existir?! O homem mora num tronco de árvore, um embondeiro, dizem, tem poderes sobrenaturais; gaita do homem, também. O velho passarinheiro é espancado e preso. Seu crime? Ser negro, simples e feliz. O final de Tiago é um poético triste final.

5. A princesa russa (p.73)

Um conto racial sobre a desigualdade entre negros e brancos. Essa história começa com uma confissão sobre o passado numa igreja. Uma russa chamada Nádia chega na vila de Manica, uma princesa que chega com o marido Iuri. O marido compra umas minas de ouro, esperando ficar rico. O confessor é um empregado coxo e negro do casal, Duarte Fortin. A princesa sempre reclusa na sua casa cheia de luxos e o marido nas minas. Um dia ela visita as instalações onde dormem os empregados e fica horrorizada com a pobreza. A mina desaba, Fortin e os outros empregados da casa foram ajudar no resgate. Fortin desiste, não aguenta assistir aos corpos mutilados. A princesa deixou seu verdadeiro amor, Anton, na Rússia e adoece. Delirando, a russa pede a Fortim que a leve à estação para buscar Anton. Fortin deseja a princesa, sonha com ela, desvia o caminho para a beira do rio, quer se fazer passar por Anton e a deixa ali, deitada, na beira do rio. O conto é fantástico,  um dos mais impressionantes.

6. O pescador cego

O barco de cada um está no seu próprio peito. (Provérbio macua) (p.95)

Eu tenho que reproduzir o primeiro parágrafo que dá o tom do texto inteiro, veja a beleza da escritura existencialista de Mia Couto:

Vivemos longe de nós, em distante fingimento. Desaparecemo- nos. Porque nos preferimos nessa escuridão interior? Talvez porque o escuro junta as coisas, costura os fios do disperso.No aconchego da noite, o impossível ganha a suposição do visível. Nessa ilusão descansam os nossos fantasmas. (p. 97)

Esse conto é todo bonito e triste, daqueles que encolher o coração. É a história de um pescador, Maneca Mazembe,  que ficou cego de uma maneira escabrosa, arrancou o próprio olho com uma faca e o espetou num anzol para poder pescar em alto- mar e poder comer. A fome enlouquece. Um olho por um peixe! A normalidade na família de Maneca era o machismo com a mulher Salima, que sentiu até falta do marido quando deixou de surrá- la. Maneca não admitia que Salima saísse para pescar agora que ele já não enxergava.

Muitas vozes, afinal, só produzem silêncio. (p. 97)

7. O ex- futuro padre e sua pré- viúva

A vida é uma teia tecendo a aranha. Que o bicho se acredite caçador em casa legítima pouco importa. No inverso instante, ele se torna cativo em alheia armadilha. Confirma- se nesta estória sucedida em virtuais e miúdas paragens. (p.107)

O menino Benjamim Katikeze vivia na igreja, nem queria brincar, era um aprendiz dedicado, queria ser padre. Cresceu e aparece Anabela, “anabelíssima”. Ela não queria nenhum outro, só o recatado Benjamim. Ela dava em cima do moço, mas ele resistia sob os olhos incrédulos dos homens da cidade. O pai da moça, Juvenal, foi remediar a situação e bateu na porta de Benjamim para marcar a data do casamento. Casaram. “Ele maridou- lhe, mas não exerce a soberania.” Xiiiiiii! Será feitiço?

8. Mulher de mim

O Homem é o machado; a mulher é a enxada. (Provérbio moçambicano)

Esse é o conto mais hermético e místico, acontece num mundo paralelo, onírico, o mundo dos mortos e dos vivos que formam “uma só tela”. Um homem que sonha e encontra- se uma mulher que quer nascer nele. A reencarnação?

9. A lenda da noivo e do forasteiro

Eis o meu segredo: eu já morri. Nem essa é a minha tristeza. Me custa é haver só uns que me acreditam: os mortos. (p. 131)

Um forasteiro chega com seu cachorro numa terra distante e provoca muita desconfiança nos locais, o intruso passa a estar na boca de todos. O cão não late, pia e dizem solta uma baba verde, ácida. Começaram a desaparecer coisas no lugar e os moradores acharam uma solução inusitada para resolver o problema com o estrangeiro. Jauharia serviu de oferenda ao forasteiro, só uma mulher bela poderia acalmar o forasteiro, pensaram. Ela era noiva de Nyambi. O conto possui um tom de lenda, sobrenatural,  a noiva sumiu e, dizem, foi o estrangeiro que a sorveu, quando ela transformou- se em água.

10. Sidney Poitier na barbearia de Firipe Beruberu

Império: em pé, rio a bandeiras despregadas. (p.147)

A barbearia de Firipe fica debaixo de uma árvore. O barbeiro é boa praça, adora distribuir “dákámaus” (apertos de mãos), sempre sorridente e se gaba de já ter cortado cabelo fino de branco. E os amigos não acreditam que ele é um barbeiro de elite. Firipe mostra um postal de Sidney Poitier e diz que foi cliente seu. E os amigos continuam sem acreditar, como é que um moço americano e rico iria numa barbearia dessas? O conto inteiro passei sorrindo, mas no final, um murro no estômago.

