Resenha: “Ciranda de pedra”, de Lygia Fagundes Telles


Tenho uma leve lembrança da novela “Ciranda de Pedra”, que passou na minha infância (1981), mas nada significativo em relação ao enredo, só lembro do rosto de Lucélia Santos; portanto, essa obra era como uma desconhecida para mim. Sei que a novela da Globo foi um tremendo sucesso, foi reprisada e ganhou um remake em 2008. De novela eu não entendo, não as vejo desde 2004, época da minha expatriação “definitiva”. Quem entende do assunto é a minha amiga Alana Freitas, vejam lá o “Entretelas”, blog especializadíssimo nessa arte de massas. Em tempo: a adaptação de “Ciranda de Pedra” (a de 2008) também foi vista em Portugal.

A história começa com uma menina revoltada, triste, deprimida, que chora junto à Luciana, a empregada mulata, que cuida de toda a família. Esta obra foi escrita em 1954 e nota- se a opressão e preconceito que os negros sofriam. A cor estava associada à feiura (referência dos cabelos) e à tristeza. Os anjos só podiam ser brancos:

29595510_966591216829772_311884275773438084_n.jpg

Virgínia utiliza a cor de Luciana para atacá- la e menosprezá- la em momentos de tensão. Luciana é um personagem forte, porque faz as revelações mais importantes da narrativa, que é bem melodramática na primeira parte, por isto deve ter virado novela na TV, tem elementos de folhetim. Mas não foi ameno, levei alguns sustos, é uma narrativa abrupta dividida em duas partes. Já na primeira desenvolve- se todo o dramalhão. Não posso negar que não haja verossimilhança com a vida. Aliás, a vida é muito pior.

Os pais estão separados e a mãe, Laura, sofre demência, algo parecido com Alzheimer algumas vezes, e também sofre alucinações e desconecta do mundo “real”. Ela não lembra que Virgínia é sua filha, mas tem alguns momentos de lucidez.

A narrativa está entremeada em uma teia de fragilidades, rupturas e analogias entre pessoas, pássaros e animais invertebrados como beija- flores, formigas, aranhas e borboletas. Laura vê besouros: é o sinal de que Virgínia perdeu a mãe mais uma vez. A obra é enigmática, há uma aura de mistério e dor.

Vamos descobrindo mais sobre quem é Laura nos seus momentos de lucidez; no entanto, não dá para saber se os fatos são reais ou fruto de sua loucura. Ela conta que sua mãe era atriz e que seus pais morreram num incêndio. Daniel é o seu marido. Ela abandonou o ex, Natércio, pai de Virgínia, por causa dele. Laura e Natércio têm outras duas filhas, Bruna e Otávia, que moram com o pai.

A impressão é que Daniel pode ter algo de responsabilidade pela doença de Laura. Ele proíbe a entrada de Virgínia no quarto da mãe, não dá para saber se por proteção ou algo estranho. Virgínia o vê participando da loucura da mãe. Depois Daniel a envia para morar com o pai. Mais tarde descobrimos o motivo disso tudo, não vou contar, porque seria spoiler grande.

Na casa de Natércio quem cuida das meninas é Frau Herta, antipática e até cruel com Virgínia, a repreende a todo momento e exalta a qualidade de suas irmãs. Natércio é rico e mora num casarão.

Virgínia tenta negar a doença da mãe e afirma em reiterada vezes que melhorou, mesmo sabendo que não é verdade, principalmente por medo. Ela teme perder a mãe. Daniel explica o seu conceito de morte à Virgínia:

16425845_966581700164057_6965668479691781004_n

Daniel lê um livro de Charles Manson, “Sparkenbroken”, publicado em 1936, que diz o seguinte (adaptado pelo editor): “A noite passada voei para a árvore da morte;/ De súbito uma brisa fez- me pairar; / E eu, mísero boneco de penas arremessado,/ Envolvido no meu elemento, voltei a ser pássaro.”

Para Daniel há vida após a morte e esta é a libertação. Virgínia gosta do “tio Daniel”, mas tem que fingir que não, afinal, foi por causa dele que os seus pais se separaram. O médico é muito mais carinhoso que o seu pai. Elas, Otávia e Bruna, desprezavam a pequena, que não é parecida em nada com as duas, nem em gestos, comportamento ou aparência. Claro que já dá pra desconfiar que Virgínia é filha de Daniel e não de Natércio e esse foi o motivo da separação do casal, a infidelidade de Laura. Mas, se isso é certo, por que ainda não contaram à Virgínia a verdade?

A narrativa na primeira parte da obra intercala- se em três ambientes: a casa do pai, a casa da mãe e a imaginação de Virgínia. Na segunda parte, Virgínia foi morar num colégio interno de freiras.

Há outros dois personagens, Afonso e Conrado, irmãos e vizinhos da casa de Natércio. Virgínia tinha uma queda por Conrado, mas o moço não prestava atenção nela e sim na irmã Otávia. O tempo passou e  Afonso casou- se com Bruna, tiveram uma filha. Frau Herta, doente, já não é mais a governanta e sim a portuguesa Inocência. Conrado mudou- se depois da morte da mãe para uma chácara e Natércio aposentou- se. E sobre Daniel e Laura, essa parte não vou contar. Também não vou contar o que aconteceu com Virgínia, você vai ter que ler o livro…só vou contar que ela, já crescida, sai do colégio interno e volta para a casa de Natércio.

É uma obra bem escrita e que me provocou sensações de choque e angústia por vários motivos.

Creio que na novela há mais dicotomia de personagens vilões e mocinhos, vítimas e algozes. No romance não, são só humanos…

Qual caminho escolher? Essas encruzilhadas que a vida nos impõe e suas inexoráveis consequências. É uma história cheia de bifurcações e despedidas, e essas, nunca são alegres.

Esta é a edição portuguesa lida, ainda sem as correções do acordo ortográfico:

29571360_965128723642688_6404595740615182933_n       Telles, Lygia Fagundes. Ciranda de Pedra. Presença, Lisboa, 2008. 204 páginas

Se quiser comprar a mesma edição que a minha, clica aqui.

Anúncios

Leitores de livros são mais atraentes, diz pesquisa


Leitores de livros são mais atraentes, segundo eHarmony.

Você sente atração por tipos intelectuais, com a casa cheia de livros, frequentadores de livrarias e bibliotecas? Hum…não é má ideia, porque isso pode fazer toda a diferença na sua vida amorosa.

O site de namoro descobriu que listar a leitura como um hobby no seu perfil de namoro é uma jogada vencedora que o torna mais atraente para o sexo oposto.

Na verdade, os dados revelaram que os homens que o enumera como interesse recebem 19 por cento mais mensagens, e as mulheres, três por cento mais.

A pesquisa revelou que os leitores de livros são mais curiosos intelectualmente e abertos às novas relações.

Os homens que mencionam “Screw It, Let’s Do It” de Richard Branson e “Like a Virgin” receberam 74% mais atenção do que aqueles que não. Esse é o magnata inglês, dono da “Virgin”.

