Dez anos e um adeus


Parece que tudo secou, todas as velhas vontades, os antigos suspiros e desejos. As coisas boas e ruins, ainda bem, um dia acabam. O fim é o destino de tudo. É preciso reinventar- se, destruir para reconstruir.

As palavras fogem esbaforidas de mim, chegaram ao fim da linha e vão caindo no despenhadeiro do fim da página. Estão todas aqui brigando, empurrando- se, procurando os seus lugares, só que já não sinto mais vontade de ajudá- las, de colocá- las nos seus devidos lugares ao sol. Elas são frágeis e eu também; se não podem ser livres, melhor não ser. Ser, eis a questão.

Vamos continuar em algum lugar, em algum caderno ou livro fechado, até que algum dia alguém nos venha, quem sabe, despertar. Até então, a palavra e eu, nos conjugamos e nos bastamos.

Agradeço a quem fez parte disto durante (longos) dez anos.

A gente vai se reencontrar algum dia. Sejam felizes…

Fernanda Sampaio Carneiro

Este slideshow necessita de JavaScript.

Anúncios

Voltando…primeiro post de 2017!


Olá, amigos e amigas, voltei! Já estava com saudade de vocês e do blog. Vou começar a contar sobre os últimos livros que li e de algumas outras novidades. Já é 13 de fevereiro, vamos lá!

A resenha de hoje é sobre um livro lido em dezembro, na altura do Natal: Histórias da Terra e do Mar, da portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 06/12/1919- Lisboa, 02/06/2004), seu avô paterno era dinamarquês, e pelo lado português, de família aristocrata. Seu tio era o dono da fazenda, que hoje é o Jardim Botânico do Porto. Considerada uma das maiores poetisas portuguesas do século XX, ela também escreveu contos, ensaios, peças para teatro e  era tradutora. Foi professora universitária do curso de Letras e mãe de cinco filhos.

Sophia de Mello Breyner Andresen  01.jpgSophia de Mello

Vamos ao livro, uma obra composta de cinco contos:

História da Gata Borralheira

A história dividida em dois capítulos, realmente tem atmosfera de conto de fadas, mas não só o da Gata Borralheira como sugere o título, inclui também a história da Cinderela e da Branca de Neve, mas com um final infeliz. Será que  da modernidade pra cá (o livro foi publicado em 1984, mas o conto vem com a data de 1965) não comporta mais histórias de grandes amores com finais felizes?

Lúcia, 18 anos, moça pobre, foi convidada para um baile. Foi mal vestida e com um sapato velho e ralado. Ficou num canto, sozinha, nenhum rapaz a tirou para dançar. Se você nunca passou por isso, imagina a cena e a sensação. Depois foi morar com a tia rica casou com um homem rico. Conheceu o mundo oposto ao seu (p.26):

O mundo tem um preço, e Lúcia pagou o preço do mundo.

Lúcia reencontrou- se com o único homem que dançou no baile há vinte anos. O homem reapareceu de forma mágica. Ele era o outro caminho.

Um conto muito interessante que nos faz refletir sobre as escolhas que fazemos. E se a gente escolhesse o que não escolheu? Como teria sido?

O silêncio

Era complicado.

Assim começa a história de Joana, uma dona-de-casa muito solitária, que leva uma vida ordenada e silenciosa. A palavra “silêncio” é repetida muitas vezes, incomodando, como parece incomodar a vida de Joana; ao mesmo tempo,  o silêncio é o seu único interlocutor. Tanto silêncio é interrompido pelos gritos de uma mulher, uma briga de casal, que a protagonista espiava da janela.

A casa do mar

Esse conto é uma descrição minuciosa de uma casa do mar, que foi construída em cima de uma duna, afastada das demais casas. Particularmente, por não gostar de textos descritivos, foi o que menos gostei. Não me disse muito, mas isso não significa que ele seja ruim- ao contrário, é muito bem escrito. A inspiração foi a sua casa de Lisboa.

