PDF grátis: “Paisagens sígnicas: uma reflexão sobre as artes visuais contemporâneas”


Um bom livro que reflete sobre as artes contemporâneas sob várias perspectivas: histórica, semiótica, filosófica, que serve como introdução às artes. Possui uma boa bibliografia para ajudar na sua pesquisa. A publicação é da Universidade Federal da Bahia.

Então segue o PDF grátis de “Paisagens sígnicas: uma reflexão sobre as artes visuais contemporâneas”, da professora Maria Celeste de Almeida Wanner, clica aqui.

O meu em papel:

Boa leitura!

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Resenha: “Uma furtiva lágrima”, de Nélida Piñón


Este é um dos melhores livros escritos em português. “Uma furtiva lágrima”, de Nélida Piñón é comparável ao “Livro do desassossego”, de Fernando Pessoa.

Narrar é prova de amor. O amor cobra declarações, testemunho do que sente. Fala da desesperada medida humana. Como amar sem os vizinhos saberem? Sem tornar pública a paixão que alberga os corpos na penumbra do quarto? (“Prova de amor, p.71)

Nélida Piñón passou um ano em Lisboa e acabou de voltar ao Rio de Janeiro neste mês de março de 2019. Nélida publicou este livro em terras lusas. Uma obra emotiva e transparente. Ela tem outros livros com teor biográfico, mas este é o mais íntimo e revelador.

A antologia consta de 146 textos (se não contei mal), com temáticas bastante diversas. Nélida narra em primeira pessoa, “Falar em primeira pessoa requer audácia” (“Sou múltipla”, p.197). E generosidade, completo. Nélida contou- se nesse livro. E contou a história dos seus ancestrais. Acredito nisto também, que somos multidão, carregamos na memória dos nossos gens, todos os que nos antecederam, além de carregar todas as leituras que fizemos. Ela mesma nos convida a vê- la sem véus, “vejam- me como sou” (“Eternidade”, p.97).

Nélida fala da sua infância no Rio de Janeiro, sua terra natal citada muitas vezes, dos passeios que fazia com a tia Teresa pelo centro do Rio. Teatro, cinema, o lanche na Americana. O sabor de um Rio de Janeiro mágico (em “A primeira vida”, p. 63).

“Uma furtiva lágrima” é uma aula magna sobre literatura. Nélida conta- nos sobre a sua profissão. Leia “Meu ofício” (p.18).

“Não há poesia na Morte” (p.19).

Concordo, a morte é dor. Nélida, no final de 2015, recebeu uma sentença de morte, “de seis meses a um ano”. O oncologista a sentenciou antes mesmo dos exames definitivos. Nélida pensou em escrever um diário, um resumo do seu final. Dá para entender o motivo da força deste livro, a autora acreditava que estava nos seus últimos dias, despedia- se da vida. Ela recebeu consolo dos seus dois cachorrinhos, Suzy e o falecido Gravetinho, sua paixão, seu “amuleto” (p.71), citado várias vezes. Esta obra é dedicada a ele. Nélida “contava os dias”, os que acreditava últimos. E pouca gente soube. Graças a Deus, o médico estava errado.

Viajamos com Nélida. Viagens “reais” a países e cidades; e viagens até os mitos gregos. O rastro de todas as suas leituras nos deixa uma rica bibliografia a ser anotada. “A imaginação é razão de viver.” (p.22)

A família é um assunto importante neste livro. E foi justamente um texto sobre este tema que me fez desmanchar, literalmente, em lágrimas. Eu li, reli, li de novo, e se ler agora outra vez, será pranto. É lindo, verdadeiro, mexeu com as minhas mais profundas emoções. Esta beleza chama- se “Estatuto do amor” (p.25).

Nélida é descendente de espanhóis. Em “Minhas quimeras (p.80), a autora declara o seu amor ao Brasil e reivindica suas raízes “recentes”, como qualificou no seu discurso da Academia Brasileira de Letras. No entanto, aqui meio que arrependida, talvez, finca seu pé no Brasil, terra de seus plenos direitos:

(…) Brasil agora é meu naufrágio, minha salvação, meu amor. E as raízes que brotam de qualquer rincão do país aninham- se igualmente no meu peito. E falo dele agora sem sanções, adquiri todos os direitos. Sou tão arcaica quanto quem aqui esteve no albor desta terra. (“A civilização do mundo”, p.92)

Por certo: Clarice e Nélida eram amigas. Clarice é citada nesta obra também, ela gostava de se olhar no espelho, tal como Lygia Fagundes, outra amiga de Nélida. (p.78).

Nélida fala sobre muitos outros autores. Machado de Assis, autores estrangeiros, e de João Cabral de Melo Neto (que morou na Espanha), disse que o autor de “Morte e vida severina”(clica), era “peculiar, que odiava música” (p.58); conta sobre a confissão de Carlos Heitor Cony (clica), que jamais havia amado tanto alguém como a sua cachorra Mila e ela a ele (p.60).

“Uma furtiva lágrima” será publicado no Brasil em abril pela Record:

A mais recente obra de Nélida Piñón (2019) publicada em Portugal.

Nélida fala da Bíblia, que a “deleita”. Fala no seu sentido narrativo e como ela inspira o escritor moderno (p.86). Cita Eclesiastes e Machado, que dominava estes textos. Sobre religião, Nélida declara- se “às vezes panteísta” (p.88). Eu também, só que sempre. Acho que é a definição perfeita de como sinto a vida.

Nossa melhor escritora brasileira perdeu bastante visão. Isso eu já sabia por ela mesma, mas agora contou em “Olhos” (p.167). A autora teme não poder ler nem escrever, que são a sua vida. Deus queira que isto não chegue a acontecer.

Nélida Piñón em Madri (Palace Hotel), no dia 25/11/2017. (foto: Fernanda Sampaio)

Depois de ler esta obra, estou com um livro sobre mitos gregos na cabeceira para reavivar a memória; esta, que também é mito representado pela deusa Mnemósine. A memória prodigiosa de Nélida Piñón a caracteriza, embora ela tenha dito num texto que “a memória é frágil”. (p.126). Que seria dos humanos, sobretudo se são autores, sem a memória?

