Resenha: Orlando, de Virgínia Woolf


Embora diferentes, os sexos se confundem. Em cada ser humano ocorre uma vacilação entre um sexo e outro; e às vezes só as roupas conservam a aparência masculina e feminina, quando, interiormente, o sexo está em completa oposição com o que se encontra à vista. (P.105)

Leram o trecho acima? Virginia Woolf, em 1928, entendeu o problema de gênero melhor que muitos entendem agora. Vamos entrar no mundo Virgínia Woolf comigo?! Vem!

A inglesa Virginia Woolf (Adeline Virginia Stephen, Londres, 25/01/ 1882– Lewes, 28/03/ 1941) foi uma escritora clássica do romance moderno, cultuada e reverenciada nos quatro cantos do mundo.

Virginia teve um romance, durante anos, com Vita Sackville- West, poetisa inglesa, enquanto estava casada com Leonard Woolf, funcionário público e também escritor. Virginia escreveu um diário contando as suas experiências. Que será que o marido pensava disso? Era consciente, consentia ou ignorava a situação? Essa parte fica pra outra ocasião.

Infelizmente, a autora cometeu suicídio jogando- se no Rio Ouse, em Sussex, perto de sua casa, aos 59 anos. Ela sofria, tudo indica, de um transtorno bipolar; uma depressão a fez tomar a fatal decisão. Esses transtornos psicológicos a acompanhavam desde os 13 anos. A escritora deixou uma carta de despedida ao marido, disse não mais suportar as crises, ouvia vozes, temia a loucura, leia.

Sua obra prolixa é composta de ficção e não- ficção.

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Virgínia Woolf em 1902, aos 20 anos. A mesma foto da capa da edição que li.

1427054086_112243_1427054854_noticia_normalVirginia em 1931.

VitaSackvilleWestVirginiaWoolf1933Virginia Woolf e Vita Sackville-West na “Monk’s House”, a casa da autora, em 1932.

woolfO casal Woolf

“Orlando” começa com um prólogo da autora com agradecimentos a vivos e mortos, escritores, amigos e familiares. O título do livro é o nome “do” protagonista da história. As aspas em “do” serão explicadas depois. Presta atenção.

A obra de Virgínia Woolf caracteriza- se pelos monólogos interiores, o latente fluxo de consciência dos personagens,  no entanto, “Orlando” não tem especialmente essa característica, é a exceção.

Sua relação homossexual com Vita Sackville-West foi refletida, dizem, em “Orlando”. Vita, nos anos 20 e 30, era mais conhecida e respeitada que Virginia Woolf. Segundo o seu filho, “Orlando” “é uma longa e encantadora carta de amor”. Mas isso eu soube depois da leitura, eu nunca pesquiso antes de ler um livro para não ser influenciada, para não direcionar a leitura, mesmo porquê, temos que nos focar no texto. A vida dos autores é questão secundária, curiosidade histórica, podemos tecer pontes entre o autor e obra, mas o principal  tem que ser o texto mesmo. Mas, nesse caso, o livro ganha um sentido especial conhecendo esses dados.

Eu não sabia absolutamente nada da história, o que iria encontrar era uma incógnita.  O título e a capa não dão nenhuma pista.  Levei um susto, fiquei chocada com a primeira página: um rapazinho brinca com a cabeça cortada de um mouro, vítima do seu pai ou avô.  Pensei que a história acontecia na Idade Média (período longo entre os séculos V e XV). Não, é um pouco depois. Orlando tem 16 anos no início da história, vive na época elisabetana, século XVI, era poeta, ou pelo menos, tentava ser. A história termina, cronologicamente, no século XX, precisamente no dia 11/10/1928. O livro é a biografia de Orlando, no final, com 36 anos. Impossível? É uma alegoria utilizada para demonstrar que uma pessoa pode viver séculos em pouco tempo.

Impressionou- me como a autora descreve os personagens com muita precisão, não só a aparência, mas as características expressivas dos personagens, genial! Ela desenha e dá vida aos personagens perfeitamente com analogias, dá para imaginá- los como em um filme e inseridos em seus cenários. É isso: literatura “fílmica” ou teatral. Não é à toa que muitas obras literárias são adaptadas para teatro e cinema. Essa obra teve uma adaptação para o cinema em 1992.

Veja só um trechinho da descrição do rosto de Orlando, praticamente um retrato- falado :

(…) O vermelho das suas faces era coberto de uma penugem de pêssego; a penugem do buço era apenas um pouco mais densa que a das faces. Os lábios eram finos e levemente repuxados sobre os dentes de uma deliciosa brancura de amêndoa. Nada perturbava o breve, tenso vôo do nariz; o cabelo era escuro, as orelhas pequenas e bem unidas à cabeça. (p. 8)

Orlando cresceu lindo e galanteador.  Conheceu uma rainha russa, apaixonaram- se, viveram um idílio breve no inverno inglês. A mulher foi embora sem prévio aviso. Orlando primeiro ficou desesperado, depois entrou em uma profunda melancolia e tristeza.

O narrador mantém um diálogo com o leitor, citando-o. Essa voz exerce de biógrafa de Orlando.  Veja se essa descrição não corresponde com o que sabemos de Virgínia e seu caráter, mas estes atribuídos a Orlando (p.41):

(…) Orlando era uma estranha mistura de muitos humores– melancolia, indolência, paixão, amor à solidão, sem falar em todas aquelas contorções e sutilezas de temperamento que foram indicadas na primeira página…”

Orlando gostava de livros desde criança, tinha hábito de ler até tarde da noite:

“Orlando era um fidalgo afligido pelo amor à literatura.”(p.42)

O personagem sofre dessa “doença”, como chama o narrador. Ele lê seis horas diárias “noite adentro”. O criados da casa dizem que devia abandonar os livros, pois são para “paralíticos e moribundos”. Especialmente nesse contexto histórico, os escritores eram considerados cidadãos de segunda classe, operários, algo para castas inferiores. Portanto, para a família abastada e nobre de Orlando, esse ofício era um desgosto.

O escritor de cabeceira de Orlando é Thomas Browne, inglês que viveu no século XVII. Esse autor realmente existiu e viveu muito para a época, chegou quase aos 80 anos (77), um verdadeiro milagre. Nasceu e morreu no mesmo dia, 19 de outubro.

