Resenha de filme: “Flores raras”, de Bruno Barreto

Este é um filme que gosto muito, pois traz uma história real de duas artistas. Produção brasileira, atores nacionais e estrangeiros: “Flores raras” (Brasil), do cineasta brasileiro Bruno Barreto (Rio de Janeiro, 16/03/1955), estreou no Brasil em 2013. Com quatro prêmios concedidos pela Academia Brasileira de Cinema, “Flores raras” é uma grande obra do cinema nacional: roteiro, fotografia, produção, trilha sonora e elenco de primeira grandeza, além de trazer um pouco da história do Brasil de 1951 a 1967. Poema que Bishop escreveu inspirado nos cabelos de Lota, “O banho de xampu”, recitado no filme:

No teu cabelo negro brilham estrelas
cadentes, arredias.
      Para onde irão elas
     tão cedo, resolutas?
    – Vem, deixa eu lavá-lo, aqui nesta bacia
    amassada e brilhante como a lua.

foto: Academia Brasileira de Cinema

A atriz brasileira Glória Pires (Rio de Janeiro, 23/08/1963) faz o personagem da arquiteta Lota de Macedo Soares (Paris, 16/03/1919- Nova York, 25/09/1967) e a atriz australiana Miranda Otto (Brisbane, 16/12/1967) no papel da poetisa americana Elisabeth Bishop (Worcester, 08/02/1911- Boston, 06/10/1979) ganhadora de um prêmio Pulitzer (1956) pelo livro “Norte e Sul” escrito no Brasil.

Esse é um filme baseado em fatos reais. Em 1951, Elisabeth Bishop teve uma crise criativa quando morava em Nova York, decidiu mudar de ares e viajou ao Rio de Janeiro por duas semanas à convite da amiga de universidade Mary Morse (americana, bailarina e de família adinheirada), que tinha uma relação amorosa (já desgastada) com Lota. Essa, arquiteta auto- didata (“já nasci arquiteta”) também vinha de uma família brasileira abastada, não tinha relação com o pai, pois esse não aceitava o seu estilo de vida. Lota era feminista e fazia coisas improváveis para a maioria das mulheres brasileiras na década de 50: dirigia, era independente, assumiu a sua homossexualidade, era socialista (tendo uma vida muito confortável nos padrões brasileiros, o que é raro), amiga do “vira- casaca” Carlos Lacerda, que era comunista e depois passou à oposição, inclusive apoiou o golpe militar. Foi quando ele era governador que Lota deu a ideia ao amigo da construção do Aterro do Flamengo, que foi posta em prática já que o cara visava ser presidente do Brasil e queria notoriedade. Lota foi excluída do projeto com a intervenção militar.

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Foto: Academia Brasileira de Cinema

Bishop acabou ficando direto quinze anos no Brasil. Amiga pessoal do escritor americano Robert Lowell (Boston, 1/03/1917 – Nova Iorque, 12/09/1977), ganhador também de dois Pulitzer (1947 e 1974, maior prêmio literário dos Estados Unidos), era ele quem criticava os seus poemas; ambos, com tendência ao alcoolismo. De fato, Lowell faleceu em decorrência de problemas ocasionados pela bebida e Bishop deteriorou sua relação com Lota em parte por causa do excesso de álcool, uma forma (errônea) que encontrou para matar a solidão. Ela tinha o pessimismo e a introversão muito marcados, elementos a fazia entrar num mundo particular, um estado profundo do ser, onde só os grandes poetas conseguem entrar. Bishop não conheceu seu pai e a sua mãe foi levada da casa familiar e internada num hospital psiquiátrico quando ela tinha cinco anos, nunca mais voltou a ver a sua mãe.

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Carlota, “Lota” de Macedo Soares, uma mulher admirável, muito à frente do seu tempo.

