Resenha: “Gente feliz com lágrimas”, do português João de Melo


A primeira resenha do ano! Essa obra eu comecei a ler em dezembro, pensei que conseguiria postar no ano passado, mas a resenha saiu agora. Por isso, este livro não está na minha Lista de vinte e quatro livros para 2018. Serão, pois, vinte e cinco resenhas (espero e no mínimo),  neste ano.

Este é o título de livro mais incrível que já vi: “Gente feliz com lágrimas”… que beleza, carregado de significados! Como uma frase tão pequena pode dizer tanto?!  Não só diz, comove e acerta direto no coração. Um autor com essa inteligência e sensibilidade para resumir a sua história desta maneira já lhe outorga, de antemão, muita credibilidade. Decretado o título mais bonito de todos os livros do mundo, vamos ao autor e à obra:

João de Melo, 68 anos, nasceu em Achadinha, Ilha de São Miguel, Açores (Portugal). É licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa e foi professor nos ensinos secundário e superior. Já morou em Madri (inclusive tem um livro chamado “Mar de Madri”), trabalhou na Embaixada de Portugal como conselheiro de cultura, mas agora vive em Lisboa. Publicou mais de vinte livros.

Joao de Melo novembro 2017João de Melo e seus olhos azuis, tal como seu personagem Nuno. (foto: Facebook do autor)

Li em algum lugar no seu Facebook, que “Gente feliz com lágrimas”(1998) mudou a sua vida. Eu creio nisso, nesse poder transformador da literatura em vários âmbitos, tanto pessoal, quanto coletivo. A obra vai completar 30 anos em 2018. Na Espanha, o livro foi apresentado em 1992 e o autor estava acompanhado adivinha por quem? José Saramago. 

Na terra do autor. (foto: Paulo Nóbrega- Facebook)

A obra está organizado assim em cinco “livros” e com um epílogo, o “Livro Zero” chamado “A felicidade sábia”.

O enredo: saem de barco dos Açores até Lisboa, Nuno Miguel, de dez anos, e Amélia, de dezesseis. O menino vai para um seminário estudar para padre por ordem do pai e a moça com o sonho de  cursar enfermagem, ela vai para um convento. Eles são da zona rural, um lugar chamado Rozário.

O mal estar da viagem e as impressões ao chegar em Lisboa pela primeira vez, é uma bela descrição fotográfica. O menino, deslumbrado com a cidade, desperta ao lembrar que “meu destino não era Lisboa, e sim, o seminário”. (p.18) O menino ia num táxi do porto ao seminário sofrendo, o seminário fica a três horas de Lisboa. :

“Deus pode certamente expulsar- nos da infância.” (p.21)

Para Amélia, foi a maior alegria da sua vida chegar em Lisboa, mas esse bom sentimento não a acompanha ao entrar no convento:

“Nunca mais a minha vida ia ser fechada nessa redoma invisível, de onde apenas se viam o mar, as nuvens paradas e a distância infinita.”(p. 21)

Ambos, Nuno e Amélia, têm a sensação de serem estrangeiros no próprio país. A distância geográfica, o sotaque e o léxico insular são diferentes do continente.

A sensação de Nuno no continente pode ser similar a de um português no Brasil ou vice- versa. A mesma língua, mas há dificuldade de entendimento. A sensação é de estranhamento e desorientação. Nossa vasta língua e suas variantes.

Sobre as palavras “imigrar” ou “emigrar” há diferenças: o imigrante sai da sua terra com caráter definitivo e o emigrante sai da terra com caráter provisório (Priberam). Mas, como saber quando é um ou quando é outro? A vida é muito surpreendente e imprevisível para saber. Há outro tipo definição, que eu gosto mais: o imigrante sai do seu país, e o emigrante move- se dentro do seu próprio país. Uma coisa é certa: sair da zona de conforto transforma, modifica. Nuno, (p. 26):

Para não ter de continuar a responder- lhes e não ser compreendido, decidiu agarrar na almofada e comprimi- la à volta dos ouvidos. A sua vida ia assim mergulhar num subterrâneo sem fundo nem altura. Nunca mais ele voltaria a ser igual a si mesmo. (…)

“Gente feliz com lágrimas” é literatura emocional, interior, psicológica. A maior parte do romance acontece no mundo interior dos personagens, por isso é universal. Tanto faz a nacionalidade do autor ou dos personagens. Mas, também é um retrato de uma boa parte da sociedade portuguesa, que sai das ilhas ou do interior, e imigra para fugir das dores e conseguir melhores condições de vida.

Nuno, já adulto, não tem boas recordações dos pais. Ele recorda o pai com ressentimento, a sua indiferença, frieza, o seu esquecimento quando partiu para Lisboa. A mãe era uma figura ausente, cumpria as ordens do marido. Ia tendo os filhos e o mais velho cuidava do mais novo. A família morava numa casa pequena, apertada, os filhos ouviam os pais terem relações sexuais e Nuno ouvia o irmão deitado ao seu lado, masturbando- se. Nuno sabia tudo que ia acontecer, passo a passo, no quarto dos pais. Como pode influenciar na vida de um filho, presenciar a sexualidade dos pais? Nuno casou- se com Marta, o romance não deu certo e  teve que procurar um psicólogo.

No segundo capítulo, “Nuno Miguel”, o próprio nos faz um convite (p.60):

Fui pai de mim mesmo, sabe? E pai de filhos só meus. Sei que viver não é diferente de criar. E penso, em última análise, que ninguém resite à sabedoria do Bem dos escritores: são anjos e os demônios da pequena vida. Por isso aqui estou. Para lhe dar conta, como diria o poeta O´Neill, da minha santa e ternurenta vidinha…Topa?

Topamos, Nuno, aqui estamos.

O terceiro capítulo, “Maria Amélia”. Ela recorda a casa que viviam quando era pequena, “com chão de terra batida e escura como breu”(p.61). A vida dos pais na roça não era nada fácil cuidando das vacas esquálidas. Amélia dormia num quarto de madeira no alto da casa, muito baixo, tinha que entrar de cócoras, “naquele barraco escuro e desprotegido”, havia ratos e ferrugem. Ela dormia com a cabeça tapada, pelo medo e para esquentar. Coisa que nunca deixou de fazer,  adulta e casada. A infância realmente marca condutas do futuro (p.63):

(…) Now, after all this time, a minha vida parece continuar assim, rasteira e aflita sob o peso e o escuro dessas multidões de nuvens, eternamente levada pelo vento.

Havia escassez de comida para ela e os quatro irmãos. Mas ela recorda com carinho do pão de trigo ou milho, com açúcar ou mel, e a manteiga, que tinha “um sabor delicioso”.

O texto de Amélia é cheio de frases em inglês. Ela imigrou para o Canadá e recorda como apanhou, com quatro anos e meio, por abrir a porta à prima Manuela, brincar de casinha e esquecer de cuidar dos irmãos menores. A mãe deu- lhe uma surra, passou a tarde toda levando beliscões, puxões de cabelo e bofetões. Teve que parar de chorar, porque o pai estava para chegar. Pais violentos em palavras e ações (p.67):

– Tal excomungada! Berrona do inferno: se te ponho as mãos em cima, deixo- te negra de pancadaria.

A criança desacostumou de brincar, cresceu rápido demais. Ela descreve os gêmeos, Nuno e Carlos. Escolheu cuidar de Nuno, porque parecia mais frágil, e Domingas, cuidou do outro pequeno, que apesar da aparência robusta, faleceu quatro semanas depois, ambos estavam com tosse. A mãe havia pedido que Deus levasse uma das crianças, porque o dinheiro com remédios os estava arruinando. Chocante, não? Mas, quando não se tem o básico para sobreviver, há que ser prático. Mas Amélia já amava a Nuno e daria sua vida pela dele.

Amélia ficava entre o ódio e o amor pelo pai. Odiava a sua frieza, mas o admirava pela sua fortaleza. Ele escolhia as madeiras e pregos para fazer os caixõezinhos dos filhos mortos, Carlos, Vítor Primeiro e Vítor Segundo. Nunca viu o pai chorar, mas ele não comia quando sabia da morte dos filhos. A mãe e as vizinhas agradeciam a morte dos anjinhos, porque morriam sem pecado.

Luís Miguel, um dos filhos, também tem voz. O livro inteiro é uma obra- prima , eu o destacaria inteiro, pura arte literária (p.73):

Nascíamos em segredo. De partos apenas um pouco queixosos, como murmúrios de gente soterrada.

O rapaz também não tem boas recordações da infância (p. 76):

A minha e a infância dos meus irmãos ficou apagada no tempo e do luxo dos retratos. Nunca fomos de anjo nas procissões, e nunca os meus pais se comoveram com a voz suplicante dos retratistas de fora da terra que garantiam a perfeição humana e a arte de emprestar à vida um pouco de sabor e saudade.