Além de Browne, há várias citações de histórias mitológicas: “A morte de Ajax”, “O nascimento de Príamo”, “Ifigénia de Áulide”, “A morte de Hipólito”, “Meleagro” e a “A volta de Ulisses”. Orlando lê, escreve e guarda seus escritos em gavetas de madeira.

(…) Assim tinham sido escritas, antes dos seus vinte e cinco anos, umas quarenta e sete comédias, histórias, romances, poemas, uns em prosa, outros em verso, uns em francês, outros em italiano, todos românticos e todos longos.” (p. 43)

Orlando não esquece a amada que o deixou. Faz- se mil perguntas sobre o motivo e não encontra resposta. Foi aí que tentou substituir seu rosto por outro. Começou a escrever.

Conheceu um poeta (pobre), Nicholas Greene, que provoca em Orlando uma espécie de atração- repulsa. O admira e o repele ao mesmo tempo. Depois acaba rendido aos encantos e inteligência do poeta, hospedado em sua casa por uma semana. Orlando encantado com o homem no seu palácio; o poeta, ao contrário, completamente entediado. Ele preferiu retornar para o seu apartamento minúsculo e cheio de gente. Escreve um poema satirizando Orlando, deixando- o em ridículo perante toda a sociedade.

Orlando afasta- se das mulheres e dos poetas. Dá festas homéricas, suntuosas, para milhares de pessoas. Gastou metade da sua fortuna. Decide sair de Londres e vai para Constantinopla.

Acontece algo completamente insólito: Orlando, aos trinta anos, cai em um sono profundo, fica em estado de letargia durante uma semana. Ninguém o consegue acordar. Depois de sete dias, aparecem três santas, a Pureza, a Castidade e a Modéstia. É assim, com esse tom místico e fantástico, que Orlando transformou- se em mulher. Transgênero sem dor, sem espanto, sem cirurgia. Orlando não questiona nada, aceitou sem nenhum assombro o novo gênero.

Muda de vida, “a” Orlando agora, viaja com um grupo de ciganos, absorve a vida nômade, toma banho quando dá, dorme vendo estrelas. Mudou de vida completamente, nada de luxo, longe do conforto da sua casa com trezentos e sessenta e cinco quartos.

Mas, começa a ter umas diferenças com os ciganos, sente falta da vida de luxo, da sua família de mais de quatrocentos anos a qual recordava com muito orgulho. Depois envergonhou- se, os ciganos tinham uma história de mais de dois mil anos e não eram muito piores  que o povo “civilizado”.

(…) Nenhuma paixão é mais forte, no peito humano, que o desejo de impor aos demais a nossa própria crença. Nada também corta tão pela raiz nossa felicidade e nos encoleriza tanto como sabermos que outros menosprezam o que exaltamos. (…) Não é o amor à verdade, mas o desejo de prevalecer (…) (p.83)

Orlando acabou indo embora, cansou da vida nômade, sentia falta de tinta e papel, de escrever, sentia orgulho do seu passado que os ciganos desprezavam. Foi embora na hora certa, pois já estavam planejando cortar- lhe o pescoço. Vendeu seu colar de pérolas e comprou um enxoval de mulher. Voltou para Londres.

Essa é uma obra que fala muito sobre literatura. Há trechos interessantíssimos sobre o processo do fazer literário, as fases que passa o escritor. Só por isso já merece ser lida.

(…) O ofício do poeta, portanto, é portanto mais alto de todos. Suas palavras alcançam o que para outros é inatingível. (p.96)

A autora, creio, quis mostrar como seria se as pessoas mudassem de gênero. Um machista que virasse mulher, deixaria de sê- lo? As regras sociais começariam a mudar? Ela estava irritada porque não podia nadar com aquela saia enorme.

(…) devo, então, começar a respeitar a opinião do outro sexo, embora me pareça monstruosa? Se uso saias, se não posso nadar, se tenho que ser salva por um marinheiro, Deus meu!”‘ Gritou, ” que hei de fazer? (P.87)

Orlando descreve situações cotidianas que as mulheres são obrigadas a viver, todas de importância inferior, subjugadas e serviçais.

Ela conhece os dois lados, foi homem durante 30 anos. Sempre amou as mulheres e chega à conclusão que não precisa mudar isso por causa do seu corpo feminino. Ama uma mulher, Sacha, a rainha russa.

Engraçado é que quando ela chegou em casa depois de muito tempo fora e como mulher, nenhum criado duvidou que fosse Orlando e nem estranhou a sua nova condição.

Há tempos, antes de viajar para a Turquia, Orlando tinha conhecido uma mulher com estranhos modos, ele não tinha simpatizado muito com ela. Essa “mulher”, Harry na verdade, volta dizendo ser um homem e que havia vestido- se de mulher para conquistá- lo, pois estava apaixonado. Essa confusão de gêneros, creio, é para mandar o recado de que gente pode se apaixonar por quem for. Se não existissem regras, moralismo religioso, vergonhas próprias e alheias, convenções, amarras, tabus…como seria o amor, o verdadeiro? Dentro dessa parafernália toda de impedimentos, há gente que escolhe simplesmente amar. Mas podia ser sem tanto sofrimento, não é?

Se isto  é amor (…) há no amor alguma coisa profundamente ridícula. (p.99)

O arquiduque Harry fez- lhe uma declaração apaixonada de amor. Harry ama Orlando, seja homem ou mulher, mas não é correspondido.

Do amor ao que nos cobre. Sobre a influência das roupas, segundo a filosofia:

Alguns filósofos diriam que a mudança de vestuário tinha muito que ver com isso. Embora parecendo simples frivolidades, as roupas, dizem eles, desempenham mais importante função que a de nós aquecerem, simplesmente. Elas mudam a nossa opinião a respeito do mundo, e a opinião do mundo a nosso respeito. (P.104)

Todos temos os dois gêneros dentro de nós, em maior ou menor grau. Não há mal algum assumir isso, há que estar aberto para aceitar o que não é convenção, para normalizar a situação das pessoas que têm uma aparência que não corresponde com o que sentem.

No Brasil e no mundo, o assunto dos transgêneros está nos meios de comunicação, porque gente famosa passou pelo processo físico de transformação. O famoso cartunista Laerte decidiu assumir publicamente o seu lado feminino aos 60 anos; o mesmo aconteceu com o padrasto das Kardashians, Bruce Jenner (agora Caitlyn Jenner); também a Tammy Miranda.

