Dez incríveis primeiros parágrafos


Um livro te pega pela capa, pelo título, sinopse, autor ou primeiro parágrafo? Eu escolho pelo autor e primeiro parágrafo.

Selecionei dez primeiros parágrafos de livros que podem agarrar o leitor pela curiosidade que despertam, veja:

1.”Intimidade”, de Hanif Kureish

Essa é a noite mais triste, porque vou embora e não voltarei. Amanhã de manhã, quando a mulher com que vivi durante seis anos tenha ido trabalhar na sua bicicleta e nossos filhos estejam no parque brincando de bola, colocarei umas coisas em uma mala, sairei discretamente de casa, esperando que ninguém me veja, e tomarei o metrô para ir ao apartamento de Victor: ali, durante um período indeterminado, dormirei no chão do pequeno quarto junto à cozinha que amavelmente me ofereceu. Cada manhã arrastarei o fino e estreito colchão até o quarto de despejo.

  • Por que será que ele fugiu?

2. “As intermitências da morte”, José Saramago

No dia seguinte ninguém morreu. O fato, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenômeno semelhante, passar- se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e noturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. (…)

  • A morte que deixa de matar. Por que será que aconteceu isso?!

3. “A confissão”, de Flávio Carneiro

A senhora ouça- me, por favor. Em primeiro lugar, peço desculpas pelo mau jeito. Sei que não foi nada gentil da minha parte interceptar o seu carro àquela hora da madrugada e apontar uma arma à sua cabeça, ordenando, ou pedindo, depende do modo como se vejam as coisas, creio ter- lhe pedido para descer do carro, embora o gesto de lhe apontar a arma possa indicar que era uma ordem, não um pedido, pode ser, não vamos discutir por ninharias, de qualquer maneira reconheço que não fui gentil.

  • Bandido ou polícia?

4. “O jogo do anjo”, de Carlos Ruiz Zafón

Um escritor nunca esquece a primeira vez que aceita umas moedas ou um elogio em troca de uma história. Nunca esquece a primeira vez que sente o doce veneno da vaidade no sangue e acredita que, se consegue que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de colocar um teto sobre a sua cabeça, um prato quente ao final do dia e o que mais deseja: seu nome impresso em um miserável pedaço de papel que seguramente viverá mais que ele. Um escritor está condenado a recordar esse momento, porque então já está perdido e sua alma tem um preço.

  • Genial, não?! Esse livro é a segunda parte da saga de “A sombra do vento”. No mês de novembro vai sair na Espanha a quarta parte, “O labirinto dos espíritos”.

5. “Numa e ninfa”, de Lima Barreto (conto)

Na rua não havia quem não apontasse a união daquele casal. Ela não era muito alta, mas tinha uma fronte reta e dominadora, uns olhos de visada segura, rasgando a cabeça, o busto erguido, de forma a possuir não sei que ar de força, de domínio, de orgulho; ele era pequenino, sumido, tinha a barba rala, mas todos lhe conheciam o talento e a ilustração. Deputado há bem duas legislaturas, não fizera em começo grande figura; entretanto, surpreendendo todos, um belo dia fez um ‘brilharete’, um lindo discurso tão bom e sólido que toda a gente ficou admirada de sair dos lábios que até então ali estiveram hermeticamente fechados.

  • Esse primeiro parágrafo eu escolhi, porque Lima contou toda uma história, genialmente descrita, em poucas palavras.

6. “Banguê”, José Lins do Rêgo

Afastara- me uns dez anos de Santa- Rosa. O engenho vinha sendo para mim um campo de recreio nas férias do colégio e da universidade. Fizera- me um homem entre gente estranha, nos exames, nos estudos, em casas de pensão. O Mundo cresceu tanto para mim que Santa- Rosa se reduzira a um grande nada. Vinte e quatro anos, homem, senhor do meu destino, formado em Direito, sem saber fazer nada. Nada de grande tinha aprendido, nenhum entusiasmo trazia dos meus anos de aprendizagem. Agora tudo estava terminado. Um simples ato de fim de ano, e a vida devia tomar outro rumo.

