Um recado no YouTube pra vocês: oficina literária na próxima quarta!


Na próxima quarta- feira, dia 16 de novembro, os convido para uma oficina literária sobre a obra de Antônio Torres, escritor baiano, membro da Academia de Letras da Bahia e da Academia Brasileira de Letras, um dos meus escritores favoritos.


As oficinas são patrocinadas pelo Itamaraty com o apoio do Consulado do Brasil em Madri.

Veja aqui o meu convite no nosso canal do YouTube

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“Olhos nos olhos”, crônica de Ana Maria Machado


A“Pátria Educadora” apregoada nos slogans continua nos dando lições. E não apenas com oportunos lembretes sobre a herança greco-romana, neste momento em que historiadores protestam contra a alarmante notícia de que a nova Base Nacional Comum Curricular pretende abolir de vez o estudo da antiguidade ocidental, da Idade Média, do Renascimento e do Iluminismo, além de promover uma degola geral em outros temas. Para salvar um pouco da influência clássica, o Ministério Público e a Polícia Federal vão batizando suas ações de modo a nos lembrar alguns pontos dessa rica contribuição cultural. A Operação Erga Omnes sublinhava que a lei se aplica a todos e ninguém a ela está imune, nem mesmo poderosos empreiteiros. A Operação Catilinárias trouxe à memória os discursos de Cícero contra o corrupto conspirador Catilina no Senado romano. Também em dezembro, com seu nome a se referir aos bem situados e bem postos em cargos estratégicos, a Operação Positus foi deflagrada para apurar fraudes e desvios de milhões do fundo de pensão dos Correios, o Postalis.

Mas nem só de latim vive a educação.

Entre as lições que recebemos nesta Pátria Educadora, uma das mais recentes e necessárias nos foi dada em dezembro pelos ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes, no STF, por ocasião do julgamento do rito do impeachment: pessoas consideradas de campos totalmente opostos podem estar de acordo, em assuntos fundamentais e da maior importância, com argumentos poderosos. Foi o que se viu nos votos dos dois na ocasião. Por mais surpreendente que pudesse parecer. Quem não concordava com a opinião deles nesse momento, como a maioria dos juízes que seguiu o voto do ministro Barroso, podia se basear também em um raciocínio igualmente lógico, convincente, bem fundamentado e respeitável. Ou seja, ninguém é dono da verdade. Conversar com amigos (ou mesmo desconhecidos) pode nos mostrar outro ângulo da questão. Não precisamos de um Fla-Flu simplório e redutor, repetindo posições previsíveis, frases feitas e xingamentos, como o que nos últimos tempos parece dominar qualquer possibilidade de troca de ideias e entendimento de outros pontos de vista, diferentes dos nossos.

Esse fenômeno não é novo. O “nós contra eles” se acentua a cada campanha eleitoral, insuflado pela estratégia marqueteira de transformar adversário em inimigo. Piora muito com o uso de redes sociais em reações exacerbadas e imediatas, muitas vezes manipuladas. Piora mais ainda quando políticos se esquecem de que poderiam, ao menos, pensar no país em primeiro lugar e ter como meta alguma imagem de estadista — mesmo como simples modelo remoto.

Precisamos interromper esse abandono da velha e boa conversa, agora substituída por agressões e ameaças. Não querer impor nossa visão. Ouvir os argumentos alheios. E, se não nos convencem, argumentar de volta, em vez de desqualificar o outro. Mais razão e menos paixão.

Sabemos que, ao se eleger por pequena diferença, a presidente não fez o gesto de estender a mão aos adversários. Mas também o adversário, que elegantemente soube reconhecer a derrota e cumprimentar a vencedora, em pouco tempo estava mudando, em busca de atalhos fáceis (como sugestões de recontagem de votos e alianças diabólicas em busca de impeachment). Foi uma pena não ter se mantido fiel a sua promessa inicial após a eleição — a ideia de que a oposição iria constituir um shadow cabinet e que esses especialistas, ministros na sombra, produziriam um projeto alternativo para o país, enquanto não chegasse sua hora de ocupar o poder. Teria sido útil.

