O dia em que me tornei espanhola ou a fábrica de fazer espanhóis

Esta é uma das crônicas que ficaram nos rascunhos sem postar. Escrevi no dia 14 de novembro de 2019, depois da cerimônia de juramento da nacionalização espanhola. Eis:


Uma mulher multinacional, agora eu tenho três nacionalidades, além da permissão de trabalho inglesa, o NIN (National Insurance Number). A cerimônia de juramento ontem foi bem interessante. Eu fiquei na primeira fila, que ficou vazia, mesmo com a sala lotada de gente. Acho que ficaram com medo de serem os primeiros. Mas, como sou curiosa, e não queria perder nenhum detalhe, sentei na frente.

A minha foi a última “leva” de imigrantes que não exigiu nenhum teste de conhecimentos linguísticos e culturais. Eu dei entrada uns dias antes da lei mudar, foi puro acaso, nem sabia. Agora custa caro fazer um teste de espanhol no Instituto Cervantes e assistir aulas de conhecimentos gerais, fora o nervosismo de ter que responder perguntar na frente de um juiz ou juíza. 

Na pequena sala, com a bandeira da Espanha e uma foto do rei Felipe, havia mais de 100 pessoas. Juíza e assistente chegaram quase meia hora atrasadas e começaram nos dando uma bronca: deveríamos fazer silêncio absoluto com a ameaça de sermos expulsos da sala. Proibido vídeos e fotos, só depois da solenidade. Uma “acolhedora” boas-vindas, mas depois entendi. Muitos realmente eram mal educados e não paravam de falar, inclusive uma brasileira tagarela. A juíza teve que dar bronca umas três vezes.

A escrivã foi chamando nominalmente um a um, e logo foi aumentando o ritmo, de dois em dois, até de três em três, havia pressa. Lemos um pequeno texto em cima da mesa, escrito com letras garrafais à prova de míopes, prometendo lealdade ao rei, às leis e à Constituição. Parecia fábrica de fazer churros ou pão, rapidinho, nunca vi fazer espanhóis tão rápido. Pum, pum, pum…toma, 100 novos espanhóis em uma hora.

Havia novos espanhóis que não sabiam ler ou não sabiam espanhol, porque a juíza teve que ler pra eles. Nada demais, há espanhóis que também não sabem e nasceram aqui.

Alguns foram vestidos como se fossem a uma partida no campo de futebol do bairro ou como se estivessem no sofá de casa, não entenderam que era um momento solene. Deveria ser terminantemente proibido mulheres usarem aquelas malhas finas como se fossem calças. Sinto o impulso de dizer “Oi?! Você esqueceu de vestir a saia”. É o cúmulo do mau gosto, não é sensual, não é bonito, é um tipo de peça que me causa repugnância. 

Havia um jovem muito bem vestido com terno, gravata e sobretudo. Toni deu logo a nota, “é de Vox”. Ele reparou que o rapaz quase bateu continência à juíza e leu o discurso de memória, descartou o papel, ao contrário do resto. Era sul- americano. Esse fenômeno de sul- americanos neofascistas é chocante e estranho, mas é um fato. O Brasil está cheio deles. Mais estranho ainda, quando são do proletariado, alimentam e aplaudem seus algozes. 

Havia gente de todos os lugares. Os do Oriente Médio, russos e africanos tiveram que renunciar suas nacionalidades de origem. A juíza perguntava: “você tem consciência que deve renunciar sua nacionalidade de origem?”. Todos responderam que sim. Eu não seria capaz. Ter que renunciar o Brasil, simbolicamente, seria como deletar o meu passado, como me criei, tudo que aprendi e vivi. Tenho certeza que todos eles estavam com o coração apertado, mesmo os refugiados de guerra. 

O meu processo foi longo. Dei entrada em outubro de 2014 e a resolução favorável saiu este ano. Isto porque não interessava ao governo anterior de direita, um partido conservador e anti- imigração. “Direita” quer conservar o “direito” natural dos nativos e não incorporar forasteiros ao sistema. Pois, nestes novos tempos, a multiculturalidade é uma realidade necessária. Os fluxos de imigração vão como ondas. Os filhos de imigrantes europeus como eu, retornam às suas terras ancestrais. 

