A boba da corte

Jussara*, a menina que saiu do subúrbio de São Paulo, agora mora num reino europeu, quer dizer, morava. Ontem, Jussara pegou um voo de repatriação pago pelo consulado brasileiro depois de 15 anos tentando o “sonho europeu”.

Religiosamente, Jussara enviava dinheiro todos os meses à família no Brasil: mãe dona-de-casa, pai feirante e mais três irmãos estudantes. Não lhes deixava faltar nada. A sina de muitos imigrantes é carregar a família nas costas. A família acostumou- se, já nem agradecia e até reclamava, achava pouco. Cobravam uma espécie de dívida por Jussara ter ido embora viver numa “situação melhor que a deles”. Além do dinheiro mensal, vinham muitos pedidos extras:

“– Seu pai precisa de óculos novos.”

“– Sua mãe tem que trocar a dentadura, minha filha.”

“– Jenivaldo precisa pagar a auto- escola.”

“–Jacira quer fazer festa de 15 anos.”

E os pedidos sobrecarregavam Jussara, que, culpada por ter deixado a família, sacrificava- se, de segunda a domingo, limpando casas, escritórios, prédios, cozinhando quitutes brasileiros para vender à comunidade brasileira e cuidando de crianças e idosos.

Não conseguia juntar nada para si depois de mandar o dinheiro à família, pagar o aluguel do quarto que vivia num apartamento compartilhado no subúrbio e as despesas com alimentação e transporte.

Sozinha, nunca contava seus problemas à família, pois não queria preocupar os pais, fora que não estavam mesmo interessados em ouvir problemas. A filha no país estrangeiro foi ficando cada vez mais distante e menos presente nas conversas da família, só lembrada se houvesse algum atraso no pagamento mensal.

Os irmãos menores cresceram, formaram- se, casaram e saíram de casa. Nenhum ajudou os pais, mas Jussara continuou enviando o dinheiro.

Veio a crise do Covid-19, a pandemia mundial, e Jussara perdeu os três empregos e deixou de enviar o dinheiro durante dois meses. Jussara já não pode pagar mais o quarto, nem comprar comida, e teve que ir pra rua. Dormiu um dia num albergue de indigentes e depois conseguiu um abrigo no sofá da casa de uma amiga.

Jussara não tinha dinheiro para comprar a passagem de volta ao Brasil. Quando contou a sua situação e pretensão de voltar para a casa dos seus pais, estes se mostraram nada receptivos:

“– Ah, mas aqui não tem lugar, cuidamos dos netos e seus irmãos voltaram pra casa, estão desempregados, não temos condições de sustentar tanta gente!”

“– Mas e o dinheiro da passagem, podem me enviar?”

Ouviu uma risada sonora.

“– Mas, o que você ficou fazendo aí durante 15 anos?! Não juntou nada?!”.

Jussara, a boba da corte, pegou ontem o avião de repatriação pago pelo consulado do Brasil, o seu voo mais amargo. De volta ao Brasil depois de 15 anos, sem nada e direto para o sofá da casa de uma amiga.

Jussara, a boba da corte, descobriu que sua família a vinha matando durante 15 anos. E matou.

Esta história poderia ser ficção, mas foi assim, sem tirar nem pôr.

*O nome foi trocado para preservar a identidade da pessoa

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