A arte narrativa, além de avaliar o que foi pretérito e hoje é presente, perpetua a fala da alma, restaura a crença no que há por trás da harmonia e da discórdia. (p.71)

A obra pode ser lida sem ordem, os textos são independentes. Eu me apaixonei por muitos, li e reli, porque me seduziram completamente. Fazia tempo que eu não sentia pena ao acabar um livro.

Não esqueça que esta obra será lançada no Brasil no próximo mês de abril. Anota na sua lista, este você precisa ter, garanto que você vai gostar.

Nesta obra há muitos outros tesouros, alguns eu quero guardar só para mim. Encontre os seus também. Boa leitura!


Bandido Social e a neofavela: descolonização e criminalidade em “Cidade de Deus”, por Ísis Moraes


Você sabe o porquê do Brasil ser tão violento? O colonizador saiu do Brasil, mas a mentalidade da colônia permanece. Leia o irretocável e esclarecedor texto de Ísis Moraes:


 

Bandido Social e a neofavela: descolonização e criminalidade em Cidade de Deus

As margens da sociedade sempre reservaram aos seus inquilinos uma ampla galeria de privações. Da miséria mais sofrível à mais abjeta ausência de cidadania, despossuídos de toda sorte viram-se, no largo curso da História da humanidade, animalizar e coisificar em favor das elites. Subjugados por um poder que esteve quase sempre além de uma compreensão por vezes tolhida pela fome, pela jornada exaustiva de trabalho, pela inacessibilidade ao sistema educacional, pela dor física e moral, pelo medo e outras formas de coerção, esses condenados à marginalidade viveram quase sempre em função de um único mediador: a violência. Da mais cordial à mais dolosa, é a voz dela que os embala desde o berço até as valas onde depositam seus corpos anônimos e espoliados.

Não é de se estranhar, então, que a linguagem que lhes soa mais familiar seja aquela que ajusta a palavra “defesa” à lâmina afiada que se insurge contra a garganta do opressor. Assim, se por um lado é a voz da violência que os conduz ferozmente à servidão silenciosa, é a sua força que os liberta e os põe de novo frente a frente com a humanidade perdida. Como assinala Jean-Paul Sartre, no prefácio do livro Os Condenados da Terra, de Frantz Fanon, “na falta de outras armas, a perseverança da faca será suficiente” para resgatar aquilo que nunca deveria ter sido usurpado:

Encontramos a nossa humanidade do lado de cá da morte e do desespero, ele a encontra do lado de lá dos suplícios e da morte. Fomos os semeadores de ventos; ele é a tempestade. Filho da violência, extrai dela a cada instante a sua humanidade; fomos homens à custa dele; ele se faz homem à nossa custa. Um outro homem, de melhor qualidade. (SARTRE, Jean-Paul. In: FANON, 1979, p.16)

Na visão de Sartre, o temor que os explorados experimentam diante dos inesgotáveis meios de repressão do dominador surge como o responsável direto pelo furor que os inspira a reclamar o que lhes é de direito. Encurralados entre as armas que apontam contra eles e os “desejos de carnificina” que lhes tomam, acabam por explodir veementemente contra o seu antagonista, devolvendo-lhe a sua própria crueldade, que se avoluma e os dilacera. A imagem que se vê, então, assemelha-se a de mendigos “lutando, em sua miséria, contra ricos poderosamente armados”, na tentativa desesperada de fazer a violência “cicatrizar as feridas que ela mesma fez”.

No vermelho do sangue opressor que se derrama – produto de duas violências que se chocam e se equiparam – nasce a consciência de que os pobres nem sempre precisam ser “desamparados” e “dóceis”. É através da arma que muitos descobrem que também podem ser terríveis. E que a “liberdade”, forjada a quente no seio do embate, é um privilégio que também lhes cabe. A partir disso, o dominador jamais deixa de ser o oponente. Mais que isso. Frantz Fanon o coloca na alça de mira da “coisa colonizada, oprimida, espoliada”: será sempre “o homem a abater”. Isto porque o explorado é um perseguido que acalenta constantemente o sonho de comandar a caçada. E não se trata de competir com o inimigo: quer o lugar dele. As disparidades entre os dois universos não permitem, em hipótese alguma, a coexistência. Em sendo assim, não hesitará um segundo em matá-lo, sobretudo porque desde muito cedo percebe claramente que o mundo estreito e semeado de interdições que o aflige não pode ser reformulado senão pela violência absoluta, afinal, como constata Fanon, “o colonialismo só larga a presa ao sentir a faca na goela”. É, pois, uma violência em estado bruto, que só se curva frente a uma violência ainda maior. Trata-se de tomar tudo aquilo que sempre foi negado pelo poder:

A cidade do colono é uma cidade sólida, (…) iluminada, asfaltada, onde os caixotes de lixo regurgitam de sobras desconhecidas, jamais vistas, nem mesmo sondadas. A cidade do colono é uma cidade saciada, indolente, cujo ventre está permanentemente repleto de boas coisas. (…) é uma cidade de brancos, de estrangeiros./ A cidade do colonizado (…) é um lugar mal afamado, povoado de homens mal afamados. (…) é uma cidade faminta, faminta de pão, de carne, de sapatos, de carvão, de luz. A cidade do colonizado é uma cidade acocorada, uma cidade ajoelhada, uma cidade acuada. (…) O olhar que o colonizado lança para a cidade do colono é um olhar de luxúria, um olhar de inveja. Sonhos de posse. Todas as modalidades de posse: sentar-se à mesa do colono, com a mulher deste, se possível. O colonizado é um invejoso. O colono sabe disto; surpreendendo-lhes o olhar, constata amargamente, mas sempre alerta: ‘Eles querem o nosso lugar’. É verdade, não há um colonizado que não sonhe pelo menos uma vez por dia em se instalar no lugar do colono. (FANON, 1979. pp. 28-29)

Mas só há um meio de se conseguir isso: assumir a identidade forjada pelo opressor. Esse título, porém, trará sempre consigo a marca da ambigüidade. Isto porque se por um lado o bandido é visto como nada mais que um criminoso comum pelos olhos da lei que protege os ricos, por outro será encarado como o herói de uma gente pobre e humilhada, que vê na sua insubordinação o seu próprio triunfo. Inimigo do senhor e do Estado, o bandoleiro torna-se, pois, o campeão e o vingador dos desprovidos. E uma vez figurando no imaginário coletivo popular como símbolo de protesto e rebelião social, este líder da “libertação” será amplamente admirado, ajudado e sustentado por sua gente, sobretudo porque a sua revolta – salvo nos casos de delação – não costuma atingir seus iguais, apenas os que se encontram do lado oposto da miséria:

O indivíduo que sucumbe numa peleja depois de ter abatido quatro ou cinco policiais, o que se suicida para não denunciar seus cúmplices, constituem para o povo guias, esquemas de ações, ‘heróis’. E é inútil, evidentemente, dizer que tal herói é um ladrão, um crápula ou um depravado. Se o ato pelo qual este homem é perseguido pelas autoridades colonialistas é (…) dirigido exclusivamente contra uma pessoa ou um bem colonial, (…) O processo de identificação é imediato. (FANON, 1979, p. 53)

Legítimos representantes de um mundo em dissolução, os bandidos sociais não são apenas homens fisicamente aptos que, a passar fome, preferem tomar pelas armas aquilo de que necessitam. Surgem como sintomas de uma grave crise, imbuídos da missão de desagravar as injustiças. Sonhando com um mundo de liberdade, igualdade e fraternidade, onde a submissão não mais seja imposta como norma da vida humana – o que dificilmente sairá do plano da idealização –, quase sempre ajudam a gente humilde que os acolhe e admira. Roubando dos ricos para dar aos pobres, muitos bandidos acabam por encarnar o mito do Robin Hood, o ladrão nobre. Mas, de acordo com Eric Hobsbawm, em sendo a realidade como é, poucos deles possuirão a abnegação, o idealismo ou a consciência social para exercer esse papel. Assim, tirar dos ricos é uma certeza; dar aos pobres, nem sempre. De toda sorte, representam o produto da contrapartida da passividade geral dos necessitados e, portanto, afirmam-se como seus “legítimos” defensores.

Fenômeno universal, nascido das entranhas de todas as épocas de pauperismo e cerceamento, o banditismo social não encontrou, no entanto, seu lugar na contemporaneidade. É, pois, no dizer de Eric Hobsbawm, um fenômeno do passado: “O mundo moderno o matou, substituindo-o por suas próprias formas de rebelião e de crime” (HOBSBAWM, 1975, p. 18), diz ele, como que a reiterar que, num tempo regido pela voracidade de um capitalismo que nega em absoluto toda uma legião de miseráveis, colocando-a sob suspeição e vigilância constantes e empurrando-a cada vez mais contra as suas margens, até o sufocamento completo, não há mais espaço para delito algum que conserve o menor resíduo de nobreza.

No encalacrado mundo das grandes metrópoles, despossuídos, subnutridos, e também negros e mestiços, são as vítimas preferenciais de uma violenta política de saneamento social que visa unicamente a sobrevivência da dita sociedade “sã”: endinheirada, poderosa e branca. Os que não se encaixam neste perfil devem permanecer isolados, acuados nos becos das neofavelas, que nada mais são do que depósitos de gente, uma gente enquadrada pelo sistema como portadora de uma “identidade social maléfica” (ZALUAR, 1987). Para esses suspeitos em potencial, cruzar a fronteira que leva à “cidade ideal” significa quase sempre ser eliminado: ou será preso, ou será morto.

Essa nova forma de “colonização” acende o estopim de uma violência ainda mais apta a passar por cima de todas as barreiras interiores. Mais uma vez é ela a mediadora do conflito. E é exatamente sobre esse novo estágio de rebelião – e por que não dizer descolonização? – que a narrativa de Paulo Lins se debruça. Intitulado Cidade de Deus, o romance desnuda os conflitos existentes no tecido social do país e aponta uma arma para a cara da sociedade brasileira. Encurralada, esta já não tem outra alternativa senão enfrentar os fantasmas que ela mesma criou. Afinal, o tempo da indiferença foi “passado” e o crime nos diz, altissonante, que não há mais conciliação possível. Decretando a morte do malandro, o livro indica que o que nos identifica hoje é tão somente uma rasura e esclarece que a explosão da violência não mais nos permite pensar o país pelos moldes da “cordialidade” e da “harmonia”. O tempo presente refuta idealizações desta ordem, insurgindo-se veementemente contra a pseudotranqüilidade de uma identidade nacional forjada ao longo da história.

Nascido da truculência colonialista, o Brasil revelado por Paulo Lins parece não mais aceitar refletir imagens distorcidas pela conveniência. O seu retrato de agora é nítido e estampa sorrisos caídos de bocas sem dentes, que tramam a morte nos conchavos de becos. Nesse sentido, Cidade de Deus ilumina os labirintos de um conjunto habitacional do Rio de Janeiro criado parra “conter” não seres humanos dotados, cada um deles, de identidades individuais, mas uma massa de miseráveis forjada pelo Estado e homogeneamente marcada pelo signo da “delinqüência”. O que se vê, então, e de dentro, é um “retrato hediondo” de um Brasil que, acossado pela pobreza, pela discriminação e pela indigência, mata, assalta, estupra, trafica e se vê obrigado a fugir constantemente de uma polícia igualmente violenta e quase sempre corrupta. Mais do que nunca, viver, em Cidade de Deus, é não morrer, mesmo para aqueles que não abraçam a carreira do crime. Sim, sempre haverá os “otários”, que trabalham honestamente mesmo sabendo que jamais irão a lugar algum com a “merreca” que lhes pagam. Já os “bichos-soltos” optarão sempre por cobrar na bala o que julgam que a sociedade lhes deve:

Lembrou-se (…) daquela safadeza do incêndio, quando aqueles homens chegaram com saco de estopa ensopado de querosene botando fogo nos barracos (…). Fora nesse dia que sua vovó rezadeira, a velha Benedita, morrera queimada. (…) ‘Se eu não fosse molequinho ainda’, pensava Inferninho, ‘eu tirava ela lá de dentro a tempo e, quem sabe, ela tava aqui comigo hoje, quem sabe eu era otário de marmita e o caralho, mas ela não tá, morou? Tô aí pra matar e pra morrer.’ Um dia após o incêndio, Inferninho foi levado para a casa da patroa de sua tia. (…) Ficava entre o tanque e a pia o tempo todo e foi dali que viu, pela porta entreaberta, o homem do televisor dizer que o incêndio fora acidental. Sentiu vontade de matar toda aquela gente branca, que tinha telefone, carro, geladeira, comia boa comida, não morava em barraco sem água e sem privada. (…) Pensou em levar tudo da brancalhada, até o televisor mentiroso e o liquidificador colorido. (CD, p.23)

