Resenha: “Tartufo”, de Molière


Você sabe o motivo da cor amarela ser considerada de má sorte para os atores? Continue lendo para descobrir!

Literatura clássica francesa. Livros seculares como “Tartufo”, do parisino Molière, emocionam- me muito! Uma obra assim você não pode deixar de colocar na sua lista de leituras. Ela representa com perfeição arquétipos sociais, como a hipocrisia, por exemplo. Uma obra aclamada há quase 350 anos, viva e atual.

Molière nasceu Jean- Baptiste Poquelin e foi batizado em 15 de janeiro de 1622, portanto, há 396 anos, um velhinho quase quatrocentão. Não se sabe a data exata do seu nascimento. Era filho de tecelãos, uma família burguesa, que servia a casa real francesa. O autor tinha três formações universitárias: Humanidades, Filosofia e Direito, profissão que exercia, mas não gostava. Abandonou o Direito para dedicar- se ao teatro, sua paixão. Renunciou também o trabalho de tecelão da monarquia que herdaria do seu pai, isso foi em 1643. A família era boêmia, frequentava teatros, inclusive a irmã de Moliére, Magdalene, era atriz famosa. Para ela, usava- se uma expressão “femme d´esprit”, uma mulher inteligente e culta. O sentido original dessa expressão mudou um pouco com o tempo e agregaram ao seu significado a malícia e o humor.

A biografia de Molière, considerado o “pai da comédia francesa”, é muito interessante, mas só vou dar uma pincelada, porque é extensa, recomendo que leiam na íntegra. Nessa edição espanhola (foto), o prólogo é bem interessante, conta toda a cronologia do autor. Ele montou uma companhia de teatro com alguns sócios, foi nessa época que adotou o nome artístico de “Molière”. A companhia foi um fracasso, endividaram- se, não puderam pagar e Molière foi preso.  Depois de solto, saiu de Paris, começou a apresentar- se com a companhia pelo interior da França e deu certo. O dramaturgo tinha muitos inimigos, principalmente atores, desafetos que foi ganhando pela vida. A realeza censurou as suas obras também. Molière teve um filho, Louis, que morreu na infância e teve uma filha, “Esprit Madeleine”, que adulta chamava- se “Madame de Montalant” e um outro menino chamado Pierre. Se eu não contei errado, Moliére encenou vinte e três peças. Ele escrevia e atuava também.

Segundo este prólogo biográfico e crítico, Moliére era um homem sério, calado, triste, feio, baixo, de sobrancelhas e traços grosseiros, e parece que estava acima do peso. Creio que foi uma descrição injusta, o homem não me parece tão pouco agraciado assim, achei até simpático, que você acha?

Doente, perdeu bastante peso e ficou miudinho. Vivia sempre vermelho por causa dos ataques de tosse, tinha tuberculose. Já perto de falecer, também morreram a sua irmã Madeleine e um outro filho, isso prejudicou a sua saúde, dizem. Ele levava suas dores para o palco, sua última obra: “O doente imaginário”. Agora vem a história da cor amarela:

Molière teve uma convulsão em cima do palco, na última cena e vestia amarelo. As pessoas acharam que ele tinha morrido, o que só veio acontecer horas mais tarde na sua casa. E ainda por cima escreveu este epitáfio para o personagem: “Aqui jaz o rei dos atores. Agora se faz de morto e na verdade, o faz muito bem”. Virou lenda. Os sacerdotes recusaram- se a dar- lhe extrema- unção por causa da obra “Tartufo”, principalmente. A Igreja detestava Molière, ele os delatava nas suas obras.

A assinatura de Molière

Então, vamos descobrir o motivo dessa obra ser tão polêmica. “Tartufo” tinha sido censurada durante muito tempo, mas foi autorizada a ser representada pela primeira vez em 5 de fevereiro de 1669 e foi um sucesso absoluto. São doze personagens e a história acontece na casa de Orgón, em Paris:

E Dorine endossa e revela a hipocrisia que acontece no meio social que frequentam (p.101):

– Não será Daphné e o maridinho dela que falam mal de nós? Aqueles cuja conduta mais se presta ao ridículo são sempre os que se metem a falar mal dos outros. Estão sempre prontos a observar o mais leve indício de simpatia para com alguém, espalham a notícia com o maior açodamento, desvirtuando as coisas a seu talante e apresentando-as como querem que sejam vistas. Julgam poder justificar as próprias ações neste mundo, dando às dos outros o colorido que lhes convêm, e procuram inocentar as próprias intrigas com a ilusória esperança de parecerem íntegros; ou então fazer recair alhures algumas migalhas esparsas dessa reprovação pública, que os sobrecarrega em demasia.

