O ganhador do Nobel de Literatura 2016 é Bob Dylan!!


O cantor e compositor americano Bob Dylan (1941) é o ganhador do Nobel de Literatura 2016, o maior prêmio literário do mundo. Além do prestígio, do reconhecimento mundial e propaganda internacional (que ele nem precisa), o vencedor normalmente leva mais de 1 milhão de euros (que ele também não precisa). Na minha opinião ganhou a zebra. Se gostei? Não. Preferiria alguém que se dedica só à literatura.

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Tudo bem, é um músico excelente (a voz nem tanto), mas já não tem o Grammy pra isto?! Bem, vamos lá, então vamos cantar: clica aqui e ouça 10 canções do Nobel.

Creio que ninguém votou em Bob na nossa enquete, então os prêmios ficarão para um próximo sorteio (em breve).

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Dez incríveis primeiros parágrafos


Um livro te pega pela capa, pelo título, sinopse, autor ou primeiro parágrafo? Eu escolho pelo autor e primeiro parágrafo.

Selecionei dez primeiros parágrafos de livros que podem agarrar o leitor pela curiosidade que despertam, veja:

1.”Intimidade”, de Hanif Kureish

Essa é a noite mais triste, porque vou embora e não voltarei. Amanhã de manhã, quando a mulher com que vivi durante seis anos tenha ido trabalhar na sua bicicleta e nossos filhos estejam no parque brincando de bola, colocarei umas coisas em uma mala, sairei discretamente de casa, esperando que ninguém me veja, e tomarei o metrô para ir ao apartamento de Victor: ali, durante um período indeterminado, dormirei no chão do pequeno quarto junto à cozinha que amavelmente me ofereceu. Cada manhã arrastarei o fino e estreito colchão até o quarto de despejo.

  • Por que será que ele fugiu?

2. “As intermitências da morte”, José Saramago

No dia seguinte ninguém morreu. O fato, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenômeno semelhante, passar- se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e noturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. (…)

  • A morte que deixa de matar. Por que será que aconteceu isso?!

3. “A confissão”, de Flávio Carneiro

A senhora ouça- me, por favor. Em primeiro lugar, peço desculpas pelo mau jeito. Sei que não foi nada gentil da minha parte interceptar o seu carro àquela hora da madrugada e apontar uma arma à sua cabeça, ordenando, ou pedindo, depende do modo como se vejam as coisas, creio ter- lhe pedido para descer do carro, embora o gesto de lhe apontar a arma possa indicar que era uma ordem, não um pedido, pode ser, não vamos discutir por ninharias, de qualquer maneira reconheço que não fui gentil.

  • Bandido ou polícia?

4. “O jogo do anjo”, de Carlos Ruiz Zafón

Um escritor nunca esquece a primeira vez que aceita umas moedas ou um elogio em troca de uma história. Nunca esquece a primeira vez que sente o doce veneno da vaidade no sangue e acredita que, se consegue que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de colocar um teto sobre a sua cabeça, um prato quente ao final do dia e o que mais deseja: seu nome impresso em um miserável pedaço de papel que seguramente viverá mais que ele. Um escritor está condenado a recordar esse momento, porque então já está perdido e sua alma tem um preço.

  • Genial, não?! Esse livro é a segunda parte da saga de “A sombra do vento”. No mês de novembro vai sair na Espanha a quarta parte, “O labirinto dos espíritos”.

5. “Numa e ninfa”, de Lima Barreto (conto)

Na rua não havia quem não apontasse a união daquele casal. Ela não era muito alta, mas tinha uma fronte reta e dominadora, uns olhos de visada segura, rasgando a cabeça, o busto erguido, de forma a possuir não sei que ar de força, de domínio, de orgulho; ele era pequenino, sumido, tinha a barba rala, mas todos lhe conheciam o talento e a ilustração. Deputado há bem duas legislaturas, não fizera em começo grande figura; entretanto, surpreendendo todos, um belo dia fez um ‘brilharete’, um lindo discurso tão bom e sólido que toda a gente ficou admirada de sair dos lábios que até então ali estiveram hermeticamente fechados.

  • Esse primeiro parágrafo eu escolhi, porque Lima contou toda uma história, genialmente descrita, em poucas palavras.