Saga

Esse conto remete às origens dinamarquesas da autora e demorou quase uma década para ser escrito (1972- 1981). É o texto mais longo do livro e conta a história, a “saga” do menino Hans, de uma família dinamarquesa que mora no interior da ilha de Vig ( realmente existe,  pertence à Dinamarca). O pai, Sören, ex-marinheiro, alto, magro, austero e silencioso. Ele impunha o mesmo silêncio aos demais (p. 57):

(…) sabia que é no silêncio que se escuta o tumulto, é no silêncio que o desafio se concentra.

Os dois irmão de Sören morreram em um naufrágio, por isso vendeu o barco e comprou as terras no interior da ilha. No entanto, permanece inquieto e taciturno.  Uma vez marinheiro, sempre marinheiro. É o destino da família.

O filho Hans quer ser também marinheiro, “capitão de navio”. O pai já viu gente demais sepultada no mar, quer mandar o filho estudar em Copenhague. O rapazinho fugiu em um navio inglês que passou pela ilha.

O bisavô da autora veio de barco da Dinamarca até o Porto. O personagem Hans está inspirado nele.

Sophia conseguiu, em um texto curto, narrar as peripécias, aventuras e desventuras de uma vida inteira. Dos 14 anos do protagonista até a sua morte, já idoso. Destaco um trecho que achei genial, pois condensa tanta verdade, mas de difícil percepção e síntese, ainda mais assim tão bem explicada:

E Hans compreendeu, como todas as vidas, a sua vida não seria mais a sua própria, a que nele estava impaciente e latente, mas um misto de encontro e desencontro, de desejo cumprido e desejo fracassado, embora, em rigor, tudo fosse possível. E compreendeu que as suas grandes vitórias seriam as que não tinha desejado, e que, por isso, nem seriam vitórias.

Eu prefiro não explicar o trecho acima, só sente….

Vila d’Arcos

Uma prosa poética deliciosa! Um texto bem curtinho, o mais curto do livro. Sophia pega na nossa mão e nos leva para passear pela “Vila d’Arcos”. Sophia tinha um bom gosto e sensibilidade impressionantes para escrever. Esse texto carrega uma lição de vida.

sophia

Mello Breyner Andresen, Sophia. Histórias da Terra e do Mar, Porto Editora, Porto, 2015. Páginas: 95

Gostei bastante deste livro, recomendo, anota na lista!

Daqui a pouco eu volto para contar uma novidade. Fique atento!

 

 

 

Resenha: “O orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares”


“Sonho não é, morte não é;
Quem parece morrer, vive.
A casa aonde nasceste,
Os amigos de tua primavera,
Idoso e donzela,
O trabalho diário e sua recompensa,
Refugiando- se em fábulas,
Não se lhes pode amarrar.”
(de Ralph Waldo Emerson, poeta americano falecido em 1882- poema que antecede o prólogo)

Uma boa safra de livros juvenis: “Harry Potter e o legado maldito” (J.K. Howling, 2016), ” O chamado do monstro” (Patrick Ness, 2011) e “O orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares” (Ransom Riggs, 2015), todos terão suas respectivas resenhas aqui. “Juvenis”, porque apropriados para jovens, mas não excluem o leitor adulto, já que são histórias interessantes, cheias de magia, divertidas e sempre deixam alguma lição, como as fábulas. Fazem bem, independente da idade.

Pela primeira vez um filme americano estreia primeiro no Brasil (29), que no resto do mundo (30), inclusive nos Estados Unidos. Leia a resenha, pois assim você poderá comparar com o filme.

O orfanato da Srta. Peregrine para crianças peculiares

O autor americano Ransom Riggs (Maryland, 1979), diretor e roteirista de cinema, teve sorte com o seu primeiro livro. Ele ficou durante meses na lista dos mais vendidos do The New York Times e a obra virou filme de Tim Burton. Para quem não sabe, Burton criou filmes como “Edward Mãos de Tesoura”, “Batman”, “A fantástica fábrica de chocolate”, entre outros, com atmosferas mágicas, ambientes góticos, histórias fantásticas. Um cineasta muito original.

13690698_1032073643512876_6866837346118914049_nRansom Riggs.  Facebook do autor.

Vamos ao livro.

