Voltando…primeiro post de 2017!


Olá, amigos e amigas, voltei! Já estava com saudade de vocês e do blog. Vou começar a contar sobre os últimos livros que li e de algumas outras novidades. Já é 13 de fevereiro, vamos lá!

A resenha de hoje é sobre um livro lido em dezembro, na altura do Natal: Histórias da Terra e do Mar, da portuguesa Sophia de Mello Breyner Andresen (Porto, 06/12/1919- Lisboa, 02/06/2004), seu avô paterno era dinamarquês, e pelo lado português, de família aristocrata. Seu tio era o dono da fazenda, que hoje é o Jardim Botânico do Porto. Considerada uma das maiores poetisas portuguesas do século XX, ela também escreveu contos, ensaios, peças para teatro e  era tradutora. Foi professora universitária do curso de Letras e mãe de cinco filhos.

Sophia de Mello Breyner Andresen  01.jpgSophia de Mello

Vamos ao livro, uma obra composta de cinco contos:

História da Gata Borralheira

A história dividida em dois capítulos, realmente tem atmosfera de conto de fadas, mas não só o da Gata Borralheira como sugere o título, inclui também a história da Cinderela e da Branca de Neve, mas com um final infeliz. Será que  da modernidade pra cá (o livro foi publicado em 1984, mas o conto vem com a data de 1965) não comporta mais histórias de grandes amores com finais felizes?

Lúcia, 18 anos, moça pobre, foi convidada para um baile. Foi mal vestida e com um sapato velho e ralado. Ficou num canto, sozinha, nenhum rapaz a tirou para dançar. Se você nunca passou por isso, imagina a cena e a sensação. Depois foi morar com a tia rica casou com um homem rico. Conheceu o mundo oposto ao seu (p.26):

O mundo tem um preço, e Lúcia pagou o preço do mundo.

Lúcia reencontrou- se com o único homem que dançou no baile há vinte anos. O homem reapareceu de forma mágica. Ele era o outro caminho.

Um conto muito interessante que nos faz refletir sobre as escolhas que fazemos. E se a gente escolhesse o que não escolheu? Como teria sido?

O silêncio

Era complicado.

Assim começa a história de Joana, uma dona-de-casa muito solitária, que leva uma vida ordenada e silenciosa. A palavra “silêncio” é repetida muitas vezes, incomodando, como parece incomodar a vida de Joana; ao mesmo tempo,  o silêncio é o seu único interlocutor. Tanto silêncio é interrompido pelos gritos de uma mulher, uma briga de casal, que a protagonista espiava da janela.

A casa do mar

Esse conto é uma descrição minuciosa de uma casa do mar, que foi construída em cima de uma duna, afastada das demais casas. Particularmente, por não gostar de textos descritivos, foi o que menos gostei. Não me disse muito, mas isso não significa que ele seja ruim- ao contrário, é muito bem escrito. A inspiração foi a sua casa de Lisboa.

Saga

Esse conto remete às origens dinamarquesas da autora e demorou quase uma década para ser escrito (1972- 1981). É o texto mais longo do livro e conta a história, a “saga” do menino Hans, de uma família dinamarquesa que mora no interior da ilha de Vig ( realmente existe,  pertence à Dinamarca). O pai, Sören, ex-marinheiro, alto, magro, austero e silencioso. Ele impunha o mesmo silêncio aos demais (p. 57):

(…) sabia que é no silêncio que se escuta o tumulto, é no silêncio que o desafio se concentra.

Os dois irmão de Sören morreram em um naufrágio, por isso vendeu o barco e comprou as terras no interior da ilha. No entanto, permanece inquieto e taciturno.  Uma vez marinheiro, sempre marinheiro. É o destino da família.

O filho Hans quer ser também marinheiro, “capitão de navio”. O pai já viu gente demais sepultada no mar, quer mandar o filho estudar em Copenhague. O rapazinho fugiu em um navio inglês que passou pela ilha.

O bisavô da autora veio de barco da Dinamarca até o Porto. O personagem Hans está inspirado nele.

Sophia conseguiu, em um texto curto, narrar as peripécias, aventuras e desventuras de uma vida inteira. Dos 14 anos do protagonista até a sua morte, já idoso. Destaco um trecho que achei genial, pois condensa tanta verdade, mas de difícil percepção e síntese, ainda mais assim tão bem explicada:

E Hans compreendeu, como todas as vidas, a sua vida não seria mais a sua própria, a que nele estava impaciente e latente, mas um misto de encontro e desencontro, de desejo cumprido e desejo fracassado, embora, em rigor, tudo fosse possível. E compreendeu que as suas grandes vitórias seriam as que não tinha desejado, e que, por isso, nem seriam vitórias.