6. “Banguê”, José Lins do Rêgo

Afastara- me uns dez anos de Santa- Rosa. O engenho vinha sendo para mim um campo de recreio nas férias do colégio e da universidade. Fizera- me um homem entre gente estranha, nos exames, nos estudos, em casas de pensão. O Mundo cresceu tanto para mim que Santa- Rosa se reduzira a um grande nada. Vinte e quatro anos, homem, senhor do meu destino, formado em Direito, sem saber fazer nada. Nada de grande tinha aprendido, nenhum entusiasmo trazia dos meus anos de aprendizagem. Agora tudo estava terminado. Um simples ato de fim de ano, e a vida devia tomar outro rumo.

  • É um dos meus livros preferidos da literatura brasileira. O ar melancólico, o romantismo, o amor impossível são os seus principais ingredientes. O primeiro parágrafo dá o tom que acompanha todo o livro. Leia a resenha aqui.

7. “Saber perder”, de David Trueba

O desejo trabalha como o vento. Sem esforço aparente. Se encontra as velas estendidas nos arrastará à velocidade de vertigem. Se as portas e  janelas estiverem fechadas, golpeará durante um tempo em busca das gretas ou fissuras que lhe permitirão filtrarem- se. O desejo associado a um objeto de desejo nos condena a ele. Mas há outra forma de desejo, abstrata, desconcertante, que nos envolve como um estado de ânimo. Anuncia que estamos prontos para o desejo e só nos falta esperar, soltar as velas, que sopre o vento. É o desejo de desejar.

  • Acho genial a analogia que o autor fez sobre o desejo de uma forma poética e certeira. A tradução ao espanhol é minha, se você pegar alguma edição em português, pode ser que esteja diferente.

 8. “O Grande Gatsby”, Francis Scott Fitzgerald

Na minha primeira infância meu pai me deu um conselho que, desde então, não cessou de dar- me voltar pela cabeça.
‘Cada vez que te sintas inclinado a criticar alguém- me disse- tenha presente que nem todo mundo teve as suas vantagens…’

  • Na verdade, são os dois primeiros parágrafos, precisei do segundo para completar o primeiro. Adoro o conselho do pai do personagem, acho que serve pra todo mundo.

9. “O professor”, de Frank McCourt

Já estão chegando.
E eu não estou preparado.
Como iria estar?
Sou um professor novo, e estou aprendendo com a prática.

Os quatro primeiros parágrafos carregados de significados. A falta de preparação e prática nas universidades (do mundo!) fazem com que os recém- formados utilizem, sem querer, os alunos como cobaias, na base do erro e acerto, como se fossem seu laboratório, experimentos científicos. Esse livro (vai ter resenha!) é autobiográfico, o professor americano Frank McCourt conta as suas experiências em mais de 30 anos de profissão.

10. Anna Karenina, Liev Tolstói

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Todas as famílias felizes são semelhantes; cada família infeliz é infeliz a seu modo.

Um dos melhores livros de um dos maiores escritores da literatura mundial, “Anna karenina”, começa assim, com essa oração curtinha e uma sentença pra pensar.


Você leria algum desses livros por causa do seu primeiro parágrafo?

Está chegando: 75ª Feira do Livro de Madrid (com uma “pitada” de desânimo)


Feiras de livros são oportunidades fantásticas para conhecer todos os tipos de autores, de todos os gêneros e lugares. A Feira do Livro de Madri, cidade onde moro, dura 22 dias e, normalmente, traz um país convidado. Esse ano: a França. Isso implica que teremos a oportunidade de conhecer autores franceses contemporâneos. Já contei que tenho uma quedinha pelos franceses? Leia aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

A lista de escritores que estarão presentes já começou a ser atualizada, até o dia da feira irão entrando mais nomes. Por exemplo:

No dia 5 de junho, você poderá conhecer em pessoa o dono do melhor restaurante do mundo, Ferrán Adrià e seus livros com receitas maravilhosas.

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Julia Navarro, escritora espanhola, essa vale a pena conhecer. Eu li o “Dime quien soy” e gostei bastante. Ela vai estar em vários dias, melhor consultar a lista.julia

Ainda não divulgaram os escritores franceses que estarão presentes.

A lista, por enquanto, deixou- me muito desanimada. Viram a minha animação do início? Pois é, c’est fini. A literatura de não- ficção deve entrar, pois há coisas muito úteis que precisamos. Eu mesma citei o Ferràn Adrià. Há ensaios, divulgação científica, dicionários, fotografia, gastronomia, muita coisa bacana, mas não vale tudo.