Senhora Pernelle, mãe de Orgon
Orgon,marido de Elmire
Elmere, mulher de Orgon
Damis, filho de Orgon
Mariane, filha de Orgon e apaixonada de Valère
Valère, apaixonado de Mariane
Cléante, cunhado de Orgon
Tartufo, falso devoto
Dorine, dama de companhia de Mariane
O senhor Loyal, sargento
Flipote, criada da senhora Pernelle

A senhora Pernelle é uma matriarca déspota, que critica com crueldade toda a sua família. Todos estão alvoroçados, porque receberá a visita de Tartufo, que a mãe idolatra e sua família detesta. A madame reprova várias condutas, até o fato de receberem visitas e a vizinhança comentar, reclamar do barulho e do entra e sai e Cléante rebate (p.101):

(…) – Não há como garantir-se contra calúnia. Não nos preocupemos com os mexericos tolos; esforcemo-nos por viver em completa inocência, dando aos faladores plana liberdade.

Quando algo incomoda demais em alguém, é espelho. A pessoa vê no outro o que tem em si em abundância e o reflexo provoca mal- estar. Disso ao ódio é um pulo. Por isso a Igreja e a Realeza incomodaram- se tanto com Molière? Claro!

O machismo e a inversão de valores também foram assuntos tocados por Moliére. Na cena IV (p.105), acontece um diálogo entre Dorine e Orgón sobre Tartufo e a mulher de Orgón, Elmere, que estava passando muito mal com uma enxaqueca, não dormiu a noite toda, não conseguiu comer e estava sangrando muito. Tartufo, o hóspede deles, jantou um banquete, bebeu vinho, dormiu tranquilamente, e ainda por cima, ELE era o “pobre homem”! O “pobre homem” saiu de manhã para rezar e fortalecer sua alma de bom cristão.

Orgon e Cléante têm falas imensas. Fiquei pensando na memória de elefante que têm que ter os atores que representam esses personagens. Adoraria ver esta obra encenada. Cléante tem uma fala brilhante sobre o verdadeiro e o falso. Claro que a carapuça deve ter caído em muita gente naquela época, e hoje ainda, obviamente. A falsidade. Como saber se uma pessoa está sendo sincera ou simplesmente o seu discurso é manipulado para conseguir certos objetivos? Você consegue perceber?

Tartufo aparece na cena VII declarando- se para a esposa de Orgon, Elmere. E ela surpresa, “tão bom cristão”. Enquanto isso, Orgon estava querendo obrigar a filha a casar- se com Tartufo por dinheiro. E Tartufo culpa a mulher pelo seu desejo de cobiçar a mulher alheia (a partir daqui usei o PDF em português para facilitar as citas):

– Ah! Mas nem por ser devoto eu não sou menos homem; e quando se chega a ver seus celestes atrativos, o coração torna-se escravo e não raciocina mais. Sei que essas palavras parecem estranhas partindo de mim, mas, senhora, apesar de tudo, não sou um anjo; e se condena a confissão que acabo de lhe fazer, deve culpar seus encantos.

Iria ficar tudo em segredo, mas Damis ouviu tudo escondido e depois chega o marido também e o armou- se o barraco. Mas, pensa que Tartufo foi banido da família pela ousadia de assediar a mulher do dono da casa que estava hospedado?! O marido solucionou o problema obrigando Tartufo a casar- se com sua filha. Você acha que Orgon trocaria a posição social de Tartufo por honra e dignidade?!

A história tem reveses. Quem parece que vai ganhar, perde e vice- versa. Um texto bem contruido, amarradíssimo e surpreendente! Muito gostoso de ser lido, recomendadíssimo!

Molière. Tartufo. Catedra. Letras Universales, Madrid, 2010. Páginas: 179

Se quiser ler um PDF em espanhol (grátis!), clica aqui.

Se preferir ler em português, é só clicar aqui (grátis!).

Se quiser ler em inglês, clica aqui.

Boa leitura!