Quem acabou propondo possíveis saídas, com “Uma ponte para o futuro”, foi o PMDB, da base aliada. Sua Excelência, o Fato, traz a lógica ao debate. E algumas reformas estruturais inevitáveis, como idade mínima para a aposentadoria, o fim de privilégios inaceitáveis na área de pensões e flexibilização de regras trabalhistas vão aos poucos sendo ventiladas pelo próprio governo — que chega a admitir erros, pela boca do ministro da Casa Civil. Agora até mesmo a presidente reconheceu que não soube avaliar as consequências de sua política econômica. Antes tarde do que nunca.

Pode-se, por exemplo, debater o parlamentarismo, tema levantado logo no início da crise por Eduardo Jorge, do PV, e, em seguida, mantido em foco por políticos de um espectro variado, de José Serra a Roberto Freire, passando por formas híbridas de semipresidencialismo e semiparlamentarismo, lembradas por outros. Não para mudar as regras no meio do jogo e reduzir os poderes de alguém eleito segundo outro modelo. Mas para o futuro, a fim de que o assunto deixe de ser tabu ou remédio mágico, lembrado apenas quando se evidencia que o sistema de pesos e contrapesos não está funcionando a contento e faz falta a garantia constitucional de uma função moderadora.

E no plano pessoal, em vez de hostilidade e ameaça de olho por olho, ainda é bom ouvir Chico: “Olhos nos olhos quero ver o que você diz”.

O Globo, 09/01/2016

Antônio Torres e a alegria


Três excelente surpresas, vamos lá!


Quem me conhece sabe que o meu escritor brasileiro contemporâneo favorito é Antônio Torres. Era apaixonada por sua escritura muito antes de saber com detalhes quem era a pessoa por trás de “Essa Terra“. E acredite, a pessoa é grande como a sua obra. Não é à toa que tornou- se imortal!

Felicidade para mim é livro bom. Literatura salva de um monte de coisas, sabe? Felicidade dupla é ficar em uma fila e ter um livro autografado por um grande autor. Felicidade que ainda não tem nome é receber pelo correio, do próprio autor que você adora, uma obra autografada. Quem gosta de livro me entende, não é?!

E a alegria chegou muitas vezes através do meu queridíssimo Antônio Torres, que já me enviou  lá da linda Petrópolis (RJ) os livros: “Um táxi para Viena d’Áustria“, “Pelo fundo da  agulha”, o PDF de “Sobre pessoas” (resenha em breve).

E essa maravilha de hoje, surpresa número um! O último livro de Antônio Torres “O centro das nossas desatenções”, que originalmente foi publicado em 1996. E agora em 2015, ganhou uma nova edição caprichada e cheia de gravuras, editada pela Record (resenha em breve). Foi uma edição comemorativa dos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro. O lançamento foi bem legal, teve uma caminhada temática guiada pelo prof. João Baptista Ferreira de Mello pelas ruas do centro e no final, mestre Antônio fez uma sessão de autógrafos. Veja o vídeo onde o autor explica sobre a obra.

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A orelha:

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Apaixonado pelo Rio de Janeiro, o baiano Antônio Torres já transformou a cidade em personagem mais do que em cenário (…)

A contracapa:

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Um pouco da bio e bibliografia. Antônio Torres ocupa a mesma cadeira que Machado de Assis. Ilustríssimos!

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Surpresa número dois! Meu querido e amado escritor também enviou- me o seu discurso de posse da Academia Brasileira de Letras e com resposta da melhor escritora brasileira de todos os tempos que o Brasil já teve, Nélida Piñón! Sou ou não sou uma privilegiada?! Veja:

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Agora só vou mostrar a capa e a folha de rosto, depois vou ler tudo com cuidado e contar para vocês, é a primeira vez que tenho um discurso original da ABL nas mãos! Uhuuuu! Isso é muito especial!

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Terceira surpresa!

Há algum tempo, Beth Almeida, a editora- adjunta do Jornal de Letras, publicação impressa sobre literatura com sede no Rio de Janeiro, cujo diretor responsável é o imortal da ABL Arnaldo Niskier, entrou em contato dizendo que queria publicar a resenha sobre “Pelo fundo da agulha”,  livro maravilhoso do mestre Antônio Torres. Claro que sim, encantada! Passou o tempo e eu não soube nada da publicação (eu moro do outro lado do Atlântico, para quem não sabe). E quem escreve para me contar que viu o artigo no jornal?! O próprio Antônio Torres! Eis aqui na mão, enviado pelo meu querido escritor, como sempre gentilíssimo. Número 198, mês de fevereiro/2015:

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A capa do jornal, com o popular sambista Martinho da Vila (76 anos, não parece de jeito nenhum!), mas que muita gente não sabe, é um escritor com 13 obras publicadas e tomou posse na Academia Carioca de Letras. Parabéns, Martinho! Sua obra já está na minha lista.