Nos últimos três anos, principalmente, a onda de youtubers e “gente nada a ver com literatura” invadiram a feira e o nosso mundo literário. A literatura vai minguando. Qualquer um acha que pode escrever um livro. Poder até pode, mas não é literatura. Há livros muito respeitáveis de não- ficção, que são úteis e necessários, mas não é o caso da lista que acabei de ver. Desânimo.

Isso pode ter consequências muito negativas: a juventude só vai ler porcaria; os escritores decentes não vão querer participar da palhaçada; os consumidores de literatura (ficção, artística, principalmente) deixarão de ir e a feira acabará se transformando numa festa de babacas, adolescentes alucinados e curiosos querendo tirar fotos com artistas e youtubers.

Eu mesma, na feira de 2014, fui cedinho para “ficar na fila”, pois adoraria conhecer Luis Goytisolo (1935) pessoalmente. Um escritor de primeira linha, membro da Real Academia Española (irmão do também escritor, o célebre Juan Goytisolo), escreveu livros incríveis como “Antagonía”, uma obra- prima. Esse autor espanhol é comparado com Proust. Cheguei esbaforida, “Ué, cadê a fila?!”. Não havia ninguém. A minha surpresa foi tanta que o autor percebeu. “Não sou um autor popular”. A vantagem é que pude conversar bastante com ele e tenho o privilégio de ter quase toda a sua obra (carinhosamente) autografada. Mas, não consegui evitar a sensação de tristeza e desencanto: “se ninguém lê um autor desses…que fazemos?!”

Caramba, nosso espaço já é muito restrito, será mesmo que eles têm que invadir a nossa praia?! Claro que sim, as editoras e “escritores” (que normalmente nem escrevem, alguém faz isso por eles) querem é ganhar dinheiro, não importa com quê. Oportunistas.

Cartel FLM16O cartaz desse ano é de Emilio Gil, um artista gráfico.

Vou aguardar para ver se melhora. Será que virá pelo menos algum desses escritores franceses: Patrick Modiano, Pierre Lemaitre, Fred Vargas, Laurent Mauvignier, J. M. G. Le Clézio, Frédéric Beigbeder? Senão, fico aqui com a minha maravilhosa biblioteca.

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Portrait of diligent pupil sitting on pile of books and looking at camera

The Consciousness Effect: Representation of Subjectivity in Virginia Woolf’s To the Lighthouse and James Joyce’s Ulysses


Falando em Literatura in english? Yes! Elton Uliana‘s article, he’s Brazilian, bachelor of English Literature from University Birkbeck College, University of London. Enjoy!


The Consciousness Effect: Representation of Subjectivity in Virginia Woolf’s To the Lighthouse and James Joyce’s Ulysses 

A sudden light transfigures a trivial thing, a weathervane, a windmill, a winnowing flail, the dust in the barn door; a moment – and the thing has vanished, because it was pure effect.

   (Walter Pater)[1]

 

The house of fiction has many windows, but only two or three doors.

     (James Wood)[2]

The works of Virginia Woolf and James Joyce are a landmark in aesthetic history. In the early twentieth century, a moment of rupture and breakdown in cultural order, both writers responded to the changing conditions of the period by proposing a radical overturn of the objective mimetic impulses characteristic of conventional literary representation. In their own idiosyncratic way, each writer indulged freely in communicating a more relativistic, subjectivist version of reality. Woolf’s and Joyce’s linguistic experimentation epitomizes the ‘high modernist’ aesthetic system with its emphasis on consciousness rather then character (realism) or temperament (naturalism); its neglect of plot coherence, unity and closure; and its retreat from omniscient narrative strategy.[3] This pivotal misrule of literary form notoriously involved a multitude of other innovations like the debunking of syntax, the dislocation of cohesive point of view, and the disinheriting of linear time. If this break with tradition allowed for an ironic, if fictitious detachment between object and subject, it also represented a radical shift in the whole category of the subject, which became tantalizingly elusive and self-evident at the same time. These innovations of the modernist project remain remarkably enduring.

