Dez anos e um adeus


Parece que tudo secou, todas as velhas vontades, os antigos suspiros e desejos. As coisas boas e ruins, ainda bem, um dia acabam. O fim é o destino de tudo. É preciso reinventar- se, destruir para reconstruir.

As palavras fogem esbaforidas de mim, chegaram ao fim da linha e vão caindo no despenhadeiro do fim da página. Estão todas aqui brigando, empurrando- se, procurando os seus lugares, só que já não sinto mais vontade de ajudá- las, de colocá- las nos seus devidos lugares ao sol. Elas são frágeis e eu também; se não podem ser livres, melhor não ser. Ser, eis a questão.

Vamos continuar em algum lugar, em algum caderno ou livro fechado, até que algum dia alguém nos venha, quem sabe, despertar. Até então, a palavra e eu, nos conjugamos e nos bastamos.

Agradeço a quem fez parte disto durante (longos) dez anos.

A gente vai se reencontrar algum dia. Sejam felizes…

Fernanda Sampaio Carneiro

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Resenha: “Ciranda de pedra”, de Lygia Fagundes Telles


Tenho uma leve lembrança da novela “Ciranda de Pedra”, que passou na minha infância (1981), mas nada significativo em relação ao enredo, só lembro do rosto de Lucélia Santos; portanto, essa obra era como uma desconhecida para mim. Sei que a novela da Globo foi um tremendo sucesso, foi reprisada e ganhou um remake em 2008. De novela eu não entendo, não as vejo desde 2004, época da minha expatriação “definitiva”. Quem entende do assunto é a minha amiga Alana Freitas, vejam lá o “Entretelas”, blog especializadíssimo nessa arte de massas. Em tempo: a adaptação de “Ciranda de Pedra” (a de 2008) também foi vista em Portugal.

A história começa com uma menina revoltada, triste, deprimida, que chora junto à Luciana, a empregada mulata, que cuida de toda a família. Esta obra foi escrita em 1954 e nota- se a opressão e preconceito que os negros sofriam. A cor estava associada à feiura (referência dos cabelos) e à tristeza. Os anjos só podiam ser brancos:

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Virgínia utiliza a cor de Luciana para atacá- la e menosprezá- la em momentos de tensão. Luciana é um personagem forte, porque faz as revelações mais importantes da narrativa, que é bem melodramática na primeira parte, por isto deve ter virado novela na TV, tem elementos de folhetim. Mas não foi ameno, levei alguns sustos, é uma narrativa abrupta dividida em duas partes. Já na primeira desenvolve- se todo o dramalhão. Não posso negar que não haja verossimilhança com a vida. Aliás, a vida é muito pior.

Os pais estão separados e a mãe, Laura, sofre demência, algo parecido com Alzheimer algumas vezes, e também sofre alucinações e desconecta do mundo “real”. Ela não lembra que Virgínia é sua filha, mas tem alguns momentos de lucidez.

A narrativa está entremeada em uma teia de fragilidades, rupturas e analogias entre pessoas, pássaros e animais invertebrados como beija- flores, formigas, aranhas e borboletas. Laura vê besouros: é o sinal de que Virgínia perdeu a mãe mais uma vez. A obra é enigmática, há uma aura de mistério e dor.

Vamos descobrindo mais sobre quem é Laura nos seus momentos de lucidez; no entanto, não dá para saber se os fatos são reais ou fruto de sua loucura. Ela conta que sua mãe era atriz e que seus pais morreram num incêndio. Daniel é o seu marido. Ela abandonou o ex, Natércio, pai de Virgínia, por causa dele. Laura e Natércio têm outras duas filhas, Bruna e Otávia, que moram com o pai.

A impressão é que Daniel pode ter algo de responsabilidade pela doença de Laura. Ele proíbe a entrada de Virgínia no quarto da mãe, não dá para saber se por proteção ou algo estranho. Virgínia o vê participando da loucura da mãe. Depois Daniel a envia para morar com o pai. Mais tarde descobrimos o motivo disso tudo, não vou contar, porque seria spoiler grande.

