Resenha: “Tartufo”, de Molière


Você sabe o motivo da cor amarela ser considerada de má sorte para os atores? Continue lendo para descobrir!

Literatura clássica francesa. Livros seculares como “Tartufo”, do parisino Molière, emocionam- me muito! Uma obra assim você não pode deixar de colocar na sua lista de leituras. Ela representa com perfeição arquétipos sociais, como a hipocrisia, por exemplo. Uma obra aclamada há quase 350 anos, viva e atual.

Molière nasceu Jean- Baptiste Poquelin e foi batizado em 15 de janeiro de 1622, portanto, há 396 anos, um velhinho quase quatrocentão. Não se sabe a data exata do seu nascimento. Era filho de tecelãos, uma família burguesa, que servia a casa real francesa. O autor tinha três formações universitárias: Humanidades, Filosofia e Direito, profissão que exercia, mas não gostava. Abandonou o Direito para dedicar- se ao teatro, sua paixão. Renunciou também o trabalho de tecelão da monarquia que herdaria do seu pai, isso foi em 1643. A família era boêmia, frequentava teatros, inclusive a irmã de Moliére, Magdalene, era atriz famosa. Para ela, usava- se uma expressão “femme d´esprit”, uma mulher inteligente e culta. O sentido original dessa expressão mudou um pouco com o tempo e agregaram ao seu significado a malícia e o humor.

A biografia de Molière, considerado o “pai da comédia francesa”, é muito interessante, mas só vou dar uma pincelada, porque é extensa, recomendo que leiam na íntegra. Nessa edição espanhola (foto), o prólogo é bem interessante, conta toda a cronologia do autor. Ele montou uma companhia de teatro com alguns sócios, foi nessa época que adotou o nome artístico de “Molière”. A companhia foi um fracasso, endividaram- se, não puderam pagar e Molière foi preso.  Depois de solto, saiu de Paris, começou a apresentar- se com a companhia pelo interior da França e deu certo. O dramaturgo tinha muitos inimigos, principalmente atores, desafetos que foi ganhando pela vida. A realeza censurou as suas obras também. Molière teve um filho, Louis, que morreu na infância e teve uma filha, “Esprit Madeleine”, que adulta chamava- se “Madame de Montalant” e um outro menino chamado Pierre. Se eu não contei errado, Moliére encenou vinte e três peças. Ele escrevia e atuava também.

Segundo este prólogo biográfico e crítico, Moliére era um homem sério, calado, triste, feio, baixo, de sobrancelhas e traços grosseiros, e parece que estava acima do peso. Creio que foi uma descrição injusta, o homem não me parece tão pouco agraciado assim, achei até simpático, que você acha?

Doente, perdeu bastante peso e ficou miudinho. Vivia sempre vermelho por causa dos ataques de tosse, tinha tuberculose. Já perto de falecer, também morreram a sua irmã Madeleine e um outro filho, isso prejudicou a sua saúde, dizem. Ele levava suas dores para o palco, sua última obra: “O doente imaginário”. Agora vem a história da cor amarela:

Molière teve uma convulsão em cima do palco, na última cena e vestia amarelo. As pessoas acharam que ele tinha morrido, o que só veio acontecer horas mais tarde na sua casa. E ainda por cima escreveu este epitáfio para o personagem: “Aqui jaz o rei dos atores. Agora se faz de morto e na verdade, o faz muito bem”. Virou lenda. Os sacerdotes recusaram- se a dar- lhe extrema- unção por causa da obra “Tartufo”, principalmente. A Igreja detestava Molière, ele os delatava nas suas obras.

A assinatura de Molière

Então, vamos descobrir o motivo dessa obra ser tão polêmica. “Tartufo” tinha sido censurada durante muito tempo, mas foi autorizada a ser representada pela primeira vez em 5 de fevereiro de 1669 e foi um sucesso absoluto. São doze personagens e a história acontece na casa de Orgón, em Paris:

E Dorine endossa e revela a hipocrisia que acontece no meio social que frequentam (p.101):

– Não será Daphné e o maridinho dela que falam mal de nós? Aqueles cuja conduta mais se presta ao ridículo são sempre os que se metem a falar mal dos outros. Estão sempre prontos a observar o mais leve indício de simpatia para com alguém, espalham a notícia com o maior açodamento, desvirtuando as coisas a seu talante e apresentando-as como querem que sejam vistas. Julgam poder justificar as próprias ações neste mundo, dando às dos outros o colorido que lhes convêm, e procuram inocentar as próprias intrigas com a ilusória esperança de parecerem íntegros; ou então fazer recair alhures algumas migalhas esparsas dessa reprovação pública, que os sobrecarrega em demasia.

