Você sabe qual foi a primeira gramática da língua portuguesa? (PDF grátis!)


Para os amantes “da última flor do Lácio”, deixo aqui o PDF da primeira gramática da língua portuguesa, uma joia escrita há 482 anos por Fernão de Oliveira (1507-1581), nascido em Aveiro, terra dos meus ancestrais. Viveu muito para o padrão da época e ainda mais com uma vida tão aventureira. Sobre o local da sua morte há incertezas. Pode ter sido em Aveiro, Lisboa ou na França.

O aveirense foi “gramático, historiador, cartógrafo, piloto e teórico de guerra e de construção naval”, Fernão foi clérigo, espião, soldado, diplomata, revisor/corretor e professor de retórica na Universidade de Coimbra. Morou na Espanha, Itália, França, Inglaterra e na África. Foi acusado pela Santa Inquisição portuguesa por heresia várias vezes e preso por isso. Uma figura interessantíssima, que teve uma vida agitada e nada convencional. Veja mais detalhes.

E Fernão ainda teve tempo para escrever! Escreveu não só a primeira gramática da nossa língua, Grammatica da lingoagem portuguesa”, também livros náuticos muito importantes.

E já que estamos falando em gramática, quero comentar uma curiosidade: historicamente, o nosso idioma foi classificado em “português antigo” (até o séc. XIV), “português médio” (durante o séc. XV), “português clássico” (meados do séc. XVIII) e “português moderno” do séc. XVIII até hoje. Um aspecto interessante sobre a nossa língua oral é que as vogais no português brasileiro e africano soam muito mais parecidas com o português antigo, médio e clássico, que o português de Portugal. Curioso, não? * 

Eu fiquei emocionada “folheando” a  “Grammatica da lingoagem portuguesa”, dá para entender tudo o que ele escreveu há quase 500 anos, mesmo com muitas direferenças ortográficas. O idioma tinha algumas semelhanças com o espanhol e achei curioso que naquele tempo ele colocou a cedilha no “c” antes de e:

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Quem é professor de português sabe que um erro recorrente é a cedilha antes de “e” e “i”. Tá vendo? Deve ter ficado no DNA… 🙂

Vale muito a pena ter esse exemplar na sua biblioteca virtual pelo imenso valor histórico e o prazer de dar essa volta no tempo. Clica aqui.

*Gramática da língua portuguesa, vários autores, (nove!), da Editora Caminho, Portugal, 2004.

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Resenha: “Ciranda de pedra”, de Lygia Fagundes Telles


Tenho uma leve lembrança da novela “Ciranda de Pedra”, que passou na minha infância (1981), mas nada significativo em relação ao enredo, só lembro do rosto de Lucélia Santos; portanto, essa obra era como uma desconhecida para mim. Sei que a novela da Globo foi um tremendo sucesso, foi reprisada e ganhou um remake em 2008. De novela eu não entendo, não as vejo desde 2004, época da minha expatriação “definitiva”. Quem entende do assunto é a minha amiga Alana Freitas, vejam lá o “Entretelas”, blog especializadíssimo nessa arte de massas. Em tempo: a adaptação de “Ciranda de Pedra” (a de 2008) também foi vista em Portugal.

A história começa com uma menina revoltada, triste, deprimida, que chora junto à Luciana, a empregada mulata, que cuida de toda a família. Esta obra foi escrita em 1954 e nota- se a opressão e preconceito que os negros sofriam. A cor estava associada à feiura (referência dos cabelos) e à tristeza. Os anjos só podiam ser brancos:

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Virgínia utiliza a cor de Luciana para atacá- la e menosprezá- la em momentos de tensão. Luciana é um personagem forte, porque faz as revelações mais importantes da narrativa, que é bem melodramática na primeira parte, por isto deve ter virado novela na TV, tem elementos de folhetim. Mas não foi ameno, levei alguns sustos, é uma narrativa abrupta dividida em duas partes. Já na primeira desenvolve- se todo o dramalhão. Não posso negar que não haja verossimilhança com a vida. Aliás, a vida é muito pior.

Os pais estão separados e a mãe, Laura, sofre demência, algo parecido com Alzheimer algumas vezes, e também sofre alucinações e desconecta do mundo “real”. Ela não lembra que Virgínia é sua filha, mas tem alguns momentos de lucidez.

A narrativa está entremeada em uma teia de fragilidades, rupturas e analogias entre pessoas, pássaros e animais invertebrados como beija- flores, formigas, aranhas e borboletas. Laura vê besouros: é o sinal de que Virgínia perdeu a mãe mais uma vez. A obra é enigmática, há uma aura de mistério e dor.

Vamos descobrindo mais sobre quem é Laura nos seus momentos de lucidez; no entanto, não dá para saber se os fatos são reais ou fruto de sua loucura. Ela conta que sua mãe era atriz e que seus pais morreram num incêndio. Daniel é o seu marido. Ela abandonou o ex, Natércio, pai de Virgínia, por causa dele. Laura e Natércio têm outras duas filhas, Bruna e Otávia, que moram com o pai.

