PDF grátis: “Paisagens sígnicas: uma reflexão sobre as artes visuais contemporâneas”


Um bom livro que reflete sobre as artes contemporâneas sob várias perspectivas: histórica, semiótica, filosófica, que serve como introdução às artes. Possui uma boa bibliografia para ajudar na sua pesquisa. A publicação é da Universidade Federal da Bahia.

Então segue o PDF grátis de “Paisagens sígnicas: uma reflexão sobre as artes visuais contemporâneas”, da professora Maria Celeste de Almeida Wanner, clica aqui.

O meu em papel:

Boa leitura!

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Resenha: “Ciranda de pedra”, de Lygia Fagundes Telles


Tenho uma leve lembrança da novela “Ciranda de Pedra”, que passou na minha infância (1981), mas nada significativo em relação ao enredo, só lembro do rosto de Lucélia Santos; portanto, essa obra era como uma desconhecida para mim. Sei que a novela da Globo foi um tremendo sucesso, foi reprisada e ganhou um remake em 2008. De novela eu não entendo, não as vejo desde 2004, época da minha expatriação “definitiva”. Quem entende do assunto é a minha amiga Alana Freitas, vejam lá o “Entretelas”, blog especializadíssimo nessa arte de massas. Em tempo: a adaptação de “Ciranda de Pedra” (a de 2008) também foi vista em Portugal.

A história começa com uma menina revoltada, triste, deprimida, que chora junto à Luciana, a empregada mulata, que cuida de toda a família. Esta obra foi escrita em 1954 e nota- se a opressão e preconceito que os negros sofriam. A cor estava associada à feiura (referência dos cabelos) e à tristeza. Os anjos só podiam ser brancos:

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Virgínia utiliza a cor de Luciana para atacá- la e menosprezá- la em momentos de tensão. Luciana é um personagem forte, porque faz as revelações mais importantes da narrativa, que é bem melodramática na primeira parte, por isto deve ter virado novela na TV, tem elementos de folhetim. Mas não foi ameno, levei alguns sustos, é uma narrativa abrupta dividida em duas partes. Já na primeira desenvolve- se todo o dramalhão. Não posso negar que não haja verossimilhança com a vida. Aliás, a vida é muito pior.

Os pais estão separados e a mãe, Laura, sofre demência, algo parecido com Alzheimer algumas vezes, e também sofre alucinações e desconecta do mundo “real”. Ela não lembra que Virgínia é sua filha, mas tem alguns momentos de lucidez.

A narrativa está entremeada em uma teia de fragilidades, rupturas e analogias entre pessoas, pássaros e animais invertebrados como beija- flores, formigas, aranhas e borboletas. Laura vê besouros: é o sinal de que Virgínia perdeu a mãe mais uma vez. A obra é enigmática, há uma aura de mistério e dor.

Vamos descobrindo mais sobre quem é Laura nos seus momentos de lucidez; no entanto, não dá para saber se os fatos são reais ou fruto de sua loucura. Ela conta que sua mãe era atriz e que seus pais morreram num incêndio. Daniel é o seu marido. Ela abandonou o ex, Natércio, pai de Virgínia, por causa dele. Laura e Natércio têm outras duas filhas, Bruna e Otávia, que moram com o pai.

A impressão é que Daniel pode ter algo de responsabilidade pela doença de Laura. Ele proíbe a entrada de Virgínia no quarto da mãe, não dá para saber se por proteção ou algo estranho. Virgínia o vê participando da loucura da mãe. Depois Daniel a envia para morar com o pai. Mais tarde descobrimos o motivo disso tudo, não vou contar, porque seria spoiler grande.

Na casa de Natércio quem cuida das meninas é Frau Herta, antipática e até cruel com Virgínia, a repreende a todo momento e exalta a qualidade de suas irmãs. Natércio é rico e mora num casarão.

Virgínia tenta negar a doença da mãe e afirma em reiterada vezes que melhorou, mesmo sabendo que não é verdade, principalmente por medo. Ela teme perder a mãe. Daniel explica o seu conceito de morte à Virgínia:

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Daniel lê um livro de Charles Manson, “Sparkenbroken”, publicado em 1936, que diz o seguinte (adaptado pelo editor): “A noite passada voei para a árvore da morte;/ De súbito uma brisa fez- me pairar; / E eu, mísero boneco de penas arremessado,/ Envolvido no meu elemento, voltei a ser pássaro.”

Para Daniel há vida após a morte e esta é a libertação. Virgínia gosta do “tio Daniel”, mas tem que fingir que não, afinal, foi por causa dele que os seus pais se separaram. O médico é muito mais carinhoso que o seu pai. Elas, Otávia e Bruna, desprezavam a pequena, que não é parecida em nada com as duas, nem em gestos, comportamento ou aparência. Claro que já dá pra desconfiar que Virgínia é filha de Daniel e não de Natércio e esse foi o motivo da separação do casal, a infidelidade de Laura. Mas, se isso é certo, por que ainda não contaram à Virgínia a verdade?

A narrativa na primeira parte da obra intercala- se em três ambientes: a casa do pai, a casa da mãe e a imaginação de Virgínia. Na segunda parte, Virgínia foi morar num colégio interno de freiras.

Há outros dois personagens, Afonso e Conrado, irmãos e vizinhos da casa de Natércio. Virgínia tinha uma queda por Conrado, mas o moço não prestava atenção nela e sim na irmã Otávia. O tempo passou e  Afonso casou- se com Bruna, tiveram uma filha. Frau Herta, doente, já não é mais a governanta e sim a portuguesa Inocência. Conrado mudou- se depois da morte da mãe para uma chácara e Natércio aposentou- se. E sobre Daniel e Laura, essa parte não vou contar. Também não vou contar o que aconteceu com Virgínia, você vai ter que ler o livro…só vou contar que ela, já crescida, sai do colégio interno e volta para a casa de Natércio.

É uma obra bem escrita e que me provocou sensações de choque e angústia por vários motivos.

Creio que na novela há mais dicotomia de personagens vilões e mocinhos, vítimas e algozes. No romance não, são só humanos…

Qual caminho escolher? Essas encruzilhadas que a vida nos impõe e suas inexoráveis consequências. É uma história cheia de bifurcações e despedidas, e essas, nunca são alegres.

Esta é a edição portuguesa lida, ainda sem as correções do acordo ortográfico:

29571360_965128723642688_6404595740615182933_n       Telles, Lygia Fagundes. Ciranda de Pedra. Presença, Lisboa, 2008. 204 páginas

Se quiser comprar a mesma edição que a minha, clica aqui.

