PDF grátis: “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector


Nesta obra, “Felicidade clandestina”, de Clarice Lispector, que você pode baixar gratuitamente aqui, há um dos melhores contos da literatura brasileira: “Felicidade clandestina”, que deu nome ao livro.

Clarice Lispector

Que felicidade ter um livro querido e desejado nas mãos, não é? A menina do conto, talvez a voz da menina Clarice, sentiu essa “felicidade clandestina” ao conseguir o livro de sua “algoz”. Não deixe de ler!

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Resenha: “A cidade Sitiada”, de Clarice Lispector


Perder- se também é caminho (p.138)

Na minha conversa diária com os escritores através de suas vivas literaturas, é onde encontro respostas para as minhas diversas inquietações. Há mais diálogo produtivo e interessante com os mortos, do que com os vivos.

Estado de sítio, segundo a Constituição do Brasil:

Art. 137 – O Presidente da República pode, ouvidos o Conselho da República e o Conselho de Defesa Nacional, solicitar ao Congresso Nacional autorização para decretar o estado de sítio nos casos de:

I – comoção grave de repercussão nacional ou ocorrência de fatos que comprovem a ineficácia de medida tomada durante o estado de defesa;

II – declaração de estado de guerra ou resposta à agressão armada estrangeira.

Parágrafo único. O Presidente da República, ao solicitar autorização para decretar o estado de sítio ou sua prorrogação, relatará os motivos determinantes do pedido, devendo o Congresso Nacional decidir por maioria absoluta.


O terceiro romance de Clarice Lispector, “A cidade sitiada” (1949),  “é considerado por muitos o melhor romance de Clarice”, segundo o editor. É uma obra fascinante!

Este é bem diferente dos romances “A paixão segundo G.H.” ou “Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres” (meus preferidos), que são uma imersão profunda na alma dos personagens, são romances psicológicos, um espaço atemporal, muito característicos da autora. Em “A cidade sitiada”,  a temática é político- social vista pelo lado do proletariado, primeiro, e depois visto pelo lado emergente.

Na minha procura por dados históricos deste período, constatei que existe muita literatura escrita pelos filhotes da ditadura, muita obra maquiada, desconfie de todas, prestem atenção em quem as escreve.

A autora usou uma técnica interessante que, a priori, pensei que iria aborrecer esta leitora: a descrição. É como se ela tivesse uma fotografia ou um quadro na sua frente.

A  voz narrativa não julga muito os personagens, é objetiva, mas com o desenrolar da história vamos conhecendo o interior da personagem principal, Lucrécia Neves. E existe, na própria obra, até uma justificação para o livro ter sido escrito assim, a precisão:

História que poderia ser vista de modos tão diversos que a melhor maneira de não errar seria a de apenas enumerar os passos da moça e vê- la agindo assim como se apenas se diria: cidade. (p.72)

O título resume a essência da obra, “A cidade sitiada”. O estado de sítio acontece em ditaduras e guerras, uma medida excepcional, onde as forças armadas estão a postos para reprimir a democracia, como aconteceu no Brasil em várias ocasiões, o militarismo no Brasil sempre fracassou e sucumbiu o país num caos social, político e financeiro, além da democracia. A população das periferias vive esse estado muito cotidianamente e quebrar essa barreira é para muito poucos.

O prólogo do livro situa a história em 1920, época do Tenentismo, do golpe militar seguido da Era Getúlio Vargas (1930-1945). Sempre foram os comunistas, “os vermelhos” temidos pelos fascistas, que iam para a linha de frente lutar pela classe trabalhadora, pelos direitos trabalhistas e pela liberdade. O brasileiro é um ingrato.

Esse ditador, o Getúlio (que deveria ter seu nome retirado de instituições, escolas e afins, a apologia à fascistas fez muito mal ao Brasil) comungava com os nazistas / fascistas europeus Mussolini e Hitler. O seu lema, “o perigo vermelho”, incitava o ódio aos comunistas/socialistas, havia censura, repressão e violência. O sujeito acalmou as massas instituindo um salário mínimo (miserável, que contentou os empresários) e a jornada de trabalho de oito horas por dia. “Tudo pelo progresso”. Ele queria a modernidade que o pobre não tinha acesso, com mão -de -obra baratíssima.