Seguido de “A garota com a tatuagem de dragão” (36%), 1984 (21%) e “O código Da Vinci” (5%).

Para as mulheres, os maiores aumentos nas mensagens provêm da lista dos “Jogos da Fome” (44%), da “A garota com tatuagem do dragão (31%) e do “Jogo dos tronos” (30%).

Dito isto, nem todos os livros darão um impulso à sua vida amorosa. Os dados descobriram que listar a Bíblia se mostra prejudicial para ambos os sexos ao mesmo tempo, “50 tons de cinza” para mulheres recebendo 16% menos mensagens e “Harry Potter” prejudicando homens em até 55%. Ou seja, a escolha do livro é importante.

Resumindo: leitores e leitoras têm menos chances de ficarem solteiros, portanto, se você quiser arranjar um(a) namorado(a), pare de rezar para Santo Antônio e pegue um livro! 😂

A notícia é do “The Independent”.

Resenha: “Gente feliz com lágrimas”, do português João de Melo


A primeira resenha do ano! Essa obra eu comecei a ler em dezembro, pensei que conseguiria postar no ano passado, mas a resenha saiu agora. Por isso, este livro não está na minha Lista de vinte e quatro livros para 2018. Serão, pois, vinte e cinco resenhas (espero e no mínimo),  neste ano.

Este é o título de livro mais incrível que já vi: “Gente feliz com lágrimas”… que beleza, carregado de significados! Como uma frase tão pequena pode dizer tanto?!  Não só diz, comove e acerta direto no coração. Um autor com essa inteligência e sensibilidade para resumir a sua história desta maneira já lhe outorga, de antemão, muita credibilidade. Decretado o título mais bonito de todos os livros do mundo, vamos ao autor e à obra:

João de Melo, 68 anos, nasceu em Achadinha, Ilha de São Miguel, Açores (Portugal). É licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa e foi professor nos ensinos secundário e superior. Já morou em Madri (inclusive tem um livro chamado “Mar de Madri”), trabalhou na Embaixada de Portugal como conselheiro de cultura, mas agora vive em Lisboa. Publicou mais de vinte livros.

Joao de Melo novembro 2017João de Melo e seus olhos azuis, tal como seu personagem Nuno. (foto: Facebook do autor)

Li em algum lugar no seu Facebook, que “Gente feliz com lágrimas”(1998) mudou a sua vida. Eu creio nisso, nesse poder transformador da literatura em vários âmbitos, tanto pessoal, quanto coletivo. A obra vai completar 30 anos em 2018. Na Espanha, o livro foi apresentado em 1992 e o autor estava acompanhado adivinha por quem? José Saramago. 

Na terra do autor. (foto: Paulo Nóbrega- Facebook)

A obra está organizado assim em cinco “livros” e com um epílogo, o “Livro Zero” chamado “A felicidade sábia”.

O enredo: saem de barco dos Açores até Lisboa, Nuno Miguel, de dez anos, e Amélia, de dezesseis. O menino vai para um seminário estudar para padre por ordem do pai e a moça com o sonho de  cursar enfermagem, ela vai para um convento. Eles são da zona rural, um lugar chamado Rozário.

O mal estar da viagem e as impressões ao chegar em Lisboa pela primeira vez, é uma bela descrição fotográfica. O menino, deslumbrado com a cidade, desperta ao lembrar que “meu destino não era Lisboa, e sim, o seminário”. (p.18) O menino ia num táxi do porto ao seminário sofrendo, o seminário fica a três horas de Lisboa. :

“Deus pode certamente expulsar- nos da infância.” (p.21)

Para Amélia, foi a maior alegria da sua vida chegar em Lisboa, mas esse bom sentimento não a acompanha ao entrar no convento:

“Nunca mais a minha vida ia ser fechada nessa redoma invisível, de onde apenas se viam o mar, as nuvens paradas e a distância infinita.”(p. 21)

Ambos, Nuno e Amélia, têm a sensação de serem estrangeiros no próprio país. A distância geográfica, o sotaque e o léxico insular são diferentes do continente.

A sensação de Nuno no continente pode ser similar a de um português no Brasil ou vice- versa. A mesma língua, mas há dificuldade de entendimento. A sensação é de estranhamento e desorientação. Nossa vasta língua e suas variantes.

Sobre as palavras “imigrar” ou “emigrar” há diferenças: o imigrante sai da sua terra com caráter definitivo e o emigrante sai da terra com caráter provisório (Priberam). Mas, como saber quando é um ou quando é outro? A vida é muito surpreendente e imprevisível para saber. Há outro tipo definição, que eu gosto mais: o imigrante sai do seu país, e o emigrante move- se dentro do seu próprio país. Uma coisa é certa: sair da zona de conforto transforma, modifica. Nuno, (p. 26):

Para não ter de continuar a responder- lhes e não ser compreendido, decidiu agarrar na almofada e comprimi- la à volta dos ouvidos. A sua vida ia assim mergulhar num subterrâneo sem fundo nem altura. Nunca mais ele voltaria a ser igual a si mesmo. (…)

“Gente feliz com lágrimas” é literatura emocional, interior, psicológica. A maior parte do romance acontece no mundo interior dos personagens, por isso é universal. Tanto faz a nacionalidade do autor ou dos personagens. Mas, também é um retrato de uma boa parte da sociedade portuguesa, que sai das ilhas ou do interior, e imigra para fugir das dores e conseguir melhores condições de vida.

Nuno, já adulto, não tem boas recordações dos pais. Ele recorda o pai com ressentimento, a sua indiferença, frieza, o seu esquecimento quando partiu para Lisboa. A mãe era uma figura ausente, cumpria as ordens do marido. Ia tendo os filhos e o mais velho cuidava do mais novo. A família morava numa casa pequena, apertada, os filhos ouviam os pais terem relações sexuais e Nuno ouvia o irmão deitado ao seu lado, masturbando- se. Nuno sabia tudo que ia acontecer, passo a passo, no quarto dos pais. Como pode influenciar na vida de um filho, presenciar a sexualidade dos pais? Nuno casou- se com Marta, o romance não deu certo e  teve que procurar um psicólogo.

No segundo capítulo, “Nuno Miguel”, o próprio nos faz um convite (p.60):

Fui pai de mim mesmo, sabe? E pai de filhos só meus. Sei que viver não é diferente de criar. E penso, em última análise, que ninguém resite à sabedoria do Bem dos escritores: são anjos e os demônios da pequena vida. Por isso aqui estou. Para lhe dar conta, como diria o poeta O´Neill, da minha santa e ternurenta vidinha…Topa?

Topamos, Nuno, aqui estamos.

O terceiro capítulo, “Maria Amélia”. Ela recorda a casa que viviam quando era pequena, “com chão de terra batida e escura como breu”(p.61). A vida dos pais na roça não era nada fácil cuidando das vacas esquálidas. Amélia dormia num quarto de madeira no alto da casa, muito baixo, tinha que entrar de cócoras, “naquele barraco escuro e desprotegido”, havia ratos e ferrugem. Ela dormia com a cabeça tapada, pelo medo e para esquentar. Coisa que nunca deixou de fazer,  adulta e casada. A infância realmente marca condutas do futuro (p.63):

(…) Now, after all this time, a minha vida parece continuar assim, rasteira e aflita sob o peso e o escuro dessas multidões de nuvens, eternamente levada pelo vento.

