Uma das bibliotecas mais antigas (e lindas!) do mundo


No último sábado (02/12), visitei uma das bibliotecas mais impressionantes do mundo: a Real Biblioteca. Ela fica na cidade de El Escorial e pertence à comunidade de Madri, Espanha. A biblioteca (1584) fica  num complexo de edifícios: há um monastério, uma catedral, o palacete dos Borbóns, e no subterrâneo, há várias salas onde estão sepultados todas as gerações da família real espanhola. Quem criou a biblioteca foi o rei Felipe II. Ele comprou os primeiros livros, um lote com 42 volumes e foi adquirindo raridades pouco a pouco.

A foto abaixo é do Salão Principal, Salão de Impressos (porque estão guardados livros impressos antigos) ou Salão dos Frescos (por causa do teto), pintado por Pellegrino Tibaldi e seus colaboradores.

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A Real Biblioteca, que fica na cidade espanhola “El Escorial”. (Foto: Fernanda Sampaio)

Há tesouros da humanidade guardados nesse biblioteca. Livros raríssimos, únicos, como “O batismo”, um manuscrito de Santo Agostinho ou “Evangelhos gregos” de São João Crisóstomo ou o “Códice áureo” escrito com letras de ouro.

As cinquenta e quatro estantes de madeira foram feitas pelo italiano Giuseppe Freccia e estão organizadas por tema e tamanho.

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Estantes de madeira (Foto: Fernanda Sampaio)

Uma das peças mais interessantes do salão é uma esfera que que representa o sistema solar, segundo Ptolomeu, e era usada para estudar o sistema solar.

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O globo de Ptolomeu. (Foto: site da Real Biblioteca)

A biblioteca, como todo o “Sitio Real de San Lorenzo del Escorial” pertence ao governo da Espanha.

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Uma das vistas da biblioteca com o retrato do rei. (Foto: Fernanda Sampaio)

Essa é uma das vistas do interior do monastério:

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Monastério onde fica a Real Biblioteca, uma das mais belas e antigas do mundo. Nesse momento caía neve. (Foto: Fernanda Sampaio)

E por último, a fachada exterior principal:

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Fachada principal (foto: Fernanda Sampaio)

Parte do acervo está digitalizado, você pode consultar aqui.

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Resenha: Orlando, de Virgínia Woolf


Embora diferentes, os sexos se confundem. Em cada ser humano ocorre uma vacilação entre um sexo e outro; e às vezes só as roupas conservam a aparência masculina e feminina, quando, interiormente, o sexo está em completa oposição com o que se encontra à vista. (P.105)

Leram o trecho acima? Virginia Woolf, em 1928, entendeu o problema de gênero melhor que muitos entendem agora. Vamos entrar no mundo Virgínia Woolf comigo?! Vem!

A inglesa Virginia Woolf (Adeline Virginia Stephen, Londres, 25/01/ 1882– Lewes, 28/03/ 1941) foi uma escritora clássica do romance moderno, cultuada e reverenciada nos quatro cantos do mundo.

Virginia teve um romance, durante anos, com Vita Sackville- West, poetisa inglesa, enquanto estava casada com Leonard Woolf, funcionário público e também escritor. Virginia escreveu um diário contando as suas experiências. Que será que o marido pensava disso? Era consciente, consentia ou ignorava a situação? Essa parte fica pra outra ocasião.

Infelizmente, a autora cometeu suicídio jogando- se no Rio Ouse, em Sussex, perto de sua casa, aos 59 anos. Ela sofria, tudo indica, de um transtorno bipolar; uma depressão a fez tomar a fatal decisão. Esses transtornos psicológicos a acompanhavam desde os 13 anos. A escritora deixou uma carta de despedida ao marido, disse não mais suportar as crises, ouvia vozes, temia a loucura, leia.

Sua obra prolixa é composta de ficção e não- ficção.

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Virgínia Woolf em 1902, aos 20 anos. A mesma foto da capa da edição que li.

1427054086_112243_1427054854_noticia_normalVirginia em 1931.

VitaSackvilleWestVirginiaWoolf1933Virginia Woolf e Vita Sackville-West na “Monk’s House”, a casa da autora, em 1932.

woolfO casal Woolf

“Orlando” começa com um prólogo da autora com agradecimentos a vivos e mortos, escritores, amigos e familiares. O título do livro é o nome “do” protagonista da história. As aspas em “do” serão explicadas depois. Presta atenção.

A obra de Virgínia Woolf caracteriza- se pelos monólogos interiores, o latente fluxo de consciência dos personagens,  no entanto, “Orlando” não tem especialmente essa característica, é a exceção.