Assim é o momento histórico da escritura do livro, o pós- ditadura de Vargas, a obra retrata o estado de sítio que viveu o Brasil em dois momentos antes da publicação deste livro, em 1930 e 1935; em 35, durou um ano inteiro. A obra, visto do lado da periferia transpira militarismo, uma atmosfera tensa, de medo:

Seu modo de ver era tosco, rouco, recortado: os soldados! (p.35)

Passara o perigo. Era noite. (p.41)

-A pancada súbita do casco! (p.51)

Lá estava a cidade. (…)
Se ao menos a moça estivesse fora de seus muros.
Mas näo havia como sitiá- la. Lucrécia Neves estava dentro da
cidade. (p.52)

O romance é ambientado no subúrbio carioca de São Geraldo, um lugar bem precário, sujo, insalubre, cheio de animais peçonhentos e esgoto.  A protagonista é Lucrécia Neves, uma jovem que sonha melhorar de vida, casar e sair desse buraco.

Ana é a mãe de Lucrécia. A página abaixo diz coisas importantes, Lucrécia pode ser comunista. Observe, “mais uma vez ela voltara ferida”. Ou ela volta arrebentada depois de recusar o beijo do militar Felipe, que, humilhado, se vingou?  “Os cabelos escondiam metade da cara ferida”:

Só como curiosidade: preste atenção no primeiro parágrafo da imagem acima, que fala de “cravos boiando nos esgotos”.  Nessa época, o meio de transporte era o cavalo, também usado pelo Exército. Cravo sinônimo de prego e não de flor. Os ferreiros batiam na ferradura primeiro, antes de martelar o casco para assustar menos o cavalo. Esse é o sentido literal, e tem uma expressão figurada, um provérbio português: “Uma no cravo, outra na ferradura”, que significa fazer algo bom e em seguida algo ruim, similar ao “morde e assopra”:

Será Lucrécia uma espiã ou só observadora consciente da vida?

Espiando. Porque alguma coisa não existiria senão sob intensa atenção. (p.74)

Lucrécia vivia numa casa lúgubre e sua mãe quase não saía. A moça fazia uma espécie de vigilia, assustava- se com o bater dos cascos dos cavalos dos militares. Andava sempre sobressaltada. Numa noite, chegou um homem para entregar “carvão”. É como se o tempo todo ela temesse que os militares viessem prendê- la. Tudo é escrito em forma de códigos e enigmas:

Os cavalos de Napoleão estremeciam impacientes. Napoleão sobre o cavalo de Napoleão estava parado de perfil. Olhava para a frente no escuro. Atrás a tropa em silêncio.

Mas não amanhecia. Eles esperavam a noite toda. (p.64)

Não é uma leitura fácil. A impressão que fica é que Clarice escreveu para não ser entendida, mas sentida. É necessário muito conhecimento prévio para entender este livro, o que é um desafio delicioso. Este livro não se trata de uma “moça pobre que quer casar”, isto é secundário. Ele trata sobre fascimo no Brasil que destruía as pessoas dos subúrbios. Elas viviam massacradas e sem esperança.

Clarice não era do proletariado, ela era esposa de um cônsul, morou em vários países, mas era amiga de comunistas. Será que Clarice falou de si mesma? Será que sofreu este dilema?

Também Lucrécia Neves se esforçava para se exteriorizar, sem saber se devia se dirigir à esquerda ou à direita. De súbito acordou.

A moça paquerou Perseu Maria, apaixonado por ela, mas pobre e o Tenente Felipe, o que lhe proporcionava segurança para andar nas ruas e o que poderia ser um marido que lhe tiraria do seu bairro imundo, mas ele não queria casar. Felipe a humilhou devido à sua condição social pela recusa de seu beijo, só quis se “aproveitar” da moça. Depois ela apareceu com a cara quebrada.