Como se pode notar, o “favelado” também lança sobre a cidade dos ricos aquele mesmo olhar invejoso que deseja arrancar dela tudo o que ele nunca teve, e sobre os seus donos aquele mesmo ódio que ambiciona exterminá-lo. Se o bandido social não mais existe nas modernas sociedades, os resquícios de seu levante ainda permeiam o cotidiano daqueles que se revoltam frente às injustiças. A sua carabina pode ter mudado de mãos, mas o alvo ainda é o mesmo. Desse modo, a bala freqüentemente vem a substituir a palavra que o “bicho-solto” é obrigado a engolir a seco: Falha a fala. Fala a bala. (CD, p. 21)

Mas o caminho trilhado por essa neodescolonização é ainda mais sangrento, sobretudo porque tem de lidar com um esquema muito bem montado de alienação, que, por vezes, desvia o foco da violência do explorado, fazendo-a recair sobre ele próprio. Trata-se de um jogo, que leva o oprimido a incidir numa sangrenta guerra contra os seus. Retomando Fanon, exposto a tentativas diárias de morte, à fome, à expulsão do quarto não pago, à falta de oportunidade de trabalho digno, à bala perdida que cruza os becos em busca de um corpo, o espoliado chega a ver seu semelhante como um inimigo implacável. E nessas circunstâncias o assassinato é só mais um passo. O próximo, talvez. Além disso, no mundo do crime urbano, diferentemente do que ocorre no universo rural do banditismo social, proteger os inocentes já não é mais um requisito moral. Se os “bichos-soltos” o fazem, é puramente por interesse. E num ambiente em que “é mais seguro atirar primeiro e fazer perguntas depois”, este costuma ser altamente volúvel. Por isso, entre a arma e a sina que ela terá de cumprir, o inocente é quase sempre um obstáculo a ser derrubado em favor da demanda individual.

Em Cidade de Deus, Paulo Lins evidencia o horror de um campo de batalha onde não apenas traficantes se entrematam e espalham o terror entre os seus irmãos “favelados”, transformando-os em vítimas e cúmplices do seu ódio, mas onde homens simples também se revelam capazes de assassinar cruelmente, e por motivos muitas vezes tomados como banais. Contudo, alerta Sartre, que ninguém se iluda: “não se creia que um sangue demasiado ardente ou desventuras da infância lhe tenham dado para a violência não sei que gosto singular: ele se faz o intérprete da situação, nada mais”. E não se trata de defender o crime, mas apenas de não submetê-lo às leis sumárias da conivente justiça das elites. É preciso entender que, em um contexto miserável, ser bandido quase nunca é uma opção. É, antes, uma estratégia de sobrevivência. Por isso, em Cidade de Deus, não há “bandidos” nem “heróis”, há homens, mulheres e crianças lutando para resgatar a humanidade usurpada.

De qualquer modo, é este cenário caótico, movimentado pela antiética do lucro que rege as sociedades capitalistas, que vai minando vorazmente os poucos resíduos do banditismo nobre. Se num primeiro momento Inferninho reparte o butim igualitariamente entre o bando, posteriormente Zé Miúdo não hesitará em matar um comparsa para ficar com a sua parte do roubo. Se em dado momento um “bicho-solto” pede aos seus comandados para só matar para não morrer, mais adiante assassinato será a palavra de ordem para ganhar prestígio. Se um marginal-malandro como Pardalzinho pede pela vida de inocentes e pela não violação das mulheres em certa fase do romance, depois da sua morte Zé Miúdo não pensará duas vezes em matar o avô e estuprar a noiva de Zé Bonito, um “otário” que, frente à injustiça cometida, abraçará a carreira do crime ressuscitando e encarnando, embora não por muito tempo, um dos tipos mais significativos que se inserem na linhagem dos bandidos sociais: o vingador.

Para se transformar no pesadelo de um dos mais cruéis criminosos de Cidade de Deus, Zé Bonito – até então trabalhador honesto, homem pacato, de boa família e conduta – se alia a Sandro Cenoura, traficante da região que disputa com Miúdo a liderança das bocas-de-fumo. Revoltado, irá firmar seu direito de ser respeitado pela luta declarada e se insurgirá para constituir a exceção numa comunidade em que os senhores do tráfico substituem o Estado.

Bonito manuseou a pistola 45 com a agilidade que adquirira no tempo em que servira na brigada de pára-quedistas do exército. (…)/ O volume da arma alertou os amigos:/ – Vai aonde?/ – Vou matar aquele desgraçado!/ – Meu irmão, tu não pode ir lá sozinho não, rapá! O cara é matador! Esquece isso! (…) Tu é um cara pintoso, tem tudo pra se dar bem, não entra numa de bandidagem, não…/ Bonito não dava ouvidos. Percorreu toda a rua do Meio, (…) entrou por duas vielas a passos largos, na terceira diminuiu as passadas, tirou a arma da cintura, engatilhou-a e entrou na viela (…) onde Miúdo costumava ficar. Avistou seu inimigo e mais três quadrilheiros, apontou a arma e atirou seguidamente./ Miúdo riu fino, estridente e rápido e devolveu os tiros (…), os outros dois também atiraram e acompanharam o estuprador, o terceiro tentou trocar tiros com o vingador e foi atingido fatalmente na testa./ Bonito aproximou-se do cadáver (…) colocou o pé esquerdo em cima da cabeça, o direito em cima da barriga e gritou:/ – Esse é o primeiro! Quem quiser seguir esse desgraçado vai ter o mesmo fim desse aqui! (CD, pp. 313-315)

Como todo bandido social, o destemido rival do traficante Zé Miúdo (que também não deve ser condenado nem olhado de esguelha pelo leitor, já que é tão “vítima” da situação quanto seu adversário) ganha o apoio inequívoco de sua comunidade: ferido em combate, será acolhido, tratado e amparado pelo povo do lugar, que o respeita e reverencia não só pela bravura, mas também por se configurar como um restaurador da moralidade que o tráfico apagou. Contudo, esse mesmo justiceiro não demorará a perceber que “Onde os homens se tornam bandidos, a crueldade gera crueldade, o sangue exige sangue”. (HOBSBAWM, 1975, p. 56)

Isto porque, ao pôr em curso o programa de sua “descolonização”, Zé Bonito desencadeou uma verdadeira guerra em Cidade de Deus. Só não imaginava que o desagravo de sua injustiça solaparia os últimos sinais de um banditismo que inicialmente mostrara-se nobre, mas que logo se perderia nas trincheiras do crime. Por várias vezes, Bonito tentará honrar seus princípios, que em vários aspectos se igualam aos que regem a carreira do vingador nobre. Nunca matar, a não ser em legítima defesa ou por vingança justa, será o principal deles. E também o primeiro a tropeçar nas valas abertas pelo tráfico.

