Dez anos e um adeus


Parece que tudo secou, todas as velhas vontades, os antigos suspiros e desejos. As coisas boas e ruins, ainda bem, um dia acabam. O fim é o destino de tudo. É preciso reinventar- se, destruir para reconstruir.

As palavras fogem esbaforidas de mim, chegaram ao fim da linha e vão caindo no despenhadeiro do fim da página. Estão todas aqui brigando, empurrando- se, procurando os seus lugares, só que já não sinto mais vontade de ajudá- las, de colocá- las nos seus devidos lugares ao sol. Elas são frágeis e eu também; se não podem ser livres, melhor não ser. Ser, eis a questão.

Vamos continuar em algum lugar, em algum caderno ou livro fechado, até que algum dia alguém nos venha, quem sabe, despertar. Até então, a palavra e eu, nos conjugamos e nos bastamos.

Agradeço a quem fez parte disto durante (longos) dez anos.

A gente vai se reencontrar algum dia. Sejam felizes…

Fernanda Sampaio Carneiro

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Você conhece Gertrude Stein?


A escritora Gertrude Stein (Pittsburgh, 03/02/1874- Paris, 27/07/1946) poeta, biógrafa e romancista, era amiga pessoal de vários escritores e pintores, inclusive Picasso, Matisse, Hemingway e Joyce, por exemplo. A biografia dela é muito interessante, merece um post exclusivo, que espero fazer em breve.

56-284966-5225360456-769966a61b-oGertrude e o seu retrato feito por Picasso (1906).

A autora ficou popularmente conhecida depois do filme de Woody Allen, “Midnight in Paris”, ela é uma das personagens.

O tradutor brasileiro, Elton Uliana, mestrando em Tradução na University College em Londres, gentilmente nos enviou a tradução de “Tender Buttons” (1914). Ele teve a máxima atenção com os detalhes, não quis modificar nem uma vírgula do texto original.

“Botões ternos” é a primeira obra de Stein publicada em inglês, onde ela transportou à arte verbal a sua experiência com as obras de arte tão presentes em sua vida. É uma experiência semiótica interessante, que inovou e abriu caminhos. A linguagem pode ter infinitas possibilidades, experimentar e criar coisas novas é preciso. A linguagem é tão plástica quanto uma obra de arte.

O conto de Gertrude Stein é uma viagem literária muito interessante. Veja a tradução de Elton Uliana (obrigada!):


BOTÕES TERNOS

Objetos · Comida · Quartos

Gertrude Stein

UMA GARRAFA, OU SEJA, UM VIDRO CEGO.

Um tipo de vidro e um primo, um espetáculo e nada de estranho uma única cor ferida e um arranjo em um sistema para apontar. Tudo isso e  não ordinário, não desordenado em não se assemelhar. A diferença está se espalhando.

BRILHO VITRIFICADO.

Níquel, o que é o níquel, é originalmente livre de uma tampa.

A mudança nisto é que o vermelho enfraquece a hora. A mudança chegou. Não há procura. Mas há, há aquela esperança e aquela interpretação e, por vezes, com certeza qualquer uma é indesejável, em algum momento há respiração e haverá uma sinecura e um encanto muito encanto é limpo isto e purificador? Certamente o cintilante é bonito e convincente.

Não há gratidão em misericórdia e na medicina. Pode haver quebras em japonês. Isso não é programa. Isso não é cor escolhida. Foi escolhida ontem, que mostrou cuspir e talvez lavar e polimento. Certamente não mostrou nenhuma obrigação e, talvez, se empréstimo não é natural há alguma utilidade em dar.

UMA SUBSTÂNCIA NUMA ALMOFADA.

A mudança de cor é provável e uma diferença uma muito pequena diferença é preparada. Açúcar não é um vegetal.

Insensível é algo que endurece as folhas por trás do que vai ser suave se houver um interesse genuíno em que estejam presentes tantas mulheres quanto homens. Faz isto alguma alteração. Isto mostra que a sujeira é limpa quando existe um volume.