Na casa de Natércio quem cuida das meninas é Frau Herta, antipática e até cruel com Virgínia, a repreende a todo momento e exalta a qualidade de suas irmãs. Natércio é rico e mora num casarão.

Virgínia tenta negar a doença da mãe e afirma em reiterada vezes que melhorou, mesmo sabendo que não é verdade, principalmente por medo. Ela teme perder a mãe. Daniel explica o seu conceito de morte à Virgínia:

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Daniel lê um livro de Charles Manson, “Sparkenbroken”, publicado em 1936, que diz o seguinte (adaptado pelo editor): “A noite passada voei para a árvore da morte;/ De súbito uma brisa fez- me pairar; / E eu, mísero boneco de penas arremessado,/ Envolvido no meu elemento, voltei a ser pássaro.”

Para Daniel há vida após a morte e esta é a libertação. Virgínia gosta do “tio Daniel”, mas tem que fingir que não, afinal, foi por causa dele que os seus pais se separaram. O médico é muito mais carinhoso que o seu pai. Elas, Otávia e Bruna, desprezavam a pequena, que não é parecida em nada com as duas, nem em gestos, comportamento ou aparência. Claro que já dá pra desconfiar que Virgínia é filha de Daniel e não de Natércio e esse foi o motivo da separação do casal, a infidelidade de Laura. Mas, se isso é certo, por que ainda não contaram à Virgínia a verdade?

A narrativa na primeira parte da obra intercala- se em três ambientes: a casa do pai, a casa da mãe e a imaginação de Virgínia. Na segunda parte, Virgínia foi morar num colégio interno de freiras.

Há outros dois personagens, Afonso e Conrado, irmãos e vizinhos da casa de Natércio. Virgínia tinha uma queda por Conrado, mas o moço não prestava atenção nela e sim na irmã Otávia. O tempo passou e  Afonso casou- se com Bruna, tiveram uma filha. Frau Herta, doente, já não é mais a governanta e sim a portuguesa Inocência. Conrado mudou- se depois da morte da mãe para uma chácara e Natércio aposentou- se. E sobre Daniel e Laura, essa parte não vou contar. Também não vou contar o que aconteceu com Virgínia, você vai ter que ler o livro…só vou contar que ela, já crescida, sai do colégio interno e volta para a casa de Natércio.

É uma obra bem escrita e que me provocou sensações de choque e angústia por vários motivos.

Creio que na novela há mais dicotomia de personagens vilões e mocinhos, vítimas e algozes. No romance não, são só humanos…

Qual caminho escolher? Essas encruzilhadas que a vida nos impõe e suas inexoráveis consequências. É uma história cheia de bifurcações e despedidas, e essas, nunca são alegres.

Esta é a edição portuguesa lida, ainda sem as correções do acordo ortográfico:

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Se quiser comprar a mesma edição que a minha, clica aqui.

Os sapatos de lã


Ontem eu peguei a linha 146 de ônibus.  Na minha rua passa de seis em seis minutos e nos deixa no centro. Há restrições de tráfego de carros por causa da poluição e muita dificuldade para estacionar. Transporte público em Madri é uma excelente (e confortável!) escolha. Desci na Praça de Cibele (“Plaza de Cibeles”, em espanhol), a que leva o nome de uma deusa grega, a mãe da Terra. Nessa praça também fica o edifício mais bonito de Madri, funciona nele a prefeitura, é o antigo prédio dos Correios.

Decidi ir caminhando até o Museu Rainha Sofia, apesar do frio polar que anda fazendo esses dias na cidade. Gosto de andar no frio, além do mais, o trajeto é agradável, um quilômetro cruzando o Passeio do Prado. Passei pelo Museu do Prado, o Museu Thyssen, também o da “La Caixa”, dá para ver também o belo edifício da Real Academia de Letras e ainda o Real Jardim Botânico. Tudo muito monárquico por aqui, vocês sabem.