Sua relação homossexual com Vita Sackville-West foi refletida, dizem, em “Orlando”. Vita, nos anos 20 e 30, era mais conhecida e respeitada que Virginia Woolf. Segundo o seu filho, “Orlando” “é uma longa e encantadora carta de amor”. Mas isso eu soube depois da leitura, eu nunca pesquiso antes de ler um livro para não ser influenciada, para não direcionar a leitura, mesmo porquê, temos que nos focar no texto. A vida dos autores é questão secundária, curiosidade histórica, podemos tecer pontes entre o autor e obra, mas o principal  tem que ser o texto mesmo. Mas, nesse caso, o livro ganha um sentido especial conhecendo esses dados.

Eu não sabia absolutamente nada da história, o que iria encontrar era uma incógnita.  O título e a capa não dão nenhuma pista.  Levei um susto, fiquei chocada com a primeira página: um rapazinho brinca com a cabeça cortada de um mouro, vítima do seu pai ou avô.  Pensei que a história acontecia na Idade Média (período longo entre os séculos V e XV). Não, é um pouco depois. Orlando tem 16 anos no início da história, vive na época elisabetana, século XVI, era poeta, ou pelo menos, tentava ser. A história termina, cronologicamente, no século XX, precisamente no dia 11/10/1928. O livro é a biografia de Orlando, no final, com 36 anos. Impossível? É uma alegoria utilizada para demonstrar que uma pessoa pode viver séculos em pouco tempo.

Impressionou- me como a autora descreve os personagens com muita precisão, não só a aparência, mas as características expressivas dos personagens, genial! Ela desenha e dá vida aos personagens perfeitamente com analogias, dá para imaginá- los como em um filme e inseridos em seus cenários. É isso: literatura “fílmica” ou teatral. Não é à toa que muitas obras literárias são adaptadas para teatro e cinema. Essa obra teve uma adaptação para o cinema em 1992.

Veja só um trechinho da descrição do rosto de Orlando, praticamente um retrato- falado :

(…) O vermelho das suas faces era coberto de uma penugem de pêssego; a penugem do buço era apenas um pouco mais densa que a das faces. Os lábios eram finos e levemente repuxados sobre os dentes de uma deliciosa brancura de amêndoa. Nada perturbava o breve, tenso vôo do nariz; o cabelo era escuro, as orelhas pequenas e bem unidas à cabeça. (p. 8)

Orlando cresceu lindo e galanteador.  Conheceu uma rainha russa, apaixonaram- se, viveram um idílio breve no inverno inglês. A mulher foi embora sem prévio aviso. Orlando primeiro ficou desesperado, depois entrou em uma profunda melancolia e tristeza.

O narrador mantém um diálogo com o leitor, citando-o. Essa voz exerce de biógrafa de Orlando.  Veja se essa descrição não corresponde com o que sabemos de Virgínia e seu caráter, mas estes atribuídos a Orlando (p.41):

(…) Orlando era uma estranha mistura de muitos humores– melancolia, indolência, paixão, amor à solidão, sem falar em todas aquelas contorções e sutilezas de temperamento que foram indicadas na primeira página…”

Orlando gostava de livros desde criança, tinha hábito de ler até tarde da noite:

“Orlando era um fidalgo afligido pelo amor à literatura.”(p.42)

O personagem sofre dessa “doença”, como chama o narrador. Ele lê seis horas diárias “noite adentro”. O criados da casa dizem que devia abandonar os livros, pois são para “paralíticos e moribundos”. Especialmente nesse contexto histórico, os escritores eram considerados cidadãos de segunda classe, operários, algo para castas inferiores. Portanto, para a família abastada e nobre de Orlando, esse ofício era um desgosto.

O escritor de cabeceira de Orlando é Thomas Browne, inglês que viveu no século XVII. Esse autor realmente existiu e viveu muito para a época, chegou quase aos 80 anos (77), um verdadeiro milagre. Nasceu e morreu no mesmo dia, 19 de outubro.

Além de Browne, há várias citações de histórias mitológicas: “A morte de Ajax”, “O nascimento de Príamo”, “Ifigénia de Áulide”, “A morte de Hipólito”, “Meleagro” e a “A volta de Ulisses”. Orlando lê, escreve e guarda seus escritos em gavetas de madeira.

(…) Assim tinham sido escritas, antes dos seus vinte e cinco anos, umas quarenta e sete comédias, histórias, romances, poemas, uns em prosa, outros em verso, uns em francês, outros em italiano, todos românticos e todos longos.” (p. 43)

Orlando não esquece a amada que o deixou. Faz- se mil perguntas sobre o motivo e não encontra resposta. Foi aí que tentou substituir seu rosto por outro. Começou a escrever.

