Antes que eu morra ou esqueça

Este foi o ano que pulamos a primavera. O calor chegou como um abraço na segunda quinzena de maio. Abrir a janela e sentir o mormaço no rosto, fez- me esquecer, por um momento, que só vi os meses de primavera pela janela. Janela esta, meu camarote sem sol, desde o dia 6 de maio. A rua? Um palco deserto. Foram 78 dias assistindo a vida pelas minhas três janelas com vistas “desprivilegiadas” para três ruas e para três paredes. Perdi todos os sóis, as nuvens, as estrelas, as luas. Nunca demore- se em um lugar onde não possa ver o céu.

Antes, os barulhentos madrilenhos, sempre lotando as ruas, colados, tão juntos, que na Calle Preciados pareciam uma única massa humana. Aos pares, em bandos ou solitários, apressados ou vagarosos, abraçados, irritados ou com um livro na mão, subindo ou descendo o metrô, com suas mil sacolas da Primark, Zara ou do El Corte Inglés, fizesse frio ou calor, com dinheiro ou sem dinheiro, a rua sempre foi o quintal do povo de Madri. Bares, restaurantes, cafeterias, parques, museus, filas, filas e mais filas, protestos da direita, esquerda, manifestações de sindicatos, os gritos, buzinas, os mimos, palhaços, mendigos e músicos callejeros, tudo virou fumaça.

Começaram a habitar as ruas os bichos originais, os donos da Terra: pavões, patos , cabras e javalis invadiram as ruas da cidade. Com a quarentena, a qualidade do ar de Madri melhorou quase 60%. Nós somos os vírus do planeta. A delinquência na cidade diminuiu 75%, mas o mal não descansa e houve roubos em farmácias. Máscaras valem ouro nesta “nova” velha sociedade que está sendo forjada agora.

Neste novo tempo, surgiu uma oferta de novos produtos, que exploram o medo e a necessidade. Plásticos para puxar portas e apertar botões de elevadores, esterelizadores de ar, sprays desinfetantes de todos os tipos, viseiras protetoras, máscaras cirúrgicas, higiênicas, ffp2, ffp3, álcool- gel, álcool 70º, luvas, óculos de acrílico, luz violeta anti- germes, trajes anti- vírus para festas e tantos outros produtos, úteis e inúteis, tudo a um toque de dedo para saciar as ânsias consumistas do mundo.

A tradição espanhola é não estocar comida. O povo, de um modo geral, sai todas as manhãs para comprar o almoço. E volta de tarde para comprar o pão. Impossível ficar sem a baguete quentinha que acompanha todas as refeições. Sair para jogar na loteria, sentar no terraço do café, passar na farmácia, no cabeleireiro, na banca de jornais, na Casa del Libro e o esporte preferido do espanhol: o bar. “Nada será como antes”, você pode pensar a priori. Mas o ser humano não tem memória. Começou o período de desconfinamento (nova incorporação linguística) , que na Espanha vai por fases. Em províncias menos afetadas, como a andaluza, já estão na fase 1. E as pessoas foram para os bares como se não houvesse amanhã. Pode não haver mesmo.

A rua e o silêncio. Madri deixou de ser Madri por dois meses. Março, abril… esconderam- se bufões, bêbados, trabalhadores, prostitutas, os vendedores da “Once” e desapareceram os vizinhos de sempre, os velhinhos quase centenários e suas bengalas. Com o lento desconfinamento em maio, procurei, aflita, os seus olhos por detrás de cada máscara.

Passamos a habitar em um episódio da série “Black Mirror”. A rua virou uma sociedade estranha e cheia de códigos. Mascarados, distanciados, a proibição de espirrar, tossir, abraçar, beijar, se reunir e nada de apertos de mão. Lenços de papel, álcool, compras esterilizadas, lavadas, pulverizadas com produtos químicos. O entregador da Amazon visto só pelo olho-mágico.