Luís tinha estrabismo e  dentes tortos, que o próprio pai tratava de arrumar arrancando- lhe sangue. Também imigrou para o Canadá. Considera- se “O palhaço pobre da família”. O personagem conta sobre a sua única foto de família tirada por um tio, que reuniu os dezessete sobrinhos. Ele descreve- se e conta sobre o seu olho preguiçoso.

Espiando entre as fotos dos familiares do autor, descobri uma muito interessante, antiga, com uma menino usando um tampão no olho. O dono da foto é Jorge de Melo, reproduzo aqui, porque a foto é pública:

Seria Jorge de Melo, irmão do autor,  o alter- ego de Luís Miguel no romance? Não sei se o menino com o tampão no olho é o dono da foto ou é um irmão… ou seria o próprio autor? João de Melo, “magro de olhos azuis”, o alter- ego de Nuno? Tal como o personagem, João de Melo entrou para um seminário aos 11 anos. Possivelmente, um romance com tintas autobiográficas. É preciso sentir para saber, não é?

Jorge, tal como Luís (o personagem) mora no Canadá. Na foto, o primeiro da direita deve ser o autor de “Gente feliz com lágrimas”. São coisas que nós, leitores, pensamos e especulamos, mas nada disto importa. Nunca devemos confundir autor com os personagens, mesmo que haja coincidências. É ficção.

As vozes dos três narradores vão se intercalando: Nuno Miguel, Luis Miguel e Maria Amélia.

Nuno recorda (p.87) que nunca houve festa alguma na sua casa de infância, nada de presentes de Natal, nem os aniversário eram lembrados. Os brinquedos eram feitos por eles mesmos com cascas de frutas, galhos de árvores e afins. Andavam descalços, sapatos só aos domingos. O pai cortava os cabelos das crianças com um “tesourão enferrujado”. Os pais não eram tremendamente pobres, mas sim, muito avarentos.

Os pais morreram precocemente e Maria Amélia acredita que só o tempo fará com que as memórias de infância sejam vistas com mais claridade. Ela começa a narrar como foi mudar para uma casa nova. Amélia recorda dos gritos do pai quando ela precisou usar óculos, como se fosse culpa dela. Para o pai, “óculos eram um luxo” e quis tirá- la da escola para não ter essa despesa. Apesar das dores, a filha consegue enxergar o lado humano dos pais e suas preocupações. Sob a sua visão, o pai era extremamente trabalhador e a família era o mais importante para ele, que era carpinteiro.

Os filhos começavam a trabalhar muito cedo, mas frequentavam a escola. Apanhavam muito, trabalhavam muito, estudavam e não brincavam. Maria Amélia, Domingas, Nuno, Luís Miguel, Linda, Flor e Jorge.

Não sei dizer como nem quando os sonos da infância se converteram  na insônia da minha vida. (Nuno Miguel, p.115)

O pai morreu em Vancouver devido a um câncer e orgulhoso por ter deixado “duas terras a cada filho e um montinho de ‘dolas’ nos bancos canadianos. Não têm de se queixar de mim…”. O valor que cada um dá as coisas, não é? O material sobrevalorizado.

O professor de Nuno e Amélia chama- se “Quental”. Pode ser uma referência e/ou homenagem ao grande poeta açoriano Antero de Quental (1811-1876), um escritor para colocar já na sua lista!

Nuno levou uma bofetada por não querer escrever uma carta para a tia. O analfabetismo na zona rural, os homens que viajavam para o Brasil ou a América, a necessidade e a saudade. No coração de quem vai sempre há algo de “vontade arrependida”, adorei este termo. A complicação de ser imigrante:

“Quem me dera a mim”, diziam, “poder voltar atrás no tempo, regressar a esse borralhinho*. Comer pão de milho amarelo com inhame ou toucinho, sem dúvida, mas não ter que chorar estas lágrimas nem estar tao longe desse mar e duma terra onde toda a gente se conhece…” Arrependidos como cães por terem atravessado tanto mar, do qual continuavam enjoados e em agonia- e nós a pensar que eles se riam de nós à distância, gordod, luzidios, finando- se tão só num riso de lágrimas trocistas… (p.111-112)

Mais algumas coincidências do autor com o personagem Nuno: ambos são professores e escritores, formados em Letras.

Nuno sentiu uma necessidade imperiosa de escrever. Escrever exige solidão e esquecimento do mundo. Os melhores escritores são e foram um pouco (ou muito) misantropos. É meio inconciliável ter família, trabalhar oito horas e ainda conseguir ser um escritor de primeira linha. Não dá pra fazer tudo bem. É bem assim mesmo, pelo menos provisoriamente, a pessoa tem que se afastar:

– Tenho um livro aberto dentro de mim. Se não puder escrevê- lo agora, corro o risco de naufragar. Asseguras sozinha as despesas da casa, ou decidimos pôr- nos de acordo quanto ao divórcio? (Nuno para Marta, p.116)

Curiosidade lexical: “vavó” é um jeito açoriano de falar “vovó”. A “vavó” da família chama- se “Olinda”, era coxa e morreu dormindo aos noventa e nove anos (p.226); e o “vavô”, Botelho, meio brigado com o filho.

Tem até um biscoito da ilha chamado “Biscoitos da Vavó Sol Nascente”. Os Açores são um arquipélago formado por quinze ilhas. Clique aqui e veja se não dá vontade de ir conhecer!

Um das recordações mais tristes foi uma surra homérica que Nuno recebeu do pai em meio à chuva. O menino chegou em casa semi- morto, desmaiou, ficou com febre, quase morreu. Ressuscitou quando o pai, talvez pelo remorso, foi carinhoso:

– Papá quer ver- te comer aluma coisa, meu filho. Quando não, vais morrer de fraqueza, sem ação nos ossos. Vá lá, Nuno. Anda, meu homem. Há- de um pai deixar o filho morrer à fome, com tanto que há para se comer na casa? (p. 231)

E Nuno Miguel comeu.

“E os olhos dele, rasando- se de lágrimas, eram afinal olhos felizes com lágrimas (…)

Quando Nuno voltou aos Açores, foi recebido pelos muitos tios, já idosos: Sônia, Esperança, Urânia, Horácia, Jaime, Mercês, Olímpia, menos tio Zacarias, em paradeiro desconhecido e as outras tias que imigraram para o Brasil, esses da parte do pai; da parte da mãe, imigraram para “Toronto, Vancouver e Boston”. A tia dos afetos é a Olímpia, a que o faz sentir que ainda vale a pena voltar para casa:

– Descansa, que eu ainda cá estou para tomar conta de ti, sobrinho- diz. E, depois de lhe envolver o rosto com as mãos, estuda- lhe o olhar, abana a cabeça e acrescenta: – O que tu tens é uma grande ferida nesses olhos, filho da minha alma. (p.517)

Já contei demais, não é? Não vou contar qual é o destino dos personagens. Agora é com você!

Melo, João de. Gente feliz com lágrimas. Dom Quixote- Booket, Lisboa, 2008. Páginas: 524

A edição lida acima foi abocanhada pelo Lolo, o meu cachorrinho. Ficou sem capa, mas é a edição comemorativa da Booket (2008) dos 25 anos do romance.

Deixo aqui o link da melhor livraria online portuguesa, caso você queira comprar uma das várias edições de “Gente feliz com lágrimas”; também há e-books para quem estiver fora da União Europeia e quiser ler esta obra magistral sem pagar o frete.

Se preferir comprar na Amazon, clique no link: Gente Feliz com Lágrimas

É um desejo meu que “Gente feliz com lágrimas” seja conhecido e lido no Brasil. Alô, editores!

Obra recomendadíssima, coloque aí na sua lista!

*sinônimo de “lar”.

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Os Natais de Fernando Pessoa


A ceia de Natal em Portugal chama- se “consoada”, de “consolar”. O prato principal, normalmente, é o bacalhau com ovos e couves regado com muito azeite de oliva. De sobremesa, o bolo rei e as rabanadas.

Apesar dessa data ser feliz para muita gente por causa das reuniões familiares, dos comes e bebes, além da troca de presentes, outros tantos consideram a data triste.

Deixo alguns poemas de Fernando Pessoa sobre o Natal. Curiosa a visão nostálgica e pessimista do autor sobre esta data. Definitivamente, não parecia ser a preferida de Pessoa, veja:

Natal na Província

Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

Chove. É dia de Natal

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal.
E o frio que ainda é pior.
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.
Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Natal

O sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Natal

Nasce um deus. Outros morrem.
A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.
Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.

Espero que o seu Natal seja bem mais feliz do que foram para a voz poética do poema (que pode ser o alter ego de Fernando).