Senhora Pernelle, mãe de Orgon
Orgon,marido de Elmire
Elmere, mulher de Orgon
Damis, filho de Orgon
Mariane, filha de Orgon e apaixonada de Valère
Valère, apaixonado de Mariane
Cléante, cunhado de Orgon
Tartufo, falso devoto
Dorine, dama de companhia de Mariane
O senhor Loyal, sargento
Flipote, criada da senhora Pernelle

A senhora Pernelle é uma matriarca déspota, que critica com crueldade toda a sua família. Todos estão alvoroçados, porque receberá a visita de Tartufo, que a mãe idolatra e sua família detesta. A madame reprova várias condutas, até o fato de receberem visitas e a vizinhança comentar, reclamar do barulho e do entra e sai e Cléante rebate (p.101):

(…) – Não há como garantir-se contra calúnia. Não nos preocupemos com os mexericos tolos; esforcemo-nos por viver em completa inocência, dando aos faladores plana liberdade.

Quando algo incomoda demais em alguém, é espelho. A pessoa vê no outro o que tem em si em abundância e o reflexo provoca mal- estar. Disso ao ódio é um pulo. Por isso a Igreja e a Realeza incomodaram- se tanto com Molière? Claro!

O machismo e a inversão de valores também foram assuntos tocados por Moliére. Na cena IV (p.105), acontece um diálogo entre Dorine e Orgón sobre Tartufo e a mulher de Orgón, Elmere, que estava passando muito mal com uma enxaqueca, não dormiu a noite toda, não conseguiu comer e estava sangrando muito. Tartufo, o hóspede deles, jantou um banquete, bebeu vinho, dormiu tranquilamente, e ainda por cima, ELE era o “pobre homem”! O “pobre homem” saiu de manhã para rezar e fortalecer sua alma de bom cristão.

Orgon e Cléante têm falas imensas. Fiquei pensando na memória de elefante que têm que ter os atores que representam esses personagens. Adoraria ver esta obra encenada. Cléante tem uma fala brilhante sobre o verdadeiro e o falso. Claro que a carapuça deve ter caído em muita gente naquela época, e hoje ainda, obviamente. A falsidade. Como saber se uma pessoa está sendo sincera ou simplesmente o seu discurso é manipulado para conseguir certos objetivos? Você consegue perceber?

Tartufo aparece na cena VII declarando- se para a esposa de Orgon, Elmere. E ela surpresa, “tão bom cristão”. Enquanto isso, Orgon estava querendo obrigar a filha a casar- se com Tartufo por dinheiro. E Tartufo culpa a mulher pelo seu desejo de cobiçar a mulher alheia (a partir daqui usei o PDF em português para facilitar as citas):

– Ah! Mas nem por ser devoto eu não sou menos homem; e quando se chega a ver seus celestes atrativos, o coração torna-se escravo e não raciocina mais. Sei que essas palavras parecem estranhas partindo de mim, mas, senhora, apesar de tudo, não sou um anjo; e se condena a confissão que acabo de lhe fazer, deve culpar seus encantos.

Iria ficar tudo em segredo, mas Damis ouviu tudo escondido e depois chega o marido também e o armou- se o barraco. Mas, pensa que Tartufo foi banido da família pela ousadia de assediar a mulher do dono da casa que estava hospedado?! O marido solucionou o problema obrigando Tartufo a casar- se com sua filha. Você acha que Orgon trocaria a posição social de Tartufo por honra e dignidade?!

A história tem reveses. Quem parece que vai ganhar, perde e vice- versa. Um texto bem contruido, amarradíssimo e surpreendente! Muito gostoso de ser lido, recomendadíssimo!

Molière. Tartufo. Catedra. Letras Universales, Madrid, 2010. Páginas: 179

Se quiser ler um PDF em espanhol (grátis!), clica aqui.

Se preferir ler em português, é só clicar aqui (grátis!).

Se quiser ler em inglês, clica aqui.

Boa leitura!

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O poder da alegria, do filósofo Frédéric Lenoir


A natureza nos avisa mediante um signo preciso de que alcançamos nosso destino. Esse signo é a alegria. (Bergson)

Esse livro não se vende como auto- ajuda, embora possa ajudar muita gente. O autor nos convida a conhecer a alegria verdadeira e profunda, a forma mais desejável de felicidade, baixo uma visão filosófica. E sim, há formas de provocá- la e cultivá- la nesses tempos de felicidade artificial da cultura narcisista e consumista. O que o autor propõe também não é a ataraxia (ausência de sofrimento e perturbações) proposta por Epicuro, pelos estóicos e os céticos/niilistas. Lenoir encontra alegria mesmo com as dificuldades da vida. A eliminação de problemas e tristezas não garante a felicidade nem a alegria.

Sou consciente de haver recebido muito da vida. Tive a oportunidade de ter pais cultos com os que aprendi muito. Quando era menino, meu pai passava generosamente uma boa parte do seu tempo livre nos lendo livros. Quando cheguei à adolescência, me fez conhecer a filosofia. Foi uma revelação. (F.L.)