A impressão é que Daniel pode ter algo de responsabilidade pela doença de Laura. Ele proíbe a entrada de Virgínia no quarto da mãe, não dá para saber se por proteção ou algo estranho. Virgínia o vê participando da loucura da mãe. Depois Daniel a envia para morar com o pai. Mais tarde descobrimos o motivo disso tudo, não vou contar, porque seria spoiler grande.

Na casa de Natércio quem cuida das meninas é Frau Herta, antipática e até cruel com Virgínia, a repreende a todo momento e exalta a qualidade de suas irmãs. Natércio é rico e mora num casarão.

Virgínia tenta negar a doença da mãe e afirma em reiterada vezes que melhorou, mesmo sabendo que não é verdade, principalmente por medo. Ela teme perder a mãe. Daniel explica o seu conceito de morte à Virgínia:

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Daniel lê um livro de Charles Manson, “Sparkenbroken”, publicado em 1936, que diz o seguinte (adaptado pelo editor): “A noite passada voei para a árvore da morte;/ De súbito uma brisa fez- me pairar; / E eu, mísero boneco de penas arremessado,/ Envolvido no meu elemento, voltei a ser pássaro.”

Para Daniel há vida após a morte e esta é a libertação. Virgínia gosta do “tio Daniel”, mas tem que fingir que não, afinal, foi por causa dele que os seus pais se separaram. O médico é muito mais carinhoso que o seu pai. Elas, Otávia e Bruna, desprezavam a pequena, que não é parecida em nada com as duas, nem em gestos, comportamento ou aparência. Claro que já dá pra desconfiar que Virgínia é filha de Daniel e não de Natércio e esse foi o motivo da separação do casal, a infidelidade de Laura. Mas, se isso é certo, por que ainda não contaram à Virgínia a verdade?

A narrativa na primeira parte da obra intercala- se em três ambientes: a casa do pai, a casa da mãe e a imaginação de Virgínia. Na segunda parte, Virgínia foi morar num colégio interno de freiras.

Há outros dois personagens, Afonso e Conrado, irmãos e vizinhos da casa de Natércio. Virgínia tinha uma queda por Conrado, mas o moço não prestava atenção nela e sim na irmã Otávia. O tempo passou e  Afonso casou- se com Bruna, tiveram uma filha. Frau Herta, doente, já não é mais a governanta e sim a portuguesa Inocência. Conrado mudou- se depois da morte da mãe para uma chácara e Natércio aposentou- se. E sobre Daniel e Laura, essa parte não vou contar. Também não vou contar o que aconteceu com Virgínia, você vai ter que ler o livro…só vou contar que ela, já crescida, sai do colégio interno e volta para a casa de Natércio.

É uma obra bem escrita e que me provocou sensações de choque e angústia por vários motivos.

Creio que na novela há mais dicotomia de personagens vilões e mocinhos, vítimas e algozes. No romance não, são só humanos…

Qual caminho escolher? Essas encruzilhadas que a vida nos impõe e suas inexoráveis consequências. É uma história cheia de bifurcações e despedidas, e essas, nunca são alegres.

Esta é a edição portuguesa lida, ainda sem as correções do acordo ortográfico:

29571360_965128723642688_6404595740615182933_n       Telles, Lygia Fagundes. Ciranda de Pedra. Presença, Lisboa, 2008. 204 páginas

Se quiser comprar a mesma edição que a minha, clica aqui.

Resenha: “Gente feliz com lágrimas”, do português João de Melo


A primeira resenha do ano! Essa obra eu comecei a ler em dezembro, pensei que conseguiria postar no ano passado, mas a resenha saiu agora. Por isso, este livro não está na minha Lista de vinte e quatro livros para 2018. Serão, pois, vinte e cinco resenhas (espero e no mínimo),  neste ano.

Este é o título de livro mais incrível que já vi: “Gente feliz com lágrimas”… que beleza, carregado de significados! Como uma frase tão pequena pode dizer tanto?!  Não só diz, comove e acerta direto no coração. Um autor com essa inteligência e sensibilidade para resumir a sua história desta maneira já lhe outorga, de antemão, muita credibilidade. Decretado o título mais bonito de todos os livros do mundo, vamos ao autor e à obra:

João de Melo, 68 anos, nasceu em Achadinha, Ilha de São Miguel, Açores (Portugal). É licenciado em Filologia Românica pela Faculdade de Letras de Lisboa e foi professor nos ensinos secundário e superior. Já morou em Madri (inclusive tem um livro chamado “Mar de Madri”), trabalhou na Embaixada de Portugal como conselheiro de cultura, mas agora vive em Lisboa. Publicou mais de vinte livros.

Joao de Melo novembro 2017João de Melo e seus olhos azuis, tal como seu personagem Nuno. (foto: Facebook do autor)

Li em algum lugar no seu Facebook, que “Gente feliz com lágrimas”(1998) mudou a sua vida. Eu creio nisso, nesse poder transformador da literatura em vários âmbitos, tanto pessoal, quanto coletivo. A obra vai completar 30 anos em 2018. Na Espanha, o livro foi apresentado em 1992 e o autor estava acompanhado adivinha por quem? José Saramago. 