Xícaras literárias da Vista Alegre, porcelana portuguesa


A fábrica portuguesa de porcelanas Vista Alegre é uma das mais famosas e prestigiosas do mundo. A fábrica (1920) fica na cidade de Ílhavo (Aveiro) e suas peças estão espalhadas pelo mundo todo, expostas em museus e usadas pela realeza. No entanto, essa plebeia, não resistiu e trouxe de Lisboa para o Falando em Literatura esse conjunto de “chávenas” para café com caricaturas de escritores consagrados. As peças sempre levam a assinatura de algum artista. A fábrica tem um museu, mas agora está em reformas, fechado para visitas.

As xícaras fazem parte de uma coleção chamada “A viagem”, do artista António Antunes (Vila Franca de Xira, 1953). Ele é diretor do Salão de Humor Gráfico World Press Cartoon. António fez uma série de desenhos que podem ser vistos na estação Aeroporto do Metrô de Lisboa. São 50 figuras em 49 painéis espalhados pela estação e estão divididas em músicos, escritores, atores e pintores, que também foram parar nas porcelanas da tradicional Vista Alegre.

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Os escritores são:

Natália Correia (Fajã de Baixo, São Miguel, 13/09/1923 — Lisboa, 16/03/1993), consagrada escritora portuguesa de prosa e verso, deixou uma rica e vasta obra. Foi política, presa, teve sua obra censurada. Casou quatro vezes, trabalhou na tv, foi jornalista. Com um pé no surrealismo, era amiga de Mário Cesariny, outro escritor que também faz parte dessa séria de “xícaras literárias”. Uma vida muito intensa, refletida nas suas escrituras, e arrebatada, repentinamente, por um ataque ao coração. Conheça mais sobre essa grande escritora portuguesa aqui.

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De amor nada mais me resta que um Outubro
e quanto mais amada mais desisto;
quanto mais tu me despes mais me cubro
e quanto mais me escondo mais me avisto.

E sei que mais te enleio e te deslumbro
porque se mais me ofusco mais existo.
Por dentro me ilumino, sol oculto,
por fora te ajoelho, corpo místico.

Não me acordes. Estou morta na quermesse
dos teus beijos. Etérea, a minha espécie
nem teus zelos amantes a demovem.

Mas quanto mais em nuvem me desfaço
mais de terra e de fogo é o abraço
com que na carne queres reter-me jovem.

(in, «Poesia Completa», D. Quixote, Lisboa, 1999)


José Saramago (Azinhaga, Portugal, 16/11/1922 – Lanzarote, Espanha, 18/06/2010), esse dispensa apresentações, não é? Creio que é o mais conhecido escritor português, junto a Fernando Pessoa. O único escritor em língua portuguesa que ganhou um Nobel de Literatura. Sua escritura é caracterizada pela falta de pontuação e sua crítica ácida à sociedade portuguesa, que considerava passiva, parece que mantinha uma relação amor- ódio com o seu país. Eu sou absolutamente apaixonada pela obra de Saramago. “Claraboia” (primeira foto) foi seu publicado postumamente. Foi o seu segundo livro, mas parece que o autor não gostava muito e o deixou engavetado. O viúva tratou de publicá- lo depois de sua morte. Leia mais sobre ele aqui.  Veja a resenha do último livro de Saramago, “Alabardas”, romance que, infelizmente, ficou inacabado. Saramago sai com a cara meio enfezada na caricatura, mas era bem o contrário, era uma pessoa doce, bem humorada e simpática:

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E se as histórias para crianças passassem a ser de leitura obrigatória para os adultos? Seriam eles capazes de aprender realmente o que há tanto tempo têm andado a ensinar? (in, “A maior flor do mundo”, José Saramago)


Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 6/11/1919 – Lisboa, 02/06/2004) foi uma escritora de prosa e verso, dessas imperdíveis, seus versos são cânticos às memórias da sua infância e da sua terra. O mar é um tema constante na sua escritura. Foi a primeira portuguesa a ganhar o Prêmio Camões. Professora universitária, formada em Letras e mãe de cinco filhos.

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Iremos juntos sozinhos pela areia
Embalados no dia
Colhendo as algas roxas e os corais
Que na praia deixou a maré cheia.

As palavras que disseres e que eu disser
Serão somente as palavras que há nas coisas
Virás comigo desumanamente
Como vêm as ondas com o vento.

O belo dia liso como um linho
Interminável será sem um defeito
Cheio de imagens e conhecimento.

(in No Tempo Dividido, 1954, Sophia de Mello)


Mário Cesariny (Lisboa, 09/08/1923 – Lisboa, 26 de Novembro de 2006) poeta e pintor, principal representante do surrealismo português.  Anarquista, revolucionário e questionador, de humor ácido. Fascinante! Coloca na sua lista.

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Eu, Sempre…
Eu sempre a Platão assisto.
Pessoalmente, porém, e creia que não
Tenho qualquer insuficiência nisto,
Sou um romano da decadência total,
Aquela do século IV depois de Cristo,
Com os bárbaros à porta e Júpiter no quintal.
( in “O Virgem Negra”, Mário Cesariny)


O Facebook de António Antunes, clique aqui.

A web da Vista Alegre, clique aqui.


Estás convidada e convidado para um café literário aqui no Falando em Literatura. Vem!

Resenha: “Em busca do tempo perdido- No caminho de Swann”, Marcel Proust


(…) Mas, quando nada subsiste de um passado antigo, após a morte dos seres, após a destruição das coisas, apenas o cheiro e o sabor, mais frágeis mas vivazes, mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis, permanecem ainda por muito tempo, como almas, a fazer- se lembrados, à espera sobre a ruína de tudo o resto*, a carregar sem vacilações sobre a sua gotinha quase impalpável o edifício imenso da memória. (p.57)

O francês Marcel Proust (Auteuil10/07/1871 – Paris18/09/1922) era filho do médico Adrien Proust, professor e inspetor de saúde. Adrien tentava ensinar os métodos de higiene naquele tempo, que não eram habituais nem conhecidos. Apesar do pai ser médico patologista, epidemiologista e higienista, isso não o ajudou muito, pois vivia doente, saúde frágil, justamente na área em que seu pai escreveu uma tese: o sistema respiratório. Proust morreu por causa de problemas pulmonares. Ironias da vida. Pela posição privilegiada do seu pai, Proust nunca teve problemas econômicos e sempre circulou pela alta sociedade de Paris (tal como Swann, personagem dessa obra). 

Um pouco da história de Proust em imagens, já que grande parte desse livro é autobiográfico e algumas dessas pessoas são personagens:

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Marcel Proust, o escritor de “Em busca do tempo perdido”, obra com mais de três mil páginas.

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O Dr. Adrien Proust, pai de Marcel Proust.

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Proust (sentado) era homossexual assumido, essa foto escandalizou a sua mãe, pois está com seu amigo Robert de Flers (à esquerda, eles estudaram juntos no Liceo Condorcet ) e seu amante Lucien Daudet (à direita), em 1894.

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Proust, sua mãe Jeanne Weil e seu irmão Robert em 1895. Essa família poderia ganhar o título da ‘mais limpinha’ da França, devido aos hábitos de higiene adquiridos pelo pai médico e pouco comuns ainda no século XIX.

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O escritor criança, o mesmo olhar. Essa foto foi usada numa biografia feita do escritor em 1999. Existe uma foto de Proust no seu momento final, que prefiro não publicar aqui, mas quem tiver curiosidade segue o link.

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Adolescente. 

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Marcel Proust num momento descontraído com os amigos, simulando “tocar” a raquete de tênis no Boulevard Bineau em 1892, Jeanne Pouquet no centro, um dos seus amores. Nesse momento, dizem, Proust era esnobe e um escalador social.

O livro “Em busca do tempo perdido- Do lado de Swann” (PT) ou “No caminho de Swann” (BR), trata, principalmente, da memória, da família, do amor e de todos os sentimentos, alguns nada nobres. Proust morreu encerrado no seu quarto escrevendo essa obra, que foi escrita nos seus últimos três anos de vida.

Apaixonei- me por sua escritura quando li Os prazeres e os dias e Dias de leitura; agora vou começar a ler essa obra imensa (mais de 3000 páginas) tentando também recuperar o meu tempo perdido. Num total de sete, esse é o primeiro da série: “No caminho de Swann” (original: Du côté de chez Swann). O livro é dividido em três capítulos, “Combray”, depois Um amor de Swann e Nomes de terras: o nome. Esta obra, nas palavras do autor, é “a forma do tempo”, um drama psicológico e de costumes da aristocracia francesa do século XIX. Foi escrita entre 1908- 1922 e publicada entre os anos de 1912 e 1927, sendo que os três últimos,  “A prisioneira”, “A fugitiva- Albertine desaparecida” e “O tempo reencontrado”, publicados depois da morte do escritor.