Conheceu um poeta (pobre), Nicholas Greene, que provoca em Orlando uma espécie de atração- repulsa. O admira e o repele ao mesmo tempo. Depois acaba rendido aos encantos e inteligência do poeta, hospedado em sua casa por uma semana. Orlando encantado com o homem no seu palácio; o poeta, ao contrário, completamente entediado. Ele preferiu retornar para o seu apartamento minúsculo e cheio de gente. Escreve um poema satirizando Orlando, deixando- o em ridículo perante toda a sociedade.

Orlando afasta- se das mulheres e dos poetas. Dá festas homéricas, suntuosas, para milhares de pessoas. Gastou metade da sua fortuna. Decide sair de Londres e vai para Constantinopla.

Acontece algo completamente insólito: Orlando, aos trinta anos, cai em um sono profundo, fica em estado de letargia durante uma semana. Ninguém o consegue acordar. Depois de sete dias, aparecem três santas, a Pureza, a Castidade e a Modéstia. É assim, com esse tom místico e fantástico, que Orlando transformou- se em mulher. Transgênero sem dor, sem espanto, sem cirurgia. Orlando não questiona nada, aceitou sem nenhum assombro o novo gênero.

Muda de vida, “a” Orlando agora, viaja com um grupo de ciganos, absorve a vida nômade, toma banho quando dá, dorme vendo estrelas. Mudou de vida completamente, nada de luxo, longe do conforto da sua casa com trezentos e sessenta e cinco quartos.

Mas, começa a ter umas diferenças com os ciganos, sente falta da vida de luxo, da sua família de mais de quatrocentos anos a qual recordava com muito orgulho. Depois envergonhou- se, os ciganos tinham uma história de mais de dois mil anos e não eram muito piores  que o povo “civilizado”.

(…) Nenhuma paixão é mais forte, no peito humano, que o desejo de impor aos demais a nossa própria crença. Nada também corta tão pela raiz nossa felicidade e nos encoleriza tanto como sabermos que outros menosprezam o que exaltamos. (…) Não é o amor à verdade, mas o desejo de prevalecer (…) (p.83)

Orlando acabou indo embora, cansou da vida nômade, sentia falta de tinta e papel, de escrever, sentia orgulho do seu passado que os ciganos desprezavam. Foi embora na hora certa, pois já estavam planejando cortar- lhe o pescoço. Vendeu seu colar de pérolas e comprou um enxoval de mulher. Voltou para Londres.

Essa é uma obra que fala muito sobre literatura. Há trechos interessantíssimos sobre o processo do fazer literário, as fases que passa o escritor. Só por isso já merece ser lida.

(…) O ofício do poeta, portanto, é portanto mais alto de todos. Suas palavras alcançam o que para outros é inatingível. (p.96)

A autora, creio, quis mostrar como seria se as pessoas mudassem de gênero. Um machista que virasse mulher, deixaria de sê- lo? As regras sociais começariam a mudar? Ela estava irritada porque não podia nadar com aquela saia enorme.

(…) devo, então, começar a respeitar a opinião do outro sexo, embora me pareça monstruosa? Se uso saias, se não posso nadar, se tenho que ser salva por um marinheiro, Deus meu!”‘ Gritou, ” que hei de fazer? (P.87)

Orlando descreve situações cotidianas que as mulheres são obrigadas a viver, todas de importância inferior, subjugadas e serviçais.

Ela conhece os dois lados, foi homem durante 30 anos. Sempre amou as mulheres e chega à conclusão que não precisa mudar isso por causa do seu corpo feminino. Ama uma mulher, Sacha, a rainha russa.

Engraçado é que quando ela chegou em casa depois de muito tempo fora e como mulher, nenhum criado duvidou que fosse Orlando e nem estranhou a sua nova condição.

Há tempos, antes de viajar para a Turquia, Orlando tinha conhecido uma mulher com estranhos modos, ele não tinha simpatizado muito com ela. Essa “mulher”, Harry na verdade, volta dizendo ser um homem e que havia vestido- se de mulher para conquistá- lo, pois estava apaixonado. Essa confusão de gêneros, creio, é para mandar o recado de que gente pode se apaixonar por quem for. Se não existissem regras, moralismo religioso, vergonhas próprias e alheias, convenções, amarras, tabus…como seria o amor, o verdadeiro? Dentro dessa parafernália toda de impedimentos, há gente que escolhe simplesmente amar. Mas podia ser sem tanto sofrimento, não é?

Se isto  é amor (…) há no amor alguma coisa profundamente ridícula. (p.99)

O arquiduque Harry fez- lhe uma declaração apaixonada de amor. Harry ama Orlando, seja homem ou mulher, mas não é correspondido.

