Resenha: Literati, de Barry McCrea

“Literati” lembra “Illuminati”, a sociedade secreta do século XVII, a qual Goethe e outros “iluminados” fizeram parte. Foi a única dedução que fiz sobre o livro a priori, pois não sabia absolutamente nada sobre o autor e a obra, só tinha o título e a sinopse: “Parecia um inocente jogo literário e acabou tornando- se um intrigante e perigoso vício”.

“Ressuscitamos o cemitério do pensamento humano de todos os tempos” (p.82)

O autor, Barry McCrea (1974) é irlandês de Dublin, com uma formação acadêmica sólida na área de Letras. Doutor em Literatura Comparada pela Princeton e professor de literatura na Yale.

Barry MacCrea

Dá para conhecer bastante da cultura irlandesa nesta obra. Referências e influências claras de James Joyce, o autor de Ulisses é citado várias vezes. A forma como fala de Dublin, seus bairros, ruas e pubs, lembra muito seu conterrâneo mais ilustre (mais nos primeiros capítulos). Inclusive o livro serve como guia turístico, os lugares existem mesmo, como o pub Hogan´s na Georges Street, a discoteca/bar Ri- Ra (em 2016 parece que fundiu- se com outra discoteca “The Globe”), o O’Neill’s na Suffolk Street e o Gonzaga College, por exemplo, que é um colégio religioso para meninos.

Um dos pubs irlandeses citados na obra

McCrea cita Sandycove, onde fica a casa do protagonista em Dublin. Neste bairro está a Torre Martello, que na verdade é uma espécie de farol ao pé do mar e que funciona como hotel. Neste ambiente começa “Ulisses”. Mas, sobre este livro, eu volto com a minha nova visão e retratação em outro momento. Eu fiz uma resenha muito negativa há anos e estou relendo e revisando. Sim, eu mudo de opinião, o leitor é camaleônico, uma mesma obra pode ser muitas, tal como o humano, senão seríamos muros (há quem seja).

O protagonista, Niall Lenihan, estudante de Letras e escritor, tal como o autor da obra (deve ser o seu alter ego) era apaixonado pelo colega do Ensino Médio e forçou situações para estar perto do rapaz até tornar- se o seu melhor amigo. Depois para foi para a universidade, mora numa residência estudantil, conhece outra estudante, Fionnuala (primeira vez que vi este nome) e começa a frequentar pubs noturnos, principalmente o gay “George”. Essa parte achei bastante entediante, pareceu- me narrativa adolescente.

A questão dos sotaques me chamou bastante a atenção. O narrador- personagem sabe de que lugar e classe social é o dublinense de acordo com o seu sotaque. O falar pode ser motivo de discriminação, de rótulos, acontece muito em todo o mundo. O autor brinca com o sotaque de uma garçonete espanhola, que forçou o típico sotaque da região. Nota- se que o autor é da área de Letras.

No primeiro capítulo, o protagonista vai de bebedeira em bebedeira até o final do segundo capítulo, onde acontece a revelação do jogo literário, no dia seguinte de uma festa, enquanto o grupo de universitários recuperava- se da noitada:

O jogo literário

A ideia é bacana: o jogo literário “(…) é uma forma de adivinhação conhecida há milênios…os babilônios, os árabes, os hebreus, os egípcios, todos a utilizaram.”

Trata- se de pensar (ou dizer) uma pergunta e abrir um livro aleatoriamente. A resposta estará no parágrafo lido. Uma espécie de oráculo, uma forma de comunicação mística e também com a sincronicidade da vida. Fatos aparentemente aleatórios, mas que na verdade não são. Tudo que acontece tem uma causa, tudo está interligado. Tem gente que faz isto com a Bíblia.

Até aí é legal, só que o “clube de leitura” vai muito além disto, é organizado, parece uma seita. Os que estão num nível inferior não podem conhecer quem está no topo e há muito secretismo e proibições.

Vou lançar no Instagram a tag #jogododestino. Quem topa brincar? Participe lá no @falandoemliteratura! Irei fazer uma demonstração nos stories (amanhã, sábado). Será que vai dar certo? Vamos conseguir respostas para as perguntas?

Mas, cuidado: é só uma brincadeira, não leve a sério como levaram os personagens desta história. Nosso cérebro e emoções são complexos e capazes de fazer milhares de associações. A leitura estimula a criatividade e não vá realmente acreditar ou modificar algo importante, tomar decisões por causa deste jogo, porque é isto: é só um jogo.