Lucrécia acabou cedendo ao mais fácil: casou com Mateus, um advogado muito mais velho que ela. Cansou da luta, entregou- se. Foi morar na capital, mas não se acostumou, quis voltar para S. Geraldo, que se transfigurava dia a dia. Os cavalos foram dando lugar às máquinas e bondes, restaurantes e cinemas. O passado começou a ser demolido sem nenhum critério ou piedade, “tudo pelo progresso”.

Lucrécia acostumou- se com a vida de classe média alta. É rica. O dinheiro dá a falsa impressão de que as pessoas podem ser tudo o que quiserem. Lucrécia agora tem empregada e as manda embora por qualquer pretexto, até por “um queijo desaparecido” (p.110).

Ela, que não casou por amor, o encontrou pelo caminho. O doutor Lucas  inesperadamente apareceu para quebrar o esquema da sua vida “perfeita”.

Mateus faleceu e a viúva alegre não demorou muito em se animar e pensar em um segundo marido. O pensamento arraigado, machista e  muito brasileiro, de que as mulheres só podem ser felizes com um homem ao lado.

Clarice tomou partido publicamente. A foto abaixo é de 1968, em uma manifestação contra os militares, ao lado do pintor Carlos Scliar e o arquiteto Oscar Niemeyer (foto: Editora Rocco):

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Havia muitas obras no bairro de S. Gonçalo. Os militares prometiam progresso. Os fios, edifícios, usinas, avenidas começavam a aparecer da noite para o dia diante dos olhos incrédulos dos moradores, que nem luz tinham em casa. Trabalhadores que construíam o “progresso” com as próprias mãos, mas que não tinham acesso a ele.

Alguma coincidência com a realidade? Os militares melhoraram a vida de quem mesmo?

img_3867Lispector, Clarice. A cidade sitiada, Relógio D’água, Lisboa, 2009. Páginas: 147 páginas


Há que se respeitar mais os escritores. Principalmente os grandes. Você pode fazer isso, lendo- os, o que serve como antídoto contra a burrice. Os clássicos têm uma situação complicada. Como estäo sacramentados, contraditoriamente, são menos lidos. É como se tudo já tivesse sido dito sobre eles. Não. A opinião do outro não sacramenta nada (mesmo que seja especialista), é só uma opinião e muitas vezes nem é certa. Li prólogos e resumos absurdos sobre este livro. Gente que passou muito longe da essência dessa obra “uma jovem cansada do subúrbio e que queria casar”, dizer isso é muito simplista, a obra é muito mais profunda e retrata vários motivos do Brasil ser como é, tão desigual.

Leia, sinta, comprove você mesmo, investigue, pense, duvide de tudo que te contarem. Abra caminhos novos.

Amigos e amigas, amanhã será um dia muito importante na história brasileira. É incrível que nesses últimos dias eu tenha tentado convencer pessoas a não votar num fascista. É surreal! Pelo menos quem lê e sabe interpretar textos e o passado, não deveria ter caído nessa.

Deixo aqui um link “Resistir é preciso”, um documentário sobre pessoas torturadas no golpe de 64. Um deles é meu tio. Sabe qual foi o “crime” dele? Ser presidente de uma associação de estudantes. Ele foi preso e torturado no porão de um quartel que hoje funciona como o “Palácio do Menor”, na cidade de Feira de Santana.

O nosso voto sempre tem que ser pela democracia e pela liberdade de expressão, o contrário disso é a barbárie. Temos que evoluir e não regredir!

Era bruxa Clarice Lispector?


Um livro curioso me chamou bastante atenção e quero compartilhar com vocês: O segredo de Clarice Lispector, de Marcus Deminco.

Sinopse:

A verdade sobre Clarice Lispector que ninguém jamais contou.