Do amor ao que nos cobre. Sobre a influência das roupas, segundo a filosofia:

Alguns filósofos diriam que a mudança de vestuário tinha muito que ver com isso. Embora parecendo simples frivolidades, as roupas, dizem eles, desempenham mais importante função que a de nós aquecerem, simplesmente. Elas mudam a nossa opinião a respeito do mundo, e a opinião do mundo a nosso respeito. (P.104)

Todos temos os dois gêneros dentro de nós, em maior ou menor grau. Não há mal algum assumir isso, há que estar aberto para aceitar o que não é convenção, para normalizar a situação das pessoas que têm uma aparência que não corresponde com o que sentem.

No Brasil e no mundo, o assunto dos transgêneros está nos meios de comunicação, porque gente famosa passou pelo processo físico de transformação. O famoso cartunista Laerte decidiu assumir publicamente o seu lado feminino aos 60 anos; o mesmo aconteceu com o padrasto das Kardashians, Bruce Jenner (agora Caitlyn Jenner); também a Tammy Miranda.

A cineasta brasileira Anna Muylaert ( tive o prazer de entrevistá- la em Madri) lançou um filme em fevereiro no Festival de Berlim: “Mãe só há uma”, em cartaz no Brasil agora. A história é baseada em fatos reais, aquele caso do menino Pedrinho que foi roubado na maternidade. No filme, Pierre (Felipe, na verdade) foi sequestrado por uma mulher que o criou como seu filho. Foi encontrado pela família biológica 17 anos depois. Felipe/ Pierre considera a mulher que foi presa a sua verdadeira mãe. Anna “brinca” com a coisa do gênero/sexualidade do personagem Pierre. Ele é bissexual, aparência andrógina, maquia- se, tem uma banda de rock, pinta as unhas. A liberdade de ser o que quiser ser. Uma pessoa pode ser muitas coisas. Orlando também brinca com a dualidade, por vezes usa roupas unissex.

Outro filme ou livro de David Ebershoff, que você pode conhecer mais sobre o assunto é o “Garota dinamarquesa”, que conta a história verídica de Lili Elbe, parece que foi o segundo caso no mundo de cirurgia de mudança de sexo.

A tolerância e o respeito são fundamentais. Se você não gosta, o problema está com você, não com o outro. Precisa educar- se para aceitar quem não é igual a você. A única coisa triste e feia é ver gente infeliz devido às velhas fórmulas tradicionais, desgastadas e que não servem para todos…

 Orlando, agora vestido de homem e comportando- se como tal, mesmo sabendo- se mulher, dá um passeio noturno e encontra Nell, que não se importa de descobrir que Orlando é também mulher. Orlando achava uma vantagem poder desfrutar dos dois gêneros:

(…) Parece que não tinha dificuldade em sustentar o duplo papel, pois mudava de sexo muito mais frequentemente do que podem imaginar os que só usarem uma espécie de roupas. E não pode haver nenhuma dúvida de que com esse artifício colhia uma dupla colheita, que os prazeres da vida aumentavam e sua experiência se multiplicava. (p. 123)

 Orlando pode ser interssexual. Sua aparência andrógina só pode ser diferenciada pelas roupas.

Atribui- se à Vita o personagem de Orlando.  Mas a questão dessa briga interior, quem sabe,  não serviria para Virginia também? Seria a gênese dos problemas psiquiátricos da autora? Ou não… quem sabe?

Procurei a felicidade muitos anos e não a encontrei; procurei a fama e perdia- a; o amor,  não o conheci; a vida –e eis que a morte é melhor. Conheci muitos homens e mulheres (…) não entendi nenhum. É melhor que fique aqui em paz, só com o céu em cima de mim. (Orlando caído no chão, no bosque, com o tornozelo quebrado, p. 139).

As dores da alma podem ser muito maiores e devastadoras que as físicas.

Mas, sossega…essa história tem um final feliz. “Nada muda”, mas num espaço de “três segundos e meio”, tudo pode mudar.

Uma das coisas mais interessantes desse livro é a questão do tempo/relatividade/intensidade. Tem gente que vive 200 anos, mas só tem 36 anos de idade, como Orlando. Há amores que duram pouco tempo cronológico, mas duram milênios pela intensidade que implicam; já outros, duram trinta anos, mas caberiam em um só dia.

Que vinha a ser, então, a vida? (p.159)

Vida? Literatura? Converter uma na outra? (p.160)

A verdadeira substância da vida, agora (…) é mágica. (p.169)


A edição que eu tenho é muito especial. É de 1978, traduzida pela poetisa Cecília Meireles: “a tradução que a Nova Fronteira agora reedita foi feita por Cecília Meireles. Trata- se não de uma tradução literal; palavra por palavra, do original. Trata- se como toda grande tradução, de um novo original. Quase como se Virginia Woolf fosse uma grande escritora brasileira.”