No prólogo, Jacob, o narrador- personagem, fala da infância com a presença essencial do seu avô, Abraham Portman, que lhe contava histórias extraordinárias com monstros e crianças com poderes  excepcionais como a invisibilidade, a levitação, a força descomunal ou um menino que tinha duas bocas. Elas eram enviadas a um orfanato muito especial em Gales, justamente por serem peculiares, lá não adoeciam e nem morriam. Jacob não acreditava nas histórias, mesmo o seu avô mostrando fotos dessas crianças peculiares (as fotos estão no livro). E o seu pai, que ouviu as mesmas histórias, tampouco. Ele explicou a Jacob, que o avô teve uma infância muito difícil na Polônia, que foi enviado pelos seus pais a um orfanato para fugir da guerra. Eram judeus. Sua família toda morreu, só Abraham sobreviveu, então inventou essas histórias extraordinárias para evadir da dor, da realidade. Essa foi a teoria racional que o pai de Jacob encontrou para justificar as histórias de Abraham.

No primeiro capítulo, Jacob tem 16 anos e trabalha como repositor em uma farmácia chamada Smart Aid, na cidadezinha de Englewood, “pequena e aborrecida”, na costa da Flórida. Ele odeia o seu trabalho, faz de tudo para ser despedido, mas isso não acontece, porque os proprietários são os seus tios. É tradição familiar trabalhar na farmácia.

O livro é cheio de fotos, o que dá um ar mais veraz à história. Abaixo (p.24), o avô Portman tirando uma soneca com a sua arma. Ele tem um verdadeiro arsenal, pois tem que se proteger dos monstros caso apareçam. Agora idoso, as armas ficam trancadas devido à sua demência senil. Ele telefona desesperado ao neto pedindo a chave. Depois de tantos anos, os monstros o encontraram.

14433074_668607026628194_6136692485037661277_n

O pai de Jacob, Jake, ornitólogo amador, trabalha meio período como voluntário cuidando de aves, casou-se com uma mulher cuja família é dona de centenas de drogarias. A foto é de Robert Jackson, não sei se é o mesmo fotógrafo que ganhou o Pulitzer por suas incríveis fotos históricas. A maioria das fotos do livro são dele e de David Bass. Há um aviso que todas as fotos são autênticas e não sofreram alterações.

Jacob vai até a casa do avô. Ela está toda revirada e Abraham desaparecido. Foi atrás do avô e o encontrou deitado  e ensanguentado no bosque, todo retorcido como se tivesse sido atirado de uma grande altura. O avô muito fraquinho, lhe dizia: “Vá à ilha, Jacob. Aqui não é seguro”. E o rapaz achou mais uma vez que era paranoia do avô. O idoso deixou as pistas: “Encontra o pássaro. No navio. No outro lado da tumba do velho. Três de setembro de 1940” (p. 35).  Jacob e  Ricky, o amigo que lhe acompanhava, viram o avô morrer. Jacob viu algo mais, um monstro no bosque. Seu amigo não viu e não acreditou nele.

14433064_668623133293250_8330055901777951809_n

Esse foi o monstro que atacou Abraham e que Jacob viu no bosque (p.40, desenho do autor)

É uma fórmula bem batida, que dá a sensação que já vimos/lemos mil vezes, não é? Mas não podemos esquecer que é literatura para crianças/jovens, pra eles é novidade.

Jacob começou a ter pesadelos depois da morte do avô e decidiu não sair mais de casa. Sentia- se culpado por não ter acreditado em Abraham.

O rapaz começou a fazer um tratamento psiquiátrico com dr. Golan. Claro, quem vê monstros é louco, não? Pois…decidiu mentir e dizer que parou de ver monstros em seus pesadelos.

Os pais de Jacob decidiram vender a casa do avô. Jacob foi até lá e viu as fotos que o avô sempre o mostrava quando ele era criança, veja duas delas:

14440944_668631289959101_4233392418249905910_n

Bebê levitando (p.53). Foto de Peter Cohen. Claro que a mão do pai está atrás do bebê. Será que essa foto causou reboliço no passado?

14520537_668631246625772_5637476433716890719_n

Cachorro com cara de menino (p.54). Foto de Robert Jackson. Montagem e bem grosseria, não?  

