“Não esqueça a minha Caloi”

A bicicleta Caloi vermelha parecia que ia desmontar, tal a velocidade que eu descia a rua Manoel Ferreira Barbosa para fugir das mordidas dos cachorros. Eles ficavam na frente da casa “dos maloqueiros”, como eram conhecidos uns irmãos que moravam numa espécie de cortiço. Lembro especialmente de um que tinha o rosto queimado. Os rapazes da casa tinham fama de ladrões, mas sempre que passavam na porta da minha casa nos cumprimentavam amavelmente.

Na minha cabeça de 8 anos, ficava a contradição entre a figura de um malfeitor com o rosto deformado, que todos no bairro temiam e a pessoa doce que havia sofrido alguma fatalidade e que nos tratava sempre com um sorriso no rosto. A minha imaginação infantil flutuava entre as duas figuras e no final, achava legal manter essa cordial cumplicidade, até carinhosa, com um “bandido”; por certo, os feitos da má fama jamais foram confirmados.

O fato é que os cachorros não eram nada gentis. Eles corriam atrás da criançada, dos carros e das bicicletas. Era um desafio passar na porta dos Maloqueiros. E eu ia preparada. Na frente do rua do Jairo Ramos eu apertava os pedais o máximo que conseguia e pegava embalo na descida. Na frente do cruzamento, onde havia um bar, rezava para que não viesse algum carro e tivesse que brecar. E quando chegava na porta dos Maloqueiros, os pés já estavam em cima do guidão. O embalo ia até o final da rua e chegava na Avenida. O fato é que a minha Caloi foi uma grande companheira durante toda a minha infância. Não teve canto daquele Jardim Mangalot, que eu não tivesse desbravado com minha bicicleta.

Uma das frases que mais ouvia era, “deixa eu dar uma voltinha?!”. E eu deixava. E ficava sentada na guia da calçada esperando até a paciência esgotar.

Os paralamas da minha Caloi tremiam, “tá tá tá tá”…os parafusos estavam frouxos e eu nunca quis apertar. O barulho fazia parte do conjunto da obra. Aquele barulho anunciava a minha chegada. Isto, e as tiras de copos plásticos descartáveis que eu colocava nas varetas das rodas.

“Ganhar uma bicicleta de Natal” era o sonho de todo brasileirinho, o máximo que se podia querer. Eram caras e inacessíveis para muita gente. O Brasil sempre foi um país difícil. Meu pai, metalúrgico, fez muito sacrifício para comprar duas bicicletas, a minha e a da minha irmã que era marrom.

Uma vez, minha irmã levou na garupa minha prima e a mim até o “morrinho”, que nada mais era que um amontoado de terra num terreno baldio na nossa rua. A bicicleta deu um cavalo-de-pau involuntário e as três caíram da bicicleta. A prima e eu pulamos, mas minha irmã caiu de costas na terra. Havia por ali um caco- de- vidro que entrou nas suas costas, na altura dos rins. O corte foi grande. Corremos para casa e escondemos da mãe. Naquele tempo, o medo da bronca da mãe era maior que o medo do machucado. Fomos até o cozinha e enchemos a ferida com pó de café. Ouvimos alguém dizer que café curava feridas. O corte, que precisava ser devidamente esterilizado e inclusive ter levado algum ponto, milagrosamente, cicatrizou sem contratempos ou inflamações. A cicatriz ela tem até hoje.

Não sei o que foi da minha Caloi vermelha. Acho que meus pais venderam quando fomos para a Bahia. Eu queria muito achar uma foto da minha Caloi, mas não encontrei. Não sei se era a Ceci, não tinha cestinha e não era um vermelho vivo, era um vermelho mais claro. Acho que era anterior a 1980.

Os meninos usavam a Caloi 10, Berlineta, BMX ou a Monark Olé (aquelas com uma barra circular). As meninas ficavam com a Caloi Ceci ou a Monark. Eram as duas marcas que dominavam o mercado. A Caloi tinha aquele lema: “Não esqueça a minha Caloi”:

Ter crescido em Pirituba me fez forte. Aprendi a me virar sozinha e a ficar esperta, prever possíveis problemas e escapar deles, foi um laboratório pra vida. Ao mesmo tempo, aprendi a solidariedade e o companheirismo. Naquele tempo sim, “ninguém soltava a mão de ninguém”. Amigos eram para brincar e para as horas de dor. A gente sabia que podia contar uns com os outros. A gente dividia o lanche, defendia e apanhava por um amigo. Mexia com um, mexia com todos. Os anos 70-80 foram selvagens e ao mesmo tempo tinha a beleza da simplicidade e da nobreza de sentimentos, quase heróicos, “Stand by me”…

A rua foi uma excelente escola. Penso nas crianças de hoje que crescem em redomas de vidro, hiper- protegidas…creio que pode ser perigosa essa legião escondida atrás de computadores. Nos anos 70 e princípios dos 80, minha infância, a gente resolvia tudo cara a cara.

Foram tantas aventuras, que aos poucos irei contando. A minha infância foi, muito, muito feliz na periferia de São Paulo.

Agora, pergunto à Caloi: “Cadê a minha Caloi?!”. Não, vocês não “fabricam ciclistas”, vocês fabricam sonhos que começam na infância. E quarenta anos depois da minha primeira Caloi, para muitos brasileirinhos ainda é um sonho impossível. O modelo infantil mais barato para 9-12 anos custa R$ 789,00 e o mais caro chega a R$ 1319,00. O salário mínimo é de R$ 1039,00. A Caloi não é mais uma indústria brasileira, é canadense. Só que esqueceram que estão no Brasil.

Vocês da Caloi trabalham, direta ou indiretamente, com ferro e alumínio, recursos naturais e finitos na Terra, além da borracha, uma exploração bastante daninha em muitos sentidos. O custo para a natureza é altíssimo, portanto, deveriam ter a decência de vender bicicletas que todos os brasileiros pudessem comprar. Sugestão: um modelo low cost de, no máximo, R$ 200,00, de acordo com o salário e país que vocês exploram e que, inclusive, tem a maior quantidade de matéria- prima do planeta.

Cadê, cadê a nossa Caloi, Caloi?!

2 comentários sobre ““Não esqueça a minha Caloi”

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