Os sapatos de lã


Ontem eu peguei a linha 146 de ônibus.  Na minha rua passa de seis em seis minutos e nos deixa no centro. Há restrições de tráfego de carros por causa da poluição e muita dificuldade para estacionar. Transporte público em Madri é uma excelente (e confortável!) escolha. Desci na Praça de Cibele (“Plaza de Cibeles”, em espanhol), a que leva o nome de uma deusa grega, a mãe da Terra. Nessa praça também fica o edifício mais bonito de Madri, funciona nele a prefeitura, é o antigo prédio dos Correios.

Decidi ir caminhando até o Museu Rainha Sofia, apesar do frio polar que anda fazendo esses dias na cidade. Gosto de andar no frio, além do mais, o trajeto é agradável, um quilômetro cruzando o Passeio do Prado. Passei pelo Museu do Prado, o Museu Thyssen, também o da “La Caixa”, dá para ver também o belo edifício da Real Academia de Letras e ainda o Real Jardim Botânico. Tudo muito monárquico por aqui, vocês sabem.

Na altura do Palace Hotel, vi uma mulher pedindo esmola com um copo descartável na mão. Uma cigana romena, dessas típicas com traje negro e lenço na cabeça. Ela era idosa e baixinha, encurvada, o rosto como um leque de rugas bem marcadas. Calculei que tivesse oitenta e cinco para cima. Mas, o que me chamou a atenção não foi o seu rosto: foram os seus pés descalços e inchados. Passei pela mulher (eu não tinha moedas), segui meu caminho, mas aquela imagem ficou martelando na minha cabeça.

Sim, eu sei que gente como ela é pedinte profissional. Normalmente, eles chegam em grupos, trazidos por máfias para fazer esse “trabalho”.  Dormem na rua, comem muito mal, é uma exploração desumana e criminosa. Mas…e a idosa e seus pés descalços nesse frio congelante?! “Como ela está aguentando?!”, pensei.

No Passeio do Prado não há muitas lojas, algumas de souvenires, poucos restaurantes, mas encontrei uma única loja de sapatos. Alpargatas, para ser mais precisa. Havia um par de alpargatas confeccionadas em lã, fechadas e quentinhas. Ao mesmo tempo, maleáveis, assim entrariam e ficariam confortáveis nos seus pés inchados.

Escolhi uma colorida e alegre, pensei que ficariam bonitas nos pés da senhora, até imaginei ela arriscando uns passos da “manele”, uma dança cigana.

24176672_899924460163115_3386350079028324036_n

A loja de alpargatas no Paseo del Prado.

24232169_899924493496445_3448008369307631159_n

O sapato de lã colorido estava nesse balaio da esquerda, o mais quentinho que achei. Não é o da imagem do post, o real eu esqueci de fotografar.

Que boba eu sou. Levei os sapatos dentro da sacola da loja. Cheguei perto da senhora, sabia que ela não entenderia muito bem o espanhol, e disse: “Calce os sapatos, senão a senhora pode ficar doente com esse frio”. Ela abriu a sacola, olhou, fechou e gritou uma espécie de ladainha decorada: “dinheiro, comida, comida, fome!”.

Saí um pouco desiludida com o descaso da mulher com os sapatos de lã. Na volta, três horas mais tarde, passei pelo mesmo lugar, ela não estava mais.

Já em casa, meu marido me disse que é uma tática muito comum dos ciganos romenos, isso de andarem descalços no inverno para provocarem mais compaixão, e assim, ganharem mais moedas. Pensei até que a mulher poderia ter vendido os sapatos.

Mas, vejam… hoje passamos de carro em frente ao Palace. Gritei, surpresa: “Toni, ela está com os sapatos de lã!”. Lá estava a senhora em frente ao restaurante Vip´s com seus sapatos coloridos novos. “Eu disse que eram confortáveis!”

Nós dois… vocês também? Temos a mania de sacramentar as nossas verdades e de prejulgar. Somos cheios de preconceitos. Olhamos o outro como se fosse um pacote fechado, sujeito construído, segundo nossas crenças. Tivemos que refletir e repensar: e se ela não for cigana, não for romena (pode ser russa, croata, eslovaca, etc), e se não for explorada por uma máfia…for só uma mulher idosa, doente, sozinha, uma viúva sem filhos, sem parentes, sem amigos e que não teve muita sorte na vida?! Quem sabe a história dela? Eu perguntei? Não! Quem pergunta? Mas vejam, já “achei” de novo, já inventei uma nova história para a mulher.