A cineasta brasileira Anna Muylaert ( tive o prazer de entrevistá- la em Madri) lançou um filme em fevereiro no Festival de Berlim: “Mãe só há uma”, em cartaz no Brasil agora. A história é baseada em fatos reais, aquele caso do menino Pedrinho que foi roubado na maternidade. No filme, Pierre (Felipe, na verdade) foi sequestrado por uma mulher que o criou como seu filho. Foi encontrado pela família biológica 17 anos depois. Felipe/ Pierre considera a mulher que foi presa a sua verdadeira mãe. Anna “brinca” com a coisa do gênero/sexualidade do personagem Pierre. Ele é bissexual, aparência andrógina, maquia- se, tem uma banda de rock, pinta as unhas. A liberdade de ser o que quiser ser. Uma pessoa pode ser muitas coisas. Orlando também brinca com a dualidade, por vezes usa roupas unissex.

Outro filme ou livro de David Ebershoff, que você pode conhecer mais sobre o assunto é o “Garota dinamarquesa”, que conta a história verídica de Lili Elbe, parece que foi o segundo caso no mundo de cirurgia de mudança de sexo.

A tolerância e o respeito são fundamentais. Se você não gosta, o problema está com você, não com o outro. Precisa educar- se para aceitar quem não é igual a você. A única coisa triste e feia é ver gente infeliz devido às velhas fórmulas tradicionais, desgastadas e que não servem para todos…

 Orlando, agora vestido de homem e comportando- se como tal, mesmo sabendo- se mulher, dá um passeio noturno e encontra Nell, que não se importa de descobrir que Orlando é também mulher. Orlando achava uma vantagem poder desfrutar dos dois gêneros:

(…) Parece que não tinha dificuldade em sustentar o duplo papel, pois mudava de sexo muito mais frequentemente do que podem imaginar os que só usarem uma espécie de roupas. E não pode haver nenhuma dúvida de que com esse artifício colhia uma dupla colheita, que os prazeres da vida aumentavam e sua experiência se multiplicava. (p. 123)

 Orlando pode ser interssexual. Sua aparência andrógina só pode ser diferenciada pelas roupas.

Atribui- se à Vita o personagem de Orlando.  Mas a questão dessa briga interior, quem sabe,  não serviria para Virginia também? Seria a gênese dos problemas psiquiátricos da autora? Ou não… quem sabe?

Procurei a felicidade muitos anos e não a encontrei; procurei a fama e perdia- a; o amor,  não o conheci; a vida –e eis que a morte é melhor. Conheci muitos homens e mulheres (…) não entendi nenhum. É melhor que fique aqui em paz, só com o céu em cima de mim. (Orlando caído no chão, no bosque, com o tornozelo quebrado, p. 139).

As dores da alma podem ser muito maiores e devastadoras que as físicas.

Mas, sossega…essa história tem um final feliz. “Nada muda”, mas num espaço de “três segundos e meio”, tudo pode mudar.

Uma das coisas mais interessantes desse livro é a questão do tempo/relatividade/intensidade. Tem gente que vive 200 anos, mas só tem 36 anos de idade, como Orlando. Há amores que duram pouco tempo cronológico, mas duram milênios pela intensidade que implicam; já outros, duram trinta anos, mas caberiam em um só dia.

Que vinha a ser, então, a vida? (p.159)

Vida? Literatura? Converter uma na outra? (p.160)

A verdadeira substância da vida, agora (…) é mágica. (p.169)


A edição que eu tenho é muito especial. É de 1978, traduzida pela poetisa Cecília Meireles: “a tradução que a Nova Fronteira agora reedita foi feita por Cecília Meireles. Trata- se não de uma tradução literal; palavra por palavra, do original. Trata- se como toda grande tradução, de um novo original. Quase como se Virginia Woolf fosse uma grande escritora brasileira.”

Curiosidade: esse livro foi encontrado em  um sebo em Barcelona. “Orlando”, em perfeito estado de conservação, parece nunca ter sido lido pela sua primeira dona, a Ana do Rio de Janeiro, em 1989, há 27 anos:

13615132_631078893714341_7022206275252763066_nQuem será Ana? Ana, cadê você?! Como o seu livro foi parar do outro lado do Atlântico?!

Resenhão, não é? Muito extenso. Ainda assim, creio que passaram detalhes e matizes que ainda vou ter que polir. Como disse a princípio, é a minha primeira incursão em Virgínia Woolf.

Obrigada pela paciência e por ter chegado até o final. Um livro intenso, que levanta muitas questões importantes, que fazem refletir sobre o tempo, a vida e a morte, o ser, a sexualidade e gênero, a sociedade, o amor e o fazer literário.

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Woolf, Virginia; Orlando, Coleção Grandes Romances. Nova Fronteira, 1978, Rio de Janeiro. 185 páginas

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Como escrever? O processo de escritura criativa


Como escrever?

Por Rômulo Pessanha, colaborador

Fiz- me essa pergunta e imaginei- me caminhando numa rua de um lugar desconhecido, mas desconhecido porque ficcional. Escrever é como imaginar que uma vida nova está se tornando uma realidade.

A pergunta contém a resposta: como escrever? É o como escrever.

Percorri então a rua: era eu, único que ditava o ritmo de toda a situação. Assim supunha. Através de minha imaginação a rua ganhava mais e mais passantes, andarilhos e personagens desconhecidos, transeuntes e figurantes para uma vida que julgamos que somos, cada um de nós, protagonistas de uma longa história fictícia?, sem fim.

A rua ainda sem cor ganhava alguma tonalidade negra. Estava ficando boa e tudo estava ficando perfeito e quando percebi, reparei que outras vozes também queriam falar: eram outros personagens que surgiam no caminho.

Sendo eu quem dá as regras do jogo, cada um poderia ter sua existência confirmada ou negada. Os personagens precisamente deviam estar ali para serem cúmplices de um ato de existir e não meramente rebeldes sem causa e se rebeldes fossem, melhores ainda seriam tanto a história como os personagens.