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As alegrias que a Literatura traz. Um post todo em superlativo!


Agora vou fazer como o mestre Antônio (que costuma agradecer assim): obrigada, obrigadíssima, merci, thank you, gracias, grata pelos presentes, pela atenção e por fazer tão feliz essa que vos fala. Antônio Torres é sinônimo de alegria!

Obrigada também ao ilustre Arnaldo Niskier e à gentil Beth Almeida pela oportunidade.

A ABL é branca e masculina desde 1897


Pesquisando a história da Academia Brasileira de Letras, constatei o seguinte:

  • Dos 288 acadêmicos da ABL em toda a sua história, não existe UM negro, só alguns poucos mestiços, que para o padrão brasileiro nem são considerados negros. Índio nenhum, zero.
  • Dos 288 acadêmicos da ABL  de toda a sua história, só ingressaram 8 mulheres.
  • Dos 288 acadêmicos e acadêmicas da ABL, não existe, nunca existiu UMA ÚNICA mulher negra ou índia.

Estatuto da ABL:

Art. 2º – Só podem ser membros efetivos da Academia os brasileiros que tenham, em qualquer dos gêneros de literatura, publicado obras de reconhecido mérito ou, fora desses gêneros, livro de valor literário.
As mesmas condições, menos a de nacionalidade, exigem-se para os membros correspondentes.

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Academia Brasileira de Letras no Rio de Janeiro

A acadêmica Rosiska Darcy de Oliveira, que tem uma vasta obra feminista, sobre direitos humanos e igualdade, poderia começar pela própria casa e fazer uma campanha interna em prol do que defende, do que defendemos.

A Academia Brasileira de Letras é uma instituição privada, que tem a missão de fomentar as Letras e a Literatura no país. Querendo ou não, acaba tendo uma função social, mesmo porquê, seus membros escrevem sobre essas questões, ficção ou não. A Academia dá prestígio e visibilidade, além de aumentar a renda dos seus membros segundo este artigo de 2010. Não está escrito nos seus estatutos, mas não estaria mal que dessem exemplo de igualdade de gênero e racial, já que o nosso país é assim, mestiço (como seu membro fundador, aí mora a ironia). Quando os brasileiros de origem africana entrarão na Academia?

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Os primeiros membros, nenhum africano, mas era outra época, o Brasil havia acabado (oficialmente) com a escravidão há pouco tempo, os negros estavam ainda nas senzalas e nas cozinhas. Mas, e agora?! De pé: Rodolfo Amoedo, Artur Azevedo, Inglês de Sousa, Bilac, Veríssimo, Bandeira, Filinto de Almeida, Passos, Magalhães, Bernardelli, Rodrigo Octavio, Peixoto; sentados: João Ribeiro, Machado de Assis, Lúcio de Mendonça e Silva Ramos (nem todos na foto foram membros da ABL).

Será que no Brasil não existem escritoras e escritores negros e índios? Estamos em 2015 e a Academia não deve comportar- se como a época da sua fundação, quando a monarquia dava o tom das ações e condutas, mesmo quando já era república e os africanos e descendentes não tinham acesso à escolarização. A Academia deveria representar a sociedade atual, em suas várias cores, valores e gêneros de nossos intelectuais brasileiros, isso não alteraria a tradição e nem os princípios da Academia, só a traria para o século XXI. Fosse hoje, Machado faria assim, talvez nem imitasse a Academia Francesa, será? Talvez estivesse numa mesa de bar cantando com Zeca Pagodinho ou Martinho da Vila que, coitado, ficou “chateadinho”, por não ter recebido um único voto para ingressar na ABL.

Talvez Machado estivesse trazendo aos olhos do grande público, a obra da mineira Conceição Evaristo, que saiu da favela e chegou até o Salão do Livro de Paris  desse ano. A própria autora sentiu- se como uma “fruta rara”. Sentiu olhares de estranhamento. Que pena, não é? Ela é uma escritora brasileira, o Brasil, a ABL, todos os cidadãos deveriam tratar melhor seus talentos (se os de casa não tratam, os de fora vão tratar?!). Conceição cita outras escritoras que não têm o devido reconhecimento : Geni Guimarães, Mira Alves, Lia Vieira e Ana Maria Gonçalves. Todas entrarão para a minha lista de leituras.

