Orides Fontela, a poetisa do inefável

Orides Fontela (São Paulo, 24/04/1940- Campos do Jordão, 02/11/1998 ), poeta, era a mistura energética da sensibilidade aguda, erudição e inteligência. Com uma personalidade marcante, complexa e enigmática, acreditava que a poesia não era “elitista, poesia é pra todo mundo”. Escrever foi uma espécie de salvação, já que como a própria disse “nada deu certo”* em sua vida….nem “amor, nem profissão, só resta o livro, às vezes nem isso”. E incompreendida, talvez, parece que alguns “amigos” não suportavam a sua intensidade.

Personalidade intensa e muito sincera, o que pode ter incomodado muita gente. Como nessa entrevista com o Jô:

Orides, professora primária, morreu muito pobre com a sua pequena pensão de aposentada. Ela tentava complementar com a escritura, mas sabemos que viver de escritura no Brasil é privilégio de muitos poucos. Tuberculosa, sozinha e sem dinheiro aos 58 anos e ainda deprimida, mas com uma absurda sensibilidade artística, não devidamente reconhecida.

Se fosse na Europa, teria sido a Dalí da poesia, mas no Brasil, já sabe…estavam mais preocupados se ela parecia estranha, por seu físico, com sua magreza e óculos “fundo de garrafa”. A aparência, o preconceito, destruindo o importante. Se ela fosse “complicada”, mas bonita, teria sido diferente? Não, não basta ter talento (mais que muitos dos que a criticaram depois de morta). É necessário “parecer” poeta, em um padrão estipulado por eles, além de ter que ser bem comportadinha…pois, para mim, Orides era bela e incrível, acho que outros é que precisam de óculos para curar a miopia. Ganhou um Jabuti em 1983 (um “milagre” com o perfil dela, às vezes a boa literatura vence). Orides foi traduzida em catalão:

Nascer mulher já é nascer com uma dificuldade adicional à vida, infelizmente. Uma poeta de grandeza maior que não pode exercer a sua arte com plenitude, pois estava preocupada o tempo todo com a sobrevivência, sem ajuda institucional, privada e acabou no ostracismo no final da vida. A aparência, as origens e influências, parece que também importa na literatura. Lamentável.

Viagem

Viajar
mas não
para

viajar
mas sem
onde

sem rota sem ciclo sem círculo
sem finalidade possível.

Viajar
e nem sequer sonhar-se
esta viagem.

Vamos ler Orides?!

*Perdi o link do vídeo com essas referências.

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