Anna Muylaert: a maior cineasta brasileira da atualidade

Por Fernanda Sampaio Carneiro

O cenário não poderia ser melhor: uma livraria apinhada de livros sobre cinema, a Ocho y ½, com autógrafos de diretores de cinema como Pedro Almodóvar espalhados pelas paredes em uma mítica rua da cidade de Madri: a calle Martin de los Heros, onde alberga o passeio da fama com as estrelas do cinema espanhol pelas suas calçadas.

Foi nesse ambiente cheio de magia que conversamos com a cineasta Ana Luísa Machado da Silva Muylaert (São Paulo, 21/04/1964), no último dia 19 de junho, quando esteve na cidade para promover o filme “Que horas ela volta?”. Na Espanha, ganhou o nome de “Una segunda madre”, título também escolhido pela cineasta. Anna Muylaert, até essa data, ainda não tinha assistido a versão espanhola, “que traduzido não é a mesma coisa”, segundo ela. O filme é cheio de expressões muito brasileiras difíceis de serem traduzidas.

(foto: Amable González)

A cineasta não fala espanhol, mas entende tudo. Dispensou um intérprete ao contrário da imprensa espanhola, que precisou de tradutor, “vocês não entendem nada, eu entendo tudo”. Anna, que tem no sobrenome um advérbio de intensidade na língua espanhola, Muy(laert),  disse que é muito intensa como o seu próprio nome, “quando começo algo quero ir até o final”. Anna é mãe de dois filhos, o mais velho, José, músico (canta e toca blues) tal como o pai, André Abujamra (ex- marido de Anna, também ator, que atua nos seus filmes, filho do espetacular Antônio Abujamra falecido em abril de 2015). Anna agora é casada com Márcio de Souza.

Foi durante a infância do filho que começou a escrever contos em um escritório alugado ao lado de sua casa. Anna queria ser uma cineasta com identidade definida, procurava o seu estilo. “Não sabia ainda qual era”. Federico Fellini era um dos seus ídolos. Escreveu trinta contos, um deles, “A porta da cozinha”, deu origem ao filme “Que horas ela volta?”, classificado como “comédia dramática”. A figura da mãe tem importância fundamental na obra de Anna.

(foto: Amable González)

A história é a de Val (Regina Casé), uma pernambucana que está em São Paulo trabalhando na casa de uma família como babá há 13 anos. Deixou a filha no nordeste, não a viu crescer, cuida de Fabinho (Michel Joelsas), sente- se culpada, mas obedece com o estabelecido, uma lei invisível que impera no Brasil: uma espécie de casta, que vem desde o tempo do Brasil colonial. Empregada doméstica dorme no quarto dos fundos, come em mesa separada, não participa das atividades familiares, é uma servente onisciente. Ganha um salário mirrado para as intermináveis horas de trabalho e uma folga aos domingos, normalmente. E tanto empregada como empregador não percebem nada de errado. Chega a filha de Val, Jéssica (Camila Márdila) para desestruturar todos os esquemas. Ela não aceita as regras e não quer fazer parte do lado menos privilegiado, ela quer existir e os enfrenta de igual para igual, fala a mesma língua dos patrões. O casal, Carlos (Lourenço Mutarelli) e Barbara (Karine Teles), não leva muita fé na moça a princípio. Que acontece com o lado mais frágil começa a “invadir” o lado oposto?

(foto: Amable González)

“O Lula fez muita coisa boa, acabou com a fome. Também não conseguiu fazer muita coisa, porque 15 anos também não ia fazer milagre, mas eu acho que uma coisa ele conseguiu, foi mudar a auto- estima da população, a auto- imagem. Hoje o brasileiro se sente mais um cidadão do que antes.”

“Una segunda madre” teria um desfecho diferente do atual. A ideia original era mais “clichê”: a adolescente Jéssica iria para São Paulo ser cabeleireira, mas como ela era frágil, acabaria tornando- se babá. A mesma sina da mãe, como fatalmente aconteceria em outros tempos na realidade também. Anna inspirou- se em “O som ao redor” de Kleber Mendonça Filho, que é diferente de “Quando ela volta?”, têm tipos distintos de violência, mas funcionou. A cineasta ficou trancada em casa seis meses antes das filmagens, quase adoeceu tentando buscar um desfecho que tirasse a personagem da ordem estabelecida e mudasse o seu destino. E conseguiu. Jéssica saiu do nordeste para São Paulo, mas para ser estudante de Arquitetura.