Prefiro sempre acreditar nas pessoas, mesmo que me enganem mil vezes.

Há muitos moradores de rua em Madri. Dormem em marquises, em parques, em caixas eletrônicos, em bancos nas ruas. O frio está rigoroso.  Esse é um problema crônico e doído. A maioria é imigrante, aí sim, não é prejulgamento.  Penso sempre neles, essa gente que vem de longe com um sonho…

A felicidade pode ser simples: às vezes, custa só 9,90.

Anúncios

O dia em que eu encontrei Nélida Piñón


Os hablo como una escritora al servicio de la memoria brasileña (…) (Nélida Piñón, in “La épica del corazón”)

A minha vida é comum, mas, de vez em quando, acontece algo surpreendente. Há cinco dias recebi um convite pra lá de especial, um encontro em Madri com a grande Nélida Piñón!

Sinceramente, achei que nem iria acontecer. Uma escritora com muitos compromissos importantes, consagrada (a melhor do Brasil, na minha opinião), imortal da Academia Brasileira de Letras, prêmio Príncipe de Astúrias na Espanha, entre muitos outros, pessoa acostumada a conviver com artistas, outros grandes escritores, jornalistas do mundo todo e de grandes meios de comunicação, outras gentes poderosas, inclusive da realeza… que interesse a Nélida poderia ter em conhecer- me? “Por isso mesmo”, pensei. Justamente por eu ser uma pessoa comum. Nélida é uma grande escritora, as pessoas são o seu objeto de trabalho, ela precisa estar com gente de todas as classes e feitios. Além do mais, os escritores conseguem enxergar além, fazem leituras mais profundas das pessoas.

Nélida, assim como outros bons autores, recolhem os testemunhos da nossa era. Aprisionam nessa cápsula do tempo chamada “literatura” o que somos e repassarão as nossas vozes ao futuro, principalmente quando não estivermos mais aqui. Eis o sentido real da imortalidade.

O encontro aconteceu sim. Nélida, além de ter palavra, é muito pontual.

É bem verdade que já tive um contato anterior com a autora há dois anos, quando fui editora da Revista BrazilcomZ (cessada temporariamente, no ano que vem voltará com tudo). A entrevista (escrita) foi belíssima, uma aula magistral de literatura. Vou postá- la aqui no blog nos próximos dias. 

Enfim, o encontro aconteceu no Palace Hotel de Madri,  pertinho do Museu do Prado e do Museu Thyssen, o quarteirão de ouro das Artes em Madri, na quarta passada, 22 de novembro.

Eu sou atrapalhada, constantemente acontecem situações que constrangeriam a maioria, mas como são tão comuns comigo, simplesmente as ignoro ou as trato com humor. Nélida enviou- me uma mensagem no WhatsApp, que me “esperaria sentada na ‘rotonda’ do Hotel às 16:30h”. Em frente ao Palace há uma ‘rotonda’ (rótula, como se fala em muitos lugares do Brasil) de frente à fachada do hotel; nela, está a Fonte de Netuno, onde acontecem as comemorações dos torcedores do Atlético de Madri, quando o time vence algum jogo.

Cheguei às 15:55h e fiquei diante do hotel esperando o horário combinado. “Muito estranho”, pensei. Andei pra lá e pra cá, nervosa. “Banco, que banco?”. Não havia. “Será que é do outro lado?”. No lado oposto do Palace fica o Ritz, lá sim tem alguns bancos. Quando deu 16:20h, escrevi para Nélida: “Eu estou esperando na ‘rotonda’, mas não vejo nenhum banco”. E Nélida (eu pude sentir o seu sorriso), “não, querida, a ‘rotonda’ fica dentro do hotel, já estou aqui”. Fernanda sendo Fernanda. Primeiro fora da tarde, será que viriam outros?

Subo para o hotel. Na recepção, aquela típica figura clássica de hotéis de luxo, um senhor uniformizado, aquele que recebe clientes, carrega suas malas e atende os mais variados e exóticos pedidos. Na Espanha é chamado de “conserje”. O conserje me indicou onde ficava a “rotonda”. Nesse momento, nem prestei atenção em quem estava no local e como era o ambiente. Passei o olho na enorme sala circular, com um belíssimo vitral no teto, observado só mais tarde, e vi Nélida Piñón sozinha numa mesa.