  • É um dos meus livros preferidos da literatura brasileira. O ar melancólico, o romantismo, o amor impossível são os seus principais ingredientes. O primeiro parágrafo dá o tom que acompanha todo o livro. Leia a resenha aqui.

7. “Saber perder”, de David Trueba

O desejo trabalha como o vento. Sem esforço aparente. Se encontra as velas estendidas nos arrastará à velocidade de vertigem. Se as portas e  janelas estiverem fechadas, golpeará durante um tempo em busca das gretas ou fissuras que lhe permitirão filtrarem- se. O desejo associado a um objeto de desejo nos condena a ele. Mas há outra forma de desejo, abstrata, desconcertante, que nos envolve como um estado de ânimo. Anuncia que estamos prontos para o desejo e só nos falta esperar, soltar as velas, que sopre o vento. É o desejo de desejar.

  • Acho genial a analogia que o autor fez sobre o desejo de uma forma poética e certeira. A tradução ao espanhol é minha, se você pegar alguma edição em português, pode ser que esteja diferente.

 8. “O Grande Gatsby”, Francis Scott Fitzgerald

Na minha primeira infância meu pai me deu um conselho que, desde então, não cessou de dar- me voltar pela cabeça.
‘Cada vez que te sintas inclinado a criticar alguém- me disse- tenha presente que nem todo mundo teve as suas vantagens…’

  • Na verdade, são os dois primeiros parágrafos, precisei do segundo para completar o primeiro. Adoro o conselho do pai do personagem, acho que serve pra todo mundo.

9. “O professor”, de Frank McCourt

Já estão chegando.
E eu não estou preparado.
Como iria estar?
Sou um professor novo, e estou aprendendo com a prática.

Os quatro primeiros parágrafos carregados de significados. A falta de preparação e prática nas universidades (do mundo!) fazem com que os recém- formados utilizem, sem querer, os alunos como cobaias, na base do erro e acerto, como se fossem seu laboratório, experimentos científicos. Esse livro (vai ter resenha!) é autobiográfico, o professor americano Frank McCourt conta as suas experiências em mais de 30 anos de profissão.

10. Anna Karenina, Liev Tolstói

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Todas as famílias felizes são semelhantes; cada família infeliz é infeliz a seu modo.

Um dos melhores livros de um dos maiores escritores da literatura mundial, “Anna karenina”, começa assim, com essa oração curtinha e uma sentença pra pensar.


Você leria algum desses livros por causa do seu primeiro parágrafo?

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Está chegando: 75ª Feira do Livro de Madrid (com uma “pitada” de desânimo)


Feiras de livros são oportunidades fantásticas para conhecer todos os tipos de autores, de todos os gêneros e lugares. A Feira do Livro de Madri, cidade onde moro, dura 22 dias e, normalmente, traz um país convidado. Esse ano: a França. Isso implica que teremos a oportunidade de conhecer autores franceses contemporâneos. Já contei que tenho uma quedinha pelos franceses? Leia aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

A lista de escritores que estarão presentes já começou a ser atualizada, até o dia da feira irão entrando mais nomes. Por exemplo:

No dia 5 de junho, você poderá conhecer em pessoa o dono do melhor restaurante do mundo, Ferrán Adrià e seus livros com receitas maravilhosas.

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Julia Navarro, escritora espanhola, essa vale a pena conhecer. Eu li o “Dime quien soy” e gostei bastante. Ela vai estar em vários dias, melhor consultar a lista.julia

Ainda não divulgaram os escritores franceses que estarão presentes.

A lista, por enquanto, deixou- me muito desanimada. Viram a minha animação do início? Pois é, c’est fini. A literatura de não- ficção deve entrar, pois há coisas muito úteis que precisamos. Eu mesma citei o Ferràn Adrià. Há ensaios, divulgação científica, dicionários, fotografia, gastronomia, muita coisa bacana, mas não vale tudo.