Uma almofada tem esta capa. Suponha que você não gosta de mudar, suponha que é muito limpo que não haja nenhuma mudança na aparência, suponha que não há regularidade e roupa isto é pior que uma ostra e uma permuta. Chega a estação em que há qualquer uso extremo em penas e algodão. Não há muito mais alegria em uma mesa e mais cadeiras e muito provavelmente redondeza e um lugar para colocá-las.

Um círculo de fina cartolina e uma oportunidade para ver um pingente.

Qual é o uso de um tipo violento de deleite se não há prazer em não ficar cansado disso. A questão não vem antes que haja uma cotação. Em qualquer tipo de lugar há uma tampa para a cobertura e é um prazer de qualquer modo há alguma aventura em se recusar a acreditar em absurdo. Isto mostra que utilidade há em uma peça inteira se alguém usá-la e é extrema e muito provavelmente as pequenas coisas podem ser mais queridas mas em qualquer coisa há uma barganha e se há a melhor coisa a fazer é levá-la para longe e usá-la e depois ser imprudente ser imprudente e resolvida em retornar a gratidão.

Azul claro e o mesmo vermelho com roxo faz uma mudança. Isso mostra que não há erro. Qualquer rosa mostra isto e muito provavelmente isto é razoável. Muito provavelmente não deve haver um  presente sedutor mais fino. Algum aumento significa uma calamidade e esta é a melhor preparação para três e mais estarem juntos. Um pouco de calma é tão comum e em qualquer caso há doçura e um pouco daquilo.

Um selo e fósforos e um cisne e uma hera e um terno.

Um armário, um armário não se conecta debaixo da cama. A banda se é branca e preta, a banda tem uma corda verde. Uma visão uma visão total e um pequeno gemido rosnando faz de um corte um canto tão docemente triturado e uma coisa vermelha não uma coisa redonda, mas uma coisa branca, uma coisa vermelha e uma coisa branca.

A desgraça não está na falta de cuidado, nem mesmo na costura ela sai para fora do caminho.

Como é a faixa da cintura. A faixa não é como qualquer coisa mostarda não é como a mesma coisa que tem listras, não é nem mais doída que isto, ela tem uma parte superior.

UMA CAIXA.

Da bondade vem vermelhidão e da grosseria vem rápida a mesma pergunta, de um olho vem pesquisa, da seleção vem gado doloroso. Então a ordem é que uma forma branca de ser redonda é algo que sugere um alfinete e é decepcionante, não é, é tão rudimentar ser analisado e ver uma substância fina estranhamente, é tão sério ter um verde apontando não para o vermelho mas para apontar novamente.

UM APARELHO DE CAFÉ.

Mais que duplo.

Um lugar em nenhuma mesa nova.

Uma única imagem não é esplendor. O sujo é amarelo. Um sinal de mais em não mencionar. Um aparelho de café não é um detentor. A semelhança com o amarelo é mais suja e mais distinta. A mistura limpa é mais branca e não cor de carvão, não mais cor de carvão do que completamente.

A visão de um motivo, a mesma visão mais ligeira, a visão de uma resposta negativa mais simples, a mesma sirene dolorida, a intenção de desejo, o mesmo esplendor, o mesmo mobiliário.

O tempo para mostrar quando uma mensagem é tarde demais e mais tarde não há nada de se pendurar em ruínas.

Uma cor rosa-madeira não rasgada. Se não é perigoso então um prazer e mais do que qualquer coisa se é barato não é mais barato. O lado engraçado é que quanto mais cedo houver menos mais certo é a decaída da necessidade. Supondo que o caso continha rosa-madeira e uma cor. Supondo que não houve nenhuma razão para angústia e mais provavelmente para um número, supondo que não houve espanto, não é necessário que se misture espanto.