Amigos, “Rotonda” é um restaurante que fica dentro do Palace. Até então, eu não sabia que estaria a sós com Nélida, a escritora que admiro desde sempre. “A república dos sonhos” é um dos meus livros favoritos, é uma obra- prima, um livro difícil de ser escrito, um trabalho precioso de arte literária. Aqui tem a resenha, leia.

Na noite anterior, mal havia dormido imaginando que tipo de encontro seria.  Achei que seria algo coletivo com outros bloggers, jornalistas, leitores, admiradores, não sei. Mas não, eu tive praticamente uma tarde inteira de Nélida Piñón só para mim. Lembrando que as tardes na Espanha duram até às 20h. 

Nélida5

Nélida Piñón no Hotel Palace em Madri, 22/11/2017 (Foto: Fernanda Sampaio Carneiro)

A dama Nélida Piñón levantou- se para me receber. Já nos primeiros minutos, todo o meu nervosismo desapareceu, ela deixou- me completamente à vontade. Convidou- me para um café e falamos de assuntos muito variados. Deixei- me conduzir, costumo ser tagarela, mas dessa vez queria só ouvir, aprender.

Nélida é elegante, alegre, falante, vital. Uma mulher rica de experiências e  ideias. É um ser que inspira, que nos enriquece. Confesso que, por duas vezes, caíram lágrimas. O outro fora da tarde? Senti- me acolhida, como se já a conhecesse há anos. Perguntou- me muitas coisas, interessou- se por minha vida.

23843091_1145710242197998_3796194757024376106_n

Selfie: Fernanda Sampaio e Nélida Piñón no Palace em Madri, 22/11/2017

Nélida irá à Lisboa para uma temporada no ano que vem. Pretende escrever um novo livro. Será uma espécie de “República dos sonhos” ao contrário? Neste, ela conta a história de galegos que imigraram ao Brasil, fato que aconteceu com sua própria família. Nélida é filha de espanhóis da Galiza. Essa nova obra será a história do êxodo brasileiro à Europa? Não tenho ideia, é só um palpite, vamos aguardar!

Sobre escritores e escritoras no Brasil, Nélida considera o trato desigual. O protagonismo feminino é bem menor, como se o que escrevessem tivesse menos importância. Essa última consideração, já minha. Temos que lutar pela igualdade de condições também nesse âmbito; aliás, em todos, editorial, acadêmico, trabalhista. Há muito machismo na área de Letras. Nos cursos universitários os homens são a minoria, mas sempre têm vagas, praticamente garantidas, no ensino superior. Ninguém repara nisto?! 

Voltando ao encontro. Também demos um pequeno passeio caminhando por Madri. Surreal. Que honra, que prazer!

Eu tenho quase a obra toda da autora, mas só levei dois livros para serem autografados, com medo de abusar de sua boa vontade. Serão mostrados na altura que postar as resenhas.

Na Espanha, saiu o mês passado pela editora Alfaguara o“La épica del corazón” você pode ver também outros títulos da autora aqui. É o “Filhos da América” editado no Brasil pela Record, quem quiser comprar, clica aqui. Na Espanha, o nome ficou bem diferente. É um livro interessantíssimo, estou louca para terminar e contar aqui para vocês!

Bem, pessoal, esse dia foi marcante e muito feliz! Cada um com sua emoção, não é? Cada qual com os seus ídolos. Essa experiência tão intensa pra mim, possivelmente tenha mudado algo muito importante no meu interior. Sinto- me com mais coragem para fazer coisas que antes não tinha. Esse é o alcance que um ser humano pode ter em outro: o de modificar vidas só com a palavra, a atenção, o afeto e a amizade. Cultivemos, pois!

À Nélida, gratidão! 

Todos os ângulos do Museu do Prado


O Museu do Prado em Madri, é um dos mais importantes museus de arte do mundo, recebeu mais de 3 milhões de visitantes em 2016. O Prado foi fundado em 1819, o atual diretor é Miguel Zugaza. No museu, acontecem várias atividades para estudantes, exposições temporárias, além das permanentes, cursos de arte, restauração, oficinas de desenho, cursos para professores, exibição de filmes, conferências e várias outras atividades. É um espaço muito bem aproveitado. Os espanhóis sabem cuidar e conservar o seu patrimônio histórico e cultural.