Havia escassez de comida para ela e os quatro irmãos. Mas ela recorda com carinho do pão de trigo ou milho, com açúcar ou mel, e a manteiga, que tinha “um sabor delicioso”.

O texto de Amélia é cheio de frases em inglês. Ela imigrou para o Canadá e recorda como apanhou, com quatro anos e meio, por abrir a porta à prima Manuela, brincar de casinha e esquecer de cuidar dos irmãos menores. A mãe deu- lhe uma surra, passou a tarde toda levando beliscões, puxões de cabelo e bofetões. Teve que parar de chorar, porque o pai estava para chegar. Pais violentos em palavras e ações (p.67):

– Tal excomungada! Berrona do inferno: se te ponho as mãos em cima, deixo- te negra de pancadaria.

A criança desacostumou de brincar, cresceu rápido demais. Ela descreve os gêmeos, Nuno e Carlos. Escolheu cuidar de Nuno, porque parecia mais frágil, e Domingas, cuidou do outro pequeno, que apesar da aparência robusta, faleceu quatro semanas depois, ambos estavam com tosse. A mãe havia pedido que Deus levasse uma das crianças, porque o dinheiro com remédios os estava arruinando. Chocante, não? Mas, quando não se tem o básico para sobreviver, há que ser prático. Mas Amélia já amava a Nuno e daria sua vida pela dele.

Amélia ficava entre o ódio e o amor pelo pai. Odiava a sua frieza, mas o admirava pela sua fortaleza. Ele escolhia as madeiras e pregos para fazer os caixõezinhos dos filhos mortos, Carlos, Vítor Primeiro e Vítor Segundo. Nunca viu o pai chorar, mas ele não comia quando sabia da morte dos filhos. A mãe e as vizinhas agradeciam a morte dos anjinhos, porque morriam sem pecado.

Luís Miguel, um dos filhos, também tem voz. O livro inteiro é uma obra- prima , eu o destacaria inteiro, pura arte literária (p.73):

Nascíamos em segredo. De partos apenas um pouco queixosos, como murmúrios de gente soterrada.

O rapaz também não tem boas recordações da infância (p. 76):

A minha e a infância dos meus irmãos ficou apagada no tempo e do luxo dos retratos. Nunca fomos de anjo nas procissões, e nunca os meus pais se comoveram com a voz suplicante dos retratistas de fora da terra que garantiam a perfeição humana e a arte de emprestar à vida um pouco de sabor e saudade.

Luís tinha estrabismo e  dentes tortos, que o próprio pai tratava de arrumar arrancando- lhe sangue. Também imigrou para o Canadá. Considera- se “O palhaço pobre da família”. O personagem conta sobre a sua única foto de família tirada por um tio, que reuniu os dezessete sobrinhos. Ele descreve- se e conta sobre o seu olho preguiçoso.

Espiando entre as fotos dos familiares do autor, descobri uma muito interessante, antiga, com uma menino usando um tampão no olho. O dono da foto é Jorge de Melo, reproduzo aqui, porque a foto é pública:

Seria Jorge de Melo, irmão do autor,  o alter- ego de Luís Miguel no romance? Não sei se o menino com o tampão no olho é o dono da foto ou é um irmão… ou seria o próprio autor? João de Melo, “magro de olhos azuis”, o alter- ego de Nuno? Tal como o personagem, João de Melo entrou para um seminário aos 11 anos. Possivelmente, um romance com tintas autobiográficas. É preciso sentir para saber, não é?

Jorge, tal como Luís (o personagem) mora no Canadá. Na foto, o primeiro da direita deve ser o autor de “Gente feliz com lágrimas”. São coisas que nós, leitores, pensamos e especulamos, mas nada disto importa. Nunca devemos confundir autor com os personagens, mesmo que haja coincidências. É ficção.

As vozes dos três narradores vão se intercalando: Nuno Miguel, Luis Miguel e Maria Amélia.

Nuno recorda (p.87) que nunca houve festa alguma na sua casa de infância, nada de presentes de Natal, nem os aniversário eram lembrados. Os brinquedos eram feitos por eles mesmos com cascas de frutas, galhos de árvores e afins. Andavam descalços, sapatos só aos domingos. O pai cortava os cabelos das crianças com um “tesourão enferrujado”. Os pais não eram tremendamente pobres, mas sim, muito avarentos.

Os pais morreram precocemente e Maria Amélia acredita que só o tempo fará com que as memórias de infância sejam vistas com mais claridade. Ela começa a narrar como foi mudar para uma casa nova. Amélia recorda dos gritos do pai quando ela precisou usar óculos, como se fosse culpa dela. Para o pai, “óculos eram um luxo” e quis tirá- la da escola para não ter essa despesa. Apesar das dores, a filha consegue enxergar o lado humano dos pais e suas preocupações. Sob a sua visão, o pai era extremamente trabalhador e a família era o mais importante para ele, que era carpinteiro.

Os filhos começavam a trabalhar muito cedo, mas frequentavam a escola. Apanhavam muito, trabalhavam muito, estudavam e não brincavam. Maria Amélia, Domingas, Nuno, Luís Miguel, Linda, Flor e Jorge.

Não sei dizer como nem quando os sonos da infância se converteram  na insônia da minha vida. (Nuno Miguel, p.115)

O pai morreu em Vancouver devido a um câncer e orgulhoso por ter deixado “duas terras a cada filho e um montinho de ‘dolas’ nos bancos canadianos. Não têm de se queixar de mim…”. O valor que cada um dá as coisas, não é? O material sobrevalorizado.

O professor de Nuno e Amélia chama- se “Quental”. Pode ser uma referência e/ou homenagem ao grande poeta açoriano Antero de Quental (1811-1876), um escritor para colocar já na sua lista!

Nuno levou uma bofetada por não querer escrever uma carta para a tia. O analfabetismo na zona rural, os homens que viajavam para o Brasil ou a América, a necessidade e a saudade. No coração de quem vai sempre há algo de “vontade arrependida”, adorei este termo. A complicação de ser imigrante:

“Quem me dera a mim”, diziam, “poder voltar atrás no tempo, regressar a esse borralhinho*. Comer pão de milho amarelo com inhame ou toucinho, sem dúvida, mas não ter que chorar estas lágrimas nem estar tao longe desse mar e duma terra onde toda a gente se conhece…” Arrependidos como cães por terem atravessado tanto mar, do qual continuavam enjoados e em agonia- e nós a pensar que eles se riam de nós à distância, gordod, luzidios, finando- se tão só num riso de lágrimas trocistas… (p.111-112)

Mais algumas coincidências do autor com o personagem Nuno: ambos são professores e escritores, formados em Letras.