Nos últimos três anos, principalmente, a onda de youtubers e “gente nada a ver com literatura” invadiram a feira e o nosso mundo literário. A literatura vai minguando. Qualquer um acha que pode escrever um livro. Poder até pode, mas não é literatura. Há livros muito respeitáveis de não- ficção, que são úteis e necessários, mas não é o caso da lista que acabei de ver. Desânimo.

Isso pode ter consequências muito negativas: a juventude só vai ler porcaria; os escritores decentes não vão querer participar da palhaçada; os consumidores de literatura (ficção, artística, principalmente) deixarão de ir e a feira acabará se transformando numa festa de babacas, adolescentes alucinados e curiosos querendo tirar fotos com artistas e youtubers.

Eu mesma, na feira de 2014, fui cedinho para “ficar na fila”, pois adoraria conhecer Luis Goytisolo (1935) pessoalmente. Um escritor de primeira linha, membro da Real Academia Española (irmão do também escritor, o célebre Juan Goytisolo), escreveu livros incríveis como “Antagonía”, uma obra- prima. Esse autor espanhol é comparado com Proust. Cheguei esbaforida, “Ué, cadê a fila?!”. Não havia ninguém. A minha surpresa foi tanta que o autor percebeu. “Não sou um autor popular”. A vantagem é que pude conversar bastante com ele e tenho o privilégio de ter quase toda a sua obra (carinhosamente) autografada. Mas, não consegui evitar a sensação de tristeza e desencanto: “se ninguém lê um autor desses…que fazemos?!”

Caramba, nosso espaço já é muito restrito, será mesmo que eles têm que invadir a nossa praia?! Claro que sim, as editoras e “escritores” (que normalmente nem escrevem, alguém faz isso por eles) querem é ganhar dinheiro, não importa com quê. Oportunistas.

Cartel FLM16O cartaz desse ano é de Emilio Gil, um artista gráfico.

Vou aguardar para ver se melhora. Será que virá pelo menos algum desses escritores franceses: Patrick Modiano, Pierre Lemaitre, Fred Vargas, Laurent Mauvignier, J. M. G. Le Clézio, Frédéric Beigbeder? Senão, fico aqui com a minha maravilhosa biblioteca.

O Ministério da Educação quer retirar a Literatura Portuguesa do currículo, por quê?


Falando em Literatura…a “boa nova” do momento, espero que essa sandice não seja levada adiante.

Gostaria que o governo brasileiro nos explicasse e justificasse a “brilhante” ideia de retirar a Literatura Portuguesa do currículo escolar. Gostaria de saber como essa cúpula “genial” de pensadores e especialistas em Educação chegou à conclusão que seria um benefício para a Educação nacional excluir a literatura que influenciou e precedeu a nossa, e que continua sendo importante.

Deixar de ler na escola Eça de Queirós, Fernando Pessoa, José Saramago, Camões e Alexandre Herculano, vai melhorar a qualidade da Educação brasileira?

Talvez a ideia seja optar pelo “nacionalismo” no pior sentido da palavra. Ler só a literatura brasileira e “ensinar” só a riqueza cultural do Brasil, “mais próxima à realidade do aluno”. Essa é a bandeira dos “educadores”, que nunca conseguiram ler uma obra inteira na vida e agarram- se a essa teoria fuleira para acomodar- se. O sócio- interacionismo, tal como a linguística mal interpretada, entendida superficialmente por gente despreparada para exercer funções docentes, trouxe um verdadeiro caos à Educação do Brasil.

O Brasil não produziu literatura brasileira, propriamente dita, até chegar no Romantismo. Que vão fazer, apagar a história literária do Brasil? Quando político se mete aonde não deve, só sai coisa ruim. Por que não vão cuidar do mosquito, da violência, da corrupção que ASSOLAM o Brasil e são mais urgentes?!

Aguardo explicações do Ministério da Educação para justificar mais essa tentativa de aculturação massiva que estão pensando em implantar. Aguardemos…

O que é importa é a ARTE e ela está acima de ideologias políticas. Ah, sem esquecer do mestiço mais ilustre, o brasileiro Machado, que amante da boa literatura, deve estar bem “feliz” aonde estiver.