Jacob descobre a relação do avô com o poeta Ralph Waldo (poema de introdução) através do dr. Golan. E no dia do seu aniversário, Jacob recebeu um livro com uma enigmática dedicatória do seu avô:

14462850_668631239959106_438944506533189769_n

E descobre “esses mundos”. Junto com o livro havia uma carta manuscrita da Senhorita Peregrine a Abe (Abraham) enviada da ilha das crianças peculiares. Claro que Jacob vai dar um jeito de descobrir tudo.

Acho que não preciso contar muito mais. O motivo de Abraham ter saído da ilha, já que era segura, além de proporcionar a imortalidade e a juventude eterna ao estilo Peter Pan, só lendo ou vendo o filme.

Veja o trailer do filme (legendado em português). Os atores são fantásticos, o Jacob é interpretado por Asa Butterfield, o menino inglês que fez “A invenção de Hugo”, a francesa Eva Green faz a Senhorita Alma Lefay Peregrine e o americano Samuel L. Jackson faz o vilão Barron:

Essa é a edição espanhola que eu li da Planeta  com a capa do filme de Tim Burton. Então, que tal ler o mesmo livro que o gênio do cinema leu para produzir sua obra?

14462880_668592683296295_7393693734389474215_n

Riggs, Ransom. El hogar de Miss Peregrine para niños peculiares. Cross Books, Editorial Planeta, España, 2016. Páginas: 415

Aproveite o fim de semana!

Veja a lista de livros que o presidente Obama está lendo no verão


O presidente Barack Obama dos Estados Unidos é uma simpatia, não?! Adoro a sua postura sempre correta e respeitosa, mesmo com os que o ofendem; sempre alegre, bem humorado, simples e atencioso com os cidadãos; o mesmo para a primeira- dama, Michelle.

E Obama também é um bom leitor, entre avião e avião deve abrir algum livro. Veja a lista de leituras do presidente nesse verão (inverno no Brasil):

  1. O primeiro livro da lista, de William Finnegan, não tem tradução brasileira*, nem espanhola. O autor é jornalista internacional e escreve sobre racismo, os conflitos na África do Sul e México. Quem souber ler em inglês, coloca na lista “Barbarian days: A surfing list”.
  2. “The underground railroad” também não tem tradução, ainda, em português e espanhol. Mas tem tradução de um outro livro do autor, “A intuicionista”, que parece bem interessante.  O americano está ganhando vários prêmios literários.
  3. O terceiro já tem tradução: “F de Falcão”, de Helen MacDonald. Baseado na história da autora que perde o pai, entra em depressão e para superar o luto, começa a adestrar um falcão.
  4. “A garota no trem”, de Paula Hawkins. Esse livro de suspense  está fazendo muito sucesso no momento. Está na minha lista.
  5. “Seveneves”, de Neal Stephenson, foi um dos mais vendidos nos Estados Unidos no ano passado. Não achei tradução brasileira, mas tem espanhola. É um livro de ficção científica que me lembrou “Star Trek”. No livro,  sete civilizações vivem fora da Terra 5000 anos depois do apocalipse. Esse também quero ler.

lista

Você pode saber também o que escuta o presidente americano, veja aqui a sua playlist, que inclui o brasileiro Caetano Veloso.

essaBarack e as filhas Sasha e Malia em uma livraria em Washington.

Fonte: Casa Branca

*A minha busca foi feita na livraria Saraiva.

Agenda de feiras de livros no Brasil (Agosto/Setembro) e algum desabafo


Veja as feiras de livros que estão acontecendo agora ou que começarão em setembro:

Eu fiquei tão constrangida quando vi a lista de “autores” que dariam autógrafos, que nem vou reproduzir aqui. O panorama literário brasileiro, infelizmente, vai de mal a pior. Qualidade literária zero em muitas feiras, reflexo dos leitores? Quem domina quem? O mercado ou os leitores que pedem literatura descartável?

Acho que essa só vale a pena pra passear e pegar algum desconto nos livros (de verdade).

Aonde?

Pavilhão do Anhembi
Segunda à Sexta: 9h às 22h 
Sábado e Domingo: 10h às 22h 
Dia 04/09 das 10h às 21h
  • 3ª Festa Literária Internacional de Maringá (FLIM), de 13 a 18 de setembro, veja programação.