A decisão de limpar os móveis é uma forma de não quebrar e desmantelar. A única maneira de usar o costume é usar sabão e seda para a limpeza. A única maneira de ver o algodão é ter um desenho concentrando a ilusão e a ilustração. A maneira perfeita é acostumar a coisa a ter um forro e a forma de uma fita e ser sólida, muito sólida em pé e usar um peso pela manhã. Isto é leve o suficiente. Isto tem forma agradável. Muito agradável não pode ser um exagero. Enfático demais pode ser sinceramente desmaiante. Pode ser estranhamente bajulador. Pode não ser estranho em tudo.

Tradução: Elton Uliana

Tesouros da “British Library” (vídeo).


A Biblioteca Britânica é uma verdadeira joia da humanidade, ela é a guardiã de tesouros de valor incalculável. Nela há manuscritos de todas as épocas, de todos os povos, de todas as disciplinas. Eu estive passeando na biblioteca, sofri Síndrome de Stendhal, chorei na frente de originais de escritores, que jamais pensei que iria ter a oportunidade de ver. Você que é apaixonado por literatura como eu, vai entender.

Nem dá pra citar todos, impossível, mas digo que vi a letra do próprio punho de vários escritores e gênios das artes, literatura, música,  como Dostoievski, Proust, Tolstoi, George Orwell, Freud, Leonardo da Vinci, Mozart, Stefan Zweig, etc…

shakesEdição de “Orlando Furioso”, de Shakespeare, de 1591. (British Library)

Se você não pode, por enquanto, conhecer em pessoa essa biblioteca incrível, pode consultar vários textos no site, clica aqui.

Não gravei muito, porque como disse, estava extasiada, fora que não permitem gravar dentro da sala dos tesouros. Mas veja o videozinho aqui, clica e inscreva- se no canal! 🙂

Quem foi T. S. Eliot?


Quem foi T.S. Eliot?*

Thomas Stearns Eliot foi um poeta americano nascido em 1888 e falecido em Londres em 1965. Um grande poeta, mas não só: foi também um excelente ensaísta, dramaturgo e editor, um homem completamente entregado ao mundo das Letras.

Era também um boêmio e um sujeito que sofria um profundo mal- estar por causa da “desertificação intelectual do mundo contemporâneo”, mal que também padeço. Parecia conservador (mas não era bem assim), ele se auto definia como “monárquico, classista e anglo- católico”, corrente totalmente contrária no seu tempo nos Estados Unidos, tanto, que preferiu a nacionalidade inglesa. Chegou em Londres em 1915, com 27 anos, e ficou até a sua morte aos 77.

A sua decisão de viver de poesia não foi fácil. Passou muitas dificuldades financeiras, além de familiares. Sua esposa, Vivienne Haigh- Wood sofria problemas de saúde, faleceu quando estava internada em um hospitais para doentes mentais. Foi Bertand Russell, prêmio Nobel de Literatura, grande intelectual, escritor, filósofo, matemático, entre outros, que acolheu o casal durante três anos, deu casa e comida. O próprio Eliot disse que o menáge à trois (sim, foi isso) prejudicou a saúde mental de sua mulher. Há quem diga que ele não era um bom marido.

Durante esses anos tomentosos foi quando Eliot mais escreveu. Foi baixo a tormenta que Eliot colocou a sua literatura num patamar superior. Em 1948, ganhou o Nobel de Literatura.

Casou pela segunda vez com Valerie, sua jovem secretária que era apaixonada pelo escritor desde menina. O escritor estava empenhado em ter um casamento feliz. E parece que foi assim, porque nunca mais escreveu com a maestria de “A terra inútil”:

O enterro dos mortos (fragmento)

Abril é o mais cruel dos meses, germina
Lilases da terra morta, mistura
Memória e desejo, aviva
Agônicas raízes com a chuva da primavera


É preciso dor para florescer?


* A foto é de Lord Snowdon; as referências bibliográficas estão em “Grandes autores vistos por grandes fotógrafos”, reescritura do texto de Maria Baiocchi.