     Even though the writings of Woolf and Joyce may be regarded as diametrically opposites in terms of stylistic and thematic psychology, underlying that there is a preoccupation which inevitably unites them: the recasting of human consciousness, perception and memory beyond realistic conventions. This study will analyze the relationship between consciousness and literary representation as structured in Woolf’s To the Lighthouse (1927) on the one hand and in Joyce’s Ulysses (1922) on the other. I shall argue that both Woolf’s and Joyce’s narrative technique produce, in strikingly distinctive manner, an expansion of subjective boundaries, one which destabilizes the self and makes it permeable by the other and impregnated by elusive, ephemeral impressions of external worldly events. I will focus both on the effects produced by free indirect style on the representation of consciousness and on the implications that genre, mode and form have on subjectivity.

     Both Woolf and Joyce use modulations in genre to shape and reproduce the effects of reality on consciousness. Each chapter in Ulysses is constructed in distinctive style, from epic to journalistic, from the dramatic to the catechetic form. In episode seventeen (Ithaca), when Joyce abruptly converts the genre of the preceding chapter from a long-winded prose (which emulates medieval morality tales and Christian parables) to a highly stylized parody of the Catholic catechism, Joyce’s narrator with all its verbal incontinence reveals a consciousness ceremoniously invaded by (low and high-brown) textual paraphernalia:

Similarly?

The trajectory of their, first sequent, then simultaneous, urinations were dissimilar : Bloom’s longer, less irruent, in the incomplete form of the bifurcated penultimate alphabetical letter who in his ultimate year at High School (1880) had been capable of attaining the point of greatest altitude against the whole concurrent strength of the institution, 210 scholars : Stephen’s higher, more sibilant, who in the ultimate hours of the previous day had augmented by diuretic consumption an insistent vescical pressure.

(Ulysses, p. 655)[4]

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Here (and elsewhere in the novel), there is a collision between the apparent psychological scantiness of the subjects and the verbal opulence with which they are treated. Suitably enough, the experiences of Bloom and Stephen are focalized through Joyce’s avatar in the text according to the conventions of the cathetic form, or in Joyce’s own words, ‘mathematical catechism’.[5] By categorizing the verbal details of the text and attempting to render the human within this ‘cosmic physical’ frame, Joyce’s writing not only tests the boundaries of genre but also produces a convulsion of subjectivities and data, making the distinction of voices virtually impossible. If the language in the passage with its doctrinal, pedantic (and clichéd) quality does not belong to Bloom (‘irruent’) or Stephen (‘sibilant’), it may not be characteristic of the narrator either.[6] In fact, this current of changing impressions goes so far as to produce a sense in which there seems to be no viewpoint at all outside the text from which the characters and events are observed, anymore then there seems to remain no objective reality apart from the one produced in the narrator’s consciousness.

   In an illuminating study of Joyce, Steven Connor argued that the chapters of the novel seem to form a pattern of stylistic rivalry.[7] The scholar suggests that this stylistic competition amongst the chapters often functions not to give expression to a consciousness, but rather, it represents ‘alien threats to or potential distortion of, that consciousness’.[8] If Joyce’s provoking stylistic design represents a discontinuity of consciousness, a debunking of a coherently expressible, obviously organized and consistently established structure of feelings and thoughts, as Connor suggests, it does so by continuously and self-consciously asserting an overarching unifying sensibility, one which authoritatively interpolates the purposelessness, seemingly pointlessness argument and the supreme autonomy of the work: that of the author, of James Joyce himself. In this way, the more the text disseminates this discontinuity of consciousness by its continuous change in style, mode, tone and diction, the more it establishes the (narcissistic) consciousness of its own author, one which is not only asserted, but in my view also performed in the text.

   Extending this point, ‘personality’ is always in tension with ‘impersonality’ in Ulysses.[9] According to Joyce, the aesthetic emotion is static and clinical, it arrests the mind and raises it ‘above desire and loathing’.[10] T.S. Eliot’s declared in ‘Tradition and the Individual Talent’ (1919) that a literary work is ‘not a turning loose of emotion, but an escape from emotion; it is not an expression of personality, but an escape from it’.[11] Expanding on Eliot’s argument, it becomes plausible to suggest that Joyce’s attempt to evade expressions of a particular consciousness (being it of the characters or of the writer himself) by constantly incorporating new genres in the textual fabric of the novel is, in fact, an assertion of Joyce’s own literary ambition and distinct artistic personality.

