Nelson Rodrigues traduzido na Espanha


Uma coletânea de trinta e nove textos do pernambucano Nelson Rodrigues (1912-1980) foi publicada na Espanha em 2018, sob o nome: “No tengo culpa de que la vida sea como es” (“Não tenho a culpa de que a vida seja como ela é”). Com tradução do consagrado artista Pablo del Barco e prefácio do escritor e jornalista Manuel Jabois, ou seja, uma edição caprichada. O livro segue a linha editorial de um volume publicado no Rio de Janeiro em 2009, pela Agora Editora; na Espanha, a editora “Días Contados” abriu as portas ao nosso doce “Anjo pornográfico”, taxado em outras épocas como “obsceno” e “vulgar”. A coletânea reúne textos publicados originalmente no jornal “Última hora” entre 1952 e 1955.


Los lectores hispanos tendrán la oportunidad de leer en el idioma de Cervantes a uno de los más irreventes escritores brasileños: Nelson Rodrigues, que era un verdadero bocazas, vamos. Utilizó el idioma de la calle para expresar de forma fidedigna el arte del pueblo brasileño.


Nelson Rodrigues, jornalista e dramaturgo, já foram para o teatro, a TV e o cinema, como “A dama da lotação” e “Vestido de noiva”. E agora seus contos “viajaram” para a Espanha.

É uma satisfação saber que a nossa literatura foi bem tratada no exterior com uma obra assim. A pena é que ainda sejam muito escassas.

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O fomento da nossa língua e literatura no exterior nunca foi prioridade dos governos brasileiros, em todos os tempos, em toda a nossa história. Parece que a ignorância faz pensar que não seja um bom negócio. Se o Brasil fosse um país comprometido com a Educação e a Cultura pensaria diferente e já teria um Instituto como outros países. Portugal, do tamanho da Bahia, fomenta o português através do Instituto Camões gerando negócios e empregos no próprio país e no exterior. É o nosso idioma? Sim e não. Eles puxam a brasa para a variante deles. Precisamos de um Instituto com o nosso sotaque e cultura.

A Espanha tem o Instituto Cervantes, que, com sua força, conseguiu ultrapassar o português em número de falantes no mundo. Se o Brasil tivesse boa vontade estaríamos em melhor posição, o Brasil podería ter o segundo idioma ocidental mais falado do mundo, só atrás do inglês; mas o país está em franco retrocesso…e em todos os setores.

Se você quiser comprar o livro citado, ele está sendo vendido nas melhores livrarias da Espanha, é só clicar neste link.

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Resenha: “Liberação”, de Luis Goytisolo


Começo contando uma historinha: na Feira do Livro de Madri de 2014, pensei encontrar uma fila quilométrica no estande de Luis Goytisolo Gay (Barcelona, 17/03/1935), afinal, é um dos expoentes da literatura na Espanha, membro da Real Academia Española, desde 1994, é o Proust espanhol. Goytisolo escreveu o prolixo “Antagonía”, são mais de 1000 páginas de luxuosa narrativa. Quando cheguei no seu estande, estranhei:  o autor estava sozinho. Contei sobre a minha surpresa e ele respondeu: “nunca vou ser um escritor popular”. Concordo. Literatura artística, bem elaborada, infelizmente, nunca será popular. Quase sessenta anos de excelente literatura e não havia ninguém na fila!

Já que estávamos sozinhos, aproveitei para pedir que autografasse vários livros , o que fez com toda a gentileza e simpatia:

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Luis Goytisolo, Feira do Livro de Madri, 2014. Foto: Fernanda Sampaio

Luis pertence à uma família literária. Seus dois irmãos também são escritores, José (poeta) e Juan (narrativa), este último, premiadíssimo, inclusive recebeu o Príncipe de Astúrias. Juan Goytisolo, infelizmente, faleceu em junho deste ano.

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Fernanda Sampaio e Luis Goytisolo na Feira do Livro 2014. Foto: Antonio Jiménez

A impressão que tive de Luis Goytisolo é que nunca vai envelhecer, tem o espírito jovem.

O meu exemplar com dedicatória:

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Saiba mais detalhes do meu encontro com Luis Goytisolo, aqui.

A obra

Como “Liberación” não está editado em português, uso “Liberação” (2014), ao pé da letra, mas poderia ser também “Libertação”. Este é o antepenúltimo livro de Luis Goytisolo, o mais recente é de 2016, “El atasco y demás fábulas ” (“O bloqueio e demais fábulas”). A sua primeira obra publicada é de 1958, “Las afueras”, ( “Os arredores”, algo como “A periferia”).

