Feirinha permanente de livros usados em Madri


Uma tradicional feira permanente de livros usados em Madri é a da “Cuesta de Moyano” inaugurada em 1925. Ela fica num calçadão no “Paseo del Padro”, num dos lugares mais famosos da cidade, perto de todos os museus importantes e do jardim botânico.

Os trinta stands de madeira, que foram passando de pai a filhos, são bem simpáticos e estão abarrotados de livros de todos os gêneros. Antes desse espaço ser destinado aos livros, ficava o primeiro zoológico da cidade em 1774.

Estátua de Pio Baroja 

Essa é a única feira permanente de Madri. A aparência dos stands é a mesma das originais. Uma grande virtude dos espanhóis é essa: a de saber cuidar do seu patrimônio histórico- cultural.

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A Real Academia Espanhola de Letras


A “Real Academia Española” fundada por Juan Manuel Fernández Pacheco y Zúñiga em 1713, fica num edifício bonito atrás do Museo del Prado em Madri. A Academia regula e edita o dicionário da língua espanhola. Hoje, inclusive, a comissão da Academia está em Burgos reunida para a  24ª edição do dicionário, que engloba todos os países hispano- falantes.

IMG_2782A Academia não é aberta às visitas, normalmente. É preciso marcar data, as visitas são guiadas e não é fácil conseguir. No ano passado só teve um dia de “portas abertas”, mas é uma multidão e é difícil conseguir entrar também.

IMG_2785.JPGA RAE é um órgão complexo que engloba várias instituições. É patrocinada pelo governo, por empresas privadas e também pessoas físicas.

IMG_2783O diretor atual é Darío Villanueva Prieto, veja seu perfil. Há 43 acadêmicos e só 8 mulheres, como sempre, desprestigiadas, igual que na brasileira. As academias de letras do mundo são extremamente machistas. Feitas e criadas por eles, quando as mulheres não tinham voz e nem vez, o que esperar? Eu sim espero que essa tendência mude. Estamos no século XXI!

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A estátua do fundador no jardim e objetos de construção atrás. A Academia está sofrendo alguma reforma.

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Veja aqui a lista de acadêmicos. O único que conheci pessoalmente é Luis Goytisolo, o “Proust espanhol”.

O dicionário online da Academia está disponível gratuitamente para consultas ortográficas.

Novidade: lançamento da Revista ABRESCCO!


Saiu a primeira edição da revista “ABRESCCO” (“Aproximações Brasil Espanha em Cultura e Comércio”), que é uma empresa de assessoria e consultoria, criada pelo advogado Antonio Peres Junior (presidente), o empresário Joaci Goes Filho, o professor Pedro Corrales, do “Instituto de Empresas Business School” e o economista Juan Miguel Hortelano.

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Os quatro sócios e Luciana, esposa de Antonio Peres. Foto: Peres Junior Advocacia

A revista criou uma ponte entre a Espanha e o Brasil, apresentando artigos, reportagens, entrevistas sobre os dois países, no âmbito empresarial, financeiro e cultural. Nessa primeira edição muito especial e com matérias de peso, muitas informações financeiras e curiosidades históricas interessantes, tanto para empresários, como para os vários perfis de leitores. Também é curioso ler o que pensam empresários e diplomatas sobre a sociedade espanhola e brasileira. A edição está recheada de personalidades de destaque, especialistas nos dois países.

A Espanha está mais presente no Brasil, que o Brasil na Espanha em se tratando de negócios. Leia e revista e veja a quantidade de empresas espanholas no Brasil. Você também vai comprovar que a Espanha e o Brasil têm mais coisas em comum do que a maioria das pessoas pensa.

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Antonio Peres Junior, presidente da ABRESCCO

A edição impressa sairá nos próximos dias e será distribuída, além da Espanha e Brasil, em Portugal e na Suíça. Mas, você que não está nesses países e quer conhecer a ABRESCCO, clica aqui!

O editor da revista é João Compasso (também editor da Revista Bossa), parabéns João! Eu fiz a tradução e revisão, Amable González foi o responsável pelas belas fotografias e o designer é Gonzalo López. Eu já trabalhei antes com os três na Revista BrazilcomZ.

A capa da ABRESCCO, fevereiro de 2016, 1ª edição:

16730199_741720082650221_1196979426683841731_nParabéns aos sócios, sucesso e vida longa à Revista ABRESCCO!

O novo romance do espanhol Carlos Ruiz Zafón


Quem ainda não leu “A sombra do vento” do espanhol Carlos Ruiz Zafón, coloque na lista, o livro é muito bacana!