Eu prefiro não explicar o trecho acima, só sente….

Vila d’Arcos

Uma prosa poética deliciosa! Um texto bem curtinho, o mais curto do livro. Sophia pega na nossa mão e nos leva para passear pela “Vila d’Arcos”. Sophia tinha um bom gosto e sensibilidade impressionantes para escrever. Esse texto carrega uma lição de vida.

sophia

Mello Breyner Andresen, Sophia. Histórias da Terra e do Mar, Porto Editora, Porto, 2015. Páginas: 95

Gostei bastante deste livro, recomendo, anota na lista!

Daqui a pouco eu volto para contar uma novidade. Fique atento!

 

 

 

Anúncios

Falando em Literatura…férias!


Devido à intensa atividade pessoal/profissional no ano de 2016 dessa blogueira que vos fala, não foram postadas todas as resenhas que eu pretendia para esse ano. Li muito, mas de forma desordenada, fragmentada, há vários rascunhos que pretendo terminar depois das férias. De todas as formas, você pode ler aqui as que foram postadas. Há também as resenhas de Rômulo Pessanha, colaborador.

O blog dobrou a quantidade de visualizações, ultrapassamos 1 milhão de visitantes. Comentários muito bacanas, sugestões e algum que outro hater. Sim, até em blog literário eles aparecem. Eu? Dou risada. Aos bons, a grande maioria, obrigada pela leitura e companhia.

Comecei um projeto em Madri, que levou o mesmo nome do blog, foram oito oficinas literárias patrocinadas pelo Ministério de Relações Exteriores do Brasil, parte do programa de incentivo da língua e cultura brasileira no exterior. Foi extremamente gratificante!

Algumas pessoas pediram pra atualizar as músicas (que ficam na barra lateral de todos os posts). Coisa que pretendo fazer em breve.

Encerro por aqui as atividades do blog, mas nas redes sociais ainda vou aparecer até o final do ano. Se você não me acompanha, vai lá no Instagram, no Twitter, no Facebook ou no Snapchat: falandoemlitera, sempre tem novidades!

A literatura faz parte de mim. As duas coisas que mais me motivam na vida: a literatura e o amor.  Por essas coisas infinitas, eu perco os temores e enfrento qualquer coisa. Que assim seja.

Então…nos vemos no ano que vem?

Felizes festas, feliz 2017!

Quando você foi ao cinema pela primeira vez?


Cinema é magia, principalmente os antigos de bairros tradicionais, aqueles onde o pipoqueiro te conhece pelo nome. Cinema faz parte da nossa história pessoal, um memorial de emoções.

Cinespacial-fachada

Você lembra do primeiro filme que viu no cinema? Eu lembro: “Bernardo e Bianca”. Ele estreou no Brasil no dia 22 de julho de 1977, eu tinha 5 anos incompletos.
O original é de 1977, os personagens fogem em uma folha empurrados por uma libélula que serve de motor.

bernardebiancvhs
Lembro com uma nitidez incrível das cenas desse filme, a minha memória remota é mais consistente que a recente. Lembro também da sensação de entrar no cinema pela primeira vez. Um baita de um cinema! Tive sorte de nascer e viver a minha infância na cidade mais desenvolvida do Brasil, São Paulo. Já naquela época o cinema era apoteótico, tinha três telas, três dimensões, um jato de ar saía no centro do cinema. Foi como se tivesse acabado de embarcar em uma nave espacial.
Fui pesquisar no senhor Google para saber o nome desse cinema e se realmente existiu ou foi fruto da minha imaginação infantil. Voilà! Não só existiu, mas era exatamente como descrevi Infelizmente fechou em 1994 e hoje o prédio está abandonado. Ele ficava na Avenida São João, nº 1465, no centrão de São Paulo.