Na altura do Palace Hotel, vi uma mulher pedindo esmola com um copo descartável na mão. Uma cigana romena, dessas típicas com traje negro e lenço na cabeça. Ela era idosa e baixinha, encurvada, o rosto como um leque de rugas bem marcadas. Calculei que tivesse oitenta e cinco para cima. Mas, o que me chamou a atenção não foi o seu rosto: foram os seus pés descalços e inchados. Passei pela mulher (eu não tinha moedas), segui meu caminho, mas aquela imagem ficou martelando na minha cabeça.

Sim, eu sei que gente como ela é pedinte profissional. Normalmente, eles chegam em grupos, trazidos por máfias para fazer esse “trabalho”.  Dormem na rua, comem muito mal, é uma exploração desumana e criminosa. Mas…e a idosa e seus pés descalços nesse frio congelante?! “Como ela está aguentando?!”, pensei.

No Passeio do Prado não há muitas lojas, algumas de souvenires, poucos restaurantes, mas encontrei uma única loja de sapatos. Alpargatas, para ser mais precisa. Havia um par de alpargatas confeccionadas em lã, fechadas e quentinhas. Ao mesmo tempo, maleáveis, assim entrariam e ficariam confortáveis nos seus pés inchados.

Escolhi uma colorida e alegre, pensei que ficariam bonitas nos pés da senhora, até imaginei ela arriscando uns passos da “manele”, uma dança cigana.

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A loja de alpargatas no Paseo del Prado.

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O sapato de lã colorido estava nesse balaio da esquerda, o mais quentinho que achei. Não é o da imagem do post, o real eu esqueci de fotografar.

Que boba eu sou. Levei os sapatos dentro da sacola da loja. Cheguei perto da senhora, sabia que ela não entenderia muito bem o espanhol, e disse: “Calce os sapatos, senão a senhora pode ficar doente com esse frio”. Ela abriu a sacola, olhou, fechou e gritou uma espécie de ladainha decorada: “dinheiro, comida, comida, fome!”.

Saí um pouco desiludida com o descaso da mulher com os sapatos de lã. Na volta, três horas mais tarde, passei pelo mesmo lugar, ela não estava mais.

Já em casa, meu marido me disse que é uma tática muito comum dos ciganos romenos, isso de andarem descalços no inverno para provocarem mais compaixão, e assim, ganharem mais moedas. Pensei até que a mulher poderia ter vendido os sapatos.

Mas, vejam… hoje passamos de carro em frente ao Palace. Gritei, surpresa: “Toni, ela está com os sapatos de lã!”. Lá estava a senhora em frente ao restaurante Vip´s com seus sapatos coloridos novos. “Eu disse que eram confortáveis!”

Nós dois… vocês também? Temos a mania de sacramentar as nossas verdades e de prejulgar. Somos cheios de preconceitos. Olhamos o outro como se fosse um pacote fechado, sujeito construído, segundo nossas crenças. Tivemos que refletir e repensar: e se ela não for cigana, não for romena (pode ser russa, croata, eslovaca, etc), e se não for explorada por uma máfia…for só uma mulher idosa, doente, sozinha, uma viúva sem filhos, sem parentes, sem amigos e que não teve muita sorte na vida?! Quem sabe a história dela? Eu perguntei? Não! Quem pergunta? Mas vejam, já “achei” de novo, já inventei uma nova história para a mulher.

Prefiro sempre acreditar nas pessoas, mesmo que me enganem mil vezes.

Há muitos moradores de rua em Madri. Dormem em marquises, em parques, em caixas eletrônicos, em bancos nas ruas. O frio está rigoroso.  Esse é um problema crônico e doído. A maioria é imigrante, aí sim, não é prejulgamento.  Penso sempre neles, essa gente que vem de longe com um sonho…

A felicidade pode ser simples: às vezes, custa só 9,90.

Primeiro dia da Feira do Livro de Madri (vídeo)


Irei reativar o canal Falando em Literatura no YouTube. Não sei se tenho pique para ser “booktuber”, mas pelo menos meus passeios literários irei colocando por lá. 


Eu tinha colocado esse vídeo no meu canal pessoal, mas acabei desistindo desse, meu caso mesmo é com a literatura.

 O vídeo foi editado e está disponível no canal, vai lá ver, inscreva- se e deixe o link para o seu, pois também quero conhecer o seu canal.