“Liberação” está dividido em nove capítulos numerados, com subcapítulos titulados. O primeiro capítulo possui nove histórias (aparentemente) independentes, a primeira: “Resumo do ano” (p.13), encontrei logo de cara umas linhas duras, lembrou- me o naturalismo de Aluísio de Azevedo. O protagonista chama- se Ricardo, é casado com Magda. A família tem uma casa de campo chamada “A Nogueira”. Ele fala da tosse incômoda dos pedestres exalando bacilos.

A  demolição de um edifício vai liberar o espaço, não só de uma edificação em ruínas, mas de tudo o que está implícito nele, “(…) eflúvios cuja carga de miséria, enfermidade, sofrimento e desgraça institui- se contagiosa, assim a inquietação do ser humano ante qualquer decidida revisão de seu passado individual ou coletivo que deixe descoberta a realidade mais profunda, mas irrevogável.” 

O narrador, em primeira pessoa, vai comparando esse edifício com uma tosse perniciosa, com a morte. Edifícios e móveis antigos, de antiquários, herdados, o provocam a mesma repulsa. De certa forma, o protagonista acredita que nestas coisas velhas ficam impregnadas energias dos donos. E ele pensa sobre pais e filhos:

Que sabem os filhos dos seus pais, de como eram antes de ser pais? E dos filhos, tanto mais desconhecidos quanto mais crescem? (p.15)

A segunda história é bem curtinha, “Vista da aldeia desde A Mola”. O ambiente do livro é a Espanha rural. “A Mola” é uma fazenda que fica em Vallfranca. O narrador faz uma crítica aos donos das fazendas, que são proprietários, mas não têm conhecimento sobre o campo, uma tendência pós- guerra.

Na terceira história, “Águas turvas”, Carlos sonha com águas turvas, fica com uma impressão ruim durante o dia todo. Começa a relacionar o sonho com a vida e suas recordações, principalmente com Áurea (falecida). Um capítulo embalado pela música de Strauss, “Marcha Radetzky”. É um texto sobre a dúvida, uma possível infidelidade ao estilo Capitu e Bentinho.

A quarta, “Nata“, é um apanhado de personagens e gírias grosseiras, são jovens violentos e marginais. Diferente dos anteriores, a narrativa acontece na cidade, parece um bairro popular e periférico.

“O monte da alegria” é a quinta história (p.27). Quando as pessoas estão muito agoniadas sobem ao monte e voltam de lá renovadas.

(…) Aos humanos nos acontece como as plantações, que degeneramos. A terra pode perder substância, mas deixe- a descansar e ela se recupera sozinha. As plantações, em troca, se não têm semente nova, degeneram. Pode ser boa terra, que você não vai colher nada. A planta perdeu perdeu sua capacidade de assimilar. Como nós.  (p.29)

“Desolação” é a sexta história, a de duas moças, Cati e Yolanda. Um texto realmente desolador, mas que para uma boa parte dos jovens, hoje, pode ser visto com naturalidade: a extrema falta de pudor, a liberação sexual que toca a perversão. A banalidade sexual.

Até “Desolação”, todos os textos parecem independentes, sem conexão entre as histórias e personagens. Em “A Marcha Radetzky” e “O interlocutor”, as últimas do primeiro capítulo, ressurgem personagens citados anteriormente e como a vida deles se cruzam. Neles, a colcha de retalhos é costurada e tudo faz sentido. O escritor optou pela escrita indutiva, partiu do particular para o geral. Goytisolo resume o capítulo falando da libertação de repressões. A Espanha ficou muitos anos submetida a um regime ditatorial, onde nada podia, e depois disso, veio o oposto.

O segundo capítulo é composto por seis histórias. A primeira, “Revistas”, acontece num aeroporto e quem a conta é Carlos, que aguarda para embarcar e observa um jovem ser revistado. O rapaz recorda a ele quando jovem e relembra uma experiência de sexo homossexual que nunca contou à Áurea.

Em “O obscuro e o transparente”, revela um lugar muito especial do povoado, que acontece um fenômeno estranho: no “Bosque do Pensamento”, as palavras surgem claras, como uma revelação.