Abaixo, foto do original de No caminho de Swann, que completou no ano passado 100 anos, o manuscrito de 1910 está custodiado pela Biblioteca Nacional da França:

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Para viver, Combray era um pouco triste, assim como as suas ruas, cujas casas construídas com pedras enegrecidas da região, precedidas de degraus exteriores, encimadas por frontões que faziam descer a sombra à frente delas, eram tão escuras que era preciso, mal o dia começava a declinar, erguer as cortinas nas salas (…) (p.55)

Vamos à obra: no primeiro capítulo, Combray, são quase 200 páginas, o protagonista da história é o narrador- personagem ( alter- ego de Proust) que começa a contar as suas lembranças dentro do seu quarto, onde permanece muitas horas. O tom é poético, nostálgico:

Encostava ternamente as minhas faces às belas faces do travesseiro, que, cheias e frescas, são como as faces da nossa infância (p.10).

Ele tenta dormir, apaga a luz da vela, mas a sua cabeça fica dando voltas, rememorando o que havia acabado de ler. Identifica- se com o livro, parece ter sido escrito para ele.

A narrativa é construída através das recordações, ele relembra os tempos de Combray na casa de sua tia- avó Bathilde, seus avós, Amédée e o avô (sem nome citado), das tias- avó Cèline e Flora, da tia Léonie, onde recebiam sempre a visita de Charles Swann, nariz curvo, de olhos verdes, debaixo de uma testa alta rodeada de cabelo loiro quase ruivo, penteado como o ator Bressant. (p. 21) que levava uma espécie de vida dupla, andava nas mais altas esferas sociais (pela profissão de seu pai, agente de cambio) era um boêmio e célebre bandido; também pintor, amante de arte e da música (como o próprio Proust). Swann era super bem relacionado, amigo do presidente da república (Grévy) e do príncipe de Gales. O narrador aproveita para criticar a sociedade parisina, nota- se um certo ressentimento/ironia/acidez na escritura de Proust, diz que Paris funciona como a sociedade hindu, por castas, se “fulano” for filho de gente importante, já estava numa casta superior, independente do que fosse e de como agisse. Uma crítica bem atual, cai como uma luva para muitas sociedades contemporâneas.

A ignorância em que estávamos daquela brilhante vida mundana que Swann levava tinha que ver em parte com a reserva e com a discrição do seu caráter, mas também com o fato de os burgueses de então fazerem da sociedade uma ideia um pouco hindu, de a considerarem composta por castas fechadas em que cada um se achava colocado, desde o seu nascimento, no nível que os respectivos pais ocupam, e donde nada, salvo os acasos de uma carreira excepcional ou de um casamento inesperado, o podia tirar ou fazer entrar numa casta superior. (p. 22)

Proust recorda a infância. Uma madalena molhada num chá o transporta a Combray (local que ele realmente frequentava quando criança e que tinha familiares)  traz à tona a relação enfermiça que tinha com a sua mãe. Ele esperava ansiosamente o beijo da mãe antes de dormir. Criança, era impedido de participar das tertúlias noturnas com os adultos, obrigavam- no a subir para dormir. A relação dele com a mãe era estranha, obsessiva. Ele detestava o momento da despedida, ansiava o toque dos seus lábios no seu rosto. A impressão que fica é que o narrador é apaixonado pela mãe no sentido incestuoso. Dormir sem um beijo materno é comparado com a morte para o narrador. Proust entrou no psicológico infantil e mostrou como as crianças sentem e pensam livremente sem as convenções religiosas e morais de parentesco. Ele sente ciúme da mãe e a quer só para ele. Isso pode fazer parte da essência original do ser humano (segundo Freud, é assim). Alguns desenvolvem esse sentimento de forma patológica e para outros não traz nenhuma consequência. Essa parte psicológica do livro, sem dúvida, dá uma tese. Proust e Freud foram contemporâneos, mas não se leram, não se conheceram, dizem por aí, ambos falaram do sonho, da memória, do inconsciente e do complexo de Édipo. É o que sofreu o próprio narrador dessa obra (supostamente, o próprio escritor).

O tempo é importantíssimo, Proust jogou muito bem com esse elemento, parece que a memória quebrou com passado, com o futuro, tudo é uma coisa só, o homem e o menino são os mesmos, os mesmos sentimentos, é difícil dissociar um do outro. A narrativa sobre o menino que espera ansioso a resposta de um bilhete que havia enviado à mãe através da criada Françoise, esse menino, na verdade, já é o homem recordando o passado. Na esfera da memória o tempo se desfaz:

(…) mandou- me dizer pela Françoise estas palavras: ‘Não tem resposta, palavras que depois tantas vezes ouvi da boca de porteiros de palaces ou criados de casas de jogo dirigidas a uma pobre moça qualquer que fica admirada: ‘Como? Ele não disse nada?’. (p.38)

Livro é o lugar do “não erro”, onde as pessoas querem aprender, é imperdoável erros ortográficos ou de digitação. Ainda mais sendo uma editora portuguesa grande e reconhecida como a Relógio D’água. Encontre o erro (p.84):

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Erro de ortografia à parte, a narrativa passa a ser dantesca, a descrição psicológica que o narrador faz de si mesmo na infância sofrendo de amores pela mãe e de remorso, impressiona! A criança vive angustiada com a ausência da mãe, que não é bem pintada na história, parecia ser uma mulher fria, pouco amorosa. O narrador considerava Swann o grande culpado, pois sempre que ele chegava na casa de Combray, a sua mãe não ia dar o seu beijo de boa- noite. Essa época nunca morreu na vida futura do nosso narrador. Bonita a forma em que podemos encontrar com o nosso passado:

Acho muito razoável a crença céltica de que as almas daqueles que perdemos estão cativas em algum ser inferior, num animal, num vegetal, numa coisa inanimada, efetivamente perdidas para nós e, mal as reconhecemos, quebra- se o encanto. Libertadas para nós, venceram a morte e tornaram a viver conosco.

O mesmo acontece com o nosso passado. É trabalho baldado procurarmos evocá-lo, todos os nossos esforços da nossa inteligência são inúteis. Ele está escondido, fora do seu domínio e do seu alcance, em algum objeto material (na sensação que esse objeto material nos daria) de que não suspeitamos. Depende do acaso encontrarmos esse objeto antes de morrermos, ou não o encontrarmos. (p.51)

No caso do narrador- personagem, o passado voltou através do gosto de uma madalena ( bolinho doce parecido com um muffin) molhado no chá. Essa mistura o reportou à infância em Combray.

Na Páscoa ficava na casa da sua tia doente, Léonie, que mal saía da cama depois que enviuvara, doenças do corpo e da alma, essa pessoa tinha o objetivo de nunca dormir. Ela marcou muito a infância de Proust junto com outro tio, Adolphe, um tio- avô aposentado do exército. O senhor havia se afastado da família, por causa de uma desavença provocada pelo escritor ainda menino. Um dia Proust foi fazer uma visita ao tio e esse estava com uma cocotte, nome dado às prostitutas da Belle Époque. O idoso tio pediu ao menino que não contasse aos seus pais nada sobre a presença da mulher, mas o pequeno Proust fez justamente o contrário apenas duas horas depois: não só contou aos pais, mas disse tudo com os mínimos detalhes. Essa história provocou uma briga feia entre o tio- avô, o avô e o pai do menino. Proust encontrou o tio- avô na rua e ficou com remorso e constrangido. O menino retirou o gesto de saudação que iria fazer com seu chapéu e o tio pensou que foi por ordem dos seus pais. O senhor morreu alguns anos depois sem falar mais com a família. Parece que Proust carregou consigo essa dor e culpa. Ele nunca mais conseguiu entrar no gabinete em que ele passava horas com o tio Adolphe.

O escritor quis deixar um retrato pormenorizado dos costumes, objetos, cartografia, arquitetura de Combray, pessoas da família e da sua infância, as mazelas, as doenças, a amizade, o amor e o desamor. As empregadas da casa, Françoise, muito presente e prestativa; e a ajudante de cozinha grávida, que provocava pena no menino Proust, com seu barrigão fazendo todas as tarefas como sempre. A sua casa constava de todas as virtudes e vícios de Giotto. Swann era admirador do pintor Giotto (1266—1337) precursor do Renascimento italiano e deu de presente reproduções dos vícios e virtudes a Proust. As imagens ficavam na sua sala de estudos.