A Feira do Livro de Madri 2017 escolheu Portugal como país homenageado. A inauguração foi na última sexta com a presença de muitas autoridades espanholas e português esse, inclusive os reis da Espanha e o presidente de Portugal. Detalhe: ganhei tchauzinho dos reis.

 Hoje irei por gravar algumas conferências sobre Lobo Antunes e Saramago,  depois conto pra vocês.
Falando em Literatura no YouTube.

Como ler mais rápido?


O que te impede de ler? O que te impede de ler livros extensos? Se você é do tipo que pega o livro mais fininho da biblioteca ou livraria, e ainda assim, demora semanas ou até meses para terminar o livro…não sinta- se mal,  nem culpado! Você não está só, acontece com muita gente.

Pior é desistir antes de começar: “Ai, que preguiça”, “Que chato!”, “Netflix olhando ali pra mim, ó!”, “Desperdiçar meu tempo livre com livro, nem pensar!”. A cultura do livro no nosso país, falo do Brasil, não é a prioridade e está longe de ser.

Hoje eu vou falar com você, que gostaria de começar ou que já é leitor, mas que gostaria de ler mais rápido e com eficácia. Porque ler rápido sem entender e/ou ir pulando tudo, não vale, isso é fingir que leu.

 A leitura exige tempo e dedicação; também é uma ação solitária, pede concentração e desconexão total. Desconexão de tudo, de todos e da Internet- esta última, o maior desafio.  E não falo só dos jovens, nessa rede caiu gente de todas as idades.

Mas, há quem tenha que ler por obrigação no trabalho, estudantes universitários, mestrandos, doutorandos, esses não têm escapatória. A demora com as leituras pode ser bastante prejudicial. Muitos podem até ficar pelo caminho. Portanto, aprender a ler com velocidade pode salvar o seu trabalho ou curso.

Não existe mistério: elimine o que trava o seu crescimento, as suas leituras. Se são as redes sociais, desconecte; se é o barulho na sua casa,  procure um lugar tranquilo fora de casa e desligue o telefone. O mundo vai continuar circulando e as pessoas continuarão vivendo se você fizer isso. Tire a urgência da sua vida, os whatsapps e e-mails podem esperar um pouco. Tire uma hora do dia só pra você.

Leve aquele livro maravilhoso que há muito está estacionado na prateleira e estipule uma meta: “20 páginas por dia” ou quantas você achar conveniente. Não deixe escapar um dia sequer.

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Concentre- se, entre na história. Viaje com o livro, assim a história vai deslizar, e obviamente, a leitura vai deslanchar. A leitura diária vicia. Esse é um dos poucos vícios que são beneficiosos.

Viu? Não é tão difícil. Comece agora!

O poder da alegria, do filósofo Frédéric Lenoir


A natureza nos avisa mediante um signo preciso de que alcançamos nosso destino. Esse signo é a alegria. (Bergson)

Esse livro não se vende como auto- ajuda, embora possa ajudar muita gente. O autor nos convida a conhecer a alegria verdadeira e profunda, a forma mais desejável de felicidade, baixo uma visão filosófica. E sim, há formas de provocá- la e cultivá- la nesses tempos de felicidade artificial da cultura narcisista e consumista. O que o autor propõe também não é a ataraxia (ausência de sofrimento e perturbações) proposta por Epicuro, pelos estóicos e os céticos/niilistas. Lenoir encontra alegria mesmo com as dificuldades da vida. A eliminação de problemas e tristezas não garante a felicidade nem a alegria.

Sou consciente de haver recebido muito da vida. Tive a oportunidade de ter pais cultos com os que aprendi muito. Quando era menino, meu pai passava generosamente uma boa parte do seu tempo livre nos lendo livros. Quando cheguei à adolescência, me fez conhecer a filosofia. Foi uma revelação. (F.L.)

O que é a alegria?

A alegria é uma força que nos empurra, é a manifestação do nosso poder vital, é um meio para alcançar esta força de existir. “O apaixonado na presença do ser amado, o jogador no momento da vitória, o pesquisador no momento da descoberta”, essa emoção, o prazer desses momentos, talvez sejam bons exemplos da forma mais concreta da felicidade.