11. Os mastros do Paralém

Só um mundo novo nós queremos: o que tenha tudo de novo e nada de mundo. (p. 165)

Constante Bene e seus filhos, Chiquinha e João Respectivo, estão presos na cabana em casa há dezessete dias por causa da chuva. São caseiros de um sítio nas montanhas, Paralém, chamam assim o lugar, pois têm medo de ultrapassar o outro lado da montanha. Passa um mulato, só passou, não pediu abrigo. O homem é um guerrilheiro. O pai (Contante Bene) teve um mau presságio que mais tarde se confirmou. O pre- julgamento que causa injustiças.

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 Um livro que emociona, que trata de gente “comum” (extremamente complexa e surpreendente) e seus sentimentos, pessoas com um pé na Terra e outro no Céu. Um mundo inteiro em cada uma delas. A linguagem usada deu uma personalidade única a cada personagem dos contos, são sui generis. Nota- se a origem africana do escritor, mas em nenhum momento o livro tornou- se ininteligível, o escritor encontrou um ponto de intersecção, onde todos os leitores lusófonos podem entender a idiossincrasia dos narradores e personagens, exceto nos diálogos dos locais como no conto de Sidney Poitier, que só com dicionário mesmo. Apareceram palavras africanas, mas com a devida tradução nessa edição portuguesa. Novos vocábulos, novos conhecimento, maior a riqueza cultural. Ficou claro que o sobrenatural, o místico, a superstição, feitiços e feiticeiros, fazem parte da cultura moçambicana. Mia é um grande contador de histórias, ele soube nesses contos escolher bem as palavras, com frases surpreendentes e inovadoras, algumas trocas sintáticas interessantes. Infelizmente num blog, querido leitor, a análise dos contos tem que ser assim macroscópica, só posso dar uma ideia, mas os contos de Mia dão muito pano pra manga. “Cada homem é uma raça” é o tipo de livro que fiquei com pena de me despedir, entrou para os meus favoritos.

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 Couto, Mia. Cada homem é uma raça. Caminho, 5ª edição, Lisboa, 1998. 185 páginas

 

Resenha: A hora do diabo, de Fernando Pessoa


A música, o luar e os sonhos são as minhas armas mágicas. (Fernando Pessoa, p.44)

Este livro, “A hora do diabo”, são folhas soltas escritas por Fernando Pessoa, fazem parte do espólio do autor depositado na Biblioteca de Lisboa. Foram organizadas pela professora portuguesa e especialista no autor,Teresa Rita Lopes, também é escritora.

Teresa Rita Lopes2Teresa Rita Lopes, estudiosa da obra de Pessoa.

O prefácio “História e Alcance de A Hora do Diabo” é mais extenso que a própria obra, Teresa explica que essas folhas soltas faziam parte de um projeto de um conto que se chamaria “Devil’s voice”. Pessoa foi educado em inglês na África do Sul, era fluente nesse idioma, escreveu seus primeiros poemas em inglês. Apesar desse título, o texto está em português. A presença satânica se faz presente em vários textos do escritor ainda adolescente, entre os 14 e 17 anos ele começou a questionar a religião católica praticada por sua família, isso depois de ter visitado o avô judeu em Portugal. Pessoa faz uma defesa do diabo, que não é tão ruim como parece e quer fazer ver a Igreja Católica. Não terminei de ler o prefácio, porque esmiuçava muito o que estava por vir, o spoiler estraga o prazer da descoberta. Melhor ler o prefácio depois da leitura do texto de Pessoa. Gênio não se faz, parece que já nasce:

É que o sonho, minha senhora, é uma ação que se tornou ideia; e que por isso conserva a força do mundo e lhe repudia a matéria, que é estar no espaço. Não é verdade que somos livres no sonho? (p. 44)

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Fernando Pessoa adolescente. Bonitinho,não?! Foi nessa época em que morava em Durban (África do Sul) que escreveu os textos de “A hora do diabo”.

Maria emplaca uma conversa com o Diabo, ela estava na estação do trem, e de repente, apareceu na sua casa. Nessa atmosfera meio onírica, sobrenatural, mística, o Diabo apresenta- se, diz que é irmão de Deus, um anjo sem sexo, do início dos tempos. Sente- se injustiçado, não considera- se ruim, considera- se até melhor que Deus, inclusive:

(…) Corrompo, é certo, porque faço imaginar. Mas Deus é pior- num sentido, pelo menos, porque criou o corpo corruptível, que é muito menos estético. Os sonhos, ao menos, não apodrecem. Passam. (p. 47)

O Diabo é a imaginação; Deus, a própria Criação. O Diabo é a luxúria, a volúpia, o desejo, a serpente. Duas criações do Diabo: o luar e a ironia. O Diabo é o “esquecimento de todos os deveres, a hesitação de todas as intenções” (p.49). O Diabo é a dúvida que atormenta o homem. É o “Deus da Imaginação”, como se auto denomina:

Corrompo mas ilumino. (p.53)

O conto é muito filosófico, fora que dá vontade de chorar de tão bem escrito. Será que foi um menino mesmo que escreveu?! Pessoa consegue convencer que o Diabo não é tão ruim não, além de ser lúcido e inteligente.