Curiosidade: esse livro foi encontrado em  um sebo em Barcelona. “Orlando”, em perfeito estado de conservação, parece nunca ter sido lido pela sua primeira dona, a Ana do Rio de Janeiro, em 1989, há 27 anos:

13615132_631078893714341_7022206275252763066_nQuem será Ana? Ana, cadê você?! Como o seu livro foi parar do outro lado do Atlântico?!

Resenhão, não é? Muito extenso. Ainda assim, creio que passaram detalhes e matizes que ainda vou ter que polir. Como disse a princípio, é a minha primeira incursão em Virgínia Woolf.

Obrigada pela paciência e por ter chegado até o final. Um livro intenso, que levanta muitas questões importantes, que fazem refletir sobre o tempo, a vida e a morte, o ser, a sexualidade e gênero, a sociedade, o amor e o fazer literário.

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Woolf, Virginia; Orlando, Coleção Grandes Romances. Nova Fronteira, 1978, Rio de Janeiro. 185 páginas

Você sabe o que é “Borderline”?


“Borderline” é uma doença mental que muitas vezes é confundida com depressão ou síndrome bipolar.  A doença deixa a pessoa sempre no limite para o bem ou mal.  Acho interessante esse assunto e deixo aqui um release com uma dica de livro (ficção) que aborda o assunto:

Nas fronteiras de Alice, livro escrito por Marcelo Siqueira, discute como é possível reencontrar o amor, transcendendo questões como idade, doenças mentais e ética

Com mais de 80 mil fãs no Facebook, o livro Nas fronteiras de Alice do autor Marcelo Nogueira já é um sucesso. A obra aborda os complexos temas do transtorno de personalidade e do adultério entre um professor e uma aluna, porém mantendo a narrativa repleta de amor e suspense.

Nas Fronteiras de Alice é um romance contemporâneo, narrado como um flashback da vida do protagonista Yuri – um renomado professor de História de 40 anos de idade e filho de um desaparecido político durante a ditadura militar brasileira.

Casado e passando por um momento de reflexão na vida, Yuri conhece Alice durante um Simpósio em Porto Alegre. A jovem estudante de Literatura, possui uma personalidade plural e inconstante, além de uma beleza única.

“Não existia mais nada naquele instante, não havia cenário, personagens, contexto. Existia apenas aquela menina, aquela menina de saia xadrez que me deixou sólido, sem ar e suspenso da realidade que me rodeava. […] Era ela. Pequena, magra, de pele alva e de andar flutuante. Seus olhos levemente puxados, as maçãs do rosto elevadas que se harmonizavam com seu pequeno nariz um pouco adunco. Tinha uma boca desenhada com lábios vermelhos convi­dativos. Emoldurando esse exótico rosto de princesa de revista em quadrinhos, cabelos negros, lisos, mas com algumas ondula­ções, que cobriam sua nuca e mal chegavam a seus ombros.” (p. 33)

Com um jeito sincero, divertido e irônico, e também com um certo ar de mistério e tristeza no olhar, Alice conquista Yuri e os dois iniciam um romance inesperado de intensa entrega. Nesse relacionamento, cada um será exposto às suas fraquezas e desejos mais íntimos, provocando comentários e incompreensões de pessoas próximas, principalmente na questão das múltiplas personalidades.

“– Mas você não precisa ter medo de mim – disse quase triste.
– Eu não tenho medo de você – falei firmemente. – Conte-me mais.
– A Síndrome de Borderline afeta muito a vida social das pessoas, pois as dificulta em seus relacionamentos. Temos oscila­ções de humor e somos muito impulsivas, às vezes, tornamo-nos agressivas. Nós nos irritamos facilmente e perdemos o interesse rapidamente, por isso que não conseguimos manter amizades e relacionamentos por muito tempo e até mesmo” (p. 222)

Por ser um relacionamento proibido, ambos sofrerão as consequências das decisões tomadas. Nas Fronteiras de Alice é uma história de encontros, escolhas e descobertas. Divertida em alguns momentos e intensa em outros. A narrativa transmite para o leitor sensações de nostalgia, erotismo, paixão e cumplicidade, sendo a primeira parte de uma trilogia.

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Sobre o autor: Marcelo N. Siqueira é professor, arquivista, historiador e paleógrafo. Possui diversas publicações acadêmicas, mas este é seu romance de estreia, fruto de suas observações e vivências ao longo dos últimos anos. Sua paixão por literatura e música, sobretudo o jazz, é percebida ao longo de suas narrativas. Nas redes sociais, possui mais de cem mil seguidores, principalmente na fanpage de Nas fronteiras de Alice, que, em menos de seis meses, já atingiu a marca de dez milhões de visualizações. Marcelo é carioca, casado, tem dois filhos e mora no Rio de Janeiro.