Nunca trabalhou- se tanto em casa. Todo objeto tocado parece uma ameaça. A família pode ser o transporte da doença. Limpeza de interruptores, puxadores, maçanetas, tudo que se toca coletivamente. E o chão nosso de cada dia esfregado, esterilizado e sapateado com um único sapato que jamais verá a rua. Este será o futuro por muito tempo. Nunca cozinhou- se tanto e às vezes mal, pela falta de algum ingrediente essencial. Penso na quantidade de indigestões, intoxicações e acidentes domésticos que devem ter acontecido nestes tempos confinados. Sem falar nas brigas, discussões e promessas de separação.

O medo de falhar provoca ansiedade, exageros, paranoias, insônia. Somos humanos. “Ihhhh…espirrou água da lavagem na minha boca”…”Caramba, entrei com o sapato da rua dois passos a mais da porta”, “será que o vento da rua pode trazer o vírus pela janela?”, “está bem limpo esse pacote de biscoito?”, “peguei no cabo da vassoura e esqueci de lavar a mão”, “vou morrer?!”, “não quero morrer sufocada no hospital”, “vou conseguir sair de casa algum dia?!”, “como estará meu colesterol sem minhas caminhadas diárias?”, “poderemos sair na rua sem medo algum dia?”. “E a vitaminha D?”.

A cada dado de morte que ia se acumulando, quase mil por dia em março, a cada sintoma próprio e alheio, alerta, medo, pânico. Os números começaram a ganhar feições, rostos conhecidos e desconhecidos, de famosos e anônimos. Familiar do marido e conhecidos em estado grave no hospital. Alguns salvaram- se, outos perderam a batalha. A consciência do vírus maléfico sufocando e nos interrompendo o sono. O medo de chegar notícias ruins.

Houve dificuldades para comprar, falta de produtos e chegaram ingredientes congelados estragados, frutas e pães esmagados, dos que antes eram os nossos supermercados de confiança. Carrefour, Hipercor e o Supermercado do El Corte Inglés (estes dois últimos enviaram carnes podres) jamais serão vistos como antes. Ponto positivo para La Sirena e Al Campo, tudo perfeito. Confiar no outro é essencial, mas deixei de confiar em tudo. Houve e há momentos de depressão, ansiedade, medo do presente e futuro. Há também a gratidão e o reconhecimento ao povo da saúde, entregadores, serviços essenciais, indústria e distribuição. Que faríamos sem eles?

Hoje, com mais de duas semanas de passeios permitidos por faixa- etária, foi o primeiro dia que saí na rua depois de 78 dias confinada. “Com que máscara sair?”. Escolhi uma cirúrgica por temor da ffp2 (a de maior proteção) não me deixar respirar pela ansiedade. Teoricamente, ninguém pode sair sem máscara na rua, obrigatória desde a última quarta- feira. Pensando na vitamina D e na intenção de vencer a possível agorafobia que começava a perceber, arrisquei um passeio pelo bairro. Minha rua é comercial, havia gente pululando por todas as partes, atletas de araque sem máscaras e algum que outro fora da lei.

Desviei de gente, mantive distância e dei um passeio curto. Não senti nada. Nem alegria, nem tristeza, nem medo, nem euforia…senti sim, apatia. Estou apática e um tanto quando amortecida e desesperançada. O mundo continuará o mesmo, cheio de idiotas, só que mascarados. Lembrei de Flávio Migliaccio, o ator de 85 anos que suicidou- se por desesperança. Perguntei- me: “o que eu espero do mundo, das pessoas?”. Não há nada o que esperar. Tudo continuará igual ou pior, mais triste, que feliz. O bem…por onde anda? O amor, cadê?