Nuno sentiu uma necessidade imperiosa de escrever. Escrever exige solidão e esquecimento do mundo. Os melhores escritores são e foram um pouco (ou muito) misantropos. É meio inconciliável ter família, trabalhar oito horas e ainda conseguir ser um escritor de primeira linha. Não dá pra fazer tudo bem. É bem assim mesmo, pelo menos provisoriamente, a pessoa tem que se afastar:

– Tenho um livro aberto dentro de mim. Se não puder escrevê- lo agora, corro o risco de naufragar. Asseguras sozinha as despesas da casa, ou decidimos pôr- nos de acordo quanto ao divórcio? (Nuno para Marta, p.116)

Curiosidade lexical: “vavó” é um jeito açoriano de falar “vovó”. A “vavó” da família chama- se “Olinda”, era coxa e morreu dormindo aos noventa e nove anos (p.226); e o “vavô”, Botelho, meio brigado com o filho.

Tem até um biscoito da ilha chamado “Biscoitos da Vavó Sol Nascente”. Os Açores são um arquipélago formado por quinze ilhas. Clique aqui e veja se não dá vontade de ir conhecer!

Um das recordações mais tristes foi uma surra homérica que Nuno recebeu do pai em meio à chuva. O menino chegou em casa semi- morto, desmaiou, ficou com febre, quase morreu. Ressuscitou quando o pai, talvez pelo remorso, foi carinhoso:

– Papá quer ver- te comer aluma coisa, meu filho. Quando não, vais morrer de fraqueza, sem ação nos ossos. Vá lá, Nuno. Anda, meu homem. Há- de um pai deixar o filho morrer à fome, com tanto que há para se comer na casa? (p. 231)

E Nuno Miguel comeu.

“E os olhos dele, rasando- se de lágrimas, eram afinal olhos felizes com lágrimas (…)

Quando Nuno voltou aos Açores, foi recebido pelos muitos tios, já idosos: Sônia, Esperança, Urânia, Horácia, Jaime, Mercês, Olímpia, menos tio Zacarias, em paradeiro desconhecido e as outras tias que imigraram para o Brasil, esses da parte do pai; da parte da mãe, imigraram para “Toronto, Vancouver e Boston”. A tia dos afetos é a Olímpia, a que o faz sentir que ainda vale a pena voltar para casa:

– Descansa, que eu ainda cá estou para tomar conta de ti, sobrinho- diz. E, depois de lhe envolver o rosto com as mãos, estuda- lhe o olhar, abana a cabeça e acrescenta: – O que tu tens é uma grande ferida nesses olhos, filho da minha alma. (p.517)

Já contei demais, não é? Não vou contar qual é o destino dos personagens. Agora é com você!

Melo, João de. Gente feliz com lágrimas. Dom Quixote- Booket, Lisboa, 2008. Páginas: 524

A edição lida acima foi abocanhada pelo Lolo, o meu cachorrinho. Ficou sem capa, mas é a edição comemorativa da Booket (2008) dos 25 anos do romance.

Deixo aqui o link da melhor livraria online portuguesa, caso você queira comprar uma das várias edições de “Gente feliz com lágrimas”; também há e-books para quem estiver fora da União Europeia e quiser ler esta obra magistral sem pagar o frete.

Se preferir comprar na Amazon, clique no link: Gente Feliz com Lágrimas

É um desejo meu que “Gente feliz com lágrimas” seja conhecido e lido no Brasil. Alô, editores!

Obra recomendadíssima, coloque aí na sua lista!

*sinônimo de “lar”.

Resenha: “O seminarista”, de Bernardo Guimarães #RevisitandoOsClássicos #1


“Crescent illae, et vos crescentis, amores”
(“As árvores hão de crescer, e com elas haveis de crescer vós, meus amores” – Virgílio citado na p. 88)

Aqui começa uma série: Revisitando os Clássicos Brasileiros. O que significa?

São livros que eu já li há muito tempo e tenho vontade de reler. O tempo, a experiência leitora, transformam e mudam as nossas percepções. Aconteceu dessa forma com “O seminarista”, de Bernardo Guimarães: (re)li um novo livro. E essa constatação óbvia, mas interessante, me fez criar esse post, o primeiro de uma série, espero.

Para quem nunca leu, ou leu poucos clássicos da literatura brasileira, vamos começar?!

A primeira obra escolhida: “O Seminarista” (1872), de Bernardo Guimarães.

Brevíssima Biografia do Autor
O mineiro Bernardo Guimarães nasceu e morreu em Ouro Preto (1825- 1884). Juiz e escritor de prosa e verso, foi membro da Academia Brasileira de Letras. Inclusive você pode ler a biografia completa do autor no site da ABL. Casou- se com Maria Teresa e teve oito filhos. Era tio do poeta Alphonsus de Guimarães, que foi noivo de sua filha Constança, falecida aos dezessete anos por causa de uma tuberculose.


O livro é uma narração, e pela extensão, é uma novela. As novelas são mais curtas que os romances, esses, dentro do cânone literário, devem ter mais de 300 páginas; portanto, vou chamar pelo nome correto, embora no Brasil, o chamem de “romance”, normalmente. Dentro da narração, novela e romance são gêneros literários diferentes. E em outros idiomas/países, como na Espanha, não os diferenciam só pela extensão, mas também pelo teor: nesse país, o romance ganha ares fantásticos. O termo mais comum  é “novela”, ao contrário do Brasil.

Essa novela está dividida em vinte e quatro capítulos.

O enredo

O enredo é a história em si, do que trata o livro, a trama, a ação. Em “O Seminarista”, a história não é original, mas funciona: o amor impossível. Um seminarista apaixonado pela amiga de infância, um amor inesperado, já que Margarida era como sua irmã. E isso traz um monte de complicações para a vida de ambos.


Os pais de Eugênio acham que o filho tem vocação para a vida eclesiástica, porque brincava de ser padre na infância. Na época, a vida religiosa era algo que dava muito status e respeito.

Então, lá se foi Eugênio para o Seminário de Congonhas do Campo, aos 13 anos, com o coração partido. Uma mudança radical na sua vida.

Eugênio,  entre tarefa e tarefa, pensava em Margarida. Uma espécie de melancolia o acompanhava o tempo todo. Ele não conseguia concentrar- se nos estudos. Custou- se acostumar- se e assim passaram- se doze anos. O menino cresceu dentro do seminário. E Margarida continuou no seu coração.

Com dezesseis anos, começou a ter problemas, pois o padre regente descobriu alguns poemas de amor de Eugênio destinados a uma tal “Margarida”. O padre, que era também seu professor, gostou da veia poética do rapaz e levou os escritos ao diretor, que ficou indignado e assombrado. Chamou Eugênio e foi bastante duro com ele. A partir disso, toda vez que Eugênio sonhava com Margarida, sentia pânico, rezava, fazia jejum e pagava penitência, como se o amor fosse um castigo, uma doença. Doente ficou o menino, emagreceu muito, ficou com uma aparência “às bordas da sepultura”. (p.66)

Essa parte do livro é triste e forte…choca. Tudo com a instrução e aval do padre. O fanatismo religioso é um mal terrível (na realidade também!)!