     This critical instance has another nuance. In a cold, ruthless manner the text manages to implement an ironic detachment between itself and the content it presents. Characteristically, to codify even more the semiotic situation in Ulysses, the narrator plunges into libelous subjects (‘the problem of irritability, tumescence, rigidity, reactivity, dimension, sanitariness, pelosity.’, p. 665) and reflects dispassionately on the shabbiness of ordinary life (‘both contemplate each other in both mirror of the reciprocal flesh theirhisnothis fellowfaces.’,p. 664) but offers no comment on the material related. It is plausible to suggest though that the narrator retains, nevertheless, some of Joyce’s own systematic inclination to scholastic, scientific and even theological thought.[12] Indeed, the author’s almost prurient captivation by ordinariness is established in the text rather magnificently. Joyce manages to combine the cult of the prosaic with wholehearted affinity with it.

     Form and content in To The Lighthouse have a similar vexed relation. However, the narrator’s deliberate (but not always ironic) detachment in Woolf’s text is never in the depraving, corrupting, unpalatable Joycean sense. The perception of inner processes in the novel, that is, the interior movement of characters’ and narrator’s consciousness, is systematically described (represented) by association, exposition or allusion to exterior reality. Nevertheless, these agents are not necessarily involved in the external occurrences. If the minds of the characters in the novel are momentarily anchored in the reality of the body or of real life, it is never in the same bluntly grocer context as in the passage from Ulysses above; instead, it is more likely to be because it leads to an excursion to some subjective, ethereal realm:

“And even if it isn’t fine to-morrow,” said Mrs. Ramsey, raising her eyes to glance at William Bankes and Lily Briscoe as they passed, “it will be another day. And now,” she said, thinking that Lily’s charm was her Chinese eyes, aslant in her white, puckered little face, but it would take a clever man to see it, “and now stand up, and let me measure your leg,” for they might go to the Lighthouse after all, and she must see if the stocking did not need to be an inch or two longer in the leg.

       (TTL, p. 24)[13]

The balance of this extract shifts from apprehensions of interior worlds (Mrs. Ramsey’s and the narrator’s) to presentations of penetrable objects and impenetrable substances. If the scene reveals a ‘myriad of impressions’ in Mrs. Ramsey’s mind, it also suggests at least two distinct layers of voices.[14] Through free indirect speech, Woolf simultaneously opens and bridges a subjective and linguistic gap between character and narrator. This technique enables the reader to see, hear and imagine things through Mrs. Ramsey’s physical eyes (‘and now stand up’), through her mind’s eyes (‘it would take a clever man to see it’) and through the narratorial function (‘for they might go to the Lighthouse after all’); but also through the language of both. In this sense, the novel relegates not only consciousness but also language to relative, temporary state. Thus, the characters’ consciousness in the novel blurs into everything which surrounds them.

     This strategy implies a ‘double flexibility’.[15] The narrative operates in a multitude of simultaneous time dimensions (Mrs. Ramsey’s moment with James, the unspecified time of her conjecture on Lily’s attractiveness, the moments of authorial flagging – e.g. ‘she said’) and promenades itself elastically in space; sometimes observing Mrs. Ramsey, sometimes calling on William or on the Lighthouse. In his anthological study of the brown stocking episode in To the Lighthouse, Erich Auerback stresses that the narrative’s elasticity is constructed around interruptions. Indeed, the novel spatial-temporal expansions and contractions are woven in and utilized as frames for inner processes, both of characters present in the scene and for the perspective of characters that are physically absent. In the passage above, Mrs. Ramsey initial comment is continually interrupted by external occurrences and thoughts: first by the image of Bankes and Lily, then by the impressions these two characters have left in her mind. By the time Mrs. Ramsey finishes her sentence (‘and now let me measure your leg’), the reader is allowed a detailed intrusion in her memory, private thoughts and physical actions. Auerbach suggests that Mrs. Ramsey’s action of measuring the brown stocking against James’ legs dramatizes multiple works of consciousness, but in my view, it also connects the character with subliminal appearances and vibrations and establishes the (fragmented) continuity of the section. The novel embroiders the details at which Mrs. Ramsey is gazing at or focusing on into the activity of her own thoughts. In this way, the text of To the Lighthouse both structures the subjects within these dynamics and is structured by them.