Enquanto isso, professores de literatura portuguesa e universidades de Letras de todo o país, aprendam tupi- guarani ou irão ficar desempregados!

Perdoa, Fernando Pessoa, eles não sabem o que fazem!

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Sorteio 10 mil fãs! Dez livros pra vocês!


Lá no nosso Facebook, passamos dos 6700 fãs. Ahhhhh…que pouquinho! Queremos atingir os 10.000, demorou! E quando atingirmos essa meta, vai ter sorteio de 10 super títulos, literatura brasileira, portuguesa, francesa e mais, veja:

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Desculpem a letra desgraçada, deu pra entender? 😀

Xícaras literárias da Vista Alegre, porcelana portuguesa


A fábrica portuguesa de porcelanas Vista Alegre é uma das mais famosas e prestigiosas do mundo. A fábrica (1920) fica na cidade de Ílhavo (Aveiro) e suas peças estão espalhadas pelo mundo todo, expostas em museus e usadas pela realeza. No entanto, essa plebeia, não resistiu e trouxe de Lisboa para o Falando em Literatura esse conjunto de “chávenas” para café com caricaturas de escritores consagrados. As peças sempre levam a assinatura de algum artista. A fábrica tem um museu, mas agora está em reformas, fechado para visitas.

As xícaras fazem parte de uma coleção chamada “A viagem”, do artista António Antunes (Vila Franca de Xira, 1953). Ele é diretor do Salão de Humor Gráfico World Press Cartoon. António fez uma série de desenhos que podem ser vistos na estação Aeroporto do Metrô de Lisboa. São 50 figuras em 49 painéis espalhados pela estação e estão divididas em músicos, escritores, atores e pintores, que também foram parar nas porcelanas da tradicional Vista Alegre.

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Os escritores são:

Natália Correia (Fajã de Baixo, São Miguel, 13/09/1923 — Lisboa, 16/03/1993), consagrada escritora portuguesa de prosa e verso, deixou uma rica e vasta obra. Foi política, presa, teve sua obra censurada. Casou quatro vezes, trabalhou na tv, foi jornalista. Com um pé no surrealismo, era amiga de Mário Cesariny, outro escritor que também faz parte dessa séria de “xícaras literárias”. Uma vida muito intensa, refletida nas suas escrituras, e arrebatada, repentinamente, por um ataque ao coração. Conheça mais sobre essa grande escritora portuguesa aqui.

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De amor nada mais me resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto;
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

(in, «Poesia Completa», D. Quixote, Lisboa, 1999)


José Saramago (Azinhaga, Portugal, 16/11/1922 – Lanzarote, Espanha, 18/06/2010), esse dispensa apresentações, não é? Creio que é o mais conhecido escritor português, junto a Fernando Pessoa. O único escritor em língua portuguesa que ganhou um Nobel de Literatura. Sua escritura é caracterizada pela falta de pontuação e sua crítica ácida à sociedade portuguesa, que considerava passiva, parece que mantinha uma relação amor- ódio com o seu país. Eu sou absolutamente apaixonada pela obra de Saramago. “Claraboia” (primeira foto) foi seu publicado postumamente. Foi o seu segundo livro, mas parece que o autor não gostava muito e o deixou engavetado. O viúva tratou de publicá- lo depois de sua morte. Leia mais sobre ele aqui.  Veja a resenha do último livro de Saramago, “Alabardas”, romance que, infelizmente, ficou inacabado. Saramago sai com a cara meio enfezada na caricatura, mas era bem o contrário, era uma pessoa doce, bem humorada e simpática:

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E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar? (in, “A maior flor do mundo”, José Saramago)


Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 6/11/1919 – Lisboa, 02/06/2004) foi uma escritora de prosa e verso, dessas imperdíveis, seus versos são cânticos às memórias da sua infância e da sua terra. O mar é um tema constante na sua escritura. Foi a primeira portuguesa a ganhar o Prêmio Camões. Professora universitária, formada em Letras e mãe de cinco filhos.