Sinto- me de novo capotando dentro daquele carro, no ano de 1996. Sete voltas costa abaixo num precipício, por uma falha na estrada, na altura de Jequié. A consciência é uma coisa séria, nunca a perco, em nenhuma situação. Rodas para cima perto do riacho de pedras, soltei- me do cinto, saí pela janela com o vidro quebrado. Subi a ribanceira carregando minha bolsa e uma mochila, olhei para trás e vi tudo destroçado. A tão sonhada e planejada viagem até a minha terra, São Paulo, tinha ficado em pedaços. Continuei a subir a trilha e vi vários olhos masculinos e atônitos a me perguntar do acostamento: “quem estava no carro, morreu?”. Surpresa, respondi: “não…eu estava no carro”. O meu acompanhante subiu atrás de mim, sem saber que a sua mão estava quebrada, carregando duas malas. Olhos arregalados e ninguém ofereceu- nos ajuda. Cheguei na estrada e um ônibus da Santana levou- nos até o posto da PRF, que levou- nos até o hospital. Os da estrada desceram e depenaram tudo, até os pneus. E o motorista da Santana que havia oferecido levar as malas até a garagem da Santana em Feira de Santana, o que fez? O que parecia um gesto de bondade foi por interesse financeiro. Pediu- nos dinheiro para que as malas fossem recuperadas. Depois disso, fiquei oca, oca, oca por dentro, como se a alma tivesse ido passear em outro lugar e o mundo tivesse perdido a graça. Olho hoje o ser humano com a mesma desconfiança, mas vai passar.

Vivi durante muitos anos com a sensação de murro no estômago. A mesma que sinto agora quando leio notícias sobre o Brasil, seu desgoverno e seus seguidores. Dói saber que amigos, familiares e conhecidos acreditam e apoiam o mal.

O “salve-se eu primeiro e o resto que se dane”, acabou com o mundo, com as famílias, com o amor, com a paz e com os valores nobres. Não percebem que o mundo é corrente circular? O mal feito volta ao ponto de partida? Por que é mais fácil ser ruim do que bom? Por que provocar sofrimento compensa mais que provocar alívio? Por que alimentar o ódio é melhor que aliar- se em prol do bem de todos? Por que desejar tanto o que te não te pertence? Por que colocar o dinheiro em primeiro lugar? Por que as religiões, principalmente uma, manipulam as pessoas para alimentar o mal e as pessoas acreditam que isto é bom? Nunca o nome de Deus foi usado tanto em vão.

O que você fez de bom nos últimos meses para ajudar alguém, que não seja em beneficio próprio? Por que custa tanto reconhecer os erros, pedir desculpas e reconduzir? Não percebeu ainda o quanto é frágil a vida e que estamos aqui só por uma rápida passagem? Quanto tempo mais vai durar seu ódio e rancor, os combustíveis do mal?

Todos os dias durante dois meses, às 20h, os madrilenhos saíram às janelas e terraços para aplaudir os trabalhadores da Saúde. Chorei no primeiro dia, emocionada. Com o passar dos dias, a prática chegou a provocar- me agonia e dor. Eu vi gente histérica, celebrando, cantando, como se de uma festa tratasse, o que me faz pensar que o ser humano desvirtua tudo. Depois começaram os panelaços, às 21h, contra o governo. Começaram fervorosos, hoje vejo só um velhinho batendo na lata. Pelo menos no meu bairro, parece não haver muita gente da ultra- direita e direita, os que incitaram este tipo de manifestação. Inclusive incitaram protestos na frente da casa do vice- presidente, carreatas em plena pandemia e com as aglomerações terminantemente proibidas. Aqui também temos descerebrados.

Para quem não sabe, a bandeira espanhola foi apropriada pela direita fascista da Espanha, como se este símbolo do país os pertencesse. Sempre que vejo uma estendida em alguma fachada, penso: “alli vive un facha!”, “Facha” significa gente de direita no pior sentido. Tal como a bandeira brasileira esta sendo mal utilizada pelos bolsonaristas. O verde e amarelo utilizado na sua forma mais triste, pejorativa e patética.

Um vírus é uma fatalidade, a maldade não, ela é cultivada com consciência. Se alguém ler este texto no futuro, daqui a 50 ou 100 anos, espero que a natureza tenha conseguido se recuperar de nós, que não haja injustiça social, que ninguém mais passe fome e que tenham chegado à conclusão que as guerras não compensam, que haja igualdade entre sexos, que o humano prevaleça sobre o financeiro, que não haja racismo, xenofobia, homofobia, que as instituições sejam confiáveis e profissionais, que a educação, saúde e moradia sejam dignas para todos. Soou ingênuo? Sim? Se concorda, então você é dos meus, acha que o mundo não tem solução enquanto o mal prevalecer. Por favor, Futuro, contradiga- me!