(Texto fornecido pela editora)

Está chegando: 75ª Feira do Livro de Madrid (com uma “pitada” de desânimo)


Feiras de livros são oportunidades fantásticas para conhecer todos os tipos de autores, de todos os gêneros e lugares. A Feira do Livro de Madri, cidade onde moro, dura 22 dias e, normalmente, traz um país convidado. Esse ano: a França. Isso implica que teremos a oportunidade de conhecer autores franceses contemporâneos. Já contei que tenho uma quedinha pelos franceses? Leia aqui, aqui, aqui, aqui e aqui.

A lista de escritores que estarão presentes já começou a ser atualizada, até o dia da feira irão entrando mais nomes. Por exemplo:

No dia 5 de junho, você poderá conhecer em pessoa o dono do melhor restaurante do mundo, Ferrán Adrià e seus livros com receitas maravilhosas.

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Julia Navarro, escritora espanhola, essa vale a pena conhecer. Eu li o “Dime quien soy” e gostei bastante. Ela vai estar em vários dias, melhor consultar a lista.julia

Ainda não divulgaram os escritores franceses que estarão presentes.

A lista, por enquanto, deixou- me muito desanimada. Viram a minha animação do início? Pois é, c’est fini. A literatura de não- ficção deve entrar, pois há coisas muito úteis que precisamos. Eu mesma citei o Ferràn Adrià. Há ensaios, divulgação científica, dicionários, fotografia, gastronomia, muita coisa bacana, mas não vale tudo.

Nos últimos três anos, principalmente, a onda de youtubers e “gente nada a ver com literatura” invadiram a feira e o nosso mundo literário. A literatura vai minguando. Qualquer um acha que pode escrever um livro. Poder até pode, mas não é literatura. Há livros muito respeitáveis de não- ficção, que são úteis e necessários, mas não é o caso da lista que acabei de ver. Desânimo.

Isso pode ter consequências muito negativas: a juventude só vai ler porcaria; os escritores decentes não vão querer participar da palhaçada; os consumidores de literatura (ficção, artística, principalmente) deixarão de ir e a feira acabará se transformando numa festa de babacas, adolescentes alucinados e curiosos querendo tirar fotos com artistas e youtubers.

Eu mesma, na feira de 2014, fui cedinho para “ficar na fila”, pois adoraria conhecer Luis Goytisolo (1935) pessoalmente. Um escritor de primeira linha, membro da Real Academia Española (irmão do também escritor, o célebre Juan Goytisolo), escreveu livros incríveis como “Antagonía”, uma obra- prima. Esse autor espanhol é comparado com Proust. Cheguei esbaforida, “Ué, cadê a fila?!”. Não havia ninguém. A minha surpresa foi tanta que o autor percebeu. “Não sou um autor popular”. A vantagem é que pude conversar bastante com ele e tenho o privilégio de ter quase toda a sua obra (carinhosamente) autografada. Mas, não consegui evitar a sensação de tristeza e desencanto: “se ninguém lê um autor desses…que fazemos?!”

Caramba, nosso espaço já é muito restrito, será mesmo que eles têm que invadir a nossa praia?! Claro que sim, as editoras e “escritores” (que normalmente nem escrevem, alguém faz isso por eles) querem é ganhar dinheiro, não importa com quê. Oportunistas.

Cartel FLM16O cartaz desse ano é de Emilio Gil, um artista gráfico.

Vou aguardar para ver se melhora. Será que virá pelo menos algum desses escritores franceses: Patrick Modiano, Pierre Lemaitre, Fred Vargas, Laurent Mauvignier, J. M. G. Le Clézio, Frédéric Beigbeder? Senão, fico aqui com a minha maravilhosa biblioteca.

A biblioteca dos Templários, Ponferrada, Espanha


Há lugares no mundo que parecem mágicos, acabados de sair dos livros de contos de fadas ou dos filmes, mas que são reais, eles existem. Um desses lugares é o Castelo dos Templários em Ponferrada, Espanha.

IMG_7109  O castelo é uma fortaleza construída no século XV por D. Pedro Álvarez de Osório, Conde de Lemos. Há um castelo anterior em ruínas, do século XI, no mesmo terreno. A cidade era dominada pela “Ordem do Templo”, quando a Igreja tinha muito, mas muito poder. Ao redor do castelo formou- se uma vila romana.