Na terra do autor. (foto: Paulo Nóbrega- Facebook)

A obra está organizado assim em cinco “livros” e com um epílogo, o “Livro Zero” chamado “A felicidade sábia”.

O enredo: saem de barco dos Açores até Lisboa, Nuno Miguel, de dez anos, e Amélia, de dezesseis. O menino vai para um seminário estudar para padre por ordem do pai e a moça com o sonho de  cursar enfermagem, ela vai para um convento. Eles são da zona rural, um lugar chamado Rozário.

O mal estar da viagem e as impressões ao chegar em Lisboa pela primeira vez, é uma bela descrição fotográfica. O menino, deslumbrado com a cidade, desperta ao lembrar que “meu destino não era Lisboa, e sim, o seminário”. (p.18) O menino ia num táxi do porto ao seminário sofrendo, o seminário fica a três horas de Lisboa. :

“Deus pode certamente expulsar- nos da infância.” (p.21)

Para Amélia, foi a maior alegria da sua vida chegar em Lisboa, mas esse bom sentimento não a acompanha ao entrar no convento:

“Nunca mais a minha vida ia ser fechada nessa redoma invisível, de onde apenas se viam o mar, as nuvens paradas e a distância infinita.”(p. 21)

Ambos, Nuno e Amélia, têm a sensação de serem estrangeiros no próprio país. A distância geográfica, o sotaque e o léxico insular são diferentes do continente.

A sensação de Nuno no continente pode ser similar a de um português no Brasil ou vice- versa. A mesma língua, mas há dificuldade de entendimento. A sensação é de estranhamento e desorientação. Nossa vasta língua e suas variantes.

Sobre as palavras “imigrar” ou “emigrar” há diferenças: o imigrante sai da sua terra com caráter definitivo e o emigrante sai da terra com caráter provisório (Priberam). Mas, como saber quando é um ou quando é outro? A vida é muito surpreendente e imprevisível para saber. Há outro tipo definição, que eu gosto mais: o imigrante sai do seu país, e o emigrante move- se dentro do seu próprio país. Uma coisa é certa: sair da zona de conforto transforma, modifica. Nuno, (p. 26):

Para não ter de continuar a responder- lhes e não ser compreendido, decidiu agarrar na almofada e comprimi- la à volta dos ouvidos. A sua vida ia assim mergulhar num subterrâneo sem fundo nem altura. Nunca mais ele voltaria a ser igual a si mesmo. (…)

“Gente feliz com lágrimas” é literatura emocional, interior, psicológica. A maior parte do romance acontece no mundo interior dos personagens, por isso é universal. Tanto faz a nacionalidade do autor ou dos personagens. Mas, também é um retrato de uma boa parte da sociedade portuguesa, que sai das ilhas ou do interior, e imigra para fugir das dores e conseguir melhores condições de vida.

Nuno, já adulto, não tem boas recordações dos pais. Ele recorda o pai com ressentimento, a sua indiferença, frieza, o seu esquecimento quando partiu para Lisboa. A mãe era uma figura ausente, cumpria as ordens do marido. Ia tendo os filhos e o mais velho cuidava do mais novo. A família morava numa casa pequena, apertada, os filhos ouviam os pais terem relações sexuais e Nuno ouvia o irmão deitado ao seu lado, masturbando- se. Nuno sabia tudo que ia acontecer, passo a passo, no quarto dos pais. Como pode influenciar na vida de um filho, presenciar a sexualidade dos pais? Nuno casou- se com Marta, o romance não deu certo e  teve que procurar um psicólogo.

No segundo capítulo, “Nuno Miguel”, o próprio nos faz um convite (p.60):

Fui pai de mim mesmo, sabe? E pai de filhos só meus. Sei que viver não é diferente de criar. E penso, em última análise, que ninguém resite à sabedoria do Bem dos escritores: são anjos e os demônios da pequena vida. Por isso aqui estou. Para lhe dar conta, como diria o poeta O´Neill, da minha santa e ternurenta vidinha…Topa?

Topamos, Nuno, aqui estamos.

O terceiro capítulo, “Maria Amélia”. Ela recorda a casa que viviam quando era pequena, “com chão de terra batida e escura como breu”(p.61). A vida dos pais na roça não era nada fácil cuidando das vacas esquálidas. Amélia dormia num quarto de madeira no alto da casa, muito baixo, tinha que entrar de cócoras, “naquele barraco escuro e desprotegido”, havia ratos e ferrugem. Ela dormia com a cabeça tapada, pelo medo e para esquentar. Coisa que nunca deixou de fazer,  adulta e casada. A infância realmente marca condutas do futuro (p.63):

(…) Now, after all this time, a minha vida parece continuar assim, rasteira e aflita sob o peso e o escuro dessas multidões de nuvens, eternamente levada pelo vento.

Havia escassez de comida para ela e os quatro irmãos. Mas ela recorda com carinho do pão de trigo ou milho, com açúcar ou mel, e a manteiga, que tinha “um sabor delicioso”.