Enquanto a curva decresce na Espanha (56 falecidos ontem no país todo, somos 47 milhões), a curva sobe no Brasil, que já é o segundo país do mundo em número de casos, só atrás dos Estados Unidos. Já são mais de 330 mil doentes e um número incerto de mortes pela falta de testes e de um governo central para unificar a informação. Ainda assim, ontem foram contabilizados 1118 falecimentos no nosso país. Os prefeitos e governados estão fazendo um grande esforço contrários às ordens de Jair Bolsonaro, que anda sem máscara, sem distância social e sem quarentena. O presidente, por interesses mercantis, incita (e irá obrigar os governadores, tudo indica) a fazer uso de um remédio que já foi descartado no mundo devido à sua ineficácia comprovada cientificamente, já que seus efeitos colaterais podem ser mortais para muita gente.

Os efeitos de tais condutas do líder de um dos países mais populosos do Ocidente já estão sendo devastadores. A OMS anunciou que o Brasil é o epicentro do Covid- 19 no mundo. Sem dúvida, Jair Bolsonaro está sendo o maior obstáculo para conter o coronavírus no Brasil. Ele é o responsável direto por cada brasileiro que está caindo. E terá que responder por isto.

Apesar de Bolsonaro, o Brasil também sairá desta, tenho fé, graças aos esforços conjuntos da população, governadores e prefeitos. Confinamento, distanciamento e higiene, eis a fórmula.

Demorei para escrever, precisei processar tudo, precisei sentir-me menos ameaçada, precisei ver alguma luz, mas… antes que eu morra ou me esqueça (ambos são o mesmo), aqui está. Assim foi e está sendo viver a quarentena na Espanha neste 2020, o pior ano das nossas vidas.

A janela do meu vizinho da frente.

Ooooops, volta, volta! Achou que o texto iria acabar assim triste e desesperançado? Não! Há algo na vida que ninguém controla, o acaso, o mágico, as energias que governam o universo e que o homem não tem acesso. Há ainda a força do pensamento positivo, a vontade de mudar, o renascimento, as sementes do bem plantadas no subterrâneo das consciências e que podem explodir. A Terra gira, tudo pode mudar. Pode e vai, acredite, o improvável é o que temos de mais real.

Fernanda Sampaio Carneiro

Madrid, 23 de maio de 2020.

4 comentários

  1. Amei! Apesar de ser mais pessimista, de acreditar que nada irá mudar aconteça o que acontecer (já que nem depois da segunda guerra mundial as pessoas melhoraram), gostei muito do texto-desabafo.

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  2. Fernanda, que texto incrível! Conseguiu traduzir um sentimento universal nesses tempos estranhos de pandemia. Eu, confinada sozinha aqui em meu apartamento em São Paulo, já passei por várias estágios emocionais dos quais você tão bem citou. Estar longe de minha família, dos amigos, assistir aos noticiários e ver os números disparando em solo brasileiro, assistir ao teatro bizarro e repleto de vilania de nosso representante maior (no qual NÃO votei), observar tanta desigualdade social tem me tirado o sono. Mas luto contra todos esses sentimentos negativos porque – apesar de tudo e todos -, ainda acredito que sairemos dessa.
    Força para vocês da Espanha e força para nós, aqui em solo brasileiro. Fique bem!

    Curtido por 1 pessoa

    • Verdade, Roseli…são sentimentos comum a todas as pessoas que se importam com o outro e que têm consciência do perigo desta pandemia. De quem pensa, reflete, sente. Eu já pensei que estar numa pandemia pode ser uma vantagem… a convivência numa quarentena é complicadíssima. Se eu tiver ânimo vou escrever sobre isso..rsrsrs…obrigada pros visita e comentário. Força, também! Beijos

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