Dez anos e um adeus


Parece que tudo secou, todas as velhas vontades, os antigos suspiros e desejos. As coisas boas e ruins, ainda bem, um dia acabam. O fim é o destino de tudo. É preciso reinventar- se, destruir para reconstruir.

As palavras fogem esbaforidas de mim, chegaram ao fim da linha e vão caindo no despenhadeiro do fim da página. Estão todas aqui brigando, empurrando- se, procurando os seus lugares, só que já não sinto mais vontade de ajudá- las, de colocá- las nos seus devidos lugares ao sol. Elas são frágeis e eu também; se não podem ser livres, melhor não ser. Ser, eis a questão.

Vamos continuar em algum lugar, em algum caderno ou livro fechado, até que algum dia alguém nos venha, quem sabe, despertar. Até então, a palavra e eu, nos conjugamos e nos bastamos.

Agradeço a quem fez parte disto durante (longos) dez anos.

A gente vai se reencontrar algum dia. Sejam felizes…

Fernanda Sampaio Carneiro

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Sim, nós falamos de amor: II Oficina Falando em Literatura


Falar de amor em tempos de cólera é necessidade. É antídoto para a desesperança, para a dor. É o único caminho. Amor- próprio, amor ao outro, amor à família, amor à natureza, à literatura, à música, às artes, ao belo. A tudo que faz bem.  Amor sincero, verdadeiro, genuíno. O amor puro seja qual for,  nunca é errado ou motivo para repressão e vergonha. Se ama, diga…Purifique- se, regenere- se, liberte- se.

Algumas cenas da oficina “O amor na poesia de Carlos Drummond de Andrade”:

simoneSimone recitando o seu poema.

rafaelO poeta Rafael.

turmaSherlen, Rafael, a pequena Helena, Simone e Deborah participaram na I Oficina e voltaram para a segunda.

Um abraço apertado para a querida Renata, que foi hospitalizada ontem e não tivemos o prazer de contar com a sua presença. Melhoras, querida. E obrigada a todos que participaram!

A próxima oficina será na quarta- feira, 16/11 e vamos falar sobre Antônio Torres, um dos meus escritores favoritos:

oficina-madri


Entre tantas nuances da vasta obra de Drummond escolhi o amor para a oficina de ontem (10/11), porque o amor é o caminho e a solução para tudo. Para os dramas pessoais e coletivos.  “Amar” de Drummond na voz da inesquecível Marília Pêra:

Que pode uma criatura senão,
Entre criaturas, amar?
Amar e esquecer, amar e malamar,
Amar, desamar, amar?
Sempre, e até de olhos vidrados, amar?
Que pode, pergunto, o ser amoroso,
Sozinho, em rotação universal, senão
Rodar também, e amar?
Amar o que o mar traz à praia,
O que ele sepulta, e o que, na brisa marinha,
É sal, ou precisão de amor, ou simples ânsia?
Amar solenemente as palmas do deserto,
O que é entrega ou adoração expectante,
E amar o inóspito, o áspero,
Um vaso sem flor, um chão de ferro,
E o peito inerte, e a rua vista em sonho,
E uma ave de rapina.
Este o nosso destino: Amor sem conta,
Distribuído pelas coisas pérfidas ou nulas,
Doação ilimitada a uma completa ingratidão,
E na concha vazia do amor à procura medrosa,
Paciente, de mais e mais amor.
Amar a nossa falta mesma de amor,
E na secura nossa, amar a água implícita,
E o beijo tácito, e a sede infinita.

(C.D.A.)


Que o amor seja a tua motivação, nada mais.

A passagem do ano


Passar de um ano ao outro exige um ritual: ordenar a casa, limpar gavetas, deixar para trás tudo o que não serve, fazer a passagem leve e livre para as coisas “novas”. Renascemos das tristezas, das perdas, das injustiças, das solidões, do desamor, das doenças, da falta de dinheiro, das frustrações. O ser humano é forte, tem muitas capas. Tudo o que foi perdido já não se recupera, mas estamos vivos e seguimos adiante, porque esse é o nosso destino natural, sobreviver às dificuldades.