Voltam os personagens jovens do subúrbio em “Mastuerzo” (é uma árvore). Eles têm uns nomes bem “estranhos”:”Cosca”, “Joderas” (apelidos escrachados). A linguagem volta vulgar, cheia de gírias, a língua das ruas dos subúrbios marginais. Os rapazes comportam- se com uma total falta de empatia e respeito ao outro.

E ainda “A terceira maravilha”, o narrador volta a contar sobre a fazenda “La Mola” e sobre quem eram os seus donos. “Primeiro do ano” é o encontro de dois casais que já apareceram antes: Carlos e Áurea, e Ricardo e Magda. Os homens foram colegas de colégio e o reencontro não foi agradável. O tempo transforma as relações em outra coisa nem sempre esperada e desejada. O trecho é contado sob a visão de Ricardo.

Já em “O bobo da vez”, sob o olhar de Carlos, ele vai contando os efeitos do tempo, não só no físico quanto na mente:

A pegajosa inércia das coisas, o mundo circundante, o próprio corpo, tudo como impondo resistência, colocando obstáculos, ou simplesmente aderindo ao modo de rêmora, como algas e moluscos que se instalam e proliferam no casco de uma nave até imobilizá- la. Uma análise de sangue e umas ecografias dentro da normalidade não anulam as fraturas da idade, a decadência física,  as manias (…) (p.58)

E Carlos fala sobre a “mania” de andar pelo meio da rua, para livrar- se da água dos vasos de plantas e também de uma coisa que me irrita muito, um costume forte na Península Ibérica:

(…) por temor que alguma dissimulada dona-de-casa sacudisse durante a sua passagem alguma toalha, algum lençol ou, o que é pior, algum tapete de quarto, com toda sua carga de germes patógenos”. (p.59)

Carlos comenta sobre a morte de Magda e Ricardo. Essa obra é cheia de enigmas, um quebra- cabeças.

O III Capítulo é formado por quatro histórias: “Latidos e dentes”, que fala sobre Vallfranca, o narrador compara o povoado antes e depois da guerra. A comodidade nem sempre traz felicidade. Durante a guerra (civil espanhola) as famílias eram mais unidas, dormiam num só quarto, e hoje, têm até banheiro com jacuzzi, mas sofrem de tédio. Será por falta de metas e objetivos? Há ainda  “Resignação”,O excêntrico” e “Projeto de ano- novo”.

Para evitar uma resenha infinita, decidi não contar mais capítulo por capítulo e já ir finalizando. A obra tem a estrutura original, são várias histórias paralelas, que discorrem aparentemente sem conexão, até que os personagens vão se entrecruzando. O personagem mais profundo é Carlos, seu final é surpreendente e triste.

A obra deixa uma sensação bastante verossímil do “jeito espanhol” de hoje e de ontem, várias gerações, há recuos históricos e personagens contemporâneos. Personagens de várias camadas sociais e diferentes idades, da zona urbana e rural, suas angústias e solidões. E a violência, que também há, infelizmente. O fim da guerra gerou liberdade, que, em grande parte, não soube ser bem aproveitada pelos cidadãos espanhóis. O que fazer com tanta liberdade? Parece que muitos ficaram perdidos e perderam a medida.

Este livro ainda não está editado em português. Quem sabe estou plantando uma sementinha. Se algum editor do Brasil ou qualquer país lusófono chegar por aqui, anote esse nome: Luis Goytisolo.

Se você está no Brasil, Portugal, Angola, Goa ou Moçambique e lê em espanhol, pode comprar “Liberación” em e-book aqui. E você que está na Espanha pode comprá- lo nas melhores livrarias do país.

goytisolo (1)  Goytisolo, Luis. Liberación, Siruela, Espanha, 2014. Páginas: 190

Resenha: “Bartleby e companhia”, de Enrique Vila- Matas


O prolixo Enrique Vila- Matas (Barcelona, 1948), publicou o seu primeiro livro em 1973, “Mulher no espelho contemplando a paisagem”; a última obra recém- publicada (2017), “Mac e seu contratempo”, é o 29º romance. Também é ensaísta, possui  treze livros publicados nesse estilo, além de outros textos em coletâneas. É um dos escritores mais premiados da atualidade, cerca de 24 prêmios pelo mundo, mas ainda não ganhou os dois mais importantes: o Cervantes  e o Nobel.