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Dentro do Castelo há uma biblioteca muito especial com uma exposição chamada “Templum Libri” (“Templo do Livro” em latim) com alguns dos livros mais belos da história, que até pouco tempo estavam ocultos, pertenciam à coleções privadas, estavam em monastérios, universidades e museus. Primeiramente, tais livros só podiam ser apreciados pela igreja e realeza, a nobreza e a burguesia, quem os tinha, detinha o poder, o conhecimento.

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A maioria deles são códices e manuscritos com temáticas religiosas, ciências físicas e humanas, livros impressos ilustrados com grande valor artístico. A exposição é composta por fac-símiles (cópias idênticas às originais, costuma- se fazer quando são livros muito importantes, raros e de valor histórico) de livros, principalmente bíblias, de todo o território europeu.
IMG_7153O térreo da biblioteca:

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A coleção de bíblias é imensa, preciso de um post só para falar delas:

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A paixão pelo livro: o livro como portador de conhecimentos e obra de arte constitui uma das contribuições mais notáveis criadas pelo ser humano, o melhor da nossa herança cultural e intelectual.IMG_7292

Esses fac- símiles colocam diante dos nossos olhos um passado longínquo, que nos faz conhecer mais sobre nós mesmos como humanidade.11873484_504999292988969_4228809097412228199_n“O livro das horas”, de Medici Rothschild. Final do século XV, Inglaterra.IMG_7397

Os Cavaleiros Templários faziam parte de uma ordem militar religiosa medieval muito poderosa. Lutavam para defender e ganhar territórios.

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Libri nostri sunt. (“Os livros são nossos”). Vamos desfrutá- los!


Endereço:

 Avda. del Castillo s/n – 24400 Ponferrada- Espanha

http://www.ponferrada.org

A livraria Lello no Porto, a do “Harry Potter”


Voltando das férias com novidades! Visita a uma das livrarias mais lindas do mundo e outra visita a uma das cafeterias mais lindas do mundo, que têm algo em comum, além da beleza, leia:

A livraria Lello e Irmão (1919), na cidade do Porto, já era muito famosa e ilustre antes de aparecer na saga de J.K. Rowling (a autora fará 50 anos no dia 31), “Harry Potter”. A escritora britânica mudou- se para o Porto em 1991, nove meses depois da morte da sua mãe. Ela não deve ter boas recordações, porque disse que esteve no “fundo do poço”. Casou com um português, o casamento fracassou em menos de um ano. Nem tudo foi ruim já que inspirou- se na cidade para escrever sua obra mais famosa, além de ter tido uma filha; sentada no Café Majestic, Joanne terminou de escrever “A pedra filosofal” durante as manhãs; de tarde/noite, dava aulas de inglês numa escola de idiomas (quem foram seus alunos?). J.K. tem uma filha portuguesa, Jessica Isabel Rowling Arantes, que nasceu em 27 de julho de 1993 (faz aniversário três dias antes de sua mãe), a moça é filha de Jorge Arantes.

Joanne Rowling é formada em Letras com francês, além de saber o nosso idioma. No Natal de 1993 ela já estava em Edimburgo sozinha com sua filha de seis meses. Pensa que a vida dos escritores é uma mar-de- rosas? A literatura a salvou (pelo menos da falta de dinheiro).

Essa semana estive na Lello e no Café Majestic. Veja as fotos:

lello1Estilo neogótico, o edifício foi construído especialmente para ser a livraria do francês Ernesto Chardron, que faleceu aos 45 anos. A livraria passou por outros donos até chegar aos irmãos Lello.

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Eu adoro visitar livrarias com história, que foram frequentadas por escritores importantes e gosto de escolher a dedo os meus livros. Eu tinha em mente uma lista que ficou a ver navios. Fiquei surpresa logo na entrada: um rapaz falando inglês organizando a fila e limitando a entrada das pessoas. Como?! Sim, para entrar na Lello existe fila. O sol estava quente, “mas já que estou aqui”, fiquei. Não demorei muito para entrar, descobri o motivo: as pessoas entram, fazem fotos e vão embora. Ninguém compra nada, elas querem ver apenas o cenário da biblioteca da escola de Hogwarts.

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O calor dentro da loja estava insuportável sem ventiladores nem ar- condicionado e ainda com tanta gente barrando as passagens com câmaras, selfies, caras e bocas. Apenas curiosos incômodos e inconvenientes. Escolher livros?! Impossível. Peguei um rapidamente para ter alguma lembrança desse dia. Frustrada, fui para o caixa vazio, comentei com o rapaz que era impossível escolher livros com tanta gente e tanto calor.