Depois de quatro anos sem ver a sua família, nem Margarida, voltou para casa. Imagina o reencontro dos dois….a descrição do autor desse momento é mágico! Um turbilhão de emoções em questão de segundos. Quem já se apaixonou sabe como é difícil explicar. A literatura explicando sentimentos universais desde sempre…

Estava como que espantado, com os olhos fitos em Margarida, querendo falar, e não achando nada que dizer. As grandes emoções lançam uma nuvem no espírito e paralisam a língua. (p.82)

Como esquecer um grande amor? Já que quanto mais se tenta esquecer, mais se lembra? Não tente, porque vai perder a batalha, mantenha- se distraído, só isso…

As puras e santas afeições da alma, longe de a desviarem do caminho do céu, são asas com que mais depressa se eleva ao trono de Deus. (p.38)

Espaço e Tempo

A história começa na “província” de Minas Gerais (terra do autor). Na época em que foi escrita a novela, o Brasil ainda era uma colônia de Portugal,  um país monárquico. Veja a descrição do lugar, já no primeiro parágrafo, junto com o tempo (“há quarenta anos”).

A uma légua, pouco mais ou menos, da antiga vila de Tamanduá, na província de Minas Gerais, e a pouca distância da estrada que vai para a vizinha vila da Formiga, via- se, há de haver quarenta anos, uma pequena e pobre casa, mas alva, risonha e nova. Uma porta e duas janelinhas formavam toda a sua frente. (p.2)

A descrição da casa de Margarida e sua mãe Umbelinda é perfeita, ela parece sorrir, toda feliz e faceira! Bernardo Guimarães era um excelente narrador, mestre na descrição. A construção das paisagens e pessoas é muito visual, retratos perfeitos. É uma delícia ler e entrar nos cenários criados pelo autor,  são bem fidedignos. Esse é um dos elementos que transformam a literatura em uma grande forma de expressão artísticas, social, antropológica…

A magia das palavras. A prosa de Bernardo também é poética.

Genial essa metáfora (analogia), veja: “Eram quase ave- marias.” (p. 6). Gostei!

Personagens

Eugênio é o protagonista, personagem principal, o futuro seminarista, menino no início da história (12- 13 anos). Filho do capitão Francisco Antunes. Tem dois irmãos mais velhos que não aparecem na história, casaram e foram embora. Foi criado junto com Margarida, que é como sua irmã.

O rapaz era alvo, de cabelos castanhos, de olhar meigo e plácido e em sua fisionomia como em todo o seu ser transluziam indícios de uma índole pacata, doce e branda. (p.3)

Na página 73

Margarida, filha de Umbelina, órfã de pai, mora numa casinha emprestada nas terras do padrinho, Capitão Antunes, pai de Eugênio.

A menina era morena; de olhos grandes, negros e cheios de vivacidade; de olhos grandes, negros e cheios de vivacidade, de corpo esbelto e flexível como o pendão da imbaúba. (p.3)

Na página 73, há nova descrição de Margarida já moça.

Umbelina,  mãe de Margarida, mora nas terras do Capitão Antunes junto com a filha Margarida e uma escrava. E viúva e comadre dos donos da fazenda.

Era uma matrona gorda e corada, de rosto sempre afável e prazenteiro (…) (p.11)

Capitão Francisco Antunes, pai de Eugênio e padrinho de Margarida, fazendeiro honesto, tinha poucos escravos e muitos agregados na fazenda, dos quais não cobrava nada.

Senhora Antunes, esposa de Francisco Antunes, mãe de Eugênio e madrinha de Margarida. Não é tão legal, trata mal a escrava Josefa. É bastante supersticiosa. Apegou- se à Margarida desde bebê, ensinou-lhe a costurar.

Luciano Gaspar de Oliveira Faria e Andrade,  invejoso do tamanho do seu nome. Atrapalhou a vida dos apaixonados. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. É só a arte imitando a vida.

A linguagem

Uma coisa que achei inverossímil (longe da realidade) foram os diálogos. O povo da roça, nem mesmo os patrões, podiam falar com a correção gramatical exposta pelo autor. Havia outras línguas de contato, muitos imigrantes, indígenas, escravos, uma grande maioria de analfabetos, um português tão correto me pareceu impossível.

A obra carece de uma mais linguagem coloquial, o que concordaria mais com a história. Curioso, porque costuma- se dizer o contrário desse escritor, que o tom de suas obras é coloquial. Vai ver “O Seminarista” é a exceção.

O narrador fala como um português. Se a gente der por certo que era a forma usada em 1832, época que o autor retrata, nota- se como em 185 anos, o português do Brasil transformou- se e distanciou- se muito do idioma luso.

Curiosidades

Bernardo Guimarães cita Aleijadinho (1738- 1814), de uma forma nada agradável, uma crítica destrutiva e maldosa, na boca do seu narrador (p. 30) :

É sabido que estas estátuas são obra de um escultor maneta ou aleijado da mão direita, o qual, para trabalhar, era mister que lhe atassem ao punho os instrumentos.

Por isso sem dúvida a execução artística está muito longe da perfeição. Não é preciso ser profissional para reconhecer nelas a incorreção do desenho, a pouca harmonia e falta de proporção de certas formas. Cabeças mal contornadas, proporções mal guardadas, corpos por demais espessos e curtos e outros muitos defeitos capitais e de detalhes estão revelando que esses profetas são filhos de um cinzel tosco e ignorante…

Eugênio vai justamente para o seminário em Congonhas, no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, onde estão as obras sacras de Aleijadinho, consideradas as suas obras- primas.

Recalcado o Guimarães, não?! O escritor e o escultor nasceram na mesma cidade de Ouro Preto.

E veja também como é feio chamar alguém de “Aleijadinho”. Uma das funções da literatura é essa também, de nos trazer o passado para melhorar no futuro. Hoje em dia é inaceitável chamar alguém por um problema físico. O artista perdeu a sua identidade, quem sabe o nome de Aleijadinho? Eu sei agora, porque fui pesquisar: Antônio Francisco Lisboa (valeu Wiki!).

Um salve para o Antônio, que mesmo com sua deficiência física, provavelmente escravo ou filho de escravos (sabe- se muito pouco sobre a sua biografia e mesmo assim, ela é incerta), no interior do Brasil colonial, deixou uma obra reconhecida mundialmente. Deixo aqui o compromisso: estudar a obra de Antônio.

Depois de ler o trecho sobre o Aleijadinho (me custa escrever, já não é hora de chamá- lo pelo nome, acho um desrespeito!), já tomei uma bronca de Bernardo, que passei a caçar tudo de negativo na obra dele, sou dessas. Na adolescência minhas leituras eram mais ingênuas, eu deixava passar muitos detalhes. Mas a sorte dele, é que realmente escreve bem.

Além disso, a gente sabe que a voz da narrativa não é o autor, mas foi ele que colocou esse pensamento na boca do narrador e a gente dá aquela gongada de todas as formas. Abaixo, trecho:

20621234_840141516141410_7054393130144781398_n.jpg

O autor mostrou usos e costumes da roça, um tipo de dança chamada “quatragem”, os mutirões e as festas.