Resenha: “A última palavra”, de Hanif Kureishi


O filósofo e escritor Hanif Kureishi (Londres, 05/12/1954), de pai paquistanês e mãe inglesa, ainda não é um autor muito conhecido no Brasil, mas foi editado no país,  “A última palavra”, pela Companhia das Letras, além dos livros citados abaixo. Coloquem esse autor na lista, ele é MUITO BOM!

11156338_446205912201641_8415280381686851083_nEssa foto é minha (2015). O autor é de pouco sorrisos. Dei uma “googleada” e vi que ele quase sempre tem o semblante sério.

Hanif é romancista, contista e roteirista de televisão, teatro e cinema. O seu romance “o buda do subúrbio” virou série no Reino Unido pela BBC ; o autor escreveu quatorze roteiros, inclusive “Intimidade”, livro que gostei muito, leia a resenha aqui. Também escreveu uma espécie de autobiografia “Meu ouvido no seu coração”. E “minha adorável lavanderia”, por exemplo, que conta a história de uma família paquistanesa que imigra para Londres numa tentativa de melhorar de vida.

1610964_10153373690816885_5147794014020518013_nFoto do perfil de Hanif no Facebook. Sensualizando? 🙂

A família Kureishi. Os meninos maiores parecem gêmeos (foto do The Telegraph). E por causa dessa foto, vi uma reportagem de 2013 que o autor perdeu 120 mil libras de suas economias em um golpe que recebeu do seu contador. Duro, hein?!

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E do Facebook, as seguinte fotos de Kureishi com os filhos (sim, gêmeos), Sachin e Carlo:

10730928_10154727509965052_8613435098420266183_nHanif e Carlo em 2014 (Facebook de Carlo). “A última palavra” está dedicado a este filho. Ele atuou em um filme com roteiro do pai, “Recomeçar” (2003, original “The mother”).

1461668_10202864347473898_1053907125_n Hanif e Sachin em 2013 (Facebook de Sachin). Ele é casado com Electra Simon, uma londrina que mora em Madri (segundo seu Facebook).

Só não achei fotos mais atuais do filho caçula e nem da esposa. E agora que já conhecemos um pouquinho mais da vida pessoal do autor, vamos à obra, “A última palavra” (2014):

O indiano Mamoon Azam é um escritor consagrado, mas que deixou de vender livros. Ele é casado com uma italiana chamada Liana Luccioni, vivem numa bela casa de campo na Inglaterra chamada “Prospects House”. Como manter esse padrão de vida sem vender livros? O autor decide contratar um jovem biógrafo chamado Harry Johnson, muito culto, para escrever a sua história e tentar alavancar as vendas.

A história começa assim: Harry viajando de trem até a casa de Mamoon, autor que admira desde a adolescência; para ele, apaixonado por literatura, Azam é um deus. Harry, 30 anos, não só é apaixonado por literatura, estudou, preparou- se justamente para o momento que estava prestes a acontecer.

Rob Devereaux, um respeitado editor, acompanha Harry na viagem. O sujeito é alcoólatra, desbocado, descuidado com a aparência e asseio pessoal.

Rob considerava a escritura uma forma de combate extremo e a “salvação” da humanidade. Para ele, o escritor deveria transformar- se no próprio demônio, um perturbador de sonhos e destruidor de fátuas utopias, o portador da realidade e o rival de Deus no seu desejo de forjar mundos.” (p. 13)

O editor, que é mau caráter, tem um plano de marketing totalmente canalha. Deseja que Harry escreva uma biografia “louca e selvagem”, para agitar a vida de Mamoon com a intenção de que seja convidado para muitos eventos literários e divulgado na  imprensa. Resumindo: quer que o biógrafo consiga confissões escandalosas do escritor, todos os seus “podres”, aproveitando- se da fragilidade atual do autor e de seu passado de mulherengo, promíscuo, mesquinho, machista e biriteiro. Além das duas esposas, teve uma terceira, Marion.

Liana adverte que deseja uma biografia “gentil”, que não prejudique a reputação do marido. Mas quer que o marido vire uma “marca”, já que constatou que o autor não recebia tanto quanto pensava. Ter prestígio nem sempre traz dinheiro. A italiana pensa em mil formas de como pode rentabilizar a escrita do indiano.

A mulher também vai usar o biógrafo como empregado doméstico. Harry irá carregar compras e afins, buscar lenha, carregar caixas, além de reler toda a obra do prolixo escritor, os diários muito tristes da sua primeira mulher suicida, muito material armazenado num arquivo insalubre. O rapaz está preparado, vem de uma família com tradição acadêmica.

As pessoas mais cultas, infelizmente, e contraditoriamente ao que deveria ser, não têm bons trabalhos, muitas vezes, e precisam fazer coisas que não se orgulham para sobreviver. Harry irá obedecer o editor por dinheiro ou irá prevalecer o amor pela literatura e a admiração por um dos melhores escritores do mundo? E Mamoon, será que vai cair na armadilha ou será ele que irá armar a arapuca?

O homem mais valente se acovardará diante da perspectiva de ter que levantar o véu do passado, a menos que esse passado seja de uma pureza excepcional (p. 28)

É uma obra cheia de… humanidade! O que nos torna melhores ou piores são as nossas escolhas. Qual é a última palavra que você diria a alguém sabendo que jamais a veria de novo? Qual o seu legado?

Gosto muito da escrita de Hanif Kureishi, recomendo este livro, gostei bastante!

O meu exemplar autografado:

19274963_813315418824020_8094196274227269396_nMinha edição autografada em 2015, poucos meses depois da edição inglesa, quando o autor esteve em Madri na altura do Dia Internacional do Livro.