A história acontece na primeira metade do século XX, na cidade de Barcelona, a atmosfera é misteriosa, intrigante. O personagem Daniel Sampere entra em uma biblioteca, “O cemitério dos livros esquecidos”, e encontra um livro maldito que vai mudar a sua vida. O romance foi lançado em 2001, eu li em 2002, quando cheguei na Espanha, nem tinha esse blog ainda. Vou reler (espero que em breve) para deixar a resenha aqui.

Na sequência, Zafón lançou em 2008 “O jogo do anjo”, que é a segunda parte de “A sombra do vento”.

Depois, em 2012, a história continuou com “O prisioneiro do céu”, e no próximo dia 17 de novembro, virá a quarta sequência, ” O labirinto dos espíritos”, livro muito esperado pelos fãs.

Abaixo, a edição espanhola que será lançada pela editora Planeta:

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No site  da editora Planeta Brasil não há ainda notícia sobre o lançamento do livro no país, mas suponho que não vai demorar muito.

5 de junho: aniversário de 118 anos de Federico García Lorca


Um dos maiores escritores da língua espanhola, Federico García Lorca (Fuentevaqueros, 05/06/1898 – Víznar, 19/08/1936), poeta e dramaturgo, completa hoje 118 anos de nascimento. Formado em Letras e Direito, mudou de Granada para Madri onde conheceu inúmeros intelectuais.

Viajou para Nova York e Cuba, voltou em 1936 para a sua cidade natal, onde foi preso e fuzilado, dizem, pelos seus ideais liberais. 

Lorca era homossexual. A Espanha vivia uma ditadura, os gays não “existiam”. O escritor era um insulto à moral e aos bons costumes, fora seus ideais políticos. Foi eliminado.

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Na foto acima, Lorca aos 18 anos com Salvador Dalí que tinha 24. Eles eram muito mais que amigos, mas comenta- se que não foi um amor consumado. (Será?! Eu acho que foi sim). Tudo indica que Dalí era homossexual, mas nunca assumiu publicamente, então, oficialmente, o romance nunca foi assumido. A foto desprende intimidade, não?

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No livro “Querido Salvador, Querido Lorquito”, do jornalista Víctor Fernández, reúne cartas de Dalí a Lorca com conteúdo apaixonado, beirando o erótico. Ambos tinham relacionamento com outras mulheres para dissimular.

A opção sexual dos artistas influenciou nas suas obras? Sim, por isso comento.

Leia os poemas de García Lorca (em espanhol). E- book grátis!

Deixo a dica de um filme que conta a história dos artistas com protagonista famoso, Robert Pattinson:

Antonio Colinas ganha o Prêmio Rainha Sofía de Poesia Iberoamericana


O Prémio Reina Sofía de Poesia Iberoamericana é o maior prêmio de poesia de língua espanhola, mas que inclui também poetas que escrevem em língua portuguesa, inclusive foram premiados João Cabral, Nuno Júdice e Sophia de Mello.

Esse ano levou o poeta espanhol Antonio Colinas (León, 1946). Além de escrever poesia, ele também é narrador, ensaísta, tradutor e crítico literário. É casado, tem dois filhos e mora em Salamanca.

Quanto à poesia, ele fusiona lugares, experiência, sensações. Estão marcados nos seus versos os lugares que viveu.

Veja a lista de vencedores do Prêmio Rainha Sofia (do El País):

1992 Gonzalo Rojas (Chile)

1993 Claudio Rodríguez (España)

1994 João Cabral de Melo Neto (Brasil)

1995 José Hierro (España)

1996 Ángel González (España)

1997 Álvaro Mutis (Colombia)

1998 José Ángel Valente (España)

1999 Mario Benedetti (Uruguay)

2000 Pere Gimferrer (España)

2001 Nicanor Parra (Chile)

2002 José Antonio Muñoz Rojas (España)

2003 Sophia de Mello Breyner (Portugal)

2004 José Manuel Caballero Bonald (España)

2005 Juan Gelman (Argentina)

2006 Antonio Gamoneda (España)

2007 Blanca Varela (Perú)

2008 Pablo García Baena (España)

2009 José Emilio Pacheco (México)

2010 Francisco Brines (España)

2011 Fina García Marruz (Cuba)

2012 Ernesto Cardenal (Nicaragua)

2013 Nuno Júdice (Portugal)

2014 María Victoria Atencia (España)

2015 Ida Vitale (Uruguay)

2016 Antonio Colinas (España)

Eu conheci Antonio Colinas pessoalmente em 2014. Muito simpático, conversamos sobre literatura, “o que você está esperando para começar a escrever?”- disse. Foi o conselho que trouxe comigo e que preciso executar.