O edifício belíssimo fica no Paseo del Prado, no centro da cidade, que é um lindo corredor arborizado, que inicia em Atocha (onde fica a estação mais famosa da cidade) e termina na fonte de Cibeles, onde está a prefeitura de Madri. Nesse corredor fica também o Museu Thyssen e o Museu La Caixa. Muito pertinho também fica o Museu Rainha Sofia, ou seja, um dos lugares mais ricos do mundo. Ah, também fica o Jardim Botânico da cidade, portanto, parada obrigatória para quem visita a capital da Espanha.

A fachada mais conhecida é a da foto abaixo, com a estátua do mestre Velázquez:

IMG_2848

Acima, as outras fachadas. O museu foi desenhado por Juan de Villanueva em 1795, antes era um gabinete de ciências naturais. Algumas obras famosas que estão no museu (clique nos links para vê- las): “O Jardim das Delícias”, de El Bosco; “A Sagrada Família”, de Rafael; “As meninas”, de Velázquez; “A família de Carlos IV”, de Goya; você pode conhecer todo o acervo, clicando aqui.

Um Fernando Pessoa nada brilhante (resenha)


O poeta português Fernando Pessoa foi um escritor brilhante? Sem dúvida! Mas nem tudo o que ele escreveu foi assim.

Folheando a meia dúzia de livros que existe em português na biblioteca municipal Eugénio Trías, no Parque del Retiro em Madri, encontrei “Cantares- Quadras”, de Fernando Pessoa.

O livro é composto por mais de duzentas quadras, a grande maioria com temáticas amorosas. Quadras são estrofes de quatro versos, as rimas no primeiro e terceiro verso, e no segundo e quarto, em redondilha maior, ou seja, os versos têm sete silabas (heptassílabos). É uma forma clássica e antiga de composição, remonta à época dos trovadores, justamente pela musicalidade e facilidade de composição.

Mas as quadras de Fernando, a maioria deste livro, são extremamente bestas, parecem ter sido escritas por alguma criança. Eu separei as que menos me aborreceram:

O livro ficou lá na biblioteca. Creio que deveria ter feito ao contrário, ter mostrado as piores quadras e rimas. A impressão que tive é que Fernando forçou o heptassílabo, talvez isso seja o mais difícil nesse tipo de composição. Inclusive, no final do livro, tem um capítulo especial com “quadras” incompletas, algumas que ficaram com três versos, outras que faltaram as palavras exatas no meio do verso. Forçar a forma comprometeu o sentido. Realmente curioso. Veja:

incompleto

Enfim, nem todos os escritores brilhantes escrevem coisas brilhantes e o ofício de escritor não é fácil pra ninguém. Em se tratando de escritores míticos, unanimidade como Fernando Pessoa, raramente lemos alguma crítica negativa. Mas é isso: TODOS, todos os escritores de primeira linha, até os geniais, também cometeram falhas.

Pessoa, Fernando. Cantares (Quadras). Edição bilingue, Hiperión, Madri, 2006.

UPDATE: as quadras estão disponíveis gratuitamente aqui. Os textos foram escritos dois anos antes do falecimento de Fernando Pessoa.

 

O quiz da semana: Lima Barreto!


Como vão os seus conhecimentos sobre Lima Barreto, um dos maiores escritores que o Brasil teve? Preparei algumas perguntinhas básicas sobre a vida e a obra do autor, vamos ver quantas você acerta?

lima%20barreto%201914%20primeira%20intenacao%20hospital%20nacional%20dos%20alienados%20antigo%20hospital%20pedro%20ii

É fácil, vamos lá! Clica aqui e descubra!

Está chegando: 75ª Feira do Livro de Madrid (com uma “pitada” de desânimo)


Feiras de livros são oportunidades fantásticas para conhecer todos os tipos de autores, de todos os gêneros e lugares. A Feira do Livro de Madri, cidade onde moro, dura 22 dias e, normalmente, traz um país convidado. Esse ano: a França. Isso implica que teremos a oportunidade de conhecer autores franceses contemporâneos. Já contei que tenho uma quedinha pelos franceses? Leia aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

A lista de escritores que estarão presentes já começou a ser atualizada, até o dia da feira irão entrando mais nomes. Por exemplo:

No dia 5 de junho, você poderá conhecer em pessoa o dono do melhor restaurante do mundo, Ferrán Adrià e seus livros com receitas maravilhosas.

ferran_adria_recetas

Julia Navarro, escritora espanhola, essa vale a pena conhecer. Eu li o “Dime quien soy” e gostei bastante. Ela vai estar em vários dias, melhor consultar a lista.julia

Ainda não divulgaram os escritores franceses que estarão presentes.