Essa é a edição espanhola que eu li:19225994_813315422157353_971265382701067722_nKureishi, Hanif. La última palabra. Anagrama, Barcelona, 2014. Páginas: 295

 

 

 

 

Trinta prazeres da leitura


A leitura de um livro pode proporcionar vários prazeres. Eu listei abaixo trinta dos meus:

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  1. Começar a leitura de um livro com aquela sensação de ter aberto a porta para um universo desconhecido.
  2. Visitar novas e velhas bibliotecas.
  3. Lembrar de uma leitura da infância.
  4. Fazer uma resenha (oral ou escrita) de um livro recém lido.
  5. Relembrar um personagem querido (e sentir falta dele).
  6. Conhecer bibliotecas públicas.
  7. Sentir o cheiro de um livro novo.
  8. Terminar um livro imenso.
  9. Contar um conto de fadas para uma criança.
  10. Conhecer pessoalmente o autor de um livro incrível.
  11. Ter uma coleção de livros autografados.
  12. Entrar numa casa ou cafeteria cheia de livros.
  13. Descobrir um livro que conta a nossa história pessoal.
  14. Ganhar um livraço de presente.
  15. Dar um livraço de presente.
  16. Ir a um sarau de poesia.
  17. Ler poesia com os amigos.
  18. Descobrir dentro de livros usados, fotos, dedicatórias, desenhos e anotações.
  19. Chorar e/ou rir com um livro.
  20. Ler na cama.
  21. Esperar ansiosamente o lançamento de algum grande autor.
  22. Ir em feiras de livros.
  23. Vasculhar livrarias.
  24. Organizar a biblioteca de casa.
  25. Comprar edições especiais ou únicas.
  26. Ler ao ar livre.
  27. Ler numa rede.
  28. Ler anotações em livros já lidos.
  29. A sensação de companhia estando com um livro aberto.
  30. Ter uma coleção completa de um autor favorito.

 

Resenha: “Os vestígios do dia”, do Nobel Kazuo Ishiguro


Kazuo Ishiguro (Nagasaki, 08/11/1954), japonês, mas oficialmente é britânico, já que o Japão não admite dupla cidadania. Foi morar com os pais na Inglaterra quanto tinha cinco anos. É doutor em Escrita Criativa e ganhou o Nobel de Literatura nesse ano, uma escolha muito mais unânime que o anterior Bob Dylan. Ishiguro estreou como escritor em 1982 com o livro “Pálida luz nas colinas”. É casado com  Lorna MacDougall.

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Os principais temas das suas obras são: o tempo, a memória e a esperança; e também, a amizade e o amor. Assuntos que me parecem fascinantes. Em sua obra também há algo de literatura fantástica.

O objeto dessa resenha é o livro “Os vestígios do dia” (“The remains of the day”, 1989), que virou filme protagonizado por Emma Thompson e Anthony Hopkins. Há traduções com nomes diferentes:  “Os restos do dia” e “Despojos do dia” (2009). O filme foi indicado ao Oscar e o livro ganhou o Man Book Prize, o prêmio mais importante da língua inglesa. Esse livro é considerado a obra- prima de Ishiguro.

Outro livro dele que foi para a telona: “Nunca me abandones” (2010), com a participação de uma atriz que adoro, Keira Knightley, está na Netflix, inclusive. Mas esse fica para uma outra resenha. 

Vamos à obra.

A história acontece na Inglaterra durante o mês de julho de 1956, há um prólogo explicando. A história acontece em seis dias. Stevens é o narrador- personagem, ele é mordomo há trinta e cinco anos na mansão  “Darlington Hall“. O antigo dono, Lord Darligton, faleceu e a mansão foi vendida ao “mister Farraday“, um estadunidense. Ele viaja para a sua terra por cinco semanas e sugere ao mordomo que faça uma viagem para conhecer a Inglaterra, seu país, durante alguns dias. Stevens conhecia sua terra através de um livro de sete volumes chamado “As maravilhas da Inglaterra”, de Jane Symons, da década de trinta. O protagonista cita a autora muitas vezes.

Na mansão chegaram a trabalhar vinte e oito criados; agora, apenas quatro: Stevens, as novatas Rosemary e Agnes, além de mistress Clements, essa, trabalhadora antiga. O mordomo é perfeccionista e serviçal, mas sente- se esgotado.

Depois de receber uma carta de uma ex- trabalhadora da mansão, miss Keaton, o mordomo aceita a proposta do patrão. Pretende ir de carro (do patrão e gasolina paga por ele) até o oeste do país, e no caminho, deseja encontrar com a mulher para ver se ela aceita voltar a trabalhar na mansão. Stevens começa a planejar a viagem.

O jeito muito “british” do mordomo, polido, formal, perfeccionista contrastando com o do patrão americano, brincalhão, irônico e informal ficam bem marcados na narrativa.

No primeiro capítulo: “Primeiro dia pela noite- Salisbury”, a mansão fica sozinha pela primeira vez em séculos. Todos os empregados saíram de férias, além do patrão, que foi para os Estados Unidos.

Stevens começa a ver o mundo, pela primeira vez, sem ser a trabalho. Hospeda- se numa pensão em Salisbury. O mordomo vê uma paisagem deslumbrante e faz uma declaração de amor ao país:

(…) o caráter único da beleza desta terra é consequência de uma falta evidente de grandes contrastes e de espetacularidade, no entanto se destaca, ao contrário, por sua serenidade e comedimento, como se o país tivesse uma íntima e profunda consciência de sua grandeza e sua beleza, e não necessitasse exibí- la.” (p.37)

O homem tenta ser o melhor na sua profissão. Stevens discorre longamente sobre “o que é ser um bom mordomo?” Em Londres, era (ou é?) um assunto muito importante, tanto, que havia até clubes privados e sociedades para mordomos, como a Hayes Society, dos anos vinte. Só entravam os de alta classe. Essa história de chamar de “gentleman” a um homem com modos refinados vem muito disso, desses clubes sociais ingleses, que exigiam bons modos e um refinamento muito superiores à maioria dos mortais. Uma conduta impecável. O seu pai também foi mordomo e demonstrou o nível de exigência pessoal que a profissão impõe, passo a relatar no trecho abaixo:

O filho mais velho do mordomo, Leonard, faleceu na guerra da África do Sul de uma maneira nada honrosa. Seu batalhão atacou civis, foi uma ação irresponsável comandada por um general incompetente, muitas mortes poderiam ter sido evitadas, inclusive a do seu filho. O pai de Stevens teve que atender esse general por quatro dias na casa onde trabalhava por causa de uma festa, servindo o homem que odiava como se fosse qualquer outro convidado, mas era o responsável pela morte de seu filho. O general deixou uma gorjeta importante ao mordomo e ele a doou à uma instituição de caridade.

O pai do protagonista, Stevens ( igual do filho) aparece como uma figura que desperta compaixão, pena e até um pouco de tristeza. A velhice que, se tivermos sorte aparece como algo limitante fisicamente, mas forte, que enfrenta sem medo as adversidades. Stevens pai é assim. Ele levou uma queda e desmaiou enquanto carregava uma bandeja. A partir disso, o patrão e outros empregados começaram a achar que ele não era mais válido, apesar de ter servido a mansão durante 54 anos. Os erros, tudo indica, são mais importantes que os acertos, mesmo que infinitamente menores que as benfeitorias. Stevens não se desesperou, mostrou- se absolutamente digno quando o próprio filho lhe comunicou que ele passaria a executar tarefas mais simples.