E voltando à história de amor…Eugênio foi proibido pela mãe de ir à casa de Margarida quando este lhe confessou a sua falta de vocação para o sacerdócio. Isso não impediu que os apaixonados trocassem promessas e juras, fortaleceram- se mais ainda.

A linda Margarida é muito cortejada, apareceu um terceiro para atrapalhar, Luciano, invejoso e maldoso, notou o que havia entre Eugênio e Margarida. Tratou de atrapalhar. Entre os pais de Eugênio e o tal Luciano, o desejo do casalzinho de ficar junto foi ficando cada vez mais difícil. Eugênio adoeceu. Eugênio prometeu à Margarida que jamais seria padre, jurou que voltaria.

Os pais podem destruir a vida dos filhos se não aceitarem como são . Os pais têm uma tendência a querer moldar os filhos baixo seus próprios desejos, moral, necessidades e costumes, como se fossem um ser único. Pais e filhos, muitas vezes, estão nas antípodas. Aconteceu com Eugênio e acontece na vida real. A ditadura maternal e paternal pode matar de muitas formas. Margarida e Umbelina foram expulsas da fazenda. Umbelina faleceu.

Grande é o poder do tempo. O próprio braço da dor, quando não consegue esmagar a sua vítima, por fim de contas esmorece fatigado, e o seu estilete, por mais buído que seja, acaba de embotar- se” (p.161)

Eugênio passou por um vale de sombras, de terror, para poder seguir em frente. Há várias alegorias religiosas ilustrando esse deserto que ele teve que cruzar para tentar destruir um sentimento muito forte, que não pode existir, a sua via crucis, e para piorar, chegou a notícia: Margarida casou- se. (SPOILER: mentira, nunca casou- se e também estava doente, mas eugênio nunca soube).

Anos mais tarde, Eugênio volta, já padre, para a Vila do Tamanduá. Via a casa de Umbelina e Margarida em ruínas. As suas pernas tremeram. Sentimentos como esses nunca morrem. Alguém chamou o padre para dar uma extrema- unção. Fácil adivinhar, não?

São as almas sujas da Terra, as que destruíram esse amor, por vaidade, inveja, maldade pura; são as que mentem, enganam, manipulam para possuir o que jamais terão. Assim como na vida. Nem com tanta gente contra, família e religião, nada conseguiu impedir o encontro- ainda que breve.

Gostei muito do final. Eugênio, de certa forma, conseguiu cumprir a sua promessa, além de dar, mesmo sem querer, uma boa lição nos energúmenos dos seus pais.


“O Seminarista” é uma obra muito intensa, bem escrita, emocionante, que desperta vários sentimentos: de ternura, beleza, raiva, pena, indignação. E a obra não te custará absolutamente nada. Ele está no banco de clássicos gratuitos do governo do Brasil, o Domínio Público. Não foi o deles que eu li, pois eu já tinha um no tablet, que baixei por 0,99 cêntimos (de euro), foi esse:

20604589_840148479474047_2683522123885162038_n

Guimarães, Bernardo. O seminarista. PDF (no iBook, sem editora). Páginas: 237- Preço: 0,99€

Disponível gratuitamente no site Domínio Público, do governo do Brasil.

 

 

Resenha: “Fahrenheit 451”, de Ray Bradbury


451° Fahrenheit: a temperatura que o papel dos livros se inflama e queima. (epígrafe)

 


untitled

O americano Ray Bradbury (1920- 2012) foi romancista, contista, ensaísta, dramaturgo e roteirista, publicou “Fahrenheit 451” em 1953, livro considerado a sua obra- prima. Ray casou- se em 1947 com “Maggie” (Marguerite, falecida em 2003), o casal morava em Los Angeles com muitos gatos, quatro filhos e oito netos.

“Fahrenheit 451”, junto com “1984”, de George Orwell e “Um mundo feliz”, de Aldous Huxley,  foram as obras que popularizaram o termo “distopia”, que é contrário à utopia.  Um romance “distópico” acontece em um universo, país, mundo imaginário criado de uma forma que ninguém deseja, são horrendos, infelizes, tenebrosos. A maioria da obra de Bradbury encaixa- se no gênero ficção científica.

Enredo, personagens, estrutura e impressões sobre Fahrenheit 451

Não podemos perder de vista que esse livro foi publicado em 1953. Tudo o que o autor imaginou realmente foi incrível, um visionário, tudo verossímil.

A obra é dividida em três capítulos (a edição lida foi espanhola, com minha livre tradução ao português, então, algum termo pode estar diferente das edições brasileiras ou portuguesas). São eles:  1º- A chaminé e a salamandra; 2º- A peneira e a areia e o 3º- Fogo vivo.

O personagem principal é Guy Montag. O trabalho dele lhe provoca um grande prazer: destruir a história e o pensamento de gerações, queimar livros. Ele trabalha em um corpo de bombeiros muito estranho, contrário ao que conhecemos, o dos nossos heróis que enfrentam as chamas para salvar pessoas, animais, bens e natureza, mas isso na terra de Montag é lenda urbana. O personagem usa uniforme com uma salamandra na manga, o número 451 bordado (a temperatura em fahrenheit que o papel incendeia- se) e uma fênix no peito. Ele tem trinta anos, casado com Mildred e trabalha há dez no quartel. Os bombeiros são temidos pela população.

Logo na primeira página, o autor revela a função do personagem provocando nessa leitora a intriga, os questionamentos: “Por que ele queima livros, qual o objetivo?”, “Que lugar é esse?”, “Como seria um mundo sem livros? “Como se armazena, então, o conhecimento humano?”.

A estrutura social no mundo de Montag é parecida com a nossa, só que no futuro. Não há seres estranhos, exceto robôs (agora também já existe, mas na época que foi escrito há 64 anos, imaginar o futuro era pura especulação, nem internet tinha), nem um mundo fantástico, é como se fosse a Terra, só que com tecnologias mais avançadas. No país dele tem metrô propulsado por ar, que o deixa em uma plataforma depois de uma rajada de vento e os carros são “retro propulsados”. A jornada de trabalho é tal como conhecemos. Cada dia um autor (livros) está destinado à fogueira.

A vizinha de Montag é Clarisse McClellan, vai completar dezessete anos e pergunta a Montag (p.20):

" - Você lê alguma vez os livros que queima? Ele começou a rir:
- Está proibido por lei!"

Clarisse é o contra- ponto, a sensatez, a alegria e a sensibilidade. Não se deixou contaminar pelo mundo triste que essa sociedade do futuro criou (muito parecida com a nossa, infelizmente). Ela observa que as pessoas voam nos seus carros e nunca reparam nas flores, na grama abaixo, na lua, no sereno. A adolescente pensa e isso incomoda o bombeiro, que começa a pensar também sobre a sua existência.

A narrativa é poética na descrição das paisagens, pessoas e silêncios da cidade, gosto muito da atmosfera de mistério, contada com cuidado, esmero, as palavras pensadas e justas. É um excelente livro. Confesso que eu tinha um certo preconceito em relação a esse gênero literário, mas a história convence. Caí completamente na história de Ray Bradbury.