Uma personagem surgiu de repente. Seus olhos negros, cabelos negros que continha algum fio ou outro de cabelo branco, pele branca, lábios pálidos, mas que me provocavam atração como o imã atrai o metal, ela era rebelde, eu queria ser seu súdito. Ainda seu corpo, magro, lembrava vela acesa e que a luz era calor transmitido a mim diretamente só pelo olhar que me endereçava. Andava até a mim, conversávamos um pouco e pelos gestos e palavras suas sempre dizia não, não ao que dizia eu com minhas atitudes de apaixonado, palavras que não são ditas nem escritas, mas que podem ser lidas no corpo, sem embargo, de tudo em mim dizer sim, ela era sempre o não.

Sim e não se atraem, porque se anulam. Não há resistência e tudo pode fluir perfeitamente como na imaginação daquele que vive um sonho bom, assim é viver um grande amor ainda que inventado pela imaginação devaneante, nada melhor do que viver imaginando do que imaginar viver um grande espetáculo.

Escrever deve ser algo que penso dizer ou que digo enquanto penso. Quando escrevo penso que estou a pensar o que estou a escrever, ou, que por já ter pensado me pus a escrever. Escrever é sempre o registro de algo passado e acontecido e que futuramente nos tornará realizado, pois esse fazer, de palavrear num papel é manter acesa nossa luz no mundo sem que ela esmaeça e se apague por ter tremeluzido. Luz forte como sol, a minha língua renasce sempre mais forte, cada dia, luminoso arrebol.

Queria então que a misteriosa moça passasse a escrever toda minha vida. Desejava mesmo que minha vida fosse reescrita por completo, mas ela parecia não aceitar a tarefa. Então desejei que essa personagem sumisse de meu pensamento, na minha história mando eu.

Ela não ia embora e entre uma esquina e outra, novamente surgia e também ao fim de uma estrada ou de uma rua sem saída ela, sempre ela, inominável desejo que insiste em fazer parte do que crio mesmo sem ter sido chamada.

Ela era a página para cada nova história que eu criava, meu desejo de possuí-la era para também registrá-la em meu corpo arenoso e evanescente de memória, cada grão de areia um acontecimento longínquo. Como pode a nossa criação tomar juízos e nos desobedecer? É porque ela não sabe que foi inventada por mim ou talvez ela tenha inventado o amor e colocou no meu coração. Eu, apaixonado, coloquei tudo no papel. A mesma coisa que fazê-la interpretar o papel que lhe dei, ela age assim personalíssima sempre contraditória ao que digo. Se eu falo sim, ela diz não. Outra página em branco e outra vez ela retorna, mas para quê? Talvez já não seja ela, a paixão de fato, mas a loucura insana da criação decadente e terrena que não vislumbra teor de vida no lugar que paira ideias. Assim é a vida, página em branco para preencher, num corpo vermelho de paixão, inspiração, oxigênio da alma, quando escreve, sangue, a alma falando ao corpo seu desejo.

Na minha filosofia, a minha razão. Na minha vida, e na falta dessa racionalidade, tudo que for sem razão deverá fazer parte de um raciocínio maior: acrescente um pouco mais de chocolate ao leite diante de uma tela impressa com texto, ou como uma tela, o texto, ou o livro, e dirá você meu leitor, que delícia é isto, pois eu também lhe digo que fazer você ler isso e fazer seu pensamento dizer o que digo e imaginar o que eu imagino, só que à sua maneira e modo é que é para mim, grande delícia, prazer saboroso.

Assim deve ser escrever, desejo selvagem e indomável, víbora venenosa essa a do escrever, cavalo que não se deixa montar e veloz e furioso corre e foge se transformando em altaneiro pássaro anunciando que o amor é livre expressão do que sonha a alma e do que deseja o corpo: ser aprisionado pelas palavras de amor quando se está amando livremente e a declaração de amor que ganho a cada página que escrevo, como nova possibilidade de amar.

Rio de Janeiro, 18 de junho de 2016.

É nosso aniversário: oito anos falando sobre boa literatura!


Quem me avisou hoje foi o WordPress:

wordpress

Nesse mundo virtual tão volátil, onde tudo dura pouco, orgulho- me em celebrar 8 anos no ar! E sem apelação, sem best- sellers, sem mentiras, aqui realmente os livros são lidos, não lemos apenas sinopses ou Wikipédia. Infelizmente, nem todo mundo leva a literatura a sério nesse meio virtual, tanto em blogs, no YouTube e nas redes sociais, muitos estão apenas para conquistar seguidores e faturar com isso. Contudo, até isso eu vejo positivamente. Melhor falar de livros, mesmo que superficialmente, sem propriedade nenhuma, do que de outras coisas ruins, não?

Fico feliz sim, quando um post tem muitas visualizações, comentários, curtidas, compartilhamentos, mas a opinião alheia não é o que me motiva. No fundo, eu faço por mim mesma. Esse é o meu diário de leituras, a minha memória. Eu amo os livros, a literatura. Além disso, é a minha profissão. Eu tenho que viver no mundo das Letras para ser feliz. É um estilo de vida, independe de números, dinheiro, muito menos fama. É só amor. Amor não se explica.

Eu vou “comemorar” dividindo minha última leitura poética, que me rompeu por dentro, Drummond me faz chorar de beleza.

Essa semana achei umas coisas bacanas em um sebo ao lado da minha casa. Um dos livros é uma coletânea de Carlos Drummond de Andrade com seus mais lindos poemas. É uma edição argentina de 1978, bilingue espanhol- português. Chama assim “Amar- amargo y otros poemas”, com o “Soneto da esperança perdida” (belíssimo, primeiro verso “Perdi o bonde e a esperança”), “Mãos dadas” ( Adoro: “Não serei poeta de um mundo caduco”), “O lutador” (“Lutar com palavras/É a luta mais vã”), enfim, a mais bela coletânea que achei até agora.

Vou deixar aqui um fragmento de “Nosso tempo”, que é do livro “A rosa do povo” de 1945, mas que poderia ter sido escrito hoje para a atual situação política do Brasil, cai como uma luva:

I

Este é tempo de partido
Tempo de homens partidos.

Em vão percorremos volumes,
viajamos e nos colorimos.
A hora pressentida esmigalha- se em pó numa rua.
Os homens pedem carne. Fogo. Sapatos.
As leis não bastam. Os lírios não nascem
da lei. Meu nome é tumulto, e escreve- se
na pedra.