A partir daí, o Zé Bonito que, num primeiro instante, estranha as gírias dos marginais, que não usa drogas, que se recusa a concordar com a arregimentação de crianças para o tráfico por acreditar que o lugar delas é na escola, que proíbe a violação de mulheres e que não se esconde da polícia por não se achar um delinqüente se verá obrigado a liberar os estupros e assaltos na área do inimigo e a permitir que crianças tenham seus crânios estourados pelos fuzis dos traficantes que se arriscam a enfrentar. E como se isso não bastasse, consumirá desesperadamente a cocaína que tanto renegou. Entretanto, este bandido social pós-moderno, assim como seus “antepassados”, jamais deixará de lamentar o destino que o levou a compactuar com a instauração daquela “febre de morte” entre os homens.

Sentado num banco, as lágrimas se destroçavam no chão de cimento cru. (…) Era um bandido, um matador, um formador de quadrilha, um desencaminhador de menores. E não fora para isso que aprendera a orar quando criança, não fora para isso que sempre tinha sido o melhor aluno na escola, não fora para isso que se resguardara das amizades de rua. O curso superior em educação física havia ido para a casa do caralho, assim como a lua-de-mel com sua amada, depois de testemunhar o pênis de Miúdo na vagina dela feito retroescavadeira, o corpo do avô ensangüentado, a casa cheia de buracos de balas, a mãe de Filé com Fritas recolhendo os pedaços da cabeça destroçada do filho no asfalto quente. As lágrimas avolumaram-se. (…) A noite foi em claro. (CD, pp. 346-347)

Na reflexão de Bonito, a constatação de que um bandido, mesmo determinado a não dobrar a cerviz, não consegue fugir tão facilmente à lógica da vida numa sociedade minada pela exploração se desnuda violentamente. Depois disso, tendo cumprido, ainda que atropelado pelos percalços do crime, quase toda a sina do vingador clássico, só lhe restava o único fim destinado aos emissários do banditismo social: a morte por traição; já que, a exemplo do que afirma Hobsbawm, nenhum membro decente da comunidade auxiliaria as autoridades – sejam as do tráfico, sejam as do Estado – contra bandoleiros de sua estirpe.

O viciado olhou para trás, para os lados; não vendo ninguém, disparou três vezes nas costas de Bonito, que ainda se virou, apontou o revolver na tentativa de matá-lo. O viciado deu-lhe mais um tiro. Zé Bonito caiu. (CD, p. 375)

Mas a morte de Zé Bonito não legará aos moradores de Cidade de Deus um exemplo de coragem e honra a ser seguido. O tempo do banditismo social que inspira a admiração das massas passou. As páginas nada conciliatórias do romance de Paulo Lins não farão sucessores para este vingador. Elas vieram pelo crime. Para dizer que do ventre dele só nascem “anjos”, aqueles que cada vez mais cedo virão para cobrar da sociedade sua impagável conta.

** Este artigo está publicado em: BOTELHO, Marcos (org). Seis Passeios por Cidade de Deus. Feira de Santana: UEFS, 2007.


Ísis Moraes Ramos é jornalista e editora do Jornal Tribuna Feirense. isis.m.ramos@bol.com.br

Resenha: “Ciranda de pedra”, de Lygia Fagundes Telles


Tenho uma leve lembrança da novela “Ciranda de Pedra”, que passou na minha infância (1981), mas nada significativo em relação ao enredo, só lembro do rosto de Lucélia Santos; portanto, essa obra era como uma desconhecida para mim. Sei que a novela da Globo foi um tremendo sucesso, foi reprisada e ganhou um remake em 2008. De novela eu não entendo, não as vejo desde 2004, época da minha expatriação “definitiva”. Quem entende do assunto é a minha amiga Alana Freitas, vejam lá o “Entretelas”, blog especializadíssimo nessa arte de massas. Em tempo: a adaptação de “Ciranda de Pedra” (a de 2008) também foi vista em Portugal.

A história começa com uma menina revoltada, triste, deprimida, que chora junto à Luciana, a empregada mulata, que cuida de toda a família. Esta obra foi escrita em 1954 e nota- se a opressão e preconceito que os negros sofriam. A cor estava associada à feiura (referência dos cabelos) e à tristeza. Os anjos só podiam ser brancos:

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Virgínia utiliza a cor de Luciana para atacá- la e menosprezá- la em momentos de tensão. Luciana é um personagem forte, porque faz as revelações mais importantes da narrativa, que é bem melodramática na primeira parte, por isto deve ter virado novela na TV, tem elementos de folhetim. Mas não foi ameno, levei alguns sustos, é uma narrativa abrupta dividida em duas partes. Já na primeira desenvolve- se todo o dramalhão. Não posso negar que não haja verossimilhança com a vida. Aliás, a vida é muito pior.

Os pais estão separados e a mãe, Laura, sofre demência, algo parecido com Alzheimer algumas vezes, e também sofre alucinações e desconecta do mundo “real”. Ela não lembra que Virgínia é sua filha, mas tem alguns momentos de lucidez.

A narrativa está entremeada em uma teia de fragilidades, rupturas e analogias entre pessoas, pássaros e animais invertebrados como beija- flores, formigas, aranhas e borboletas. Laura vê besouros: é o sinal de que Virgínia perdeu a mãe mais uma vez. A obra é enigmática, há uma aura de mistério e dor.