Abaixo um poema de Carlos Drummond de Andrade que pensou também nessas coisas e explica muito melhor que eu:

Passagem do ano 

O último dia do ano
Não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
E novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
Farás viagens e tantas celebrações
De aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia
E coral,

Que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
Os irreparáveis uivos
Do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
Não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
Onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
Uma mulher e seu pé,
Um corpo e sua memória,
Um olho e seu brilho,
Uma voz e seu eco.
E quem sabe até se Deus…

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.

Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa, já se expirou, outras espreitam a morte,
Mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
E de copo na mão
Esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
O recurso da bola colorida,
O recurso de Kant e da poesia,
Todos eles… e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
Lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

Até o ano que vem, pessoal! Obrigada pela companhia nesse mundo mágico da literatura, que nos salva de um monte de coisas. Obrigada pelos comentários, pela partilha e troca de experiências. O ano de 2015 vem aí cheio de páginas em branco para desenhar a nossa história e cheia de páginas escritas de histórias fantásticas por seres humanos que fazem a diferença no mundo. A minha lista de livros resenhados em 2014 ficou assim (clica aqui) e a sua?

Vamos criar pensamentos e páginas felizes, menos sofrimentos imaginários e mais abraços. Feliz 2015!

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Os prejuízos da literatura ruim


Esse post surgiu de uma discussão desagradável com uma pessoa lá no meu perfil do Falando em Literatura no Facebook. Obrigada, valeu um post! Eu defendo literatura de qualidade, isso é inegociável. Literatura boa não tem que ser “difícil” nem “chata”, judiação com a nossa querida literatura e seus escritores quem pensa assim. Pode ter livro considerado muito bom que eu, você, qualquer pessoa, pode não gostar.  Você não é obrigado a gostar de tudo, mas mesmo assim, esses livros irão te acrescentar muito mais do que qualquer best- seller água-com- açúcar, enlatados e afins. Mas agora eu não vou falar dos benefícios da boa literatura e sim dos malefícios dos livros ruins:

descarga

1º. Raiva. Se você tiver o mínimo de bom senso e cair na armadilha de comprar um desses livrinhos, quando começar a leitura vai passar uma baita de uma raiva. “Putz, por que comprei isso?!”

2º. Prejuízo financeiro: investir num livro descartável é jogar dinheiro fora. Não é melhor investigar, saber mais sobre o autor e também sobre a obra ao invés de engolir tudo o que as editoras tentam nos vender como grandes obras?

3º. Tempo: perder tempo com literatura ruim é um péssimo investimento. Muito melhor alimentar o nosso cérebro com aprendizados dos grandes escritores clássicos e contemporâneos.

4º. Vício: se você começar a ler livros “fáceis”, pode achar que toda literatura mais elaborada, com muitos recursos de estilo, com uma narrativa que te coloque para pensar, “difíceis”.

5º. Abandono: literatura ruim pode te fazer abandonar a leitura e a literatura.

6º. Espaço: um livro ruim vai ocupar espaço na sua estante, criar poeira, jamais será relido, nem indicado para outras pessoas.

7º. Esquecimento: livro ruim será esquecido assim que fechado, não vai remexer o seu interior, desestruturar nem para o bem nem para o mal.

8º. Leitor: livros ruins formam leitores ruins, que possivelmente formarão novos péssimos escritores. Por favor, não, não!

9º. Vestibular, ENEM: literatura ruim não cai em concursos, então para quê perder tempo com isso?!

10º. Futuro: quando você estiver mais velho e experiente vai se arrepender de todas as leituras ruins que fez. Palavra de honra!

11º. Constrangimento: livro ruim você tem até vergonha de mostrar que está lendo. Esconde na bolsa, disfarça. Não é melhor ter orgulho do livro que carrega consigo?! E a vergonha alheia que nos proporciona aquele leitor orgulhoso de literatura descartável…(ideia da leitora Michele Viviane Vasconcelos)

bad books

E agora um pedido: leia algum livro considerado ruim e depois compare com qualquer bom escritor ou escritora nacional, não precisa sair do Brasil. Perceba, anote as diferenças e venha contar aqui no Falando em Literatura, a sua opinião será publicada. Ah, e se quiser, pode completar a lista acima…o que a literatura ruim pode nos trazer? A melhor resposta vai ganhar…um livro BOM!