A sua obra é extensa, a última foi “Canciones para una música silente”, o meu livro com dedicatória:

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Um dos seus poemas (primeiro o original, depois a minha livre tradução), p. 218:

XVII

Mejor así: lejos, muy lejos,
pero con las almas
tan cerca.
Los dos inalcanzables
como las laminillas de oro
de las alas de los jilgueros que huyen
del ciprés,
como el monte negro
que no se deja ascender
bajo una tormenta de lobos,
como la estrella distante
que sin embargo es
como una lágrima nuestra.

Mejor así, como hablan
las almas
con las almas,
tan lejos,
tan cerca.

Traduzido não é tão bonito, porque a sonoridade muda. O som e o ritmo no poema são essenciais, mas vamos lá:

XVII

Melhor assim, muito longe,
mas com as almas
tão perto.
Os dois inalcançáveis
como as lâminas de ouro
das asas dos pintassilgos que fogem
do cipreste,
como o monte negro
que não se deixa ascender
baixo uma tempestade de lobos,
como a estrela distante
que no entanto é
como uma lágrima nossa.

Melhor assim, como falam
as almas,
com as almas,
tão longe,
tão perto.

O poeta ganhou 42 mil euros com esse prêmio.  Abaixo, na Feira do Livro de Madri 2014:

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Parabéns, poeta!

Resenha II: Dom Quixote de La Mancha


A resenha era pra ser do capítulo I ao X, mas a edição de uma revista na Espanha arrebatou totalmente o meu tempo. Fica aqui um pouco da bio de Cervantes e a resenha até o capítulo II.

Um pouco da biografia de Miguel de Cervantes. 

Nascido em na cidade de Alcalá de Henares, na Comunidade de Madri, Espanha, provavelmente no dia 29 de setembro de 1547 (dia de São Miguel, por isso seu nome) Miguel de Cervantes Saavedra, filho de Rodrigo Cervantes, um “zurujano sangrador”, que era uma mistura entre médico e barbeiro, e filho de Leonor de Cortinas. O casal teve sete filhos, três meninas e quatro meninos, Miguel foi o quarto. Ele nasceu em casa, onde hoje funciona seu museu. Morou pouco tempo em Alcalá de Henares, a família mudou- se para Valladolid quando Miguel tinha 4 anos. A família alugou uma casa na rua Rastro (hoje funciona um museu de Cervantes), mas durou pouco também, apenas dois anos. Voltaram para Alcalá de Henares outra vez. Depois disso Cervantes mudou para Córdoba, Sevilha, Toledo e Madri, durante sua vida adulta não parou muito tempo em nenhum lugar. Os estudiosos dizem que seu pai fugia dos cobradores. Cervantes voltou adulto para Valladolid e foi nessa cidade que escreveu o prólogo de “Dom Quixote”, leia aqui a resenha.

No ano passado, historiadores, arqueólogos e geofísicos afirmaram (ainda que não seja possível afirmar 100%, já que o DNA está deteriorado depois de 400 anos) que os restos mortais de Cervantes estão na igreja das Trinitárias, em Madri. Aqui na Espanha, o evento foi transmitido ao vivo na TV, um grande rebuliço, cientistas e pesquisadores dando seus pareceres favoráveis ao achado. Então, até que provem o contrário, Miguel de Cervantes é meu vizinho, jaz na cidade de Madri junto a sua esposa Catalina Salazar Vozmediano. Não tiveram filhos. Cervantes, aos 37 anos, era apaixonado por Ana Franca de Rojas (uma mulher casada), com quem teve sua única filha, Isabel de Saavedra. Cervantes não acabou com o seu grande amor, ele estava comprometido com Catalina e Ana morreu cedo. Nas próximas resenhas irei contando mais.

Continuando a leitura de “Dom Quixote”.

O livro é dividido em duas partes, a primeira com 52 capítulos. E para introduzir a segunda parte, acontecem de novo todos os protocolos do início da primeira, a burocracia, pagamento de taxas, erratas, aprovação e também um novo prólogo, como se fosse um segundo livro.