Marcel sempre estava com um livro na mão, principalmente antes de dormir e debaixo do castanheiro dos jardins de Combray. Sua avó sempre exigia que ele estivesse ao ar livre, mesmo em dias de chuva, o que não o agradava. Veja o interessante estado de transe em que ele entrava enquanto lia, ler era uma “viagem”; esses sentimentos de Proust têm a ver com a mimesis aristotélica, a imitação da realidade, e da catarse, também de Aristóteles, que trata da purificação da alma através dos sentimentos provocados por um drama:

(…) enquanto lia, a minha consciência ia erguendo em simultâneo, e que iam das aspirações mais profundamente ocultas dentro de mim mesmo até à visão toda horizonte que, no extremo do jardim, tinha diante dos meus olhos, o que em primeiro lugar havia em mim de mais íntimo, o punho em constante movimento que governava o resto, era a minha crença na riqueza filosófica, na beleza do livro que lia, e o meu desejo de tomar posse delas, fosse qual fosse o livro. (p. 92)

Depois dessa crença central que, durante a minha leitura, executava incessantes movimentos de dentro para fora, para a descoberta da verdade, vinham as emoções que me eram dadas pelas ação em que tomava parte, porque aquelas tardes eram tais cheias de acontecimentos dramáticos do que muitas vezes uma vida inteira. Eram os acontecimentos que surgiam no livro que estava a ler; é verdade que as personagem por eles afetadas não eram ‘reais’, como dizia Françoise. Mas todos os sentimentos que a alegria ou o infortúnio de uma personagem real nos fazem experimentar só acontecem em nós por intermédio de uma imagem dessa alegria ou infortúnio; o engenho do primeiro romancista consistiu em compreender que no aparelho das nossas emoções, como a imagem é o único elemento essencial, a simplificação que consistiria em suprimir pura e simplesmente as personagens reais seria um aperfeiçoamento decisivo. (…) (p. 92-93)

O trecho é longo, intenso, revelador (um deleite, vou levá- lo comigo para o resto da minha existência!),  ele fala do “achado” do romancista que conseguiu descobrir a “fórmula” para a emoção (ele conta qual é). Mas não vou dizer, tá? Leia o livro! 🙂

Já na juventude, Proust cita o escritor Bergotte e seu livro “A noite de outubro”, é um personagem fictício. Bergotte aparece em outros livros de “Em busca do tempo perdido”. Não consegui achar nada a respeito, mas vou tentar descobrir se Bergotte pode ser um pseudônimo de alguém que Marcel não quis revelar o nome. Quem terá sido Bergotte?

Também vemos no livro as origens judaicas da família Proust. O seu avô cantava músicas hebreias e o escritor também tinha amigos dessa religião como o Bloch, que seu pai detestava, o achava “idiota” e “imbecil” (p. 100). A avó também não gostava de Bloch, o achava meio louco. O cara era meio doidão mesmo, chegava para almoçar todo cheio de lama, fazia chacotas das pessoas e irritava a família Proust. O único que não se sentia irritado era Marcel, gostava do amigo justamente porque ele se comportava diferente das convenções sociais da moral burguesa conservadora.

Nesse capítulo, Proust ainda jovenzinho não revela a sua homossexualidade, ao contrário, ele apaixona-se por Gilberte, uma ruivinha que morava nos Campos Elísios em Paris (p. 152).

 Marcel sofria a falta crônica de afeto dos pais na sua infância/adolescência, sentia- se muito sozinho:

(…) Se acabava de pensar nos meus pais com ternura e de tomar decisões mais sensatas e mais adequadas a dar- lhes prazer, eles tinham ocupado o mesmo tempo a informar- se de um pecadilho de que eu me tinha esquecido e de que severamente me censuravam no momento em que eu corria para eles para os beijar. (p. 166)

E essa falta de carinho o fazia sonhar assim, uma mistura de carência e desejo:

Por vezes, à exaltação que a solidão me provocava juntava- se outra que eu não sabia separar nitidamente da primeira causada pelo desejo de ver surgir à minha frente uma camponesa que pudesse apertar nos braços. ( p.166)

A partir desse ponto citado acima, Proust começa a falar da sua sensualidade, que eu interpreto como sexualidade, creio que foi algum problema de tradução. O desejo sem limite, queria a camponesa de Méseglise, de Roussainville, a pescadora de Balbec…

(…) e a minha sensualidade se espalha por todos os domínios da minha imaginação,o meu desejo já não tinha limites. (p.166-167)

Proust afirma que foi por causa dessa época que ele desenvolveu, nos anos vindouros, a impressão que então permaneceu obscura, que saiu, muito depois, a ideia que construí sobre o sadismo. (p.169) Ele presenciou (espiando pela janela) duas moças do povoado numa cena lésbica, e uma delas, a senhorita Vinteuil, cuspiu no retrato do pai morto, que ele considerou um ato sádico, de profanação, o prazer na maldade. Na página 174 ele discorre sobre esse ato de sadismo.

A despedida de Combray era dolorosa para o rapaz, que chorava agarrado aos pinheiros. A tia Leònie, que teve uma importância fundamental nesse capítulo de memórias de Combray, morreu num outono, Françoise tomou conta da patroa até o final.

Swann teve um papel de muito pouco destaque nesse primeiro capítulo.

No segundo capítulo voltado para Swann, não tem nada de autobiográfico, é uma história independente. Mulherengo e interesseiro, Swann usa seus contatos para benefício próprio. Esse é o capítulo que nos conta como Swann apaixonou- se e sofreu por Odette. Fascinante.

No primeiro capítulo Swann já havia se casado. Nesse, vamos saber com quem se casou. Swann é pintado como o típico canalha que não se compromete emocionalmente com ninguém, conquistava as mulheres de qualquer profissão, classe social, criadas ou aristocratas, ricas ou pobres, não se importava se eram bonitas ou feias, mas as deixava igualmente sem nenhuma consideração quando cansava delas. Seria mais uma delas, Odette de Crècy, uma cocote (prostituta), que não agradava a Swann fisicamente, para ele é muito feia, apesar de muito elegante e bem vestida. Ela colocou-se nas mãos de Swann, é gentil, afável, humilde, entregada…e acabou conquistando Swann, quando ele pensa numa mulher, é ela que lhe vem à cabeça:

(…) a imagem de Odette de Crécy acabava por absorver todos esses devaneios, se estes deixavam de ser separáveis de recordação dela, então a imperfeição do seu corpo deixava de ter qualquer importância, assim como o fato de ser mais ou menos que outro corpo conforme ao gosto de Swann, pois, tendo- se tornado o corpo daquela que amava, seria dali em diante o único que lhe poderia causar alegrias e tormentos. (p. 213)

Ainda assim, Swann continuava saindo com outras mulheres, apaixonou- se por uma operária jovenzinha e mantinha encontros furtivos com ela. Odette mora na Rua La Peróuse, atrás do Arco do Triunfo, onde Swann sempre a leva na sua carruagem. Na p. 234 há uma descrição da casa de Odette, que mora sozinha e tem um criado. Odette é muito romântica, depois de uma visita de Swann, alguns minutos depois envia- lhe este bilhetinho:

Se se tivesse esquecido também do coração, não deixaria que o recuperasse. (p. 236)

O problema de Swann com Odette é que ele a acha feia, olha só para as suas maçãs do rosto. Swann a compara com a filha de Jetro, Zéfora, representada na Capela Sistina (Vaticano), fresco de Boticelli, “A vida de Moisés”. Tal semelhança fez mudar o seu parecer sobre ela, da semelhança com uma obra- de- arte nasceu o desejo físico, coisa que antes não acontecia. Realmente apaixonou- se por Odette de corpo e alma.

O favor que Swann queria do avô do narrador era que o apresentasse à uma família proeminente, os “Verdurin”, mas com a negativa do senhor, ele recorreu à Odette, pois essa conhecia a senhora que organiza essas tertúlias. Os Verdurin (um casal, ele médico e a esposa) “iniciavam” as pessoas num meio social privilegiado, artístico, musical, algo liberal e variado, como os Cottard, Saniette, o pianista, a tia deste, Forcheville, o pintor, Brichot, Odette e agora Swann, entre outros. Adotarei esse costume da senhora Verdurin:

(…) O meu marido acredita que eu não gosto de fruta só porque como menos que ele. Mas não, sou mais comilona que vocês todos, só que não preciso de a meter na boca, porque gozo com os olhos. (p.222-223)

O jovem pianista tocou a sonata de Vinteuil na casa da senhora Verdurin. O nome do músico é o mesmo da cidade onde nasceu Proust e também é o mesmo nome da senhorita que Proust adolescente espiou pela janela numa cena lésbica no primeiro capítulo. Swann ficou impressionado, ouça:

Swann não parecia simpático ao senhor Verdurin, que o achava muito “presumido” (p. 242); sobre Odette, pensa que ela não é muito inteligente, nem virtuosa, mas que reside justamente nisso o seu encanto.