     Time is a subjective process in both novels. The reader is embedded in it and experiences it in different ways. As both novels are concerned with the representation of states of mind, time is also embedded in the consciousness of the characters.[16] For Mrs. Ramsey in To the Lighthouse, the ephemeral moments, if they are saturated with significance, they are as important as if they were ten years for a character in a realist novel:

For she knew that he had turned his head as she turned; he was watching her. She knew that he was thinking, You are more beautiful than ever. And she felt herself very beautiful.

         (TL, p. 115)

Virginia Woolf To the Lighthouse 1927

In this passage and elsewhere in the novel, there are many things occurring in any moment simultaneously. Mrs. Ramsey’s words, feelings and thoughts are filtered through the third person narration. This instance of reported or indirect speech allows the narrator to let the reader know what Mrs. Ramsey is thinking; arguably in her own inflection, without the conventional authorial flagging (‘she though’ or ‘she said to herself’). It also facilitates the encompassing of unredeemed fragments of time. There is a sense throughout the novel that something meaningful, stable and eternal is at the core of personal experiences, of which we are only able to grasp a fleeting glimpse. Mrs. Ramsey represents one way of approaching experience. Her subjectivity is textually set against Mr. Ramsey objectivity.[17] Although they each have their moment of vision, Mrs. Ramsey seems to be always trying to make from the moment something permanent. Woolf continuously deploys different modes of indirect speech, most frequently free indirect style to slip in and out the character’s consciousness and incidentally give the reader a sense of multiple time frames; lapses of time which can be chronological, cyclical, mythical, subjective and so on.[18] The novel’s capacity to depict speech, consciousness and span of time is both mimetic and generative.[19] In this way, the characters’ stream of thoughts and their subjective apprehension of time, although seemingly organic and flowing, are actually affects of a meticulously studied narrative technique, one in which Woolf (and Joyce) is a prolific master.

     There is a remarkable artistry in the very act of perception in both novels. I have argued that Woolf and Joyce emphasized not only in To the Lighthouse and Ulysses but throughout their careers the urgency of reformulating language and literary representation by diverging radically from modes of realistic aesthetic. In their deliberate effort to produce a different kind of fiction, and extend its franchise, both writers developed a revolutionary and seminal mode for rendering the flux of experience and its impressions on the mind. The apprehension of the elusive relationship between the mind and reality in To the Lighthouse and Ulysses produces a fictional world which is nevertheless exuberantly embedded in the very elusiveness of the reality they wish to represent. The subjective flow of mental processes is in continuous dialectic with external objective events. If the world in both novels is vivid, radiant and mysteriously meaningful (in Joyce’s case usually profane), it is also somehow dependent on the mind, on the consciousness of both characters and narrators. Both novels powerfully undercut the idea of a stable, non-fragmented, realistically representable human subject. By deploying a constant interplay between modes of speech and generic conventions and performing continuous shifts in perspective both temporal and spatial, both writers become a kind of cchroniclers of the aesthetic and ontological anxieties of the early twentieth century. Each created an extravagant atmosphere of thought in their works and an unprecedented form of representing states of mind.

Bibliography

 

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Auerbach, Erich, Mimesis: The Representation of Reality in Western Literature, trans. by Trask, Willard R. (Princeton: Princeton University Press, 1974)

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[1] Quoted in Harold Bloom, Novelists and Novels: A Collection of Critical Essays (New York: Checkmark Books, 2007),

[2] James Wood, How Fiction Works (New York: Picador, 2008), p. 3.

[3] Peter Brooker (ed.), Modernism/Postmodernism (Harlow: Pearson Education Limited, 1922), p. xi.

 

[4] All quotes from Ulysses will be taken from James Joyce, Ulysses, ed. by Jeri

Johnson (Oxford: Oxford University Press, 1998).

[5] Richard Ellman, Ulysses on the Liffey (London: Faber and Faber, 1974), p. 156.

[6] Derek Artridge, Joyce Effects: On Langrage, Theory, and History (Cambridge: Cambridge University Press, 2000), p. 94.

[7] Steve Connor, Writers and their Work: James Joyce (Plymouth: Northcote House, 1996), p. 61.

[8] Ibid.,p. 61.

[9] For the quest for ‘impersonality’ in literary Modernism see Peter Childs, Modernism (London: Routledge, 2000), p. 7.

[10] Joseph Brooker, Joyce’s Critics: Transitions in Reading and Culture (London: University of Wisconsin Press, 2004), p. 21.