cinespacial-interiorCinespacial interior

E o nome? “Cinespacial”, por isso eu me senti em uma nave, era essa a intenção. Era um cinema moderno e futurista em formato circular, agora sei como funcionava: “A sala de exibição era redonda, haviam 3 telas, o projetor ficava no centro e por um jogo de espelhos projetava a mesma imagem nas 3 telas”. O vento que saía do centro e que eu lembro muito bem, possivelmente era o local onde ficava esse espelho. Muito inovador, não conheço hoje nenhum cinema como o Cinespacial na Espanha e nem no Brasil.
Veja a descrição do cinema, crédito total ao blog História Mundi, pela mão do historiador José Jonas Almeida, fantástico por sinal, que trouxe de volta em imagens e explicações meus doces anos de infância:

cinespacial-projeto
Cinespacial projeto

“(…) a sala de cinema tinha um formato circular e com três telas de projeção (no desenho acima, as telas correspondem às letras “b”). Para tanto, a sala era dividida em três setores, posicionados de forma circular (respectivamente, os setores “a”, “d” e “e” no desenho acima). Cada setor assistia ao mesmo filme em uma tela diferente. O filme era exibido nessas telas de forma simultânea, tendo o mesmo som dentro da sala. As três primeiras filas estavam situadas a uma distância de aproximadamente 14 metros de cada uma das três telas, permitindo uma boa visualização. Essas primeiras filas eram tão importantes quanto as outras e as telas eram colocadas em uma altura adequada, evitando qualquer obstáculo para a visualização das mesmas.”

A cabine de projeção ficava suspensa no teto, no meio da sala, com um mesmo projetor para as três telas (letra “c” no desenho acima). Portanto, a projeção era feita do centro da sala para as telas situadas nos cantos do espaço de exibição. Existia também uma preocupação com o conforto do público, pois as poltronas eram anatômicas e ajustáveis, possibilitando um melhor posicionamento para o espectador. A sala montada em São Paulo tinha 600 lugares, em um espaço onde normalmente caberiam apenas 300.”

Esse é o cartaz da inauguração do Cinespacial em 1971, eu ainda não tinha nascido. Eles fazem a propaganda do “fim do cinema quadrado” e que foram o 2º cinema do mundo com três telas. Estreia com filme francês. Très chic!

55271e39ee55f80c591bfa6ca46bc05e

Fiquei feliz em saber que a minha memória está afiada! Cuidado com o que você oferece aos seus filhos, porque eles não irão esquecer. Agradeço aos meus pais, Ana e Fernando (in memoriam), uma dona-de-casa e um metalúrgico, que colocaram na minha vida, desde cedo, o cinema e a literatura, e que me deram a melhor infância que se pode ter. Enquanto isso eu te convido para assistir o mesmo filme que vi há 37 anos, em versão original:

E você, quando foi ao cinema pela primeira vez?

Crédito das fotos e informações sobre o Cinespacial: História Mundi.

Literatura contemporânea: “Variedades”, de Fabio Gorodski


Vou apresentá- los um autor brasileiro contemporâneo, que vive em Berlim: Fabio Gorodski.

12705310_132934600427016_4479523696054801250_n

Aqui o blog do autor. Fabio Gorodski tem uma vasta formação musical, conhecimentos notados no conto “comprimidos” (p.13)  e já teve um poema adaptado a um curta- metragem, veja.

Se não contei mal, o livro é composto por 39 contos. “Variedades: uma narrativa e vários episódios”, de Fabio Gorodski, vem com textos datados em épocas e lugares muito diferentes. Todos os títulos com letras minúsculas e a falta de vírgulas nas frases ao estilo de Saramago logo no primeiro conto; a segunda frase, ao contrário, existe uma vírgula sem necessidade. Alguma transgressão do autor, suponho, há trocas lexicais em alguns trechos.

Vejamos alguns contos, assim começa o primeiro  “aluga- se quarto e sala” (p. 7):

Uma cozinha uma mesa um copo. Um sachê: hortelã, e água. No ar, um quê de erva e um certo calor, ainda. Entre o recipiente e a mesa, uma toalha delgada (…).

Alguém morre num quarto e sala.  Esse foi escrito no México em 1988.

O texto que o escritor trouxe do Afeganistão (2001) foi intitulado “playmobil” (p.43), que remonta ao jogo de peças para encaixar, e é nessa linha que vai o texto, da geometria para chegar à conclusão que “o mundo é uma esfera”.

O conto (ou deveria chamar de crônica?) sobre o Rio de Janeiro é o menos sutil, mais cruel talvez, se compararmos com outros contos e a pobreza das várias cidades que Gorodski circulou. O olhar sobre a própria casa é mais imperioso, menos condescendente? “realismo mundano” (p.47) é chocante.