Uma coisa que me chamou muito a atenção é a escravidão branca. A negra, cruel e perversa, já conhecemos bem, mas a branca é pouco falada. Se essa obra tiver alguma verossimilhança com a realidade, que acho que tem, esses empregados domésticos ingleses eram praticamente escravos. Viviam em quartos minúsculos, uma pobreza franciscana, um nível de exigência altíssimo, horas infinitas de trabalho e a remuneração ínfima. Uma espécie de escravidão sim.

Stevens é testemunha de várias reuniões na mansão, que começaram em março de 1923, entre homens poderosos de vários países europeus. Eles tentavam chegar a um acordo de conciliação com a Alemanha no período pós- guerra.

Numa dessas reuniões, Stevens pai passou mal e teve que ser levado ao seu quarto. O filho continuou servindo os senhores, enquanto seu pai desfalecia. O filho só pode ver o pai dois dias depois estando na mesma casa. O pai quis saber se o serviço estava saindo perfeito, e depois, aconteceu esse breve diálogo, íntimo, em tom de despedida: (p.106)

— Espero ter sido um bom pai.
Sorri e lhe disse:
— Estou muito contente que se sinta melhor.
— Me sinto orgulhoso de você. É um bom filho. Desejaria ter sido um bom padre, ainda que temo que não tenha sido.
— Agora tenho muito trabalho, mas amanhã pela manhã falaremos de novo.

Horas mais tarde, Stevens foi avisado que seu pai estava muito mal. Mas, “a obrigação em primeiro lugar”. O seu pai estava morrendo enquanto ele, com um sorriso, servia o jantar. É ou não é uma escravidão?! Além disso, os filhos nunca acham que os pais irão morrer.

A atitude do filho, a aparente frieza, também é uma forma de auto- engano, de fuga, de querer barrar o inevitável, como se ignorar o fato do seu pai estar morrendo, impedisse que ele se fosse para sempre. Stevens filho, não era frio, inclusive teve que enxugar o rosto com um lenço durante o trabalho. De fato, seu pai faleceu quatro minutos depois dessa última cena (p. 114).

Stevens não tem coragem de subir para fechar os olhos do pai. Dá a desculpa de que o pai gostaria que ele continuasse a trabalhar. Fiquei com um nós na garganta. Pude sentir a dor e a desorientação de Stevens.

A dor e a morte ficam nos bastidores. Stevens desceu com uma garrafa de vinho do Porto para os senhores que estão na sala de fumar. Tudo contado com muita sutileza, um trabalho fino de escritura.

Monsieur Dupont exige do mordomo umas vendas para a dor dos seus pés, enquanto a sua própria dor não era sabida por ninguém.

Stevens recorda esse dia como um grande triunfo. Não deixou a sua dor pessoal atrapalhar seu serviço como mordomo. A “dignidade” que é exigida aos mordomos de alto nível.

No segundo dia da viagem, o Ford do patrão quebra e Stevens para em uma mansão e pede auxílio. É ajudado pelo empregado do casarão, que faz todas as funções na casa, que é de um coronel. A mansão está em desuso, o dono quer vendê- la. No Ford só falta água no radiador. Ele acaba conhecendo o lugar e pessoas que não falam muito bem do seu antigo patrão, lorde Darlington. Stevens o defende em nome dessa “dignidade” de mordomo que foi aprendida ao longo de trinta e cinco anos de serviço.

No terceiro dia de viagem, ele se hospeda em uma pousada chamada Coach and Horses, em Taunton, Somerset. Nós viajamos também com o protagonista. Esta pousada realmente existe, veja aqui.

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Pousada “Coach and Horses Inn”, citada no capítulo “Terceiro dia pela manhã”, p. 137

O dono da pousada chama Bob e ronca demais, segundo os frequentadores do bar. O mordomo tenta ser engraçado, igual faz com o patrão americano, que sempre espera que Stevens devolva com humor suas colocações. E diz que não tem importância que o homem ronque e o compara com um galo. Depois arrepende- se pensando que pode ter ofendido as pessoas, já que ninguém achou graça. E o mordomo reflete sobre como pode ser perigoso usar o humor.

O passeio pelo condado de Somerset é entremeado por lembranças da sua vida em Darlington Hall. E a ansiedade de rever miss Kenton vai aumentando. Agora só faltam quarenta e oito horas.

O quinto capítulo acontece no “Terceiro dia pela tarde”, em Moscombe, perto de Tavistock, Devon. (p.153)

Ele começa falando dos judeus e conta sobre um episódio desagradável, quando o patrão, Lorde Darlington, mandou despedir criados judeus, porque podiam ofender alguns convidados e comprometer a segurança, influenciado por mistress Carolyn Barnet. Havia duas moças judias que trabalhavam há seis anos na mansão. Para Stevens, o que falava o patrão era lei. Para miss Kenton não. Ela despediu as moças a contragosto e muito ofendida. A relação ficou difícil com o mordomo durante semanas, inclusive ela ameaçou abandonar a casa.

Tempos depois o patrão, arrependido e sem a influência de mistress Barnet, mandou localizar as moças de volta, Ruth e Sarah. Enquanto isso, tiveram que substitui- las por outras duas. Uma delas, Lisa, era muito bonita e o mordomo se opôs, sob a insistência de miss Kenton. Ela coloca em evidência que o mordomo não gosta de contratar mulheres bonitas para que ele mesmo não caia em tentação. O homem rebate o pensamento de todas as formas. Depois de um tempo, Lisa vai embora e fica comprovado que o mordomo tinha razão sobre a falta de competência da moça. Stevens renunciou totalmente a sua vida pessoal e amorosa para servir a outros.

A viagem continua e Stevens recorda sempre episódios vividos com miss Kenton. Claro que até aqui já estou convencida do seu amor por essa mulher, mas como ele é muito reservado e na obra inteira vai revelar esse fato. Ele fazer essa viagem só para vê- la, já é um grande indício. O que não é dito é muito importante nessa narrativa.

Há várias situações, com pretextos profissionais, que Stevens tenta se aproximar de miss Kenton. Há alguns arrependimentos. Ele imagina como teria sido se tivesse feito diferente. Mas agora ele está tentando ao menos. Está a um dia de encontrar Miss Kenton.