O amor de Swann por Odette apareceu como se tivesse despertado de um delírio depois de uma febre, como se acabasse de despertar. (p.243)

Com a desculpa de arrumar uma catleia (orquídea) que Odette levava no decote, finalmente, os dois fizeram amor, “fazer catleia” é a forma carinhosa que passaram a chamar o ato sexual. Todo casal apaixonado fica meio ridículo, não é?

Swann está extremamente feliz, Odette passa a ser o centro do seu mundo:

(…) Usualmente as criaturas são- nos tão indiferentes que, quando atribuímos a uma delas determinadas possibilidades de sofrimento e de alegria para nós, faz da nossa vida como que um espaço comovente onde ela estará mais ou menos próxima de nós. Swann não era capaz de se interrrogar sem perturbação sobre o que Odette viria a ser para ele nos anos que iam seguir- se. (p.250)

Interessantíssimo a narração do estado psicológico de Swann em pleno estado de paixão, esse estado de anestesia geral, onde nada exterior importa, onde tudo foge da racionalidade. Leia na página 251.

Pobre louco do italiano Joseph Tagliafico é a música que Odette queria que tocasse no seu enterro. Odette e Swann ouviam também a Valsa das rosas, executada por Odette ao piano. Música que ela gostava, mas para Swann era de mau gosto, ele preferia Vinteuil, mas não tentava corrigí- la, sabia que era pouco inteligente. Tinha efetiva consciência de que ela não era inteligente. (p. 255). Odette era “burrinha”, mas ele gostava dela mesmo assim. O amor é cego, não é? Swann desistiu de ensinar o que era a beleza artística para Odette com medo de desiludi- la e também perder o seu amor. E com isso, ela também o achava Intelectualmente inferior ao que era de esperar. (p. 256). Às vezes nos jogos de amor nem sempre (ou muitas vezes) se acerta. Eles tinham muitas discordâncias e diferenças na forma de ver o mundo e as pessoas. Odette não entendia porquê Swann morava num lugar indigno dele, perto do Cais de Orleães, rodeado de velharias. Swann é arquiteto, estudou por dez anos. Mas ambos amavam até o que odiavam um do outro. Na minha terra isso chama- se “perder a personalidade”:

(…) desde que amava Odette, simpatizar com ela, tentar ter uma só alma dos dois, era- lhe tão agradável que procurava comprazer- se nas coisas de que ela gostava, e sentia um prazer um tanto mais profundo, não apenas em imitar os seus hábitos, como ainda em adotar opiniões (…) (p. 261)

Swann estreita laços com os Verdurin, os admira profundamente,  considera que são “magnânimos”, é o único salão que passa a frequentar. O saber artístico e literário dava um status superior a quem os possuía nesses salões parisinos. Mas tal admiração não é recíproca, o casal detesta Swann.

Forcheville sente atração física por Odette e quer marcar um jantar com ela escondido de Swann; este, faz de tudo para comprazer a amada, dá dinheiro (muito) todos os meses, compra presentes caros, não sai, não viaja, deixou de frequentar a casa dos amigos habituais, sempre à disposição de Odette. Há gente que pensa que ela é uma interesseira, mas Swann não acreditava. O protagonista desconfia da fidelidade da namorada por alguns olhares e atitudes, começa a sentir um ciúme doentio, a persegui- la escondido. Pega Odette na mentira.

Essa é a fase cujo amor vira dor. Com isso também, a queda social, a hipocrisia cai e começam a aparecer as verdades. Swann simplesmente banido depois de seis meses frequentando assiduamente a casa dos Verdurin:

(…) E não se falou mais de Swann em casa dos Verdurin. (p.304)

Esse salão era um empecilho para os encontros com Odette, ele já não podia ir mais lá e era onde ela estava sempre. Ele começou a decepcionar- se com ela, pois não renunciava nada, nenhum prazer para estar com ele. Odette continuava gentil e sedutora quando o encontrava, mas não envolvia- se emocionalmente e seguia com sua vida, justamente como Swann era antes de conhecê- la. Todos os temores, sofrimentos, medos, ciúme desapareciam quando ele estava com Odette. Depois desses encontros Swann voltava a enviar- lhe belas jóias no dia seguinte. Mas a agonia continuou, veja a descrição do que é o “amor” (ou paixão?) de Swann por Odette:

(…) eis o que ele tentava perguntar a si mesmo o que era; porque existe uma semelhança entre o amor e a morte, mais que aquelas outras vagas, que constantemente repetimos, que nos fazem interrogar mais fundo, com receio de que se escape a sua realidade, o mistério da personalidade. E esta doença, que o amor de Swann era, multiplicara tanto, estava tão estreitamente implicado em todos os hábitos de Swann, em todos os seus atos, no seu pensamento, na sua saúde, no seu sono, na sua vida, mesmo no que desejava para depois da morte, era já de tal modo um só com ele, que não seria possível arrancá- lo dele sem o destruir também quase inteiramente: como se diz em cirurgia, o seu amor já não era operável. (p. 324)

Tenho certeza que você conhece alguém (ou você mesmo) que renunciou tudo voluntariamente por um grande amor. Assim era o de Swann.

A história de Swann encontra- se com a do narrador (alter- ego de Proust) quando Swann fala de seu tio- avô Adolphe (aquele que estava com uma prostituta e pediu a Proust que não contasse à família). O tio Adolphe era amigo de Odette (não esqueçam que ela é prostituta), mas tentou agarrá- la à força. E Swann recusou- se a cumprimentar Adolphe quando soube disso. ( p.328)

Swann ao ouvir a sonata de Vinteuil, foi como Proust quando molhou a madalena no chá, as recordações vieram como um vendaval, lembrou do início, de como Odette era apaixonada e agora tñao desatenta. As dúvidas que tinha em deixá- la entrar na sua vida e quando ela lhe pediu para que se vissem mais vezes e ele falava que tinha “medo de sofrer”. Lembrou de tudo o que viveram. Na pág. 362 acontece um dos trechos mais bonitos, onde Swann recupera a si mesmo, chora, sente saudade de quem ele foi um dia ouvindo aquela música. Foi o momento que ele deixou de ser ela e passou a ser ele mesmo de novo. Percebeu que Odette não poderia mais amá- lo como antes. Recebeu uma carta anônima confirmando que Odette era mesmo prostituta, coisa que ele sempre duvidou. Ela transava com homens e mulheres, inclusive Forcheville que era um dos que Swann mais tinha ciúme e a senhora Verdurin, ela própria contou a Swann. Assim funcionava a alta sociedade de Paris em suas duas faces: o que se via e o que se escondia debaixo do tapete. Odette confessou, finalmente, as infidelidades. Swann estava certo.

A história é tão bem costurada, que só no final, com as recordações dos fatos e diálogos acontecidos, tudo faz sentido e é como um susto! Tudo foi uma grande mentira.

E  Swann perguntou- se o porquê de tanto sofrimento por uma pessoa que nem era o seu tipo.

No terceiro capítulo bem curtinho, apenas 48 páginas, volta o narrador a falar dos próprios sentimentos, sobre a verdade e o valor da essência primeira das coisas, de música, natureza, obras-de-arte, das viagens que gostaria de fazer e, principalmente, pelo seu amor à Gilberte.

(…) Só tinha curiosidade, só tinha avidez de conhecer o que julgava mais verdadeiro que eu próprio, o que tinha para mim o valor de me mostrar um pouco do pensamento de um grande gênio, ou da força ou da graça da natureza tal qual se manifesta a si mesma, sem a intervenção dos homens. (p.402)

(…) Para que a tempestade fosse absolutamente verdadeira queria também que a própria costa fosse uma costa natural, e não um dique recentemente criado por um município. De resto, a natureza, por todos os sentimentos que despertava em mim, parecia- me ser o que havia de mais oposto às produções mecânicas do homem. Quanto menos tinha a marca delas, mais espaço oferecia às expansões do meu coração. (p.402)

O narrador cita vários nomes de cidades que gostaria de visitar e comenta sobre a saúde frágil e limitadora, coisa que sempre acompanhou a vida do escritor:

Se a minha saúde se fortalecesse e os meus pais permitissem, se não ir passar um tempo em Balbec, pelo menos tomar uma vez, para conhecer a arquitetura e as paisagens da Normandia ou da Bretanha, aquele trem da uma e cinte e dois em que embarcara tantas vezes em imaginação (…) (p. 406-407)

Por ordens médicas, Proust ficou proibido de viajar por um ano na juventude, de ir ao teatro, de qualquer coisa que o agitasse. Teve que cancelar uma viagem programada para Veneza e Florença, além dos encontros sociais com os amigos, principalmente a amiga Gilberte Swann, com quem sempre ia brincar nos Campos Elísios e ver o Sena congelado no inverno. Ele apaixona- se pela moça, só pensa em Gilberte, só quer estar com ela, mas não é correspondido. Ambos são crianças ainda, Françoise ainda o busca na escola.