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Iremos juntos sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia.

As palavras que disseres e que eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento.

O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento.

(in No Tempo Dividido, 1954, Sophia de Mello)


Mário Cesariny (Lisboa, 09/08/1923 – Lisboa, 26 de Novembro de 2006) poeta e pintor, principal representante do surrealismo português.  Anarquista, revolucionário e questionador, de humor ácido. Fascinante! Coloca na sua lista.

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Eu, Sempre…
Eu sempre a Platão assisto.
Pessoalmente, porém, e creia que não
Tenho qualquer insuficiência nisto,
Sou um romano da decadência total,
Aquela do século IV depois de Cristo,
Com os bárbaros à porta e Júpiter no quintal.
( in “O Virgem Negra”, Mário Cesariny)


O Facebook de António Antunes, clique aqui.

A web da Vista Alegre, clique aqui.


Estás convidada e convidado para um café literário aqui no Falando em Literatura. Vem!

“A metade indivisível”, crônica do escritor português António Vilhena


Falar de amor parece fácil, mas é bem o contrário. Existe muita literatura a respeito, tanto em prosa quanto em verso, e às vezes, parece que pouco mais há para ser dito. Engano. O amor (ou o desamor) sempre será fonte de inspiração na literatura.

Essa crônica do português António Manuel Vilhena (Beja, 14 de outubro de 1960), psicólogo e escritor de verso e prosa para adultos e crianças, nos apresenta a sua visão sobre o assunto. Seu último livro “Cartas a um amor ausente” (ouça na voz do autor) foi para os palcos, virou peça de teatro.

Você acredita que é possível amar alguém por toda a vida?

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António Vilhena mora em Coimbra e é o novo curador da Casa da Escrita (ainda vai tomar posse). (foto: Facebook do autor)

Conheça a Casa da Escrita em Coimbra inaugurada em 2010, antes residência do escritor João José Cochofel (falecido em 1982):

Leia o texto de António Vilhena:

A metade indivisível

Há amores que existem para eternizarem a esperança, são uma espécie de lua branca aureolada no imaginário dos poetas. Mas que seria do amor se não fossem os exemplos raros que atravessam as vidas para viverem na literatura ou no cinema? Todos conhecemos grandes histórias de amor que se fixaram à galeria dos mitos, mas que tiveram vida própria e corações inquietos, “gente com lágrimas” e medos, viagens adiadas e promessas de encontros, vestidos de noiva e flores, zangas e reencontros. Há no amor e na guerra irracionalidades que escapam aos que não escutam o silêncio do beijo e das armas. Há um rio íntimo onde os peixes desejam ser outra coisa quando a força das marés os impede da orla da praia. Quem não “odiou” o seu amor? Quem não puxou os cabelos, mordeu os lábios, vociferou palavrões ou outras pragas? Há um mundo próprio de quem ama, invisível a quem vai comprar coentros, mas que ilumina a vida e as utopias como sangue nas veias. Ter um amor é viver na paciência do outro, na tolerância, no jeito ridículo que transforma cada coisa num tesouro de encantamentos. Mas são as zangas, as provas mais difíceis, que colocam o amor nos leitos mais profundos da sobrevivência. É nesses momentos que o pior e o melhor parecem vizinhos, que tudo parece perder sentido, que a luz dá lugar à treva, que o mundo dos sonhos parece ceder à guerra dos ratos. Quando isso acontece, há um tempo para as águas lavarem as pedras e devolverem o fundo transparente do rio aos olhos dos amantes. As zangas tiram a respiração e no calor das conversas soltam-se palavras como flechas. Depois vem o arrependimento. Mas as palavras já estão coladas à pele do outro. Cada silêncio é um misto de esperança e de reencontro, de borboletas na barriga e de sede. A fonte das incertezas é o medo da decisão errada. A escritora de “O Amante”, Marguerite Duras e Yann Andréa conheceram melhor do que ninguém o fogo do amor num copo de água. A força do seu amor nunca sucumbiu às zangas. Yann regressava sempre roçando as mãos pelas paredes até encontrar o grande silêncio nos olhos de Duras. Tal como Yann Andréa reconheceu em DURAS, o nome de cinco letras, que amava absolutamente, Gabriel reencontrou-se, também, com o nome da sua amada, de cinco letras e a mesma verdade: amava-a absolutamente. “Aquilo que sabemos, você e eu, é isto: gostamos um do outro. Que acontecimento. Que história. Que amor”- escreveu Yann. Gabriel, também, sabia da zanga da sua paixão, quase a roçar o ódio, quase a encomendar-lhe o funeral antes de o lançar aos leões. Ao lado dessa zanga, quase ódio, moram, também, outros sentimentos paradoxais. É na antítese dos sentimentos que o amor assume as suas vicissitudes. Porém, há um tempo para escalar a raiva e outro para acolher, estender a mão, tocar, abraçar e recuperar a paz. “Há amores que resistem às pedras do caminho”. As rugas representam o tempo, a cristalização de muitos passos, talvez, de angústias, de medos e de sacrifícios. O que pensará alguém que chega à idade das rugas, templo escavado de memórias? Duras deixou-nos um rosto velho, mas sábio de emoções. O que atravessa o amor é a soberania da metade indivisível, o sentimento de que na tristeza há sempre uma flor que resiste à zanga. Duras empresta-me as palavras finais de “O Amante” para terminar esta crónica: Dissera-lhe que era como dantes, que ainda a amava, que nunca poderia deixar de a amar, qua a amaria até à morte.