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A escritora Conceição Evaristo, que esteve no Salão do Livro 2015

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A escritora Ana Maria Gonçalves

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A escritora Geni Guimarães em uma foto muito significativa

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A escritora Lia Vieira

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Mira Alves, escritora e artista plástica

Sinto- me envergonhada por ainda não conhecer essas escritoras, mas outros deveriam estar envergonhados também. Sempre é bom rever conceitos e perceber o que é realmente importante.

A ABL é racista, machista e elitista. Darei minha cara à tapa no dia que os acadêmicos aceitarem para a “imortalidade” uma ex- favelada.

Resenha: “Pelo fundo da agulha” de Antônio Torres


Pelo fundo da agulha (1ª edição em 2006, 4ª edição em 2014) é o terceiro livro da trilogia junto com Essa Terra e O cachorro e o lobo. A saga de Totonhim continua, o nordestino que foi embora para São Paulo aos 20 anos. Antes de ir embora ele viu o suicídio do irmão Nelo na terra natal de ambos. Foi um dos motivos que o fez ir embora. A mãe enlouqueceu e foi internada num hospício em Alagoinhas; o pai em Feira de Santana, cada um para um lado. Totonhim rumo a São Paulo.

– O juízo da gente é assim como aquela linha fininha, que as costureiras enfiam no fundo da agulha. Quando se rompe, fica difícil de fazer remendo. (p.99)

O protagonista de Pelo fundo da agulha é casado, trabalha no Banco do Brasil e é pai de Rodrigo e Marcelinho, ele conta histórias aos filhos antes de dormir, viaja à Paris “em suaves prestações”, foi assaltado em Barbesse. Visita o túmulo de Oscar Wilde e vira flâneur pelas ruas onde pisava Charles Baudelaire. Conversa com o taxista filho de imigrantes armênios, francês, mas considerado cidadão de segunda categoria. Nosso viajante fala francês, portanto. Faz “turismo fúnebre”, interessa- lhe os epitáfios, visita o túmulo de Balzac no Père- Lachaise. E na despedida, o taxista lamenta por seus pais não terem imigrado ao Brasil, aonde os filhos de armênios tornam- se cidadãos de êxito. E agora vem a genialidade narrativa do autor, que arremata com essa frase que condensa todo um sentimento universal e inerente na maioria dos seres humanos: – Aonde quer que você for, vai encontrar alguém com um lugar de sonhos. (p. 30)

Totonhim viaja. A menininha moradora no extremo norte do país estuda na Guiana Francesa para aprender francês e um dia ir morar em Paris.

O desejo era o seu passaporte, ele pensaria. Não, não teria coragem de cortar- lhe as asas, com advertências inúteis: “Assim como os rios, as mais sedutoras cidades do mundo têm suas margens. Você pode estar destinada a cair na pior delas.” (p. 33)

(…) Corre menina, corre. O mundo ficou tão pequeno quanto o fundo de uma agulha. Grande é o teu sonho de criança. (p. 34)

Na página 88 existe uma descrição perfeita do motivo que fazia (e ainda faz) muitos brasileiros do interior escaparem para as grandes cidades do Brasil ou do exterior. Não vou contar, leia. 🙂

A linguagem é contemporânea e o tempo não é lineal, a narrativa acontece em épocas diferentes e em lugares diferentes.  Totonhim jovem empreendendo sua grande aventura na cidade grande e maduro, já na época das memórias. O narrador é onisciente seletivo, vê tudo, sabe de tudo, sabe o que sente o personagem, opina. Essa obra é menos descritiva que as duas primeiras da trilogia, o mundo psicológico é mais intenso, há mais divagações sobre temas variados, como pequenas histórias dentro da história. Viagens, leituras, cinema, música. O tempo vai e volta, o protagonista agora é viúvo e está só. Os filhos crescidos estão pelo mundo. O narrador joga magistralmente com a forma trágica da morte da esposa do protagonista, baleada aos 50 anos pelas costas quando fugia de um assalto. “Mais parece uma colagem de alguma matéria de jornal” (p.62) e o narrador revela o pensamento mentiroso do protagonista que aumentou a idade da mulher e revela, que na verdade, está separado, a mulher não está morta. Criativa essa forma de narrar! O narrador refere- se a “Totonhim” (de Antão, não Antônio como eu pensava) como “senhor”. Filho de Antão.