Enrique é formado em Direito e Jornalismo. Morou em Paris dois anos em um apartamento alugado de Marguerite Duras. Sua obra foi traduzida para 27 idiomas.

paratybrasilEnrique em 2012 em Paraty, onde participou da FLIP. Será que ele gostou do cafezinho brasileiro?!

No Brasil, ficou mais conhecido, quando a finada Cosac & Naify publicou alguns dos seus livros, entre eles, esse: “Bartleby e companhia”(2000), motivo dessa resenha. A minha edição é espanhola (vocês sabem que eu moro na Espanha), de bolso, da Penguin Randon House, bem modesta, nada a ver com as lindas edições que a Cosac costumava fazer.

Vamos ao texto…

Começo esclarecendo quem é “Bartleby”: Herman Melville escreveu um conto chamado “Bartleby, o escrivão” (1853). O personagem, um jovem escrivão, ávido trabalhador, de repente, deixou de sê- lo. Perdeu o interesse, o tesão, a inspiração. Quando era exigido, dizia: “Prefiro não fazer”. Só pelo título já temos a pista do que pode nos contar a obra, reforçada pelo pensamento da epígrafe:

A glória ou o mérito de certos homens consiste em escrever bem; o de outros consiste em não escrever. (Jean  de La Bruyère)

O próprio Herman Melville considerava- se um bartleby, por isso escreveu o conto. Em 1853, com 34 anos e depressivo, concluiu que havia fracassado. O escritor de “Moby Dick” não suportou as críticas (injustas) sobre a sua obra. Morreu em 1891, esquecido.

O personagem começa a escrever um diário no dia 8 de julho de 1999. Exceto pelo trabalho desgraçado, a falta de sorte com as mulheres e a solidão, considera- se um sujeito feliz. Há vinte e cinco anos, ele havia escrito um livro sobre a impossibilidade do amor e nunca mais escreveu nada. Tamanho o trauma, tornou- se um “bartleby”. Ele usa o termo como adjetivo. Começou a “caçar” bartlebys, escritores que abandonaram a escrita. Será que ele achou Raduan Nassar? O recente ganhador do prêmio Camões não escreve há trinta anos? Não, o distinguido escritor não é citado na obra de Vila- Matas.

O narrador deixou de escrever por causa do seu pai que o obrigou a escrever  em seu nome, uma dedicatória que ele não queria. Parece um motivo meio bobo, não é? Mas pra ele foi motivo suficiente. Isso foi usado como pretexto para contar as histórias (reais) de escritores da literatura mundial.

E foi assim, que o narrador começou a pesquisar autores que entraram no “labirinto do não”, da não- escrita.  Cita alguns nomes e explica o caso de cada um deles, como o de Robert Walser, o escritor suíço, que ganhou a admiração de Kafka e Musil, ficou deprimido, abandonou a sociedade, isolou- se para escrever. Terminou mal, morreu no Natal de 1956,  perto da clínica psiquiátrica que estava internado, deitado na neve.

Vila- Matas diz sobre “Burtleby e Companhia”, que as pessoas deixam de escrever, porque deixam de existir (vai sem tradução, assim você treina espanhol):

Contrariamente a lo que se cree, no hablo exactamente en este libro de escritores que dejaron de escribir sino de personas que viven y luego dejan de hacerlo.  De fondo, eso sí, el gran enigma de la escritura que parece estar diciéndonos que en la literatura  una voz dice que la vida no tiene sentido, pero su timbre profundo es el eco de ese sentido.*

É mais normal do que se pensa isso de deixar de existir, deixar de viver, ainda estando vivo. E o autor dá exemplo de outros copistas, dos mexicanos Juan Rulfo e Augusto Monterroso, que trabalharam em repartições horríveis e que também se comportaram como bartlebys. Outro bartleby muito famoso: Arthur Rimbaud.

Contou também a história do catalão Felipe Alfau, depois de dois livros publicados, o seu silêncio durou 51 anos. Imigrante nos Estados Unidos, a sua desculpa: estava ocupado aprendendo inglês.

Outros escritores que deixaram o ofício por longos períodos: Salinger, Fernando Pessoa e até Cervantes.

O livro é muito interessante, uma biografia de autores que tiveram condutas parecidas; no entanto, o gênero não concorda com a sua forma, que adapta- se melhor à biografia ou ensaio. Não é um romance. Achei desnecessário usar um personagem para contar o livro, poderia ser a voz do próprio autor. Inclusive em forma de tópicos, um guia de autores bartlebys, muito mais fácil para consultas. O narrador praticamente não aparece. De todas as formas, recomendadíssimo! Para quem ama a literatura é um prato muito bem servido.