Mas afinal, por que a autora era conhecida como A Grande Bruxa da Literatura Brasileira? Que espécie de vínculo Clarice teria estabelecido com o universo mágico da feitiçaria? Por que seu próprio amigo Otto Lara Resende advertia aos leitores para tomarem cuidado com Clarice, afirmando não se tratar apenas de literatura, mas de bruxaria? “O 7 era meu número secreto e cabalístico. Há 7 notas com as quais podem ser compostas todas as músicas que existem e que existirão, e há uma recorrência de adições teosóficas que podem ser somados para revelar uma quantia mágica […] Eu vos afianço que 1978 será o verdadeiro ano cabalístico. Portanto, mandei lustrar os instantes do tempo, rebrilhar as estrelas, lavar a lua com leite, e o sol com ouro líquido. Cada ano que se inicia, começo eu a viver outra vida”. E apesar de ter morrido algumas semanas antes de iniciar o então ano cabalístico, decerto todos esses seus hábitos ritualísticos, esclareçam porque Clarice teria aceitado com presteza e entusiasmo o inusitado convite do ocultista colombiano Bruxo Simón, para participar como palestrante do 1º Congresso Mundial de Bruxaria.


Para quem quer conhecer o lado místico da autora, parece que esse livro (apesar do tom sensacionalista) pode ajudar.

Você pode comprar baratinho, com desconto, aqui no Falando em Literatura (EUR 4,21, cerca de 16 reais), “O segredo de Clarice Lispector”, de qualquer lugar do mundo, já que está em formato digital. Você pode ler através do Kindle, iBooks ou qualquer e-reader, no celular, tablet, computador ou iPad. É só clicar no link abaixo:

O Segredo de Clarice Lispector (Portuguese Edition)

Depois me diz o que achou. Boa leitura!

Hoje: um texto por hora e aniversário de Antônio Torres!


Hoje, lá no nosso Facebook, haverá postagens de hora em hora. Como o nosso fuso é espanhol, já começou! Curta nossa página e nossos posts, isso é importante para motivar e saber se estamos pelo caminho certo ou não. Clarice vai estar por lá.

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Espero que os trechos de livros te inspirem e alguns deles entrem para a sua lista de leitura.

Hoje o dia é especial, pois é aniversário do grande escritor Antônio Torres, ele completa 76 anos. Imortal da ABL, com livros traduzidos em vários idiomas e uma obra narrativa interessantíssima, é um dos escritores brasileiros que mais amo.

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A descoberta da vida, do amor em Clarice Lispector


Por Rômulo Pessanha

Começo pelo começo que ninguém sabe quando começou. A busca pela origem da matéria que contém a vida é algo que nos causa medo e paixão, terror e medo, sensação de aventura e medo, tudo porque a origem da vida é como uma massa misteriosa, a vida não para de nascer a cada instante dentro de nós.
A Clarice Lispector apresenta-nos aqueles momentos de descoberta que as pessoas comuns sabem bem quando estão descobrindo algo, como a descoberta do amor, da solidão, do desejo, mas a descoberta da vida, essa sim, ninguém ainda ousou dizer sua forma e sua luz.

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A constatação de que apenas baratas estariam presentes no momento que surgiu o primeiro ser humano é algo bíblico. Só as baratas seriam nossas testemunhas: onde se encontraria o evangelho segundo a barata? Estaria na sua massa branca interior, com aquele cheiro de barata? qual a semelhança entre a massa branca e o cheiro da barata com o cheiro das escrituras sagradas que ninguém nunca sentiu? Qual a relação entre sentir a massa gosmenta de uma barata esmagada contra uma porta de um armário qualquer e verificar ali, um ser vivo te observando com a metade de seu corpo esmagado, que a vida também é uma massa sagrada, como as escrituras que saíram de dentro do mistério dos fatos ocorridos no mundo real ou talvez das intenções subjetivas de quem as escreveu?
Ninguém sabe quem esteve presente ao nascimento da primeira barata … Talvez Deus? … Sim, porque nós nos consideraríamos mais importantes? Quem esteve presente ao nascimento de Deus? Deus é maiúsculo ou minúsculo? Se antes de sua criação nada existia então Deus ou deus não era. Era apenas o nada. Deus era apenas o nada, quando nada estava criado. Se nada existia, se nada era regido então sua existência era nula. Qual a massa de deus, ou Deus?
Em Clariceanos aspectos, a religião é uma vida. A vida se origina apenas para falar de sua banalidade, de como ela frágil, pode ser ficcionada em tragédia reconhecíveis pelo mais banal ser humano baratizável, ou, melhor dizendo, que se considere barata perante o mundo banalizável, como no mundo moderno a preocupação com sobreviver se torna mais importante do que o viver. Mais para além de ficção tudo pode ser reduzido ao nada. Assim é o que se quer chegar: o ponto final que deu início a tudo o que não existe. Teorias se tornam matérias para discussões.
Discutir o invisível é o deleite de quem procura saborear o invisível da vida.