O texto de Amélia é cheio de frases em inglês. Ela imigrou para o Canadá e recorda como apanhou, com quatro anos e meio, por abrir a porta à prima Manuela, brincar de casinha e esquecer de cuidar dos irmãos menores. A mãe deu- lhe uma surra, passou a tarde toda levando beliscões, puxões de cabelo e bofetões. Teve que parar de chorar, porque o pai estava para chegar. Pais violentos em palavras e ações (p.67):

– Tal excomungada! Berrona do inferno: se te ponho as mãos em cima, deixo- te negra de pancadaria.

A criança desacostumou de brincar, cresceu rápido demais. Ela descreve os gêmeos, Nuno e Carlos. Escolheu cuidar de Nuno, porque parecia mais frágil, e Domingas, cuidou do outro pequeno, que apesar da aparência robusta, faleceu quatro semanas depois, ambos estavam com tosse. A mãe havia pedido que Deus levasse uma das crianças, porque o dinheiro com remédios os estava arruinando. Chocante, não? Mas, quando não se tem o básico para sobreviver, há que ser prático. Mas Amélia já amava a Nuno e daria sua vida pela dele.

Amélia ficava entre o ódio e o amor pelo pai. Odiava a sua frieza, mas o admirava pela sua fortaleza. Ele escolhia as madeiras e pregos para fazer os caixõezinhos dos filhos mortos, Carlos, Vítor Primeiro e Vítor Segundo. Nunca viu o pai chorar, mas ele não comia quando sabia da morte dos filhos. A mãe e as vizinhas agradeciam a morte dos anjinhos, porque morriam sem pecado.

Luís Miguel, um dos filhos, também tem voz. O livro inteiro é uma obra- prima , eu o destacaria inteiro, pura arte literária (p.73):

Nascíamos em segredo. De partos apenas um pouco queixosos, como murmúrios de gente soterrada.

O rapaz também não tem boas recordações da infância (p. 76):

A minha e a infância dos meus irmãos ficou apagada no tempo e do luxo dos retratos. Nunca fomos de anjo nas procissões, e nunca os meus pais se comoveram com a voz suplicante dos retratistas de fora da terra que garantiam a perfeição humana e a arte de emprestar à vida um pouco de sabor e saudade.

Luís tinha estrabismo e  dentes tortos, que o próprio pai tratava de arrumar arrancando- lhe sangue. Também imigrou para o Canadá. Considera- se “O palhaço pobre da família”. O personagem conta sobre a sua única foto de família tirada por um tio, que reuniu os dezessete sobrinhos. Ele descreve- se e conta sobre o seu olho preguiçoso.

Espiando entre as fotos dos familiares do autor, descobri uma muito interessante, antiga, com uma menino usando um tampão no olho. O dono da foto é Jorge de Melo, reproduzo aqui, porque a foto é pública:

Seria Jorge de Melo, irmão do autor,  o alter- ego de Luís Miguel no romance? Não sei se o menino com o tampão no olho é o dono da foto ou é um irmão… ou seria o próprio autor? João de Melo, “magro de olhos azuis”, o alter- ego de Nuno? Tal como o personagem, João de Melo entrou para um seminário aos 11 anos. Possivelmente, um romance com tintas autobiográficas. É preciso sentir para saber, não é?

Jorge, tal como Luís (o personagem) mora no Canadá. Na foto, o primeiro da direita deve ser o autor de “Gente feliz com lágrimas”. São coisas que nós, leitores, pensamos e especulamos, mas nada disto importa. Nunca devemos confundir autor com os personagens, mesmo que haja coincidências. É ficção.

As vozes dos três narradores vão se intercalando: Nuno Miguel, Luis Miguel e Maria Amélia.

Nuno recorda (p.87) que nunca houve festa alguma na sua casa de infância, nada de presentes de Natal, nem os aniversário eram lembrados. Os brinquedos eram feitos por eles mesmos com cascas de frutas, galhos de árvores e afins. Andavam descalços, sapatos só aos domingos. O pai cortava os cabelos das crianças com um “tesourão enferrujado”. Os pais não eram tremendamente pobres, mas sim, muito avarentos.

Os pais morreram precocemente e Maria Amélia acredita que só o tempo fará com que as memórias de infância sejam vistas com mais claridade. Ela começa a narrar como foi mudar para uma casa nova. Amélia recorda dos gritos do pai quando ela precisou usar óculos, como se fosse culpa dela. Para o pai, “óculos eram um luxo” e quis tirá- la da escola para não ter essa despesa. Apesar das dores, a filha consegue enxergar o lado humano dos pais e suas preocupações. Sob a sua visão, o pai era extremamente trabalhador e a família era o mais importante para ele, que era carpinteiro.

Os filhos começavam a trabalhar muito cedo, mas frequentavam a escola. Apanhavam muito, trabalhavam muito, estudavam e não brincavam. Maria Amélia, Domingas, Nuno, Luís Miguel, Linda, Flor e Jorge.

Não sei dizer como nem quando os sonos da infância se converteram  na insônia da minha vida. (Nuno Miguel, p.115)

O pai morreu em Vancouver devido a um câncer e orgulhoso por ter deixado “duas terras a cada filho e um montinho de ‘dolas’ nos bancos canadianos. Não têm de se queixar de mim…”. O valor que cada um dá as coisas, não é? O material sobrevalorizado.