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Bibliografia (fornecida pelo autor):

Data 1987

Publica o livro Do Ventre da Terra, poesia, dedicado ao amigo de sempre, o escritor Manuel da Fonseca, apresentado em Coimbra pelo Prof. Doutor José Carlos Seabra Pereira.

Data 1989

Publica o livro Trança D`Água, poesia, com prefácio do Prof. Doutor José Carlos Seabra Pereira.

Data 1991

Publica o livro A Eterna Paixão de Nunca Estar Contente, prosa poética, com prefácio de Natália Correia.

Data 1993

É convidado a escrever um texto para a apresentação dos catálogos das exposições, em Coimbra, dos cartoonistas António e Carlos Laranjeira.

Data 1995

Coordena a antologia de jovens poetas de Coimbra, Memória da Palavra, editada pela Delegação regional da Cultura do Centro, com prefácio do Doutor José Carlos Seabra Pereira.

Data 1996

Publica o livro Mais Felizes que o Sonho, poesia, com prefácio do escritor Fernando Dacosta.

Data 2004

Edita o livro de crónica, Diálogos de Rosa e Espada, com prefácio da Prof. Doutora Maria Teresa Roberto.

Data 2006

O Piano Adormecido (infantil)

Data 2012

Canto Imperecível das Aves (poesia).

A Formiga Barriguda (infantil).

Data 2013

Templo do Fogo Insaciável (poesia).

As Férias da Formiga Barriguda (infantil).

Data 2014

Cartas a Um Amor Ausente (poesia).

A Orquestra da Formiga Barriguda (infantil)

A livraria Lello no Porto, a do “Harry Potter”


Voltando das férias com novidades! Visita a uma das livrarias mais lindas do mundo e outra visita a uma das cafeterias mais lindas do mundo, que têm algo em comum, além da beleza, leia:

A livraria Lello e Irmão (1919), na cidade do Porto, já era muito famosa e ilustre antes de aparecer na saga de J.K. Rowling (a autora fará 50 anos no dia 31), “Harry Potter”. A escritora britânica mudou- se para o Porto em 1991, nove meses depois da morte da sua mãe. Ela não deve ter boas recordações, porque disse que esteve no “fundo do poço”. Casou com um português, o casamento fracassou em menos de um ano. Nem tudo foi ruim já que inspirou- se na cidade para escrever sua obra mais famosa, além de ter tido uma filha; sentada no Café Majestic, Joanne terminou de escrever “A pedra filosofal” durante as manhãs; de tarde/noite, dava aulas de inglês numa escola de idiomas (quem foram seus alunos?). J.K. tem uma filha portuguesa, Jessica Isabel Rowling Arantes, que nasceu em 27 de julho de 1993 (faz aniversário três dias antes de sua mãe), a moça é filha de Jorge Arantes.