O ofício do escritor é um dos mais complicados, porque é mente, emoção, (des)equilíbrio. Tudo isso está no cérebro, esse indomável.

  enrique-vila-matas-bartleby-y-compan%cc%83iaVila- Matas, Enrique. Bartleby y Compañía. Debolsillo, Penguin Randon House, Barcelona, 2016. Páginas: 173

O ganhador do Nobel de Literatura 2016 é Bob Dylan!!


O cantor e compositor americano Bob Dylan (1941) é o ganhador do Nobel de Literatura 2016, o maior prêmio literário do mundo. Além do prestígio, do reconhecimento mundial e propaganda internacional (que ele nem precisa), o vencedor normalmente leva mais de 1 milhão de euros (que ele também não precisa). Na minha opinião ganhou a zebra. Se gostei? Não. Preferiria alguém que se dedica só à literatura.

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Tudo bem, é um músico excelente (a voz nem tanto), mas já não tem o Grammy pra isto?! Bem, vamos lá, então vamos cantar: clica aqui e ouça 10 canções do Nobel.

Creio que ninguém votou em Bob na nossa enquete, então os prêmios ficarão para um próximo sorteio (em breve).

Dez incríveis primeiros parágrafos


Um livro te pega pela capa, pelo título, sinopse, autor ou primeiro parágrafo? Eu escolho pelo autor e primeiro parágrafo.

Selecionei dez primeiros parágrafos de livros que podem agarrar o leitor pela curiosidade que despertam, veja:

1.”Intimidade”, de Hanif Kureish

Essa é a noite mais triste, porque vou embora e não voltarei. Amanhã de manhã, quando a mulher com que vivi durante seis anos tenha ido trabalhar na sua bicicleta e nossos filhos estejam no parque brincando de bola, colocarei umas coisas em uma mala, sairei discretamente de casa, esperando que ninguém me veja, e tomarei o metrô para ir ao apartamento de Victor: ali, durante um período indeterminado, dormirei no chão do pequeno quarto junto à cozinha que amavelmente me ofereceu. Cada manhã arrastarei o fino e estreito colchão até o quarto de despejo.

  • Por que será que ele fugiu?

2. “As intermitências da morte”, José Saramago

No dia seguinte ninguém morreu. O fato, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenômeno semelhante, passar- se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e noturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. (…)

  • A morte que deixa de matar. Por que será que aconteceu isso?!

3. “A confissão”, de Flávio Carneiro

A senhora ouça- me, por favor. Em primeiro lugar, peço desculpas pelo mau jeito. Sei que não foi nada gentil da minha parte interceptar o seu carro àquela hora da madrugada e apontar uma arma à sua cabeça, ordenando, ou pedindo, depende do modo como se vejam as coisas, creio ter- lhe pedido para descer do carro, embora o gesto de lhe apontar a arma possa indicar que era uma ordem, não um pedido, pode ser, não vamos discutir por ninharias, de qualquer maneira reconheço que não fui gentil.

  • Bandido ou polícia?

4. “O jogo do anjo”, de Carlos Ruiz Zafón

Um escritor nunca esquece a primeira vez que aceita umas moedas ou um elogio em troca de uma história. Nunca esquece a primeira vez que sente o doce veneno da vaidade no sangue e acredita que, se consegue que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de colocar um teto sobre a sua cabeça, um prato quente ao final do dia e o que mais deseja: seu nome impresso em um miserável pedaço de papel que seguramente viverá mais que ele. Um escritor está condenado a recordar esse momento, porque então já está perdido e sua alma tem um preço.

  • Genial, não?! Esse livro é a segunda parte da saga de “A sombra do vento”. No mês de novembro vai sair na Espanha a quarta parte, “O labirinto dos espíritos”.

5. “Numa e ninfa”, de Lima Barreto (conto)

Na rua não havia quem não apontasse a união daquele casal. Ela não era muito alta, mas tinha uma fronte reta e dominadora, uns olhos de visada segura, rasgando a cabeça, o busto erguido, de forma a possuir não sei que ar de força, de domínio, de orgulho; ele era pequenino, sumido, tinha a barba rala, mas todos lhe conheciam o talento e a ilustração. Deputado há bem duas legislaturas, não fizera em começo grande figura; entretanto, surpreendendo todos, um belo dia fez um ‘brilharete’, um lindo discurso tão bom e sólido que toda a gente ficou admirada de sair dos lábios que até então ali estiveram hermeticamente fechados.