É possível classificar povos e culturas em poucas linhas? Não sei, mas o autor captou momentos, suas sensações diante de situações concretas. Como não sei absolutamente nada do autor, não sei se as cenas dos contos foram vivenciadas, presenciadas ou imaginadas, Fabio é músico e pode ter viajado para tocar em todos esses lugares, mas isso não importa, vamos no texto. Em “mixirica, gomo, caroço”, o autor escreveu, possivelmente, estando na China em 2009. Ele faz uma analogia de uma mixirica com o mundo. Concordo com ele:

Há dois tipos de pessoas, as transparentes e as opacas (p.93)

Nesse conto a história é sobre uma suicida.

O livro é um punhado de signos de elementos urbanos, do cotidiano do mundo. Além dos lugares citados, o autor esteve (?) no Canadá, Chile, Estados Unidos, Coreia do Sul, Japão, Tailândia, Suíça, enfim, muitos países. E com aquele olhar (in)discreto sobre as coisas que normalmente passam despercebidas.

O título faz jus ao conteúdo, realmente são histórias muito distintas entre si. A capa é interessante, a leitura começa nela, papel rasgado que deixa transparecer fragmentos de textos. Quem se interessar por esse livro pode comprar direto na editora Chiado. Aproveito para agradecer pelo envio do livro.

livro

Gorodski, Fabio. Variedades: uma narrativa e vários episódios. Chiado, Portugal, 2016. 132 páginas

Dez incríveis primeiros parágrafos


Um livro te pega pela capa, pelo título, sinopse, autor ou primeiro parágrafo? Eu escolho pelo autor e primeiro parágrafo.

Selecionei dez primeiros parágrafos de livros que podem agarrar o leitor pela curiosidade que despertam, veja:

1.”Intimidade”, de Hanif Kureish

Essa é a noite mais triste, porque vou embora e não voltarei. Amanhã de manhã, quando a mulher com que vivi durante seis anos tenha ido trabalhar na sua bicicleta e nossos filhos estejam no parque brincando de bola, colocarei umas coisas em uma mala, sairei discretamente de casa, esperando que ninguém me veja, e tomarei o metrô para ir ao apartamento de Victor: ali, durante um período indeterminado, dormirei no chão do pequeno quarto junto à cozinha que amavelmente me ofereceu. Cada manhã arrastarei o fino e estreito colchão até o quarto de despejo.

  • Por que será que ele fugiu?

2. “As intermitências da morte”, José Saramago

No dia seguinte ninguém morreu. O fato, por absolutamente contrário às normas da vida, causou nos espíritos uma perturbação enorme, efeito em todos os aspectos justificado, basta que nos lembremos de que não havia notícia nos quarenta volumes da história universal, nem ao menos um caso para amostra, de ter alguma vez ocorrido fenômeno semelhante, passar- se um dia completo, com todas as suas pródigas vinte e quatro horas, contadas entre diurnas e noturnas, matutinas e vespertinas, sem que tivesse sucedido um falecimento por doença, queda mortal, um suicídio levado a bom fim, nada de nada, pela palavra nada. (…)

  • A morte que deixa de matar. Por que será que aconteceu isso?!

3. “A confissão”, de Flávio Carneiro

A senhora ouça- me, por favor. Em primeiro lugar, peço desculpas pelo mau jeito. Sei que não foi nada gentil da minha parte interceptar o seu carro àquela hora da madrugada e apontar uma arma à sua cabeça, ordenando, ou pedindo, depende do modo como se vejam as coisas, creio ter- lhe pedido para descer do carro, embora o gesto de lhe apontar a arma possa indicar que era uma ordem, não um pedido, pode ser, não vamos discutir por ninharias, de qualquer maneira reconheço que não fui gentil.

  • Bandido ou polícia?

4. “O jogo do anjo”, de Carlos Ruiz Zafón

Um escritor nunca esquece a primeira vez que aceita umas moedas ou um elogio em troca de uma história. Nunca esquece a primeira vez que sente o doce veneno da vaidade no sangue e acredita que, se consegue que ninguém descubra a sua falta de talento, o sonho da literatura será capaz de colocar um teto sobre a sua cabeça, um prato quente ao final do dia e o que mais deseja: seu nome impresso em um miserável pedaço de papel que seguramente viverá mais que ele. Um escritor está condenado a recordar esse momento, porque então já está perdido e sua alma tem um preço.

  • Genial, não?! Esse livro é a segunda parte da saga de “A sombra do vento”. No mês de novembro vai sair na Espanha a quarta parte, “O labirinto dos espíritos”.