O autor mostra três vias possíveis, concretas, para poder chegar à alegria. Parece que a alegria só pode acontecer se for espontânea, mas não é bem assim, temos que provocá- la:

A alegria é um poder, cultiva- la. (Dalai Lama)

Como disse o escritor Mathieu Terence:

A alegria não é voluntária. Nem se decide, nem se decreta tampouco. Há que se fugir como da peste daqueles que querem vender sua receita. Ao contrário, a alegria exige um clima favorável: um estado mental similar ao estado de graça.”

Lenoir propõe vários tópicos como a gratidão, a renúncia, a perseverança, etc, ilustrando com suas próprias experiências. Nesse momento, retiro o que disse a princípio…o livro é sim auto- ajuda mascarada de filosofia.

O mais ignorante dos homens é o que renuncia ao que sabe de si mesmo para adotar a opinião dos demais.” (Ahmad Ibn Ata Allah)

Bem, depois ele volta pra filosofia de novo. Cita Spinoza e sua visão sobre a alegria. Cita Jung e até Jesus, que foi dos poucos que colocou em prática o amor que pregou. A conclusão não é muito diferente do senso comum, o que Gandhi falou: ” a verdadeira revolução é interior”.

Ser capaz de encontrar sua alegria na alegria dos outros: esse é o segredo da felicidade. (Bernanos)

“Aceitar o mundo” é uma das formas de encontrar a paz e felicidade. Desligar- se do que acontece no mundo e “religar- se” é o termo utilizado para o caminho ao qual tentamos criar relacionamentos justos, verdadeiros, relações que nos fazem acreditar e nos fazem sentir alegres. Devemos manter longe quem nos asfixia. É questão de sobrevivência.

O autor considera a alegria completamente viável, mesmo para pessoas que passaram situações extremas, como as que viveram em campos de concentração. Nós consentimos a tristeza ou a alegria. O poder do consentimento é enorme. A gente permite, mesmo sem notar que a alegria ou tristeza se instale. Complicado, não? Então, cultivemos a alegria mesmo quando ela parece estar muito distante.

Bem, um livro água com açúcar, que fala de coisas triviais, leitura fácil pra passar o tempo esperando o avião, a consulta do dentista ou afins, nada profundo, muitos tópicos mastigados, só recomendo para leitores iniciantes.

Eu achei o autor bem charmoso, Frédéric Lenoir (Madagascar, 03/06/1962) é antropólogo e filósofo:

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Lenoir, Frédéric; El poder de la alegría. Plataforma, Barcelona, 2016. Páginas: 186

Resenha: “Bartleby e companhia”, de Enrique Vila- Matas


O prolixo Enrique Vila- Matas (Barcelona, 1948), publicou o seu primeiro livro em 1973, “Mulher no espelho contemplando a paisagem”; a última obra recém- publicada (2017), “Mac e seu contratempo”, é o 29º romance. Também é ensaísta, possui  treze livros publicados nesse estilo, além de outros textos em coletâneas. É um dos escritores mais premiados da atualidade, cerca de 24 prêmios pelo mundo, mas ainda não ganhou os dois mais importantes: o Cervantes  e o Nobel.

Enrique é formado em Direito e Jornalismo. Morou em Paris dois anos em um apartamento alugado de Marguerite Duras. Sua obra foi traduzida para 27 idiomas.

paratybrasilEnrique em 2012 em Paraty, onde participou da FLIP. Será que ele gostou do cafezinho brasileiro?!

No Brasil, ficou mais conhecido, quando a finada Cosac & Naify publicou alguns dos seus livros, entre eles, esse: “Bartleby e companhia”(2000), motivo dessa resenha. A minha edição é espanhola (vocês sabem que eu moro na Espanha), de bolso, da Penguin Randon House, bem modesta, nada a ver com as lindas edições que a Cosac costumava fazer.