O último capítulo é “Sexto dia pela tarde- Weymouth” é de apertar o coração. Tempo, maldito tempo…

Stevens chega a essa cidade no litoral, já cansado de dirigir, depois de termos acompanhado todas as suas lembranças e sentimentos em relação à várias coisas e, principalmente, à senhorita Kenton. Claro que já estava esperando um encontro romântico, mas seria óbvio demais.

Ele conta como foi o encontro com miss Kenton dois dias depois. Ela chegou no hotel que ele estava hospedado de surpresa, o Rose Garden, em Little Compton. Esse não achei exatamente com o mesmo nome e nem no mesmo lugar.

O reencontro. Ela, envelhecida, com um olhar triste, só que mais calma, resignada. Continua casada, é ainda a senhora Been. Ficou separada apenas cinco dias, foi quando escreveu a carta a Stevens contando como se sentia desgraçada e enchendo o homem de esperanças. Tem uma filha e já vai ser avó.

Ela ainda se sente desgraçada, mas tem que fazer o que tem que fazer, como ele que precisou servir aos senhores enquanto o seu pai estava morrendo. A vida é assim, somos o resultado das nossas escolhas. A obrigação supera os sentimentos pessoais:

“(…) ‘Que fiz com a minha vida?’, e penso que teria preferido seguir outro caminho, que talvez tivesse me dado uma vida melhor. Por exemplo, penso que a vida teria sido melhor com o senhor, mister Stevens. (…) Depois de tudo, não se pode retroceder o tempo. Não podemos sempre estar pensando no que poderia ter sido.” (p. 247)

“A senhora tem toda razão, mistress Benn. Já é tarde demais para retroceder o tempo. Além do mais, não viveria tranquilo se por culpa destas ideias a senhora e seu marido fossem desgraçados. Como muito bem observou, todos devemos agradecer pelo que de verdade temos. (p. 247)

É uma história muito realista, que acontece com muita gente…o tempo e sua inexorável crueldade.

Esse é um livro com trechos brilhantes, e que no seu conjunto, consegue retratar bem um período e uma camada específica da sociedade inglesa, além de suas paisagens. A narrativa é limpa e clara, trabalhada cirurgicamente, nada falta, nada sobra. É uma obra também de silêncios que contam muito. Capta alguns sentimentos universais, principalmente o estrago do tempo e o  sacrifício pessoal absoluto em nome da honra e da dignidade.

O título da obra é um resumo perfeito da história. Depois de tudo, só ficaram vestígios, restos do que foram, do que queriam, do que um dia sonharam.


O meu exemplar de referência é uma edição espanhola (vocês já estão cansados de saber que eu moro na Espanha, não é?!), que ao pé da letra fica “Os restos do dia”. A tradução de Ángel Luis Hernández Francés, muito boa. Vocês podem encontrar essa edição brasileira aqui: “Os vestígios do dia”, da Companhia das Letras, ou aqui. 

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Ishiguro, Kazuo. “Los restos del día”, Anagrama, 9ª edição, Barcelona, 2017. Páginas: 255 #falandoemliteratura @falandoemliteratura

Resenha: “Os pilares da terra”, do inglês Ken Follett


Eu tenho formação acadêmica em Letras, o que ajuda a olhar a literatura de uma forma  profissional e crítica, observando elementos artísticos, técnicos e de estilo, que podem passar despercebidos para muitos leitores; mas minha aversão aos best- sellers não vem disso, surgiu muito antes: se é popular não presta, é literatura fácil. Eu já tinha essa percepção desde cedo, na adolescência. É só senso comum. Simplesmente, não perdia meu tempo, preferia (e ainda prefiro) os clássicos de qualquer época ou idioma, porque a vida é muito curta e a boa literatura muito ampla para perder tempo com livros ruins. Mas, será esse um best- seller diferente? Despi- me dos meus preconceitos e fui de mente aberta. Veja o resultado.


O inglês Ken Follett (Cardiff, País de Gales, 05/06/1949), quando publicou “Os pilares da terra” (1989), já era um escritor de êxito, vendia muito, principalmente livros de suspense. Começou a publicar com vinte e cinco anos, mas com vinte, já escrevia e foi quando ele começou a visitar catedrais. Sua família participava de uma espécie de seita religiosa, que o proibia de entrar em templos religiosos. Saía pouco durante a infância e juventude, e foi assim que mergulhou no mundo da literatura.Ken Follett in Berlin, 2014Ken Follett em Berlim, 2014. O autor é casado, tem dois filhos e mora no Reino Unido.

Follett viajava pela Inglaterra só para visitar catedrais, suas visitas duravam até dois dias. Ele anotava tudo, seu principal interesse era a arquitetura dos templos, como e quem os construía. E começou a investigar. Descobriu que a maioria das catedrais eram construídas por gente muito pobre, com um sacrifício impressionante, gente que não tinha onde morar nem o que comer. Ficou fascinado. Foi nessa época que teve a ideia de escrever um livro sobre a construção de uma catedral. Só que sentiu que não tinha capacidade para desenvolver esta história, necessitava de recursos que ainda não possuía. “Os pilares da terra” foi publicado doze anos depois, foram mais de três anos de trabalho, de domingo a domingo. Quem conta tudo é o próprio autor no prólogo do livro, o que pareceu interessante. Dei um voto de confiança. Seguimos.

“Os pilares da terra” (1989) é o primeiro de uma trilogia. A saga continua com “Um mundo sem fim” (2007) e o recém- lançado, “O círculo de fogo” (2017).


A obra

A primeira parte do livro data de 1135- 1136 (século XII). A história começa com a execução por enforcamento, em uma praça pública, de um jovem ruivo, bem ruivo, “cabelos cor de cenoura”, de olhos verdes. O rapaz roubou um cálice valioso em uma igreja e foi enforcado diante de sua mulher grávida. Ela lançou uma maldição ao padre, ao monge e ao cavaleiro que mataram o seu amor.

O personagem principal é Tom Builder, um pedreiro dos bons. Ele foi dispensado da uma construção de uma catedral em Exeter (capital do condado de Devon, uma das cidades mais antigas da Grã Bretanha). Isso ele não engoliu. Ficou ruminando durante anos, o orgulho ferido, pois sabia que era capaz. Com essa história ele aprendeu que para a construção de uma catedral, não basta ser bom, a construção tem que ser perfeita:

Isso porque a catedral era construída para Deus, e também porque a estrutura era tão grande que a mais leve inclinação nas paredes, a mais ínfima variação naquilo que deveria ser reto e nivelado, poderia enfraquecer fatalmente o conjunto. O ressentimento de Tom havia se transformado em fascínio. ” (p.55)

Então, amigos e amigas, essa obra trata disso: de contar a história de um pedreiro ambicioso e ressentido, que decidiu construir uma catedral na Inglaterra. O ódio, o orgulho, quando bem administrados, também podem ser um bom motor para construir grandes coisas.