[11] Tim Armstrong, Themes in 20th Century Literature and Culture: Modernism (Cambridge: Polity, 2005), p. 91.

[12] Terry Eagleton, The English Novel: An Introduction (Oxford: Blackwell, 2005), p. 284.

[13] Virginia Woolf, To the Lighthouse (London: Vintage, 1990), p. 24. All quotes from the novel will be taken from this edition and abbreviated as above.

[14] Virginia Woolf, ‘Modern Fiction’, in Woolf, The Essays of Virginia Woolf, 4 vols., ed. Andrew McNeillie (London: Hogarth Press, 1988),vol. IV, p. 160.

[15] Suzanne Raitt, Virginia Woolf’s To the Lighthouse (London: Harvester Wheatsheaf, 1990), p. 68.

[16] Interestingly, Derek Attridge asserts that the function of the term character is that it crystalizes and enforces a number of assumptions about the human subject. See Derek Attridge, Joyce Effects: On Language, Theory, and History (Cambridge: Cambridge University Press, 2000), p.52.

[17] Gay, Peter, ‘On not Psychoanalyzing Virginia Woolf’, in The American Scholar, Vol. 71, No. 2 (Spring 2002), pp.71-75, [Stable URL: http://www.jstor.org/stable/41213293], accessed on 26 April 2015.

[18] Lyn Pykett, Engendering Fictions ( London: Edward Arnold, 1995), p. 9.

[19] Angela Frattorola, ‘Developing an Ear for the Modernist Novel: Virginia Woolf, Dorothy Richardson and James Joyce’, in Journal of Modern Literature, Vol. 31, No. 1 (Fall 2009), p. 137.

Sete anos do Falando em Literatura na Feira do Livro de Madri


O nosso Falando em Literatura começou há 7 anos com o nome de “A última flor do Lácio”. Surgiu como um blog para os meus alunos de português na Espanha, para que eles praticassem o nosso idioma. Depois transformou- se, mudou o nome, e continuou como blog literário. Para a fugacidade dos nossos tempos,  nós estamos persistindo há 2555 dias, mais fortes e animados do que nunca!

A cada ano, o número de leitores vai aumentando. Diariamente, tendo ou não post novo, cerca de 1000 pessoas passam por aqui, no mínimo. Por mês, são mais de 30 mil pessoas. Parece pouco? Mas não está nada mal para um blog literário ( com literatura de qualidade) e sem patrocínio, sem choramingar por leitores, sem spam. Eu não retribuo as visitas de ninguém ( não tenho tempo, mas respondo todos os comentários), quem vem, chega aqui porque quer, sem esperar nada em troca (a não ser a troca de ideias). Trabalho com liberdade, quando e como quero, lendo só o que tenho vontade, sem a imposição de livrarias e/ou editoras. Houve um tempo em que fiz parceria com a Editora Planeta, mas não gostei, achei que não valia a pena, desisti no primeiro mês. “Liberdade, Sancho, é um dos mais preciosos dons que aos homens deram os céus” (Miguel de Cervantes, em Dom Quixote”).

A comemoração hoje foi na Feira do Livro de Madri, que vai até o dia 16 de junho. Veja algumas fotos:

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A Feira abre às 11:00h. Cheguei 40 minutos antes e foi o tempo que levei para chegar no final dos stands. Com a feira vazia pude observar detalhes impossíveis de perceber quando está lotada.
DSC_0053Reparem na boa fé dos expositores. As cargas de livros chegam cedo e ficam esperando nas ruas do parque ou na frente dos stands sem nenhuma vigilância. A minha cabeça de brasileira pensou logo, “no Brasil não ficaria um!”. Pena, não é?

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As caixinhas esperando seu dono chegar. Stand de “comics”, que são as histórias em quadrinhos no Brasil ou banda desenhada em Portugal. Um mercado cada vez mais interessante, que pretendo conhecer mais profundamente em breve.

DSC_0063 As bibliotecas da cidade de Madri têm quase 3 milhões de sócios. Você faz a carteirinha e pode pegar livros em qualquer uma delas.

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Só na cidade de Madri existem 47 bibliotecas públicas. Juntando com as do estado são 202 bibliotecas. Fantástico!

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A TVE, a rede de televisão pública do país, esquentando os motores.