A lista, por enquanto, deixou- me muito desanimada. Viram a minha animação do início? Pois é, c’est fini. A literatura de não- ficção deve entrar, pois há coisas muito úteis que precisamos. Eu mesma citei o Ferràn Adrià. Há ensaios, divulgação científica, dicionários, fotografia, gastronomia, muita coisa bacana, mas não vale tudo.

Nos últimos três anos, principalmente, a onda de youtubers e “gente nada a ver com literatura” invadiram a feira e o nosso mundo literário. A literatura vai minguando. Qualquer um acha que pode escrever um livro. Poder até pode, mas não é literatura. Há livros muito respeitáveis de não- ficção, que são úteis e necessários, mas não é o caso da lista que acabei de ver. Desânimo.

Isso pode ter consequências muito negativas: a juventude só vai ler porcaria; os escritores decentes não vão querer participar da palhaçada; os consumidores de literatura (ficção, artística, principalmente) deixarão de ir e a feira acabará se transformando numa festa de babacas, adolescentes alucinados e curiosos querendo tirar fotos com artistas e youtubers.

Eu mesma, na feira de 2014, fui cedinho para “ficar na fila”, pois adoraria conhecer Luis Goytisolo (1935) pessoalmente. Um escritor de primeira linha, membro da Real Academia Española (irmão do também escritor, o célebre Juan Goytisolo), escreveu livros incríveis como “Antagonía”, uma obra- prima. Esse autor espanhol é comparado com Proust. Cheguei esbaforida, “Ué, cadê a fila?!”. Não havia ninguém. A minha surpresa foi tanta que o autor percebeu. “Não sou um autor popular”. A vantagem é que pude conversar bastante com ele e tenho o privilégio de ter quase toda a sua obra (carinhosamente) autografada. Mas, não consegui evitar a sensação de tristeza e desencanto: “se ninguém lê um autor desses…que fazemos?!”

Caramba, nosso espaço já é muito restrito, será mesmo que eles têm que invadir a nossa praia?! Claro que sim, as editoras e “escritores” (que normalmente nem escrevem, alguém faz isso por eles) querem é ganhar dinheiro, não importa com quê. Oportunistas.

Cartel FLM16O cartaz desse ano é de Emilio Gil, um artista gráfico.

Vou aguardar para ver se melhora. Será que virá pelo menos algum desses escritores franceses: Patrick Modiano, Pierre Lemaitre, Fred Vargas, Laurent Mauvignier, J. M. G. Le Clézio, Frédéric Beigbeder? Senão, fico aqui com a minha maravilhosa biblioteca.

Resenha I- Dom Quixote de La Mancha


Dom Quixote de La Mancha começa bem curioso e engraçado. Uma série de protocolos da época, uma carta de Cervantes ao rei, uma do rei, carta do escrivão, de um licenciado em Letras que dá a sua palavra que as erratas estão de acordo com o livro, tudo isso antes de começar a narrativa propriamente dita. Depois vem o prólogo de Cervantes. Ele dirige- se diretamente ao leitor. Só as duas primeiras palavras já fizeram- me rir: “Desocupados leitores”. Por que será que ele acreditava que só os “desocupados” leriam a sua obra? Por que não a considerava boa ou por sua extensão? Nada disso, ironia pura.

Ele explica que os pais quando têm um filho muito feio e sem graça, normalmente, o protegem, “colocam uma venda nos olhos” e por causa do amor que lhes têm, fingem não enxergar seus defeitos. Mas ele, “que, ainda que pareça um pai, sou padrasto de dom Quixote, não quero ir com a corrente usual (…)” (p.7). Ou seja, ele vai delatar o pobre do Dom Quixote em todas as suas faltas, e a si mesmo (no prólogo) com muita ironia.

Só com o prólogo, que é super bem elaborado, você já recebe uma aula de espanhol (delícia ler essa obra no original!), conheci conjugações verbais que ainda não tinha lido em nenhum lugar, um léxico desconhecido, fora a aula prática de literatura, como se deve escrever um texto.  Cervantes deveria ser leitura obrigatória para todo aspirante a escritor.