Esse capítulo é cheio de metáforas, analogias e alegorias:

Há dias montanhosos e difíceis que levamos um tempo infinito a transpor e dias em declive que se deixam descer a cantar a toda a velocidade. (p. 409)

Sobre o amor que nasce espontâneo e o amor “provocado” ou “forçado”. Sim, existe qualidades diferentes de amor: aquele que nasce sem esforço, existe sem razão e outro que precisa ser alimentado pela racionalidade ou pela conveniência:

(…) e como todos temos necessidade de encontrar razões para a nossa paixão, mesmo o sermos felizes por reconhecer no ser amado qualidades que a literatura ou a conversa nos ensinaram serem das que são dignas ou transformá- las em razões novas para o nosso amor, ainda que essas qualidades sejam as mais opostas às que esse amor procuraria quando era espontâneo. (p. 428)

Proust revelou só no finalzinho do livro (p. 439) quem é a mãe de Gilberte e com quem Swann casou- se. Não vou contar!

(…) Mas agora, mesmo não me levando a nada, esses momentos pareciam- me ter tido em si mesmos grande encanto. Queria reencontrá- los tais como os recordava. (…) (p. 445)

O narrador queixa- se da deselegância dos carros e mulheres, prefere as lembranças da sua infância.

O fim do capítulo é belo e melancólico. Proust fala do fim das coisas, da memória que tenta reconstruir o que já não existe, da fugacidade da vida e do tempo.

Mais alguns trechos que destaquei do livro:

(…) O Hábito! Acomodador hábil mas muito lento, e que começa por deixar que o nosso espírito sofra durante semanas numa instalação provisória; mas que, apesar de tudo, o nosso espírito fica feliz por encontrar, porque, se não fosse o hábito, e reduzido exclusivamente aos seus próprios meios, seria impotente para nos oferecer uma casa habitável. (p. 14)

(…) mesmo do ponto de vista das coisas mais insignificantes da vida, nós não somos um todo materialmente constituído, idêntico para toda a gente e de quem cada um apenas tenha de tomar conhecimento, coo de um caderno de encargos ou de um testamento; a nossa personalidade social é uma criação do pensamento dos outros. Mesmo o ato tão simples a que chamamos ‘ver uma pessoa conhecida’ é em parte um ato intelectual. Preenchemos a aparência física do ser que vemos com todas as noções que temos sobre ele e, na figura total que imaginamos, essas noções possuem um importante papel. (p. 25)

O que eu censuro nos jornais é obrigarem- nos todos os dias a dar atenção a coisas insignificantes, ao passo que lemos três ou quatro vezes na vida os livros em que há coisas essenciais. Já que rasgamos febrilmente todas as manhãs a cinta do jornal, então devemos mudar as coisas e pôr no jornal, sei lá…os…os Pensamentos de Pascal (…)  ( Swann, p. 32)

Proust cita Eclesiastes pela boca de sua tia: “As pessoas aduladoras sabem bem fazer- se rogadas e arrecadar a massa; mas, paciência, Deus nosso Senhor um belo dia castiga- as”; (…) A felicidade dos maus como torrente corre. (p. 117)

(…) Mas já na idade de poucas ilusões de que Swann se aproximava (…). Nessa época da vida já o amor nos atingiu várias vezes; ele já não evolui sozinho em conformidade com as suas próprias leis desconhecidas e fatais, diante do nosso coração pasmado e passivo. Vamos em seu auxílio, falseamo- lo pela memória, pela sugestão. Ao reconhecermos um dos seus sintomas, recordamo- nos, fazemos renascer os outros. (p. 210)

(…) É verdadeiramente incrível pensar que um ser humano pode não compreender que, ao permitir- se um sorriso a respeito de um semelhante que lhe estendeu lealmente a mão, se degrada até uma abjeção da qual nem a melhor das boas vontades jamais o poderá levantar. (p. 302)

Curiosidades:

  • o primeiro a traduzir essa obra no Brasil foi Mário Quintana em 1948.
  • Marcel Proust é considerado o primeiro escritor clássico do seu tempo.
  • Proust cita bastante George Sand, que é pseudônimo de uma baronesa feminista francesa, Aurore Dupin, que teve uma vida fascinante e lutou pela emancipação feminina no século IXX.
  • O povoado de Combray tem menos de 140 habitantes e acabou virando lugar turístico- literário por causa do primeiro capítulo dessa obra. As pessoas vão a Combray comer madalenas e visitar o sítio do tio de Proust, Jules Amiot, que no livro é propriedade de Swann.
  • A fotografia de Proust morto dois dias depois do seu falecimento foi feita pelo fotógrafo americano Man Ray (Philadelphia, 1890- Paris, 1976), por insistência do seu amigo Jean Cocteau, escritor francês. A foto é considerada objeto de Arte e está exposta no Museu Metropolitano de Arte em Nova York
  • A sobrinha- neta de Proust, Patricia Mante- Proust lançou um livro- álbum sobre o tio ilustre com documentos e fotos familiares nunca vistos antes. Eu consegui esse tesouro e, em breve, falei sobre ele aqui. Chama- se “Proust- a memória recobrada”.
  • Um dos restaurantes preferidos de Swann (p. 311) é o Lapérouse, que realmente existe em Paris. Odette mora numa rua com o mesmo nome do restaurante. O Lapérouse transformou- se em ponto de encontro literário e teve ilustre frequentadores como Guy de Maupassant, Emile Zola, Alexandre Dumas e Victor Hugo, um dos salões leva o nome do escritor desse último .
  • Proust usou seus amigos como inspiração para criar Charles Swann, um deles chamado Charles Hass (Paris- 1833- 1902), foto:

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Um livro essencial na biblioteca de qualquer bom leitor. Depois dessa leitura decidi aprender francês “de verdade”, uma pena não ler o original. As traduções nunca mostram o que os livros são na realidade, desconfie sempre delas e procure um tradutor de renome para minimizar o “estrago” da tradução. A edição portuguesa com tradução de Pedro Tamen:

9789727087303 Proust, Marcel. Em busca do tempo perdido- Do lado de Swan. Relógio D’água, Lisboa, 2003. Tradução: Pedro Tamen. 448 páginas

Esse livro ajudou- me a entender um pouco mais sobre a vida. O post enorme, inevitavelmente imenso, vai ser mexido e remexido algumas vezes ainda. Não estranhe se encontrar coisas diferentes ao voltar outras vezes. 🙂

* “Tudo o resto” usado em Portugal; para brasileiros, “todo o resto” nos soa melhor.

* *As citas foram corrigidas de acordo com o último acordo ortográfico, e quando facultativa, a versão escolhida foi a brasileira.

Resenha: A hora do diabo, de Fernando Pessoa


A música, o luar e os sonhos são as minhas armas mágicas. (Fernando Pessoa, p.44)

Este livro, “A hora do diabo”, são folhas soltas escritas por Fernando Pessoa, fazem parte do espólio do autor depositado na Biblioteca de Lisboa. Foram organizadas pela professora portuguesa e especialista no autor,Teresa Rita Lopes, também é escritora.

Teresa Rita Lopes2Teresa Rita Lopes, estudiosa da obra de Pessoa.

O prefácio “História e Alcance de A Hora do Diabo” é mais extenso que a própria obra, Teresa explica que essas folhas soltas faziam parte de um projeto de um conto que se chamaria “Devil’s voice”. Pessoa foi educado em inglês na África do Sul, era fluente nesse idioma, escreveu seus primeiros poemas em inglês. Apesar desse título, o texto está em português. A presença satânica se faz presente em vários textos do escritor ainda adolescente, entre os 14 e 17 anos ele começou a questionar a religião católica praticada por sua família, isso depois de ter visitado o avô judeu em Portugal. Pessoa faz uma defesa do diabo, que não é tão ruim como parece e quer fazer ver a Igreja Católica. Não terminei de ler o prefácio, porque esmiuçava muito o que estava por vir, o spoiler estraga o prazer da descoberta. Melhor ler o prefácio depois da leitura do texto de Pessoa. Gênio não se faz, parece que já nasce:

É que o sonho, minha senhora, é uma ação que se tornou ideia; e que por isso conserva a força do mundo e lhe repudia a matéria, que é estar no espaço. Não é verdade que somos livres no sonho? (p. 44)

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Fernando Pessoa adolescente. Bonitinho,não?! Foi nessa época em que morava em Durban (África do Sul) que escreveu os textos de “A hora do diabo”.