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Não posso deixar de citar essa presença deliciosa na Feira, meu sorvete preferido, o Ben & Jerry’s de baunilha! hahahaDSC_0072

O editor da Léeme, uma editora jovem e muito bacana, com livros atuais, divertidos, bem acabados. Em outro post vou falar das minhas aquisições e dos presentes que deu-me José, esse rapaz simpaticíssimo e que faz um trabalho fantástico atrás do balcão. Em breve (será que breve mesmo?! hahaha) resenhas de três obras dessa editora legal. Um dos livros da Léeme tem o Sócrates na capa:

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Depois eu conto tudo, tudo, tudo!

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Outra simpática editora, a Marian. Ela é da Editora Nevsky, alguns livros têm as capas lindíssimas, depois eu mostro os que trouxe, muito especiais. Os títulos são ótimos, vou virar freguesa. A especialidade deles é a literatura russa.

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As pessoas começando a chegar.

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Olha o livro da Nádia, a primeira biógrafa da Clarice, livro que ajudou demais os pesquisadores. Tradução espanhola!DSC_0076

Livro polêmico do escritor austríaco que foi para o Brasil fugindo do nazismo e acabou suicidando- se com a esposa no Rio de Janeiro, pois pensavam que o nazismo iria dominar o mundo. Tenho muita curiosidade para ler esse livro, está na mão!

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Esse livro eu não conhecia, fiquei curiosa. Roberto Arlt, um argentino com uma obra vasta, falecido em 1942 aos 42 anos, jovem. Vou voltar pra comprar esse depois.


Eu tenho muitaaaas novidades da Feira, vou parar, senão o post vai ficar imenso. Voltarei em breve!

Continuamos sonhando com um mundo de leitores, onde o mal e as guerras só acontecem na ficção. V’ambora, sonhadores! A literatura salva.

Livrarias de Madri (3ª): “Pasajes”


A livraria internacional Pasajes (“Passagens”) é especializada em livros em outros idiomas, mas como sempre, o português é muito pouco privilegiado, uma estante pequena com uma maioria de escritores portugueses e três ou quatro livros de escritores brasileiros. Clarice Lispector, Nélida Piñón e Rubem Fonseca. Bons, mas tenho todos.

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Essa livraria foi fundada em 1999 e ganhou um prêmio de “Bibliodiversidade” em 2008 da Associação de Editores de Madri. Os funcionários sabem falar diferentes idiomas, o que facilita a busca de livros para quem chega e não sabe falar espanhol.

15568_445717428917156_7723586494150428344_nA livraria pertence à Editora Trotta, que editou toda a obra de Walter Benjamin. O nome da livraria vem de um livro do escritor “Passagens”, “o ar livre de um céu azul sem nuvens curvado sobre a folhagem, e no entanto, ficou coberto com o pó de muitos séculos por milhões de folhas às que se agitavam à fresca brisa do afã, o pesado fôlego do pesquisador, a tormenta do tesão juvenil e o sopro indolente da curiosidade”. (livre tradução)

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No alto das estantes fotos de grandes personalidades literárias.

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Na vitrine, livros em francês expostos.

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Em “Pasajes” há livros em espanhol, inglês, francês, alemão, português, russo, italiano, chinês, entre outros.

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A livraria é bem “standard” no quesito arquitetônico/decorativo, o único elemento diferente é essa coluna, suponho que da construção original e que foi mantida.

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São várias salas distribuídas em dois andares.

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Em cada sala há um funcionário para das informações.

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O acervo é bom, mas tem algo nessa livraria que faz com que eu não me sinta muito à vontade. Normalmente entro, compro o que preciso e saio rápido. Não sinto vontade passear e olhar livros. Falta charme e janelas. Acho que é meio claustrofóbica. Por isso e pela escassa oferta de literatura brasileira, vai levar uma nota 5. Já que é internacional, deveria valorizar mais o idioma, que também pertence à União Europeia. É uma livraria de “passagem” mesmo, já que não tem lugar pra sentar e nem cafeteria.

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Um espaço para os professores oferecerem seus serviços.

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O acesso à livraria é fácil. Saindo da Plaza de Colón (uma com a enorme bandeira espanhola), na rua justo em frente é a Génova. Na Praça de Colombo também fica o Consulado do Brasil.

Librería Pasajes

Callé Génova, 3- Madrid

Aberta de segunda à sábado de 09:30- 21:30


Veja as outras livrarias resenhadas AQUI.