Joanne Rowling é formada em Letras com francês, além de saber o nosso idioma. No Natal de 1993 ela já estava em Edimburgo sozinha com sua filha de seis meses. Pensa que a vida dos escritores é uma mar-de- rosas? A literatura a salvou (pelo menos da falta de dinheiro).

Essa semana estive na Lello e no Café Majestic. Veja as fotos:

lello1Estilo neogótico, o edifício foi construído especialmente para ser a livraria do francês Ernesto Chardron, que faleceu aos 45 anos. A livraria passou por outros donos até chegar aos irmãos Lello.

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Eu adoro visitar livrarias com história, que foram frequentadas por escritores importantes e gosto de escolher a dedo os meus livros. Eu tinha em mente uma lista que ficou a ver navios. Fiquei surpresa logo na entrada: um rapaz falando inglês organizando a fila e limitando a entrada das pessoas. Como?! Sim, para entrar na Lello existe fila. O sol estava quente, “mas já que estou aqui”, fiquei. Não demorei muito para entrar, descobri o motivo: as pessoas entram, fazem fotos e vão embora. Ninguém compra nada, elas querem ver apenas o cenário da biblioteca da escola de Hogwarts.

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O calor dentro da loja estava insuportável sem ventiladores nem ar- condicionado e ainda com tanta gente barrando as passagens com câmaras, selfies, caras e bocas. Apenas curiosos incômodos e inconvenientes. Escolher livros?! Impossível. Peguei um rapidamente para ter alguma lembrança desse dia. Frustrada, fui para o caixa vazio, comentei com o rapaz que era impossível escolher livros com tanta gente e tanto calor.

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Há uma cafeteria no 1º andar, mas também estava vazia. Parece que uma das mais famosas e visitadas livrarias do mundo não tem uma vendagem à altura e nem digna de toda a sua história. Qual a solução? “Cobrar entrada”, foi o que pensei. E coincidentemente, vi ontem este artigo que diz que a partir de agosto irão cobrar 3 euros para entrar na livraria e serão descontados se a pessoa comprar algum livro. E os clientes fiéis pagarão 10 euros por ano e terão acesso ilimitado. Acho justo. A Lello também é editora, veja aqui o catálogo. O diretor é José Manuel Lello.

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Pelo valor histórico e artístico, além do seu acervo, que conta com literatura variada, portuguesa e livros em inglês, a Lello merece ser visitada. Mas não seja um turista inconveniente, não atrapalhe e nem interrompa, “pode tirar uma foto?”, as pessoas que estão vendo os livros.

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Fotografando as fotógrafas (quatro!) mirando para o alto:

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E depois de visitar a Lello e sair com um livro debaixo do braço, fui tomar algo no Café Majestic .Veja o livro que eu trouxe da Lello, o segundo do americano Henry Miller (Nova York, 1891), “Trópico de Capricórnio”, de 1939 (o primeiro foi “Trópico de Câncer”, 1934). Eu não tinha nada dele e fiquei curiosa. Miller era um tipo boêmio, parece que horrorizou as pessoas na época por seus livros terem conteúdo sexual, foi proibido em todos os países, exceto na França, onde morava. Será que é para tanto? Depois eu conto.

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O Café Majestic é de 1921, mantém o charme da Belle Époque e fica na zona central do Porto, em um calçadão para pedestres (“peões” em Portugal). O café servido realmente é muito gostoso e o croissant com massa de brioche é delicioso, recomendo!

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O interior, que não é tranquilo, os garçons trabalham em ritmo frenético, está cheio de turistas e suas câmaras, não é um lugar que convida à leitura.

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PS: As fotos foram meio que destruídas com o endereço do site em letras garrafais propositalmente, porque as pessoas copiam e não dão o crédito.