O professor de Nuno e Amélia chama- se “Quental”. Pode ser uma referência e/ou homenagem ao grande poeta açoriano Antero de Quental (1811-1876), um escritor para colocar já na sua lista!

Nuno levou uma bofetada por não querer escrever uma carta para a tia. O analfabetismo na zona rural, os homens que viajavam para o Brasil ou a América, a necessidade e a saudade. No coração de quem vai sempre há algo de “vontade arrependida”, adorei este termo. A complicação de ser imigrante:

“Quem me dera a mim”, diziam, “poder voltar atrás no tempo, regressar a esse borralhinho*. Comer pão de milho amarelo com inhame ou toucinho, sem dúvida, mas não ter que chorar estas lágrimas nem estar tao longe desse mar e duma terra onde toda a gente se conhece…” Arrependidos como cães por terem atravessado tanto mar, do qual continuavam enjoados e em agonia- e nós a pensar que eles se riam de nós à distância, gordod, luzidios, finando- se tão só num riso de lágrimas trocistas… (p.111-112)

Mais algumas coincidências do autor com o personagem Nuno: ambos são professores e escritores, formados em Letras.

Nuno sentiu uma necessidade imperiosa de escrever. Escrever exige solidão e esquecimento do mundo. Os melhores escritores são e foram um pouco (ou muito) misantropos. É meio inconciliável ter família, trabalhar oito horas e ainda conseguir ser um escritor de primeira linha. Não dá pra fazer tudo bem. É bem assim mesmo, pelo menos provisoriamente, a pessoa tem que se afastar:

– Tenho um livro aberto dentro de mim. Se não puder escrevê- lo agora, corro o risco de naufragar. Asseguras sozinha as despesas da casa, ou decidimos pôr- nos de acordo quanto ao divórcio? (Nuno para Marta, p.116)

Curiosidade lexical: “vavó” é um jeito açoriano de falar “vovó”. A “vavó” da família chama- se “Olinda”, era coxa e morreu dormindo aos noventa e nove anos (p.226); e o “vavô”, Botelho, meio brigado com o filho.

Tem até um biscoito da ilha chamado “Biscoitos da Vavó Sol Nascente”. Os Açores são um arquipélago formado por quinze ilhas. Clique aqui e veja se não dá vontade de ir conhecer!

Um das recordações mais tristes foi uma surra homérica que Nuno recebeu do pai em meio à chuva. O menino chegou em casa semi- morto, desmaiou, ficou com febre, quase morreu. Ressuscitou quando o pai, talvez pelo remorso, foi carinhoso:

– Papá quer ver- te comer aluma coisa, meu filho. Quando não, vais morrer de fraqueza, sem ação nos ossos. Vá lá, Nuno. Anda, meu homem. Há- de um pai deixar o filho morrer à fome, com tanto que há para se comer na casa? (p. 231)

E Nuno Miguel comeu.

“E os olhos dele, rasando- se de lágrimas, eram afinal olhos felizes com lágrimas (…)

Quando Nuno voltou aos Açores, foi recebido pelos muitos tios, já idosos: Sônia, Esperança, Urânia, Horácia, Jaime, Mercês, Olímpia, menos tio Zacarias, em paradeiro desconhecido e as outras tias que imigraram para o Brasil, esses da parte do pai; da parte da mãe, imigraram para “Toronto, Vancouver e Boston”. A tia dos afetos é a Olímpia, a que o faz sentir que ainda vale a pena voltar para casa:

– Descansa, que eu ainda cá estou para tomar conta de ti, sobrinho- diz. E, depois de lhe envolver o rosto com as mãos, estuda- lhe o olhar, abana a cabeça e acrescenta: – O que tu tens é uma grande ferida nesses olhos, filho da minha alma. (p.517)

Já contei demais, não é? Não vou contar qual é o destino dos personagens. Agora é com você!

Melo, João de. Gente feliz com lágrimas. Dom Quixote- Booket, Lisboa, 2008. Páginas: 524

A edição lida acima foi abocanhada pelo Lolo, o meu cachorrinho. Ficou sem capa, mas é a edição comemorativa da Booket (2008) dos 25 anos do romance.

Deixo aqui o link da melhor livraria online portuguesa, caso você queira comprar uma das várias edições de “Gente feliz com lágrimas”; também há e-books para quem estiver fora da União Europeia e quiser ler esta obra magistral sem pagar o frete.

Se preferir comprar na Amazon, clique no link: Gente Feliz com Lágrimas

É um desejo meu que “Gente feliz com lágrimas” seja conhecido e lido no Brasil. Alô, editores!

Obra recomendadíssima, coloque aí na sua lista!

*sinônimo de “lar”.

Os Natais de Fernando Pessoa


A ceia de Natal em Portugal chama- se “consoada”, de “consolar”. O prato principal, normalmente, é o bacalhau com ovos e couves regado com muito azeite de oliva. De sobremesa, o bolo rei e as rabanadas.

Apesar dessa data ser feliz para muita gente por causa das reuniões familiares, dos comes e bebes, além da troca de presentes, outros tantos consideram a data triste.