Visito os fatos, não te encontro.
Onde te ocultas, precária síntese,
penhor do meu sono, luz
dormindo acesa na varanda?
Miúdas certezas de empréstimo, nenhum beijo
sobe ao ombro para contar- me
a cidade dos homens completos

Calo- me, espero, decifro.
As coisas talvez melhorem.
São tão fortes as coisas!

Mas eu não sou as coisas e me revolto.
Tenho palavras em mim buscando canal,
são roucas e duras,
irritadas, enérgicas,
comprimidas há tanto tempo,
perderam sentido, apenas querem explodir.

IV
É tempo de meio silêncio
de boca gelada e murmúrio,

palavra indireta, aviso
na esquina. Tempo de cinco sentidos
num só. O espião janta conosco.

É tempo de cortinas pardas,
de céu neutro, política
na maçã, no santo, no gozo,
amor e desamor, cólera
branda, gim com água tônica,
olhos pintados,
dentes de vidro,
grotesca língua torcida.
A isso chamamos: balanço.

No beco,
apenas um muro,
sobre ele e a polícia.
No céu da propaganda
aves anunciam
a glória.
No quarto,
irrisão e três colarinhos sujos.

Agradeço a todos vocês que nos acompanham há tantos anos e também aos novos leitores/blogueiros que estão conhecendo o Falando agora. Fico feliz em conhecer tanta gente na mesma onda.

Muita coisa aconteceu nesses anos todos, nem dá pra contar tudo. Mas o saldo é muito positivo. E continuamos…

Um abraço a todos!

Fernanda Sampaio

Resenha: “A queda”, de Albert Camus


 “A queda” (1956), do francês Albert Camus, pegou- me logo por causa da primeira frase do livro:

Posso oferecer- lhe os meus serviços, meu caro senhor, sem me tornar inoportuno? (p.7)

Um livro que começa dessa forma para mim é irresistível. Aliás, esse tipo de livro é o que gosto: o que faz pensar, que te faz construir e desconstruir, que lê o nosso pensamento mais íntimo, que diz sem dizer, que oculta nas entrelinhas o essencial. Enfim, um livro que vale a pena!

Papo de bar. O personagem pega alguém para iniciar uma conversa em um bar no porto de  Amsterdã chamado “México City”. O narrador- personagem, Jean Baptiste Clemente, formado em Direito, é “juiz- penitente” (ele explica o que vem a ser essa profissão). Dirige- se a um “senhor” com o questionamento citado e que despertou a curiosidade dessa leitora. Nesse “diálogo” só ouvimos uma voz, não sabemos nada do que o outro responde, fica o enigma. Esse é um dos elementos de um bom livro: a surpresa, a novidade, a sensação agradável de nunca ter lido nada parecido  e de não conseguir adivinhar o que vem depois. Isso é difícil, dificílimo em literatura, já que tudo é cópia da cópia da cópia,- ainda mais agora, a era da facilidade, da rapidez e do descartável.

A obra é curta (85 páginas), mas não é “rápida”. Exige atenção, tudo é importante, se pular uma linha vai fazer falta depois. Não salte parágrafos, muito menos páginas. Abaixo, um trechinho dos muitos que destaquei (p.16):

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E nesse “diálogo”, o narrador vai dizendo quem é e do que gosta sem dar a chance do outro adivinhar. Assim vamos desencapando o personagem. Sabemos que é um homem de meia idade, frequentador dos bares do porto, que já foi bem sucedido, mas que por algum motivo (que vamos descobrindo) abandonou a vida anterior. Mora no bairro judeu na pós- guerra, depois de Hitler quase arrasar com tudo.

Quando você lê o título, o que lhe vem à cabeça? A queda de alguém poderoso e que perdeu tudo? “A queda” (1958) em questão é outra, muito mais profunda e interessante. Romance escrito por um filósofo foge de superficialidades e obviedades, ele mergulhou fundo nas questões. Camus recriou em forma de ficção, o seu pensamento filosófico acerca do homem. É como se fossem exemplos,  a materialização das suas ideias.

O narrador começa a dar a nota sobre algumas cidades europeias. Veja a crítica apimentada sobre Paris, a sua terra natal (igual que a do seu interlocutor mudo):

(…) Paris é uma autêntica ilusão de ótica, um imponente cenário habitado por quatro milhões de siluetas. Perto de cinco milhões no último recenseamento? Está bem, devem ter feito meninos. Não me admiro. Sempre me pareceu que nossos concidadãos tinham duas paixões violentas: as ideias e a fornicação.  (…) Bastar- lhes- á uma frase para definir o homem moderno: fornicava e lia jornais. (…) (p.9)

Jean conta sobre o seu passado, sua vida plena e feliz. Ele adorava ajudar os demais, sentia- se bem com isso, recompensado; era equilibrado, boa saúde, bom corpo, belo, honesto, bem conceituado, era respeitado. Fazia tudo o que esperavam dele. Um cidadão modelo. Considerava- se um sujeito de sorte, no entanto, queria sempre mais e mais. “Cada alegria fazia- me desejar outra” (p.21).

Algo aconteceu em uma noite de outono perto do Sena, em Paris, e tudo mudou. Esse dia ficou marcado: o início da sua queda. O homem cheio de virtudes ajudava os demais por vaidade. Ele conseguia enganar a sociedade, os amigos e clientes, no entanto, o auto- engano é mais complicado:

(…) Quando me ocupava de outrem, era pura condescendência, em plena liberdade, e todo o mérito revertia a meu favor: eu subia um degrau no amor a mim mesmo. (p.32)

O personagem começa a desvendar- se. Na verdade, o que sentia pelo outro e a sua dor, suas dificuldades, não lhe importavam muito. Jean era superficial, esquecia rápido, não se envolvia de fato com ninguém. A sua reputação é o que importava. Fazer o correto com uma intenção ruim tira o mérito?

Jean Baptiste esquecia até de quem o ofendia, não porque era bom ou perdoava, simplesmente os esquecia, não lhes importava. Ele era completamente egocêntrico:

(…) Nunca me lembrei senão de mim mesmo. (p.33)

A memória, a consciência naquela noite voltou. E conviver com as próprias verdades pode ser algo bem perigo, muitas vezes, até mortal. Começou a relembrar acontecimentos e viu que algumas de suas reações eram por pura covardia e não bondade. Uma farsa.