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Há uma cafeteria no 1º andar, mas também estava vazia. Parece que uma das mais famosas e visitadas livrarias do mundo não tem uma vendagem à altura e nem digna de toda a sua história. Qual a solução? “Cobrar entrada”, foi o que pensei. E coincidentemente, vi ontem este artigo que diz que a partir de agosto irão cobrar 3 euros para entrar na livraria e serão descontados se a pessoa comprar algum livro. E os clientes fiéis pagarão 10 euros por ano e terão acesso ilimitado. Acho justo. A Lello também é editora, veja aqui o catálogo. O diretor é José Manuel Lello.

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Pelo valor histórico e artístico, além do seu acervo, que conta com literatura variada, portuguesa e livros em inglês, a Lello merece ser visitada. Mas não seja um turista inconveniente, não atrapalhe e nem interrompa, “pode tirar uma foto?”, as pessoas que estão vendo os livros.

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Fotografando as fotógrafas (quatro!) mirando para o alto:

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E depois de visitar a Lello e sair com um livro debaixo do braço, fui tomar algo no Café Majestic .Veja o livro que eu trouxe da Lello, o segundo do americano Henry Miller (Nova York, 1891), “Trópico de Capricórnio”, de 1939 (o primeiro foi “Trópico de Câncer”, 1934). Eu não tinha nada dele e fiquei curiosa. Miller era um tipo boêmio, parece que horrorizou as pessoas na época por seus livros terem conteúdo sexual, foi proibido em todos os países, exceto na França, onde morava. Será que é para tanto? Depois eu conto.

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O Café Majestic é de 1921, mantém o charme da Belle Époque e fica na zona central do Porto, em um calçadão para pedestres (“peões” em Portugal). O café servido realmente é muito gostoso e o croissant com massa de brioche é delicioso, recomendo!

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O interior, que não é tranquilo, os garçons trabalham em ritmo frenético, está cheio de turistas e suas câmaras, não é um lugar que convida à leitura.

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PS: As fotos foram meio que destruídas com o endereço do site em letras garrafais propositalmente, porque as pessoas copiam e não dão o crédito.

O dia em que a terra tremeu em Madri


Pois é, mais essa para o meu “currículo”: senti a sensação da terra tremer! Quer dizer, sacudiu o edifício. Meu primeiro terremoto causou- me uma sensação de estranhamento: “caramba, sou eu ou são as coisas que estão tremendo?!”. Durou apenas uns segundos, pensei que fosse um caminhão pesado que havia passado na rua, mas não ouvi caminhão nenhum passar, silêncio total. Será que sou distraída? Continuei com o que estava fazendo. Duas horas depois, vejo a notícia nos meios de comunicação:

“Às 17:15 h, terremoto  com epicentro em Albacete, na cidade de Ossa de Montiel,  com dois mil habitantes, a 176 Km de Madri, tremor de 5.6 na escala Richter, considerado médio- forte.” (Madri Diario)

Levei um susto ( com efeito retardado)! E se vem outro mais forte e mais perto? Esse edifício aguentaria? Aviso minha filha: ‘se você sentir algum tremor de novo, esconda- se debaixo dessa mesa’. Fiz bem, fiz mal, qual o protocolo para terremotos?! “Nasci num país tropical, abençoado por Deus” e pelas bandas de São Paulo e Bahia, jamais soube de nenhum terremoto. Há outros, mas de terra não.

Com essa história toda lembrei do livro de Saramago, “A Jangada de Pedra”, um dos meus preferidos do autor, onde ele narra magistralmente a sensação de um terremoto. Os animais têm um instinto para perceber as catástrofes naturais, os cães ladram, os pássaros voam, agitação total. A Península Ibérica separa- se do continente, como uma grande jangada de  pedra. O livro é uma metáfora sobre o que aconteceria se a Península ficasse à deriva, longe da Europa.

Em Portugal há um terrível precedente, o grande terremoto de 1755, a cidade de Lisboa foi engolida pelo mar, um tsunami aconteceu depois de um abalo sísmico de máxima intensidade. Quem não morreu afogado, morreu queimado com os incêndios depois, caos e desespero total. A estimativa de falecidos é  bastante imprecisa fala- se de 30 mil, 60 ou 100 mil pessoas, enfim, milhares de pessoas foram vítimas.

Essas tragédias naturais são cíclicas, a ‘teoria do eterno retorno’ de Nietzsche, acontece inexoravelmente na natureza (homem incluído). Mas como na vida nada é absoluto, espero  que a Península Ibérica (Portugal e Espanha) fique assentada no mesmo lugar durante muito tempo.

E com abalos sísmicos ou não, deixo aqui o e-book do livro citado de José Saramago, “A jangada de pedra”, já testei o link e funciona direitinho.

A.jangada.de_.pedra_.José.Saramago

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