Vamos descobrindo mais sobre quem é Laura nos seus momentos de lucidez; no entanto, não dá para saber se os fatos são reais ou fruto de sua loucura. Ela conta que sua mãe era atriz e que seus pais morreram num incêndio. Daniel é o seu marido. Ela abandonou o ex, Natércio, pai de Virgínia, por causa dele. Laura e Natércio têm outras duas filhas, Bruna e Otávia, que moram com o pai.

A impressão é que Daniel pode ter algo de responsabilidade pela doença de Laura. Ele proíbe a entrada de Virgínia no quarto da mãe, não dá para saber se por proteção ou algo estranho. Virgínia o vê participando da loucura da mãe. Depois Daniel a envia para morar com o pai. Mais tarde descobrimos o motivo disso tudo, não vou contar, porque seria spoiler grande.

Na casa de Natércio quem cuida das meninas é Frau Herta, antipática e até cruel com Virgínia, a repreende a todo momento e exalta a qualidade de suas irmãs. Natércio é rico e mora num casarão.

Virgínia tenta negar a doença da mãe e afirma em reiterada vezes que melhorou, mesmo sabendo que não é verdade, principalmente por medo. Ela teme perder a mãe. Daniel explica o seu conceito de morte à Virgínia:

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Daniel lê um livro de Charles Manson, “Sparkenbroken”, publicado em 1936, que diz o seguinte (adaptado pelo editor): “A noite passada voei para a árvore da morte;/ De súbito uma brisa fez- me pairar; / E eu, mísero boneco de penas arremessado,/ Envolvido no meu elemento, voltei a ser pássaro.”

Para Daniel há vida após a morte e esta é a libertação. Virgínia gosta do “tio Daniel”, mas tem que fingir que não, afinal, foi por causa dele que os seus pais se separaram. O médico é muito mais carinhoso que o seu pai. Elas, Otávia e Bruna, desprezavam a pequena, que não é parecida em nada com as duas, nem em gestos, comportamento ou aparência. Claro que já dá pra desconfiar que Virgínia é filha de Daniel e não de Natércio e esse foi o motivo da separação do casal, a infidelidade de Laura. Mas, se isso é certo, por que ainda não contaram à Virgínia a verdade?

A narrativa na primeira parte da obra intercala- se em três ambientes: a casa do pai, a casa da mãe e a imaginação de Virgínia. Na segunda parte, Virgínia foi morar num colégio interno de freiras.

Há outros dois personagens, Afonso e Conrado, irmãos e vizinhos da casa de Natércio. Virgínia tinha uma queda por Conrado, mas o moço não prestava atenção nela e sim na irmã Otávia. O tempo passou e  Afonso casou- se com Bruna, tiveram uma filha. Frau Herta, doente, já não é mais a governanta e sim a portuguesa Inocência. Conrado mudou- se depois da morte da mãe para uma chácara e Natércio aposentou- se. E sobre Daniel e Laura, essa parte não vou contar. Também não vou contar o que aconteceu com Virgínia, você vai ter que ler o livro…só vou contar que ela, já crescida, sai do colégio interno e volta para a casa de Natércio.

É uma obra bem escrita e que me provocou sensações de choque e angústia por vários motivos.

Creio que na novela há mais dicotomia de personagens vilões e mocinhos, vítimas e algozes. No romance não, são só humanos…

Qual caminho escolher? Essas encruzilhadas que a vida nos impõe e suas inexoráveis consequências. É uma história cheia de bifurcações e despedidas, e essas, nunca são alegres.

Esta é a edição portuguesa lida, ainda sem as correções do acordo ortográfico:

29571360_965128723642688_6404595740615182933_n       Telles, Lygia Fagundes. Ciranda de Pedra. Presença, Lisboa, 2008. 204 páginas

Se quiser comprar a mesma edição que a minha, clica aqui.

Lista de obras de leitura obrigatória FUVEST 2018


Lista de obras de leitura obrigatória  FUVEST 2018

Resenha: “O seminarista”, de Bernardo Guimarães #RevisitandoOsClássicos #1


“Crescent illae, et vos crescentis, amores”
(“As árvores hão de crescer, e com elas haveis de crescer vós, meus amores” – Virgílio citado na p. 88)

Aqui começa uma série: Revisitando os Clássicos Brasileiros. O que significa?

São livros que eu já li há muito tempo e tenho vontade de reler. O tempo, a experiência leitora, transformam e mudam as nossas percepções. Aconteceu dessa forma com “O seminarista”, de Bernardo Guimarães: (re)li um novo livro. E essa constatação óbvia, mas interessante, me fez criar esse post, o primeiro de uma série, espero.

Para quem nunca leu, ou leu poucos clássicos da literatura brasileira, vamos começar?!

A primeira obra escolhida: “O Seminarista” (1872), de Bernardo Guimarães.

Brevíssima Biografia do Autor
O mineiro Bernardo Guimarães nasceu e morreu em Ouro Preto (1825- 1884). Juiz e escritor de prosa e verso, foi membro da Academia Brasileira de Letras. Inclusive você pode ler a biografia completa do autor no site da ABL. Casou- se com Maria Teresa e teve oito filhos. Era tio do poeta Alphonsus de Guimarães, que foi noivo de sua filha Constança, falecida aos dezessete anos por causa de uma tuberculose.


O livro é uma narração, e pela extensão, é uma novela. As novelas são mais curtas que os romances, esses, dentro do cânone literário, devem ter mais de 300 páginas; portanto, vou chamar pelo nome correto, embora no Brasil, o chamem de “romance”, normalmente. Dentro da narração, novela e romance são gêneros literários diferentes. E em outros idiomas/países, como na Espanha, não os diferenciam só pela extensão, mas também pelo teor: nesse país, o romance ganha ares fantásticos. O termo mais comum  é “novela”, ao contrário do Brasil.

Essa novela está dividida em vinte e quatro capítulos.

O enredo

O enredo é a história em si, do que trata o livro, a trama, a ação. Em “O Seminarista”, a história não é original, mas funciona: o amor impossível. Um seminarista apaixonado pela amiga de infância, um amor inesperado, já que Margarida era como sua irmã. E isso traz um monte de complicações para a vida de ambos.


Os pais de Eugênio acham que o filho tem vocação para a vida eclesiástica, porque brincava de ser padre na infância. Na época, a vida religiosa era algo que dava muito status e respeito.