(…) Que importa, não é assim, humilhar o próprio espírito se desse modo se consegue dominar o mundo inteiro? (p.36)

A natureza foi generosa com Jean Baptiste. Era bonito e tinha facilidade com as mulheres, mas amou verdadeiramente uma só mulher durante toda a sua vida. Antes ele buscava “objetos de prazer e conquista”, mas com essa mulher ele passou a ser o “objeto”:

O verdadeiro amor é excecional, dois ou três em cada século, mais ou menos. O resto do tempo, há a vaidade ou o tédio. (p.37)

A pior forma de amor? Essa (p.39):

(…) Mas uma certa raça, a pior e a mais infeliz: ‘Não me ames e sê- me fiel!’

O livro é muito intenso, todos os parágrafos são interessantes, um livro inteiro “sublinhável”.

Uma das histórias que ele contou (páginas 43 e 44) mostra que ele realmente não tinha uma essência nobre,  ele só ajudava se houvesse “plateia”, se pudesse ser reconhecido. Você conhece alguém assim?

A conversa sai de passeio, sai do bar, os dois homens (que a essas alturas já desconfio que não são dois mesmo, será ele e sua consciência?) caminham até a casa de Jean. No dia seguinte vão para a ilha de Marken para ver o Zuiderzee, que é um golfo, uma ilha de pescadores quase desértica, pitoresca, “Uma aldeia de bonecas, não acha?” (p. 45). O protagonista diz que vai mostrar o que realmente há de importante ali.

Comenta sobre o suicídio, já teve pensamentos nesse sentido:

(…) Os homens só se convencem das nossas razões, da nossa sinceridade e da gravidade das nossas penas com a nossa morte. Enquanto vivos,  nosso caso é duvidoso, não temos direto senão ao ceticismo. (p.46)

Conclui que os suicidas, muitas vezes, abandonam a vida como meio de punição ao outro. No entanto, nem com a morte isso acontece, porque a faculdade de esquecimento do homem é muito forte. A pessoa perde a vida e o outro vai continuar, sem mais. O suicídio não é efetivo como vingança ou castigo.

Diz que as pessoas estão prontas e dispostas sempre para duas coisas: julgar e fornicar. (p.48)

Também conta que uma das maiores ofensas às pessoas, algo que realmente as incomoda é a felicidade e o sucesso (p. 49):

(…) Mas para ser feliz é preciso não nos ocuparmos muito dos outros. As alternativas, contudo, ficam dessa forma limitadas. Feliz e condenado, ou absolvido e desgraçado. Quanto a mim, a injustiça era maior: eu era condenado de felicidades antigas.”

Que tristeza, não? Quem nunca teve essa necessidade de esconder felicidades para não despertar invejas? Repare em “gente- corvo”, que te abraça num momento de infelicidade com um dissimulado sorrisinho nos lábios, sente- se bem com a desgraça alheia, numa falsa atitude de bondade. Fuja!

A lucidez em Camus é como farol que ilumina. Alguns chamam até de pessimismo. Eu chamo de “verdade”. Todos querem ser inocentes, mas ninguém é. Veja isso:

Eis o que nenhum homem (salvo os que não vivem, quero dizer os sábios) pode suportar. A única defesa está na maldade. As pessoas apressam- se, então, a julgar, para elas próprias não serem julgadas. Que quer? A ideia mais natural para o homem, o que lhe surge ingenuamente, como do fundo da sua natureza, é a ideia da sua inocência.

Eu disse que era um livro profundo. E “sufoca”, fica mais intenso ainda a partir da página 50. Se eu for destacar tudo, vou acabar escrevendo o livro inteiro aqui. Eu acho que a filosofia ensina mais e descreve melhor o homem do que qualquer outra disciplina.

Desse livro ficam mais perguntas que respostas: o homem é tão desvirtuoso por causa da sociedade que criou e suas exigências ou é próprio da natureza humana, independente da época e local? E sim: o homem é mais que imperfeito. Quem leva a vida a sério sofre.

Quase todo mundo leva uma vida dupla: o que se é (ou pensa ser) e a que se mostra ao outro.

O tempo. Nos ensinaram a correr desde cedo. A maioria corre por medo de não conseguir realizar tudo o que se pretende ou sonha. Aí vem o pensamento da morte que fica cravado em quem tem a consciência do fim.

Todo o processo de perda, a queda do personagem, tem um objetivo final, que é desprender- se de todas as convenções e amarras em busca da liberdade.

Com isso fabrico um retrato que é de todos e de ninguém. (…) Mas, ao mesmo tempo, o retrato o retrato que apresento aos meus contemporâneos torna- se um espelho. (p.81)

Só no final que você vai descobrir realmente quem é o interlocutor. E se você ler só a última página não vai entender nada, vai ter mesmo que passar por todo o processo que eu passei.


Albert Camus (Mondovi, Argélia, 07/11/1913- Villeblevin, França, 04/01/1960), jornalista, doutor em Filosofia, romancista, ensaísta, dramaturgo e militante político da Resistência Francesa, que lutava contra o nazismo. Ganhou o Nobel de Literatura em 1957. Em 1943, Camus passou três dias em São Paulo. Sofria de tuberculose. A doença atrapalhou bastante a sua carreira acadêmica, não pode ser professor. Morreu cedo, aos 46 anos, em um acidente de carro. O escritor checo Jan Zabrana (1931-1984) afirmou em seu diário, que o acidente foi proposital,  foi assassinado pelo governo russo.

albert-camusTuberculoso e fumante. Difícil achar uma foto de Albert Camus que não esteja com um cigarro na boca.


A edição lida é da portuguesa “Livros do Brasil”, que pertence a Porto Editora. Aproveito para deixar o link de uma das páginas da editora com vocabulário e dicionário da língua portuguesa, que você pode consultar online, Espaço da Língua Portuguesa, clique aqui.

Esse livro é daqueles que eu gostaria de ter escrito, está na linha de Sartre e Dostóievski, humanista.  Recomendadíssimo, coloque na sua lista!

40072-c3bdcfdab21a44ecacc48275daab2aa6Camus, Albert. A queda. Livros do Brasil, Porto, 2015. 85 páginas

Você sabe o que é “Borderline”?