Deixo alguns poemas de Fernando Pessoa sobre o Natal. Curiosa a visão nostálgica e pessimista do autor sobre esta data. Definitivamente, não parecia ser a preferida de Pessoa, veja:

Natal na Província

Natal… Na província neva.
Nos lares aconchegados,
Um sentimento conserva
Os sentimentos passados.
Coração oposto ao mundo,
Como a família é verdade!
Meu pensamento é profundo,
Estou só e sonho saudade.
E como é branca de graça
A paisagem que não sei,
Vista de trás da vidraça
Do lar que nunca terei!

Chove. É dia de Natal

Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal.
E o frio que ainda é pior.
E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.
Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.
Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.

Natal

O sino da minha aldeia,
Dolente na tarde calma,
Cada tua badalada
Soa dentro de minha alma.

E é tão lento o teu soar,
Tão como triste da vida,
Que já a primeira pancada
Tem o som de repetida.

Por mais que me tanjas perto
Quando passo, sempre errante,
És para mim como um sonho.
Soas-me na alma distante.

A cada pancada tua,
Vibrante no céu aberto,
Sinto mais longe o passado,
Sinto a saudade mais perto.

Natal

Nasce um deus. Outros morrem.
A Verdade
Nem veio nem se foi: o Erro mudou.
Temos agora uma outra Eternidade,
E era sempre melhor o que passou.
Cega, a Ciência a inútil gleba lavra.
Louca, a Fé vive o sonho do seu culto.
Um novo deus é só uma palavra.
Não procures nem creias: tudo é oculto.

Espero que o seu Natal seja bem mais feliz do que foram para a voz poética do poema (que pode ser o alter ego de Fernando).

Resenha: “O Cortiço”, de Aluísio de Azevedo #livroparavestibular #ENEM


“O Cortiço”, de Aluísio de Azevedo, é leitura obrigatória para quem vai fazer ENEM e vestibular no Brasil. Na lista da UNICAMP para 2018 e 2019, por exemplo, consta essa obra. Mas, fora essa obrigação escolar, recomendo esse livro para todos que apreciam a boa literatura brasileira clássica. É um livraço!

O livro  “O Cortiço” (1890) é Naturalista, estilo parecido com o Realismo, só que um pouco mais radical. Entenda um pouco: o francês Èmile Zola foi o precursor desse estilo literário. Nele, o homem é visto como um brinquedo do destino, é fruto do meio, da sua herança genética, ele não pode controlar a própria vida. Zola inspirou- se em correntes científicas, médicas, biológicas e filosóficas, como Charles Darwin e Auguste Comte, para construir seu mundo visto sem eufemismos. A linguagem do Naturalismo é simples, clara e direta. Feio é feio, pobre é pobre, ladrão é ladrão, sexo é sexo, e assim por diante, tudo à vista. O natural em um país de terceiro mundo é ter muitos miseráveis, uma minoria exploradora e muitos explorados.

No caso de “O cortiço”, também é uma crítica à burguesia carioca do século XIX. A realidade naturalista conta todas as mazelas do homem e da sociedade. A estética é a feiura, o submundo, as periferias, as paixões e vícios humanos, o “lado b” dos personagens, sem romantismos.

Aluísio de Azevedo era do Maranhão (São Luís, 14/04/1857) e faleceu em Buenos Aires (Argentina, 14/01/1913), porque era diplomata e trabalhava nessa cidade. Seu pai era viúvo, o português David Gonçalves e uniu- se à sua mãe,  Emília Amália, uma mulher divorciada, foi um escândalo na época. Além de escritor e diplomata, também foi caricaturista, desenhava para jornais.

A obra

“O cortiço”  está dividido em vinte e três capítulos.

A história acontece no subúrbio do Rio de Janeiro. João Romão, português, tem um barzinho. Ele descobre uma forma de fazer dinheiro explorando a pobreza: começa a construir cortiços, que são moradias precárias, amontoadas e baratas. Consegue o dinheiro da quitandeira Bertoleza, viúva,  escrava, cujo proprietário é um homem cego e idoso. Ela trabalha de sol a sol para pagar a sua alforria e o português começa a administrar o seu dinheiro. No final se “amigaram” e ele mente à mulher dizendo que já tinha sua carta de alforria. “- Você agora não tem mais senhor!” (p.39). No entanto, a mulher continua tendo o dono anteior e o novo, o português. Era sua criada, amante e ainda continuava trabalhando na taverna e na quitanda, mas o dinheiro ficava com o lusitano.

João Romão vive para trabalhar de domingo a domingo, mas também para roubar, enganar clientes, não tem nenhuma ética ou honestidade, o dinheiro é o que mais lhe importa. Tudo que ganha vai para o banco e para comprar terrenos e imóveis. Assim começa a ficar rico, porque não paga ninguém para fazer nada, ele mesmo começa a construir o seu cortiço. Rouba material de construção de outras obras, ou seja, construía sem gastar nada. Dessa forma consegue construir três casas, início do seu grande cortiço e também arranja dinheiro para comprar uma pedreira, o que o enriquece.

O autor descreve o processo de enriquecimento emergente, que não mede esforços  e nem tem escrúpulos em lesar o outro. Um individualismo total, criminoso e desumano.