  • Esse primeiro parágrafo eu escolhi, porque Lima contou toda uma história, genialmente descrita, em poucas palavras.

6. “Banguê”, José Lins do Rêgo

Afastara- me uns dez anos de Santa- Rosa. O engenho vinha sendo para mim um campo de recreio nas férias do colégio e da universidade. Fizera- me um homem entre gente estranha, nos exames, nos estudos, em casas de pensão. O Mundo cresceu tanto para mim que Santa- Rosa se reduzira a um grande nada. Vinte e quatro anos, homem, senhor do meu destino, formado em Direito, sem saber fazer nada. Nada de grande tinha aprendido, nenhum entusiasmo trazia dos meus anos de aprendizagem. Agora tudo estava terminado. Um simples ato de fim de ano, e a vida devia tomar outro rumo.

  • É um dos meus livros preferidos da literatura brasileira. O ar melancólico, o romantismo, o amor impossível são os seus principais ingredientes. O primeiro parágrafo dá o tom que acompanha todo o livro. Leia a resenha aqui.

7. “Saber perder”, de David Trueba

O desejo trabalha como o vento. Sem esforço aparente. Se encontra as velas estendidas nos arrastará à velocidade de vertigem. Se as portas e  janelas estiverem fechadas, golpeará durante um tempo em busca das gretas ou fissuras que lhe permitirão filtrarem- se. O desejo associado a um objeto de desejo nos condena a ele. Mas há outra forma de desejo, abstrata, desconcertante, que nos envolve como um estado de ânimo. Anuncia que estamos prontos para o desejo e só nos falta esperar, soltar as velas, que sopre o vento. É o desejo de desejar.

  • Acho genial a analogia que o autor fez sobre o desejo de uma forma poética e certeira. A tradução ao espanhol é minha, se você pegar alguma edição em português, pode ser que esteja diferente.

 8. “O Grande Gatsby”, Francis Scott Fitzgerald

Na minha primeira infância meu pai me deu um conselho que, desde então, não cessou de dar- me voltar pela cabeça.
‘Cada vez que te sintas inclinado a criticar alguém- me disse- tenha presente que nem todo mundo teve as suas vantagens…’

  • Na verdade, são os dois primeiros parágrafos, precisei do segundo para completar o primeiro. Adoro o conselho do pai do personagem, acho que serve pra todo mundo.

9. “O professor”, de Frank McCourt

Já estão chegando.
E eu não estou preparado.
Como iria estar?
Sou um professor novo, e estou aprendendo com a prática.

Os quatro primeiros parágrafos carregados de significados. A falta de preparação e prática nas universidades (do mundo!) fazem com que os recém- formados utilizem, sem querer, os alunos como cobaias, na base do erro e acerto, como se fossem seu laboratório, experimentos científicos. Esse livro (vai ter resenha!) é autobiográfico, o professor americano Frank McCourt conta as suas experiências em mais de 30 anos de profissão.

10. Anna Karenina, Liev Tolstói

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Todas as famílias felizes são semelhantes; cada família infeliz é infeliz a seu modo.

Um dos melhores livros de um dos maiores escritores da literatura mundial, “Anna karenina”, começa assim, com essa oração curtinha e uma sentença pra pensar.


Você leria algum desses livros por causa do seu primeiro parágrafo?

Agenda de feiras de livros no Brasil (Agosto/Setembro) e algum desabafo


Veja as feiras de livros que estão acontecendo agora ou que começarão em setembro:

Eu fiquei tão constrangida quando vi a lista de “autores” que dariam autógrafos, que nem vou reproduzir aqui. O panorama literário brasileiro, infelizmente, vai de mal a pior. Qualidade literária zero em muitas feiras, reflexo dos leitores? Quem domina quem? O mercado ou os leitores que pedem literatura descartável?

Acho que essa só vale a pena pra passear e pegar algum desconto nos livros (de verdade).

Aonde?

Pavilhão do Anhembi
Segunda à Sexta: 9h às 22h 
Sábado e Domingo: 10h às 22h 
Dia 04/09 das 10h às 21h
  • 3ª Festa Literária Internacional de Maringá (FLIM), de 13 a 18 de setembro, veja programação.