O tema da terceira idade é tocado sem panos- quentes. É ruim envelhecer pelo lado biológico, a perda de vitalidade e cabelos, as marcas do tempo, as constantes idas ao médico, os exames. A aposentadoria que mata. O taxista da Praça da Sé com 70 anos. Aposentado há 25 anos, o táxi o livrou de uma depressão. – Aposentadoria mata, meu chefe. (p. 62)

E a narrativa volta ao Junco, cidadezinha na Bahia onde Nelo, o primogênito, se enforcou. A mãe enlouqueceu, mas recuperou a sanidade e passa a linha pelo fundo da agulha sem óculos. Totonhim a reencontrou com 75 anos (em O cachorro e o lobo), mas e agora? Os pais estariam vivos?

A viagem de ônibus pau-de-arara da Bahia à cidade de São Paulo é dura, interminável, cheia de incomodidades e dormências, mas também cheia de esperanças e saudades. O espanto da chegada, o formigueiro humano que é a estação de ônibus em São Paulo. A solidão. Todos estão sozinhos. Essa parte emotiva da narrativa rumo ao desconhecido começa na página 91. Eu já fiz essa viagem algumas vezes na minha infância e revivi tudo com a narrativa do mestre Antônio. É assim mesmo, tudo verdade.

Lembra quando “antigamente” existia o vendedor de enciclopédias que ia de porta em porta? E as portas se abriam, sem medo?! Sim, essa profissão existiu no Brasil e foi a primeira (e efêmera) profissão de Totonhim em São Paulo. A narrativa da chegada quebra o estereótipo de uma cidade de São Paulo fria e impessoal.

Já leu “Paulicéia desvairada”, de Mário de Andrade? Um dos autores que Totonhim anotou mentalmente quando passou na biblioteca pública municipal Mário de Andrade. Quer ler grátis? Clica aqui.

Há o preconceito no sudeste contra o nordestino? O Brasil é um país racista ( sempre e ainda)? Basta ler os jornais ou acompanhar as redes sociais que você vai encontrar a resposta, embora os casos rotineiros não saiam nas notícias, são dolorosos igualmente. Esse tipo de obra deve servir como reflexão, auto- análise. O preconceito surge por causa do desconhecimento. De todas as formas,  Totonhim teve uma melhor sorte que Nelo.

A trilogia fecha com chave- de- ouro, “Pelo fundo da agulha” termina  a colcha de retalhos, o quebra- cabeça. Nesse livro são citados quatro suicídios, é um tema recorrente na trilogia. As sagas e dores familiares, essas, as que mais açoitam (na ficção ou na vida).

– Não se mate pelo que acha que deixou de fazer por sua mãe, seu pai, seus irmãos, mulher, filhos, o país, tudo. E, principalmente, por você mesmo. Ou pelo menos que deixaram de lhe fazer. Nem por isso o mundo acabou. Abrace- se sem rancor. Depois, durma. E quando despertar, cante. Por ainda estar vivo. (p.218)

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A minha admiração e homenagem a todos os nordestinos e nortistas que tiveram a coragem de sair das suas cidades/povoados para tentar uma “vida melhor”, normalmente em condições adversas e sem dinheiro. A minha raiz materna, migrante, baiana, nordestina, em especial.

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Abaixo a obra autografada de um dos maiores (senão o maior!) romancista brasileiro da atualidade: Antônio Torres, membro da Academia Brasileira de Letras, membro da Academia Baiana de Letras, premiado e reconhecido no Brasil e no exterior, além de ser uma pessoa gentil e atenciosa com seus leitores.

1925134_479942558795858_1072622277_nAntônio Torres passeando em Curitiba (março, 2014- Facebook do escritor)

A obra:1459657_390445414444358_858928499870928319_n Anoitecia. Lá se fora a Ladeira Grande. Adeus, Junco. Junco: assim se divulgava o nome daquele lugar, que o ônibus ia deixando para trás. Cada vez mais. (p.109)1975018_390445474444352_2332868841897949283_n

(…) e assim adormece, com o coração mais leve, se sentirá um camelo capaz de passar pelo fundo de uma agulha. (p.218)10888948_390445454444354_2860213318269584587_nTorres, Antônio. Pelo fundo da agulha, Record, São Paulo, 2014. 220 páginas

Já curtiu a Fan page de Antônio Torres? Clica aqui.