5. “Numa e ninfa”, de Lima Barreto (conto)

Na rua não havia quem não apontasse a união daquele casal. Ela não era muito alta, mas tinha uma fronte reta e dominadora, uns olhos de visada segura, rasgando a cabeça, o busto erguido, de forma a possuir não sei que ar de força, de domínio, de orgulho; ele era pequenino, sumido, tinha a barba rala, mas todos lhe conheciam o talento e a ilustração. Deputado há bem duas legislaturas, não fizera em começo grande figura; entretanto, surpreendendo todos, um belo dia fez um ‘brilharete’, um lindo discurso tão bom e sólido que toda a gente ficou admirada de sair dos lábios que até então ali estiveram hermeticamente fechados.

  • Esse primeiro parágrafo eu escolhi, porque Lima contou toda uma história, genialmente descrita, em poucas palavras.

6. “Banguê”, José Lins do Rêgo

Afastara- me uns dez anos de Santa- Rosa. O engenho vinha sendo para mim um campo de recreio nas férias do colégio e da universidade. Fizera- me um homem entre gente estranha, nos exames, nos estudos, em casas de pensão. O Mundo cresceu tanto para mim que Santa- Rosa se reduzira a um grande nada. Vinte e quatro anos, homem, senhor do meu destino, formado em Direito, sem saber fazer nada. Nada de grande tinha aprendido, nenhum entusiasmo trazia dos meus anos de aprendizagem. Agora tudo estava terminado. Um simples ato de fim de ano, e a vida devia tomar outro rumo.

  • É um dos meus livros preferidos da literatura brasileira. O ar melancólico, o romantismo, o amor impossível são os seus principais ingredientes. O primeiro parágrafo dá o tom que acompanha todo o livro. Leia a resenha aqui.

7. “Saber perder”, de David Trueba

O desejo trabalha como o vento. Sem esforço aparente. Se encontra as velas estendidas nos arrastará à velocidade de vertigem. Se as portas e  janelas estiverem fechadas, golpeará durante um tempo em busca das gretas ou fissuras que lhe permitirão filtrarem- se. O desejo associado a um objeto de desejo nos condena a ele. Mas há outra forma de desejo, abstrata, desconcertante, que nos envolve como um estado de ânimo. Anuncia que estamos prontos para o desejo e só nos falta esperar, soltar as velas, que sopre o vento. É o desejo de desejar.

  • Acho genial a analogia que o autor fez sobre o desejo de uma forma poética e certeira. A tradução ao espanhol é minha, se você pegar alguma edição em português, pode ser que esteja diferente.

 8. “O Grande Gatsby”, Francis Scott Fitzgerald

Na minha primeira infância meu pai me deu um conselho que, desde então, não cessou de dar- me voltar pela cabeça.
‘Cada vez que te sintas inclinado a criticar alguém- me disse- tenha presente que nem todo mundo teve as suas vantagens…’

  • Na verdade, são os dois primeiros parágrafos, precisei do segundo para completar o primeiro. Adoro o conselho do pai do personagem, acho que serve pra todo mundo.

9. “O professor”, de Frank McCourt

Já estão chegando.
E eu não estou preparado.
Como iria estar?
Sou um professor novo, e estou aprendendo com a prática.

Os quatro primeiros parágrafos carregados de significados. A falta de preparação e prática nas universidades (do mundo!) fazem com que os recém- formados utilizem, sem querer, os alunos como cobaias, na base do erro e acerto, como se fossem seu laboratório, experimentos científicos. Esse livro (vai ter resenha!) é autobiográfico, o professor americano Frank McCourt conta as suas experiências em mais de 30 anos de profissão.

10. Anna Karenina, Liev Tolstói

familia

Todas as famílias felizes são semelhantes; cada família infeliz é infeliz a seu modo.

Um dos melhores livros de um dos maiores escritores da literatura mundial, “Anna karenina”, começa assim, com essa oração curtinha e uma sentença pra pensar.


Você leria algum desses livros por causa do seu primeiro parágrafo?

O novo romance do espanhol Carlos Ruiz Zafón


Quem ainda não leu “A sombra do vento” do espanhol Carlos Ruiz Zafón, coloque na lista, o livro é muito bacana!

A história acontece na primeira metade do século XX, na cidade de Barcelona, a atmosfera é misteriosa, intrigante. O personagem Daniel Sampere entra em uma biblioteca, “O cemitério dos livros esquecidos”, e encontra um livro maldito que vai mudar a sua vida. O romance foi lançado em 2001, eu li em 2002, quando cheguei na Espanha, nem tinha esse blog ainda. Vou reler (espero que em breve) para deixar a resenha aqui.