Começou emocionante, deu aquele friozinho na barriga e a pergunta interna que não cala até agora: “por que eu não li isso antes?!” Ele inovou ao escrever o prólogo. Disse que não iria fazer como todos faziam: colocar citações de Aristoteles, Platão e de nenhum filósofo, nem a Bíblia. Cervantes, com 57 anos, disse que era um homem de “poucas letras”, por isso não iria mostrar falsa erudição colocando prólogo nem conclusão no livro. Há ironia nisso e, certamente, uma alfinetada nos seus contemporâneos, principalmente o popular poeta Lope de Vega, seu desafeto. Depois diz que é preguiça mesmo. Acho que estava cansado da mesmice do seu tempo. Mais ao menos como nós agora. Ele cita duas frases de Horácio, uma de Ovídio e duas do evangelho, todas em latim, que seus colegas usavam na época, em modo ironia. Coloco uma aqui de Ovídio, que ele utilizou para ridiculizar os escritores, atribuiu a autoria a Catón (p.11), insinuando a falsa erudição dos colegas, que nem sabiam de quem eram os dísticos que utilizavam.

Enquanto és feliz terás muitos amigos; se os tempos forem difíceis, estarás sozinho.

Só o prólogo já deu pano pra manga. Eu não vou contar tudo, mas Cervantes deu uma coça na turma da época. O que me dá mais coragem para seguir em frente com o meu papel de crítica, detonando as obras- “basura”, que estão enfiando goela abaixo do leitor inexperiente. A quantidade de escritor medíocre que anda surgindo me provoca um arrepio de mal estar. Que critiquem a crítica, estou vacinada, o que penso sobre a arte literária e os que estão longe dela, será dito.

Nesse prólogo de 20 páginas (veja o livro no final do post) é escárnio puro. Zomba dos colegas sem nenhum pudor. Depois ele explica um pouco quem é o famoso Dom Quixote: um apaixonado, honrado e valente cavaleiro de Montiel, que tem um fiel escudeiro, Sancho Pança. Termina o prólogo com uma palavrinha: “Vale”. Parece que não significa nada, não é? Errado. É uma alusão ao frei “Antonio de Guevara, autor das “Epístolas familiares”, que usa o nome de três prostitutas da Antiguidade no seu livro e apoderou- se da autoria. Um falso erudito.

Há que se fazer uma leitura atenta de Cervantes, pois nada é por acaso. A obra é muito trabalhada, muita “transpiração”.  Depois do prólogo, Cervantes colocou dez sonetos de sua autoria contrariando, outra vez, o costume de colocar poemas de amigos abrindo as obras.  O “cara” escreveu os poemas “Al libro de Don Quijote de la Mancha” e “Del donoso poeta entreverado, a Sancho Panza y Rocinante” cortando ao meio todas as palavras no final dos versos, tipo…deu uma banana à tradição da época e os que pensavam que sabiam tudo e queriam que os outros fizessem igual.  Cervantes foi o primeiro poeta concretista! 🙂

Aconselho que você preste atenção quando for comprar essa obra, porque há muitas adaptações. Compre alguma edição com o texto integral. As adaptações são um insulto ao leitor, pois tentam encurtar ou “facilitar” a leitura, maculando e depredando verdadeiras obras- primas.

Quando vier à Espanha, não deixe de visitar o Museu Casa Natal de Cervantes, que fica na charmosa cidade de Alcalá de Henares ( adoro!) pertinho de Madri. A entrada é gratuita e você pode conhecer onde nasceu um dos maiores escritores do mundo e de todos os tempos. Até o dia 14 de fevereiro está acontecendo uma exposição de ilustrações do espanhol Miguelanxo Prado:

cerva

Como eu não quero posts muito longos, termino por aqui. Já viram que não vai dar pra ser sucinta com esse livro.

Possivelmente, a edição abaixo seja a melhor em formato low cost dessa obra. Custa só 13, 90 euros e vem com textos de Dario Villanueva, que é o diretor da Real Academia Española, Mario Vargas Llosa, Francisco Ayala, Martín de Ríquer (falecido em 2013), que eu reverencio, pois era um incrível especialista em literatura medieval, ele tem uma obra chamada “Os trovadores”, que é de chorar de tão incrível. A edição e notas são de Francisco Rico. Só fera!

qui

Cervantes, Miguel de. Don Quijote de La Mancha. Edición Conmemorativa VI centenario Cervantes. Alfaguara, 2015. Páginas: 1249

Leia aqui o primeiro post sobre esse livro, o de introdução.