Então, lá se foi Eugênio para o Seminário de Congonhas do Campo, aos 13 anos, com o coração partido. Uma mudança radical na sua vida.

Eugênio,  entre tarefa e tarefa, pensava em Margarida. Uma espécie de melancolia o acompanhava o tempo todo. Ele não conseguia concentrar- se nos estudos. Custou- se acostumar- se e assim passaram- se doze anos. O menino cresceu dentro do seminário. E Margarida continuou no seu coração.

Com dezesseis anos, começou a ter problemas, pois o padre regente descobriu alguns poemas de amor de Eugênio destinados a uma tal “Margarida”. O padre, que era também seu professor, gostou da veia poética do rapaz e levou os escritos ao diretor, que ficou indignado e assombrado. Chamou Eugênio e foi bastante duro com ele. A partir disso, toda vez que Eugênio sonhava com Margarida, sentia pânico, rezava, fazia jejum e pagava penitência, como se o amor fosse um castigo, uma doença. Doente ficou o menino, emagreceu muito, ficou com uma aparência “às bordas da sepultura”. (p.66)

Essa parte do livro é triste e forte…choca. Tudo com a instrução e aval do padre. O fanatismo religioso é um mal terrível (na realidade também!)!

Depois de quatro anos sem ver a sua família, nem Margarida, voltou para casa. Imagina o reencontro dos dois….a descrição do autor desse momento é mágico! Um turbilhão de emoções em questão de segundos. Quem já se apaixonou sabe como é difícil explicar. A literatura explicando sentimentos universais desde sempre…

Estava como que espantado, com os olhos fitos em Margarida, querendo falar, e não achando nada que dizer. As grandes emoções lançam uma nuvem no espírito e paralisam a língua. (p.82)

Como esquecer um grande amor? Já que quanto mais se tenta esquecer, mais se lembra? Não tente, porque vai perder a batalha, mantenha- se distraído, só isso…

As puras e santas afeições da alma, longe de a desviarem do caminho do céu, são asas com que mais depressa se eleva ao trono de Deus. (p.38)

Espaço e Tempo

A história começa na “província” de Minas Gerais (terra do autor). Na época em que foi escrita a novela, o Brasil ainda era uma colônia de Portugal,  um país monárquico. Veja a descrição do lugar, já no primeiro parágrafo, junto com o tempo (“há quarenta anos”).

A uma légua, pouco mais ou menos, da antiga vila de Tamanduá, na província de Minas Gerais, e a pouca distância da estrada que vai para a vizinha vila da Formiga, via- se, há de haver quarenta anos, uma pequena e pobre casa, mas alva, risonha e nova. Uma porta e duas janelinhas formavam toda a sua frente. (p.2)

A descrição da casa de Margarida e sua mãe Umbelinda é perfeita, ela parece sorrir, toda feliz e faceira! Bernardo Guimarães era um excelente narrador, mestre na descrição. A construção das paisagens e pessoas é muito visual, retratos perfeitos. É uma delícia ler e entrar nos cenários criados pelo autor,  são bem fidedignos. Esse é um dos elementos que transformam a literatura em uma grande forma de expressão artísticas, social, antropológica…

A magia das palavras. A prosa de Bernardo também é poética.

Genial essa metáfora (analogia), veja: “Eram quase ave- marias.” (p. 6). Gostei!

Personagens

Eugênio é o protagonista, personagem principal, o futuro seminarista, menino no início da história (12- 13 anos). Filho do capitão Francisco Antunes. Tem dois irmãos mais velhos que não aparecem na história, casaram e foram embora. Foi criado junto com Margarida, que é como sua irmã.

O rapaz era alvo, de cabelos castanhos, de olhar meigo e plácido e em sua fisionomia como em todo o seu ser transluziam indícios de uma índole pacata, doce e branda. (p.3)

Na página 73

Margarida, filha de Umbelina, órfã de pai, mora numa casinha emprestada nas terras do padrinho, Capitão Antunes, pai de Eugênio.

A menina era morena; de olhos grandes, negros e cheios de vivacidade; de olhos grandes, negros e cheios de vivacidade, de corpo esbelto e flexível como o pendão da imbaúba. (p.3)

Na página 73, há nova descrição de Margarida já moça.

Umbelina,  mãe de Margarida, mora nas terras do Capitão Antunes junto com a filha Margarida e uma escrava. E viúva e comadre dos donos da fazenda.

Era uma matrona gorda e corada, de rosto sempre afável e prazenteiro (…) (p.11)

Capitão Francisco Antunes, pai de Eugênio e padrinho de Margarida, fazendeiro honesto, tinha poucos escravos e muitos agregados na fazenda, dos quais não cobrava nada.

Senhora Antunes, esposa de Francisco Antunes, mãe de Eugênio e madrinha de Margarida. Não é tão legal, trata mal a escrava Josefa. É bastante supersticiosa. Apegou- se à Margarida desde bebê, ensinou-lhe a costurar.

Luciano Gaspar de Oliveira Faria e Andrade,  invejoso do tamanho do seu nome. Atrapalhou a vida dos apaixonados. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. É só a arte imitando a vida.

A linguagem

Uma coisa que achei inverossímil (longe da realidade) foram os diálogos. O povo da roça, nem mesmo os patrões, podiam falar com a correção gramatical exposta pelo autor. Havia outras línguas de contato, muitos imigrantes, indígenas, escravos, uma grande maioria de analfabetos, um português tão correto me pareceu impossível.

A obra carece de uma mais linguagem coloquial, o que concordaria mais com a história. Curioso, porque costuma- se dizer o contrário desse escritor, que o tom de suas obras é coloquial. Vai ver “O Seminarista” é a exceção.

O narrador fala como um português. Se a gente der por certo que era a forma usada em 1832, época que o autor retrata, nota- se como em 185 anos, o português do Brasil transformou- se e distanciou- se muito do idioma luso.

Curiosidades

Bernardo Guimarães cita Aleijadinho (1738- 1814), de uma forma nada agradável, uma crítica destrutiva e maldosa, na boca do seu narrador (p. 30) :

É sabido que estas estátuas são obra de um escultor maneta ou aleijado da mão direita, o qual, para trabalhar, era mister que lhe atassem ao punho os instrumentos.