Miranda, um negociante português, muda para a Rua do Hospício, um prédio perto da venda de João Romão, para afastar a mulher de outros homens. Essa é outra história paralela. Miranda pegou em flagra a esposa com outro, mas por interesse e dinheiro não divorciou- se da mulher, Dona Estela. Eles não têm nenhuma relação sentimental, só sexual e financeira, não se falam, odeiam- se. Têm a filha Zulmirinha em comum. E temia um escândalo, “ficava mal para um negociante de certa ordem” (p.18). Miranda quer comprar o terreno de João Romão para ter mais quintal, mas esse não quer de jeito nenhum, o que provocou uma rixa entre os lusitanos.

João Romão foi ampliando seus negócios e enriquecendo cada vez mais. Passa a ser distribuidor de mercadorias com vários depósitos e seu cortiço tem noventa e cinco casinhas. “Estalagem de São Romão. Alugam- se casinhas e tinas para lavadeiras”. (p.38)

As pessoas humildes que querem morar no cortiço, multiplicam- se e são descritas como larvas no esterco. Veja o hiper-realismo característico do naturalismo (p.40):

E naquela terra encharcada e fumegante, naquela unidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, uma geração, que parecia brotar espontânea, ali mesmo, daquele lameiro, e multiplicar- se como larvas no esterco. 

Quem não gosta nada do cortiço abarrotado de gente ao seu a seu pé é Miranda (p.42):

À noite e aos domingos ainda mais recrudescia o seu azedume, quando ele, recolhendo- se fatigado do serviço, deixava- se ficar estendido numa preguiçosa, junto à mesa da sala de jantar, e ouvia, a contragosto, o grosseiro rumor que vinha da estalagem numa exalação forte de animais cansados. Não podia chegar à janela sem receber no rosto aquele bafo, quente e sensual, que o embebedava como seu fartum de bestas no coito. 

Miranda morre de inveja do João Romão que ficou rico sem precisar casar com uma mulher de detesta e ficar amarrado a vida toda.

Na casa de Miranda há três criados, Isaura, Leonor e Valentim, esse, um escravo alforriado. E ainda moram na casa dois hóspedes, Henrique, quinze anos, filho de um fazendeiro cliente de Miranda (paga a hospedagem) e o velho Botelho, setenta anos, um “parasita”. (p.52)

No Naturalismo, as descrições são bem explícitas, na do velho Botelho, por exemplo, o narrador comenta até de suas hemorroidas. (p.53)

Botelho é o amigo interesseiro, falso, leva e trás, o que presencia a infidelidade de dona Estela com Henrique (menino de quinze anos!) e ainda cobre e apoia, porque quer continuar vivendo de graça na casa. Ele, teoricamente, é amigo de Miranda, mas a lealdade não é o seu forte.

Uma curiosidade interessante são as profissões que não existem mais como: o “sardinheiro” (vendedor de peixes à domicílio) ou “cavouqueiro” ( pessoa que trabalha em pedreiras), um dos trabalhos mais duros que existe, quebrar pedras. Não, no Brasil essa profissão ainda existe. Seria o trabalho perfeito para condenados por crimes hediondos, não acha? No livro, os que trabalham fazendo paralelepípedos na pedreira de João Romão são chamados de “macaqueiros”. Essas pedreiras realmente existiram no Rio de Janeiro no Brasil Colônia, leia esse artigo.

A vida no cortiço é descrita como um organismo único de sons e costumes.  E na página 74 começam a aparecer muitos personagens: a lavadeira portuguesa Leandra, a “Machona“, que tem três filhos a das Dores, a Neném e Agostinho.

Augusta Carne- Mole, lavadeira, brasileira, mulher de Alexandre, um mulato, têm dois filhos pequenos, entre eles, a Juju, que vivia com a madrinha na cidade, a Léonie, uma “cocote” francesa (p.76), “cocote” é prostituta.

A lavadeira Leocádia, portuguesa, mulher do ferreiro Bruno. E ainda Paula (a Bruxa), uma cabocla velha, meio idiota, a quem respeitavam todos pelas virtudes de que só ela dispunha para benzer erisipelas e cortar febres por meio de rezas e feitiçarias.

Também as lavadeiras Marciana e Florinda, mãe e filha. E ainda dona Isabel, viúva de um suicida, com uma filha doente, a “flor do Cortiço, Pombinha” (p.79). Ela tem um namorado chamado João da Costa.

E o único lavadeiro, o Albino,  é afeminado, as mulheres o tratam como pessoa do mesmo sexo. Exceto Pombinha e o namorado, a descrição dos personagens é dura, até cruel.  E uma coisa comum entre todos: são de famílias desestruturadas.

A fofoca para ser esporte nacional mais antigo no Brasil literário e real. Isso fica refletido em “O cortiço”, uma rede de intrigas forte e extensa. Rita Baiana é uma das que caiu na boca do povo por ser uma mulher livre e volúvel.