O que é a alegria?

A alegria é uma força que nos empurra, é a manifestação do nosso poder vital, é um meio para alcançar esta força de existir. “O apaixonado na presença do ser amado, o jogador no momento da vitória, o pesquisador no momento da descoberta”, essa emoção, o prazer desses momentos, talvez sejam bons exemplos da forma mais concreta da felicidade.

O autor mostra três vias possíveis, concretas, para poder chegar à alegria. Parece que a alegria só pode acontecer se for espontânea, mas não é bem assim, temos que provocá- la:

A alegria é um poder, cultiva- la. (Dalai Lama)

Como disse o escritor Mathieu Terence:

A alegria não é voluntária. Nem se decide, nem se decreta tampouco. Há que se fugir como da peste daqueles que querem vender sua receita. Ao contrário, a alegria exige um clima favorável: um estado mental similar ao estado de graça.”

Lenoir propõe vários tópicos como a gratidão, a renúncia, a perseverança, etc, ilustrando com suas próprias experiências. Nesse momento, retiro o que disse a princípio…o livro é sim auto- ajuda mascarada de filosofia.

O mais ignorante dos homens é o que renuncia ao que sabe de si mesmo para adotar a opinião dos demais.” (Ahmad Ibn Ata Allah)

Bem, depois ele volta pra filosofia de novo. Cita Spinoza e sua visão sobre a alegria. Cita Jung e até Jesus, que foi dos poucos que colocou em prática o amor que pregou. A conclusão não é muito diferente do senso comum, o que Gandhi falou: ” a verdadeira revolução é interior”.

Ser capaz de encontrar sua alegria na alegria dos outros: esse é o segredo da felicidade. (Bernanos)

“Aceitar o mundo” é uma das formas de encontrar a paz e felicidade. Desligar- se do que acontece no mundo e “religar- se” é o termo utilizado para o caminho ao qual tentamos criar relacionamentos justos, verdadeiros, relações que nos fazem acreditar e nos fazem sentir alegres. Devemos manter longe quem nos asfixia. É questão de sobrevivência.

O autor considera a alegria completamente viável, mesmo para pessoas que passaram situações extremas, como as que viveram em campos de concentração. Nós consentimos a tristeza ou a alegria. O poder do consentimento é enorme. A gente permite, mesmo sem notar que a alegria ou tristeza se instale. Complicado, não? Então, cultivemos a alegria mesmo quando ela parece estar muito distante.

Bem, um livro água com açúcar, que fala de coisas triviais, leitura fácil pra passar o tempo esperando o avião, a consulta do dentista ou afins, nada profundo, muitos tópicos mastigados, só recomendo para leitores iniciantes.

Eu achei o autor bem charmoso, Frédéric Lenoir (Madagascar, 03/06/1962) é antropólogo e filósofo:

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Lenoir, Frédéric; El poder de la alegría. Plataforma, Barcelona, 2016. Páginas: 186

O ganhador do Nobel de Literatura 2016 é Bob Dylan!!


O cantor e compositor americano Bob Dylan (1941) é o ganhador do Nobel de Literatura 2016, o maior prêmio literário do mundo. Além do prestígio, do reconhecimento mundial e propaganda internacional (que ele nem precisa), o vencedor normalmente leva mais de 1 milhão de euros (que ele também não precisa). Na minha opinião ganhou a zebra. Se gostei? Não. Preferiria alguém que se dedica só à literatura.

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Tudo bem, é um músico excelente (a voz nem tanto), mas já não tem o Grammy pra isto?! Bem, vamos lá, então vamos cantar: clica aqui e ouça 10 canções do Nobel.

Creio que ninguém votou em Bob na nossa enquete, então os prêmios ficarão para um próximo sorteio (em breve).

Dez incríveis primeiros parágrafos


Um livro te pega pela capa, pelo título, sinopse, autor ou primeiro parágrafo? Eu escolho pelo autor e primeiro parágrafo.

Selecionei dez primeiros parágrafos de livros que podem agarrar o leitor pela curiosidade que despertam, veja:

1.”Intimidade”, de Hanif Kureish

Essa é a noite mais triste, porque vou embora e não voltarei. Amanhã de manhã, quando a mulher com que vivi durante seis anos tenha ido trabalhar na sua bicicleta e nossos filhos estejam no parque brincando de bola, colocarei umas coisas em uma mala, sairei discretamente de casa, esperando que ninguém me veja, e tomarei o metrô para ir ao apartamento de Victor: ali, durante um período indeterminado, dormirei no chão do pequeno quarto junto à cozinha que amavelmente me ofereceu. Cada manhã arrastarei o fino e estreito colchão até o quarto de despejo.

  • Por que será que ele fugiu?

2. “As intermitências da morte”, José Saramago

No dia seguinte ninguém morreu. O fato, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenômeno semelhante, passar- se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e noturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. (…)

  • A morte que deixa de matar. Por que será que aconteceu isso?!