O amor surge como descoberta de que dentro de alguém algo desperta mais vida em nós. Passamos de leve a compreender que em alguns momentos estamos presentes no nosso próprio nascimento: é quando a paixão surge. Mas nós talvez nem teríamos consciência do momento de nossa origem. Para isso seria preciso voltar atrás, no tempo, no passado e constatar que nem esforço para isso seria preciso, pois o guardamos conosco em algum ponto inscrito no branco da vida, como papel para ser escrito, vida para ser vivida.

Resenha: A maçã no escuro, Clarice Lispector


(…) A amizade é muito bonita mesmo. Mas o amor é mais. Eu não podia ter amizade por um homem que eu tinha amado. (p. 206)

Em “A maçã no escuro”, Clarice Lispector (Chechelnyk- Ucrânia, 10 de dezembro de 1920 – Rio de Janeiro, 9 de dezembro de 1977)  conta a história de Martim, um homem que foge na noite, se refugia num hotel e depois numa fazenda, pois pensa que havia matado a esposa. Completamente corporal, sentimos toda a agonia física de Martim durante essa fuga. O  corpo é o artificie da escritura de Clarice durante todo o romance. O ambiente é o das sensações, do pensamento, nós vamos construindo o nosso entendimento aos poucos. Um livro denso, como costuma ser Clarice com a sua literatura psicológica. Nota- se claramente que esse livro foi o precursor de “A paixão segundo G.H.” (1965), a protagonista (aquela que comeu uma barata) e a forma de narrar é muito parecida com “A maçã no escuro”, inclusive usando expressões iguais ou similares, como as “coisas sem nome”, coisas que os narradores de ambos livros não conseguem nomear, sensações que parecem não ter nome. Martim está no coração do Brasil e foge na escuridão, anda de olhos fechados há duas semanas, desde que sua casa foi incendiada. Clarice escreveu esse livro quando morava no exterior entre Torquay (Inglaterra) e Washington (EUA), e foi escrito com trilha sonora: ela ouviu até a exaustão a Quarta Sinfonia de Brahms. Ouça:

A sequência de fotos encontra- se na biografia de Clarice “Uma vida”escrita pelo americano Benjamin Moser:

clarice casa 1970

Clarice na sua casa por volta de 1970

clarice e paulo

A escritora já consagrada e o filho Paulo

clarice no seu trabalho diplomatico gravida de paulo

Clarice no seu trabalho diplomático, ela casou- se com o diplomata Maury Gurgel Valente

com maury gurgel valente

Clarice e  Maury Gurgel Valente, mais tarde divorciaram- se

ultimos anos de vida

Clarice já nos seus últimos anos de vida

Este é o quarto romance de Clarice Lispector, “A maçã no escuro” (1961) é dividido em três capítulos: “Como se faz um homem”, “Nascimento de um herói” e “A maçã no escuro.