No país de Montag, as crianças se matam entre si. Há professores virtuais nas escolas, são quatro horas assistindo um aparelho eletrônico. Falta calor humano, debates, não se pode perguntar nada, questionar, tudo já está pronto e imposto. As crianças, pelo menos os filhos da dona Bowles, ficam vinte e sete dias na escola, só os vê três dias ao mês, para ela “suportável”. Nasceram de cesárea, os partos normais praticamente não existem e a natalidade é baixa.

As pessoas que escondem bibliotecas em casa são levadas para um manicômio e suas casas são queimadas. Montag, por influencia de Clarisse, desperta a vontade de ler um livro. Ele nunca leu nenhum, só uma linha de um conto de fadas. Beatty é o capitão do quartel e está totalmente doutrinado, não questiona nada.

A lei é incendiar os livros com querosene e dizer que tudo  neles é mentira, inclusive os autores, que nunca existiram. Normalmente, a polícia evacua os donos das casas e os bombeiros queimam tudo quando estão vazias. Mas nem sempre é assim. Encontraram uma mulher. Ela recusou- se a sair da casa, e por dignidade, ela mesmo acendeu o fósforo que incendiaria tudo, inclusive a si mesma. O índice de suicídios nesse lugar é altíssimo. Muita gente prefere morrer que viver numa ditadura sem esperança. Nesse incêndio, Montag levou um livro consigo, o primeiro da sua vida. O olhar dessa mulher e esse livro mudam a história toda do bombeiro.

Montag quer saber como, quando e porquê começou a sua profissão. A partir daí (p. 66) nós vamos descobrindo com ele as razões de tudo. Em alguns momento a narrativa é vertiginosa, confusa, intensa, labiríntica, viajamos com Montag na busca de respostas.

Em 1953, Ray Bradbury descreveu o que está acontecendo atualmente conosco. Há um excesso de distração inútil, há coisas idiotizantes demais e os livros estão ficando cada vez mais curtos, com muitas imagens (lembra do estouro dos “livros” para colorir?) e esquecidos. As escolas adotam livros clássicos “adaptados” por serem mais “fáceis” de ler. Uma ministra do governo Dilma quis proibir Monteiro Lobato nas escolas. Resistiremos?

Na obra, (pequeno SPOILER!), a desaparição dos livros não foi culpa do governo, como muitos podem pensar. A última escola de Artes no país fechou há quarenta anos por falta de alunos. O professor Faber, que aparece no segundo capítulo, ensinou nessa escola.

A culpa dessa sociedade triste e absurda, foi da população, que preferiu ler títulos, resumos, frases feitas e deixou de pensar e criar, além de comportamentos inaceitáveis de intolerância ao outro. O homem foi ficando vazio, vazio, vazio…esvaziou- se tanto de tudo, que ficou isolado, só. E há outros motivos, a universidade é apontada como uma das grandes culpadas (p.71). Bradbury disse em uma de suas entrevistas, “que acredita nos livros, não nas universidades”.

A universidade destrói a criatividade e padroniza os alunos? Minha experiência pessoal: eu era muito mais criativa, escrevia muito mais, poemas, contos, crônicas, antes de entrar na universidade, tive até um livrinho de poesias. Depois dela…temo escrever, uma espécie de respeito exacerbado pela literatura. Acabou- se. É um fato, virei uma Bartleby (escritora que não escreve). Se aconteceu algo parecido contigo, deixa aí nos comentário.

Fragmento do trecho onde Beatty explica a sociedade deles, creio que é uma crítica extrema esquerda (p.71) e logo depois vem uma crítica à extrema direita:

(…) Não nascemos livres e iguais, como afirma a Constituição, senão que nos transformamos em iguais. Todo homem deve ser a imagem do outro. Então todos são felizes, porque não podem estabelecer diferenças nem comparações desfavoráveis. Um livro é uma arma carregada na casa ao lado. Queimá- lo. Tira o projétil da arma. Domina a mente do homem. Quem sabe qual poderia ser o objetivo de um homem culto?

Quando a população cresce, há muitas minorias, e nesse trecho, creio que é uma crítica aos extremistas. No final, os extremos, direita ou esquerda, não são a mesma coisa? A mesma crueldade imposta, violenta e excludente?

 – Deves aprender que nossa civilização é tão vasta que não podemos impedir que nossas minorias se alterem e rebelem (…)

– O povo de cor não  gosta de ‘O negrinho Sambo’. Queimemo- los. O povo branco sente- se incômodo com ‘A cabana do tio Tom’. Queimemo- los. (p. 72)

Na civilização de Montag tudo foi destruído para não ter divergências, já que essas ficaram incontroláveis. Ou seja, todos os extremistas são verdadeiros descerebrados intolerantes, tanto no passado, quanto no presente, no futuro, na ficção como na vida, porque cega e imbeciliza. São esses que impulsionam as guerras e conflitos, e conseguem conduzir bandos de cordeirinhos. Nada na vida pode ser preto ou branco. Há mil tons de cinza (e não falo daquele livro ruim). O mundo deveria ter espaço para todos, independente do que pensem, amem, pratiquem, acreditem ou desacreditem.  Isso não seria… a democracia?!

A intolerância, o pensamento totalitário, estão levando muita gente para a tumba de várias maneiras. Venezuela que o diga. E a Síria?! E o nosso Brasil dividido, uma gincana torpe, cada um puxando a corda do seu lado, e dessa forma, nunca haverá vencedores. O máximo que pode acontecer é que todos caiam. É necessário aparecer alguém que estabeleça a ordem e o consenso.

Na civilização de Montag, a vida humana também vale muito pouco, ninguém se comove mais. Morrer é banal. Nesse país, os carros esmagam coelhos e cachorros, isso também já não importa. E no nosso mundo, as pessoas param para socorrer animais que atropelam ou que foram atropelados?

Lembra que Montag escondeu um livro e o levou consigo para não ser queimado? A curiosidade é inerente ao humano; infringir as regras também (que não tem porquê ser negativo, quando essas são injustas). Ele e a esposa começaram a ler (segundo capítulo).

Ouve- se explosões de bombas constantemente. Essa civilização vive em guerra há muitos anos. Não há comoção com as mortes que acontecem nas guerras.

Estudar, investigar, criar é coisa clandestina, faz- se na escuridão dos porões.

(…) Quem sabe os livros possam nos tirar da nossa ignorância. Talvez pudéssemos impedir que cometêssemos os mesmos funestos erros (…) p.87

Um dos problemas da falta de prática leitora é que a interpretação de texto fica deficiente; portanto, quanto mais leitura, mais entendimento. Montag teve dificuldade para entender o  livro que salvou, teve que pedir ajuda ao professor Faber.

Na obra há bastante diálogos. Outros personagens: as senhoras Phelps e Bowles, amigas de Mildred (apelido Millie).

Montag e sua redenção, de carrasco a messias. “há tempo para tudo…uma época para destruir e outra para construir”.