3. “A confissão”, de Flávio Carneiro

A senhora ouça- me, por favor. Em primeiro lugar, peço desculpas pelo mau jeito. Sei que não foi nada gentil da minha parte interceptar o seu carro àquela hora da madrugada e apontar uma arma à sua cabeça, ordenando, ou pedindo, depende do modo como se vejam as coisas, creio ter- lhe pedido para descer do carro, embora o gesto de lhe apontar a arma possa indicar que era uma ordem, não um pedido, pode ser, não vamos discutir por ninharias, de qualquer maneira reconheço que não fui gentil.

  • Bandido ou polícia?

4. “O jogo do anjo”, de Carlos Ruiz Zafón

Um escritor nunca esquece a primeira vez que aceita umas moedas ou um elogio em troca de uma história. Nunca esquece a primeira vez que sente o doce veneno da vaidade no sangue e acredita que, se consegue que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de colocar um teto sobre a sua cabeça, um prato quente ao final do dia e o que mais deseja: seu nome impresso em um miserável pedaço de papel que seguramente viverá mais que ele. Um escritor está condenado a recordar esse momento, porque então já está perdido e sua alma tem um preço.

  • Genial, não?! Esse livro é a segunda parte da saga de “A sombra do vento”. No mês de novembro vai sair na Espanha a quarta parte, “O labirinto dos espíritos”.

5. “Numa e ninfa”, de Lima Barreto (conto)

Na rua não havia quem não apontasse a união daquele casal. Ela não era muito alta, mas tinha uma fronte reta e dominadora, uns olhos de visada segura, rasgando a cabeça, o busto erguido, de forma a possuir não sei que ar de força, de domínio, de orgulho; ele era pequenino, sumido, tinha a barba rala, mas todos lhe conheciam o talento e a ilustração. Deputado há bem duas legislaturas, não fizera em começo grande figura; entretanto, surpreendendo todos, um belo dia fez um ‘brilharete’, um lindo discurso tão bom e sólido que toda a gente ficou admirada de sair dos lábios que até então ali estiveram hermeticamente fechados.

  • Esse primeiro parágrafo eu escolhi, porque Lima contou toda uma história, genialmente descrita, em poucas palavras.

6. “Banguê”, José Lins do Rêgo

Afastara- me uns dez anos de Santa- Rosa. O engenho vinha sendo para mim um campo de recreio nas férias do colégio e da universidade. Fizera- me um homem entre gente estranha, nos exames, nos estudos, em casas de pensão. O Mundo cresceu tanto para mim que Santa- Rosa se reduzira a um grande nada. Vinte e quatro anos, homem, senhor do meu destino, formado em Direito, sem saber fazer nada. Nada de grande tinha aprendido, nenhum entusiasmo trazia dos meus anos de aprendizagem. Agora tudo estava terminado. Um simples ato de fim de ano, e a vida devia tomar outro rumo.

  • É um dos meus livros preferidos da literatura brasileira. O ar melancólico, o romantismo, o amor impossível são os seus principais ingredientes. O primeiro parágrafo dá o tom que acompanha todo o livro. Leia a resenha aqui.

7. “Saber perder”, de David Trueba

O desejo trabalha como o vento. Sem esforço aparente. Se encontra as velas estendidas nos arrastará à velocidade de vertigem. Se as portas e  janelas estiverem fechadas, golpeará durante um tempo em busca das gretas ou fissuras que lhe permitirão filtrarem- se. O desejo associado a um objeto de desejo nos condena a ele. Mas há outra forma de desejo, abstrata, desconcertante, que nos envolve como um estado de ânimo. Anuncia que estamos prontos para o desejo e só nos falta esperar, soltar as velas, que sopre o vento. É o desejo de desejar.

  • Acho genial a analogia que o autor fez sobre o desejo de uma forma poética e certeira. A tradução ao espanhol é minha, se você pegar alguma edição em português, pode ser que esteja diferente.

 8. “O Grande Gatsby”, Francis Scott Fitzgerald

Na minha primeira infância meu pai me deu um conselho que, desde então, não cessou de dar- me voltar pela cabeça.
‘Cada vez que te sintas inclinado a criticar alguém- me disse- tenha presente que nem todo mundo teve as suas vantagens…’

  • Na verdade, são os dois primeiros parágrafos, precisei do segundo para completar o primeiro. Adoro o conselho do pai do personagem, acho que serve pra todo mundo.

9. “O professor”, de Frank McCourt

Já estão chegando.
E eu não estou preparado.
Como iria estar?
Sou um professor novo, e estou aprendendo com a prática.