Jerônimo, excelente empregado de João Romão na pedreira, muito honesto, e sua esposa Piedade de Jesus, também moram no cortiço na casa 35, a de “mau agouro”, “Foi lá que morreu a Maricas do Farjão!” (p.119). O casal tem uma filha, a Marianita. Também são imigrantes.

Depois de meses sem aparecer, Rita Baiana volta ao cortiço com um menino e seu amante, o Firmo. A baiana era a festeira do cortiço.

No cortiço também tinha um grupo de italianos, o Delporto, Pompeo (“varridos pela febre amarela, p. 361), Francesco e Andréa, todos mascates. Os mascates seriam os representantes comerciais de hoje, só que levavam a mercadoria com eles.

Há muita algazarra no cortiço. Gente demais num espaço reduzido. Miranda grita da janela e reclama do barulho, e de lá, revidam com vaias. E ainda moram no cortiço: o velho Libório e Porfiro.

Numa das festas, Jerônimo (o português casado com Piedade, excelente trabalhador da pedreira) viu dançar a Rita Baiana e não consegue tirá- la da cabeça.

Leocádia (casada com Bruno) transa com Henriquinho, o menino de quinze anos hospedado na casa de Miranda. Ela quer ficar grávida para ser ama- de- leite, porque pagam bem as amas. É sexo só, rápido, sem nenhum romantismo ou compromisso. O marido chega e a vê vestindo afobada a saia, desconfia e lhe dá uma surra, mesmo sem ter visto Henrique ou o ato em si (p. 204). E a coloca para fora de casa.

Lembrando que o adultério no Brasil deixou de ser crime só em 2005 e a Maria da Penha, lei contra a violência doméstica à mulher, entrou em vigor em 2006. Antes disso as mulheres estavam completamente desprotegidas. Raramente há represálias quando o traidor é o homem, já com as mulheres…e sobre ser crime o adultério…hahaha…a lei existia, mas não era colocada em prática, já que seria impossível manter na prisão tanta gente, entre 15 dias e seis meses. Imaginou o Brasil quase inteiro na cárcere?! Brincadeiras a parte, é ridículo que uma lei tão provinciana ainda estivesse em vigor até 2005.

Bem, voltando à história de Jerônimo e sua paixão por Ritinha. O português mudou completamente de hábitos, abrasileirou e já não dormia com a mulher, que encomendou os serviços de feitiçaria de Bruxa. Outro ponto abordado pelo autor é essa, o da superstição sem cabimento. A Bruxa mandou a portuguesa fazer algumas mandingas absurdas.

Firmo e Jerônimo debatem- se em um duelo pela mulata. Pobre Piedade, esposa do português…este saiu pior da briga. Juntou- se com Pataca, Garnisé e Zé Carlos para uma vingança. O cortiço é palco de todas as desgraças humanas, de violência, inclusive contra a polícia. Dinheiro, sexo, cobiça, luxúria e bebida são os estopins. Mas, só num cortiço é assim?

O erotismo é bastante presente na obra, inclusive há uma cena lésbica entre a prostituta Léonie e Pombinha, filha de Isabel, a moça meiga e virginal. Mãe e filha foram visitar a francesa e a menina caiu nas suas garras, enquanto a mãe descansava. Foi praticamente um estupro. A menina nem a menstruação tinha ainda. Pombinha é sensível, inocente e alfabetizada, diferente da maioria do cortiço.

No cortiço, há muitas “confusões sexuais”, maiores transando com menores, como Domingos com a filha de Marciana.  O cara não quer casar com a menina Florinda, que fugiu e a mãe enlouqueceu. João Romão não teve a mínima compaixão pela mulher. Na primeira oportunidade livrou- se da inquilina da pior maneira possível.

João Romão morre de inveja do vizinho Miranda, que era muito mais refinado e bem relacionado, inclusive ganhou o título de barão. E Miranda morre de inveja da riqueza do outro. Romão, por causa da inveja do vizinho, refinou- se, até banho começou a tomar. Começou a comer e beber melhor, a sair, a vestir- se melhor, a usar guardanapo, a civilizar- se.

Os cortiços proliferam- se na cidade do Rio de Janeiro, um deles é o “Cabeça-de-Gato, uma “nova república da miséria”. (p.362)

O forte dessa obra são os personagens, todos eles têm muita força, o enredo realmente fica para um segundo plano.

João Romão, imigrante pobre, sem nenhum escrúpulo consegue a ascensão financeira, e depois, a social.

O final é triste, essa não é uma obra otimista, sempre tenha isso em mente, é uma característica naturalista. João Romão é a metáfora daqueles dias e, infelizmente, dos nossos também.


Recomendo esta edição lida (foto),  baixei muito baratinha no iBooks, porque ela é especial para estudantes, tem um complemento de leitura com detalhes fundamentais da obra, além de questões de vestibulares. No entanto, há outras opções gratuitas de PDF,  como no site Domínio Público .

Azevedo, Aluísio. O cortiço. Ciranda Cultural, 619 páginas, ePUB

Não se assuste, estudante: a quantidade de páginas depende do seu e-reader, do tamanho da letra que você usar, fora que nessa edição há complemento de leitura.

Faça o download de “O cortiço” aqui!

Lista de obras de leitura obrigatória FUVEST 2018


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