Essa é uma feira que você terá a oportunidade de conhecer pessoalmente autores estrangeiros como o português Antônio Vilhena, o angolano José Eduardo Agualusa e o americano William C. Gordon (ex- marido da escritora Isabel Allende); e a prata da casa: Ana Maria Machado,  Caco Barcellos e José Castello.

Aonde?
Centro de Convivência Renato Celidônio, anexo ao Paço Municipal.

Escritores de peso participarão dessa feira: Luis Ruffato, Milton Hatoum e Laurentino Gomes, por exemplo (veja a lista). 

Aonde?

Fundação Cultural Calmon Barreto
Praça Arthur Bernardes, nº 10, Centro Araxá / MG
Informações: (34) 3691-7133
E-mail: fliaraxa@fliaraxa.com.br

 7º Festa Literária de Marechal Deodoro, VII FLIMAR, 31 de agosto a 3 setembro 2016. Site.

Essa feira em Alagoas vai começar amanhã, os homenageados são Fagner e Nice de Oliveira. Veja a programação.

Aonde?

Não sei. No site não aparece o endereço (fail!) e se aparecer está beeeem escondido. Se você quiser ir, escreva para: flimar.marechaldeodoro@gmail.com


Fiquem atentos, pois no final de setembro, aqui no Falando em Literatura, estará a agenda de feiras mais importantes do Brasil e do mundo. Outubro será bem interessante.


ffc2d01a641e832afbe8d696b3485d2c

As feiras de livros, principalmente as financiadas com dinheiro público, devem servir para fomentar a leitura (a boa literatura), atrair leitores, devem promover grandes autores, de relevância (mesmo que não sejam populares), mas bons autores, para que as pessoas, não só tenham motivação para ir até essas feiras, mas que levem para casa livros que acrescentem algo positivo. Mais que isso: deveriam existir palestras ensinando a importância da leitura, do estudo, das letras na vida das pessoas. As Letras, Ciências Humanas e Sociais estão morrendo, meu povo!

Caso contrário, será um grupo de escritores amigos se auto- promovendo, editoras enchendo as burras de dinheiro e o pior: a promoção da literatura medíocre como na Bienal Internacional do Livro de São Paulo está fazendo agora, promovendo literatura vagabunda, que nem deveria ser chamada de “literatura”… youtubers, popozudas e essa baixaria toda. Ou seja, isso é perder tempo e dinheiro suado do bolso do brasileiro. Não faz sentido!

O panorama literário brasileiro nunca esteve pior. A força que está ganhando a mediocridade é absoluta em um país sem tradição leitora, com um índice alto de analfabetismo ainda por combater, livro parece objeto completamente descartável.

A UNESCO disse em 2014, que no Brasil havia 14 milhões de adultos analfabetos. E os analfabetos funcionais?! Aqueles que sabem escrever o nome, leem mal, escrevem quase nada, não sabem interpretar um texto, mas que estão fora dessas estatísticas? Um batalhão! Não vamos “tapar o sol com a peneira”, vamos falar a verdade. As feiras têm que servir, ao menos, para inspirar e não deseducar e banir leitores!

Confesso, amigos, que nunca estive tão desanimada. Como disse Drummond: “Lutar com palavras/ é a luta mais vã”, mas vamos lá, respiremos fundo: “Entanto lutamos/ mal rompe a manhã”.

O novo romance do espanhol Carlos Ruiz Zafón


Quem ainda não leu “A sombra do vento” do espanhol Carlos Ruiz Zafón, coloque na lista, o livro é muito bacana!

A história acontece na primeira metade do século XX, na cidade de Barcelona, a atmosfera é misteriosa, intrigante. O personagem Daniel Sampere entra em uma biblioteca, “O cemitério dos livros esquecidos”, e encontra um livro maldito que vai mudar a sua vida. O romance foi lançado em 2001, eu li em 2002, quando cheguei na Espanha, nem tinha esse blog ainda. Vou reler (espero que em breve) para deixar a resenha aqui.

Na sequência, Zafón lançou em 2008 “O jogo do anjo”, que é a segunda parte de “A sombra do vento”.