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PDF grátis: “O ente e a essência”, de São Tomás de Aquino


O opúsculo* “O ente e a essência” (PDF GRÁTIS AQUI), provavelmente escrito entre 1252 e 1256, é como se fosse um panfleto, só tem 48 páginas.  E como o próprio nome diz, a obra trata da essência das coisas, a metafísica. Incrível poder ler o que pensava esse senhor há quase 800 anos e ver que tentava racionalizar o misticismo.

A natureza da espécie é indeterminada em relação ao que é o indivíduo, tal como a natureza do género, em relação à espécie. (T.A.)

Tomás de Aquino nasceu na Itália em 1225, faleceu aos 49 anos e foi canonizado 50 anos após a sua morte. Era de família nobre, nasceu num castelo. Nessa época e nesse tipo de família era normal mandar os filhos servirem à Igreja. Possivelmente, Tomás não devia ter vocação para a guerra e nem as conquistas.

Significar a essência como um todo e como uma parte. (T.A.)tomas-de-aquino

                                                      Possível imagem de Tomás de Aquino.

O livrinho é muito explicativo e didático. Nota- se que o autor era um frade professor. Ele explica tudo muito bem, como os termos do título “ente” e “ser”. Tomás foi o maior representante da escolástica, a filosofia ensinada nas escolas medievais, que comparava a fé, a religião católica, a Bíblia, com a filosofia; e quando era a filosofia de Aristóteles, tinha um nome engraçado: peripatética. Tomás ensinava a filosofia peripatética. Nessa obra ele também fala de Sócrates.

Deus possui todas as perfeições no seu próprio ser.

Os acidentes individuais derivados da matéria  diferenciamos indivíduos de uma mesma espécie.

Fica aqui essa mini- resenha, pequena, senão eu conto o livro todo. Leiam, nem que for por curiosidade.


*o·pús·cu·lo

1. Livro pequeno sobre artes, ciência, etc. (Priberam)

 

O ganhador do Nobel de Literatura 2016 é Bob Dylan!!


O cantor e compositor americano Bob Dylan (1941) é o ganhador do Nobel de Literatura 2016, o maior prêmio literário do mundo. Além do prestígio, do reconhecimento mundial e propaganda internacional (que ele nem precisa), o vencedor normalmente leva mais de 1 milhão de euros (que ele também não precisa). Na minha opinião ganhou a zebra. Se gostei? Não. Preferiria alguém que se dedica só à literatura.

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Tudo bem, é um músico excelente (a voz nem tanto), mas já não tem o Grammy pra isto?! Bem, vamos lá, então vamos cantar: clica aqui e ouça 10 canções do Nobel.

Creio que ninguém votou em Bob na nossa enquete, então os prêmios ficarão para um próximo sorteio (em breve).

Dez incríveis primeiros parágrafos


Um livro te pega pela capa, pelo título, sinopse, autor ou primeiro parágrafo? Eu escolho pelo autor e primeiro parágrafo.

Selecionei dez primeiros parágrafos de livros que podem agarrar o leitor pela curiosidade que despertam, veja:

1.”Intimidade”, de Hanif Kureish

Essa é a noite mais triste, porque vou embora e não voltarei. Amanhã de manhã, quando a mulher com que vivi durante seis anos tenha ido trabalhar na sua bicicleta e nossos filhos estejam no parque brincando de bola, colocarei umas coisas em uma mala, sairei discretamente de casa, esperando que ninguém me veja, e tomarei o metrô para ir ao apartamento de Victor: ali, durante um período indeterminado, dormirei no chão do pequeno quarto junto à cozinha que amavelmente me ofereceu. Cada manhã arrastarei o fino e estreito colchão até o quarto de despejo.

  • Por que será que ele fugiu?

2. “As intermitências da morte”, José Saramago

No dia seguinte ninguém morreu. O fato, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenômeno semelhante, passar- se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e noturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. (…)

  • A morte que deixa de matar. Por que será que aconteceu isso?!

3. “A confissão”, de Flávio Carneiro

A senhora ouça- me, por favor. Em primeiro lugar, peço desculpas pelo mau jeito. Sei que não foi nada gentil da minha parte interceptar o seu carro àquela hora da madrugada e apontar uma arma à sua cabeça, ordenando, ou pedindo, depende do modo como se vejam as coisas, creio ter- lhe pedido para descer do carro, embora o gesto de lhe apontar a arma possa indicar que era uma ordem, não um pedido, pode ser, não vamos discutir por ninharias, de qualquer maneira reconheço que não fui gentil.