A quem pertence uma terra? Um dia, europeus digladiaram- se para tomar, à força, estas terras que não eram suas. A Terra é de todos e de ninguém. Tomaram territórios, mataram, morreram, assim também no Brasil e em todo o mundo. No futuro, alguém pode reivindicá- las como suas e tomá- las para si. Nada é para sempre, nem as divisões territoriais, que tentam manter a todo custo, por isto existem os exércitos. E se um dia a África decidir que a Europa é sua? E se os Estados Unidos decidirem que o rico Brasil, desgovernado e corrupto, ficaria melhor como uma estrelinha a mais na sua bandeira? Enfim, viajei…mas ninguém sabe como estará o mundo daqui a 100 anos (ou menos).

A força maniqueísta imigração x anti- imigração é um fato. O Brexit que o diga. O fato é que estou aqui na Europa com o coração mais brasileiro do que nunca, mas com dois passaportes europeus. O português, meu sangue, minhas raízes; o espanhol, pela vida, o tempo. 

O que fazer com isto? O que a Fernanda vai ganhar ou perder sendo nacional destes países? Não tenho nenhum precedente. Ninguém da minha família possui três nacionalidades. O fato é que tenho muita notícia para acompanhar, eleições, renovação de passaportes (muita grana! e o mais caro é o brasileiro, novidade! Portugal fica em segundo lugar e o espanhol super barato). E preocupação, principalmente com o Brasil.

Update: 11 de junho de 2020- Psicologicamente, a mudança de status de imigrante para nacional mudou um pouco: sinto- me mais confiante e ousada. Ter os mesmos direitos (e obrigações) te integra mais, te faz mais responsável com as coisas nacionais. O que é uma vantagem para o país. Na prática, pensar que não tenho que ir mais na imensa fila de imigrantes para renovar o NIE, ajuda. Em dezembro, tirei o passaporte e o DNI (Documento Nacional de Identificação), com hora marcada, sem fila, não esperei nada. Por que não tratam igual os imigrantes? Por que fazem questão que nos sintamos diferentes, cidadãos inferiores? Não é justo.

O rei, eu e a bandeira, no dia em que nasceu mais uma espanhola, aos 47 anos, em Madri, 13/11/2019.

Com nacionalidade ou não, jamais me esquecerei que sou imigrante. Do mundo, inclusive. Respeitar e amar as raízes, mas não enforcar- se com elas. O ser humano nasceu para explorar, conhecer, movimentar- se. Quero embarcar em todos os trens que a vida me permitir, sem medo, até o final. Minha alma nômade agradece.

“Vamos fugir”, Skank

6 comentários sobre “O dia em que me tornei espanhola ou a fábrica de fazer espanhóis

  1. Olá Fernanda, pelo fato de ambos os países fazerem parte da comunidade europeia a nacionalidade portuguesa não era suficiente para morar na Espanha?
    Abraço

    Curtido por 1 pessoa

    1. Olá, tudo bem? Sim, para morar sim…eu já tinha a nacionalidade portuguesa há muitos anos, só que tinha o NIE (número de identificação de estrangeiros). Todo imigrante, seja da União ou não, tem que ter este documento. E não podia votar para presidente na Espanha. A nacionalidade espanhola me deu esse direito.

      Curtir

      1. Para morar e trabalhar a nacionalidade portuguesa era suficiente, mas como você mora há vários anos na Espanha queria participar como cidadã. Compreendi agora. Beijo

        Curtido por 1 pessoa

  2. Muito interessante o texto. Sou descendente de portugueses (por parte materna) e grego (por parte paterna), porém não tenho a documentação paterna pois meu pai não me registrou. Algumas vezes penso em pesquisar, tentar encontrar ele ou a família e buscar documentação grega… Enfim, parabéns pela nova nacionalidade!
    Abraços!

    Curtido por 1 pessoa

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.