Por isso sem dúvida a execução artística está muito longe da perfeição. Não é preciso ser profissional para reconhecer nelas a incorreção do desenho, a pouca harmonia e falta de proporção de certas formas. Cabeças mal contornadas, proporções mal guardadas, corpos por demais espessos e curtos e outros muitos defeitos capitais e de detalhes estão revelando que esses profetas são filhos de um cinzel tosco e ignorante…

Eugênio vai justamente para o seminário em Congonhas, no Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, onde estão as obras sacras de Aleijadinho, consideradas as suas obras- primas.

Recalcado o Guimarães, não?! O escritor e o escultor nasceram na mesma cidade de Ouro Preto.

E veja também como é feio chamar alguém de “Aleijadinho”. Uma das funções da literatura é essa também, de nos trazer o passado para melhorar no futuro. Hoje em dia é inaceitável chamar alguém por um problema físico. O artista perdeu a sua identidade, quem sabe o nome de Aleijadinho? Eu sei agora, porque fui pesquisar: Antônio Francisco Lisboa (valeu Wiki!).

Um salve para o Antônio, que mesmo com sua deficiência física, provavelmente escravo ou filho de escravos (sabe- se muito pouco sobre a sua biografia e mesmo assim, ela é incerta), no interior do Brasil colonial, deixou uma obra reconhecida mundialmente. Deixo aqui o compromisso: estudar a obra de Antônio.

Depois de ler o trecho sobre o Aleijadinho (me custa escrever, já não é hora de chamá- lo pelo nome, acho um desrespeito!), já tomei uma bronca de Bernardo, que passei a caçar tudo de negativo na obra dele, sou dessas. Na adolescência minhas leituras eram mais ingênuas, eu deixava passar muitos detalhes. Mas a sorte dele, é que realmente escreve bem.

Além disso, a gente sabe que a voz da narrativa não é o autor, mas foi ele que colocou esse pensamento na boca do narrador e a gente dá aquela gongada de todas as formas. Abaixo, trecho:

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O autor mostrou usos e costumes da roça, um tipo de dança chamada “quatragem”, os mutirões e as festas.

E voltando à história de amor…Eugênio foi proibido pela mãe de ir à casa de Margarida quando este lhe confessou a sua falta de vocação para o sacerdócio. Isso não impediu que os apaixonados trocassem promessas e juras, fortaleceram- se mais ainda.

A linda Margarida é muito cortejada, apareceu um terceiro para atrapalhar, Luciano, invejoso e maldoso, notou o que havia entre Eugênio e Margarida. Tratou de atrapalhar. Entre os pais de Eugênio e o tal Luciano, o desejo do casalzinho de ficar junto foi ficando cada vez mais difícil. Eugênio adoeceu. Eugênio prometeu à Margarida que jamais seria padre, jurou que voltaria.

Os pais podem destruir a vida dos filhos se não aceitarem como são . Os pais têm uma tendência a querer moldar os filhos baixo seus próprios desejos, moral, necessidades e costumes, como se fossem um ser único. Pais e filhos, muitas vezes, estão nas antípodas. Aconteceu com Eugênio e acontece na vida real. A ditadura maternal e paternal pode matar de muitas formas. Margarida e Umbelina foram expulsas da fazenda. Umbelina faleceu.

Grande é o poder do tempo. O próprio braço da dor, quando não consegue esmagar a sua vítima, por fim de contas esmorece fatigado, e o seu estilete, por mais buído que seja, acaba de embotar- se” (p.161)

Eugênio passou por um vale de sombras, de terror, para poder seguir em frente. Há várias alegorias religiosas ilustrando esse deserto que ele teve que cruzar para tentar destruir um sentimento muito forte, que não pode existir, a sua via crucis, e para piorar, chegou a notícia: Margarida casou- se. (SPOILER: mentira, nunca casou- se e também estava doente, mas eugênio nunca soube).

Anos mais tarde, Eugênio volta, já padre, para a Vila do Tamanduá. Via a casa de Umbelina e Margarida em ruínas. As suas pernas tremeram. Sentimentos como esses nunca morrem. Alguém chamou o padre para dar uma extrema- unção. Fácil adivinhar, não?

São as almas sujas da Terra, as que destruíram esse amor, por vaidade, inveja, maldade pura; são as que mentem, enganam, manipulam para possuir o que jamais terão. Assim como na vida. Nem com tanta gente contra, família e religião, nada conseguiu impedir o encontro- ainda que breve.

Gostei muito do final. Eugênio, de certa forma, conseguiu cumprir a sua promessa, além de dar, mesmo sem querer, uma boa lição nos energúmenos dos seus pais.


“O Seminarista” é uma obra muito intensa, bem escrita, emocionante, que desperta vários sentimentos: de ternura, beleza, raiva, pena, indignação. E a obra não te custará absolutamente nada. Ele está no banco de clássicos gratuitos do governo do Brasil, o Domínio Público. Não foi o deles que eu li, pois eu já tinha um no tablet, que baixei por 0,99 cêntimos (de euro), foi esse:

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Guimarães, Bernardo. O seminarista. PDF (no iBook, sem editora). Páginas: 237- Preço: 0,99€

Disponível gratuitamente no site Domínio Público, do governo do Brasil.

 

 

A última oração


Já que um músico ganhou o Nobel 2016, vamos começar a apostar pelos nossos: Caetano, Gil, Chico, Djavan, Milton, todos têm muitas possibilidades. E quem sabe, até A Banda Mais Bonita da Cidade

Oração

Meu amor, essa é a última oração
Pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na despensa

Cabe o meu amor
Cabem três vidas inteiras
Cabe uma penteadeira
Cabe nós dois

Cabe até o meu amor, essa é a última oração
Pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na despensa

Cabe o meu amor
Cabem três vidas inteiras
Cabe uma penteadeira
Cabe nós dois

Cabe até o meu amor, essa é a última oração
Pra salvar seu coração
Coração não é tão simples quanto pensa
Nele cabe o que não cabe na despensa

Cabe o meu amor
Cabem três vidas inteiras
Cabe uma penteadeira
Cabe essa oração

A banda mais bonita da cidade (vídeo)

Puro pretexto pra postar algo desta banda que adoro:  🙂

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