  • Bandido ou polícia?

4. “O jogo do anjo”, de Carlos Ruiz Zafón

Um escritor nunca esquece a primeira vez que aceita umas moedas ou um elogio em troca de uma história. Nunca esquece a primeira vez que sente o doce veneno da vaidade no sangue e acredita que, se consegue que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de colocar um teto sobre a sua cabeça, um prato quente ao final do dia e o que mais deseja: seu nome impresso em um miserável pedaço de papel que seguramente viverá mais que ele. Um escritor está condenado a recordar esse momento, porque então já está perdido e sua alma tem um preço.

  • Genial, não?! Esse livro é a segunda parte da saga de “A sombra do vento”. No mês de novembro vai sair na Espanha a quarta parte, “O labirinto dos espíritos”.

5. “Numa e ninfa”, de Lima Barreto (conto)

Na rua não havia quem não apontasse a união daquele casal. Ela não era muito alta, mas tinha uma fronte reta e dominadora, uns olhos de visada segura, rasgando a cabeça, o busto erguido, de forma a possuir não sei que ar de força, de domínio, de orgulho; ele era pequenino, sumido, tinha a barba rala, mas todos lhe conheciam o talento e a ilustração. Deputado há bem duas legislaturas, não fizera em começo grande figura; entretanto, surpreendendo todos, um belo dia fez um ‘brilharete’, um lindo discurso tão bom e sólido que toda a gente ficou admirada de sair dos lábios que até então ali estiveram hermeticamente fechados.

  • Esse primeiro parágrafo eu escolhi, porque Lima contou toda uma história, genialmente descrita, em poucas palavras.

6. “Banguê”, José Lins do Rêgo

Afastara- me uns dez anos de Santa- Rosa. O engenho vinha sendo para mim um campo de recreio nas férias do colégio e da universidade. Fizera- me um homem entre gente estranha, nos exames, nos estudos, em casas de pensão. O Mundo cresceu tanto para mim que Santa- Rosa se reduzira a um grande nada. Vinte e quatro anos, homem, senhor do meu destino, formado em Direito, sem saber fazer nada. Nada de grande tinha aprendido, nenhum entusiasmo trazia dos meus anos de aprendizagem. Agora tudo estava terminado. Um simples ato de fim de ano, e a vida devia tomar outro rumo.

  • É um dos meus livros preferidos da literatura brasileira. O ar melancólico, o romantismo, o amor impossível são os seus principais ingredientes. O primeiro parágrafo dá o tom que acompanha todo o livro. Leia a resenha aqui.

7. “Saber perder”, de David Trueba

O desejo trabalha como o vento. Sem esforço aparente. Se encontra as velas estendidas nos arrastará à velocidade de vertigem. Se as portas e  janelas estiverem fechadas, golpeará durante um tempo em busca das gretas ou fissuras que lhe permitirão filtrarem- se. O desejo associado a um objeto de desejo nos condena a ele. Mas há outra forma de desejo, abstrata, desconcertante, que nos envolve como um estado de ânimo. Anuncia que estamos prontos para o desejo e só nos falta esperar, soltar as velas, que sopre o vento. É o desejo de desejar.

  • Acho genial a analogia que o autor fez sobre o desejo de uma forma poética e certeira. A tradução ao espanhol é minha, se você pegar alguma edição em português, pode ser que esteja diferente.

 8. “O Grande Gatsby”, Francis Scott Fitzgerald

Na minha primeira infância meu pai me deu um conselho que, desde então, não cessou de dar- me voltar pela cabeça.
‘Cada vez que te sintas inclinado a criticar alguém- me disse- tenha presente que nem todo mundo teve as suas vantagens…’

  • Na verdade, são os dois primeiros parágrafos, precisei do segundo para completar o primeiro. Adoro o conselho do pai do personagem, acho que serve pra todo mundo.

9. “O professor”, de Frank McCourt

Já estão chegando.
E eu não estou preparado.
Como iria estar?
Sou um professor novo, e estou aprendendo com a prática.

Os quatro primeiros parágrafos carregados de significados. A falta de preparação e prática nas universidades (do mundo!) fazem com que os recém- formados utilizem, sem querer, os alunos como cobaias, na base do erro e acerto, como se fossem seu laboratório, experimentos científicos. Esse livro (vai ter resenha!) é autobiográfico, o professor americano Frank McCourt conta as suas experiências em mais de 30 anos de profissão.