Depois, em 2012, a história continuou com “O prisioneiro do céu”, e no próximo dia 17 de novembro, virá a quarta sequência, ” O labirinto dos espíritos”, livro muito esperado pelos fãs.

Abaixo, a edição espanhola que será lançada pela editora Planeta:

14183823_1363793190316940_4840548737841620453_n

No site  da editora Planeta Brasil não há ainda notícia sobre o lançamento do livro no país, mas suponho que não vai demorar muito.

Está chegando: 75ª Feira do Livro de Madrid (com uma “pitada” de desânimo)


Feiras de livros são oportunidades fantásticas para conhecer todos os tipos de autores, de todos os gêneros e lugares. A Feira do Livro de Madri, cidade onde moro, dura 22 dias e, normalmente, traz um país convidado. Esse ano: a França. Isso implica que teremos a oportunidade de conhecer autores franceses contemporâneos. Já contei que tenho uma quedinha pelos franceses? Leia aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

A lista de escritores que estarão presentes já começou a ser atualizada, até o dia da feira irão entrando mais nomes. Por exemplo:

No dia 5 de junho, você poderá conhecer em pessoa o dono do melhor restaurante do mundo, Ferrán Adrià e seus livros com receitas maravilhosas.

ferran_adria_recetas

Julia Navarro, escritora espanhola, essa vale a pena conhecer. Eu li o “Dime quien soy” e gostei bastante. Ela vai estar em vários dias, melhor consultar a lista.julia

Ainda não divulgaram os escritores franceses que estarão presentes.

A lista, por enquanto, deixou- me muito desanimada. Viram a minha animação do início? Pois é, c’est fini. A literatura de não- ficção deve entrar, pois há coisas muito úteis que precisamos. Eu mesma citei o Ferràn Adrià. Há ensaios, divulgação científica, dicionários, fotografia, gastronomia, muita coisa bacana, mas não vale tudo.

Nos últimos três anos, principalmente, a onda de youtubers e “gente nada a ver com literatura” invadiram a feira e o nosso mundo literário. A literatura vai minguando. Qualquer um acha que pode escrever um livro. Poder até pode, mas não é literatura. Há livros muito respeitáveis de não- ficção, que são úteis e necessários, mas não é o caso da lista que acabei de ver. Desânimo.

Isso pode ter consequências muito negativas: a juventude só vai ler porcaria; os escritores decentes não vão querer participar da palhaçada; os consumidores de literatura (ficção, artística, principalmente) deixarão de ir e a feira acabará se transformando numa festa de babacas, adolescentes alucinados e curiosos querendo tirar fotos com artistas e youtubers.

Eu mesma, na feira de 2014, fui cedinho para “ficar na fila”, pois adoraria conhecer Luis Goytisolo (1935) pessoalmente. Um escritor de primeira linha, membro da Real Academia Española (irmão do também escritor, o célebre Juan Goytisolo), escreveu livros incríveis como “Antagonía”, uma obra- prima. Esse autor espanhol é comparado com Proust. Cheguei esbaforida, “Ué, cadê a fila?!”. Não havia ninguém. A minha surpresa foi tanta que o autor percebeu. “Não sou um autor popular”. A vantagem é que pude conversar bastante com ele e tenho o privilégio de ter quase toda a sua obra (carinhosamente) autografada. Mas, não consegui evitar a sensação de tristeza e desencanto: “se ninguém lê um autor desses…que fazemos?!”

Caramba, nosso espaço já é muito restrito, será mesmo que eles têm que invadir a nossa praia?! Claro que sim, as editoras e “escritores” (que normalmente nem escrevem, alguém faz isso por eles) querem é ganhar dinheiro, não importa com quê. Oportunistas.

Cartel FLM16O cartaz desse ano é de Emilio Gil, um artista gráfico.

Vou aguardar para ver se melhora. Será que virá pelo menos algum desses escritores franceses: Patrick Modiano, Pierre Lemaitre, Fred Vargas, Laurent Mauvignier, J. M. G. Le Clézio, Frédéric Beigbeder? Senão, fico aqui com a minha maravilhosa biblioteca.