Tom é casado com Agnes, a considera sua alma- gêmea. O casal tem dois filhos, Alfred de quatorze anos e Martha, de sete. Veja a “moral” da época. O pai dava cerveja à menina. Será que há pais que ainda fazem isso?! O almoço da família: um pedaço grande de toucinho fervido, pão e cebola. Nesse almoço, Agnes comunica que está grávida mais uma vez. Tom nem sabia a idade da mulher. Na Idade Média, a natalidade era alta, já que não havia métodos anticonceptivos, mas também havia uma alta mortalidade infantil. Falta de vacinas, de antibióticos, de higiene… no medievo acreditava- se que o banho fazia mal à saúde.

Tom estava construindo uma casa para Lorde Percy Hamleigh, um homem muito rico, pai de William, noivo de Aliena, filha do Conde Shiring. A moça rompe o noivado e a casa que seria para ambos, já não é mais necessária. Tom havia posto todo seu dinheiro nela. O rapaz chega à cavalo quase atropelando a pequena Martha, dispensa os trabalhadores, mas Tom teve que segurar as rédeas para que William o pagasse.

Tom e sua família começou a andar sem destino certo. Não tinham cavalos, carroças, nada. Pareciam retirantes nordestinos fugindo da seca. Eles buscavam um local para a construção da catedral. A mulher grávida, a menina pequena e o inverno chegando. Martha, cansada, demorava para acompanhar os demais, ficava para trás. Ela e o porco. A menina foi atacada por um ladrão, levou uma porrada na cabeça. O ladrão levou o porco. A menina desmaiada, sangrando, e a mãe, fria, disse que a menina iria sobreviver e que o pai fosse atrás do porco. As pessoas tinham que ser duras para sobreviver. Tom e Albert foram atrás “dos ladrões”, eram quatro. Houve luta, mas um dos ladrões levou o porco embora. Eles haviam comprado o porco na primavera para engordá- lo e vendê- lo no inverno. Com o dinheiro daria para alimentar a família durante meses.

Entram em cena Ellen, uns dez anos mais jovem que Tom, e seu filho adolescente, Jack. A mulher ajudou Agnes a cuidar de Martha ainda desmaiada. Ellen e Jack moram na floresta, porque a mulher é “fora da lei”. Seu crime? Ter xingado um padre. Lembra da execução do início? A jovem grávida, mulher do enforcado? Ela reaparece mais tarde com o filho que estava na sua barriga. (p.94)

Ellen conta a sua história a Tom; este sente uma atração pela mulher.

Cheguei na página 100, já irritada e arrependida por ter começado a leitura desse livro, mas segui.  Raramente largo a leitura de um livro. Continuei esse extenso, pobre e decepcionante “Os pilares da terra”. Umas fórmulas mais que mastigadas e muitos clichês, muito pouco criativo. Básico, simples, bobo. As primeiras páginas foram até interessantes, consegui visualizar um ambiente medieval, sujo e violento, mas depois a narrativa perdeu essa característica de época. Fiquei na dúvida também, se foi a tradução brasileira que prejudicou a obra. A linguagem pareceu- me muito contemporânea. Veja como o autor é “criativo”:

“A fome é o melhor tempero”. (p.139)

A família passa fome, frio e enfrenta muitas dificuldades. Uma boa parte do livro, que é bem monótono e aborrecido para o meu gosto, é falando sobre isso.

Agnes deu a luz ao quinto filho  (dois já haviam morrido) no relento e no inverno. Nasceu um menino. A parte escatológica do nascimento é bem desagradável, o marido descreveu e falou sobre os odores da placenta, depois a queimou. A mulher morreu, sofreu uma hemorragia e foi enterrada numa cova funda por causa dos lobos, para que seus “ossos se conservassem até o dia do Juízo Final”. O autor conta, tudo, tudo com os mínimos detalhes, até os mais sórdidos e desagradáveis. O pai, quer dizer, o monstro, abandonou o bebê perto da cova da mãe, porque não tinha como alimentá- lo.

Claro que o autor matou Agnes para entrar Ellen na parada. Tom transa com um anjo imaginário, um delírio, mas era a mulher em carne e osso. E foi ela, obviamente, que tinha encontrado o bebê que Tom voltou, arrependido, para recuperar.

Pessoal, não vou contar mais, porque não vale a pena. Não vale a pena perder tempo com esse livro.

Follett sabia que não era um autor especial, que seus livros eram entretidos, o grande público gostava, mas tinha consciência, a auto- crítica suficiente para perceber que não eram livros importantes artisticamente falando. Acha que este é especial, sua grande obra. Não é. Grande obra em extensão, mas em qualidade não. Follet é uma baita de um sortudo. Ficar milionário, viver num castelo, por causa de obras assim, tão primárias, com uma linguagem tão plana e pobre, caramba…tem gente esperta no mundo. Enquanto isso, os autores de verdade… o mundo invertido.

22406233_875949182560643_8850533865946442572_nFollett, Ken. Os pilares da terra. Arqueiro, São Paulo, 2016. Epub. Páginas: 2655*

*Não esqueça: a quantidade de páginas em livros digitais pode variar de acordo com seu e- reader e tamanho da fonte.

 

Resenha: “O seminarista”, de Bernardo Guimarães #RevisitandoOsClássicos #1


“Crescent illae, et vos crescentis, amores”
(“As árvores hão de crescer, e com elas haveis de crescer vós, meus amores” – Virgílio citado na p. 88)

Aqui começa uma série: Revisitando os Clássicos Brasileiros. O que significa?

São livros que eu já li há muito tempo e tenho vontade de reler. O tempo, a experiência leitora, transformam e mudam as nossas percepções. Aconteceu dessa forma com “O seminarista”, de Bernardo Guimarães: (re)li um novo livro. E essa constatação óbvia, mas interessante, me fez criar esse post, o primeiro de uma série, espero.

Para quem nunca leu, ou leu poucos clássicos da literatura brasileira, vamos começar?!

A primeira obra escolhida: “O Seminarista” (1872), de Bernardo Guimarães.