10. Anna Karenina, Liev Tolstói

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Todas as famílias felizes são semelhantes; cada família infeliz é infeliz a seu modo.

Um dos melhores livros de um dos maiores escritores da literatura mundial, “Anna karenina”, começa assim, com essa oração curtinha e uma sentença pra pensar.


Você leria algum desses livros por causa do seu primeiro parágrafo?

Está chegando: 75ª Feira do Livro de Madrid (com uma “pitada” de desânimo)


Feiras de livros são oportunidades fantásticas para conhecer todos os tipos de autores, de todos os gêneros e lugares. A Feira do Livro de Madri, cidade onde moro, dura 22 dias e, normalmente, traz um país convidado. Esse ano: a França. Isso implica que teremos a oportunidade de conhecer autores franceses contemporâneos. Já contei que tenho uma quedinha pelos franceses? Leia aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

A lista de escritores que estarão presentes já começou a ser atualizada, até o dia da feira irão entrando mais nomes. Por exemplo:

No dia 5 de junho, você poderá conhecer em pessoa o dono do melhor restaurante do mundo, Ferrán Adrià e seus livros com receitas maravilhosas.

ferran_adria_recetas

Julia Navarro, escritora espanhola, essa vale a pena conhecer. Eu li o “Dime quien soy” e gostei bastante. Ela vai estar em vários dias, melhor consultar a lista.julia

Ainda não divulgaram os escritores franceses que estarão presentes.

A lista, por enquanto, deixou- me muito desanimada. Viram a minha animação do início? Pois é, c’est fini. A literatura de não- ficção deve entrar, pois há coisas muito úteis que precisamos. Eu mesma citei o Ferràn Adrià. Há ensaios, divulgação científica, dicionários, fotografia, gastronomia, muita coisa bacana, mas não vale tudo.

Nos últimos três anos, principalmente, a onda de youtubers e “gente nada a ver com literatura” invadiram a feira e o nosso mundo literário. A literatura vai minguando. Qualquer um acha que pode escrever um livro. Poder até pode, mas não é literatura. Há livros muito respeitáveis de não- ficção, que são úteis e necessários, mas não é o caso da lista que acabei de ver. Desânimo.

Isso pode ter consequências muito negativas: a juventude só vai ler porcaria; os escritores decentes não vão querer participar da palhaçada; os consumidores de literatura (ficção, artística, principalmente) deixarão de ir e a feira acabará se transformando numa festa de babacas, adolescentes alucinados e curiosos querendo tirar fotos com artistas e youtubers.

Eu mesma, na feira de 2014, fui cedinho para “ficar na fila”, pois adoraria conhecer Luis Goytisolo (1935) pessoalmente. Um escritor de primeira linha, membro da Real Academia Española (irmão do também escritor, o célebre Juan Goytisolo), escreveu livros incríveis como “Antagonía”, uma obra- prima. Esse autor espanhol é comparado com Proust. Cheguei esbaforida, “Ué, cadê a fila?!”. Não havia ninguém. A minha surpresa foi tanta que o autor percebeu. “Não sou um autor popular”. A vantagem é que pude conversar bastante com ele e tenho o privilégio de ter quase toda a sua obra (carinhosamente) autografada. Mas, não consegui evitar a sensação de tristeza e desencanto: “se ninguém lê um autor desses…que fazemos?!”

Caramba, nosso espaço já é muito restrito, será mesmo que eles têm que invadir a nossa praia?! Claro que sim, as editoras e “escritores” (que normalmente nem escrevem, alguém faz isso por eles) querem é ganhar dinheiro, não importa com quê. Oportunistas.

Cartel FLM16O cartaz desse ano é de Emilio Gil, um artista gráfico.

Vou aguardar para ver se melhora. Será que virá pelo menos algum desses escritores franceses: Patrick Modiano, Pierre Lemaitre, Fred Vargas, Laurent Mauvignier, J. M. G. Le Clézio, Frédéric Beigbeder? Senão, fico aqui com a minha maravilhosa biblioteca.

Quer colaborar com o Falando em Literatura?


Tem vontade de publicar, mas não tem coragem? Nós te damos a oportunidade!

Resenhas críticas, artigos de opinião, crônicas, notícias, tudo o que envolve o mundo da literatura, cinema e artes em geral, tudo é muito bem- vindo!