(…) Todo este universo, com seu Deus e o seu Diabo, com o que há nele e de coisas que eles vêem, é um hieróglifo eternamente por decifrar. (p. 51)

O Diabo diz que todas as religiões são iguais, cultuam símbolos diferentes, mas que falam da mesma coisa, por mais opostas que sejam. E todas as futilidades, desejos infundados, aborrecimentos, tédio, é o pensamento do Diabo que não sabe de nada, ele desce sobre a alma dos homens. Ai, que medinho, não?! Mas o próprio Diabo nega a sua existência, o Diabo é o vazio, não existe, como Deus, que são criações para preencher lacunas, veja:

A verdade, porém, é que não existo- nem eu, nem outra coisa qualquer. Todo este universo, e todos os outros universos, com seus Criadores e seus diversos Satãs- mais ou menos adestrados- são vácuos dentro de vácuo, nadas que giram, satélites, na órbita inútil de coisa alguma. (p. 55)

Entre os textos há uma desconexão, uma sensação de escritura inacabada (terá sido engavetado?). E também muita poesia:

(…) Felizes os que dormem, na sua vida animal, – um sistema peculiar de alma, velado em poesia  ilustrado por palavras. (p. 59)

O único defeito desse livro? Ser muito curto. Ele desestrutura, faz sair do lugar comum, sacode as nossas crenças e faz pensar… pensar na ordem estabelecida. E se tudo for uma grande balela? Quem sabe da verdade mesmo?! Tudo, tudo, tudo é só questão de fé, é pegar ou largar!

(…) Tudo é muito mais misterioso do que se julga, e tudo isso aqui- Deus, o universo e eu- é apenas um recanto mentiroso da verdade inatingível. ( p.60)

Fernando Pessoa A Hora do Diabo

Pessoa, Fernando. A hora do diabo. Assírio & Alvim, Lisboa, 2004. 69 páginas

Um dia, quando eu tinha vinte e poucos, um professor da universidade disse na sala de aula: “é impossível escrever algo substancial antes dos quarenta”, possivelmente reproduziu o que leu de algum crítico. E eu pensei: ‘para quê escrever, então, se tudo o que eu fizer vai ser ruim?’. Uma pena que eu tenha acreditado nele, esse pensamento deve ter sido o Diabo pessoniano tolhendo o sonho criativo alheio.

O bom sonhador nunca acorda. Eu nunca acordei. (p.45)

Preste atenção nos seus sonhos!

“O tempo envelhece depressa”, Antonio Tabucchi


Perguntei- lhe por aquele tempo, de quando éramos ainda realmente jovens, ingénuos*, arrebatados, patetas, incautos. Alguma coisa ficou, a juventude não- respondeu. (p. 11)

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O escritor italiano morava em Lisboa e era apaixonado pela língua portuguesa. Tabucchi morreu no ano passado de câncer.

Conheci a obra de Tabucchi depois de sua partida no ano passado (Vecchiano, Pisa, Itália 24/ 09/ 1943 – Lisboa, Portugal 25/ 03/ 2012). O primeiro livro que li foi Requiem: uma alucinação, uma obra muito interessante, sobrenatural, mística. Fiquei com vontade de conhecer mais e comprei “O tempo envelhece depressa”, um título que me identifico muito, porque ultimamente é uma preocupação e luta constantes na minha vida essa briga com o tempo mais veloz que eu. Trata- se de uma obra composta por nove contos que falam disso, do tempo que passa rápido demais em diversos contextos e esferas, o tempo real e o psicológico, a memória e a consciência. São histórias que existiram na realidade antes da ficção, como diz o próprio autor no final do livro. Veja essa interessante passagem:

– Nefelomancia, respondeu o homem, é uma palavra grega. nefelos significa nuvem e mancia adivinhar, a nefelomancia é a arte de adivinhar o futuro observando as nuvens, ou melhor, a forma das nuvens, porque nesta arte a forma é a substância (…) ( “Nuvens”, p. 59)

Adoro essa capa bela e triste, dois palhaços de partida para nenhum lugar, já que observam o mar. O tempo envelheceu cedo, esgotou cedo demais para Tabucchi, esse foi o seu último livro. O nome do autor era cogitado para o prêmio Nobel de Literatura, ele nos deixou 25 livros traduzidos no mundo todo. “O tempo envelhece depressa” é um livro bonito com uma ponta de tristeza…mas, sem dúvida, belo.

‘Nunca acreditei que a vida imitasse a arte’, é uma daquelas frases que pegaram porque é fácil, a realidade ultrapassa sempre a imaginação, por isso é impossível escrever certas histórias, pálida evocação daquilo que de facto* aconteceu. (“Entre generais”, p.85)

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Tabucchi, Antonio. O tempo envelhece depressa. Dom Quixote, Portugal, 2012. 145 páginas

*português de Portugal