Os quatro primeiros parágrafos carregados de significados. A falta de preparação e prática nas universidades (do mundo!) fazem com que os recém- formados utilizem, sem querer, os alunos como cobaias, na base do erro e acerto, como se fossem seu laboratório, experimentos científicos. Esse livro (vai ter resenha!) é autobiográfico, o professor americano Frank McCourt conta as suas experiências em mais de 30 anos de profissão.

10. Anna Karenina, Liev Tolstói

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Todas as famílias felizes são semelhantes; cada família infeliz é infeliz a seu modo.

Um dos melhores livros de um dos maiores escritores da literatura mundial, “Anna karenina”, começa assim, com essa oração curtinha e uma sentença pra pensar.


Você leria algum desses livros por causa do seu primeiro parágrafo?

Agenda de feiras de livros no Brasil (Agosto/Setembro) e algum desabafo


Veja as feiras de livros que estão acontecendo agora ou que começarão em setembro:

Eu fiquei tão constrangida quando vi a lista de “autores” que dariam autógrafos, que nem vou reproduzir aqui. O panorama literário brasileiro, infelizmente, vai de mal a pior. Qualidade literária zero em muitas feiras, reflexo dos leitores? Quem domina quem? O mercado ou os leitores que pedem literatura descartável?

Acho que essa só vale a pena pra passear e pegar algum desconto nos livros (de verdade).

Aonde?

Pavilhão do Anhembi
Segunda à Sexta: 9h às 22h 
Sábado e Domingo: 10h às 22h 
Dia 04/09 das 10h às 21h
  • 3ª Festa Literária Internacional de Maringá (FLIM), de 13 a 18 de setembro, veja programação.

Essa é uma feira que você terá a oportunidade de conhecer pessoalmente autores estrangeiros como o português Antônio Vilhena, o angolano José Eduardo Agualusa e o americano William C. Gordon (ex- marido da escritora Isabel Allende); e a prata da casa: Ana Maria Machado,  Caco Barcellos e José Castello.

Aonde?
Centro de Convivência Renato Celidônio, anexo ao Paço Municipal.

Escritores de peso participarão dessa feira: Luis Ruffato, Milton Hatoum e Laurentino Gomes, por exemplo (veja a lista). 

Aonde?

Fundação Cultural Calmon Barreto
Praça Arthur Bernardes, nº 10, Centro Araxá / MG
Informações: (34) 3691-7133
E-mail: fliaraxa@fliaraxa.com.br

 7º Festa Literária de Marechal Deodoro, VII FLIMAR, 31 de agosto a 3 setembro 2016. Site.

Essa feira em Alagoas vai começar amanhã, os homenageados são Fagner e Nice de Oliveira. Veja a programação.

Aonde?

Não sei. No site não aparece o endereço (fail!) e se aparecer está beeeem escondido. Se você quiser ir, escreva para: flimar.marechaldeodoro@gmail.com


Fiquem atentos, pois no final de setembro, aqui no Falando em Literatura, estará a agenda de feiras mais importantes do Brasil e do mundo. Outubro será bem interessante.


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As feiras de livros, principalmente as financiadas com dinheiro público, devem servir para fomentar a leitura (a boa literatura), atrair leitores, devem promover grandes autores, de relevância (mesmo que não sejam populares), mas bons autores, para que as pessoas, não só tenham motivação para ir até essas feiras, mas que levem para casa livros que acrescentem algo positivo. Mais que isso: deveriam existir palestras ensinando a importância da leitura, do estudo, das letras na vida das pessoas. As Letras, Ciências Humanas e Sociais estão morrendo, meu povo!

Caso contrário, será um grupo de escritores amigos se auto- promovendo, editoras enchendo as burras de dinheiro e o pior: a promoção da literatura medíocre como na Bienal Internacional do Livro de São Paulo está fazendo agora, promovendo literatura vagabunda, que nem deveria ser chamada de “literatura”… youtubers, popozudas e essa baixaria toda. Ou seja, isso é perder tempo e dinheiro suado do bolso do brasileiro. Não faz sentido!

O panorama literário brasileiro nunca esteve pior. A força que está ganhando a mediocridade é absoluta em um país sem tradição leitora, com um índice alto de analfabetismo ainda por combater, livro parece objeto completamente descartável.

A UNESCO disse em 2014, que no Brasil havia 14 milhões de adultos analfabetos. E os analfabetos funcionais?! Aqueles que sabem escrever o nome, leem mal, escrevem quase nada, não sabem interpretar um texto, mas que estão fora dessas estatísticas? Um batalhão! Não vamos “tapar o sol com a peneira”, vamos falar a verdade. As feiras têm que servir, ao menos, para inspirar e não deseducar e banir leitores!

Confesso, amigos, que nunca estive tão desanimada. Como disse Drummond: “Lutar com palavras/ é a luta mais vã”, mas vamos lá, respiremos fundo: “Entanto lutamos/ mal rompe a manhã”.