No primeiro capitulo, Martim aboliu a palavra “culpa” do seu entendimento e a substituiu pela palavra “ato”. Não se arrependeu de ter cometido um crime, que ele substituiu pela expressão “o grande pulo”, considerou uma vitória. Agora o único inimigo que tinha eram os outros e não a si próprio:

Sim. naquele instante de espantada vitória o homem de repente descobrira a potência de um gesto. O bom do ato é que ele nos ultrapassa. Em um minuto Martim fora transfigurado pelo seu próprio ato. Porque depois de duas semanas de silêncio, eis que ele muito naturalmente passara a chamar seu crime de ‘ato’. (p. 36)

Mas arrependeu- se em seguida de tal pensamento. Ainda estou tentando entender Martim, tudo parece contraditório. A impressão que dá é que Martim é uma espécie de psicopata, tenta justificar e perdoar o seu ato para poder continuar vivendo. Mas não é isso, afinal os psicopatas são desprovidos de qualquer moralidade, são frios e não têm empatia pelo outro.  Alguém que comete um ato muito ruim, geralmente sente o peso da culpa, como se estivesse sujo, indigno, mas com Martim isso não acontece, é bem ao contrário, o mal funciona como uma espécie de purificação. Clarice entrou no pensamento de alguém que se achava assassino, o narrador- onisciente nos conta tudo:

Desta hora em diante teria a oportunidade de viver sem fazer o mal porque já o fizera: ele era agora um inocente. (p. 42)

 Morto de fome e de sede, Martim encontra uma fazenda pela rota de sua fuga e a dona Vitória acaba por contratá- lo por casa e comida. Fazenda não, um sítio decadente. As sensações do primeiro encontro gera um combate de percepções entre os envolvidos, que demanda uma série de conhecimentos prévios sobre a nossa percepção do outro. Vitória e a hermética prima Ermelinda moravam juntas, essa veio de visita e ficou:

‘O que é que faz com que eu, não fazendo nenhum ato de maldade, seja a ruim? e Ermelinda, não fazendo um ato de bondade, seja boa?’ O mistério das coisas serem como nós sabemos que elas são (…) (p.72)

Ermelinda passou a infância toda doente e virou uma adulta irresponsável, como se todos tivessem que estar à sua disposição, como se o passado triste a desse carta branca para procrastinar. Ermelinda adora uma “vagabundagem”, tem medo do escuro, fala sem dizer nada e é um pouco espírita. Vitória é obrigada a carregar esse “peso morto”, assim sente Vitória. A moça Ermelinda apaixona- se por Martim. É magistral a descrição das sensações físicas e psicológicas que Clarice faz da paixão no corpo da mulher. (p. 90) Ermelinda, a prima indesejada. Mas Martim, o homem de olhos azuis e “sobrancelhas baixas” gosta é da mulata fogosa que trabalha na fazenda. Martim estabelece uma relação com Vitória de total subserviência. Ele obedece as mil ordens de Vitória e nada mais. Vitória incômoda, o espreme, quer saber o segredo do homem, mas esse aguenta tudo e não revela. Martim achava as duas primas chatas e Ermelinda feia, “uma adolescente envelhecida”. O cavalgar junto com Vitória numa montanha com o vento batendo o fez enxergar a Vitória e a si mesmo. Quem sabe o início de um amor, principalmente consigo próprio. Foi aí que ele começou a se encontrar.

No segundo capítulo (p. 126), Martim sente- se feliz e tem a necessidade de comunicar- se. As lembranças da sua vida anterior vêm à tona, lembra do seu filho. Ermelinda continua insistindo em conquistar Martim, que tenta ignorá- la quando ela começa com as suas sandices:

(…) você não é doida. É que você vive muito isolada e já não sabe mais o que se conta aos outros e o que não se conta. (p. 130)

Clarice faz longas descrições do mundo interior de Martim, que busca a sua “reconstrução” como ser humano depois do ato de matar. Foi quando Vitória falou no alemão, o mesmo que estava trabalhando no hotel na noite do crime de Martim e agora ele desconfiava de Vitória, será que ela conhecia o seu segredo?