 “Jéssica simboliza a nova geração, a geração que acredita em si, em detrimento da geração antiga que é a Val, que não só não acredita em si, mas como reza pela cartilha, pela bíblia, mais que os próprios patrões até.”

Anna Muylaert parece não acompanhar o que anda acontecendo no cinema americano. Disse não estar ciente sobre essa onda de remakes, como o recente “Poltergeist”, por exemplo. Perguntei: “Essa volta de filmes dos anos 80, é crise de originalidade ou saudosismo?”. Anna respondeu, “Não sei, nem sabia, nunca pensei sobre o assunto”. Possivelmente, ela goste de outro tipo de cinema menos comercial.

(foto: Amable González)

Citei um poema que está no seu livro infantil “Livro dos círculos” (não publicado, pode ser visto no site da cineasta: http://www.annamuylaert.com) “Tudo o que/se represa/se reprisa”. E também uma fala do personagem Max (Paulo Miklos, ator, além de ser da banda Titãs), no filme “É proibido fumar”, contracenando com Glória Pires (“Baby”, uma fumante viciada), que fala sobre o mesmo tema da repetição, da reprise, da estagnação ou retrocesso: “ Os anos 70 foram o futuro. Passaram 40 anos e o quê? O mundo voltou para trás, a gente está vivendo o passado de novo.” A estética retrô se faz presente tanto no filme “Durval Discos”, sobre “Durval” (Ary França) contracenando com a fantástica Etty Fraser ( a mãe “Carminha”, que saiu dos programas culinários para a tela de cinema), que vende discos de vinil em pleno boom do cd e também no “É proibido fumar”, onde prevalece a estética kitsh. O violão e o cigarro também são personagens. O roteiro é genial. Recomendo. Por certo: Anna não fuma.

Há dois anos, Anna deu uma entrevista ao Itaú Cultural dizendo que não ganhava dinheiro com os filmes, pois tudo ficava para a distribuidora. “Agora a coisa mudou”. Ela também é responsável pela distribuição junto com parceiros. Perguntei o porquê do lançamento no exterior antes que no Brasil. Muylaert mostrou-se reticente e deu um sorriso, daqueles que dizem mais pelo que calam. “Pois é”, os espanhóis a estão tratando bem.

Não está nervosa com a repercussão na Espanha, mas sim no Brasil, “pode provocar polêmica, o Brasil anda muito quadrado, de direita, não sei como irão reagir”. Anna Muylaert levou para o cinema uma verdade incômoda. Colocou um espelho na frente da sociedade brasileira.

A cineasta mora em São Paulo, “morei dois anos no Rio de Janeiro, mas não gostei”. Ela achou os cariocas muito fechados, não adaptou- se.

(foto: Amable González)

Anna Muylaert é formada pela ECA- Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo. Escreveu roteiros de “Mundo da lua” (1991), Castelo Rá-tim-bum (1995), da TV Cultura, “Um menino muito maluquinho (2006), da TVE, Filhos do Carnaval (2006), da HBO. Diretora e roteirista do curta “A origem dos bebês segundo Kiki Cavalcanti”, com Marisa Orth, que também atua nos seus longas. “Kiki” também é um nome reincidente. É poetisa, contista, diretora dos longas Durval Discos (2002), premiado no 30º Festival de cinema de Gramado e “É Proibido Fumar” (2009), além da série “As canalhas” (2013), do GNT. Sua última obra é o filme “Que horas ela volta?”, premiado com o Sundance nos Estados Unidos e o prêmio de melhor filme eleito pelo público no Festival de Berlim.

(foto: Amable González)

A cineasta desprende uma força invejável, mas vaidosa, preparou- se para as fotos, “deixa eu passar um batom”. Os hotéis sempre quebram as rotinas de beleza. Despediu- nos com um abraço. Uma mistura de força e leveza, técnica e intuição, roteiros bem construídos, regados à muita MPB, presente em toda a sua obra cinematográfica, a está conduzindo ao caminho de transformar- se na maior cineasta brasileira de todos os tempos, uma cineasta em ascensão.

Publicado originalmente em julho de 2015, na Revista BrazilcomZ (Espanha),

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