Resenha: “A queda”, de Albert Camus


 “A queda” (1956), do francês Albert Camus, pegou- me logo por causa da primeira frase do livro:

Posso oferecer- lhe os meus serviços, meu caro senhor, sem me tornar inoportuno? (p.7)

Um livro que começa dessa forma para mim é irresistível. Aliás, esse tipo de livro é o que gosto: o que faz pensar, que te faz construir e desconstruir, que lê o nosso pensamento mais íntimo, que diz sem dizer, que oculta nas entrelinhas o essencial. Enfim, um livro que vale a pena!

Papo de bar. O personagem pega alguém para iniciar uma conversa em um bar no porto de  Amsterdã chamado “México City”. O narrador- personagem, Jean Baptiste Clemente, formado em Direito, é “juiz- penitente” (ele explica o que vem a ser essa profissão). Dirige- se a um “senhor” com o questionamento citado e que despertou a curiosidade dessa leitora. Nesse “diálogo” só ouvimos uma voz, não sabemos nada do que o outro responde, fica o enigma. Esse é um dos elementos de um bom livro: a surpresa, a novidade, a sensação agradável de nunca ter lido nada parecido  e de não conseguir adivinhar o que vem depois. Isso é difícil, dificílimo em literatura, já que tudo é cópia da cópia da cópia,- ainda mais agora, a era da facilidade, da rapidez e do descartável.

A obra é curta (85 páginas), mas não é “rápida”. Exige atenção, tudo é importante, se pular uma linha vai fazer falta depois. Não salte parágrafos, muito menos páginas. Abaixo, um trechinho dos muitos que destaquei (p.16):

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E nesse “diálogo”, o narrador vai dizendo quem é e do que gosta sem dar a chance do outro adivinhar. Assim vamos desencapando o personagem. Sabemos que é um homem de meia idade, frequentador dos bares do porto, que já foi bem sucedido, mas que por algum motivo (que vamos descobrindo) abandonou a vida anterior. Mora no bairro judeu na pós- guerra, depois de Hitler quase arrasar com tudo.

Quando você lê o título, o que lhe vem à cabeça? A queda de alguém poderoso e que perdeu tudo? “A queda” (1958) em questão é outra, muito mais profunda e interessante. Romance escrito por um filósofo foge de superficialidades e obviedades, ele mergulhou fundo nas questões. Camus recriou em forma de ficção, o seu pensamento filosófico acerca do homem. É como se fossem exemplos,  a materialização das suas ideias.

O narrador começa a dar a nota sobre algumas cidades europeias. Veja a crítica apimentada sobre Paris, a sua terra natal (igual que a do seu interlocutor mudo):

(…) Paris é uma autêntica ilusão de ótica, um imponente cenário habitado por quatro milhões de siluetas. Perto de cinco milhões no último recenseamento? Está bem, devem ter feito meninos. Não me admiro. Sempre me pareceu que nossos concidadãos tinham duas paixões violentas: as ideias e a fornicação.  (…) Bastar- lhes- á uma frase para definir o homem moderno: fornicava e lia jornais. (…) (p.9)

Jean conta sobre o seu passado, sua vida plena e feliz. Ele adorava ajudar os demais, sentia- se bem com isso, recompensado; era equilibrado, boa saúde, bom corpo, belo, honesto, bem conceituado, era respeitado. Fazia tudo o que esperavam dele. Um cidadão modelo. Considerava- se um sujeito de sorte, no entanto, queria sempre mais e mais. “Cada alegria fazia- me desejar outra” (p.21).

Algo aconteceu em uma noite de outono perto do Sena, em Paris, e tudo mudou. Esse dia ficou marcado: o início da sua queda. O homem cheio de virtudes ajudava os demais por vaidade. Ele conseguia enganar a sociedade, os amigos e clientes, no entanto, o auto- engano é mais complicado:

(…) Quando me ocupava de outrem, era pura condescendência, em plena liberdade, e todo o mérito revertia a meu favor: eu subia um degrau no amor a mim mesmo. (p.32)

O personagem começa a desvendar- se. Na verdade, o que sentia pelo outro e a sua dor, suas dificuldades, não lhe importavam muito. Jean era superficial, esquecia rápido, não se envolvia de fato com ninguém. A sua reputação é o que importava. Fazer o correto com uma intenção ruim tira o mérito?

Jean Baptiste esquecia até de quem o ofendia, não porque era bom ou perdoava, simplesmente os esquecia, não lhes importava. Ele era completamente egocêntrico:

(…) Nunca me lembrei senão de mim mesmo. (p.33)

A memória, a consciência naquela noite voltou. E conviver com as próprias verdades pode ser algo bem perigo, muitas vezes, até mortal. Começou a relembrar acontecimentos e viu que algumas de suas reações eram por pura covardia e não bondade. Uma farsa.