Maria emplaca uma conversa com o Diabo, ela estava na estação do trem, e de repente, apareceu na sua casa. Nessa atmosfera meio onírica, sobrenatural, mística, o Diabo apresenta- se, diz que é irmão de Deus, um anjo sem sexo, do início dos tempos. Sente- se injustiçado, não considera- se ruim, considera- se até melhor que Deus, inclusive:

(…) Corrompo, é certo, porque faço imaginar. Mas Deus é pior- num sentido, pelo menos, porque criou o corpo corruptível, que é muito menos estético. Os sonhos, ao menos, não apodrecem. Passam. (p. 47)

O Diabo é a imaginação; Deus, a própria Criação. O Diabo é a luxúria, a volúpia, o desejo, a serpente. Duas criações do Diabo: o luar e a ironia. O Diabo é o “esquecimento de todos os deveres, a hesitação de todas as intenções” (p.49). O Diabo é a dúvida que atormenta o homem. É o “Deus da Imaginação”, como se auto denomina:

Corrompo mas ilumino. (p.53)

O conto é muito filosófico, fora que dá vontade de chorar de tão bem escrito. Será que foi um menino mesmo que escreveu?! Pessoa consegue convencer que o Diabo não é tão ruim não, além de ser lúcido e inteligente.

(…) Todo este universo, com seu Deus e o seu Diabo, com o que há nele e de coisas que eles vêem, é um hieróglifo eternamente por decifrar. (p. 51)

O Diabo diz que todas as religiões são iguais, cultuam símbolos diferentes, mas que falam da mesma coisa, por mais opostas que sejam. E todas as futilidades, desejos infundados, aborrecimentos, tédio, é o pensamento do Diabo que não sabe de nada, ele desce sobre a alma dos homens. Ai, que medinho, não?! Mas o próprio Diabo nega a sua existência, o Diabo é o vazio, não existe, como Deus, que são criações para preencher lacunas, veja:

A verdade, porém, é que não existo- nem eu, nem outra coisa qualquer. Todo este universo, e todos os outros universos, com seus Criadores e seus diversos Satãs- mais ou menos adestrados- são vácuos dentro de vácuo, nadas que giram, satélites, na órbita inútil de coisa alguma. (p. 55)

Entre os textos há uma desconexão, uma sensação de escritura inacabada (terá sido engavetado?). E também muita poesia:

(…) Felizes os que dormem, na sua vida animal, – um sistema peculiar de alma, velado em poesia  ilustrado por palavras. (p. 59)

O único defeito desse livro? Ser muito curto. Ele desestrutura, faz sair do lugar comum, sacode as nossas crenças e faz pensar… pensar na ordem estabelecida. E se tudo for uma grande balela? Quem sabe da verdade mesmo?! Tudo, tudo, tudo é só questão de fé, é pegar ou largar!

(…) Tudo é muito mais misterioso do que se julga, e tudo isso aqui- Deus, o universo e eu- é apenas um recanto mentiroso da verdade inatingível. ( p.60)

Fernando Pessoa A Hora do Diabo

Pessoa, Fernando. A hora do diabo. Assírio & Alvim, Lisboa, 2004. 69 páginas

Um dia, quando eu tinha vinte e poucos, um professor da universidade disse na sala de aula: “é impossível escrever algo substancial antes dos quarenta”, possivelmente reproduziu o que leu de algum crítico. E eu pensei: ‘para quê escrever, então, se tudo o que eu fizer vai ser ruim?’. Uma pena que eu tenha acreditado nele, esse pensamento deve ter sido o Diabo pessoniano tolhendo o sonho criativo alheio.

O bom sonhador nunca acorda. Eu nunca acordei. (p.45)

Preste atenção nos seus sonhos!

Gente linda é gente que lê


Quando andamos pela rua e vemos gente compenetrada com suas leituras, não dá vontade de ler também? “Ahhh…por que não trouxe meu livro!” Gente linda, é gente que lê no ônibus, no metrô, no banco da praça, no avião, embaixo de uma árvore, na sala de espera do médico, na cafeteria…gente que não pode andar sem um livro, gente que inspira! (Todas as fotos são minhas, cópias com créditos, ok?)

O leitor e a bicicleta, Parque del Retiro, Madri3055075073_cec2176b2b_z

Lendo em dupla, Parque del Retiro, Madri3055077449_9a3fa906a3_z

Leitor solitário, Mosteiro dos Jerónimos, Lisboa3598141478_701f8840de_z

Leitura e descanso, jardim do Museu do Prado, Madri.
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Concentração, Parque del Retiro, Madri.3748958862_db4402304a_z

Leitura e cerveja, cidade de Madri.4014096954_97b3e03021_z

João Ubaldo Ribeiro na praia de Calafell, Tarragona, Espanha2833449306_d5063357eb_z

Leitura e sol, jardim do Museu do Prado
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Santa Iria de Azóia, Lisboa3235582137_a0f7a268bd_z

Uma pequena intelectual, dias felizes, são dias com livros! Arroyomolinos, Madri.3253185711_c78728f850_z

Parque das Nações, Lisboa.3281038950_d7ffd8667a_z

Santa Iria de Azóia, Lisboa.3310526209_bbde43f452_z

E você, costuma ler aonde?

Sorteio de livro!


O livro a ser sorteado é um que a nossa parceira, a editora Planeta da Espanha, nos enviou:

La más bella historia de amor de Paula Cortázar, de Antonio Gómez Rufo. O livro está escrito em espanhol.

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Sinopse (da Editora Planeta e minha livre tradução)

Daniel, um soldado espanhol, regressa ferido do Afeganistão. Uma bomba deixou o seu rosto desfigurado, mas uma cirurgia estética o converte num homem de uma beleza perfeita, abrindo portas para viver uma vida diferente. Com o que ele não conta, nem Paula, sua namorada, é com a sucessão de surpresas e acontecimentos que uma sociedade como a atual é capaz de provocar para satisfazer seus instintos e tratar de esquecer suas necessidades. Gómez Rufo desmascara, com uma linguagem depurada até os ossos, a grande farsa social, propondo um emocionante brinde ao amor.

Sinopsis

Daniel, un soldado español, regresa herido de Afganistán. Una bomba le ha dejado desfigurado el rostro, pero la cirugía estética lo convierte en un hombre de una belleza ideal, abriéndole las puertas para vivir una vida distinta. Con lo que él no cuenta, ni tampoco Paula, su novia, es con la sucesión de sorpresas y acontecimientos que una sociedad como la actual es capaz de provocar para satisfacer sus instintos y tratar de olvidar sus necesidades.
Gómez Rufo desenmascara, con un lenguaje depurado hasta los huesos, la gran farsa social, proponiendo un emocionante brindis al amor.

Antonio Gómez Rufo

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Madrid, 1954
Antonio Gómez Rufo nasceu em Madri e estudou Direito e Criminologia na Universidade Complutense. Considerado um dos melhores escritores espanhóis, é autor de uma dezena de livros, assim como a biografia de Berlanga e de diversos livros sobre Madri. Sua obra, elogiada pela crítica espanhola e internacional, foi traduzida ao alemão, holandês, búlgaro, português, francês, grego, romeno, polaco e italiano. Prêmio Fernando Lara de Novela e Prêmio Independência Dois de Maio pelo “Segredo do rei cativo (2005), foi finalista do Prêmio Nacional de Narrativa com “A alma dos peixes” (2000). Também é autor, entre outras, de “As lágrimas de Henan, os mares do medo” (2003, Prêmio da Associação de livreiros de Cartagena), “Adeus aos homens” (2006), “O senhor de Cheshire” (2006, Prêmio Ducal de Loeches), “Balada triste em Madri” (2007), “A noite do tamarindo” (2008) e  “A abadia dos crimes” (2011).

Antonio Gómez Rufo nació en Madrid y estudió Derecho y Criminología en la Universidad Complutense. Considerado uno de los mejores escritores españoles, es autor de una docena de novelas, así como de la biografía de Berlanga y de diversos libros sobre Madrid. Su obra, elogiada por la crítica española e internacional, ha sido traducida al alemán, holandés, búlgaro, portugués, francés, griego, rumano, polaco e italiano. Premio Fernando Lara de Novela y Premio Independencia Dos de Mayo por El secreto del rey cautivo (2005), fue finalista del Premio Nacional de Narrativa con El alma de los peces (2000). También es autor, entre otras, de Las lágrimas de HenanLos mares del miedo (2003, Premio de la Asociación de Libreros de Cartagena), Adiós a los hombres (2006), El señor de Cheshire (2006, Premio Ducal de Loeches), Balada triste en Madrid (2007), La noche del tamarindo (2008) y La abadía de los crímenes (2011).

O sorteio será realizado no dia 29 de fevereiro (sexta- feira). Para participar é só curtir a página do “Falando em Literatura” no Facebook aqui e curtir o post do sorteio lá no Facebook. Boa sorte!