Agora é a época de Martim arriscar tudo, como na adolescência:

Sim. A reconstrução do mundo. É que o homem acabara de perder completamente a vergonha. Não teve sequer pudor de voltar a usar palavras da adolescência: foi obrigado a usá- las pois a última vez que tivera linguagem própria fora na adolescência; adolescência era arriscar tudo- e agora ele estava arriscando tudo. (p. 140)

Essa reconstrução desse mundo é o do seu mundo interior. A viagem psicológica de Martim o leva a sentir- se livre e a amar a vida que tem, a sua vida e o trabalho no sítio, encerrou a sua vida anterior e sentiu- se feliz.

No terceiro capítulo (p. 203), o desencanto de Ermelinda que amou, mas tinha deixado de amar; o encontro de Vitória com o alemão. O desencanto também de Martim ao descobrir a cobiça de uma criança que brincava tranquila montando tijolos e lhe exigia um presente, correu incrédulo, com a sujeira da inocência, com o olhar da menina e retrocedeu no seu processo de reconstrução, viu-se a si mesmo, sujo. Clarice usa adjetivos que hoje são considerados politicamente incorretos, será que ela os usaria hoje? Chama a menina de preta, a compara com uma prostituta, a menina é má. Nós conseguiríamos sentir o mesmo horror que sentiu martim sem esse dado da cor da pele da criança. Por outro lado, literatura nunca tem que ser politicamente correta, na ficção pode tudo. A liberdade artística está em primeiro lugar, mas que choca, choca.

Martim é chamado pelo prefeito de Vila Baixa e dois investigadores. Martim revela que não é engenheiro e sim “estatístico” e só na página 310, quase no final do romance descobrimos qual foi a motivação do crime (que não vou contar) e a revelação de que a esposa não morreu só vem na página 314, esse spoiler já está revelado em quase todas as resenhas e sinopses na internet, o que tira a graça da história e é uma pena. Ler o livro todo sem saber desse detalhe fundamental tornaria a obra muito mais interessante, mas o estrago já está feito, então vamos lá:

– Talvez o senhor fique triste, disse então com ironia o investigador de fumo preto na lapela, mas ela não morreu. A assistência chegou a tempo, e ainda conseguiu salvar a sua esposa.” 

Trechos destacados do livro:

(…) Estar contente era um modo de amar. (p. 28)

(…) houve uma época que o mundo era liso como a pele de uma fruta lisa. (…) A vida naquele tempo ainda não era curta. (p.44)

(…) Aquele homem possuía uma cara. Mas aquele homem não era a sua cara. (p. 67)

(…) O que tem que ser, tem muita força. (p.82)

(…) Meditar era olhar o vazio. (p. 90)

(…) Por uma obscura necessidade de preservação, estava procurando recuperar no campo aquele minuto em que ela ousadamente aceitara amar aquele homem: procurava recuperar o minuto para destruí-lo. Mas, estonteada, talvez soubesse que também a necessidade de destruir amor era o próprio amor porque amor é também luta contra o amor, e se ela o soube é porque uma pessoa sabe. (p. 91-92)

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  A edição portuguesa que eu li:

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Lispector, Clarice. A maçã no escuro. Relógio D’água, Lisboa, 2000. 348 páginas

Você pode ver aqui os vídeos da única entrevista de Clarice Lispector pouco antes de falecer.

O que o livro tem de bom: gosto da forma como Clarice escreve com o corpo todo de Martim, o corpo é o artífice de sua escritura. Também gostei de conhecer a Clarice na sua faceta de narradora de acontecimentos, fugindo da sua tradicional literatura psicológica, muitos trechos de prosa (quase) poética.

O que o livro tem de ruim: Clarice é repetitiva, diz a mesma coisa muitas vezes, principalmente nos trechos das descrições psicológicas de Martim. Talvez sua intenção tenha sido mostrar o pensamento labiríntico do personagem, como ele dá mil voltas sobre o mesmo pensamento para no final concluir o que havia pensado no início. Como leitora, digo que foi cansativo. Também não gostei da demora em conhecer qual o crime que Martim cometeu.