(…) Que importa, não é assim, humilhar o próprio espírito se desse modo se consegue dominar o mundo inteiro? (p.36)

A natureza foi generosa com Jean Baptiste. Era bonito e tinha facilidade com as mulheres, mas amou verdadeiramente uma só mulher durante toda a sua vida. Antes ele buscava “objetos de prazer e conquista”, mas com essa mulher ele passou a ser o “objeto”:

O verdadeiro amor é excecional, dois ou três em cada século, mais ou menos. O resto do tempo, há a vaidade ou o tédio. (p.37)

A pior forma de amor? Essa (p.39):

(…) Mas uma certa raça, a pior e a mais infeliz: ‘Não me ames e sê- me fiel!’

O livro é muito intenso, todos os parágrafos são interessantes, um livro inteiro “sublinhável”.

Uma das histórias que ele contou (páginas 43 e 44) mostra que ele realmente não tinha uma essência nobre,  ele só ajudava se houvesse “plateia”, se pudesse ser reconhecido. Você conhece alguém assim?

A conversa sai de passeio, sai do bar, os dois homens (que a essas alturas já desconfio que não são dois mesmo, será ele e sua consciência?) caminham até a casa de Jean. No dia seguinte vão para a ilha de Marken para ver o Zuiderzee, que é um golfo, uma ilha de pescadores quase desértica, pitoresca, “Uma aldeia de bonecas, não acha?” (p. 45). O protagonista diz que vai mostrar o que realmente há de importante ali.

Comenta sobre o suicídio, já teve pensamentos nesse sentido:

(…) Os homens só se convencem das nossas razões, da nossa sinceridade e da gravidade das nossas penas com a nossa morte. Enquanto vivos,  nosso caso é duvidoso, não temos direto senão ao ceticismo. (p.46)

Conclui que os suicidas, muitas vezes, abandonam a vida como meio de punição ao outro. No entanto, nem com a morte isso acontece, porque a faculdade de esquecimento do homem é muito forte. A pessoa perde a vida e o outro vai continuar, sem mais. O suicídio não é efetivo como vingança ou castigo.

Diz que as pessoas estão prontas e dispostas sempre para duas coisas: julgar e fornicar. (p.48)

Também conta que uma das maiores ofensas às pessoas, algo que realmente as incomoda é a felicidade e o sucesso (p. 49):

(…) Mas para ser feliz é preciso não nos ocuparmos muito dos outros. As alternativas, contudo, ficam dessa forma limitadas. Feliz e condenado, ou absolvido e desgraçado. Quanto a mim, a injustiça era maior: eu era condenado de felicidades antigas.”

Que tristeza, não? Quem nunca teve essa necessidade de esconder felicidades para não despertar invejas? Repare em “gente- corvo”, que te abraça num momento de infelicidade com um dissimulado sorrisinho nos lábios, sente- se bem com a desgraça alheia, numa falsa atitude de bondade. Fuja!

A lucidez em Camus é como farol que ilumina. Alguns chamam até de pessimismo. Eu chamo de “verdade”. Todos querem ser inocentes, mas ninguém é. Veja isso:

Eis o que nenhum homem (salvo os que não vivem, quero dizer os sábios) pode suportar. A única defesa está na maldade. As pessoas apressam- se, então, a julgar, para elas próprias não serem julgadas. Que quer? A ideia mais natural para o homem, o que lhe surge ingenuamente, como do fundo da sua natureza, é a ideia da sua inocência.

Eu disse que era um livro profundo. E “sufoca”, fica mais intenso ainda a partir da página 50. Se eu for destacar tudo, vou acabar escrevendo o livro inteiro aqui. Eu acho que a filosofia ensina mais e descreve melhor o homem do que qualquer outra disciplina.

Desse livro ficam mais perguntas que respostas: o homem é tão desvirtuoso por causa da sociedade que criou e suas exigências ou é próprio da natureza humana, independente da época e local? E sim: o homem é mais que imperfeito. Quem leva a vida a sério sofre.

Quase todo mundo leva uma vida dupla: o que se é (ou pensa ser) e a que se mostra ao outro.

O tempo. Nos ensinaram a correr desde cedo. A maioria corre por medo de não conseguir realizar tudo o que se pretende ou sonha. Aí vem o pensamento da morte que fica cravado em quem tem a consciência do fim.

Todo o processo de perda, a queda do personagem, tem um objetivo final, que é desprender- se de todas as convenções e amarras em busca da liberdade.

Com isso fabrico um retrato que é de todos e de ninguém. (…) Mas, ao mesmo tempo, o retrato o retrato que apresento aos meus contemporâneos torna- se um espelho. (p.81)

Só no final que você vai descobrir realmente quem é o interlocutor. E se você ler só a última página não vai entender nada, vai ter mesmo que passar por todo o processo que eu passei.