“Borderline” é uma doença mental que muitas vezes é confundida com depressão ou síndrome bipolar.  A doença deixa a pessoa sempre no limite para o bem ou mal.  Acho interessante esse assunto e deixo aqui um release com uma dica de livro (ficção) que aborda o assunto:

Nas fronteiras de Alice, livro escrito por Marcelo Siqueira, discute como é possível reencontrar o amor, transcendendo questões como idade, doenças mentais e ética

Com mais de 80 mil fãs no Facebook, o livro Nas fronteiras de Alice do autor Marcelo Nogueira já é um sucesso. A obra aborda os complexos temas do transtorno de personalidade e do adultério entre um professor e uma aluna, porém mantendo a narrativa repleta de amor e suspense.

Nas Fronteiras de Alice é um romance contemporâneo, narrado como um flashback da vida do protagonista Yuri – um renomado professor de História de 40 anos de idade e filho de um desaparecido político durante a ditadura militar brasileira.

Casado e passando por um momento de reflexão na vida, Yuri conhece Alice durante um Simpósio em Porto Alegre. A jovem estudante de Literatura, possui uma personalidade plural e inconstante, além de uma beleza única.

“Não existia mais nada naquele instante, não havia cenário, personagens, contexto. Existia apenas aquela menina, aquela menina de saia xadrez que me deixou sólido, sem ar e suspenso da realidade que me rodeava. […] Era ela. Pequena, magra, de pele alva e de andar flutuante. Seus olhos levemente puxados, as maçãs do rosto elevadas que se harmonizavam com seu pequeno nariz um pouco adunco. Tinha uma boca desenhada com lábios vermelhos convi­dativos. Emoldurando esse exótico rosto de princesa de revista em quadrinhos, cabelos negros, lisos, mas com algumas ondula­ções, que cobriam sua nuca e mal chegavam a seus ombros.” (p. 33)

Com um jeito sincero, divertido e irônico, e também com um certo ar de mistério e tristeza no olhar, Alice conquista Yuri e os dois iniciam um romance inesperado de intensa entrega. Nesse relacionamento, cada um será exposto às suas fraquezas e desejos mais íntimos, provocando comentários e incompreensões de pessoas próximas, principalmente na questão das múltiplas personalidades.

“– Mas você não precisa ter medo de mim – disse quase triste.
– Eu não tenho medo de você – falei firmemente. – Conte-me mais.
– A Síndrome de Borderline afeta muito a vida social das pessoas, pois as dificulta em seus relacionamentos. Temos oscila­ções de humor e somos muito impulsivas, às vezes, tornamo-nos agressivas. Nós nos irritamos facilmente e perdemos o interesse rapidamente, por isso que não conseguimos manter amizades e relacionamentos por muito tempo e até mesmo” (p. 222)

Por ser um relacionamento proibido, ambos sofrerão as consequências das decisões tomadas. Nas Fronteiras de Alice é uma história de encontros, escolhas e descobertas. Divertida em alguns momentos e intensa em outros. A narrativa transmite para o leitor sensações de nostalgia, erotismo, paixão e cumplicidade, sendo a primeira parte de uma trilogia.

Capa_Nas fronteiras de Alice_V7

Sobre o autor: Marcelo N. Siqueira é professor, arquivista, historiador e paleógrafo. Possui diversas publicações acadêmicas, mas este é seu romance de estreia, fruto de suas observações e vivências ao longo dos últimos anos. Sua paixão por literatura e música, sobretudo o jazz, é percebida ao longo de suas narrativas. Nas redes sociais, possui mais de cem mil seguidores, principalmente na fanpage de Nas fronteiras de Alice, que, em menos de seis meses, já atingiu a marca de dez milhões de visualizações. Marcelo é carioca, casado, tem dois filhos e mora no Rio de Janeiro.

(Texto fornecido pela editora)

“O amor assim, cura tudo”, uma análise do conto”Substância”, de Guimarães Rosa


Por Rômulo Pessanha

Essência

O texto que segue é sobre um pouco de brincadeira e diversão sobre Substância, conto que integra Primeiras Estórias de João Guimarães Rosa.

primeiras-estorias

Ah, o amor! Ai dessas claridades que nos deixam vislumbrar caminhos invisíveis. A pergunta essencial: você emitiu sua luz? Ou será quando toda luz que vem do alto se mistura com a que vem de dentro?

Ao brilharmos viemos ao mundo ou, nos dando a luz, nossa mãe, nascemos? A luz é a nossa mãe iluminada, luz pura das épocas do amor. Quando os pássaros sobejam no céu é porque os rebuliços na terra sucedem aos amantes e só beijam querendo voar os sentimentos que os namorados abraçam com todo olhar, amor é amar e amar é luzir.

Ah, o mês das noivas, dos apaixonantes apaixonados. É a riqueza mais viva que a vida assim é o amor quando ao nosso se junta mais, número infinito, o verdadeiro amor, a bem querência nossa e a da pessoa que amamos. Diria até ser primavera, mas todas as cores se perdem nos olhos dela, que é a mais bela, na fruta doce da vida, esperando por nós ser colhida, para cearmos da farta ceia o amor, nossa colheita que nada ceifa a não ser o amor, que nem perece até mesmo quando a dor nos enegrece e amarga a vida, porém a calmaria vem, pois tudo é certo: se há noite no dia quando tristes, dia virá para nossa noite, pois felizes estaremos. As coisas são assim eternamente intercalações. E se amor é eterno é só porque está em algum lugar dentro entre os corações.

Os três personagens Sionésio, Maria Exita e Nhatiaga caminham num palco iluminado do quê mesmo? Talvez pela sua própria existência e cada um executa o seu papel. Sionésio duvida, faz questões, se pergunta e se interroga, exita? Maria Exita não exita, responde logo e desconcerta e faz perceber que ela já sabia das intenções de Sionésio. Olhos firmes no trabalho que é sustento, fonte e luz para vida.

O amor pega Sionésio de jeito de forma tal que se o amor o incomodava, ao final, juntou-se a ele, e, perto, aconchegou-se: será? Será que Maria Exita sabia mesmo das intenções de seu patrão Sionésio?