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Portrait of diligent pupil sitting on pile of books and looking at camera

Sete anos do Falando em Literatura na Feira do Livro de Madri


O nosso Falando em Literatura começou há 7 anos com o nome de “A última flor do Lácio”. Surgiu como um blog para os meus alunos de português na Espanha, para que eles praticassem o nosso idioma. Depois transformou- se, mudou o nome, e continuou como blog literário. Para a fugacidade dos nossos tempos,  nós estamos persistindo há 2555 dias, mais fortes e animados do que nunca!

A cada ano, o número de leitores vai aumentando. Diariamente, tendo ou não post novo, cerca de 1000 pessoas passam por aqui, no mínimo. Por mês, são mais de 30 mil pessoas. Parece pouco? Mas não está nada mal para um blog literário ( com literatura de qualidade) e sem patrocínio, sem choramingar por leitores, sem spam. Eu não retribuo as visitas de ninguém ( não tenho tempo, mas respondo todos os comentários), quem vem, chega aqui porque quer, sem esperar nada em troca (a não ser a troca de ideias). Trabalho com liberdade, quando e como quero, lendo só o que tenho vontade, sem a imposição de livrarias e/ou editoras. Houve um tempo em que fiz parceria com a Editora Planeta, mas não gostei, achei que não valia a pena, desisti no primeiro mês. “Liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que aos homens deram os céus” (Miguel de Cervantes, em Dom Quixote”).

A comemoração hoje foi na Feira do Livro de Madri, que vai até o dia 16 de junho. Veja algumas fotos:

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A Feira abre às 11:00h. Cheguei 40 minutos antes e foi o tempo que levei para chegar no final dos stands. Com a feira vazia pude observar detalhes impossíveis de perceber quando está lotada.
DSC_0053Reparem na boa fé dos expositores. As cargas de livros chegam cedo e ficam esperando nas ruas do parque ou na frente dos stands sem nenhuma vigilância. A minha cabeça de brasileira pensou logo, “no Brasil não ficaria um!”. Pena, não é?

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As caixinhas esperando seu dono chegar. Stand de “comics”, que são as histórias em quadrinhos no Brasil ou banda desenhada em Portugal. Um mercado cada vez mais interessante, que pretendo conhecer mais profundamente em breve.

DSC_0063 As bibliotecas da cidade de Madri têm quase 3 milhões de sócios. Você faz a carteirinha e pode pegar livros em qualquer uma delas.

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Só na cidade de Madri existem 47 bibliotecas públicas. Juntando com as do estado são 202 bibliotecas. Fantástico!

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A TVE, a rede de televisão pública do país, esquentando os motores.

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Não posso deixar de citar essa presença deliciosa na Feira, meu sorvete preferido, o Ben & Jerry’s de baunilha! hahahaDSC_0072

O editor da Léeme, uma editora jovem e muito bacana, com livros atuais, divertidos, bem acabados. Em outro post vou falar das minhas aquisições e dos presentes que deu-me José, esse rapaz simpaticíssimo e que faz um trabalho fantástico atrás do balcão. Em breve (será que breve mesmo?! hahaha) resenhas de três obras dessa editora legal. Um dos livros da Léeme tem o Sócrates na capa:

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Depois eu conto tudo, tudo, tudo!

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Outra simpática editora, a Marian. Ela é da Editora Nevsky, alguns livros têm as capas lindíssimas, depois eu mostro os que trouxe, muito especiais. Os títulos são ótimos, vou virar freguesa. A especialidade deles é a literatura russa.

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As pessoas começando a chegar.

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Olha o livro da Nádia, a primeira biógrafa da Clarice, livro que ajudou demais os pesquisadores. Tradução espanhola!DSC_0076

Livro polêmico do escritor austríaco que foi para o Brasil fugindo do nazismo e acabou suicidando- se com a esposa no Rio de Janeiro, pois pensavam que o nazismo iria dominar o mundo. Tenho muita curiosidade para ler esse livro, está na mão!

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Esse livro eu não conhecia, fiquei curiosa. Roberto Arlt, um argentino com uma obra vasta, falecido em 1942 aos 42 anos, jovem. Vou voltar pra comprar esse depois.


Eu tenho muitaaaas novidades da Feira, vou parar, senão o post vai ficar imenso. Voltarei em breve!

Continuamos sonhando com um mundo de leitores, onde o mal e as guerras só acontecem na ficção. V’ambora, sonhadores! A literatura salva.