Albert Camus (Mondovi, Argélia, 07/11/1913- Villeblevin, França, 04/01/1960), jornalista, doutor em Filosofia, romancista, ensaísta, dramaturgo e militante político da Resistência Francesa, que lutava contra o nazismo. Ganhou o Nobel de Literatura em 1957. Em 1943, Camus passou três dias em São Paulo. Sofria de tuberculose. A doença atrapalhou bastante a sua carreira acadêmica, não pode ser professor. Morreu cedo, aos 46 anos, em um acidente de carro. O escritor checo Jan Zabrana (1931-1984) afirmou em seu diário, que o acidente foi proposital,  foi assassinado pelo governo russo.

albert-camusTuberculoso e fumante. Difícil achar uma foto de Albert Camus que não esteja com um cigarro na boca.


A edição lida é da portuguesa “Livros do Brasil”, que pertence a Porto Editora. Aproveito para deixar o link de uma das páginas da editora com vocabulário e dicionário da língua portuguesa, que você pode consultar online, Espaço da Língua Portuguesa, clique aqui.

Esse livro é daqueles que eu gostaria de ter escrito, está na linha de Sartre e Dostóievski, humanista.  Recomendadíssimo, coloque na sua lista!

40072-c3bdcfdab21a44ecacc48275daab2aa6Camus, Albert. A queda. Livros do Brasil, Porto, 2015. 85 páginas

Está chegando: 75ª Feira do Livro de Madrid (com uma “pitada” de desânimo)


Feiras de livros são oportunidades fantásticas para conhecer todos os tipos de autores, de todos os gêneros e lugares. A Feira do Livro de Madri, cidade onde moro, dura 22 dias e, normalmente, traz um país convidado. Esse ano: a França. Isso implica que teremos a oportunidade de conhecer autores franceses contemporâneos. Já contei que tenho uma quedinha pelos franceses? Leia aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

A lista de escritores que estarão presentes já começou a ser atualizada, até o dia da feira irão entrando mais nomes. Por exemplo:

No dia 5 de junho, você poderá conhecer em pessoa o dono do melhor restaurante do mundo, Ferrán Adrià e seus livros com receitas maravilhosas.

ferran_adria_recetas

Julia Navarro, escritora espanhola, essa vale a pena conhecer. Eu li o “Dime quien soy” e gostei bastante. Ela vai estar em vários dias, melhor consultar a lista.julia

Ainda não divulgaram os escritores franceses que estarão presentes.

A lista, por enquanto, deixou- me muito desanimada. Viram a minha animação do início? Pois é, c’est fini. A literatura de não- ficção deve entrar, pois há coisas muito úteis que precisamos. Eu mesma citei o Ferràn Adrià. Há ensaios, divulgação científica, dicionários, fotografia, gastronomia, muita coisa bacana, mas não vale tudo.

Nos últimos três anos, principalmente, a onda de youtubers e “gente nada a ver com literatura” invadiram a feira e o nosso mundo literário. A literatura vai minguando. Qualquer um acha que pode escrever um livro. Poder até pode, mas não é literatura. Há livros muito respeitáveis de não- ficção, que são úteis e necessários, mas não é o caso da lista que acabei de ver. Desânimo.

Isso pode ter consequências muito negativas: a juventude só vai ler porcaria; os escritores decentes não vão querer participar da palhaçada; os consumidores de literatura (ficção, artística, principalmente) deixarão de ir e a feira acabará se transformando numa festa de babacas, adolescentes alucinados e curiosos querendo tirar fotos com artistas e youtubers.

Eu mesma, na feira de 2014, fui cedinho para “ficar na fila”, pois adoraria conhecer Luis Goytisolo (1935) pessoalmente. Um escritor de primeira linha, membro da Real Academia Española (irmão do também escritor, o célebre Juan Goytisolo), escreveu livros incríveis como “Antagonía”, uma obra- prima. Esse autor espanhol é comparado com Proust. Cheguei esbaforida, “Ué, cadê a fila?!”. Não havia ninguém. A minha surpresa foi tanta que o autor percebeu. “Não sou um autor popular”. A vantagem é que pude conversar bastante com ele e tenho o privilégio de ter quase toda a sua obra (carinhosamente) autografada. Mas, não consegui evitar a sensação de tristeza e desencanto: “se ninguém lê um autor desses…que fazemos?!”

Caramba, nosso espaço já é muito restrito, será mesmo que eles têm que invadir a nossa praia?! Claro que sim, as editoras e “escritores” (que normalmente nem escrevem, alguém faz isso por eles) querem é ganhar dinheiro, não importa com quê. Oportunistas.

Cartel FLM16O cartaz desse ano é de Emilio Gil, um artista gráfico.

Vou aguardar para ver se melhora. Será que virá pelo menos algum desses escritores franceses: Patrick Modiano, Pierre Lemaitre, Fred Vargas, Laurent Mauvignier, J. M. G. Le Clézio, Frédéric Beigbeder? Senão, fico aqui com a minha maravilhosa biblioteca.