Brevíssima Biografia do Autor
O mineiro Bernardo Guimarães nasceu e morreu em Ouro Preto (1825- 1884). Juiz e escritor de prosa e verso, foi membro da Academia Brasileira de Letras. Inclusive você pode ler a biografia completa do autor no site da ABL. Casou- se com Maria Teresa e teve oito filhos. Era tio do poeta Alphonsus de Guimarães, que foi noivo de sua filha Constança, falecida aos dezessete anos por causa de uma tuberculose.


O livro é uma narração, e pela extensão, é uma novela. As novelas são mais curtas que os romances, esses, dentro do cânone literário, devem ter mais de 300 páginas; portanto, vou chamar pelo nome correto, embora no Brasil, o chamem de “romance”, normalmente. Dentro da narração, novela e romance são gêneros literários diferentes. E em outros idiomas/países, como na Espanha, não os diferenciam só pela extensão, mas também pelo teor: nesse país, o romance ganha ares fantásticos. O termo mais comum  é “novela”, ao contrário do Brasil.

Essa novela está dividida em vinte e quatro capítulos.

O enredo

O enredo é a história em si, do que trata o livro, a trama, a ação. Em “O Seminarista”, a história não é original, mas funciona: o amor impossível. Um seminarista apaixonado pela amiga de infância, um amor inesperado, já que Margarida era como sua irmã. E isso traz um monte de complicações para a vida de ambos.


Os pais de Eugênio acham que o filho tem vocação para a vida eclesiástica, porque brincava de ser padre na infância. Na época, a vida religiosa era algo que dava muito status e respeito.

Então, lá se foi Eugênio para o Seminário de Congonhas do Campo, aos 13 anos, com o coração partido. Uma mudança radical na sua vida.

Eugênio,  entre tarefa e tarefa, pensava em Margarida. Uma espécie de melancolia o acompanhava o tempo todo. Ele não conseguia concentrar- se nos estudos. Custou- se acostumar- se e assim passaram- se doze anos. O menino cresceu dentro do seminário. E Margarida continuou no seu coração.

Com dezesseis anos, começou a ter problemas, pois o padre regente descobriu alguns poemas de amor de Eugênio destinados a uma tal “Margarida”. O padre, que era também seu professor, gostou da veia poética do rapaz e levou os escritos ao diretor, que ficou indignado e assombrado. Chamou Eugênio e foi bastante duro com ele. A partir disso, toda vez que Eugênio sonhava com Margarida, sentia pânico, rezava, fazia jejum e pagava penitência, como se o amor fosse um castigo, uma doença. Doente ficou o menino, emagreceu muito, ficou com uma aparência “às bordas da sepultura”. (p.66)

Essa parte do livro é triste e forte…choca. Tudo com a instrução e aval do padre. O fanatismo religioso é um mal terrível (na realidade também!)!

Depois de quatro anos sem ver a sua família, nem Margarida, voltou para casa. Imagina o reencontro dos dois….a descrição do autor desse momento é mágico! Um turbilhão de emoções em questão de segundos. Quem já se apaixonou sabe como é difícil explicar. A literatura explicando sentimentos universais desde sempre…

Estava como que espantado, com os olhos fitos em Margarida, querendo falar, e não achando nada que dizer. As grandes emoções lançam uma nuvem no espírito e paralisam a língua. (p.82)

Como esquecer um grande amor? Já que quanto mais se tenta esquecer, mais se lembra? Não tente, porque vai perder a batalha, mantenha- se distraído, só isso…

As puras e santas afeições da alma, longe de a desviarem do caminho do céu, são asas com que mais depressa se eleva ao trono de Deus. (p.38)

Espaço e Tempo

A história começa na “província” de Minas Gerais (terra do autor). Na época em que foi escrita a novela, o Brasil ainda era uma colônia de Portugal,  um país monárquico. Veja a descrição do lugar, já no primeiro parágrafo, junto com o tempo (“há quarenta anos”).

A uma légua, pouco mais ou menos, da antiga vila de Tamanduá, na província de Minas Gerais, e a pouca distância da estrada que vai para a vizinha vila da Formiga, via- se, há de haver quarenta anos, uma pequena e pobre casa, mas alva, risonha e nova. Uma porta e duas janelinhas formavam toda a sua frente. (p.2)

A descrição da casa de Margarida e sua mãe Umbelinda é perfeita, ela parece sorrir, toda feliz e faceira! Bernardo Guimarães era um excelente narrador, mestre na descrição. A construção das paisagens e pessoas é muito visual, retratos perfeitos. É uma delícia ler e entrar nos cenários criados pelo autor,  são bem fidedignos. Esse é um dos elementos que transformam a literatura em uma grande forma de expressão artísticas, social, antropológica…

A magia das palavras. A prosa de Bernardo também é poética.

Genial essa metáfora (analogia), veja: “Eram quase ave- marias.” (p. 6). Gostei!

Personagens

Eugênio é o protagonista, personagem principal, o futuro seminarista, menino no início da história (12- 13 anos). Filho do capitão Francisco Antunes. Tem dois irmãos mais velhos que não aparecem na história, casaram e foram embora. Foi criado junto com Margarida, que é como sua irmã.

O rapaz era alvo, de cabelos castanhos, de olhar meigo e plácido e em sua fisionomia como em todo o seu ser transluziam indícios de uma índole pacata, doce e branda. (p.3)

Na página 73

Margarida, filha de Umbelina, órfã de pai, mora numa casinha emprestada nas terras do padrinho, Capitão Antunes, pai de Eugênio.

A menina era morena; de olhos grandes, negros e cheios de vivacidade; de olhos grandes, negros e cheios de vivacidade, de corpo esbelto e flexível como o pendão da imbaúba. (p.3)

Na página 73, há nova descrição de Margarida já moça.

Umbelina,  mãe de Margarida, mora nas terras do Capitão Antunes junto com a filha Margarida e uma escrava. E viúva e comadre dos donos da fazenda.

Era uma matrona gorda e corada, de rosto sempre afável e prazenteiro (…) (p.11)

Capitão Francisco Antunes, pai de Eugênio e padrinho de Margarida, fazendeiro honesto, tinha poucos escravos e muitos agregados na fazenda, dos quais não cobrava nada.

Senhora Antunes, esposa de Francisco Antunes, mãe de Eugênio e madrinha de Margarida. Não é tão legal, trata mal a escrava Josefa. É bastante supersticiosa. Apegou- se à Margarida desde bebê, ensinou-lhe a costurar.