Ray Bradbury é atualíssimo! E triste, porque há muita semelhança com a nossa realidade. Já não estamos vivendo em um mundo distópico?

Esse foi para a lista de favoritos. Já contei demais, agora é com você, LEIA!

20246471_1053699904732366_7172077118736702166_n

Bradbury, Ray. Fahrenheit 451. Debolsillo,  Penguin Randon House, Barcelona, 1993. Páginas: 185- Preço: 9,95€ na La Central (Callao, Madri).

Quer saber mais sobre Ray Bradbury? Baixe aqui gratuitamente o livro “O zen e a arte da escrita” e leia Os onze conselhos de Ray Bradbury para escritores novatos.

 

 

 

 

 

 

 

Como ler mais rápido?


O que te impede de ler? O que te impede de ler livros extensos? Se você é do tipo que pega o livro mais fininho da biblioteca ou livraria, e ainda assim, demora semanas ou até meses para terminar o livro…não sinta- se mal,  nem culpado! Você não está só, acontece com muita gente.

Pior é desistir antes de começar: “Ai, que preguiça”, “Que chato!”, “Netflix olhando ali pra mim, ó!”, “Desperdiçar meu tempo livre com livro, nem pensar!”. A cultura do livro no nosso país, falo do Brasil, não é a prioridade e está longe de ser.

Hoje eu vou falar com você, que gostaria de começar ou que já é leitor, mas que gostaria de ler mais rápido e com eficácia. Porque ler rápido sem entender e/ou ir pulando tudo, não vale, isso é fingir que leu.

 A leitura exige tempo e dedicação; também é uma ação solitária, pede concentração e desconexão total. Desconexão de tudo, de todos e da Internet- esta última, o maior desafio.  E não falo só dos jovens, nessa rede caiu gente de todas as idades.

Mas, há quem tenha que ler por obrigação no trabalho, estudantes universitários, mestrandos, doutorandos, esses não têm escapatória. A demora com as leituras pode ser bastante prejudicial. Muitos podem até ficar pelo caminho. Portanto, aprender a ler com velocidade pode salvar o seu trabalho ou curso.

Não existe mistério: elimine o que trava o seu crescimento, as suas leituras. Se são as redes sociais, desconecte; se é o barulho na sua casa,  procure um lugar tranquilo fora de casa e desligue o telefone. O mundo vai continuar circulando e as pessoas continuarão vivendo se você fizer isso. Tire a urgência da sua vida, os whatsapps e e-mails podem esperar um pouco. Tire uma hora do dia só pra você.

Leve aquele livro maravilhoso que há muito está estacionado na prateleira e estipule uma meta: “20 páginas por dia” ou quantas você achar conveniente. Não deixe escapar um dia sequer.

hat-2140283_1920.jpg

Concentre- se, entre na história. Viaje com o livro, assim a história vai deslizar, e obviamente, a leitura vai deslanchar. A leitura diária vicia. Esse é um dos poucos vícios que são beneficiosos.

Viu? Não é tão difícil. Comece agora!

O poder da alegria, do filósofo Frédéric Lenoir


A natureza nos avisa mediante um signo preciso de que alcançamos nosso destino. Esse signo é a alegria. (Bergson)

Esse livro não se vende como auto- ajuda, embora possa ajudar muita gente. O autor nos convida a conhecer a alegria verdadeira e profunda, a forma mais desejável de felicidade, baixo uma visão filosófica. E sim, há formas de provocá- la e cultivá- la nesses tempos de felicidade artificial da cultura narcisista e consumista. O que o autor propõe também não é a ataraxia (ausência de sofrimento e perturbações) proposta por Epicuro, pelos estóicos e os céticos/niilistas. Lenoir encontra alegria mesmo com as dificuldades da vida. A eliminação de problemas e tristezas não garante a felicidade nem a alegria.

Sou consciente de haver recebido muito da vida. Tive a oportunidade de ter pais cultos com os que aprendi muito. Quando era menino, meu pai passava generosamente uma boa parte do seu tempo livre nos lendo livros. Quando cheguei à adolescência, me fez conhecer a filosofia. Foi uma revelação. (F.L.)

O que é a alegria?

A alegria é uma força que nos empurra, é a manifestação do nosso poder vital, é um meio para alcançar esta força de existir. “O apaixonado na presença do ser amado, o jogador no momento da vitória, o pesquisador no momento da descoberta”, essa emoção, o prazer desses momentos, talvez sejam bons exemplos da forma mais concreta da felicidade.

O autor mostra três vias possíveis, concretas, para poder chegar à alegria. Parece que a alegria só pode acontecer se for espontânea, mas não é bem assim, temos que provocá- la:

A alegria é um poder, cultiva- la. (Dalai Lama)

Como disse o escritor Mathieu Terence:

A alegria não é voluntária. Nem se decide, nem se decreta tampouco. Há que se fugir como da peste daqueles que querem vender sua receita. Ao contrário, a alegria exige um clima favorável: um estado mental similar ao estado de graça.”

Lenoir propõe vários tópicos como a gratidão, a renúncia, a perseverança, etc, ilustrando com suas próprias experiências. Nesse momento, retiro o que disse a princípio…o livro é sim auto- ajuda mascarada de filosofia.

O mais ignorante dos homens é o que renuncia ao que sabe de si mesmo para adotar a opinião dos demais.” (Ahmad Ibn Ata Allah)

Bem, depois ele volta pra filosofia de novo. Cita Spinoza e sua visão sobre a alegria. Cita Jung e até Jesus, que foi dos poucos que colocou em prática o amor que pregou. A conclusão não é muito diferente do senso comum, o que Gandhi falou: ” a verdadeira revolução é interior”.

Ser capaz de encontrar sua alegria na alegria dos outros: esse é o segredo da felicidade. (Bernanos)

“Aceitar o mundo” é uma das formas de encontrar a paz e felicidade. Desligar- se do que acontece no mundo e “religar- se” é o termo utilizado para o caminho ao qual tentamos criar relacionamentos justos, verdadeiros, relações que nos fazem acreditar e nos fazem sentir alegres. Devemos manter longe quem nos asfixia. É questão de sobrevivência.

O autor considera a alegria completamente viável, mesmo para pessoas que passaram situações extremas, como as que viveram em campos de concentração. Nós consentimos a tristeza ou a alegria. O poder do consentimento é enorme. A gente permite, mesmo sem notar que a alegria ou tristeza se instale. Complicado, não? Então, cultivemos a alegria mesmo quando ela parece estar muito distante.

Bem, um livro água com açúcar, que fala de coisas triviais, leitura fácil pra passar o tempo esperando o avião, a consulta do dentista ou afins, nada profundo, muitos tópicos mastigados, só recomendo para leitores iniciantes.

Eu achei o autor bem charmoso, Frédéric Lenoir (Madagascar, 03/06/1962) é antropólogo e filósofo:

frederic-lenoir.png

9788416820269

Lenoir, Frédéric; El poder de la alegría. Plataforma, Barcelona, 2016. Páginas: 186