Segundo eles, o jogo “destinos” traz à tona o que há de mais misterioso na vida, a comunicação com o mundo do além, abre um portal para receber sinais de outros mundos que não podemos ver. Um portal de comunicação com o além. John e Sarah fazem parte do jogo e Niall os segue, insiste, até ser aceito e começam uma sessão de “destinos” no apartamento de John.

Dessa vez o jogo literário consiste em cada um ler um trecho de três livros diferentes e depois fazer a leitura simultânea sem parar. A experiência fez Niall perder a consciência. As vozes viraram uma espécie de mantra frenético, o jogo provocou um efeito similar ao consumo de um narcótico.

Niall passa o livro todo correndo atrás de Pedro Virgomare, uma figura que aparece no início, lhe fala uma frase enigmática, que o manteve intrigado todo o tempo. Essa parte é bem aborrecida. Niall vê Pedro de longe, corre atrás pelas ruas de Dublin, mas o cara sempre desaparece.

Achei o personagem principal volúvel, egoísta, não me cativou. Sua vida resume- se em bebedeira, sexo ocasional e descartar pessoas que lhe ajudam. É um sujeito altamente influenciável e meio esquizofrênico. Desprezou e magoou sua amiga Fionnuala, quando esta indaga se ele está usando drogas, mas está na verdade intoxicado pelos sincronismos das leituras em grupo, cria uma espécie de paranoia. Não só Niall, mas também John e Sarah perdem tudo por causa desse jogo literário obsessivo. Niall também não dá muita importância à sua família, a Chris, um cara legal que ele tem um affair e vive dando bolo, seu amigo de colégio e por assim vai. Parece que as pessoas egoístas e irresponsáveis têm sorte, sempre acham quem as ajude quando precisam, mas são ingratos por natureza, reiteram no erro.

No início, achei o jogo interessante, mas depois a história enveredou por um caminho que não gostei. O autor profanou a arte da leitura, como se ler pudesse transformar- se em algo extremamente daninho. Mas, pensando bem…apesar da desagradável sensação, pode mesmo: leia sem parar, não durma, não cuide das coisas cotidianas, da família, estudo, emprego, amores, busque significados “tortos” em tudo o que ler, acredite neles e faça o que mandam. Ou seja, desvirtue o objeto, o livro, transforme- o em outra coisa… pronto, o monstro foi criado. Inclusive eles destruíam livros, colavam partes de livros diferentes formando outro, tipo um livro Frankenstein.

Esta é uma obra esquisita. Nunca terminei uma leitura com uma sensação tão grande de desconforto. O afã de conhecimento transformado em loucura, obsessão. E isso pode acontecer com qualquer coisa, qualquer ideia fixa, irracional, que o sujeito tome como verdadeira. Que desastre quando se dá uma utilidade que não é da própria natureza do objeto.

Este livro foi ruim como um vício: você sabe que está fazendo mal, mas não consegue deixar de ler. Tal como o protagonista, o estudante de Letras de 19 anos, que pensou entrar num clube literário e caiu numa armadilha. Eu só desejava que acabasse.

Não recomendo, nem deixo de recomendar. É um livro estranho, que me assustou um pouco, é chocante e labiríntico, provocou- me agonia ver o protagonista entrando num círculo de auto- destruição. A impressão que fiquei é que deve ter algo de auto- biográfico, possivelmente o autor viveu algo das situações narradas. Ou não…só ele sabe. Eu não consegui adivinhar o final, que foi sem graça , por sinal…

Ah, como citei, este livro é um ótimo guia de Dublin, talvez o que mais tenha gostado. Inclusive deixo aqui o link da RTE de Dublin para quem está estudando inglês, você pode ouvir e ver rádio, TV, notícias de Dublin ao vivo. Inclusive tem um artigo em “lifestyle” que diz que 50% da nossa felicidade é genética, 10% e 40% atividades que nós escolhemos. Temos 50% de chance de vencer o determinismo genético.

Abaixo a edição espanhola lida, da editora Destino:

Foto: Fernanda Sampaio

Próxima resenha: “O buda dos subúrbios”, de Hanif Kureishi, que começarei a ler hoje. Quero zerar a pilha de livros autografados, um desafio que coloquei para mim mesma. E você, o que está lendo?

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