1ª parte: os capítulos são  introduzidos com um título. O primeiro:

I. Que trata da condição e exercício do famoso fidalgo Dom Quixote de La Mancha

O célebre início:

Em algum lugar de La Mancha, cujo nome não quero recordar, não faz muito tempo que vivia um fidalgo…(p.27)

A descrição de dom Quixote: 50 anos, magro, rosto fino, gosta de acordar cedo e de caçar. O sobrenome, “dizem”, Quijada ou Quesada.  Tudo indica que dom Quixote (antes Quijada)  tenha existido mesmo, é um personagem real, famoso antes desse livro, que foi sendo reconstruído à base de testemunhas, nem sempre concordantes entre si. Quijada era um grande leitor, tanto, que até esquecia de administrar a sua fazenda e de caçar. Vendeu terras para comprar coleções de livros de cavalaria, gostava do escritor Feliciano de Silva. Desses livros de Feliciano destacou essa frase (p. 29):

La razón de la sinrazón que a mi razón se hace, de tal manera mi corazón enflaquece, que con razón me quejo de vuestra fermosura. 

(Algo assim: “A razão da irracionalidade que faço a minha razão, dessa forma o meu coração  enfraquece, que com razão me queixo de sua beleza.”)

Quijada ia lendo essas coisas e perdendo o juízo. Ele tentava entendê- las, mas nem Aristoteles as entenderia, pensava. Por causa dessas leituras sentia também vontade de escrever. Há muitas referências bibliográficas, autores medievais de romances de cavalaria, caso você queira conhecer esse tipo de literatura fascinante e antiga, como Amadís de Gaula, Palmerín de Inglaterra, Belianís, por exemplo. E uma obra de referência, uma verdadeira enciclopédia sobre o assunto, é o livro de Ríquer, “Os trovadores”, depois mostro em outra ocasião.

Quijada varava as noites lendo, tantas sem dormir, que perdeu o juízo, já não diferenciava a realidade da ficção. E quis viver tudo o que lia nas histórias de cavalaria, decidiu sair pelo mundo. Assim surgiu “dom Quixote”, que saiu pelo mundo com a arma velha dos seus bisavós e com seu cavalo Rocinante, “um nome alto, sonoro e significativo” (p.32). Os fidalgos não recebiam o tratamento de “dom”, mas Quijana ao mudar seu status para “cavaleiro”, ganhou esse direito. Escolhidos o nome do cavalo e o seu próprio, “Quixote”, que é uma parte da armadura que protege a coxa, agora “só faltava encontrar a dama a quem apaixonar- se, porque o cavaleiro andante sem amores era árvore sem folhas e sem fruto e corpo sem alma” (p.33).

A moça escolhida foi uma lavradora chamada Aldonza Lorenzo, que Quixote achou melhor mudar para estar mais a sua altura, decidiu chamá- la”Dulcinea del Toboso”. Toboso fica atualmente na província de Toledo. “(…) nome, a seu parecer, músico e peregrino e significativo, como todos os demais que a ele e suas coisas havia posto”. (p.33)

Capítulo II: Que trata da primeira saída que da sua terra fez o engenhoso dom Quixote:

Os capítulos são curtos, cinco ou seis páginas mais ou menos. Nesse segundo, o narrador conta como o mais novo desbravador da velha Espanha saiu pela primeira vez do seu “pueblo” (povoado).

Uma curiosidade: saber português está ajudando na leitura de Cervantes sem a adaptação ao espanhol atual. Muitas notas explicam o que Cervantes quis dizer, colocam sinônimos, mas a maioria delas para os lusofalantes são desnecessárias (creio eu), pois nos são familiares.

Quixote, armado e vestido, sai montado em Rocinante de madrugada sem comunicar a ninguém sobre a aventura prestes a ser empreendida. Foi quando percebeu que estava cometendo um engano. Os cavaleiros não usavam arma de fogo, só “arma branca” (facas, espadas e afins) e que um digno cavaleiro como os dos romances que lia, usavam mesmo era um escudo e uma espada. . E dessa forma, temos o Dom Quixote vestido e paramentado, como no desenho abaixo:

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Dom Quixote, determinado, ingênuo e sonhador tinha a certeza que no futuro, um sábio escreveria as suas façanhas. O recém- nomeado cavaleiro antecipava os fatos: seu cavalo era famoso sem ser, Dulcinea, sua namorada, sem conhecê- la, o que o narrador classifica de “disparate” (p. 36), considera o recém- cavaleiro um desmiolado.

O narrador conta a história como se Quixote fosse real: “há autores que dizem que a primeira aventura que lhe aconteceu foi a de ‘Puerto Lápice’; outros dizem que foi a dos moinhos de vento.” (p.36)

A edição lida nesse post:

Cervantes, Miguel de. Don Quijote de La Mancha. Edición Conmemorativa VI centenario Cervantes. Alfaguara, 2015. Páginas: 1249

Crédito da imagem: clica.