Na sequência, Zafón lançou em 2008 “O jogo do anjo”, que é a segunda parte de “A sombra do vento”.

Depois, em 2012, a história continuou com “O prisioneiro do céu”, e no próximo dia 17 de novembro, virá a quarta sequência, ” O labirinto dos espíritos”, livro muito esperado pelos fãs.

Abaixo, a edição espanhola que será lançada pela editora Planeta:

14183823_1363793190316940_4840548737841620453_n

No site  da editora Planeta Brasil não há ainda notícia sobre o lançamento do livro no país, mas suponho que não vai demorar muito.

Dica de livro: “A festa da insignificância”, de Milan Kundera


Milan Kundera é tcheco e tem 87 anos. Muito famoso pela obra “A insustentável leveza do ser” (1983, leia a minha opinião sobre o livro em 2010). O autor não é só romancista, já experimentou vários gêneros literários:  a poesia, ensaio, teatro e contos. Ele mora em Paris desde a década de 70, exilou- se na França por causa de política, possui a cidadania francesa. Paris é o cenário do seu último romance publicado em 2014, depois de muitos anos de silêncio.

São histórias paralelas de fatos aparentemente “insignificantes” para a humanidade, mas de suma importância para o indivíduo, afinal é a composição do seu mundo interior, a alma, o pensamento, a dor, prazer, tristeza e a alegria.

Um livro que começa cinematográfico, dá pra imaginar facilmente a cena: Alain passeia em um dia de verão pelas ruas de Paris e observa as moças usando blusas que deixam o umbigo de fora. Reflete sobre o erotismo que pode provocar partes do corpo feminino, mas não consegue encontrar uma saída para o umbigo. Parece que o sexo é um tema recorrente na obra do autor, em “A insustentável leveza do ser”, ele também aborda o assunto.

Ao mesmo tempo que Alain, Ramón passeia pelo Jardim de Luxemburgo, onde acontece uma exposição de Chagall. Tanta gente, que decide dar meia- volta. Nota- se claramente o seu problema com o gênero humano, a impressão é de um sujeito misantropo.

Enquanto Ramón desiste da exposição lotada, D’Ardelo entra em uma desagradável consulta médica: teria ou não câncer?

A obra tem um ritmo rápido e divertido. São capítulos muito curtinhos e pode- se dizer que esse livro é um resumo de toda a sua obra. Cada personagem, dizem, possui algum elemento de obras anteriores, como “A lentidão”e “A imortalidade”, por exemplo.

Incorporam- se na história: Charles e Calibán. Todos são amigos.

No meu vocabulário de descrente, uma só palavra é sagrada: a amizade. (p. 32)

O mais velho é Charles, que reflete sobre o tempo e a memória, uma verdade incontestável (livre tradução):

– O tempo corre. Graças a ele, primeiro vivemos, o que quer dizer que já fomos acusados e julgados pelas pessoas. Depois morremos e permanecemos ainda alguns anos entre os que nos conheceram, mas logo se produz outra mudança: os mortos passam a ser mortos velhos, dos que ninguém se lembra e desaparecem no nada; tão só alguns quantos, muito, muito poucos, imprimem seu nome na memória do povo, mas sem testemunhas confiáveis, sem uma só recordação real, passam a ser marionetes… (p.33-34)

Embora tenha alguns momentos assim profundos e emotivos como o descrito acima, em geral, a obra desprende bom humor, além de ser imprevisível e surpreendente.

Apesar de Milan Kundera morar há mais de 40 anos em Paris, sua literatura não nega as suas origens. Personagens e histórias da velha União Soviética são citados constantemente. Ser imigrante é assim: saímos do nosso país, mas ele jamais sai de nós.

Como vocês não lêem textos muito grandes, não vou contar muito mais. Leia, esse é um bom livro!

Para os novos leitores que estão chegando e ainda não sabem, eu moro na Espanha, por isso leio quase sempre edições espanholas como da foto abaixo.  Mas, você pode encontrar esse livro no Brasil  (em promoção) e em Portugal (com 10% de desconto).

O desenho da capa foi feito pelo próprio Kundera:

kun

Kundera, Milan. La fiesta de la insignificancia. Editora Tusquets, 2014. 138 páginas (se quiser esta edição, clique aqui, 14,90 euros).

REDES SOCIAIS:

Facebook (clica).

Instagram: Falando em Literatura

SnapChat: falandoemlitera

Twitter: @falandoemlitera

Youtube (clica).