Ah, todo amor tem sua luz, e toda vida seu amor para quem quiser experimentar seu lume. Amar no debaixo do ouro quente do meio-dia e encima da prata refletora do amido é como ter na mente a imagem de uma jóia viva: quando percebemos o amor não apaga sua luz dentro de nós e queremos apenas viver assim quando mesmo até dizemos perecer dela, em verdade vivemos dela e por ela, para ela, as portentosas luminosidades de amar, é alvo que não se apaga.

O pó nos lembra vida, quanto a morte nem nada é, e sendo menos que possibilidade de fato, ela, a de todos certa sorte, nem existe. A energia do amor contida ali nos luzentes: a amada e o amante. Mexendo e tornando pó a energia pura e verde da vida da planta da vida, a energia do amor armazenada e dispendida: quanto mais amor mais acúmulo de energia. Fartura em nós é o alimento do estado de graça, transcendências de nossas humanas sensações. O amor assim, cura tudo. A vida é para a vida toda? Exita nem pisca responde: claro que é, é claro que eu quero. Parece irreflexão responder assim tão rápido ou foi demorada a pergunta? O amor é um espelho em que a gente nem se vê direito o que a gente é, o que gente foi e nem o como a gente está.

O amor é afetuoso raciocínio e por isso a tal vez chega na hora de se pensamor nos raciocínios dos coraçãomentes modos de ver as coisas. Apaixonar e amar é nossa condição, somos do amor a sub instância em forma viva e pensante que igual ao sentimento não sabe ponderá-lo nem dizê-lo apenas se vive e se ama: você me quer? E como resposta: por demais da conta e para até nos depois de sempre. O lugar principal de nossa existência é o amor e seu palco é todo iluminado: o amor é o lugar que une os que amam. É algo que atua em nós de modo brusco, supetão, subitamente enquanto interpretamos nos palcos da vida seu significado intentando significá-lo e dar-lhe consistência.

Assim é quando amamos, ficamos percebendo e padecendo a luz do outro, um ponto num tempo infinito que percorre todos os caminhos de nossa existência e nos faz querer ter para nós somente aquele luminar de olhos que se remexem ao nos ver e a gente vendo assim, ficamos a brotar amor, nos fazendo estremecer, fazem nossos pássaros brilharem, e todo nosso ser voar pelos ares, todos percebem a festa e o sagrado do momento: joguem arroz!, joguem o pó!, trabalhem!, festejem! E mais a Nhatiaga servindo ali de vigia, para tornar abençoado o sagrado do momento. Enfim, ao final podemos dizer: se um dia estive aceso foi só porque amei alguém e esse alguém que amei me deu essa sua luz que entreguei novamente em forma de amor. E assim sendo, dois, que se amam para sempre muito, e para muitos e para todos o amor é a substância essencial de um ato para além das cortinas que se fecham ante o palco que aplaude.

Rio de Janeiro, Capital, 22 de Maio de 2016.

 

 

Está chegando: 75ª Feira do Livro de Madrid (com uma “pitada” de desânimo)


Feiras de livros são oportunidades fantásticas para conhecer todos os tipos de autores, de todos os gêneros e lugares. A Feira do Livro de Madri, cidade onde moro, dura 22 dias e, normalmente, traz um país convidado. Esse ano: a França. Isso implica que teremos a oportunidade de conhecer autores franceses contemporâneos. Já contei que tenho uma quedinha pelos franceses? Leia aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

A lista de escritores que estarão presentes já começou a ser atualizada, até o dia da feira irão entrando mais nomes. Por exemplo:

No dia 5 de junho, você poderá conhecer em pessoa o dono do melhor restaurante do mundo, Ferrán Adrià e seus livros com receitas maravilhosas.

ferran_adria_recetas

Julia Navarro, escritora espanhola, essa vale a pena conhecer. Eu li o “Dime quien soy” e gostei bastante. Ela vai estar em vários dias, melhor consultar a lista.julia

Ainda não divulgaram os escritores franceses que estarão presentes.

A lista, por enquanto, deixou- me muito desanimada. Viram a minha animação do início? Pois é, c’est fini. A literatura de não- ficção deve entrar, pois há coisas muito úteis que precisamos. Eu mesma citei o Ferràn Adrià. Há ensaios, divulgação científica, dicionários, fotografia, gastronomia, muita coisa bacana, mas não vale tudo.

Nos últimos três anos, principalmente, a onda de youtubers e “gente nada a ver com literatura” invadiram a feira e o nosso mundo literário. A literatura vai minguando. Qualquer um acha que pode escrever um livro. Poder até pode, mas não é literatura. Há livros muito respeitáveis de não- ficção, que são úteis e necessários, mas não é o caso da lista que acabei de ver. Desânimo.

Isso pode ter consequências muito negativas: a juventude só vai ler porcaria; os escritores decentes não vão querer participar da palhaçada; os consumidores de literatura (ficção, artística, principalmente) deixarão de ir e a feira acabará se transformando numa festa de babacas, adolescentes alucinados e curiosos querendo tirar fotos com artistas e youtubers.

Eu mesma, na feira de 2014, fui cedinho para “ficar na fila”, pois adoraria conhecer Luis Goytisolo (1935) pessoalmente. Um escritor de primeira linha, membro da Real Academia Española (irmão do também escritor, o célebre Juan Goytisolo), escreveu livros incríveis como “Antagonía”, uma obra- prima. Esse autor espanhol é comparado com Proust. Cheguei esbaforida, “Ué, cadê a fila?!”. Não havia ninguém. A minha surpresa foi tanta que o autor percebeu. “Não sou um autor popular”. A vantagem é que pude conversar bastante com ele e tenho o privilégio de ter quase toda a sua obra (carinhosamente) autografada. Mas, não consegui evitar a sensação de tristeza e desencanto: “se ninguém lê um autor desses…que fazemos?!”

Caramba, nosso espaço já é muito restrito, será mesmo que eles têm que invadir a nossa praia?! Claro que sim, as editoras e “escritores” (que normalmente nem escrevem, alguém faz isso por eles) querem é ganhar dinheiro, não importa com quê. Oportunistas.

Cartel FLM16O cartaz desse ano é de Emilio Gil, um artista gráfico.

Vou aguardar para ver se melhora. Será que virá pelo menos algum desses escritores franceses: Patrick Modiano, Pierre Lemaitre, Fred Vargas, Laurent Mauvignier, J. M. G. Le Clézio, Frédéric Beigbeder? Senão, fico aqui com a minha maravilhosa biblioteca.