Vamos ao texto…

Começo esclarecendo quem é “Bartleby”: Herman Melville escreveu um conto chamado “Bartleby, o escrivão” (1853). O personagem, um jovem escrivão, ávido trabalhador, de repente, deixou de sê- lo. Perdeu o interesse, o tesão, a inspiração. Quando era exigido, dizia: “Prefiro não fazer”. Só pelo título já temos a pista do que pode nos contar a obra, reforçada pelo pensamento da epígrafe:

A glória ou o mérito de certos homens consiste em escrever bem; o de outros consiste em não escrever. (Jean  de La Bruyère)

O próprio Herman Melville considerava- se um bartleby, por isso escreveu o conto. Em 1853, com 34 anos e depressivo, concluiu que havia fracassado. O escritor de “Moby Dick” não suportou as críticas (injustas) sobre a sua obra. Morreu em 1891, esquecido.

O personagem começa a escrever um diário no dia 8 de julho de 1999. Exceto pelo trabalho desgraçado, a falta de sorte com as mulheres e a solidão, considera- se um sujeito feliz. Há vinte e cinco anos, ele havia escrito um livro sobre a impossibilidade do amor e nunca mais escreveu nada. Tamanho o trauma, tornou- se um “bartleby”. Ele usa o termo como adjetivo. Começou a “caçar” bartlebys, escritores que abandonaram a escrita. Será que ele achou Raduan Nassar? O recente ganhador do prêmio Camões não escreve há trinta anos? Não, o distinguido escritor não é citado na obra de Vila- Matas.

O narrador deixou de escrever por causa do seu pai que o obrigou a escrever  em seu nome, uma dedicatória que ele não queria. Parece um motivo meio bobo, não é? Mas pra ele foi motivo suficiente. Isso foi usado como pretexto para contar as histórias (reais) de escritores da literatura mundial.

E foi assim, que o narrador começou a pesquisar autores que entraram no “labirinto do não”, da não- escrita.  Cita alguns nomes e explica o caso de cada um deles, como o de Robert Walser, o escritor suíço, que ganhou a admiração de Kafka e Musil, ficou deprimido, abandonou a sociedade, isolou- se para escrever. Terminou mal, morreu no Natal de 1956,  perto da clínica psiquiátrica que estava internado, deitado na neve.

Vila- Matas diz sobre “Burtleby e Companhia”, que as pessoas deixam de escrever, porque deixam de existir (vai sem tradução, assim você treina espanhol):

Contrariamente a lo que se cree, no hablo exactamente en este libro de escritores que dejaron de escribir sino de personas que viven y luego dejan de hacerlo.  De fondo, eso sí, el gran enigma de la escritura que parece estar diciéndonos que en la literatura  una voz dice que la vida no tiene sentido, pero su timbre profundo es el eco de ese sentido.*

É mais normal do que se pensa isso de deixar de existir, deixar de viver, ainda estando vivo. E o autor dá exemplo de outros copistas, dos mexicanos Juan Rulfo e Augusto Monterroso, que trabalharam em repartições horríveis e que também se comportaram como bartlebys. Outro bartleby muito famoso: Arthur Rimbaud.

Contou também a história do catalão Felipe Alfau, depois de dois livros publicados, o seu silêncio durou 51 anos. Imigrante nos Estados Unidos, a sua desculpa: estava ocupado aprendendo inglês.

Outros escritores que deixaram o ofício por longos períodos: Salinger, Fernando Pessoa e até Cervantes.

O livro é muito interessante, uma biografia de autores que tiveram condutas parecidas; no entanto, o gênero não concorda com a sua forma, que adapta- se melhor à biografia ou ensaio. Não é um romance. Achei desnecessário usar um personagem para contar o livro, poderia ser a voz do próprio autor. Inclusive em forma de tópicos, um guia de autores bartlebys, muito mais fácil para consultas. O narrador praticamente não aparece. De todas as formas, recomendadíssimo! Para quem ama a literatura é um prato muito bem servido.

O ofício do escritor é um dos mais complicados, porque é mente, emoção, (des)equilíbrio. Tudo isso está no cérebro, esse indomável.

  enrique-vila-matas-bartleby-y-compan%cc%83iaVila- Matas, Enrique. Bartleby y Compañía. Debolsillo, Penguin Randon House, Barcelona, 2016. Páginas: 173