Essa é uma feira que você terá a oportunidade de conhecer pessoalmente autores estrangeiros como o português Antônio Vilhena, o angolano José Eduardo Agualusa e o americano William C. Gordon (ex- marido da escritora Isabel Allende); e a prata da casa: Ana Maria Machado,  Caco Barcellos e José Castello.

Aonde?
Centro de Convivência Renato Celidônio, anexo ao Paço Municipal.

Escritores de peso participarão dessa feira: Luis Ruffato, Milton Hatoum e Laurentino Gomes, por exemplo (veja a lista). 

Aonde?

Fundação Cultural Calmon Barreto
Praça Arthur Bernardes, nº 10, Centro Araxá / MG
Informações: (34) 3691-7133
E-mail: fliaraxa@fliaraxa.com.br

 7º Festa Literária de Marechal Deodoro, VII FLIMAR, 31 de agosto a 3 setembro 2016. Site.

Essa feira em Alagoas vai começar amanhã, os homenageados são Fagner e Nice de Oliveira. Veja a programação.

Aonde?

Não sei. No site não aparece o endereço (fail!) e se aparecer está beeeem escondido. Se você quiser ir, escreva para: flimar.marechaldeodoro@gmail.com


Fiquem atentos, pois no final de setembro, aqui no Falando em Literatura, estará a agenda de feiras mais importantes do Brasil e do mundo. Outubro será bem interessante.


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As feiras de livros, principalmente as financiadas com dinheiro público, devem servir para fomentar a leitura (a boa literatura), atrair leitores, devem promover grandes autores, de relevância (mesmo que não sejam populares), mas bons autores, para que as pessoas, não só tenham motivação para ir até essas feiras, mas que levem para casa livros que acrescentem algo positivo. Mais que isso: deveriam existir palestras ensinando a importância da leitura, do estudo, das letras na vida das pessoas. As Letras, Ciências Humanas e Sociais estão morrendo, meu povo!

Caso contrário, será um grupo de escritores amigos se auto- promovendo, editoras enchendo as burras de dinheiro e o pior: a promoção da literatura medíocre como na Bienal Internacional do Livro de São Paulo está fazendo agora, promovendo literatura vagabunda, que nem deveria ser chamada de “literatura”… youtubers, popozudas e essa baixaria toda. Ou seja, isso é perder tempo e dinheiro suado do bolso do brasileiro. Não faz sentido!

O panorama literário brasileiro nunca esteve pior. A força que está ganhando a mediocridade é absoluta em um país sem tradição leitora, com um índice alto de analfabetismo ainda por combater, livro parece objeto completamente descartável.

A UNESCO disse em 2014, que no Brasil havia 14 milhões de adultos analfabetos. E os analfabetos funcionais?! Aqueles que sabem escrever o nome, leem mal, escrevem quase nada, não sabem interpretar um texto, mas que estão fora dessas estatísticas? Um batalhão! Não vamos “tapar o sol com a peneira”, vamos falar a verdade. As feiras têm que servir, ao menos, para inspirar e não deseducar e banir leitores!

Confesso, amigos, que nunca estive tão desanimada. Como disse Drummond: “Lutar com palavras/ é a luta mais vã”, mas vamos lá, respiremos fundo: “Entanto lutamos/ mal rompe a manhã”.

O novo romance do espanhol Carlos Ruiz Zafón


Quem ainda não leu “A sombra do vento” do espanhol Carlos Ruiz Zafón, coloque na lista, o livro é muito bacana!

A história acontece na primeira metade do século XX, na cidade de Barcelona, a atmosfera é misteriosa, intrigante. O personagem Daniel Sampere entra em uma biblioteca, “O cemitério dos livros esquecidos”, e encontra um livro maldito que vai mudar a sua vida. O romance foi lançado em 2001, eu li em 2002, quando cheguei na Espanha, nem tinha esse blog ainda. Vou reler (espero que em breve) para deixar a resenha aqui.

Na sequência, Zafón lançou em 2008 “O jogo do anjo”, que é a segunda parte de “A sombra do vento”.

Depois, em 2012, a história continuou com “O prisioneiro do céu”, e no próximo dia 17 de novembro, virá a quarta sequência, ” O labirinto dos espíritos”, livro muito esperado pelos fãs.

Abaixo, a edição espanhola que será lançada pela editora Planeta:

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No site  da editora Planeta Brasil não há ainda notícia sobre o lançamento do livro no país, mas suponho que não vai demorar muito.