Lota e Bishop apaixonaram-se, eram polos opostos, Elizabeth tímida e muito reservada e Lota super extrovertida e sociável, complementavam- se. Decidiram ficar juntas, no entanto, Mary continuou morando com elas a pedido de Lota, inclusive adotaram uma criança (no filme só aparece uma, Clara, na vida real era Mônica, e foram adotadas mais quatro meninas). Lota fazia o papel de avó, Mary de mãe e Elizabeth de tia. A família  nada tradicional morava num sítio em Petrópolis, em Samambaia. A casa delas é  hoje considerada um clássico da arquitetura moderna brasileira (veja no link). Mas essa não foi a única, no final da relação foram morar em Minas Gerais:

20120211001817621914uElizabeth Bishop em sua casa em Ouro Preto, ela tinha uma biblioteca com livros do mundo todo. A casa foi vendida depois da morte de Lota.

Durante o filme o processo de criação da poeta é mostrado. Ela não gostava de ser interrompida, divagava, isolava- se. Lota construiu um estúdio belíssimo para o seu amor, implodiu um morro e era ali em Samambaia que Bishop escrevia; também num apartamento no Rio com vistas para o mar. A trilha sonora do filme é excelente, música brasileira e americana.

Lota saiu de uma clínica psiquiátrica depois de uma forte depressão causada pelo rompimento da relação com Elizabeth, que foi dar aulas na Universidade de Nova York, além da sua saída forçada do projeto do Aterro do Flamengo. Lota viajou até os Estados Unidos para encontrar Elizabeth (que já tinha outra relação) e suicidou- se ao descobrir esse fato. Na vida real, Elizabeth encontrou Lota caída na cozinha com um frasco de remédios na mão, quando voltou da escola onde dava aulas. Lota tinha a personalidade forte e dominadora, engoliu Elizabeth e a si própria.

O título “Lua no Brasil” faz referência à lua- cheia que as duas viram em Ouro Preto, cidade em que passaram um tempo juntas. Veja a casa de Elisabeth Bishop em Ouro Preto. A lua foi recriada em forma de um poste super alto no Aterro do Flamengo que tentou reproduzir o efeito da lua.

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Muitos poemas de Elizabeth Bishop falam sobre perda, ela vivenciou isso desde bebê. Já Lota estava acostumada a ganhar, era uma vencedora e as perdas a destruíram. O poema abaixo (belíssimo!) é lido por Bishop no filme ao amigo Robert Lowell:

A arte de perder (Elizabeth Bishop)

A arte de perder não é nenhum mistério

tantas coisas contém em si o acidente

de perdê- las, que perder não é nada sério.

Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,

a chave perdida, a hora gasta bestamente.

A arte de perder não é nenhum mistério.

Depois perca mais rápido, com mais critério:

lugares, nomes, a escala subsequente

Da viagem não feita. Nada disso é sério.

Perdi o relógio da mamãe. Ah, E nem quero.

Lembrar da perda de três casas excelentes.

A arte de perder não é nenhum mistério

Perdi duas cidades lindas

E um império.

Que era meu, dois rios

e mais um continente.

Tenho saudades dele,

mas não é um desastre.

Mesmo perder você

(a voz, o ar etéreo que eu amo)

não muda nada.Pois é evidente.

Que a arte de perder

Não chega a ser mistério

Por muito que pareça (escreve!)

Muito sério.

Blog_Beiramar_Flores_Raras_________________________________

Duração: 110 minutos.
Ano de Produção: 2012.
Produção: Lucy Barreto e Paula Barreto por LCBarreto e Filmes do Equador.
Distribuidora: Imagem Filmes.

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Glória Pires roubou o protagonismo da atriz australiana. Famosa mundialmente, a personagem de Elizabeth Bishop “deveria” ser a estrela, mas a personalidade, a força e coragem de Lota de Macedo Soares encarnada na Glorinha foram realmente os grandes destaques do filme. Elizabeth Bishop, um ano mais jovem que Lota, morreu de AVC doze anos depois de sua ex- mulher.

Veja o trailler:

Fica a dica de um bom filme nacional, prestigiem o nosso cinema!

Texto originalmente escrito para o meu blog “Palomitas”, hospedado no site da Revista BrazilcomZ (jan/2015).

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