O site oficial do escritor, aqui.

O perfil pessoal no Facebook, aqui.

Página no Falando em Literatura dedicado ao escritor, clica aqui. 

Veja o perfil de Antônio Torres na Academia Brasileira de Letras.

Você pode comprar toda a obra de Antônio Torres em papel ou e-book nas melhores livrarias do Brasil, clica aqui

Está quase no fim do ano, mas espero voltar aqui ainda com mais uma resenha. Até a próxima!

Resenha: Matéria de Rascunho, de Eduardo Tornaghi


E a alegria chega sempre em forma de livro. Dessa vez do poeta e ator Eduardo Tornaghi, “Matéria de Rascunho”, LIVRAÇO! Comecei a folhear e só parei no fim. E na apresentação (p. 9) ele fala sobre a necessidade da arte ser exposta, escrever para ninguém ler não faz sentido, assim como a interação ator- público, a poesia também deve ser vista, lida, conhecida, cantada:

A expressão é uma necessidade básica do ser humano, tal como beber ou respirar. mas só se completa no outro. O palco me ensinou que só podemos nos conhecer por completo, ouvindo a reação do público. Metade da coisa é você se perceber, a outra metade é aceitar o como os outros te percebem.

E no envelope, a mensagem de Eduardo muito apropriada para os tempos que vivemos:

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Então, vou apresentar o “Currículo” (p. 37) de Eduardo Tornaghi, um poema fantástico, que você também pode assistir recitado pelo autor/ator no seu canal do Youtube. Um primoroso poema tanto na forma como conteúdo:

Currículo- soneto sincopado

Já soquei tijolo já virei concreto
Já comi do bom e já passei sem teto
Já passei vazio ja sonhei repleto
Só me falta chorar para ser completo
Já banquei o bobo me julgando esperto
Já fechei a porta e inda restei aberto
Já comprei a banca- já fui objeto
Só me falta chorar para ser completo
Já plantei a dor tentando ser correto
Já tive razão mesmo sem estar certo
Já me fiz sublime- já fui abjeto
Já clamei por voz em um pleno deserto
Já me atrapalhei com tudo que é afeto
Só me falta chorar pra ser completo

https://www.youtube.com/watch?v=3LMp-OJTSGE&feature=youtu.be

A obra consta de 93 poemas (contei, não estão numerados) divididos em quatro capítulos, sendo que o último “E família (parte dela)” com a participação das filhas, do pai e outros, bem emotivo.

E mais um pouco da apresentação (p. 10). Totalmente de acordo:

Todo ser humano tem a obrigação de ser feliz. É pra isso que serve a poesia como toda arte. É mapa e veículo pra uma vida plena. Por isto esse livro é familiar. Meus pais nos ensinaram que todo mundo tem que praticar uma arte. Então, lá em casa, todo mundo experimentou todas. Cada um descobriu a sua, mas não deixou de brincar com as outras. Porque é bom e faz bem.

Eduardo Tornaghi faz um sarau poético, “Pelada poética”, toda quarta- feira no Rio de Janeiro, na praia do Leme, Quiosque Estrela da Luz, a partir das 19 horas. Esse livro você pode pedir direto com o autor no seu Facebook, vale a pena! Olha o meu:

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Obrigada, Eduardo, pela gentileza de enviar o livro e pela dedicatória. Além de talentoso e criativo, sua obra me fez refletir, possui uma espécie de humanismo clássico, ressaltando as qualidades humanas e responsabilizando o homem pela sua própria felicidade. Siga em frente e viva a poesia!

Ainda vou falar muito dos poemas do Eduardo, muita coisa boa!

Tornaghi, Eduardo. Matéria de Rascunho. 2ª edição, 00 Duplo Zero, Rio de Janeiro, 2011. 91 páginas

A literatura está de luto!


Esse mês de julho foi nefasto para a literatura brasileira!

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Não posso deixar de falar da partida da minha avó Nise no dia 16 de julho. Um mês triste, realmente…Força para todas as famílias!