Luciano Gaspar de Oliveira Faria e Andrade,  invejoso do tamanho do seu nome. Atrapalhou a vida dos apaixonados. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. É só a arte imitando a vida.

A linguagem

Uma coisa que achei inverossímil (longe da realidade) foram os diálogos. O povo da roça, nem mesmo os patrões, podiam falar com a correção gramatical exposta pelo autor. Havia outras línguas de contato, muitos imigrantes, indígenas, escravos, uma grande maioria de analfabetos, um português tão correto me pareceu impossível.

A obra carece de uma mais linguagem coloquial, o que concordaria mais com a história. Curioso, porque costuma- se dizer o contrário desse escritor, que o tom de suas obras é coloquial. Vai ver “O Seminarista” é a exceção.

O narrador fala como um português. Se a gente der por certo que era a forma usada em 1832, época que o autor retrata, nota- se como em 185 anos, o português do Brasil transformou- se e distanciou- se muito do idioma luso.

Curiosidades

Bernardo Guimarães cita Aleijadinho (1738- 1814), de uma forma nada agradável, uma crítica destrutiva e maldosa, na boca do seu narrador (p. 30) :

É sabido que estas estátuas são obra de um escultor maneta ou aleijado da mão direita, o qual, para trabalhar, era mister que lhe atassem ao punho os instrumentos.

Por isso sem dúvida a execução artística está muito longe da perfeição. Não é preciso ser profissional para reconhecer nelas a incorreção do desenho, a pouca harmonia e falta de proporção de certas formas. Cabeças mal contornadas, proporções mal guardadas, corpos por demais espessos e curtos e outros muitos defeitos capitais e de detalhes estão revelando que esses profetas são filhos de um cinzel tosco e ignorante…

Eugênio vai justamente para o seminário em Congonhas, no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, onde estão as obras sacras de Aleijadinho, consideradas as suas obras- primas.

Recalcado o Guimarães, não?! O escritor e o escultor nasceram na mesma cidade de Ouro Preto.

E veja também como é feio chamar alguém de “Aleijadinho”. Uma das funções da literatura é essa também, de nos trazer o passado para melhorar no futuro. Hoje em dia é inaceitável chamar alguém por um problema físico. O artista perdeu a sua identidade, quem sabe o nome de Aleijadinho? Eu sei agora, porque fui pesquisar: Antônio Francisco Lisboa (valeu Wiki!).

Um salve para o Antônio, que mesmo com sua deficiência física, provavelmente escravo ou filho de escravos (sabe- se muito pouco sobre a sua biografia e mesmo assim, ela é incerta), no interior do Brasil colonial, deixou uma obra reconhecida mundialmente. Deixo aqui o compromisso: estudar a obra de Antônio.

Depois de ler o trecho sobre o Aleijadinho (me custa escrever, já não é hora de chamá- lo pelo nome, acho um desrespeito!), já tomei uma bronca de Bernardo, que passei a caçar tudo de negativo na obra dele, sou dessas. Na adolescência minhas leituras eram mais ingênuas, eu deixava passar muitos detalhes. Mas a sorte dele, é que realmente escreve bem.

Além disso, a gente sabe que a voz da narrativa não é o autor, mas foi ele que colocou esse pensamento na boca do narrador e a gente dá aquela gongada de todas as formas. Abaixo, trecho:

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O autor mostrou usos e costumes da roça, um tipo de dança chamada “quatragem”, os mutirões e as festas.

E voltando à história de amor…Eugênio foi proibido pela mãe de ir à casa de Margarida quando este lhe confessou a sua falta de vocação para o sacerdócio. Isso não impediu que os apaixonados trocassem promessas e juras, fortaleceram- se mais ainda.

A linda Margarida é muito cortejada, apareceu um terceiro para atrapalhar, Luciano, invejoso e maldoso, notou o que havia entre Eugênio e Margarida. Tratou de atrapalhar. Entre os pais de Eugênio e o tal Luciano, o desejo do casalzinho de ficar junto foi ficando cada vez mais difícil. Eugênio adoeceu. Eugênio prometeu à Margarida que jamais seria padre, jurou que voltaria.

Os pais podem destruir a vida dos filhos se não aceitarem como são . Os pais têm uma tendência a querer moldar os filhos baixo seus próprios desejos, moral, necessidades e costumes, como se fossem um ser único. Pais e filhos, muitas vezes, estão nas antípodas. Aconteceu com Eugênio e acontece na vida real. A ditadura maternal e paternal pode matar de muitas formas. Margarida e Umbelina foram expulsas da fazenda. Umbelina faleceu.

Grande é o poder do tempo. O próprio braço da dor, quando não consegue esmagar a sua vítima, por fim de contas esmorece fatigado, e o seu estilete, por mais buído que seja, acaba de embotar- se” (p.161)

Eugênio passou por um vale de sombras, de terror, para poder seguir em frente. Há várias alegorias religiosas ilustrando esse deserto que ele teve que cruzar para tentar destruir um sentimento muito forte, que não pode existir, a sua via crucis, e para piorar, chegou a notícia: Margarida casou- se. (SPOILER: mentira, nunca casou- se e também estava doente, mas eugênio nunca soube).

Anos mais tarde, Eugênio volta, já padre, para a Vila do Tamanduá. Via a casa de Umbelina e Margarida em ruínas. As suas pernas tremeram. Sentimentos como esses nunca morrem. Alguém chamou o padre para dar uma extrema- unção. Fácil adivinhar, não?

São as almas sujas da Terra, as que destruíram esse amor, por vaidade, inveja, maldade pura; são as que mentem, enganam, manipulam para possuir o que jamais terão. Assim como na vida. Nem com tanta gente contra, família e religião, nada conseguiu impedir o encontro- ainda que breve.

Gostei muito do final. Eugênio, de certa forma, conseguiu cumprir a sua promessa, além de dar, mesmo sem querer, uma boa lição nos energúmenos dos seus pais.


“O Seminarista” é uma obra muito intensa, bem escrita, emocionante, que desperta vários sentimentos: de ternura, beleza, raiva, pena, indignação. E a obra não te custará absolutamente nada. Ele está no banco de clássicos gratuitos do governo do Brasil, o Domínio Público. Não foi o deles que eu li, pois eu já tinha um no tablet, que baixei por 0,99 cêntimos (de euro), foi esse:

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Guimarães, Bernardo. O seminarista. PDF (no iBook, sem editora). Páginas: 237- Preço: 0,99€

Disponível gratuitamente no site Domínio Público, do governo do Brasil.